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Empréstimos lingüísticos: passado e presente

 
Emmanoel dos Santos (UFRJ)
Edione Trindade de Azevedo (UFRJ)

A partir do momento em que a língua materna foi tomada pelos brasileiros como objeto de estudo, no que diz respeito aos empréstimos externos formou-se desde logo, não em desacordo com o que ocorria em Portugal, um grande quadro de rejeição, que, com maior ou menor intensidade, alcança os dias de hoje. Os nomes que o fenômeno do empréstimo recebeu então (empréstimo é termo mais recente) não seriam, com alguma exceção, necessariamente depreciativos, mas passaram a ser dentro dessa atmosfera de condenação. Assim, peregrinismo, estrangeirismo, neologismo de importação e outros, para não falar nos muitos nomes genéricos dados aos empréstimos internos, com conotação pejorativa inversamente proporcional ao prestígio do grupo social doador. Os rótulos genéricos dados ao neologismo de importação praticamente se referiam na época a um outro, específico, o galicismo. Assim, os galicismos, até que os anglicismos viessem ocupar seu lugar, estiveram na posição de objeto central dessa história de rejeição, maior ou menor, aos empréstimos.

O combate aos empréstimos, que eram então os galicismos, foi perdendo força ao longo dos anos. As palavras de Junqueira Freire, apresentadas no parágrafo anterior despertam a idéia de abertura e levam a outras, de Amadeu Amaral, já no primeiro quartel deste século. No prefácio à 2a. edição de O Dialeto Caipira Paulo Duarte escreve que Amadeu Amaral "aceitava os estrangeirismos necessários, que o momento da língua exigia", porque seria "uma ingenuidade pensar que se defende uma língua cerrando-lhe as portas a quaisquer novidades estrangeiras. Por isso, mantinha-as bem abertas, mas com o critério servindo de porteiro". Essa posição equilibrada já era a dominante na época, criando-se condições para que, já depois da 2a. Grande Guerra e com o domínio dos anglicismos, pudesse Celso Cunha escrever, sem despertar polêmicas, que para manter a unidade supranacional da língua portuguesa seria "sempre melhor um galicismo ou um anglicismo que nos una do que um purismo que nos separe".

Esse quadro mais amistoso em relação aos empréstimos não esconde, porém, a ação contrária dos puristas, nem deixa de exibir uma rejeição mais ampla. Sinais são, por exemplo, essas cartas de leitores para os jornais, protestanto contra o uso de anglicismos pela comunidade mais ampla e até pelo próprio jornal. Não é raro que a reação contra empréstimos esteja apoiada em crenças que não são verdadeiras. A crença, colhida em textos não exatamente de leigos, de que o discurso em português sobre cinema é necessariamente sobrecarregado de galicismos ou anglicismos, foi desmentida por pesquisa que há tempos realizamos Uma outra, desenvolvida mais recentemente por bolsistas da FAPERJ que integram o nosso grupo, confirmou que apenas as palavras filme e cinema eram indispensáveis para o discurso sobre cinema nos artigos que apareciam nos jornais. (O discurso na área das especialidades envolvidas na realização cinematográfica é outro, exibindo número muito maior de empréstimos)

De qualquer forma, não se pode falar em uma condenação geral. Os anglicismos são geralmente bem aceitos por certos segmentos de usuários jovens e até adotados como marca da variedade de grupos; estrangeirismos em geral são exibidos por modismo ou afetação por muitos; e tidos como inevitáveis em certos círculos profissionais. Nenhum caso de empréstimo apareceu no levantamento que fizemos de problemas lingüísticos que afetavam o trabalho de professores na área do Grande Rio, segundo a avaliação deles. Ou seja, os professores não estavam vendo problema algum na presença de empréstimos no discurso de seus alunos. Empréstimos externos, convém esclarecer. Porque os empréstimos tomados de variedades desprestigiadas da língua eram e ainda são repelidos, às vezes com extremo rigor, pelos mestres. Aí, tirando um grupo especial encabeçado pelos lingüistas, todos concordam, leigos e profissionais da língua, que tais empréstimos são simplesmente "erros".

Estamos entendendo aqui empréstimo lingüístico como o fez Bloomfield em sua obra clássica Language: "adoção de traços lingüísticos diversos dos do sistema tradicional". A subcategorização dos empréstimos em "internos" e "externos" segue a proposta de Mattoso Câmara Jr.: externo é o empréstimo tomado de uma língua estrangeira; interno é o empréstimo ocorrido dentro da mesma língua, entre diferentes variedades da mesma língua, variedades dialetais ou de registro.

