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O imperativo no português e no espanhol
Marcelo Lustosa da Cruz
Por serem línguas-irmãs, originárias da mesma base latina, o português e o espanhol possuem, certamente, várias estruturas formais comuns entre si, tais como a morfossintaxe e a fonética. E o as formas verbais parecem seguir essa característica genética que possuem os irmãos, no caso as duas línguas neolatinas. Para poder comprovar, ou não, a assertiva, acima aqui será estudado um pouco o verbo latino, mais especificamente seu modo imperativo, assim como esse mesmo modo verbal na língua portuguesa e na espanhola, verificando as semelhanças que se supõe existir pelo fato da base comum, tentando identificar que semelhanças seriam essas e procurando apontar também as diferenças encontradas, que hão certamente de existir por se tratarem de línguas diferentes. Devemos nos lembrar sempre que o português e o espanhol, assim como todas as línguas neolatinas, descendem diretamente do latim vulgar, não do latim culto e literário. Por isso far-se-á primeiro um brevíssimo estudo do imperativo desse latim do vulgus, partindo depois para estudá-lo, comparativamente, no português e no espanhol. Na língua latina haviam dois tipos de imperativo, dos quais no chamado imperativo II o futuro tinha um aspecto sobrevivente desde a época clássica, não sendo mais encontrado em outras situações a não ser em fórmulas jurídicas ou consagradas, não restando rastro dele nas línguas românicas. O imperativo, com todo seu aspecto de futuro, sofre no decorrer do tempo a influência do modo subjuntivo. Parte dos verbos latinos apresentam, quando do surgimento do romance, a presença de formas do imperativo que remontam ao subjuntivo. Em terceiras pessoas, que não têm o imperativo, esta função se realiza através do subjuntivo. A fala familiar tende a colocar o imperativo pelo presente do indicativo quando se espera a execução imediata de uma ordem. É o presente do indicativo latino que representa, por exemplo, o plural em francês chantez e o provençal cantatz. A prosa clássica utiliza como imperativo de proibição tanto ne + perfeito do subjuntivo como a perífrase noli facere, enquanto ne + imperativo ou subjuntivo pertencem à linguagem popular e poética. Na época pós-clássica aparece o uso do presente de infinitivo em função de imperativo e em função de proibição da segunda pessoa singular com ne (nom). Visto um pouco do imperativo latino podemos passar para o imperativo da língua espanhola1, que possui oito formas verbais simples, que têm a característica de serem formas verbais puras, não possuindo os denominados morfemas intensos. As desinências constituem a característica extensa de nexo onde aparecem. Em espanhol, o imperativo não possui mais que duas formas, designadas pessoas, no modo imperativo, denominadas como segunda pessoa do singular e segunda pessoa do plural. As outras formas, ainda que pareçam cobrir o conteúdo do imperativo, não pertencem a esse modo, lingüisticamente, pois têm outros valores e conteúdos. O imperativo apresenta, no castelhano, uma base verbal e um elemento desinencial, que adota em sua expressão as formas a, e, cero, ad, ed, id. A diferenciação entre as três primeiras desinências e as três ultimas é a noção de número, uma diferença morfêmica bastante importante. Não existe mais que um elemento indicador de noção no imperativo do verbo espanhol: o morfema extenso. O imperativo deve constituir-se exclusivamente na forma verbal que vai funcionar para a exortação e para a apelação. Ou seja, o imperativo espanhol é um morfema extenso, com função puramente apelativa ou atuativa, que tem determinação com o morfema desinencial de segunda pessoa e é indiferente às diferenciações dos demais morfemas extensos. Podemos dizer ainda, seguindo o pensamento de Moreno de Alba (1978: 13), que o imperativo tem valor de futuro, pois é o modo no qual se expressam a ordem e a exortação, podendo a pessoa que a recebe somente executá-la após tê-la recebido. Vários autores, ainda segundo Alba, não aceitam o imperativo como modo verbal, chegando a afirmar que o imperativo é um modo de fala, não de língua. Não faz sentido a idéia de o imperativo não ser um modo de língua porque a língua também é formada, além da sintaxe da escrita, de uma fala que certamente vai influenciá-la, tornando-se, assim, um dos constituintes lingüísticos. Se o imperativo não for um dos modos verbais, em qual outra categoria gramatical seria colocado? Aqui certamente não conseguirei responder essa indagação, mas certamente vale a pena fazê-la. Em se tratando do vernáculo português, temos o uso do imperativo afirmativo e do negativo. Utiliza-se as duas formas somente nas orações absolutas, nas principais ou nas orações coordenadas. Tanto o afirmativo quanto o negativo podem exprimir: 1. uma ordem, ou comando; 2. uma exortação, ou conselho; 3. um convite, uma solicitação; uma súplica. Emprega-se o imperativo também para sugerir uma hipótese em lugar de asserções condicionadas expressas por se + futuro do subjuntivo. Esses diversos valores dependem da significação do verbo, do sentido geral do contexto e da entoação que se dá à frase imperativa. Embora o imperativo esteja ligado ao vocábulo latino imperare, não é para comando que usamos o imperativo em português, no comum das vezes, mas para exortar nosso interlocutor a cumprir a ação indicada no verbo que utilizamos. É, portanto, mais um modo de exortação que de comando. Ao contrário do imperativo espanhol, o imperativo no português não é contestado como modo verbal por se entender, de comum acordo, que assim o seja. Nas duas línguas neolatinas aqui apresentadas constatamos que o imperativo se caracteriza por ter um número reduzido de formas, posto que se pode dar ordens somente a quem se dirige a palavra. Um contraste verificado entre o português e o espanhol é o fato de no espanhol ser recomendado, até mesmo imposto, que o imperativo somente se deva usar nas orações afirmativas, enquanto que no português coexistem a forma afirmativa e negativa. Comentando um pouco mais sobre as semelhanças de características existentes entre as duas línguas neolatinas, verifica-se que nas duas o imperativo serve mais para a exortação que propriamente para se dar ordens ao nosso interlocutor, tendo uma característica de futuro, porque a pessoa somente pode atender a uma exortação depois de tê-la recebido. Posto isso, verifica-se que, por causa de sua origem latina comum, o português e o espanhol apresentam imperativos com mais semelhanças que diferenças. Como não poderia deixar de ser, temos algumas diferenças, apontadas aqui na medida em que foi possível verificá-las. Não se quis encerrar aqui o assunto, e tampouco se poderia, mas certamente este estudo mostrou o quanto percorrer os (des)caminhos das línguas pode se tornar apaixonante. Bibliografia CUNHA, Celso, Gramática do português contemporâneo, Belo Horizonte, Bernardo Álvares, 1970. LLORACH, Emilio Alarcos, Gramática Estrutural, Madrid, Editorial Gredos, 1969. MORENO DE ALBA, José G, Valores de las formas verbales en el español de México, Ciudad de México, Universidad Nacional Autónoma de México, 1978. VÄÄNÄNEN, Veiko, Introducción al latín vulgar, Madrid, Editorial Gredos, 1968. Nota 1.Denominada, também, de castelhano por se tratar da língua do antigo reino de Castela, sendo uma dentre outras línguas faladas na Península Ibérica. Essa língua passou a ser nacional e oficial devido a força política e econômica deste reino quando de sua união com o reino de Leão, passo decisivo para a formação da atual Espanha. |