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Ironizando a fala do outro:
análise de citações na folha de s.paulo Sonia Aparecida Lopes Benites
Universidade Estadual de Maringá - Paraná 1. Conhecendo o jornal A leitura do Novo Manual de Redação da Folha de S.Paulo (NMR), publicado em 1992, permite captar a auto-imagem desse periódico, que se propõe "realizar um jornalismo crítico, apartidário e pluralista" (p. 13). Para mostrar a realidade do ponto de vista crítico, postula-se a comparação de fatos, o estabelecimento de analogias, a identificação de atitudes contraditórias e a veiculação de diferentes versões para um mesmo acontecimento. O NMR enfatiza que o jornalismo crítico não depende da opinião de quem escreve, sendo mais contundente o registro ou o confronto de dados, as informações e opiniões alheias do que as do próprio jornalista (cf. verbete opinião). O apartidarismo e o pluralismo pregam o não atrelamento do jornal a grupo, tendência ideológica, ou partido político (p. 8). Estabelecem, ainda, que o jornal deve negar-se a participar de campanhas para enaltecer ou desacreditar pessoas, e adotar uma posição clara face a toda questão controversa, além de publicar posições divergentes da sua. Pode-se constatar, nessa auto-imagem do jornal em estudo, uma certa tensão entre a pretendida objetividade e o seu caráter opinativo. Por outro lado, a idéia que a "Folha" faz de seu alocutário-padrão é a de um leitor mais escolarizado que a média dos brasileiros e interessado não só em notícias, mas também numa análise mais cuidadosa dos fatos e no aprofundamento de matérias referentes a um abrangente leque de atividades profissionais e socioculturais, todas elas abordadas pelo jornal. 1.1. O jornal visto por outros Nem sempre foi possível identificar claramente a diretriz ideológica que conduz o periódico em estudo, uma vez que, segundo Marcondes Filho (1986), diferentemente de seu principal concorrente, a Folha de S.Paulo não tinha, até pouco tempo, uma identidade política definida. Segundo o autor, ao contrário de O Estado de S.Paulo, veículo conservador, um porta-voz das elites que compuseram o empresariado do Estado, a Folha de S.Paulo, periódico lido majoritariamente pelos diversos setores da classe média, oscilou, como esses setores, de posições direitistas para esquerdistas. Teria chegado a ficar, por vezes, do mesmo lado de O Estado. Em outros momentos, como no período da censura à imprensa, imposto pelo governo Médici, enquanto outros veículos publicavam, nos espaços de matérias censuradas, receitas culinárias, versos de Camões, desenhos, arvorezinhas e faixas pretas, a Folha abstinha-se de protestar contra as arbitrariedades cometidas pelo governo. Conforme o mesmo registro, uma outra feição do jornal começou a ser delineada, a partir do início da abertura política, quando houve uma espécie de explosão das camadas médias da população, até então sufocadas pelo fechamento político. Nesse momento, a Folha tratou de absorver rapidamente jornalistas da imprensa alternativa e, a partir daí, procurou lançar-se como o jornal da abertura. O empenho na campanha de 82, como simpatizante do PMDB, já significara um primeiro passo na sua afirmação política. Com a perspectiva das diretas-já, em 1984, Marcondes Filho lembra que a Folha entrou no movimento, após curta indecisão, transformando-se em sua porta-bandeira, e, constatando a agregação de que passara a ser objeto, obteve, através dele, dividendos ideológicos e econômicos. Poder-se-ia acrescentar que, após a derrota da emenda das eleições diretas, o jornal prosseguiu na defesa da normalidade democrática, assumindo uma atitude fiscalizadora junto a governantes de todos os níveis, o que permite classificá-lo, no período abrangido pelo "corpus", que vai de março a julho de 1991, como um veículo de oposição ao governo. O momento histórico referido teve importância decisiva para o Brasil contemporâneo, uma vez que coincidiu com o início da veiculação dos