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O HERÓI EM VIAGEM NA CGE1344: ao (re)encontro com a fama

 
Elisa Gomes da Torre
Universidade de Trás-os-montes e Alto Douro

A CGE1344,1 obra magna da expressão historiográfica da escola afonsina, em Portugal, deve a sua popularidade, ao longo dos séculos, sobretudo ao carácter lendário da sua prosa, que se desenvolve em inúmeras narrativas de aventuras, tão do apreço do público cortês medieval. Com uma forte intenção didáctica e , até, propagandística, são essas narrativas, de tema épico ou romanesco, que demoverão o auditor a construir modelos de conduta, na concretização do que as retóricas clássicas antigas atribuíam à figura do exemplum.

Sendo a exemplaridade uma das finalidades primordiais do texto historiográfico, serão as personagens heróicas uma das componentes principais na "moralização" da História. Logo no prólogo, espaço privilegiado de expressão da intencionaliodade da obra, se anuncia como ponto de partida para a narração:

Os muy nobres barõoes e de grande entendimento, que screveron as storias antigas das cavalarias e dos outros nobres feitos e acharon os saberes e as outras cousas de façanhas per que os homees podem aprender os boos costumes e saber os famosos feitos que fezerom os antigos, teverom que minguariã muyto en seus boos feitos e e sua bondade e lealdade se o assi no quisessen fazer pera os que avyam de viir despois como pera sy meesmos e pera os outros que eran en seus tempos.(II,p3)

Tornam-se, por isso, alvo fulcral da História os "boos costumes" e os "famosos feitos", "por que os que despois veessen trabalhassen de fazer ben per exemplo dos bõos e que pello dos maaos se castegassen"(II, p5). A fama tem um papel relevante na costrução dos modelos. Remetendo para a imortalidade, é, pela fama, creditada nos epitáfios fúnebres e pelos louvores dos prantos, que as personagens ganham os estatutos de heróis. Associada, na maioria dos casos, a um evento - feito - específico a fama do herói concretiza-se, não raras vezes, na aquisição de um cognome. Basta lembrar o exemplo de D.Rodrigo de Vivar, "El Cid", ou os exemplos das figuras reais.

Se, na prosa históriográfica, o herói ganha um cognome, no romance de aventura cavaleiresca o processo é bem mais significativo, dado que a personagem só desvenda o seu nome após a concretização de algum feito notável. O cavaleiro que inicia a aventura sem nome, tem de ganhar o direito a ser nomeado pela façanha, ou então, passará anónimo que é, nestas narrativas, sinónimo de não herói. Estas similaridades entre a construção das narrativas tanto histórica como de ficção, mais uma vez, nos remetem para o uso dos mesmos códigos na prosa assumida como verdadeira e a prosa ficcional.

Poderá ser discutível o conceito de fama e glória na Idade Média. Se foi fundamental na civilização grega e de notável proporção em Roma, nos primórdios da Idade Média, com a afirmação do Cristianismo, a fama e glória vão sendo relegadas para um plano inferior de sujeição à glória suprema: a de Deus. Mas, mesmo nos meios eclesiásticos, abundam exemplos de heroísmo e fama, com a longa lista de mártires e pregadores, cujas histórias vão sendo vertidas para o pergaminho, na ânsia da imortalidade, ou seja, do não esqueciomento. Ainda que sublinhando a suprema finalidade dos seus feitos: servir Deus, renegando os bens terrenos, a verdade é que a sua perpetuação é idêntica à dos heróis laicos e eles figuram lado a lado em muitas das produções narrativas medievais, como é o caso da cronística.

Esta questão foi inclusivamente alvo de longas análises por parte dos mais ilustres Padres da Igreja. Santo Agostinho detém-se ao longo de várias páginas da Cidade de Deus sobre as noções de celebridade, glória e fama. Partindo da realidade romana antiga, ainda que admitindo que a procura da glória e da fama tenham impulsionado o homem para a virtude, sublinha uqe os bens alcançados foram meramente terrenos e adverte os homens para a vergonha que é submeter a virtude à fama quando na Cidade Eterna só há lugar para a glória divina, a verdadeira virtude. Conclui que o homem de virtude não necessita da aliciante da glória e que desdenha o juízo dos que o louvam.