Quando o empréstimo tem origem em variedade de igual ou superior prestígio pode causar maior ou menor estranhamento, ter vida breve ou ser mesmo rejeitado, mas dificilmente será tido como erro. Um caso recente ilustra bem a situação: o uso da palavra "cimeira" para designar o encontro entre os supremos mandatários de países da América Latina, da União Européia e do Caribe. Alguns jornalistas revelaram a seus leitores suas hesitações em usar ou não essa novidade em seu discurso, inovação a querer tomar o lugar de expressão de há muito consagrada. Outros, mesmo usando a novidade, manifestavam, pelo mesmo motivo, seu desconforto. Para que chamar hoje de reunião cimeira o que até ontem era chamado de reunião de cúpula? As reações, porém, mesmo vindas de sisudos colunistas, eram temperadas com humor, reações bem mais suaves do que o raivoso ranger de dentes que usualmente atropela os empréstimos tomados de variedades de menor prestígio, ou tenta barrar o caminho aos empréstimos externos, que, nos dias atuais, são principalmente os anglicismos. Tomo dois articulistas de colunas "sérias", de política, para exemplificar. No "Jornal do Brasil" de 25-6-99, escreveu Dora Kramer:

Justiça se faça, o Itamarati conseguiu produzir um dos raros momentos de união entre sociedade e governo fazendo também com que, internamente, nossas conflagradas autoridades concordassem com alguma coisa, além de trazer um pouco de humor a tão amargurados tempos.

Não há ninguém que consiga entender por que afinal de contas a reunião dos chefes de Estado e governo da América Latina, União Européia e Caribe chama-se Cimeira, que em português do Brasil significa algo como ornamento de planta.

E é assim que o presidente da República trata a denominação do evento, obviamente não em público, situação em que também não se ouve da boca de Fernando Henrique a estranha denominação. No Planalto, a ordem é ignorar a invenção itamaratiana. Fala-se, no máximo, em reunião de cúpula.

Como estamos falando agora de empréstimos internos, ficou entendido que partimos da idéia de que o português do Brasil e o de Portugal são variedades diferentes (com subvariedades internas lá e cá) da mesma língua. Esta é a posição da comentarista de política do "Jornal do Brasil", bem explícita quando fala em "português do Brasil". Há quem admita (e isto não é de hoje), aqui e lá, que já são duas línguas distintas. No recente encontro realizado em Lisboa para homenagear Cleonice Berardinelli , em palestra cheia de humor, Ivo de Castro, um filólogo em dia com os conhecimentos da Lingüística, relatou o que vem acontecendo em Portugal com essa postulação de duas línguas distintas. Corre entre os partidários dessa idéia a crença de que "o que se fala no Brasil já não é o português". Seria uma outra língua, dizem, apoiando suas posições em princípios e exemplos. Com pleno conhecimento de causa, Ivo de Castro demonstrou, pelos mesmos princípios e com vários exemplos, que "o que se fala em Portugal já não é o português". E agora? Como ficamos? E nós aqui avançamos no raciocínio: se por tais princípios o que se fala no Brasil e em Portugal são línguas diferentes, então, pelos mesmos princípios, há várias línguas em Portugal e muitas outras no Brasil, todas a usar (indevidamente?) o nome de "português". Aliás, um leitor do "Jornal do Brasil", na edição de 11-07-99, responde a um outro (é forte e freqüente o interesse por questões de língua nessas seções de cartas de leitores), a respeito da conveniência ou não do estudo de uma língua morta no ensino médio. Sua proposta, que se percebe irônica, vai ao encontro dessa idéia de que a língua portuguesa já não existe mais: o que há são outras línguas a usar indevidamente o nome de "português". Assim sendo, conclui que o português é língua morta. Portanto, escreve, "se é para introduzir (o estudo de ) uma língua morta no ensino médio, seria melhor o português". Na verdade, vê-se pelo resto da carta que esse leitor quer mesmo é combater os anglicismos que, na sua opinião, estão transformando o que se fala nos dois lados do Atlântico em língua moribunda, ou, como ele sugere, em outras línguas, herdeiras do falecido português, como este é do falecido latim.

