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Faria de Vasconcelos: por uma educação nova

 
Maria Gabriel Moreno Bulas Cruz
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro - Portugal

1- Contexto histórico em que viveu Faria de Vasconcelos

Faria de Vasconcelos nasce no último quartel do Século XIX (1880), o século em que surge a ideia da educação popular, em que o experimentalismo dá força e cunho científico ao problema educativo. No campo da educação há neste século vultos importantes como Pestalozzi (1746-1827), que procura evidenciar que a observação e a acção estão na base do ensino intuitivo, que ele leva à prática. Fröbel, Girard, Herbart e Spencer são figuras de destaque na Pedagogia, que procura uma renovação nos métodos e o estabelecimento de filosofias e técnicas mais avançadas. Pestalozzi e Fröbel (1782-1852) conseguem criar uma rede de jardins de infância na Alemanha, embora encontrando muitos obstáculos. Estas escolas tinham como princípio básico que o que mais importava eram os interesses das próprias crianças. Girard defende que o ensino da língua materna é o ponto de partida para um ensino integral, mental e moral. Herbart, discípulo de Fichte e sucessor de Kant em Koenigsberg, foi um grande teórico da educação, tendo ficado famosa a sua concepção metodológica dos "passos formais". Spencer, na linha de Condillac, afirma a conformidade da evolução educativa do indivíduo e da sociedade; coloca as questões pedagógicas de forma actual e defende que na pesquisa do método deve seguir-se mais o instinto da criança do que a razão do adulto.John Dewey (1859-1952), nos Estados Unidos, também defende que a educação deve ser baseada no que as crianças precisam e não no que se pensava que elas deviam saber. Na Europa,partindo de França, desde Napoleão, desenvolvera-se grande controlo - e interesse - pela Educação, doravante, vista cada vez mais como uma preocupação do Estado.

Faria de Vasconcelos nasce assim nos fins de um século (1880) em que o espírito científico tinha ganho grande importância.

Tem 20 anos, quando chega a 1900 e é, portanto, um adulto que entra no século XX vendo a Psicologia desenvolver-se e dirigir interesses para o sector emocional, colocando na afectividade o centro principal de toda a vida consciente. Nomes sonantes de escritores e experimentadores pedagógicos estudam intensamente técnicas e princípios, utilizando a muita aparelhagem que recheava os gabinetes e laboratórios de psicologia experimental um pouco por todo o lado. Entre eles, Maria Montessori, que considera a liberdade a base da disciplina e acredita na auto-educação da criança; William James, que considera o desejo de agradar, a imitação e a curiosidade como os motores da educação,e Tolstoi, preconizando a liberdade absoluta da criança.

"No terreno científico e técnico, produz-se um florescimento desconhecido até então. É o resultado da própria evolução da ciência e do desenvolvimento geral das forças produtivas, mas também das mudanças profundas nas condições de vida e da descoberta de novas e importantes fontes de energia. No último terço do século XIX e, sobretudo, na sua última década e primeiras do século XX, estabelecem-se os fundamentos do que será a revolução científico-técnica".1

Portugal vive os últimos anos de uma monarquia que progressivamente se sente incapaz de responder aos mais diversos problemas do País, mas que vinha de 1143. A transição para a República não será fácil - e esta - a 1ª República, implantada pela força de uma Revolução em 5 de Outubro de 1910, será marcada por tremendos problemas, sociais, políticos, educativos e pela participação portuguesa, ao lado dos aliados anti-germânicos, na 1ª Guerra Mundial, de 1914 a 1918.

Faria de Vasconcelos está fora do País muitos anos, dizendo Ferrière, que a sua Escola na Bélgica fecha aquando da invasão alemã, indo Faria de Vasconcelos, nessa altura , para a Suíça, o que é indício de que não quer prosseguir os seus trabalhos sob ocupação alemã. Depois da estadia na Suíça, Vasconcelos fará a sua vida na América, em Cuba e na Bolívia; foi recomendado aos governos destes Países por Ferrière.

