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Empréstimos: tradição x inovação

 
Cristina Alves de Brito
(UFRJ)

Com o objetivo de obter informações acerca da reação dos falantes em relação ao uso de termos estrangeiros na língua materna, foi organizada uma pesquisa cm um conjunto de informantes composto por professores e alunos assim distribuídos: 40 informantes com idade entre 30 e 50 anos, de ambos os sexos, entre professores da Rede Pública de ensino do Rio de Janeiro e mais 187 informantes, alunos de lº e 2º graus da Rede Oficial, variando a idade entre 13 e 40 anos.

A situação apresentada aos grupos de informantes foi a questão do termo "impeachment", que, por circunstâncias, apareceu com muita freqüência em nossa língua nas três décadas recentes. No Aurélio aparece o vocábulo impedimento como: obstáculo, embaraço, estorvo, impedição; estado de quem, por doença, licença ou por outra causa, se acha impedido de exercer suas funções. Na Constituição Federal o termo que aparece é suspensão dos direitos em situações de crime penal comum, infrações, queixa crime, crime de responsabilidade; em tais casos o Presidente terá a suspensão do mandato, sendo que em caso de não haver julgamento no prazo de 180 dias retorna a seu posto. O termo impedimento aparece com freqüência em relação aos juízes, quando, por motivos variados, ficam impossibilitados de exercer suas funções.

O termo "impeachment" saiu dos círculos especializados para uso mais amplo entre nós na década de 70, quando o chefe do governo norte-americano esteve ameaçado de sofrer sanção com esse nome e renunciou justamente para evitá-la. O povo brasileiro, desejando o mesmo para o seu Presidente, não via como usar a palavra impedimento, pois ela não designava exatamente a sanção que se desejava aplicar, ou seja, não era tradução do inglês "impeachment", que significa impugnação, descrédito, denúncia e processo por infração dos deveres do cargo. A idéia de temporário que permeia a palavra impedimento ia de encontro ao desejo dos brasileiros (ansiosos por uma atitude definitiva, sem dar margem a qualquer possibilidade de retorno) e assim determinou o uso do termo inglês, que possuía o valor semântico exato do que era desejado: a saída do Presidente, sem qualquer possibilidade de volta.

A apresentação do inglês "impeachment" visava a dar elementos para os grupos se decidirem entre as alternativas que foram apresentadas nas entrevistas, quanto à admissão ou não de empréstimos na sua língua materna:

a)uso da palavra estrangeira sem qualquer alteração;

b)criação de palavra completamente nova;

c)uso de processos de adoção já existentes na língua.

Mesmo com a palavra "impeachment" à sua frente, da totalidade dos informantes apenas 27,3% optaram pelo uso da palavra estrangeira, sem qualquer adaptação. No subgrupo dos professores 60% optaram pelo uso irrestrito da palavra estrangeira, em desacordo, portanto, com o universo total de informantes. Dos restantes, 22,5% preferem a rejeição total aos empréstimos (letra b ) e 17,5% optam pelo aportuguesamento da palavra, apresentando assim uma rejeição apenas parcial aos empréstimos, ou, dito ao contrário, aceitam com reservas os empréstimos.

Entre os estudantes acontece uma inversão dos resultados dos professores. Apenas 20,3% optaram pelo uso inalterado de palavra estrangeira. Entre a maioria que rejeita o empréstimo no todo ou em parte, 36,3% ficam com a criação de palavra nova e 43,3% optam pelo aportuguesamento da palavra estrangeira.

As mulheres têm constantemente aparecido como conservadoras em pesquisas sociolingüísticas. Neste caso particular houve confirmação disso entre os estudantes, pois quase 45,9% das alunas recusaram no todo ou em parte o empréstimo, número que foi de 33,7% entre os estudantes do sexo masculino. Esse dito conservadorismo lingüístico feminino não foi visto, porém, no subgrupo de professores aqui em causa: elas aceitaram os empréstimos com índices mais fortes do que os deles.

Observando-se que os estudantes mostraram-se mais resistentes ao uso de empréstimos, comparados seus índices com os dos professores, algumas questões podem ser levantadas: Tal fato estaria ligado ao nível de escolaridade, ou seja, quanto maior o grau de instrução melhor a aceitação de estrangeirismos na língua? (Não se contesta que nível sócio-econômico e escolaridade tenham influência sobre o desempenho lingüístico, mas questões de crenças e atitudes não são assim tão evidentes.) Que outros fatores se oporiam à repulsa aos termos estrangeiros? Haverá relação entre o comportamento dos professores em causa e o revelado em diversas pesquisas que têm demonstrado que os grupos sócio-econômicos intermediários são os que mais avançam no processo de mudança lingüística? (Tais grupos revelam maior sensibilidade à variação estilística, constituindo assim um dos caminhos pelos quais a língua dá início a mudanças.)

