clique para imprimir esta páginaclique para imprimir este documento
Jorge de Sena e o diálogo luso-brasileiro

 
Ana Maria Leite da Silva
UFRJ

Este trabalho se propõe a fazer uma breve abordagem reflexiva a partir das observações críticas de Jorge de Sena a respeito do Brasil, em seus aspectos culturais e literários, assim como de suas análises acerca das relações luso-brasileiras.

Tendo como corpo base do trabalho cinco textos publicados no volume Estudos de Cultura e Literatura Brasileira, procurou-se definir e analisar que olhar Sena lança sobre nosso país e sobre as relações recíprocas entre Brasil e Portugal.

Os textos utilizados, intitulados " Cartas do Brasil ", não são cartas na acepção estrita do termo. O próprio título já denuncia o que virá a seguir. A preposição do nos dá de imediato a " sensação " de que não encontraremos uma simples correspondência para o Brasil, mas sim um texto escrito "daqui" ( uma vez que Sena já se encontrava morando no país ) e "sobre aqui".

Desta forma os textos são, mais precisamente, crônicas que contém reflexões críticas a respeito dos relacionamentos intelectuais e sócio-culturais entre brasileiros e portugueses, traçando um panorama do Brasil e " contabilizando " os prós e os contras dessa relação. Não se constituindo este tipo de texto em um fato isolado em sua obra, pois, além de um incomensurável acervo de cartas, aqui no sentido estrito, encontra-se também texto similar em referência à Inglaterra. No livro Inglaterra revisitada, composto pelo texto de duas palestras e ainda outros seis textos intitulados "Cartas de Londres", lança, do mesmo modo, um olhar sobre a cultura inglesa. O que nos dá a amplitude de sua obra além da de poeta e ficcionista.

Serão destacados, portanto, dois aspectos principais a serem tratados brevemente no decorrer desta comunicação. O primeiro ressaltará a visão Seniana do Brasil, ou seja, como Sena, já residindo aqui, pensa a nossa literatura e a nossa cultura .

E, a seguir, será tratada uma outra questão, intimamente relacionada à primeira e praticamente indissociável dela. A visão de Sena sobre as relações luso-brasileiras. Mais especificamente, como um português (vivendo no Brasil por um motivo diverso de uma maioria lusitana imigrante) vê como os brasileiros vêem Portugal e as peculiaridades que disto advêm .

Sena lê e vê o Brasil. Em um primeiro momento, registra uma visão do Brasil ainda impregnado de uma ótica européia ou , mais precisamente " os olhos com que fita " são ainda olhos portugueses que exprimem estranhamento e surpresa ao entrar em contato com o que aqui encontra.

As dimensões continentais e os contrastes que são gerados a partir delas fazem emergir uma certa perplexidade diante da realidade brasileira, difícil de ser compreendida por quem, até então, carrega uma perspectiva, talvez não do colonizador, mas do estrangeiro que, apesar de conhecer o Brasil através de sua literatura da qual é um admirador, , sofre o impacto, em suas próprias palavras, de uma "complexidade antropológica e social impensáveis em Portugal ( ... ) " .

A existência concomitante de opulência e miséria , como destaca inúmeras vezes , e , ainda, a coexistência de diversas fases históricas em " um mesmo Brasil " acentuam esse desconforto inicial em tentar entender essa "nova terra".

Esse estranhamento não se restringe a aspectos puramente geográficos ou históricos , mas se revela ainda no que se refere às relações pessoais ou mesmo intelectuais.

Detecta uma espontaneidade brasileira em valorizar , em reconhecer valores ( o que seria bem mais comedido em Portugal ) . Espontaneidade esta que pareceria em princípio " afetuosa" , porém que geraria algumas distorções. Esse contato pessoal e o acesso mais rápido ao renome faria com que houvesse pouca distinção entre bons e ruins . Sena faz, desta forma, uma crítica irônica a uma certa superficialidade nas relações.

"(... ) Isto dá às relações humanas uma peculiar forma de "makebelieve", em que a cordialidade aparente e o desprezo profundo podem entrar na mais variável das proporções. Mas dá-lhes também um caráter de facilidade e de confiança a longo prazo, paradoxal e até comovente . Para resolver um caso , "dá-se sempre um jeito"; e , quando o europeu já imagina que o seu caso foi esquecido, o jeito foi dado ..."

Seria , então , isso um indício de que , sendo um português , Sena estaria fadado a nos lançar um olhar supostamente superior ou preconceituoso ? No decorrer dos seus textos, entretanto, se tem a certeza de que não .

Esse ponto de vista europeu, ou, mais propriamente, lusitano, que poderia parecer carregado de um ranço colonialista converte-se, não para o olhar de um cidadão brasileiro, pois, como o próprio Sena afirma, apesar de sua cidadania brasileira, seria um sempre exilado, um " sem pátria ", mas transforma-se em um olhar peculiar, que consegue enxergar com nitidez o país, sem ufanismo ou revanchismo .

Reconhece o valor da nossa literatura, não só nos textos a que este trabalho se refere mas em inúmeros outros ensaios, prefácios e estudos críticos, ressaltando a importância de inúmeros autores ( Manuel Bandeira, Drummond, Cecília, Érico Veríssimo e outros, muitas vezes por nós mesmos esquecidos, como Ribeiro Couto) ao mesmo tempo em que tece críticas a Portugal por não ter um conhecimento mais amplo da literatura brasileira, ficando restrito a um reduzido número de " mais famosos " .