S.Tomás de Aquino é outra referência. Com base no conceito de inanis gloria, admite inclusivamente que não sendo um bem em si o possa ser acidentalmente,2 mas conclui que ainda que não sendo pecado capital, o amor à glória é um pecado perigoso que predispõe o homem a esquecer o verdadeiro fim das sua boas acções. Assim, a inanis gloria assume-se como um vício capital, muito próximo da soberba e causa ou agravante de muitos outros vícios.

Perante este panorama, a posição oficial da Igreja na Idade Média,admite-se que neste período não se apresente um campo intelectual à propagaçõ da fama. Mas, curiosamente, ao mais comum dos mortais, a Idade Média surge repleta de heróis, de cavalaria ou de santidade, que parece contrariar a postura eclesiástica. Com efeito, estando o historial da Igreja medieva cheia de exemplos de bravura e heroísmo, coloca-se a questão de averiguar se o público receptor das narrativas hagiográfica sería capaz de discernir que a fama e glória alcançada pelo mártir, p.ex., era uma mera sombra do bem supremo divino. Ou, como supomos mais credível, tendería a reter nessas histórias os exemplos de bravura e heroísmo humanos, ainda que ao serviço de Deus?

Mas, se na produção narrativa de índole eclesiástica se pode confundir estes valores, nos exemplos laicos não há confusão possível. A cultura cortês medieval desenvolve a idealização do homem e da mulher, em modelos que perpassam toda a literatura cortesã, tanto lírica como romanesca ou tratadística. O ideal do cavaleiro solitário "enamorado" dos narrativas de aventura cavaleiresca ou a "senhor" das cantigas de amor, com origem na expressão provençal, são dois exemplos de como a meio laico, em contra corrente com a Igreja, incentiva a procura da fama e o alcance da glória. Aliás, toda a actividade lúdica do serão cortesão aponta para a primazia, o refinamento do ser humano no alcance de uma fama que o faça sobressair dos demais. Com vista a valores nobres de cortesania - a poesia trovadoresca propaga como virtudes máximas cortesia, largueza, joi e mesura - o ser cortesão angaria honras e valor que lhe conferem um espaço privilegiliado na exigente esfera social.

Quando contactamos com a prosa histórica ou com a poesia épica, a fama e glória assumem, ainda, proporções maiores, pela exemplaridade que cumprem no texto.

Nesta comunicação, tentámo-nos a tratar a fama em agregação à viagem, tema do congresso. Consideramos, inclusivamente, pertinente esta questão na construção das personagens heróicas. Num período histórico em que viajar é, acima de tudo, conotado com morosidade e perigo, nos textos de índole histórica e épica a viagem oferece-se à personagem como o tempo, espaço e opurtunidade mais favoráveis ao alcance da glória e consequentemente à fama. Facilmente nos lembrámos das cruzadas, das longas batalhas ou, muito simplesmente, das aventuras que estes textos tão recorrentemente nos relatam e que vão formando o carácter dos heróis. Sabe-se que, na Idade Média, um grupo grande de viajantes incluía os estudantes e estudiosos - professores e intelectuais - que percorriam a Europa, o mundo árabe e a Ásia, na procura dos melhores mestres, das melhores escolas ou das melhores bibliotecas. Mas, infelizmente, o texto que abordaremos, hoje, não nos fornece exemplos destas viagens de procura do saber. No entanto, gostaríamos de incluir nesta categoria, dois relatos inseridos na CGE1344 que desenvolvem o tema da procura do saber, numa viagem: o episódio da demanda do Moralia de S.Gregório, o Magno3 e a história do misterioso rei Rotas.4 Trata-se a primeira narrativa de um pequeno relato que narra a procura, por parte de Tajom, bispo de Saragoça, de um dos livros que maior importância têm na educação na Hispânia medieval, o comentário de Gregório Magno ao Livro de Job5. A importância do livro leva a que o rei Cindasundo decida, em concelho em Toledo, enviar o bispo numa viagem marítima até Roma, para que o Papa lhe desse um exemplar. A viagem física não nos é descrita - mas a referência ao facto de ter sido efectuada por mar é significativa, dado os símbolos que este representa na Alta Idade Média, quando decorre a história - pois é desenvolvido o milagre a que o bispo assiste na Catedral de Roma. Continua, no entanto, apesar da "aparente" ausência de relevo da viagem em si, a ser o relato de uma aventura de um homem solitário ( o texto não nos fornece dados relativos a uma hipotética embaixada, como era tão frequente), que enfrenta os perigos da viagem por mar e depois por terra6, num processo de enriquecimento pessoal que culmina no contacto, durante uma visão, com os mais altos símbolos da Igreja: S.Pedro, S.Paulo, S.Gregório e Santo Ambrósio.