Regressa a Portugal em 1920, sendo considerado o teórico da reforma do ensino do ministro João Camoesas.Em 28 de Maio de 1926, dá-se uma revolta militar que acabará por conduzir ao poder Salazar. Faria de Vasconcelos é professor de Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa tendo fundado em 1925 o Instituto de Orientação Profissional; relacionara-se com pessoas politicamente de esquerda, desde António Sérgio a Azeredo Perdigão, que, mais tarde, já no regime de Salazar, foi nomeado administrador da Fundação Calouste Gulbenkian; deste se sabe não ter sido pessoa da simpatia de Salazar. Dá-se a Guerra Civil de Espanha e Salazar começa expurgos nas Universidades a partir de 1940, data em que o Hitlerismo parece imbatível e numa altura em que Salazar - dadas as suas relações cordiais com Francisco Franco, sente grande segurança.

Vasconcelos falece em 1939, não assistindo nem à 2ª Guerra Mundial, nem aos referidos expurgos, nem a todos os episódios político-sociais subsequentes.

2- Dados biográficos e actividade profissional

António de Sena Faria de Vasconcelos nasce a 2 de Março de 1880, em Castelo Branco, freguesia de S. Miguel da Sé.

O pai, Luiz Cândido de Faria e Vasconcellos, era Delegado do Procurador Régio na Comarca de Castelo Branco, e a mãe, Maria Rita Sena Bello de Vasconcellos2, pianista, era filha do conselheiro Simão Pedro de Sena Bello. O pai, viria a ser juiz em diversas comarcas,chegando à Relação e ao Supremo Tribunal de Justiça.3

Fez os estudos secundários num colégio do norte, dirigido pelos padres do Espírito Santo, matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em Outubro de 1896. Em 1900 é bacharel5 e escreve a sua primeira obra, O Materialismo Histórico e a Reforma Religiosa do Século XVI, onde expressa a sua distância em relação às explicações religiosas tradicionais.6 Faria passou do Direito às questões filosóficas e depois à psicologia infantil. Devemos notar que em Coimbra sempre existiu um interesse cultural variado e Faria foi influenciado por esse ambiente, nomeadamente pelo prestígio da figura de Antero de Quental, escritor, político, poeta e filósofo, homem de acção que marcou muitas gerações. Mais do que influências de professores, terá sido a vivência numa cidade como Coimbra, o que terá marcado Faria de Vasconcelos. Passa do Direito à Ética e levam-no a partir para a Bélgica tornando-se psicólogo. É possível que Vasconcelos, ao cursar Direito, o tenha feito por uma questão de tradição familiar. Em O Pessimismo revela grande interesse por questões como o dever de educar as multidões e assegurar-lhes condições de vida dignas. Em 1902 parte para a Bélgica e matricula-se na Universidade Nova de Bruxelas. Em 1903 edita, nesse País, um pequeno livro com um estudo apresentado na Universidade intitulado La psychologie des foules infantiles.7 Faz a "Candidature en Sciences" e inscreve-se no "premier doctorat en sciences sociales". Neste mesmo ano, com 23 anos, casa-se civilmente com uma senhora belga. Deste matrimónio nascerá uma menina, que morrerá com 20 anos, em 1924. Em 1904 doutora-se em Ciências Sociais com a maior distinção, resultado que nos 10 anos anteriores nunca fora concedido a nenhum doutorando, quer nacional, quer estrangeiro. A sua tese, no campo da Sociologia, intitulava-se Esquisse d'une théorie de la sensibilité sociale. Neste escrito Faria de Vasconcelos afirma que a consciência social é algo que se pode desenvolver e aperfeiçoar, uma vez que considera a consciência social como a consciência individual modificada pela vida social. Leccionou uma cadeira na Universidade Nova de Bruxelas, no ano lectivo de 1903/4.Chegaria a Professor Catedrático. Da sua actividade como professor catedrático de Psicologia e Pedagogia na Universidade Nova de Bruxelas sabemos que se prolongará até ao ano lectivo de 1914/15, exclusivé,8 tendo também, entre 1905 e 1910 leccionado Literatura Dramática na Extensão Universitária da Bélgica; repare-se, neste passo, que, conforme é do conhecimento geral dos estudiosos da Educação. Abandonou este País com o começo da 1ª Guerra Mundial, em 1914. Durante este período, não esqueceu Portugal, e em 1907, faz uma série de conferências, na Sociedade de Geografia, em Lisboa. Esta desenvolve-se num ambiente de elite, o que significa que Faria começava a ser conhecido. Estas suas conferências são editadas em 1909 com o título Lições de Pedologia e Pedagogia Experimental. Esta obra virá a ser traduzida para castelhano em 1931, e muito divulgada na América Latina. Além destas actividades é, em 1912, escolhido para membro da comissão executiva da Sociedade Belga de Pedotecnia e trabalha também nos Altos Estudos da Universidade.