Assim, pode-se observar uma nova crítica às relações superficiais, ao " sorriso da retórica ", ao conhecimento restrito aos eventos diplomáticos e encontros acadêmicos . Agora, não se referindo só ao Brasil, mas tornando-a recíproca a Portugal .

Desta forma, define-se um olhar mais amplo, que consegue ver com clareza, ultrapassando as fronteiras.

O segundo aspecto, o diálogo luso-brasileiro, é uma constante preocupação de Sena. Não o diálogo em níveis governamentais ou diplomáticos , mas em níveis culturais . De um ponto de vista muito próprio, consegue focalizar os problemas, dentro de uma intrincada teia que envolve desde ressentimentos históricos a um mais recente descaso mútuo.

De imediato surge um certo incômodo , uma indignação em relação à maneira como o Brasil vê Portugal. Destaca-se, então, um ponto que teria uma contribuição importante nesse " ruído na comunicação " que é a imigração de povos de diferentes nacionalidades.

Essa afluência de várias povos teria, de certa maneira, "contaminado" a mentalidade brasileira a ponto de se relegar a Portugal o papel apenas de " transmissor " da civilização e da língua , desprezando-o como matriz , como " pai " .

Não é este fato , porém , um libelo contra os imigrantes de outras origens ou farpas de um ressentido colonizador, pelo contrário, é antes de tudo uma crítica contundente aos próprios portugueses que emigrando principalmente por circunstâncias sócio-econômicas, para, digamos assim, "fazer o Brasil", acabaram por deixar reduzir a cultura portuguesa ao " bacalhau cozido regado com azeite da terrinha" , acentuando assim , a distância e o desconhecimento. O estereótipo do comerciante português cujo único interesse é enriquecer e retornar à terra natal ajuda a desfazer a imagem de Portugal como "berço" de nossa pátria.

Com o pesado fardo de ser uma ex-colônia, o Brasil passa a nutrir uma atitude ambígua em relação a Portugal , de sentimentalismo versus libertação, Acabando por exaltar os "estrangeiros" por não terem eles o peso de terem sido nossos "descobridores".

" As outras colônias "estrangeiras" têm tudo embora o nível cultural raro seja melhor e têm sobretudo a vantagem de não terem descoberto o Brasil , o que parece ter sido o nosso maior pecado. "

Uma falsa crença portuguesa em que o Brasil a teria como seu " criador " e o falso conhecimento no Brasil da cultura lusitana , seriam outros equívocos levantados por Sena para justificar também esse entrave, gerando uma situação de acomodação, sem que Portugal se preocupasse em reavivar esses laços .

Além desses fatores, Sena ressalta também outros itens que deveriam ser elementos de unificação, mas que , pelo contrário, ainda atuam como agentes de distanciamento: a língua e a literatura portuguesa.

Os maus tratos dados ao nosso idioma tanto no lado brasileiro quanto no lado lusitano e as discussões estéreis sobre as diferenças entre o português falado em cada um desses países ou sobre "acordos ortográficos" provocariam um maior desgaste de uma já tumultuada relação.

As literaturas brasileira e portuguesa também mereceram um lugar de destaque . A falta de intercâmbio e difusão das duas literaturas geraram um conhecimento irreal e superficial. E, assim, conclama aos brasileiros e principalmente aos portugueses a que deixem a omissão de lado e trabalhem para que isso se resolva.

Após uma reflexão sobre os textos de Jorge de Sena acerca do Brasil e de sua relação com Portugal, pode-se concluir que ele não foi um "mero exilado" de passagem por um abrigo político. Destinando a cada parte a "culpa" que lhes cabia, consegue não só traçar um painel dessa conturbada convivência, como também propõe diversas alternativas práticas e "não-demagógicas" para recuperar, estreitar e fortalecer os laços entre as duas nações. No texto "O problema dos estudos portugueses no Brasil- propostas concretas para uma solução urgente", inserido no mesmo Estudos de Cultura e Literatura Brasileira acima citado, chega mesmo a listar sugestões que envolveriam desde universidades às rádios, passando por bibliotecas e associações de editores.

Em um momento como este em que crescem os interesses na integração dos países lusófonos, é imprescindível que se faça um reflexão sobre o papel de Jorge de Sena, um cidadão da língua portuguesa, que foi, acima de tudo, um observador lúcido desse relacionamento, conseguindo pensar com limpidez os diversos pontos de conflito entre os dois países sendo sempre imparcial apesar de apaixonado.


Referência Bibliográfica

HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras,1997.

SANTOS, Gilda. Notas de aula. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. Rio de Janeiro, 1° semestre de 1998.

SENA, Jorge de. Estudos de Cultura e Literatura Brasileira. Lisboa: Edições Setenta.

SENA, Jorge de. Inglaterra Revisitada. Lisboa: Edições Setenta.

SILVA, Maria Beatriz Nizza da. " Relações Culturais entre Brasil e Portugal". Revista Comunidades de Língua Portuguesa. pp49-55 São Paulo,1983.

VIEIRA, Nélson H. Brasil e Portugal, A Imagem Recíproca. Lisboa: ICALP,1991

WHELING, Arno. WHELING, Maria J. C. Formação do Brasil Colonial. Rio de Janeiro.