O exemplo do Rei Rotas é simplesmente apaixonante. Original do Oriente "daquella parte em que dizen que he o paraiso terrel"(II, p35) "tanto houve este rey Rotas grande sabor de aprender os saberes que leixou seu reyno e quanto avya e foisse pello mundo andar de huas terras em outras por saber mais"(ibidem). Atente-se no modelo evangélico, e franciscano, do despojamento de todas as posses - bens e família - para uma entrega total e pura na procura do conhecimento. Curioso é, no decorrer da narrativa, uma outra motivação para a viagem que se assume, nessa segunda parte, como fuga. Uma vez adquirido o conhecimento, que no texto se afirma total, e que Rotas reune num livro onde "eran scriptos todollos saberes e as naturas das cousas e como se devyam obrar", Rotas vê-se obrigado a fugir de terra em terra, para se esconder "tantas eran as gentes que viinham a elle que el fogya delles". Rotas, com a ajuda do seu livro ganhara a fama de adivinho. É nesta fuga que Rotas vem para a Hispânia, refugiando-se no local onde nascería Toledo porque "vyo que aquelle logar era en meo da Espanha"7, vivendo , a partir de então, com as feras. A sua missão, concreta e física, na Península, cumpre-se quando, descoberto por Tarcos, casa com uma filha deste e tem dois filhos. Mas, mais uma vez, abandona a família, reino e todos os bens para retomar a sua demanda: " E despois se foy andar pello mundo como da prymeira".

São estes dois episódios, sobretudo o último, perfeitos exemplos da viagem enquanto processo de aquisição de conhecimento no contacto com o desconhecido que, por seu lado, motiva a revelação de facetasnovas da personagem, transfigurada pelo novo saber.

No entanto, o grosso dos exemplos que nos fornece a CGE1344, remete para os ideais militares e de cavalaria. Por múltiplas páginas desta crónica, deparamos com heróis que vão granjeando fama, glória e honras graças aos feitos bélicos que, também nestes casos, se efectuam em viagem. As batalhas implicam, quase necessariamnte, uma deslocação do seu espaço doméstico, senhorio ou reino e, tal como uma qualquer viagem, implica preparativos e bagagem. Aliás, muitos nobres guerreiros, mesmo quando em tempo de paz, não mais parecem fazer do que preparar-se para as batalhas. Tem esse fim, os torneios, os jogos de força - como o tabulado - , as cavalgadas e a própria caça. Como é de esperar, na CGE1344 encontrámos muitos relatos de batalhas ( desde a Antiguidade até à coetaneidade). São alvos de particular realce as descrições das Batalhas de Lérida(II,pp114-25), entre as tropas de Pompeio e de Júlio César, com base no relato de Lucano; Batalha dos Campos Catalanos, entre as tropas de rei Teodoredo e o rei Átila (II, 138-42); Batalha enre as tropas de ABetihen e as do Infante Afonso de Castela (IV, pp394-401); Batalha de Navas de Tolosa (Iv, pp.320-37); Tomada de Córdovo por Fernando de Castela (IV, pp 401-12) e Tomada de Badajoz, que concluía a Gesta de AFonso Henriques (IV, pp235-6 ; IV, pp 287-9). São estes textos minuciosas descrições da lide campal, com supremo cuidado em descrever os movimentos, as estratégias, os cercos, o chispar das armas no recurso a descrições muitas vezes cromáticas, metáforas e adjectivos que pretendem, pela demonstratio, realçar o dinamismo do confronto guerreiro. Como se tratam de batalhas de um grupo contra um outro, em geral o invasor e o invadido, sobressai quase sempre um herói colectivo, frequentemente representado pela figura do seu dux que encarna as virtudes de todo o grupo. São qualidades mais enaltecidas na lide campal. a força, a destreza com que se maneja as armas e se cavalga, a inteligência das estratégias e o sentido de.... que faz com que se superem as dificuldades inesperadas. É este o exemplo dado por um representante de uma das famílias nobres mais enaltecidas nesta crónica: os Peres de Vargas. Lutando junto às tropas deinfante Afonso, futuro Afonso X de Castela, Diego Perez de Vargas perdeu todas as suas armas durante a lide campal8.