Não se duvida, em geral, que Faria de Vasconcelos estava bem inserido na sociedade belga; Adolphe Ferrière dizia:

"Faria de Vasconcelos é belga até pelo matrimónio".9

Em Outubro de 1912 funda, à sua custa, a Escola Nova de Bièrges-lez-Wavre, no Château des Vallées. Esta terá sido a sua realização mais importante, pois foi aquela que o tornou conhecido no mundo da Educação, como teórico e homem de acção. Com a escola de Bièrges tornara-se famoso. Desta escola dizia:

"Fundada em Outubro de 1912, foi a 1ª escola nova fundada no campo na Bélgica. Queríamos realizar completamente a fórmula a escola para as crianças. Constitui-se um comité de apoio formado pelo embaixador de Portugal na Bélgica, Alves da Veiga, pelo do Brasil, Oliveira Lima, e [entre outros] por Decroly, Ferrière (etc)."10

Faria classificou o seu estabelecimento como "obra de experimentação, de análise incessante a Escola de Bièrges foi também uma obra de síntese e de idealismo".11

Não podemos esquecer que a Escola de Bièrges foi, na opinião de Ferrière, uma das melhores realizações do movimento conhecido por «Escola Nova», pondo em prática 28 dos 30 princípios que deveriam caracterizar uma Escola Nova.12

Rogério Fernandes também se lhe refere, afirmando ter sido,

"uma experiência pedagógica de interesse inquestionável".13

Pouco antes de se iniciar o 3º ano lectivo na Escola Nova de Bièrges, acontece, em Agosto de 1914, a invasão alemã da Bélgica. Faria decide ir para a Suíça.

No ano lectivo de 1914/15, em Genebra, rege um curso de Pedagogia e trabalha no Instituto Jean-Jacques Rousseau.

"A Escola das Ciências da Educação, fundada em 1912 graças à iniciativa do psicólogo Edouard Claparède, que confiou a direcção ao filósofo Pierre Bovet, tornou-se conhecida sobretudo pela sua designação secundária, que constitui de per si um autêntico programa: Instituto Jean-Jacques Rousseau. A ideia tinha nascido no meio universitário, mas para Claparède era fundamental assegurar não só a cientificidade académica, mas também a liberdade de acção, de atitude e de propaganda. A sua opção irá no sentido de criar uma fundação privada. O Instituto só se ligará à Universidade em 1929."14.

Devemos notar que,

"Genève e o Instituto Jean-Jacques Rousseau foram ponto de passagem quase obrigatório de várias gerações de pedagogos portugueses da 1ª metade do século XX. Para além de António e de Luísa Sérgio, registe-se a presença nesta cidade suíça de Alves dos Santos, Faria de Vasconcelos, Álvaro Viana de Lemos, Irene Lisboa, Aurea Judite do Amaral, José da Cruz Filipe e Sílvio Lima, entre tantos outros".15

Era o Instituto uma escola de renome internacional. Exemplo disso é o testemunho de António Sérgio que sempre manifestou grande respeito e consideração pelos professores que teve em Genève, nomeadamente na sua correspondência privada. Em carta ao seu amigo Raúl Proença, de 1914, diz:

"Eu vim para aqui por causa do Instituto Jean-Jacques Rousseau (Escola das Ciências da Educação) recentemente fundado. Está por enquanto modestissimamente instalado, mas os professores são de primeira ordem; constitui uma tentativa sui generis".

