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Literatura e jornalismo: sinais de vida no planeta Minas
Maria do Carmo Lanna Figueiredo
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Resumo: Literatura e jornalismo: sinais de vida no planeta Minas analisa o livro Sinais de vida no planeta Minas, de Fernando Gabeira (1982), focalizando o processo narrativo que se constrói no diálogo entre a ficção e a reportagem, e entre a literatura e a sociedade. Considera-se que, ao entrelaçar o episódio Ângela Diniz, "a pantera de Minas", que ocupou a curta duração das manchetes dos jornais das décadas de 60 e 70, com a vida de outras mineiras famosas e míticas - Beja do Araxá, Chica da Silva de Diamantina, Olímpia de Ouro Preto e Tiburtina de Montes Claros - o romance propicia o estudo de questões referentes aos gêneros literários e ao espaço social da mulher. Palavras-chave: Fernando Gabeira – literatura e jornalismo – literatura e sociedade - estudo de gêneros literários Abstract: Literature and journalism: signs of life in the planet Minas analyses the novel Signs of life in the planet Minas, by Fernando Gabeira (1982), focusing on the narrative process built in the dialogue between ficction and paper report, and between literature and society. In interweaving the famous "panther" Ângela Diniz affair, highlighted by ephemeral newspaper headlines in the 60’s and 70’s, with the life of other wide-known and mythical women from Minas Gerais – Beja, from Araxá; Chica da Silva, from Diamantina; Olímpia, from Ouro Preto; and Tiburtina, from Montes Claros – the novel paves the way to a study of issues concerning literary genres and women’s social role. Key words: Fernando Gabeira – literature and journalism – literature and society – literary gender studies Literatura e jornalismo: sinais de vida no planeta Minas, título da presente comunicação, traz uma pequena amostra de um projeto interdisciplinar que venho desenvolvendo no Programa de Pós-graduação em Letras da PUC Minas, área de Literaturas de Língua Portuguesa, em que se estudam obras de escritores brasileiros da atualidade, com vistas à caracterização do literário em sua relação com o extra-ficcional. Focalizarei o livro Sinais de vida no planeta Minas, de Fernando Gabeira (1982), que faz parte do corpus da pesquisa, a partir do processo narrativo que se constrói no diálogo entre a ficção e a reportagem, e entre a literatura e a sociedade. Considero que, ao entrelaçar o episódio Ângela Diniz, "a pantera de Minas", que ocupou a curta duração das manchetes dos jornais das décadas de 60 e 70, com a vida de outras mineiras famosas e míticas - Beja do Araxá, Chica da Silva de Diamantina, Olímpia de Ouro Preto e Tiburtina de Montes Claros - o romance propicia o estudo de questões referentes aos gêneros literários e ao espaço social da mulher. Em janeiro de 1963, 24 notícias sobre Ângela Diniz foram veiculadas, apenas no Estado de Minas, nas duas colunas sociais mais importantes de Belo Horizonte. Entre 1 de janeiro e 4 de fevereiro de 1963, aparecem 45 notícias sobre o seu casamento. O evento ultrapassa o espaço do colunismo social e torna-se tema de reportagem de todos os jornais da cidade na época, inserido em espaços "nobres dos periódicos." Na década de 70, a já então "pantera de Minas" é descrita como a "locomotiva da sociedade" e inicia um percurso na reportagem policial, condições em que continua a ser notícia até a sua morte. Tem razão, pois, Maria Céres Spínola de Castro, quando analisa Ângela Diniz como personagem construída pela discursividade do jornal, a partir do acompanhamento das notícias que se ocuparam dela. Castro investiga a complexidade dos elementos que permitiram essa criação, para concluir que, como personagem mediática, a imagem da "pantera de Minas" se constrói pelas regras discursivas, nos moldes da personagem ficcional (cf. Castro, 1997, p.126). Essa figura, no romance de Gabeira, continuará sua trajetória jornalística. Com efeito, o início do livro remete ao lead, quando o repórter estrutura sua notícia pela famosa pirâmide invertida, ou seja, os elementos principais da história aparecem sem delongas ou floreios de qualquer espécie. Na obra, a morte de Ângela Diniz, o advogado de defesa de seu assassino, reflexões a respeito de Minas, a tia Pantera crivada de balas respondem às perguntas básicas que se devem fazer com relação à história que se inicia como fato jornalístico. No relato literário, o narrador age como um repórter, quando faz uma pesquisa mais aprofundada junto às fontes, permitindo maior confronto de opiniões e maior espaço para análise do tema escolhido para seu trabalho. Recorta dados sobre Ângela Diniz nos jornais, nos arquivos e em outras vias - por exemplo, no livro de Aguinaldo Silva sobre o mesmo assunto e nas