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O LÉXICO DE DOIS MANUSCRITOS BRASILEIROS DO SÉCULO XVI1

 
Violeta Virginia Rodrigues
(UFRJ)

Nos inícios dos anos oitenta, observa-se um reencontro entre Lingüística, Lingüística Histórica e Filologia nos estudos lingüísticos no Brasil, devido ao crescente interesse pelos estudos históricos-diacrônicos. Tal reencontro, aqui, relaciona-se exclusivamente à Lingüística Histórica, em função da História da Língua Portuguesa. Nesse sentido, por meio de textos escritos, procura-se depreender algumas características do português no Brasil do século XVI.

Assim, este trabalho descreve alguns aspectos do vocabulário de dois manuscritos brasileiros do século XVI. São duas cartas escritas por Tomé de Sousa, governador do Brasil, e endereçadas ao Rei Dom João III, em Portugal. Escritas em Salvador, a Carta 49 data de 18 de julho de 1551 e a Carta 42, de 01 de junho de 1553. No que concerne ao tipo de escrita utilizado nas cartas, ressalte-se que a Carta 42 foi escrita numa minúscula assentada e que na Carta 49 a escrita é processada (cortesã degenerada), muito comum em Portugal e na Espanha. Embora contemporâneas, parece que as Cartas foram redigidas por dois escrivães, que já estavam um bom tempo no Brasil e, portanto, também um bom tempo sem ter contato com o português de Portugal. Relata-se na Carta 49 a procura de corsários na costa do Brasil e a captura de dois franceses. Além disso, menciona-se o término do governo de Tomé de Sousa e seu pedido para voltar ao reino. Na Carta 42, o governador presta conta de sua administração, informando sobre os problemas enfrentados em diversas capitanias brasileiras. Dá notícias, ainda, sobre uma povoação de castelhanos e sobre a Companhia de Jesus.

Sabendo-se que o português da transcrição é posterior ao do manuscrito, ao se "fazer a lição", ou seja, a leitura do manuscrito, assumem importante papel as anotações sobre o léxico e a ortografia, o que justifica a predileção por questões desse tipo.

Os aspectos de uso de vocabulário a serem analisados são: o uso do h 2 em ho, o, oo, ò, ó e em ha, a; a oposição antre / entre, fazendo-se, quando possível, relação com o(s) uso(s) lingüístico(s) atual (is). Para tanto, consultou-se a literatura vigente sobre o assunto, na qual se destacam autores como: Huber (1933); Oliveira (1933), Cafezeiro (1969).

Cumpre observar que os comentários sobre os usos observados no léxico das cartas supracitadas não visam a esgotar o assunto, já que são bastante preliminares.

Analisando-se os contextos de uso de ho, o, oo, ò, ó, vale registrar algumas considerações extraídas de Huber (1933:76;162). Este autor registra ho = o nos parágrafos 121, 4; 126; 302; 328; 346. Segundo ele, "é já pré-romana a aférese nos artigos (il)lu > lo, o, (il)la > a, plural los, os, las, as".

Outra possibilidade de uso destacada por Huber é a de o = ao (cf. p. 325, 74).

Vale mencionar, ainda, desse mesmo autor, o quadro de uso do artigo definido:

Um fato não menos interessante é o de "óó (em vez de ao) ser encontrado em documentos da Beira de 1270; ou (em vez de ao) na Regra de S. Bento, num documento de Lisboa de 1281, no CG." Também, refere-se, Huber, a óó = ao e a ós, os = aos, no parágrafo 302.

Leão (59-60; 149), por sua vez, apresenta as seguintes observações sobre o uso do h:

H

H não é letra mais que na figura. Mas é uma aspiração ou assopro, com que se pronunciam as letras, a que se ajunta. Da qual aspiração os Portugueses não usamos em pronunciação, posto que a usamos na escritura. Porque assim pronunciamos homem, como omem e honra, como onra, e hoje, como oje e hogano, como ogano, e hagora, como agora, e haver, como aver. E somente parece que a sentimos na pronunciação de duas interjeições: de há-há, significativa de riso, e de ah, significativa de temor, ou indignação. Porém, ainda que pareça esta aspiração ociosa, por não pronunciarmos, é porém necessária para guardar a ortografia dos nomes latinos e gregos, para por ela se conhecer a origem e etimologia dos vocábulos, e para diferença deles: como fazem os Franceses, que muitas letras não pronunciam perfeitamente em alguas palavras, e em outras as não pronunciam de maneira algua e todavia as escrevem, para entendimento das palavras na escrita e para se saber a origem delas.