Também várias vezes António Sérgio se referiu publicamente aos professores do Instituto, e lembrava Claparède quando precisou de evocar uma «autoridade científica»: "tive estreita amizade com verdadeiros cientistas (como um Paul Langevin, como um Eduardo Claparède) os quais sempre me falaram como se reconhecessem em mim um homem de mentalidade acentuadamente científica".

Adolphe Ferrière mereceu-lhe igualmente o epíteto de "grande apóstolo da educação nova" no prefácio à edição portuguesa do Transformons l'école.16

As três conferências que Faria profere neste Instituto sobre a Escola de Bièrges são publicadas no livro Une École Nouvelle en Belgique, que foi traduzida em quase todas as línguas com mais falantes, incluindo o russo e o mandarim.17 A obra é prefaciada por Adolphe Ferrière que sublinha o seu valor. Ainda em Genève, Faria de Vasconcelos colabora com Claparède no Laboratório de Psicologia Experimental e secretaria o Bureau International des Écoles Nouvelles criado por Ferrière, em 1899. Indigitado pelo então director do Bureau International des Écoles Nouvelles, Adolphe Ferrière18 e Eduard Claparède, Faria parte para Havana, a pedido do ministro da saúde e beneficência de Cuba tendo chegado a 12 de Outubro de 1915.

"Pelas relações de Ferrière com D. Juan Ramon Xiqués, insigne pedagogo cubano o Ministro da Saúde de Havana solicitava-o à fundação de uma 'escola nova' na sua Ilha, do tipo de Bièrges. Claparède instigava-o a aceitar o convite, pensando que ia marcar uma data no progresso da pedagogia moderna. Atravessou o Atlântico para os Estados Unidos e de ali, no vapor Montevideo para a Ilha de Cuba [aonde o] aguardava o grande admirador Ramon Xiqués, presidente da Fundação Luz Caballero, personagem de larga influência na Secretaria de Sanidade, a cargo de D.Enrique Nunes. Conferem-lhe o cargo de Inspector do Ministério da Saúde e do Benfazer, para se ocupar da organização da Escola Preparatória de Crianças Abandonadas".19

A situação política em Cuba era, nesta época, relativamente calma, se comparada com períodos anteriores. O Presidente da República era o conservador Mario G. Menocal, que sucedia a José Miguel Gómez, liberal, e 1º Presidente da 2ª República. O período presidencial de Gómez caracterizou-se por um certo desenvolvimento das obras públicas. Em 1916 Menocal é reeleito embora usando de meios violentos. É neste contexto político que Faria de Vasconcelos exerce as suas funções de educador, fundando escolas segundo o modelo de Bièrges e proferindo conferências no Ateneu, na Academia e no Colégio Inglês. O clima cubano, contudo, não lhe era muito agradável. Não sendo o calor excessivo a grande humidade tornava-o difícil de suportar. Terá sido este factor, que o fará saír de Cuba.

No primeiro semestre de 1917 Faria de Vasconcelos deixa Cuba com destino à Bolívia, integrando uma missão educativa belga. Por Terras de Além-Mar20 é o livro de viagens que escreve a propósito da sua deslocação para a Bolívia. Nesta obra Faria de Vasconcelos refere-se com detalhe ao canal do Panamá, gabando os Estados Unidos e tecendo algumas considerações estranhas, como veremos.

Depois de descrever o Canal do Panamá como "uma das empresas mais gigantescas que o homem cometeu e levou a cabo através de dificuldades sem nome, uma daquelas que melhor dão a medida da sua audácia e da sua força," considera-o uma vitória bela do espírito conquistando a matéria e diz mesmo que em frente do Canal é glorioso ser homem."Eu sou dos que crêem no homem, apesar de tudo, contra tudo e contra si mesmo. Quem não crê no homem, que pense no Canal".