informações das pessoas que conviveram com ela. Recorre, pois, a um procedimento bem próximo ao clipping, na seleção e organização de notícias e artigos publicados, agrupando-os de acordo com o interesse que apresentem para o objetivo de sua utilização. Os resultados jornalístico e ficcional, no caso, confluem: trata-se de uma compilação de opiniões, idéias, pensamentos, muitas vezes díspares, acerca do tema pesquisado, que é colocada à disposição do usuário e do leitor. Na disposição de reunir múltiplas interpretações do fato ocorrido, pode-se também pensar na atuação do romance como documento noticioso. Confirma-se o processo tanto na inclusão de depoimentos ou relatos de parentes e amigos (p. 37, 44, 58, 65, 66, 67, 73, 78, 79, 88, 90), quanto na transcrição do último bilhete de Ângela (p.147) e de notícias de jornais (p. 47, 48, 49, 50) coligidos na sua íntegra e figurando no texto entre aspas. O aproveitamento da biografia do delegado Renato de Lima e das histórias de mulheres mineiras, retiradas de romances, reportagens e arquivos completam a seleção documental. A ordem que o romancista dá a esse material, como no clipping, possibilita e encaminha o ponto de vista que o narrador deseja imprimir à sua versão, na medida em que cada parte encaixada no relato principal, de certa forma, oferece um direcionamento de leitura que a narrativa prevê para o seu leitor-modelo. Transitando entre o jornalístico, o histórico e o ficcional, o narrador traça o contorno do "Planeta Minas", preenche-o com acontecimentos de várias épocas, torna-o, enfim, a personagem mais importante do livro. Nesse mapeamento, uma infinidade de imagens configuram Minas como o espaço da repressão, da luta, onde a existência feminina se desenrola em constantes tensões. O entrecruzamento de histórias paralelas à de Ângela Diniz configura a narrativa, estruturada sobre a repetição. Beja, Chica de Silva, Olímpia e Tiburtina e suas histórias correm ao lado da história de Tia Pantera, doce conto de fadas que acaba em tragédia de sangue e lágrimas. O encadeamento dessas histórias e de seus respectivos contextos sociais reduplica o tema, por aproximação e distanciamento. Ao mesmo tempo, retira do episódio o caráter individual, coloca seu objeto além da emoção e leva a pensar nos laços metafóricos, simbólicos, ideológicos e sociais que ligam os fatos das décadas de 60/70 ao presente e ao passado. Porque tais eventos reorganizam o discurso aprendido sobre a repressão, a crueldade e a morte, propõem as perguntas que menos foram feitas sobre várias instâncias sociais e narrativas, e suscitam as respostas mais inesperadas sobre elas. Seria estratégia semelhante a esta a que desloca a "pantera de Minas" da mídia para outra esfera? Para esta Arcádia, onde residem as que, expulsas do paraíso, impulsionam os "sinais de vida no Planeta Minas" e sobrevivem no texto e no imaginário regional como índice de beleza, coragem e identidade? O livro em análise parece ficar bem à vontade neste diálogo/ interpenetração de discursos, na medida em que se apropria do um fato real e fartamente divulgado na mídia para tecer o romance que propõe "bem próximo da reportagem." Por sua vez, como analisa Castro, muitas notícias e reportagens que se ocuparam da "pantera de Minas", transformam-na em "personagem mediática," cuja vida passa a acionar o imaginário do leitor. No processo de atribuir sentido à trajetória de Ângela Diniz, Castro ainda considera a ressignificaçãodo passado e o esforço de semantização da realidade, próprios do literário (cf. Castro, 1997, p. 130). Como se pode notar, os limites entre realidade e ficção tornam-se cada vez mais diluídos. Se no campo da informação privilegia-se o acontecimento que se submete facilmente às estruturas afetivas imaginárias, no campo ficcional propriamente dito seleciona-se o material imaginário que apresenta as aparências de vida vivida. A esta particularidade vai-se referir Wolfgang Iser, em O fictício e o imaginário. Perspectivas de uma antropologia literária (1996),ao reafirmar a proximidade entre o texto ficcional e o não ficcional, por estarem ambos sujeitos à intencionalidade de seus autores, quando selecionam os elementos que devem aparecer na narrativa. Avaliando este processo seletivo, o autor considera que os elementos retirados do campo da referência são reforçados pelos que se ausentam e vice-versa. E se desvinculados de seu campo de referência e projetados em outra contextualização, tais elementos adquirem outro peso, promovendo uma "transgressão de limites"que lhes possibilita ultrapassar as fronteiras entre ficção e realidade (cf. Iser, 1996, p. 39). A transgressão de limites, acentuada por Iser, opera-se no romance entre as fronteiras do Jornalismo, da História e da Literatura e manifesta-se mediante o