E assim como esta aspiração se ajunta a vogais, assim também se ajunta a consoantes. Mas tem nisto diferença, que às vogais sempre o h precede, como homem, humilde, tirando estas duas interjeições dos Latinos, ah e oh. E nas consoantes sempre vai depois, como Philosophia, Theologia.

Sobre o uso do artigo afirma o mesmo autor:

O vocativo não tem artículos. Porque o ó com que chamamos é advérbio de chamar e não artículo. Porque a natureza dos nomes relativos e demonstrativos, como os artículos são, não padece aquele caso, que requer presença da pessoa a que se dirijam as palavras de chamar. E assim vereis, que não tem variação de gênero nem de número. Porque dizemos: ó senhor, ó senhores, ó senhora, ó senhoras. Assim que erram os que cuidam que o artículo tem variação de caso: o, a, d’o, d’a, ao, aa, ó. Porque não há mais que o, a e o que se prepõe, são as ditas preposições. Porque por dizermos de o de a viemos dizer d’o, d’a, comendo e apagando o e por ua figura chamada sinalefa, assim como de en o e de en a, viemos dizer no, na, e de como de com o, co e de com a, coa. De maneira que quando dizemos ao, a é preposição, e o é artículo. E quando dizemos aa, da mesma maneira o primeiro a é preposição, e o segundo artículo feminino. Donde se segue, que, necessariamente, quando a preposição se ajunta ao artículo feminino, que é no caso dativo, escreveremos por dois aa. O que antes parecia duro a alguns que não caiam na razão disso. Porque o a, como digo, por si só é preposição.

Oliveira (1933:30;45), em seu Capitolo deçimo, escreve:

E cõ tudo a estas duas til e h não metemos em conto de letras perfeytas: porq de feito a força dellas e muy diminuyda e tanto q quasi a não sentimos sen ajuntameto doutras letras: ne lhe podemos dar nome proprio que a pronuçiação dellas mostre (...)

Digno de nota, também, do mesmo autor, é o que este afirma no Capitolo xvlij:

(...) e não somente a ortografia e diuersa é diuersas linguas mas tãbe em hua mesma lingua se muda cõ o costume.

Cafezeiro (1969:11;51;66), que fez uma edição do Auto de dois ladrões, de Antônio de Lisboa, na nota 428, registra ò coitado: ao coitado e, na, de número 704 - Dou ò demo o bestarrão: dou ao demônio o besta.

Cumpre lembrar que não se encontraram, em nenhuma das duas cartas em análise, oo, ó, ò com valor de ao; forma essa que ocorreu em ambas.

Listam-se a seguir os contextos de ho na Carta 49 e na Carta 42:

Carta 49

1) (...) e o que Vossa Alteza ordenar em tudo isto serra o milhor, que eu não são senão todo ho cativeiro do mundo.

2) E por nom emfadar Vossa Alteza, gerado nas palavras que lhesus Cristo dizia a Seu Pai, Spritos quidem partus est, para todo ho que Vossa Alteza mandar, caro auctem deseja ir casar sua ffilha e ver sua mai, (...)

Carta 42

3) (...) ao menos fiz todo ho que pude e entendi (...)

4) (...) e guastei todo ho que tinha (...)

5) (...) senão pera que Vossa Alteza saiba que ho que me deu follguo de o despender em seu serviço.

6) (...) e vai muito nellas em as dizer e llenbrar a Vossa Alteza pera ho beem destas partes.

7) Mando ho debuxo delle a Vossa Alteza (...)

8) (...) mas tudo he graça ho que se delle pode dizer (...)

9) Tem tanntos filhos e netos, bisnetos e deçenndentes delle que ho nom ouso dizer a Vossa Alteza.

10) (...) e parte na costa, antre ho rio da Prata e São Viçente sessenta lleguoas delle (...)

11) (...) hordenei com grandes pennas que este caminho se evitasse ate ho fazer saber a Vossa Alteza.

12) Acuda Vossa Alteza com muita brevidade a mandar ho que nisto ha por seu serviço (...)

13) (...) por que não queria eu ter com homens tão vertuosos e tanto meus amigos, deferennças de pareçeres, por que senpre tenho ho meu por pior.