episódios que culminariam no "impeachment" do presidente da República, Fernando Collor de Mello. Após um pequeno distanciamento temporal, é possível constatar que o jornal, mais do que narrar e comentar os fatos, exerceu influência sobre seu desfecho. Como se sabe, na época, ocorria o famoso embate Folha - Collor: o presidente movia um processo judicial contra o jornal, supostamente, devido à divulgação de especulações sobre contratações ilegais que teriam sido realizadas pelo governo federal. O jornal, por seu lado, argumentava não ter sido o único nem o primeiro periódico a fazê-lo, embora fosse o único a sofrer sanções, fato que demonstraria claramente "um desejo de perseguir a Folha", por parte do governo federal. 2. Ao contar a história ... Segundo a Folha de S.Paulo, a notícia, sua matéria-prima, consistiria no "puro registro de fatos, sem opinião" (NMR, verbete notícia). Entretanto, esse caráter impessoal, ingenuamente atribuído à notícia é altamente islusório, pois ela reflete crenças e perspectivas da coletividade que a produz. Se é verdade que não existem discursos objetivos, existem estratégias discursivas que, habilmente empregadas, constroem o efeito de objetividade. Dentre elas, destacam-se os relatos de fala, que, na visão do NMR, conferem credibilidade à informação e dão vivacidade à reportagem, além de ajudar o leitor a conhecer melhor a personagem da notícia. Esse efeito de objetividade comumente atribuído pela imprensa ao relato do discurso do outro revela-se, porém, ilusório, já que, conforme Bakhtin (1979), as palavras do outro introduzidas em um discurso são revestidas, inevitavelmente, da compreensão e da avaliação do locutor que delas lança mão, tornando-se, portanto, bivocais. Dessa forma, o relato de fala constitui-se em um recurso altamente argumentativo, utilizado para persuadir, "atingir a vontade", buscar adesao, e envolve, basicamente, subjetividade. Dentre as funções que um relato de fala pode exercer no texto de quem dele se utiliza, aquela que visa a ridicularizar a declaração relatada ou seu autor é o objeto do presente trabalho. 3. O jornal comenta a história Embora, na teoria, o jornal em análise recomende a seus jornalistas que evitem imprimir às palavras tom irônico, recurso admitido apenas em textos assinados ou em colunas de bastidores (e, mesmo assim, com cautela, já que a ironia pode não ser entendida pelo leitor) não é esse o comportamento que uma análise do periódico revela. A ironia confluente com o processo de citação de falas aqui analisada é um fenômeno complexo no qual se revela, simultaneamente, uma polifonia de locutores e de enunciadores (Ducrot, 1984): de locutores, pelo cruzamento de falas que acompanha todo processo de dupla enunciação, típico das formas de discurso relatado; de enunciadores, porque, identificados com um e com outro locutor, entram em cena dois pontos de vista diferentes, ou dois enunciadores. Segundo Reyes (1984), o locutor irônico cumpre dois papéis ao mesmo tempo: o de um locutor fictício, ingênuo, ao qual é atribuída uma proposição literalmente expressa, e o de um verdadeiro agente do ato de fala, que nega ou questiona essa proposição. A negação ou o questionamento são feitos de forma subentendida e só podem ser depreendidos a partir de marcas deixadas pelo locutor, que podem ser lingüísticas, gestuais ou situacionais. A falsa adesão do locutor citante a um ponto de vista que não é propriamente o seu, enquanto enunciador tem a função argumentativa de exprimir uma concepção absurda ou distorcida de uma dada realidade e, com isso, convencer o leitor de um ponto de vista contrário. Daí, o valor polifônico-argumentativo de todo processo de ironia. Considera-se, neste trabalho, que a citação com essa função pode pender para o sarcasmo ou para o humor. Para exemplificar a primeira modalidade, vale lembrar uma reportagem assinada por Josias de Souza, de 12 de maio de 1991, enfocando as causas da queda da ministra Zélia Cardoso de Mello, que