uso explícito da intertextualidade com os discursos citados. O procedimento permite ao autor incluir, entre as já existentes sobre os fatos, a versão que lhe pareceu "a mais adequada para descrevê-los no momento", como acentua no prólogo. E permite também à narrativa abranger ampla faixa de conteúdos ideológicos que envolvem a estória das mulheres selecionadas para compor o cenário do livro. Como se pode notar pela citação que se segue, o narrador deixa claros os motivos e objetivos de sua escolha: "Aqui neste Planeta das matas e cachoeiras escolhemos algumas pessoas para viajar no futuro, viver por sua conta e risco nas fronteiras de uma nova época. E de suas estórias particulares tiramos nossos mitos destinados a acalmar os rebeldes ou mesmo empurrá-los para novas aventuras." (p. 85) Constrói-se, assim, uma intrincada gama de significados para as vidas que se recusaram a repetir o estereótipo feminino que lhes era imposto. O tratamento literário que é dado ao episódio de época focalizado pela mídia pode, pois, ser relacionado com um projeto de reconstrução da sociedade mineira. Também se pode relacionar a escolha dos autores lidos e citados na obra à leitura de si próprio, na medida em que o escritor se constitui ficcionalmente a partir desses outros textos que compõem seu escrito e são transformados por ele. Comunicar-se com a palavra do outro para transformá-la e construir sua narrativa pode ser entendido como forma de resistência a valores e tradições da comunidade, como apropriação e repasse do saber comunitário, por intermédio do sujeito que o recebe e modifica, no espaço dinâmico da diferença e da semelhança, do conflito e da contrariedade. Considero que, nesse caso, o fato de o autor ter forte ligação com Minas Gerais não é mera coincidência. Dessa ligação parte a perspectiva pela qual o escritor vê os outros, a si mesmo, o mundo e a mediação pela qual ele se comunica com a sociedade. Podem-se destacar no romance várias passagens, como a citada abaixo, em que o narrador se coloca como aquele que sabe ler as entrelinhas que tecem o social, por pertencer ao lugar e entender o seu idioleto. "Os jornalistas entreolharam-se desanimados. Para os de fora do Planeta, aquilo parecia uma frase generalizante e deslocada; para os que tinham passado sua existência ali, era carregada de significações. É a maneira típica de ficarmos calados, quando nos falta coragem para o silêncio aberto." (p. 109) A perspectiva possibilita ao narrador estabelecer a crítica da memória oficial e cristalizada, a fim de responder a um novo momento histórico. Ao legitimar, por sua obra, figuras que fugiram ao estereótipo da tradicional família mineira, elege-as como exemplos de seus "sinais de vida". Negando-se a seguir o sistema de valor preestabelecido e unificador, procura dar voz a outra tradição, silenciada pelo modelo que ajudou a questionar. O encontro da literatura com o jornalismo e a história vai permitir que a urgência de participação, a necessidade de explicar a realidade social mineira e de opinar sobre ela invada o espaço literário. Trata-se, portanto, de uma obra que se coloca como um texto ficcional e que, graças à recorrência ao documento – o arquivo e o jornal - artefatos culturais tão ligados à memória, rastreia sentidos que se perderam nas inexatidões da memória coletiva e se encontram esparsos em fragmentos de diferentes textos e no contexto presente e passado de Minas Gerais. Como já se mencionou, compõem o romance trechos de jornais da década 60 e 70, referentes a Ângela Diniz; combinações de textos literários e históricos de várias épocas, que se reportam às demais figuras femininas escolhidas para participar da estória; retalhos de lembranças das personagens, já inseridos no campo ficcional. No livro, confrontam-se o esquecimento e as desfigurações da memória coletiva com o desejo do narrador de conservar, pela literatura, aquilo que delas persiste em fragmentos e dispersão. Pelos indícios recolhidos na narrativa, pode-se visualizar um outro tipo de tradição que compõe a identidade do "planeta", em contraponto à ideologia do poder e por ele marginalizada. Diferencia-se, nesse sentido, do discurso jornalístico, em que a produção dos acontecimentos da vida de Ângela Diniz intensifica o presente e debilita o passado e o futuro. O romance de Fernando Gabeira, ao contrário, utiliza-se do recorte jornalístico para realçar o passado, no intuito de servir-se dele, junto com o presente, como exemplo para o futuro. Pronunciam-se sobre o assunto o narrador, quando afirma: "Participei com vários anos de atraso, é claro. E no Arquivo Público de Minas, onde há toda a documentação disponível." (p. 46); e o autor, no prólogo: "Alguns depoimentos foram condensados num só testemunho, afastando-me assim da objetividade, em