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Literatura afrobrasilusa: tentativa de conceito

 
Roberto Pontes
(UFC)

Como é de todos sabido, a Língua Portuguesa que Roma nos legou através do Latim popular ou vulgar1, quando de sua transformação em romanço, foi uma decorrência do Império colonial levado além fronteiras pelos generais das hostes romanas.

Também conhecemos o processo pelo qual nosso idioma passou, ao longo de mais de uma dúzia de séculos, percurso em que a residualidade cultural nos proporcionou a guarda de uma mentalidade com a marca ocidental-ibérica.

Não é mais novidade que a Língua Portuguesa, ora falada por quase trezentos milhões de utentes em todo o mundo2, em sua origem, foi imposta à América do Sul, África e Ásia à guisa de instrumento de dominação, no rastro de uma estratégia de conquista de mercados concebida como civilizatória, que ora bem julgamos lembrar, quando já explodem os primeiros foguetes alusivos à comemoração dos quinhentos anos das grandes navegações portuguesas, e os relógios virtuais marcam, pressurosamente, os segundos que faltam para regozijarmo-nos do nosso "Descobrimento".

A despeito do que se pense, ou não, quanto ao que estamos a dizer, formada a nação brasileira a partir da fusão de três etnias, a ameríndia, a africana e a lusitana, o cadinho em que se fundem passa a ser algo original em busca de cristalizar-se ao produzir cultura.

Evidentemente, a miscigenação também define seu caráter, traçando o perfil do que hoje chamamos identidade. Assim, exaurida a ação colonial portuguesa nas partes do mundo antes mencionadas, com a devolução de seu último encarte, Macau, à China, necessário se faz aos povos que adotaram a Língua Portuguesa em momentos decisivos de suas Histórias não abrir mão jamais do bilingüismo, com certeza aí surgido, pois a cultura consiste numa contínua transfusão de resíduos indispensáveis ao recorte próprio da identidade nacional, qualquer que seja esta.

Foi assim com todos os povos que conhecemos e, inclusive, com os portugueses que, residualmente, são o produto dos lusos somados aos celtas, godos, iberos, romanos, árabes, galegos, provençais, castelhanos, entre outros, pois destes e de tantos mais é que resulta a cultura portuguesa. Não é preciso dizer quanto esta se deixou impregnar pela dos brasileiros, africanos e asiáticos, sem esquecer as marcas italianas, francesas, germânicas e inglesas3, visíveis nas produções mais notáveis daquele povo navegador. Não há, portanto, como tratar a Língua Portuguesa e as Literaturas com ela escritas se não for na perspectiva do enriquecimento cultural da humanidade.

Julgamos chegada a hora de considerar irrisórias as variantes lexicais, morfológicas, sintáticas e semânticas no uso literário que ora se faz da Língua Portuguesa, porque as Literaturas que nela têm expressão estão hoje em pleno esplendor poético, isto é, estão a fazer-se numa dimensão mais rica, significante e bela, do que pode ter sonhado Luís Vaz de Camões.

Exemplo do que afirmamos é a recente floração literária de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Príncipe, Brasil e Portugal, em que podemos reconhecer o uso do mesmo idioma, enriquecido por variantes surpreendentes tanto do ponto de vista fonológico e prosódico, quanto da ortografia, sem falar dos outros aspectos referidos no parágrafo anterior.

Mas o fato mais importante é que apesar das inevitáveis diferenças havidas por conta das variadas condições de tempo, espaço e uso da Língua Portuguesa pelos povos citados, as Literaturas que nelas têm expressão apresentam identidade própria e caráter típico dentro de uma diversidade geográfica, histórica e étnica.

Como as Literaturas de Língua Portuguesa têm seu espaço na Europa, América do Sul, África e Ásia, e são hoje estudadas em centros universitários de muitos países; como esta comunidade de falantes, escritores e leitores tem no momento importância cultural, econômica e política no concerto internacional; e como língua e literatura sempre foram instrumentos de afirmação de povos e nações, necessário se faz conceituar um novo dado histórico-cultural, ecumênico, surgido da expansão da Língua Portuguesa no mundo: a Literatura Afrobrasilusa4, ou, a síntese das identidades na diversidade.

Admitir o termo lusofonia com referência a esta nova realidade é consentir, ao contrário do que argumentamos, que o idioma comum aos povos que hoje adotam a Língua Portuguesa tenha sido invenção dos lusos, hipótese que a História desconfirma. Além disso, o termo, pragmaticamente, impõe o predomínio de apenas uma parcela das etnias que originam o fato histórico, lingüístico, literário e cultural novo, que vem a ser a Literatura Afrobrasilusa, quando se dá destaque a uma evidente visão eurocêntrica que parece superada nos dias correntes. Não obstante, é este o lexema que entra na composição do certame científico cujo título é "V Encontro Internacional de Língua e Culturas Lusófonas", com sede na Argentina, país vizinho do Brasil e seu parceiro no MERCOSUL. No dia 8 de julho do ano de 1998, lançou-se no Centro Cultural Belém (CCB), em Lisboa, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, dando-se ênfase a este último termo na perspectiva negativa que apontamos.

Por outro lado, a designação de um encontro científico como o que se deu em 1994, na Universidade de Lisboa, o "II Simpósio Luso-Afro-Brasileiro de Literatura", revela, pela composição do sintagma hifenizado, certa cautelosa intenção de separar o que hoje já não se distingue ou pelo menos não se deveria isolar. Do mesmo modo ocorre com o título de SCRIPTA – Revista do Programa de Pós-graduação em Letras do Centro de Estudos Luso-afro-brasileiros da PUC Minas5, publicação de alto nível, mas cujo nome individualiza, hifenizando, referentes já amalgamados por decisivas injunções históricas.