apresenta uma conotação irônico-sarcástica, ao indicar, através de aspas, o inconveniente grau de intimidade existente entre as personagens referidas na fala (Zélia e Bernardo Cabral, dois ministros de Estado). Observa-se aí que a presença da ironia consiste em adotar e destacar pelas aspas, na estrutura interna do discurso indireto, um rápido permeio de fala da locutora citada e o ponto de vista do enunciador que ela representa, não para conjugar-se a ele, mas para expô-lo ao ridículo. A então fortalecida ministra (Zélia) não negou o encontro na casa de Flores, mas disse (ao presidente Collor) que ele havia ocorrido há muito tempo. Afirmou ainda que não via "Bernardo" desde janeiro de 91.(12/05, 1-10). Diferentemente daquela que pende para o sarcasmo, na ironia direcionada para o humor, o locutor citante atenua sua discordância ou reprovação para com o conteúdo citado, com um posicionamento zombeteiro, jocoso. É o caso de uma referência feita pelo deputado Delfim Netto à prefeita Luíza Erundina. Como se sabe, a prefeita é natural da Paraíba, Estado sempre carente de chuvas, e cujos moradores costumam invocar o auxílio dos santos, em especial do Padre Cícero, para a solução de seus problemas. Tirando partido desse fato de conhecimento comum, representando a voz geral do povo da Paraíba e, ao mesmo tempo, adaptando-a ao novo contexto, o locutor Delfim faz uma declaração com grande efeito humorístico, captado pelo Jornal: Do deputado federal Delfim Netto (PDS -SP) sobre o volume de chuvas que caiu sobre São Paulo, inundando a cidade, desde que a prefeita Luíza Erundina (PT) tomou posse: - Com essa capacidade da Erundina de atrair chuva, se ela voltasse para a Paraíba ia ser chamada de "Madre Cícera".(28/04/91, 1-4). As aspas permitem, no exemplo dado, o destaque para a expressão que cria o humor e para a intertextualidade que ela explora. Há aqui três planos: o do jornalista que cita, o de Delfim e o da fala nordestina suscitada, em uma primeira intertextualidade, por Delfim. Na acolhida da fala de Delfim, sob forma de discurso direto, manifesta-se a simpatia do jornalista para com o humor produzido e a intenção de trazer à luz uma declaração típica dos bastidores folclóricos da política. 4. Estruturas utilizadas para ironizar o discurso relatado 4.1. Diluindo a autoria De maneira geral, no discurso irônico, a menção que duplica o uso da linguagem é velada, sendo possível estabelecer-lhe o sentido unicamente em sua relação com outros discursos e em sua relação com a situação histórico-ideológica em que foi produzido. No discurso relatado presente no texto jornalístico, particularmente, o não atendimento a esse pré-requisito pode levar o destinatário a interpretar equivocadamente a intenção irônica do locutor. Outro fator que pode dificultar a atribuição do sentido irônico à citação é a extrema variação formal que pode ser observada em sua estrutura, particularmente no discurso jornalístico. A título de exemplificação, é possível lembrar a tendência a iniciar a citação em discurso direto, seguindo-o de uma seqüência sintetizadora do conteúdo da fala. É o que pode ser notado no registro do tom pitoresco das palavras do jornalista Paulo Francis, citadas por Roberto Romano, sem o emprego de aspas, o que torna ambígua a citação, dificultando o estabelecimento do limite entre o que diz o jornalista e o que diz o locutor citado. É evidente que essa diluição de autoria pode ser precisamente o efeito desejado pelo locutor citante. No referido artigo, publicado na seção TENDÊNCIAS/DEBATES do dia 17 de abril de 1991, o autor, citando Erasmo, em "Rei ou tolo, se nasce", aborda a tolice e cegueira de povos que admiram em seu governante atributos inteiramente dispensáveis para o exercício do cargo. As palavras de Paulo Francis, proferidas quando da posse do presidente, são empregadas com o intuito de ilustrar a consideração de que a população brasileira elegera Collor graças a sua aparência, a seu discurso, a sua posição