clique para imprimir esta páginaclique para imprimir este documento
Imagem utópica: a viagem em a
Jangada de pedra, de José Saramago

e
Quarup, de Antônio Callado

 
Maria de Fátima Sendão Gomes Morashashi
USP

O intuito na presente comunicação é comparar a imagem utópica entre os romances A Jangada de Pedra, de José Saramago e Quarup, de Antônio Callado, em que ambos tratam do tema viagem. Em A Jangada de Pedra a Península Ibérica é desmembrada do Continente Europeu e vai navegando pelo oceano Atlântico, numa viagem à deriva. Em Quarup, o padre Nando vai cumprir seu rito de iniciação, em três partes: a busca do amor de Francisca, a construção de um mundo a partir do índio e a busca de uma ação transformadora e revolucionária. As imagens utópicas das viagens de dos romances configurariam um autoconhecimento, a procura da identidade perdida.

Antes de iniciarmos a análise, definiremos a simbologia da viagem - Ela não é apenas uma translação no espaço, é também busca por mudança ou recuperação de uma experiência vivida. Estudar, pesquisar, viver intensamente o novo, são modos de viajar - diz Jung – "do anseio nunca saciado, que em parte alguma encontra seu objeto". O referido autor assinala mais adiante que esse objeto é o encontro da mãe perdida, mas, poderíamos também dizer que é fuga da mãe (romper com o cordão umbilical, a necessária ruptura para a nova vida). Voar, nadar, correr, sonhar, imaginar, equivalem a viajar, porém a verdadeira viagem nunca é fuga nem submissão, é evolução; por isso as viagens iniciáticas tomam a forma de "viagem simbólica", partindo das trevas ao mundo profano ou do inconsciente ao consciente, do sonho noturno para o sonho diurno. As etapas da viagem são ritos de purificação - o arquétipo da viagem é a peregrinação ao "centro" , em busca da terra santa ou saída do labirinto. No sentido primário, viajar é procurar. Além de viajante o homem é a própria viagem.

A imagem utópica em A Jangada de Pedra-(JP), é a Península Ibérica que se desprender do Continente Europeu e tornar-se ilha. Comparando com A Utopia de Tomás Morus ambas as ilhas buscam sistemas culturais próprios, obtendo-se a identidade e neste sentido o desejo se concretiza.

O projeto utópico de Saramago leva Portugal e Espanha para o Atlântico Sul construindo um futuro ibérico em meio à unificação européia, separando-se do velho mundo. Saramago, em entrevistas a jornais, desabafa: "Portugal, este país que somos, é hoje o mais atrasado da Europa. Nenhuma glória passada ou sonho futuro pode ignorar a dura realidade. A integração será aquele santo remédio que não mais conseguiremos sozinhos."

"A Península Ibérica separa-se porque nunca esteve ligada à Europa. Se olharmos a história da Europa, veremos que esta área, para além de ter suas características próprias, foi sempre vista como qualquer coisa de apendicular. A Europa como tal nunca existiu. Existiram sim, focos de domínio. No fundo nos últimos anos tudo se tem passado entre Alemanha, França e Grã-Bretanha. Depois com as transformações políticas do século vinte - e só no século vinte, a Europa foi atravessada por duas guerras monumentais- toda essa imprecisão se agravou..." 1

A Jangada de Pedra tem um sentido revolucionário e propõe uma nova leitura parodística da Bíblia, como na passagem do Êxodo - paradigma da luta de libertação de um povo escravizado. A ruptura da península poderia então significar o desejo e o ato da busca da "terra prometida". O seu percurso não é de atravessar o Mar Vermelho, mas sim fixar-se no Atlântico Sul, entre África e América do Sul, continentes da mesma identidade cultural.

Mas nem só a Península Ibérica viaja, os personagens também viajam, dentro da península, com um sentido de solidariedade - o papel de protagonista de um romance, geralmente é desempenhado por um personagem apenas - Neste romance não há um protagonista, mas sim, cinco personagens que dividirão entre si os momentos de uma viagem solidária. Não são iguais, cada um tem suas características próprias que se juntam ao mesmo oceano. Os personagens, figuras misturadas entre o humano e o sagrado, são unidos por um laço comum nessa viagem à deriva, assegurando assim a construção de uma realidade maravilhosa, um sonho, uma utopia.

Saramago neste romance não está preocupado apenas com Portugal e Espanha, que seria mero nacionalismo, mas com o mundo em relação aos indivíduos e vice-versa.