Depois de elogiar os Estados Unidos da América, nomeadamente pela "organização científica do trabalho", falando de Taylor, elogia de maneira desajustada o papel do chefe, que é "o maior exemplo de obediência. E é porque sabe obedecer que o chefe sabe mandar. Porque mandar é na essência ainda obedecer" .21

Nos seus elogios aos Norte-Americanos, Faria não se esquece, por outro lado, de criticar os latinos:

"o problema fundamental dos latinos é um problema de educação, de direcção espiritual, de organização, de construção, que demanda tempo, esfôrço persistente, inteligência clara dos nossos defeitos e aptidões e um ideal nitidamente orientado".22

Neste escrito de Faria de Vasconcelos, o que se nos depara?

Uma atitude de espanto, reverência e até de inferioridade perante as realizações Norte-Americanas; é de admirar uma certa incapacidade crítica, a nível político-social, dessas realizações.

Por proposta do governo boliviano , desloca-se para esse País. Também por proposta do governo da Bolívia, fica em La Paz, para organizar a secção de Psicologia e Pedagogia da Escola Normal Superior. Exercer o cargo de Director da Escola Normal de Sucre, capital oficial e sede do arcebispado e da Universidade 23foi o motivo da sua saída de La Paz. Em Sucre irá igualmente exercer o cargo de director da Revista Pedagógica, para a qual escreve bastantes artigos.24 O trabalho que desenvolveu em Sucre foi muito relevante: reorganizou o ensino com introdução de novos sistemas (nomeadamente as ideias e métodos da Escola Nova, o self-government); criou a secção de "Jardineiras das Crianças", aí leccionando; introduziu o 4º grau primário com tendências profissionais também em escolas femininas; implementou bibliotecas itinerantes;25 criou o gabinete de informações pedagógicas; nas escolas, introduziu pela primeira vez, médicos escolares e enfermeiras.

Publicou Syllabus del Curso de dirección y organización de las escuelas e Metodologia de las Ciencias Naturales, obra que foi distribuída a todos os professores bolivianos por conta do governo. Pode dizer-se que contribuiu decisivamente para a renovação educativa na Bolívia, por cujo governo sempre foi apoiado.

Em Outubro de 1920, Faria de Vasconcelos, apesar da boa posição que tinha na Bolívia e da consideração de que era rodeado, resolve regressar a Portugal.

"Mergulha em incessante actividade. Logo a 1 de Março seguinte, profere uma conferência sobre Emerson, na sala de física da Faculdade de Ciências e, a 9, outra sobre William James promovidas pela Sociedade de Estudos Pedagógicos de Lisboa".26

Editado pelas Publicações da Biblioteca Nacional em 1923, o título Dispersos de Oliveira Martins tem selecção de artigos, prefácio e comentários de Faria de Vasconcelos e António Sérgio. Faria fala do Industrialismo no ensino, da progressiva ignorância que o Ensino Oficial vai preparando, do ensino mecanista; considera que se estuda Gramática a mais e de forma que apenas apela à memória.

A respeito dos problemas morais critica as grandes cidades que apelida de "furúnculos" - Paris, Berlim, Viena, Nova York, metrópoles de uma civilização onde o crápula dá o braço ao luxo; critica o individualismo, o egoísmo, o epicurismo e o anarquismo da época. Falando da educação da mulher condena os excessos do Feminismo, embora tenha sido partidário da educação feminina.

Em 12 de Março de 1928 profere, no Ginásio Clube Português, a conferência O que é que deve ser a Educação Física, editada pela Papelaria Maia, em Lisboa, ainda em 1928. Na Introdução deste trabalho diz-se que o autor colabora com Revistas Científicas e Literárias da Europa e da América, havendo obras suas traduzidas em espanhol, inglês, alemão e russo.

Em Outubro de 1928 a União Ibero-Americana organizou, em Madrid, a Exposição do Livro Português e Faria de Vasconcelos colaborou nessa iniciativa, juntamente com Hernâni Cidade, Câmara Reis, Ferreira de Castro e Armando Cortesão.