social e a sua formação cultural. Entretanto, o não aspeamento das palavras citadas, torna difícil, em um primeiro momento, o estabelecimento de fronteiras entre a fala de Romano e a de Francis, não sendo possível estabelecer com exatidão se a seleção das expressões é do locutor citante ou do locutor-fonte. A dúvida se dissipa no trecho que se segue, que mais parece um comentário sintetizador da fala de Paulo Francis, com tomadas do pitoresco das declarações do locutor citado. Assim, a dificuldade inicial em estabelecer qual é o locutor responsável pelas expressões "novo príncipe" (Collor) e "candidato derrotado, mas digno" (Lula), esclarece-se logo após, quando Romano se refere a Paulo Francis como "adulão contumaz dos fortes", o que desautoriza qualquer declaração sua, no artigo em questão: Quando o atual ocupante do poder federal assumiu o cargo, Paulo Francis exclamou: ele é bonito, alto, loiro. No momento, o articulista comparava o novo príncipe com Luís Inácio da Silva, candidato derrotado, mas digno. Não só o adulão contumaz dos fortes, mas também as senhoras da classe média, viam no eleito, à guisa de dote político, o lado cosmético. (17/04/91,1-3) Mais adiante, o autor, ainda lembrando Erasmo, afirma que a lisonja torna-se verdadeira praga no caso de o governante apresentar traços despóticos. Graças à lisonja, o crítico honesto de ontem dobra a espinha e a língua, mudando radicalmente o sentido de suas palavras. Para ilustrar essa constatação, o articulista faz referência à mudança verificada no discurso do governador Leonel Brizola, que, durante a campanha presidencial de 1989, argumentando contra a candidatura Collor, pedira à população que extraísse das entranhas o "não" às pessoas que herdaram costumes e atos ditatoriais. Na passagem referida, há um misto de estruturas de discurso direto (na forma de introdução) e de discurso indireto (na transposição do tempo verbal). Reflete-se aí uma tendência do Jornal para a liberdade no manejo de estruturas, que consiste em uma fusão entre locutor citante e locutor citado, muito próxima daquela que ocorre no discurso indireto livre: De forma gaiata, mas ligada ao verdadeiro, o mesmo político disse, e repetiu: escolher entre Collor e Maluf era optar entre o capeta e o coisa ruim. A ausência de aspas, após a introdução típica de discurso direto, faculta mais ainda a simbiose entre os dois locutores, fazendo crer que, nesse contexto, o jornalista concorda inteiramente com a afirmação do político. 4.2. Envolvendo o leitor Na introdução de uma fala citada em discurso direto, pode ser registrado o recurso à preposição de seguida pelo nome do locutor e, ocasionalmente, por uma construção adverbial especificadora do assunto a respeito do qual trata a elocução. Essa construção parece sugerir um verbo "audiendi" elíptico no início da frase, já que se reconhece a posição de ouvinte que se auto-atribui o locutor que cita. A citação em discurso direto que se segue ao recurso gráfico dos dois pontos, pode vir aspeada ou precedida de travessão. Essa estrutura é típica do Tiroteio, seção que explora o anedótico, os casos folclóricos que são contados no meio político: Do presidente do PMDB, Orestes Quercia, sobre o governo do presidente Fernando Collor: - O governo Collor vai muito mal. O pessoal que está tomando conta não é do ramo. Quando aprender, acaba o mandato. (08/05/91 p. 1-4). As chamadas citações de cultura ( Maingueneau, 1989) nas quais ocorre a adesão entre os "seres do discurso" e entre eles e os alocutários, pelo pronto conhecimento do sentido de uma voz geral, também apresentam freqüentemente um cunho irônico. Quando da queda da ministra Zélia e do início da chamada fase "soft" do governo, houve uma corrida dos governadores e parlamentares aos cofres públicos federais. Todos, inclusive os tidos como oposicionistas, como Leonel Brizola, dirigiam seus pedidos de verbas a Brasília. Visando à caracterização da situação de troca de favores tão presente nos