busca de um efeito que transforme a vida das pessoas mencionadas, tanto quanto o possível, numa fonte de orientação e estímulo para os que sobrevivem. Há o perigo de matá-las de novo, sob o peso dos meus esquemas abstratos. Decidi correr o risco." (p.7) A narrativa elabora, com esse material coletivo, identificável, o que aconteceu com cada uma das mulheres citadas e o que deve ser transformado pelo discurso literário. Por essa estratégia, a história de Ângela Diniz torna-se um horizonte de debates entre narrações diversas que reaparecem quando, condenadas ao esquecimento pela mídia, são retiradas dos arquivos. Como a notícia tem a fragilidade de um discurso que pode ser esquecido, apela- se ao documento para dar à memória a força que dificulte sua talvez inevitável deterioração. Desse modo acontece como que uma negociação entre esquecimento e lembrança, na qual fatos, discursos, práticas, nomes, continuam a reconstruir, repetir, alterar o que resta do passado no presente. O livro exclui de sua temática o triunfo e acolhe as versões das várias mortes a que são submetidas as mulheres mineiras. Focaliza as cenas do seqüestro de Beja pelo ouvidor, da compra de Chica pelo contratador, da loucura de Olímpia, da esclerose e recorrência à droga de Tiburtina, do casamento e do assassinato de Ângela e analisa as razões que conduziram à marginalidade figuras tão notáveis. Em contraponto a essas versões, o narrador lembra os romances históricos de Agripa Vasconcelos A vida em flor de Dona Beja e Chica que manda, aproveitando-os no seu relato como expressão poética que contribui para construir uma outra imagem das personagens e como possibilidade de conferir-lhes a vida que a sociedade patriarcal frustrou. Possibilidade que deseja conservar para elas, como se nota na seguinte passagem: "Dentro de Tia Pantera havia uma força maior que as colunas sociais, maior que a tradicional família mineira, maior que a oposição e os obstáculos. Ela continuava buscando o amor e isso a mantinha viva e elétrica, girando em torno dela uma aura que fascinava as humildes empregadas dos salões de beleza e irritava as parceiras mais conservadoras, como se o seu atrevimento obrigasse a todas de sua classe e geração ao desagradável ato de ressuscitar." (p. 75) Ângela Diniz, personagem construída pela mídia, torna-se, assim, personagem literária, juntamente com as outras figuras históricas. Pela leitura acoplada de situações de diferentes épocas quer-se iluminar fatos passados que restam perdidos na memória do leitor e, ao mesmo tempo, reconhecer-lhes novos significados, na tentativa de aproveitá-los no caso presente. Sinais de vida no planeta Minas traz o passado para o presente da história narrada, fazendo com que as personagens de um e de outro tempo se encontrem nas suas páginas, desmanchando a distância que as separa no espaço da ficção. O liame entre passado e presente acontece pelo discurso do narrador que pontua, com opiniões do presente, a sua leitura das figuras tematizadas que, mesmo já não sendo notadas pelos moradores de Minas, fazem-se sentir enquanto constituintes da formação de seu povo e pertencentes ao seu imaginário cultural. O romance se constrói apresentando, ao mesmo tempo, a ficção - o texto -, e a multiplicidade de referências que a elucidam - o metatexto -, ou seja, o escritor deixa ver os andaimes da construção de sua obra. Por isso podem-se detectar, no livro, recursos de que se serve o romancista para revelar/interpretar a temática escolhida numa técnica discursiva que cruza planos e funções narrativas. A linguagem dos jornais mescla-se à de textos literários e históricos. Eventos históricos combinam-se ao folclore criado a partir deles, pontos de referência históricos e geográficos, como o Cassino da Pampulha, o Automóvel Clube, a rua dos Amendoins mesclam-se à imaginação do narrador. Este encanta a Minas Gerais real, tornando-a um lugar fantástico – o "Planeta Minas" - exclusivo do livro. O leitor pode, então, observar o cruzamento da Literatura com o Jornalismo e com a História, na tentativa de superação dos limites que os cercam. Referências Bibliográficas Aguinaldo Silva, O crime antes da festa, a história de Ângela Diniz e seus amigos, São Paulo, Editora Lidador Ltda., 1977. Agripa Vasconcelos, A vida em flor de Dona Beja, Belo Horizonte, Itatiaia, 1957. Agripa Vasconcelos, Chica que manda, Belo Horizonte, Itatiaia, 1962. Fernando Gabeira, Sinais de vida no planeta Minas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982. Maria Ceres Pimenta Spínola Castro, "Criações e criaturas", Na tessitura da cena, a vida, Belo Horizonte, Editora da UFMG, 1997, p. 121-59. Wolfgang Iser, O fictício e o imaginário. Perspectivas de uma antropologia literária, Trad. Johannes Kretschmer, Rio de Janeiro, EDUERJ, 1996. |