Em 1933 é editado o livro de Olinda Tavares dos Santos Jogos de leitura e escrita segundo a metódica global do Dr. Decroly. Para ele escreve Faria de Vasconcelos uma breve "Apresentação Pedagógica".27

Como delegado do governo, participa em Paris, no ano de 1937, na 12ª Sessão da Associação Internacional para a Protecção à Infância, apresentando a comunicação "Les sanctions en éducation; leur legitimité, leurs modes, leurs résultats".

Refira-se ainda que Faria de Vasconcelos foi colaborador da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, ao lado de outras personalidades de prestígio e reconhecida cultura, tanto portuguesas como brasileiras. A divisa desta publicação ilustrada é "Tudo numa só obra, uma só obra para tudo". Também na Enciclopédia Pedagógica Progedior o seu nome figura entre o dos colaboradores. Na apresentação da obra ao público afirma-se que "se trata de uma "Enciclopédia de Ciências da Educação" - (Higiene social e escolar, Eugenia, Pedologia, Psico-Pedanálise, Puericultura, Pedagogia experimental, Pedotecnia, Pedeutologia, Médico-pedagogia, etc., etc.)".28

À Revista Brotéria, publicação periódica de ciências naturais e vulgarização científica, deu igualmente Faria de Vasconcelos a sua colaboração.29

3 - Obra Educativa de Faria de Vasconcelos

A sua obra educativa já foi parcialmente referida.

A sua adesão ao movimento da «Escola Nova», a fundação da Escola de Bièrges, a leccionação universitária na Bélgica, o seu papel como docente no Instituto Jean-Jacques Rousseau, o reconhecimento das suas qualidades por personagens ilustres da História da Educação, o seu empenhamento e eficácia em Cuba e na Bolívia, além da publicação de vastíssima obra teórica ficam completadas pelo trabalho que desenvolveu ainda em Portugal. Foi docente na Universidade Popular, na Universidade Livre de Lisboa, realizando, em 1925, uma série de conferências sobre Oliveira Martins e outra sobre Problemas Psicológicos e Educativos.Foi Professor de Pedagogia na Escola Normal Superior de Lisboa, Professor de Psicologia Geral na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; dado o seu interesse pela matéria pensava abrir um consultório de orientação profissional.30

Não chegou a iniciar actividades no Consultório visto que em Julho deste mesmo ano foi criado, pelo Decreto 10986, o Instituto de Orientação Profissional Maria Luísa Barbosa de Carvalho, de que viria a ser fundador e 1º Director.

É de destacar ainda a sua colaboração na Seara Nova.

A Seara Nova foi um movimento cultural e cívico, plural do ponto de vista político, que deve ser referida de forma a melhor entender a História de Portugal no Século XX, nomeadamente da sua 1ª República. Publicando uma Revista regularmente, pretendiam os seus autores intervir na vida do País propondo caminhos e ideias de acção política.

A «Seara Nova», empenhou-se na realização de uma «Educação Aberta», nomeadamente o seu «Programa mínimo» preconizando a gratuitidade do ensino primário e secundário, a «concessão de bolsas de estudo para o ensino superior aos indivíduos de maior capacidade que não estejam em condições de sustentar-se pelos seus recursos» e a «organização eficaz de obras de assistência escolar» .

No que respeita à reorganização dos diversos graus de ensino, sabemos que Faria de Vasconcelos se propunha desenvolver o assunto nas Bases, começando pelos jardins de infância para concluir na Universidade. Homens como Aurélio Quintanilha, Luís Simões Raposo, Alberto Pessoa, Jaime Cortesão, Raúl Proença, Câmara Reys, Ferreira de Macedo, Mário de Castro, José Rodrigues Miguéis, Manuel Mendes, Sílvio de Lima, Vitorino Nemésio e António Sérgio colaboraram na «Seara». A inquietação pedagógica dos seareiros, aliás em si mesma nada excepcional no ambiente cultural de então, transitou da ordem programática à tentativa de actuação prática a nível oficial pelo menos em duas circunstâncias: quando Faria de Vasconcelos e António Sérgio colaboraram activamente no projecto de reforma de João Camoesas.