E, quando vyo que non avya a que se tornar nem cõ que ferir, foisse a hua oliveyra e britou huu ramo que tiinha no fundo huu çepo a maneira de porra. E con tal arma se meteo na mayor pressa e começou de ferir dhua e da outra parte, de tal guisa que qualquer a que elle dava hua pancada nõ avia mais mester. E fez con aquelle çepo tal façanha que seria muyto de o fazer con todallas armas que trager podesse.(IV, p400).

Os feitos de D.Diego com tão inusitada arma vão-lhe conferir fama que, como havíamos referido ser usual, se concretiza na aquisição do cognome de "Machuca":

E dom Alvaro Perez, quando o assy vyo, con o grande prazer que ouve das pãacadas que o cavaleiro dava con aquel cepo tãto aaw sua vontade, cada vez que lhe ouvya dar o golpe, dizialhe:

- Assi, Diego, macheca! Assi!

E, por esto que lhe assy disse, des aquel dia en deante sempre lhe chamaron Diego Machuca. E este sobre nome ouveron despois todollosw do seu linhagem e en esto pareceo homem de grande coraçõ9.

Muitos outros exemplos de façanhas militares se poderiam retirar da CGE1344 porque como se afirma "foron muytos cavaleiros que se estremaron antre os outros pera fazer per suas mãaos de que ouvesse nomeada". A fama é, sem dúvida, um dos maiores triunfos que o guerreiro poderá levar no retorno ao espaço doméstico. A par com as honras, recompensas reais, a fama que conseguir alcançar, abarcará toda a sua linhagem , em especial os seus herdeiros que, assim, herdam não só os bens materiais mas também os bens morais que a fama acarreta.

Há um outro grupo de heróis cujas viagens, aliadas à aventura, remetem para o universo romanesco, dos livros de aventura de cavalaria.Deste grupo sobressai, sem dúvida, a narrativa das aventuras do rei Pedro III de Aragão (III, pp.278-87). Aventureiro, intrépido, arguto, valente e orgulhoso, este rei encarna um verdadeiro herói de romance de cavalaria, a que só falta a trama amorosa. Herdeiro de um reino sem trono - seu pai havia sido excomungado pelo Papa que doa o reino de Aragão ao rei de França - D. Pedro, sem grandes meios militares nem apoios políticos, recorre à sua argúcia para reconquistar o trono. Tentado a declarar guerra ao rei de França, sabendo que este marcara um "allardo"10, arquitecta uma operação de espionagem em que se mascara de mordomo de um comerciante de cavalos e auxiliado por dois fidalgos vai a Paris em segredo:

E elles erã em este modo regidos: el rey dõ Pedro hya por moordomo da cas de dõ Arnal de Figueiras e dõ Pellegri, por despenseiro, e dom Pero Martym, por cozinheiro. E assy andarõ desconhecidos per suas jornadas, ataa que chegarom a Paris...