O sintagma Literatura Afrobrasilusa tem vantagens incontestáveis sobre as denominações antes questionadas, e outras ainda de uso corrente, pois seu segundo termo se compõe por aglutinação, com a perda do limite —"vocabular entre duas formas que se reúnem por composição ou por derivação e assim passam a constituir um único vocábulo fonético", tal e qual nos ensina J. Mattoso Camara Jr.6 O mesmo autor nos diz que a justaposição reúne "duas formas lingüísticas num vocábulo mórfico, quando, ao contrário da aglutinação, cada forma se conserva como um vocábulo fonético distinto em virtude da pauta acentual; ex.: "pré-histórico", "guarda-chuva". (...) Também há nomes adjetivos, compostos por justaposição (...) como a associação de dois nomes gentílicos (luso-brasileiro)".

A pragmática da justaposição é, pois, manter separados os elementos do lexema; já a da aglutinação é, como vimos, nominar algo que se fundiu definitivamente, a não ser que coloquemos em dúvida o saber de J. Mattoso Câmara Jr.

Mas atenhamo-nos à questão histórica. "Todos somos gregos" – afirmava Percy Bysshe Shelley a propósito dos povos do Ocidente – "Nossas leis, nossa literatura, nossa religião, nossas artes têm raízes na Grécia" – cito cf. Fustel de Coulanges7. Contudo, os mitos fundantes gregos provêm do Egito cujo território fica em África. Se por um lado admitirmos que "todos somos gregos", e Portugal se imagina miticamente bafejado por Ulisses (donde provém Olisipo8, Lisboa), a África está entranhada na fundação da Grécia antiga, dando vez a podermos afirmar que todos somos negros. De modo que, em afrobrasilusa, deve vir em primeiro lugar o elemento morfológico que sugere a idéia de mais remoto historicamente; o segundo deve ser o que patrocina a idéia de liame, de ponte, e este só pode ser o referente ao Brasil, pois é neste país que a fusão das etnias se aperfeiçoa, visando a integração e o entendimento mútuo; a Portugal cabe o fecho fonológico-ortográfico deste neologismo porque, em qualquer ritual, são lugares de honra sempre o primeiro e o último, os quais cabem aqui, respectivamente, aos africanos, que hoje reinventam a Língua Portuguesa, e aos lusitanos, que modelaram-na a partir do Lácio. A nós, brasileiros, cabe-nos a alegria de desempenhar a função de elo aglutinante nesta palavra sonora e bela que muito bem exprime a realidade nova de uma Literatura Afrobrasilusa.

A poesia contida em Sagrada Esperança, de Agostinho Neto, escrita em Língua Portuguesa por um africano, que soa familiar aos brasileiros; a poesia dos Poemas Negros, de Jorge de Lima, ou a ficção de Jorge Amado, por exemplo, que causam indistintamente o prazer de ler entre os de África, Brasil e Portugal; uma narrativa como A Selva, de Ferreira de Castro, escrita por um português, mas cuja ação se passa na Amazônia brasileira, e comove igualmente a africanos, brasileiros e portugueses; ou ainda a narrativa de A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, que transcorre na costa da África e recorta o tempo de encerramento da aventura colonial portuguesa, escrita por autora nascida no Algarve, mas francamente contrária à ação de seu país em Moçambique; obras assim pertencem a qual Literatura? Africana, brasileira, portuguesa?

Por isso é que reivindicamos seja qualificada de afrobrasilusa a Literatura dos países que aqui mencionamos, deixando no ar a seguinte indagação: – Não seria esta a melhor forma lingüística, pelo menos a politicamente correta para definir expressões literárias como as de Luandino Vieira, Agostinho Neto, Pepetela e Mia Couto; Jorge Amado, Jorge de Lima, Mário de Andrade e Guimarães Rosa; Alves Redol, Ferreira de Castro, José Saramago e Lídia Jorge?


Notas

1. A. Martins Afonso, Curso de História da Civilização Portuguesa, Porto, Porto Editora, s.d., p.114.

2. Maria Inês Castelo Branco, licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, afirma: "O Português é uma das línguas mais faladas em todo o mundo. O seu uso engloba as mais remotas regiões do globo e todos os continentes. Vamos, então, tentar ver como se distribui em termos geográficos, a nossa língua, já que, em termos quantitativos, é difícil, se não, impossível, fazer um levantamento rigoroso. Muito recentemente apontou-se para uma totalidade de duzentos e/ou duzentos e cinquenta milhões de falantes, número que, no nosso modesto entender carece de rigor." In: Pequeno Curso de Língua Portuguesa. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, s.d., p. 9. A observação da autora deixa subentendida um número de falantes em português bem superior ao que refuta.

3. Camões, Eça, Antero e Pessoa são mais do que exemplos disso.

4. Empreguei o qualifificativo pela primeira vez ao dar título à minha dissertação de Mestrado, Poesia Insubmissa Afrobrasilusa, em que estudo a obra de José Gomes Ferreira, Carlos Drummond de Andrade e Agostinho Neto, publicada pelas Edições UFC (Fortaleza)/Oficina do Autor (Rio de Janeiro), 1999.

5. Vol. I, número I, 2Ί semestre, 1997.

6. J. Mattoso Câmara Jr., Dicionário de Lingüística e Gramática – Referente Língua Portuguesa, Petrópolis, Vozes, 1991, 15ͺ ed., p. 45; 151-152.

7. Fustel de Coulanges, A Cidade Antiga, São Paulo, Editora das Américas, 1961, v. I, p.9.

8. A. Martins Afonso, op. cit. p.29.