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O ensino do português nas universidades britânicas

 
Tom Earle
Universidade de Oxford

Pode-se dizer que estamos a atravessar actualmente um período feliz na história do ensino do português em universidades inglesas, escocesas e do País de Gales, já que existem à volta de vinte destas instituições onde se ministram disciplinas relacionadas com o estudo da língua e da cultura luso-brasileiras. Uma característica muito marcada das universidades britânicas é a diversidade dos cursos que oferecem, sendo portanto difícil calcular com todo o rigor o número de licenciados em português que saem cada ano do sector. Porém, podemos estimar em cerca de 200 o número de pessoas formadas anualmente em português por universidades britânicas, o que implica que estudaram o português ao longo de um curso superior com duração de quatro anos, normalmente em combinação com uma outra língua ou com uma outra disciplina, tal como a história, a filosofia, a economia, a gestão etc. Regra geral, o português constituirá pelo menos a metade dos estudos feitos pelos 200 alunos referidos. Existem, porém, muitos outros alunos, que seguem o português como cadeira de opção durante um ou mais anos. Além disso, nos últimos anos muitas instituições britânicas de ensino superior, que antigamente eram conhecidas como politécnicas ou colégios de ensino superior (Further Education Colleges), obtiveram o estatuto de universidade. É razoável supor que destas novas universidades sairão no futuro mais alunos com formação luso-brasileira.

As razões do surto do português em universidades britânicas são muito simples e são essencialmente duas. Em primeiro lugar, o apoio do Instituto Camões, e em segundo lugar, a 'asa protectora' do espanhol, na frase muito feliz da Prof. Solange Parvaux. O Instituto Camões investe todos os anos uma quantia considerável no ensino superior britânico. Assegura a manutenção de 17 leitorados em universidades espalhadas por todo o Reino Unido, oferece bolsas de estudo aos alunos e aos professores de português, dá apoio financeiro a bibliotecas, e torna possível a viagem de especialistas vindos de Portugal para dar conferências e participar em congressos organizados em Inglaterra. Nisto continua e desenvolve a política já estabelecida pelas entidades governamentais que o procederam, nomeadamente o Instituto de Cultura e Língua Portuguesa e o Instituto de Alta Cultura. Na verdade, a política cultural dos sucessivos governos portugueses sempre foi, e continua a ser, de uma generosidade quase sem paralelo na Europa.

A reacção normal das universidades britânicas face à oferta por parte do Instituto Camões dum leitorado tem sido a criação de um ou mais postos de trabalho na área dos estudos luso-brasileiros. Como consequência, portanto, nas universidades onde existe um leitor ou uma leitora existe de modo geral também um professor de português pago pela universidade local. Em muitos centros universitários, tal como o King's College de Londres, Oxford, Southampton, Leeds e outros o corpo docente na área do português é mais vasto, havendo vários professores, ou a tempo inteiro, ou divididos entre o português e uma disciplina afim, tal como o espanhol, a teoria literária ou a linguística. Mas, mesmo tomando em conta o investimento efectuado pelas universidades britânicas, o apoio do Instituto Camões continua a ser essencial.

É importante também não esquecer o papel do espanhol no ensino do português. Se recuarmos no tempo para a época em que se inauguraram os primeiros departamentos de português, tanto em Inglaterra como em França, verificamos que foi muitas vezes graças ao entusiasmo de um professor do espanhol que o processo começou. Em França foi o Prof. Georges le Gentil que, nos anos imediatamente a seguir à primeira guerra mundial, promoveu o estabelecimento de estudos portugueses na Universidade de Paris. E em Oxford, alguns anos mais tarde, o Prof. William Entwistle, catedrático de espanhol mas grande investigador na área dos estudos medievais portugueses (deve-se-lhe uma edição importante da Crónica de D. João I de Fernão Lopes), tomou a iniciativa de abrir uma cadeira de português, com o apoio do governo português de então.

Se voltarmos para a nossa própria época, é inegável que a grande maioria de professores estrangeiros do português (isto é, os professores que não têm o português como língua materna) ficou captiva da riqueza da língua e da cultura lusas depois de ter estudado o espanhol. As relações muito próximas entre as duas culturas ibéricas são também importantes no domínio político. Muitas vezes os departamentos de espanhol em que os estudos portugueses estão integrados têm dado uma protecção valiosa nos momentos duros a que a vida universitária está sujeita. No caso da Inglaterra, houve um período muito difícil quando o governo conservador da senhora Thatcher decidiu "racionalizar", na terminologia da época, as universidades, fechando departamentos pequenos que eram considerados inviáveis. Graças ao papel importante desempenhado pelos estudos hispânicos no nosso sistema universitário, não se perdeu nenhum posto de português durante esses anos conturbados.