Contabilizado o poder militar do rei de França, D.pedro, consciente dos seus escassos meios, propõe, por carta entregue pelos seus dois fiadalgos, ao rei de França um duelo entre ambos com o testemunho de dois fidalgos de cada parte. Deixando a missiva entregue aos seus companheiros, em Paris, "levantaronsse de grande madurgada, elle e dõ Arnal de Figeueiras, e foronssse sua vya quandto poderom pera Aragõ". A primeira reacção do rei de França é de surpresa, pelo facto de D.Pedro se ter consigo infiltrar em Paris sem seu conhecimento. No resto, concorda com aproposta e são assinadas as cartas e marcado o prazo de uma ano para os preparativos para o duelo, a realizar-se em terras do rei de Inglaterra. Mas, durante esse período, o reio francês prepara tropas que o acompanharão e que, no caso de sair vencido, deverão matar o rei aragonês.

E elle, depois que desto foy certo, entendeo que o seu poder nõ era tamanho como o del rey de França e que, se allo ouvesse de levar sua companha, pois que el rey de França tragia a sua , que nem poderia hy passar bem. E, por esto, ouve de buscar arte per que podesse cumprir o que prometera e sayr de vergonça.

A artimanha implica o recurso ao mesmo disfarce. Declarado por dois médicos como doente, pretexto para não ter de se apresentar em público, mais uma vez parte incógnito com o vendedor de cavalos e os seus fieis fidalgos. Vai percorrendo os caminhos até ao local do confronto. Pelo caminho, vai deixando, em cada pousada, dois cavalos dos de Arnal de Figueiredo que "leixoulhes o seu seello e diselhes que,qualquer homen que vehesse a elles con tal sello, que lhe dessen cada huu dos cavallos, ou ambos, se o quisesse levar". Além dos cavalos, compram "muytas vyandas" e com os burgueses e homens boos da cidade preparam um banquete de recepção à comitiva do rei de França, a que não falta a contratação de "todollos jograres". Na madrugada do dia acordado, apresenta-se aos representantes do rei francês, ainda não chegado, que o reconhecem. Pede então a dois notários que redijam um documento em "como estava ally aprestes pera fazer sua batalha, assy como era contheudo en aquellas cartas. E assy lho fezerom logo os notairos." Na posse desse documento, D:pedro dirige-se para a cidade que havia já recebia os condes franceses. E o banquete inicia-se "cõ muitos jograrese cõ muytos trebelhos e cõ tanta honrra". D.Pedro afirma então que "querya folgar. E meteysse logo em hua camara e, como entrou per hua porta, assy sayo logo por outra. E Cavalgou en seu cavallo e foise seu camynho." De montada em montada chega a Girona. Entretanto, quando chega o rei de França, vendo que foi enganado, "juntou muy grande hoste e foy cecar a cidade de Girona". O confronto faz-se por mar e por terra e nele morre o rei francês e alguns dos seus mais valorosos nobres. E, quando parecia já alcançada a vitória, D.Pedro vai no rasto das tropas francesas. na sua hoste leva mais de mil cavaleiros da Catalhuna que, aproveitando a situação, pedem ao rei favores. Como esta adia a decisão para depois da batalha, esses cavaleiros abandonam o rei aragonês que se vê reduzido a duzentos cavaleiros. "E el rey, depois que elles se partirom, vyo que lhe era forçado de tomar a batalha, ca em outra guysa seerlhe ya vergonça." É derrotado, humilhado - levado atado pelas rédeas do seu cavalo - e caba por morrer ao sétimo dia11. Reune, assim, esta aventura alguns dos tópicos mais característicos das narrativas de aventura medievais, para além do carácter do herói: o companheirismo entre os aventureiros, que, inclusivamente subvertem a hierarquia social12; o recurso ao disfarce e ao uso do selo como sinal de reconhecimento13; as viagens a cavalo durante a noite, uma óptima aliada dos aventureiros; a própria inclusão de um serão de corte, com as actividades que lhe estão associadas: cantares dos jograis, jogos, comidas....A motivação para a acção é igualmente conforme este universo: D.Pedro entra nestas aventuras para evitar a vergonha e para granjear honra para o seu reino.