Em 1923, João Camoesas, Ministro da Instrução Pública, apresenta uma proposta de lei sobre a reorganização da educação nacional.31

Continha 24 bases, ao longo das quais se procuravam apresentar soluções satisfatórias para os principais problemas do ensino português. Hoje sabemos que Faria de Vasconcelos foi o verdadeiro autor deste projecto de reforma da educação em Portugal. Pela importância que teve sobretudo fora de Portugal, incluindo-se na sua acção a América Latina, este autor merece ser recordado.


Bibliografia

Certidão de nascimento e Baptismo de Faria de Vasconcelos, Arquivo Distrital de Castelo Branco.

Diário do Governo, II Série, nº 151, de 2 de Julho de 1923.

Dias, José Lopes, "Itinerário Biobibliográfico de Faria de Vasconcelos", in Estudos de Castelo Branco nº30 1/7/1969, p.84.

Ferrière, Adolphe, "Prefácio" a Une École Nouvelle en Belgique, Paris, Neuchatel & Niestlé S. A. Editeurs, 1915.

Gomes, Joaquim Ferreira, Estudos de História e Pedagogia, Coimbra, Livraria Almedina,1984.

Hameline, Daniel e Nóvoa, António, "Autobiografia inédita de António Sérgio", in Revista Crítica de Ciências Sociais, nº29, Fevereiro de 1990, pp. 142-143.

Lima, Adolfo (direcção), Enciclopédia Pedagógica Progredior, Porto, Livraria Escolar Progredior, s/d.

Marques, José Henriques da Costa Ferreira, "Apresentação" das Obras Completas de Faria de Vasconcelos, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Vol I, 1986.

Morais, Francisco e Dias, José Lopes, "Estudantes da Universidade de Coimbra naturais de Castelo Branco", Castelo Branco, 1953, pp.330-333.

Rodríguez, Herminio Barreiro, Lorenzo Luzuriaga y la Renovacion Educativa en España (1889-1936), A Coruña, Ediciós do Castro, 1989.

Seara Nova, nº 43, 15 de Março de 1925, p. 130.

Vasconcelos Faria de, Por Terras de Além-Mar: Viagens na América, Lisboa, Seara Nova, 1922.

Vasconcelos, Faria de, O Materialismo Histórico e a Reforma Religiosa do Século XVI , Obras Completas de Faria de Vasconcelos Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, vol.I, 1986.

Vasconcelos, Faria de, Une École Nouvelle en Belgique, Paris, Neuchatel & Niestlé S. A. Editeurs, 1915.


Notas

1. Rodríguez, Herminio Barreiro, Lorenzo Luzuriaga y la Renovacion Educativa en España (1889-1936), A Coruña, Ediciós do Castro, 1989, p.19.

2. Certidão de nascimento e Baptismo de Faria de Vasconcelos, Arquivo Distrital de Castelo Branco.

3. Dias, José Lopes, "Itinerário Biobibliográfico de Faria de Vasconcelos", in Estudos de Castelo Branco nº30 1/7/1969, p.84.

4. Gomes, Joaquim Ferreira, Estudos de História e Pedagogia, Coimbra, Livraria Almedina,1984, p. 119.

5. Morais, Francisco e Dias, José Lopes, "Estudantes da Universidade de Coimbra naturais de Castelo Branco", Castelo Branco, 1953, pp.330-333.

6. Vasconcelos, Faria de, O Materialismo Histórico e a Reforma Religiosa do Século XVI , Obras Completas de Faria de Vasconcelos Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, vol.I, 1986, pp5-6.

7. Marques, José Henriques da Costa Ferreira, "Apresentação" das Obras Completas de Faria de Vasconcelos, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Vol I, 1986.

8. Gomes, Joaquim Ferreira, Estudos de História e Pedagogia, Coimbra Livraria Almedina, 1984, pp 120-121.

9. Ferrière, Adolphe, "Prefácio" a Une École Nouvelle en Belgique, Paris, Neuchatel & Niestlé S. A. Editeurs, 1915.

10. Vasconcelos, Faria de, Une École Nouvelle en Belgique, Paris, Neuchatel & Niestlé S. A. Editeurs, 1915, p.19.

11. Vasconcelos, Faria de, Une École Nouvelle en Belgique, op. cit.

12. Os únicos princípios que não se cumpriam em Bièrges eram a co-educação dos sexos (por ser proibido pelas leis belgas) e, em parte, o agrupamento dos alunos em casas separadas (por ter sido impossível na altura construir novos edifícios) - Une École Nouvelle en Belgique, pp.18-19.