Contudo, é forçoso admitir que a vida à sombra de nuestros hermanos nem sempre é fácil. O departamento de estudos luso-brasileiros do King's College, de Londres, tornou-se o maior de Inglaterra, pelo menos em termos de número de docentes, em parte por nunca ter sido integrado no departamento de espanhol dessa universidade, e em 1990 o departamento de Oxford também conseguiu escapar à tutela da língua vizinha, tendo crescido muito depois daquele momento. Os dois departamentos referidos são actualmente os únicos independentes.

Em Inglaterra os estudos portugueses têm já quase 70 anos de vida oficial. Sem dúvida nenhuma, o novo milénio nos trará desafios de vária ordem, dos quais o maior é a penetração cada vez maior da língua inglesa a escala global. Há pouco tempo um jornal londrino publicou um relatório segundo o qual por volta do ano 2010 90% da população da terra terá alguns conhecimentos do inglês. É um prognóstico desolador que terá o triste efeito de fazer supor aos ingleses que o estudo de línguas estrangeiras não traz vantagens práticas. Já presentemente o número de alunos que estudam duas ou mais línguas estrangeiras a nível do ensino secundário está a declinar, facto que tem consequências sérias para o português. O nosso aluno universitário típico costumava optar pelo português depois de se ter entusiasmado pelo mundo ibérico na escola secundária, onde teria aprendido o espanhol além do francês. Ao entrar na universidade tal aluno queria logicamente progredir para os estudos luso-brasileiros, que normalmente se ensinam ab initio. Mas hoje em dia alunos com formação deste género estão em vias de desaparecer. Há muitas escolas secundárias em Inglaterra em que só se estuda uma língua estrangeira, que é quase sempre o francês, resultando daí que o nosso aluno típico chega à universidade sem a preparação linguística e cultural que as gerações anteriores tiveram. Dada esta situação, é possível também que comece a haver concorrência entre as duas línguas ibéricas, que antes se ensinavam juntas.

Há um outro problema a enfrentar, que não é próprio só de Inglaterra. Já sabemos como o português tem prosperado a nível universitário, graças ao apoio sobretudo do Instituto Camões. Mas é uma triste verdade que a nível secundário a língua e a cultura lusas quase não existem entre a população escolar inglesa, apesar de haver excepções, professores entusiastas que ensinam o português mesmo fora do programa oficial das suas respectivas instituições. Felizmente, ainda é possível fazer os exames do secundário em português. Mas, na esmagadora maioria dos casos, os alunos que se candidatam ao G.C.S.E. e ao A-Level são filhos de emigrantes, para quem o consulado de Portugal em Londres mantém uma rede de professores. É essencial atrair os jovens ingleses também para o estudo do português mas, pelas razões acima apontadas, não é fácil conseguir este propósito.

Mas é importante não sermos pessimistas. Portugal e o Brasil são países que continuam a ter um grande fascínio para muita gente. E apesar dos mitos muitas vezes propagados pelos próprios portugueses, a língua de Camões não é das mais difíceis para falantes do inglês, cujo vocabulário, especialmente ao nível da abstracção, está repleto de palavras de origem latina e francesa, tal como o português. Além disso, o estudo obrigatório do francês nas nossas escolas tem a vantagem de acostumar os alunos a noções de gramática que também são aplicáveis ao caso português. E até a pronúncia portuguesa, tantas vezes considerada imprópria para uma boca britânica, em certos respeitos não é tão distinta da inglesa como se imagina, se considerarmos por exemplo o tratamento dado nas duas línguas às vogais átonas.

Em conclusão, a melhor garantia do êxito dos estudos portugueses a nível universitário na Grã-Bretanha é a existência de um corpo docente entusiasta, dedicado e bem preparado. Se nos próximos meses se concretizar, como assim o desejamos, a proposta da formação de uma associação britânica de lusitanistas, sob a égide da Associação Internacional de Lusitanistas, haverá mais uma razão para enfrentar com confiança o futuro dos estudos portugueses no Reino Unido.