meios políticos, o jornal utiliza-se do já comum desvirtuamento das palavras de São Francisco de Assis "É dando que se recebe". A mudança do entorno da citação, ou seja, a aplicação da expressão a uma esfera diferente de experiência, confere-lhe um significado novo, irônico e cômico. Da mesma forma, para relatar a reação verbal de Brizola, quando abordado sobre o assunto, reproduz, sob forma de discurso indireto, o dito popular "Quem não chora não mama". O registro de tais estereótipos reunidos, além de provocar a adesão automática do leitor, garante rendimento comunicativo eficaz: sendo o seu significado corrente conhecido de todos os leitores, a compreensão do significado cômico-irônico de toda a situação ali resumida é imediata. A citação com essa função revela-se, assim, um importante recurso textual-argumentativo e a sua exploração como palavra bivocal divergente acusa o ponto de vista crítico do jornalista: Na nova versão do "é dando que se recebe", Brizola diz que "quem não chora não mama" (26/05, 1-1) A observação dos exemplos enumerados traz à lembrança o importante papel desempenhado pelas aspas, não apenas na busca pela fidelidade no relato, pois, através delas, o locutor rompe a aparente homogeneidade do texto, nele inserindo a voz do outro e autenticando seu próprio discurso (cf. AUTHIER-REVUZ, 1980), mas também para acrescentar ao relato uma nota de ironia. É o que pode ser observado, igualmente, em um artigo em que o jornalista Josias de Souza, comentando a (falta de) atuação do ministro do Trabalho, Antônio Rogério Magri, a ele se refere, ironicamente, como Magri(nho), o halterofilista, lutador de judô e rasgador de listas telefônicas que Collor improvisou como ministro. Conforme ressalta o jornalista, apesar das constantes humilhações a que era submetido, Magri via-se impossibilitado de pedir demissão, devido a uma declaração que fizera. O aspeamento da referida declaração, ressalta a situação incômoda em que o próprio ministro se colocara: O pior é que Magri(nho) não pode sequer se demitir. Declarou que demissão é coisa de ministro "incompetente ou corrupto".(17/04/91, 1-2). 5. Prevenindo mal-entendidos Conforme se viu até o momento, na ironia, a menção que duplica o uso dos vocábulos é velada, sendo o seu reconhecimento e a sua interpretação possíveis unicamente com o auxílio de dados do contexto verbal circundante e de referências que apontam para o ponto de vista de um enunciador crítico, com o qual o locutor se identifica. Por essa razão, temendo que o leitor faça uma leitura literal e ingênua, deixando de captar sua intenção sarcástica, o autor da ironia muitas vezes aponta explicitamente a direção em que suas palavras devem ser interpretadas. Esse objetivo de evitar ambigüidades ou mal-entendidos apresenta-se, especialmente, em textos com feitio de comentário e pode ser exemplificado pelo artigo de Roberto Romano acima referido, que comenta a aproximação do governador Leonel Brizola com o presidente Fernando Collor de Mello, por ele duramente criticado durante a campanha presidencial. O autor lembra que o governador chegou a tachar o então candidato à Presidência de "filhote da ditadura". Todavia, pouco mais de um ano depois, Brizola aproximou-se do presidente, em nome dos "valores mais altos do povo brasileiro". O locutor citante, autor do texto, ironicamente, aspeia o torneio verbal, adotando um ponto de vista que o leva a conferir à palavra uma acepção negativa, diferente, portanto, do ponto de vista de Brizola, locutor citado. O estatuto divergente dessa palavra bivocal aspeada fica estampado, logo em seguida, por uma cadeia de questionamentos que ridicularizam, passo a passo, a afirmação do governador, numa forma de revelação precisa do tom irônico com que é feita a referida citação: Quais os "valores" prezados na santa aliança entre Brizola e Collor? O confisco impiedoso atentando diretamente contra a propriedade dos cidadãos? (...) O silêncio cúmplice face à matança de corpos