O colunista político Márcio Moreira Alves, em "O Globo"(29-6-99), fica em posição intermediária nessa questão de uma língua ou várias. Ele vê as duas línguas (portuguesa e brasileira) em processo de separação: ainda não são línguas distintas. Trata então o uso "cimeira" como sendo ainda um caso de empréstimo interno:

Contra a Cimeira só cabe uma queixa dos brasileiros: o próprio nome, que para nós soa estranho. Toda a vida usamos a palavra cúpula e, de repente, os itamaratecas resolvem unificar na marra as línguas brasileira e portuguesa, que o tempo vai separando, com a lentidão e também a segurança da deriva dos continentes. Deve ser alguma homenagem póstuma ao filólogo Antônio Houaiss, que também foi diplomata. Imaginem se a moda pega: amanhã vamos falar da rainha Isabel II, da Inglaterra, mandar estudantes aprender inglês na Universidade de Oxônia e importar vodca de Moscovo. Até eu tive um breve acesso de dúvida e liguei para o douto ombudsman do jornal, severo guardião da correção de nossos textos, e perguntei se deveria escrever que Maurice Papon, criminoso de guerra, fora prefeito de Bordeaux ou de Bordéus, que é como os portugueses chamam a cidade. Respondeu: Escreva como quiser, mas vou logo prevenindo que na minha boca só entra vinho de Bordeaux. De Bordéus, nunca.

Mas os leitores que escrevem para os jornais, pelo menos esses, não concordaram com esse estranhamento dos jornalistas em rela ção a "cimeira". Artur Xexéo, que mantém no "Jornal do Brasil" uma coluna de, digamos, amenidades (para não usar galicismo comum nas redações em tempos idos), também estranhou o "cimeira" e recebeu um bom punhado de cartas de leitores manifestando discordância com a sua hesitação em aceitar "cimeira". Juntando essas cartas com as das seções abertas dos dois jornais, resumimos as razões da posição contrária assumida pelos leitores. Primeira: cimeira é português. Segunda: é um termo específico (reunião de chefes de estado ou de governo) que o português do Brasil não tem (reunião de cúpula é genérico, serve tanto para reunião de chefes de estados, como de chefes de jogo de bicho). Terceira: por ser português, mais vale uma "cimeira" a causar estranhamentos e a levar jornalistas a dicionários (às vezes sem êxito) do que uma summit que eles entenderiam imediatamente. (É curioso notar que os leitores assumem aqui posição oposta à de Celso Cunha, quando este dizia que "mais vale um estrangeirismo que nos una do que um purismo que nos separe". Os leitores querem, acima de tudo, fugir do estrangeirismo, pagando o preço de algum estranhamento ou mesmo de ligeiro desentendimento.) Quarta razão: mesmo que o português de Portugal e o português do Brasil já sejam línguas diferentes (em certas cartas é posição implícita ou tomada apenas para argumentar) ainda assim seria mais "natural" o português brasileiro tomar o empréstimo luso ("e aprender mais essa bela palavra do português castiço") do que usar o termo do inglês: "estaria correto e seria motivo de orgulho para nós, pois bem melhor ‘importarmos’ palavras de Portugal do que do inglês americano". A idéia geral e as citações estão a dizer que, mesmo considerando a língua falada em Portugal como estrangeira à nossa, por algum bom tempo continuará a ser uma língua não tão estrangeira assim. É claro que, evidentemente com muito humor, Xexéo cedeu a pressão dos leitores e declarou-se adepto do antes estranhado "cimeira".

Em resumo: quando as diferenças (e os empréstimos resultam disso) ocorrem entre variedades de igual prestígio, por maior que seja o bairrismo as resistências não vão além do terreno da brincadeira. Geralmente é um usuário divertindo-se com a variante do outro, como faz Bernard Shaw, por intermédio do Prof. Higgins, dizendo que In America, they haven’t spoken English for years. Mas ambas as variedades podem ter igual tratamento, como faz o mesmo Bernard Shaw quando declarou que a Inglaterra e os Estados Unidos são dois países separados pela mesma língua. Ou como acontece em livro recente dos irmãos Marcos e Luís Bogo, "É Golo, Pá!", com subtítulo que já diz tudo sobre o espírito da obra: "Edição bilíngüe: Português-Português".

Observando essas cartas de leitores, um observador sem compromissos pode ter reações negativas, ou apenas se divertir, vendo a língua tornar-se quase um objeto de veneração, assim como se fosse um outro símbolo da pátria, despertando paixões sem limites previsíveis, fazendo surgir defensores inflamados de suas qualidades, provocando discussões sem fim. Para o sociolingüista, porém, essas manifestações de usuários têm muita importância e, evidentemente, não são tomadas por ele como objeto de julgamento de valor. No nosso caso, esses posicionamentos lingüísticos que os leitores revelam em suas cartas para os jornais têm servido como sugestões para pesquisas metódicas mobilizando sujeitos de caracterização menos vaga que "leitor que escreve sobre língua para os jornais", com um mínimo de subcategorização, apenas de sexo, com base nos nomes, masculinos ou femininos.