A Jangada de Pedra organiza-se pelo inconsciente coletivo; o povo em busca da identidade. A península parou (p.317), mas a viagem continua. Eis a síntese do romance, fazer funcionar a democracia

Em Quarup o personagem Nando, o herói individual, coloca-se como eco das aspirações coletivas. Ao longo dos sete capítulos do romance podemos verificar seu desenvolvimento crescente, em sua "viagem" utópica, como segue:

O ossuário - Nando é apresentado como se fosse o esqueleto do personagem, um padre submisso às ordens superiores; sua missão seria catequizar os índios, mas há um obstáculo, a relação homem-mulher, na questão do voto de castidade. Nando teme ver as índias nuas no Xingu. Conhece Levindo, revolucionário refugiado que se esconde no Ossuário e Francisca, noiva de Levindo, que é artista plástica e está restaurando os azulejos do local. Ele apaixona-se platonicamente por Francisca. Antes da sua partida para o Xingu, Winifred inicia-o na educação sexual.

O éter - Neste capítulo o éter representa a "liberação geral dos sentidos", a necessidade de perder-se para encontrar-se, o exercício do autoconhecimento. Nando conhece um grupo de pessoas no Rio de Janeiro e entre elas, Vanda, a continuadora da sua educação sexual e, posteriormente Lídia, a preparação para o amor pleno com Francisca.

A maçã - No sentido bíblico a maçã é o fruto do pecado - Adão e Eva são expulsos do paraíso, por terem comido o fruto proibido - Nando está pronto para "pecar", sair do "velho mundo" para entrar no "mundo infernal": acontecer de verdade e não platonicamente, como no amor idealizado nas relações entre ele e Francisca.

Nestes três capítulos, Nando cumpriu seu rito de aprendizado interior, o sonho noturno, preparação para assumir sua vida plena exteriormente: é o sonho diurno. No capítulo seguinte ocorre a concretização do amor pleno e a iniciação dum "novo homem".

A orquídea - É o centro do romance, capítulo que leva a expedição em busca de Sônia e ao centro do Brasil e onde Nando viu pela primeira vez Francisca transferida para seu mundo real, Eles se amam na vereda das orquídeas. Nando não é mais padre.

A palavra - Apresenta a teoria necessária para o novo homem. Francisca leva a terra do centro geográfico para Pernambuco, promessa feita a Levindo. Permanecendo fiel a seus ideais, passa a alfabetizar camponeses, dando-lhes uma formação da consciência política. Com o golpe militar de 64, ocorrem várias prisões, entre elas, a de Nando, preso por simpatizar com a esquerda.

A praia – Ocorre aqui a aplicação da teoria. Na nova missão, o apostolado do amor, Nando difunde aquilo que aprendera com Francisca, a arte de amar, numa comunhão total dele com o mundo exterior. Neste capítulo ocorre também a festa igual a quarup, homenageando Levindo, o guerrilheiro.

O mundo de Francisca - a transformação da identidade. Nando troca de nome, e passando a chamar-se Levindo, acaba sendo perseguido por militares, porque a esquerda se desmantela. Nando parte para o sertão numa nova luta, guarda no bolso as cartas de Francisca, restam apenas como lembrança. A paixão por Francisca é superada. A construção do personagem está pronta para seguir seu caminho.

O homem é o construtor de sua história. Nessa perspectiva os romances se igualam e diferem-se da forma de viagem. Em Quarup o personagem individual tem aspiração coletiva, desenvolve-se na medida em que a narrativa cresce, numa viagem de transformação revolucionária. Em JP, os personagens são todos viajantes e podem ser agrupados em coletivos e individuais, representando assim a própria península em viagem. Toda essa atitude de querer repensar a história e mudar sua realidade, está ligada ao íntimo, no desejo a ser alcançado, a chegada ao "centro", ou seja o autoconhecimento.


Notas

1. Pedrosa, Inês "A Península Ibérica nunca esteve ligada à Europa" entrevista Revista Letras, em 10.11.86


Bibliografia

ABDALA, B. JR. Literatura, História e Política, Ed. Ática, São Paulo, 1989.

Bíblia Sagrada, por Frei Alcindo Costa , Stampley Pub. São Paulo, 1974.

ABENSOUR, M. - A utopia socialista: uma nova aliança entre e religião, Ed. Unicamp, Campinas-SP, pp.177-238, 1990.

CALLADO, ANTONIO - Quarup, Civilização Brasileira, 4ª ed., Rio de Janeiro, 1969.

CHEVALIER, J. E CHEERBRANT,A. Dicionário dos Símbolos, 10ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1996.

CHIAPPINI, L. M. L. Antonio Callado, Literatura Comentada, Abril Cultural, São Paulo, 1982.

CIRLOT, J.E. Dicionário de Símbolos, Ed. Moraes, São Paulo, 1996.

FEITOSA, M.M.M. - A Condição Ibérica em A Jangada de Pedra de José Saramago, São Paulo, 1992.

JAMESON, F. O inconsciente político, Ed. Ática, São Paulo, 1992.

MORRIS, W. - Utopia libertária e novação técnica In: Miguel Abensour, O novo espírito utópico, Ed. Unicamp, Campinas- SP, pp. 115-175, 1990.

MORUS, T. - Utopia, Ed. Guimarães, Lisboa, 1990.

SARAMAGO, JOSÉ - A Jangada de Pedra, Cia das Letras, São Paulo, 1994.