infantis? A invasão de jornais, a tentativa de silenciar críticas com processos espúrios, baseados em ordenamentos espúrios, como é o caso da atual campanha contra a Folha? (...) (17/04, 1-3) Em algumas situações, a explicitação da ironia revela-se propícia ao emprego de verbos "sentiendi" encabeçando o processo de citação da fala do outro. É o caso, por exemplo, da informação jornalística sobre a primeira reunião do ano de 1991 da Assembléia Legislativa de São Paulo, em que ganha vulto o descontrole emocional de alguns deputados presentes. No texto, são utilizados verbos e locuções que, embora à primeira vista possam parecer inadequados para referir-se a atitudes de parlamentares, transmitem com propriedade o clima em que se deu a discussão e revelam a total desaprovação do locutor para com o fato que cita. A seqüência de discursos diretos empregada tem o efeito cênico revelador do clima de discussão já denunciado pela manchete da reportagem ("Bate-bocas dominam primeiro dia na Assembléia de São Paulo"): Duas horas após a abertura da primeira sessão ordinária da Assembléia Legislativa, ontem, os deputados estaduais já haviam se encarregado de mandar para o espaço o decoro parlamentar. "Excludente, sectário", berrou o líder do PMDB, Arnaldo Jardim, para o deputado Ivan Valente (PT) que ocupava a tribuna. "O senhor é um intolerante", retrucou o petista. (...) "Isso aqui não é lugar de brincadeira", precisou lembrar aos demais o deputado Valente. O barulho todo começou porque os petistas resolveram devolver os carros a que têm direito. Ao todo, 14 carros modelo Opala. "Os Opalas estão com a imagem desgastada junto à opinião pública", argumentou Cunha. Aí não se sabia se o problema era com o carro oficial ou com a marca do automóvel. O líder do PDS, deputado Sílvio Martini, perguntou: "Mas vão devolver só os carros ou vão exonerar os motoristas também?" Não apareceu ninguém do PT para responder.(...). (20/03 p.1-4) Como se vê, na transcrição da fala do outro relatada sob forma de discurso direto, a avaliação do locutor citante pode ser efetuada sob forma de comentários no intervalo entre dois fragmentos de fala transcrita, ou após um deles. Nessa linha, o verbo ironizar é empregado para caracterizar a atitude comunicativa do deputado Erasmo Dias, quando questionado a respeito de nepotismo: O deputado Erasmo Dias (PDS) nomeou para um dos três cargos em comissão a filha Márcia (...). "Tenho no meu gabinete uma filha minha e dez filhos dos outros", ironizou. "Nepotismo seria o contrário".(14/04/91, 1-10). Conclui-se, assim, que, embora afirme perseguir o máximo de objetividade possível, o jornal reflete constantemente a presença humana, a participação, o engajamento, uma vez que o locutor que cita efetua um aproveitamento diferenciado das alternâncias de vozes no interior do texto, interferindo, em graus diversificados, nas falas que relata. Dentre as funções que pode assumir o emprego do discurso de outrem destaca-se a função de ironia, que, seja de forma implícita ou explícita, revela-se um importante recurso de ordem textual-discursiva. Referências Bibliográficas AUTHIER-REVUZ, Jacqueline. 1980."Paroles tenues à distance". Materialités Discursives, Colloque des 24,25,26 de abril, 1980. Universit‚ Paris X - Nanterre Press Universitaires de Lille. BAKHTIN, M. 1979, Marxismo e Filosofia da Linguagem. (Trad. M. Lahud e Y. E. Vieira). Hucitec, São Paulo. (Coleção Linguagem). DUCROT, O. 1984, O Dizer e o Dito. Pontes, Campinas. Folha de S.Paulo, caderno brasil, exemplares de domingo e quarta-feira, 13/03/91 - 14/07/91. MAINGUENEAU, D. 1989, Novas tendências em Análise do Discurso. (Trad. Freda Indursky), Pontes, Campinas. MARCONDES Fº, C. 1986, O Capital da Notícia (jornalismo como produção social de segunda natureza). Ática, São Paulo. Novo Manual da Redação. 1992. Folha de São Paulo, São Paulo. REYES, Graciela. 1984, Polifonia Textual - La citación en el relato literario. Gredos. (II Estudios y Ensayos), Madri. |