A rápida e elevada incorporação de palavras estrangeiras (notadamente do inglês) resulta da massificação e alta velocidade das comunicações. Os mais escolarizados são os que maior acesso têm a esse processo de sintonização com o mundo, que proporciona a entrada de palavras que passam até a integrar o discurso diário dos indivíduos. Isto não ocorre com o grupo menos escolarizado, o que apresentou maior resistência à incorporação de termos estrangeiros ao português. Tal reação seria em função do desconhecimento do significado real desses termos?

Não se pode estender essa reação negativa aos empréstimos (pelo menos em tal intensidade) à sociedade mais ampla. No caso de "impeachment" demonstrou-se como seria problemática sua tradução, daí as três opções propostas: adoção integral, criação de palavra nova, aportuguesamento da palavra estrangeira. Mas o que se verificou com "impeachment" é bem diferente do que encontramos em muitas situações da atualidade, quando, havendo equivalentes em português, pessoas usam termos estrangeiros. Por automatismo? Por desconhecimento do português? Para se sentirem engajadas, enturmadas, inseridas num contexto?

Apenas como exemplo, pois seria impossível fazer aqui lista exaustiva, vejamos alguns termos pinçados em uma situação de escritório descrita em texto de José Henrique Barreiro:

"O problema pode ser no "hard disk." (disco rígido)
"Ele precisa do "feed-back" da equipe para os contatos com o pessoal do "buy side" e do "sell side".
(retorno/compras/vendas)
"Verifiquei o seu "laptop". (micro portátil)
"...quer lançar um "franchise" e ...(franquia)
Disse que adorou o "approach" e o "design", mas... (desenvolvimento/desenho)
"O Fernando, "controller" da "holding", enviou "e-mail..." (superintendente financeiro/grupo/correio eletrônico)
" durante o qual poderíamos conhecer no "show room" do evento..." (sala ou salão de exposição)
"...porque o "boy" não veio trabalhar hoje." (contínuo ou mensageiro etc.)

As palavras e expressões entre parênteses dispensariam o uso dos empréstimos se os fatores envolvidos fossem apenas de natureza lingüística. Mas há outros fatores em jogo e chega a espantar que até o que foi uma das características do brasileiro – fazer uma pausa no trabalho para tomar um cafezinho – apareça por aí como no texto a seguir:

"Nesse momento, o coordenador do seminário anunciou o início do "coffee-break"..."

Qual a razão ou razões para designar em inglês uma tradição tão nossa?

Em um segundo momento foram solicitadas opiniões (manifestações de crenças) sobre o uso em geral de palavras e expressões estrangeiras dentro do discurso em português. Foram apresentadas as seguintes opções:

a)nunca devem ser usadas;

b)podem ser usadas em casos especiais;

c)devem ser usadas livremente.

No que se refere à primeira opção (rejeição total aos empréstimos), nenhum dos subgrupos apresentou alto índice e no universo total o índice foi de 11%. A opção contrária (uso à vontade de empréstimos) tem índice mais alto, mas ainda fortemente minoritário (34%).

Fica então evidente que a posição menos extremada tem a preferência. No grupo total dos sujeitos 54,5% pensam que expressões estrangeiras devem ser usadas quando expressarem com clareza conceito que não encontra na língua materna um termo em uso, sendo problemática a criação de palavra nova que não perturbe a comunicação. Esta posição moderada é mais característica do grupo dos docentes, que apresentou um índice (77,5%) muito superior ao dos estudantes (50%).

Em termos de crenças, portanto, não existe uma abertura total aos empréstimos, como pode parecer e como alguns apregoam em relação ao uso. Sabe-se que a língua é, foi e continuará sendo um fator privilegiado de interação, tanto na modalidade falada, como na escrita. Quanto mais ampla a interação mais inevitável será a adoção de novas formas, tomadas de empréstimo tanto dentro da língua nativa (empréstimos dialetais, por exemplo), como de línguas estrangeiras, porque nenhum povo, ainda mais nesta era de globalização, vive isolado.

Como os empréstimos ocorrem quase exclusivamente na área lexical, é duvidoso (pelo que a História nos mostra) que uma língua possa ser descaracterizada pela forte presença de palavras estrangeiras. Ao contrário, o termo estrangeiro em uso na língua é que sofre um processo de descaracterização, começando pela adaptação fonética. Pode-se respeitar a ortografia da língua fonte, mas a fonética logo passa a ser a da língua receptora. E quanto mais amplo o uso, maior a descaracterização, a ponto de alguém escolarizado nos perguntar: "Mas bifê é empréstimo? Esse pode ser o destino de "impeachment" se tiver uso amplo na língua, uso que nem precisará ser tão amplo como, por exemplo, futebol.