13. Fernandes, Rogério, op. cit., p.127.

14. Hameline, Daniel e Nóvoa, António, "Autobiografia inédita de António Sérgio ", in Revista Crítica de Ciências Sociais, nº29, Fevereiro de 1990, pp. 142-143.

15. "Autobiografia inédita de António Sérgio ", cit., nota 2,p.142

16. "Autobiografia inédita de António Sérgio", cit., pp.148-149.

17. Curiosamente a obra nunca foi traduzida para Português.

18. "Adolphe Ferrière tinha convidado António Sérgio para fundar uma Escola Nova em Cuba. O convite não foi aceite, tendo vindo a recair sobre Faria de Vasconcelos esta missão, infelizmente coroado de pouco êxito." "Autobiografia inédita de António Sérgio", cit., p.149.

19. Dias, José Lopes, "Itinerário Biobibliográfico de Faria de Vasconcelos", art. cit., nº30 de 1/7/69, p.89.

20. Vasconcelos Faria de, Por Terras de Além-Mar: Viagens na América, Lisboa, Seara Nova, 1922.

21. Curiosamente estas frases fazem lembrar as que o Decreto 21014 de 1932 determinava que constassem dos textos dos livros de leitura adoptados oficialmente em Portugal:"Obedece e saberás mandar; Se tu soubesses o que custa mandar, gostarias mais de obedecer toda a vida", etc., frases essas célebres no discurso de Salazar. Mas Faria, como já ficou dito, era um professor e não pretendeu ser um político...

22. Faria de Vasconcelos, Por Terras de Além-Mar: Viagens na América Lisboa, Seara Nova, 1922, pp7-26.

23. Esta Universidade foi fundada em 1624 e é uma das mais antigas da América.

24. Faria refere no texto "En El Instituto Superior de La Paz ", cit., os seguintes:"Ecos de la Fiesta Intelectual y Artística de la Escuela Normal"; "A Propósito del Gobierno Proprio en la Escuela " "Problemas de Psicopedagogia - Tests, Perfiles y Psicogramas ", "Las Matematicas y la Psicologia" e "El Horario de la Escuela Normal" "El Gobierno Proprio en la Escuela", "Reorganización de los Jardines de Niños en la Republica", "Regulamento Interno de la Sección de Jardineras de Niños", "Reorganización de los Trabajos Manuales en la Escuela Normal " e "El Cuarto Grado Primário Con Tendencias Profissionales "

25. Note-se que tal obra foi levada a cabo, em Portugal, pela Fundação Calouste Gulbenkian, aonde jogou papel de relevo Azeredo Perdigão, amigo de Faria de Vasconcelos, como refere J. Ferreira Marques, na "Apresentação" das Obras Completas de F. Vasconcelos: "Regressou a Portugal em fins de 1920.(...); aparece ligado à Universidade Popular Portuguesa, ao grupo Seara Nova, à Escola Normal Superior e à FLUL. [XII]. «Ao lado de Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Azeredo Perdigão, Raúl Proença, António Sérgio(...)»".

26. Dias, José Lopes, art. cit., p.94.

27. Gomes, Joaquim Ferreira, Estudos de História e Pedagogia, op. cit. pp. 138-139.

28. Lima, Adolfo (direcção), Enciclopédia Pedagógica Progredior, Porto, Livraria Escolar Progredior, s/d. A publicação desta obra parou na letra "C".

29. Esta Revista, foi fundada em 1902 por Jesuítas, que igualmente a dirigiram, sendo considerada de grande valor.

30. Seara Nova, nº 43, 15 de Março de 1925, p. 130.

31. Diário do Governo, II Série, nº 151, de 2 de Julho de 1923.