Outra figura que nos aparece num percurso muito interessante é Hércules. As suas façanhas são por demais famosas, mas o que nos interessa, neste passo, sublinhar é a natureza aventureira que o narrador confere às suas viagens pela Hispânia. Na introdução que se faz às gesta de Hércules na Península Ibérica, além de se resumirem os trabalhos de Hércules realça-se o seu papel de povoado, na continuidade dos que partiram de Babilónia, inclusivamente nas várias cidades que vai fundando em Espanha. Mas no capítulo seguinte diz-se que depois de fundar Sevilha "ouve sabor de veer toda a terra d'Espanha e partiosse". A partir deste momento, Hércules assume-se tel como um cavaleiro medieval: paerte sem função, as sabor da aventura, por uma vontade interior gratuita. Se quando chegou à Hispânia tinha uma missão - povoar - agora sente simplesmente desejo de viajar, de ver a Espanha. Curiosamente, tal como num romance aconteceria ao protagonista, será este o início da sua real aventura, dos seus maiores feitos em espanha: o confronto com Gedeão. Hércules é verdadeiramente o modelo do viajante que viaja para alcançar a glória. Como conclui a CGE1344:

E, despois que ouve feytas todallas obras que em Espanha quis fazer, tornousse pera hyr em Grecia ou em outras partes honde achasse alguus feytos grandes e perigosos pera lhe dar acabamento, como aquelle que era o mais esforçado e mais valente e mais ligeyro que entom no mundo avya14.

Este texto está repleto de heróis e todos eles em viagem. Alguns de extrema fama como El Cid cuja fama é alcançada também em viajem, mais concretamente no exílio. O exílio, tema querido da épica, é igualmente o período propício ao alcance da glória de outro herói, D. fernão Rodrigues de Castro.(IV, 284-6). No exílio, cuja origem é necessariamente injusta - por vezes fruto de traições ou por vingança - o herói realiza os feitos que o legitimam a repor a justiça, a exigir o reconhecimento do seu retorno aos seus senhorios.

Mas não queríamos finalizar sem abordar um outro tipo de fama alcançada em viagem, em missão de paz, e personificada num rei português: D.Dinis. Num relato minucioso, que muitos15 comparam a um diário de viagem e que se justifica pela autoria de D.Pedro, Conde de Barcelos, também ele presente nesta missão, surge-nos D.Dinis, como o árbitro da paz entre os reis de Aragão e de Castela. Obrigado a viajar várias vezes entre Castela e Aragão sempre rodeado de pompa, D.Dinis perfaz o papel de um rei magnânimo, generoso, respeitado pelo seu bom senso e sentido de estado e de isenção. O narrador, inclusive, justifica o relato como meio para evitar que caiam no esquecimento as ofertas sobejamente generosas com que D.Dinis agraciou reis, rainhas e fidalgos, durante o processo de implantação da paz entre Castela e Aragão.

E esto he posto em livro por averem memoria todos os que leerem e ouvirem que el rey dom Denis de Portugal, seendo juiz antre el rey de Castella e el rey d'Aragom , lhes deu grandes algos e muitas doas em suas terras e outrossi a seus vassallos. E elles teveronsse por contentes de o tomar e elle nunca tomou delles nehua cousa.(IV, p.252

A narrativa é pois um louvor a D.Dinis, diplomata bem sucedido e rei abastado que dá provas de largesse.

Das mulheres e seus feitos heróicos não "reza" a história. Confinadas ao espaço doméstico pouco se fala de mulheres na CGE1344, a não ser para referir os casamentos e o número de filhos que tiveram. Mas, o ponto de vista assumidamente masculino, que relega a mulher para o papel secundário que sabemos quantas vezes é depreciativo do papel relevante que tantas mulheres preeencheram na sociedade e na História medieval, é gritante na narrativa do cerco ao castelo de Martos(IV, pp420-3). Conta o narrador que a condessa havia ficado só acompanhada de mulheres, tendo partido o conde com os seus homens numa missão régia e os popucos homens que haviam ficado a guardar o castelo, tinham ido em cavalgada, um exercício de preparação militar. O castelo é atacado por mouros.