14) (...) nem menos da justiça que se faz. Ho Esprito Santo he a melhor capitania e mais abastada que ha nesta costa (...)

A exceção dos exemplos de número 12 e 14, parece que nos demais, usa-se o h para evitar a crase de vogais - em todos os contextos supracitados as palavras antecedentes terminam por vogal.

Comparando-se os casos de ho com os de o, nota-se que ambos podem ter os mesmos valores - artigo, pronome demonstrativo e pronome oblíquo átono. Justamente, por isso, o maior número de casos de o parecem já apontar para não mais se manter esta distinção gráfica.

Listam-se, agora, os contextos de ha:

Carta 49

1) (...) e a mandei careguada de madeira porque vall muito no Cabo Verde; ha hum ano que he partida daqui e nom tenho nova della (...)

2) (...) e homem que dez anos que sabee esta costa e serve nella de piloto.

3) (...) e nos, por muito madruguemos, nom de amanheçer mais asinha.

Carta 42

4) E o guovernador gerall não deve ter lluguar çerto senão rezedir onde lhe pareçer que ha mais neçessidade delle.

5) Ho Esprito Santo he a melhor capitania e mais abastada que ha nesta costa (...)

6) Pareçe me que Vossa Alteza deve mandar fazer alli huma povoação honrrada e boa por que ja nesta coosta nom ha rio em que entrem françeses senão neste (...)

7) Acuda Vossa Alteza com muita brevidade a mandar ho que nisto ha por seu serviço (...)

Percebe-se que o h permanece no verbo haver por questões etimológicas, diferenciando assim de a artigo e a preposição (número muito maior de casos nas cartas).

Cumpre ressaltar, no entanto, que há dois casos de verbo haver sem h na Carta 49, que reproduzimos abaixo:

(...) que he a maior nobreza e fartura que pode aver nestas partes (...)

(...) e ffugirão os culpados para dentro de sertão e não pode aver a mão pero de Guoees mais que dous prinçipaees e huma molher.

Nas duas cartas, distingue-se antre (preposição) de entre (verbo entrar), o que não se observa hoje - entre como preposição ou verbo só será distinguido pelo contexto lingüístico.

Os exemplos a seguir ilustram tal fato.

Carta 49

(...) E topou antre os indios dous françeses, hum grande linguoa e outro ffereiro que estavam ffazendo brasill para quando tornasse a nao que ali os deixara (...)

(...) e tornou se a São Vicente a tomar os oficiaes para se tornar a esta çidade e tornando da vinda outra vez a entrar no Rio de Janeiro topou ahi nova que no Cabo Ffrio, que são dahii dezoito leguoas, estava huma nao de cosairos ffrançeses. (...)

Carta 42

(...) dizendo lhas que asi como se for Vossa Alteza allarguando se vão elles tambem, e que se quiserem entrar polla terra a dentro que o fação dous e tres com suas llinguoas a preguarem ao gentio mas irem a fazer casa antre elles me não pareçe bem por agora (...)

Evidentemente, muitas outras anotações poderiam ser feitas sobre os manuscritos analisados, tais como: fonéticas, morfológicas, sintáticas. No que concerne às anotações ortográficas, a afirmação também é verdadeira - muitas outras considerações poderiam ser acrescentadas. Mas o que não se pode / deve esquecer é que se pôde/ pode entrar em contato com o português no Brasil do século XVI por meio de textos escritos aqui.


Bibliografia

HUBER, Joseph. Gramática do português antigo. Lisboa, Calouste Gulbenkian, 1933. p. 76; 162.

LEÃO, Duarte Nunes de. Ortografia e origem da língua portuguesa. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 59-60; 149.

OLIVEIRA, Fernão de. Gramática da lingoagem portuguesa. 3. ed., Lisboa, Edição de José Fernandes Júnior, 1933. p. 30; 45.

LISBOA, Antônio de. Auto de dois ladrões. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, 1969. Edição preparada por Edwaldo Cafezeiro. p. 11; 51; 66.


Notas

1. O trabalho que ora se apresenta é resultado de outro, apresentado ao professor Doutor Edwaldo Cafezeiro no curso Manuscritos brasileiros do século XVI, XVII e XVIII, na disciplina Scriptologia e crítica textual, como monografia de final de curso de Doutorado em Língua Portuguesa na Pós-graduação da Faculdade de Letras da UFRJ, no 1o. semestre de 1998.

2. Normalmente, o h era usado para indicar a tônica e/ou a palatal.