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Empréstimos: usos, crenças e atitudes no léxico do cinema.

 
Edson de Siqueira Estarneck (FAPERJ)
Cristiane de Moraes S. R. Cortes (FAPERJ)
Cátia Aparecida V. Barboza (FAPERJ)

O trabalho apresentado aqui, é fruto da pesquisa sobre a terminologia técnica do cinema, projeto de iniciação científica apoiado pela FARERJ, o qual, tem sido desenvolvido por esta grupo nos últimos quatro anos, sob a orientação dos professores Emmanoel Santos e Edione Azevedo, com o intuito de definir o vocabulário técnico cinematográfico utilizado pelos profissionais e leigos da área.

A questão a ser desenvolvida, crenças e atitudes no uso da terminologia técnica do cinema, surgiu de questionamentos a respeito de uma listagem, parte do corpus geral, que não possuía termos correspondentes em língua portuguesa. A preocupação de relatar os usos vigentes entre os profissionais brasileiros fez com que o grupo decidisse averiguar o uso destes termos em entrevistas com os profissionais da área, onde era apresentado o conceito correspondente ao termo, mas não o termo em inglês, visando evitar uma provável "contaminação". Desta forma, o entrevistado deveria identificar o termo realmente utilizado em sua área para o conceito que lhe foi apresentado.

Sendo assim, comparando o material coletado com estudos feitos anteriormente (Tese de Doutorado da profa. Edione Azevedo – 1989), o grupo pôde verificar aquilo que entende como "crenças e atitudes da terminologia técnica do cinema".

Primeiramente, entendemos que, em relação aos profissionais dessa área, podemos identificar dois grupos com práticas lingüisticas peculiares, que classificamos como "velha guarda" e "nova guarda". Esta classificação justifica-se pelo comportamento e atitudes em relação ao tecnoleto que empregam em sua prática.

Os profissionais classificados como "velha guarda" não demonstram uma preocupação definida quanto a uma profissionalização, um entendimento mais acadêmico de sua prática; basicamente, "tendo uma idéia na cabeça e uma câmera na mão", alguém capaz de fazer cinema no Brasil. O desenvolvimento de um filme era um processo baseado na prática, a terminologia era se não basicamente nacional, era em parte original, com pouco uso de estrangeirismos, em estado puro, pela adaptação rápida ao português.

O que se verifica quanto à "nova guarda" é uma preocupação maior com o aperfeiçoamento e a procura deste em outros contextos mais tradicionalmente ligados à técnica, como o americano, por exemplo. Os profissionais que classificamos neste grupo têm mais escola e trazem para a produção nacional a terminologia que aprendem no exterior e utilizam na prática, adaptando-a conforme a necessidade. Sendo assim, há uma maior utilização de estrangeirismos nos quais, geralmente, a ortografia mantém-se, mas a fonética modifica-se, principalmente na prática da gravação, mesmo pelos profissionais que conhecem a pronúncia original, havendo assim uma acomodação ao uso tradicional, que logo adapta o empréstimo à fonética do português. Ficam implícita, pois, atitudes distintas das dois em relação aos empréstimos.

Dentro deste contexto de "crenças e atitudes", também é importante destacar as diferenças entre o que entendemos como cultura cinematográfica brasileira e americana, definidas pelos próprios profissionais durante as entrevistas, que talvez justifiquem algumas das práticas lingüisticas verificadas no corpus utilizado para a pesquisa.

A cultura cinematográfica americana parece ser sempre definida como extremamente detalhista e tecnicista, visando grande retorno e lucros rápidos; podemos dizer que há uma necessidade muito maior de termos técnicos para detalhar cada ação, cada movimento, visando tornar o processo mais eficiente e produtivo.

Na cultura cinematográfica brasileira podemos verificar uma prática diferente, que torna as produções nacionais quase que artesanais e elimina a grande necessidade de termos exigida no contexto industrial americano.

Esta diferença cultural pôde ser verificada na prática, já que o corpus desta pesquisa tem como base os termos do inglês, e muitos destes termos, conforme averiguamos, não possuem correspondente em português. De fato, muitas vezes o entrevistado compreendia a idéia, o conceito, mas não conseguia encontrar um termo que traduzisse essa mesma idéia em português. Nem, se animou a criar um termo em português (e também não foram estimulados a isso). Probabilidade que será evidentemente maior no grupo chamado de "nova guarda".

A ausência de um vocabulário padrão muitas vezes torna a prática um caos. Outro fato que pôde ser observado durante as entrevistas é que devido a esta variação lingüistica a que estão sujeitos os profissionais da área cinematográfica no Brasil, é que existem equipes que, antes de iniciar a produção do filme, realizam reuniões com o intuito de definir os termos que serão usados, para que a equipe se entenda durante as gravações.

Talvez o produto deste trabalho de pesquisa possa ser útil na prática destes profissionais em termos de terminologia técnica, e é este o propósito deste trabalho que desenvolvemos e que esperamos finalizar com sucesso.