A condessa, quando aquelo vyo, ella e todas as suas donas, tiraron as toucas e vestironse en armas e tomarõ lanças nas mãaos e andavon plellos andaymos.

Quando os homens regressam da cavalgada, assistem ao combate entre os mouros e as donas. Diego Peres de Vargas incentiva, então, os outros cavaleiros receosos do combate, lembrando as honras e a fam que ganhariam no combate e na deshonr que sería deixarem levar cativas a condessa e as outras donas:

...tomaryam cativa a condessa con todallas donas filhas d'algo que con ella son, a qual cousa nos seria gram quebranto e desonrra e seriamos por ello menos preçados.(...) E vos todos sooes cavaleiros fidalgos e devees de saber o que avedes de fazer en tal feito como este, ca nos de morrer avemos e da morte nehuu de nos se pode escusar. Pois porque avemos de aver della tam gram medo? E, se agora nos alçar, viir nos ha en grande honrra e leixaremos boa fama, fazendo dereito e lealdade, o que todo fidalgo deve fazer.."

Afirma-se ainda disposto alutar sozinho se o não quiserem acompanhar. A promessa de fama e honras motiva, por fim, os cavaleiros que, em torpel, numa grupo compacto, cortam caminho entre os mouros e resgatam a porta do castelo. A luta é favorável aos cristãos. Conclui o narrador: "E, desta guisa que avedes ouvido, fpy livre a condessa e o castelo...e esto por o esforço de D.Diego Perez Machuca." Nem um pequeno louvor se tece pelo acto das mulheres cuja bravura é intencionalmente apagada da história.

É o tema proposto para esta comunicação assaz longo e frutuoso, não avançando nós grandemente, mas, esperamos, ter, pelo menos, despertado a curiosidade e incentivado outros a alguns dos aspectos aqui, brevemente, tratados.

Tenho Dito!


Notas

1. Utilizamos a edição de Lindley Cintra, 4 vols, LIsboa, INCM, 1951-1990

2. "etiam homo laudabiliter potest ad aliorum utilitatem gloriam suam appetere, secundum illud Matthaei, V,16: "Videant opera uestra bona et glorificent Patrem vestrum qui in caelis est..." Prouocantur etiam aliquid ad uirtutum opera ex appetitu gloriae humanae, sicut etiam ex appetitu aliorum terrenorum bonorum." (Summa Theologica, Secunda secundae, Quaestio CXXXII, art.I).

3. Livro II, pp.221-3.

4. Livro II, pp35-7.

5. Cf. sobre a importância deste livro na Idade Média hispânica Marcelino Menéndez y Pelayo - Historia de las Ideas Estéticas en España, Tomo I, Santander,Consejo de Investigaciones Científicas, 1964.

6. As dificuldades impostas pela viagem são sublinhados, no textos, com a referência à lonjura - "viindo de tam longa terra"- e arduidade - "porque tu as tomado tanto trabalho".

7. Este tema é recorrente na Crónica Geral de Espanha. Toledo é o centro umbilical da Espanha, justificando-se, em grande parte, assim, a sua glória enquanto cidade predestinada.

8. O texto enumera que eram :"lança, espada e maça".

9. Coração, neste contexto, é sinónimo de coragem, com frequentemente se usa na épica medieva.

10. revista às tropas.

11. O apego à pátria por D.Pedro atesta-se nos últimos dias no seguinte episódio:"E huu, que era seu moordomo, lhe disse: -Senhor, voles mãjar mõtõ? E Elle disse:-Nõ, ca en maao ponto eu tãto crii per elle e tanto fiz por os desta linhagem, per que hey de viir a morte. Mas quero comer carneiro, que he linguagem d'Aragon."

12. O rei faz-se passar por vassalo do seu vassalo.

13. Muito frequente entre os amntes, mas não só.

14. Sublinhado nosso.

15. Diego Catalan e Inés Fernández Ordoñez, entre outros.