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O PENSAMENTO CRÍTICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO
Irene Jeanete Lemos Gilberto
Universidade Católica de Santos / UNESP-Assis Este trabalho objetiva apresentar uma reflexão sobre os estudos críticos de Fidelino de Figueiredo, tomando como ponto de partida o conjunto de ensaios intitulado Um Colecionador de Angústias (1953)2, coletânea de textos que possibilita uma análise sobre o método crítico do autor. As contribuições de Fidelino de Figueiredo para a história da crítica portuguesa, entre os anos de 1910 e 1930, assim como suas reflexões sobre o fazer literário, produzidas nas décadas de 30 e 50, período em que exerceu atividade docente em Universidades da Europa, dos Estados Unidos e Brasil, são relevantes para os estudos literários, pois oferecem a visão de um olhar crítico sempre atualizado, não apenas em relação às contribuições da crítica literária mundial, mas também no que diz respeito ao seu próprio modo de ver a literatura. Segundo Fidelino de Figueiredo, que não hesitava em reformular seus conceitos, conforme deixa claro no Epílogo de A Luta pela Expressão (1960), a reflexão crítica deveria estar sempre aberta aos modos de formar da literatura, cabendo à crítica moderna analisar a complexidade presente nas obras literárias, exercício fundamental para o desenvolvimento do pensamento crítico. Em Últimas Aventuras (1941)3 afirma a respeito da literatura produzida naquele momento que "o que há de melhor, humanamente e mais forte e mais rico (...) é a reflexão crítica sobre essa confusão, é o espaço criador de idéias"4. Em toda a obra de Fidelino de Figueiredo pode-se ler a importância do crítico na recriação da obra literária, pois em seus estudos dá ênfase à idéia de que, para atingir-se a "leitura total da obra", é necessário haver a somatória de leituras do texto literário, leituras essas que vão iluminando a obra e incorporando novos enfoques críticos. O enfoque de Fidelino de Figueiredo centra-se na linguagem escrita como arte da expressão e das inquietações e problemas de consciência do homem civilizado. Ao discutir a questão da interpretação biográfica, não chega a eliminar o problema da personalidade do escritor de literatura. Se o arcabouço biográfico representa um auxílio no estudo do desenvolvimento da obra literária de um determinado autor e ilumina certa curiosidade do leitor em torno da vida dos criadores, nenhuma evidência biográfica, do ponto de vista do autor, deverá modificar ou influenciar o julgamento crítico. O traçado da biografia de um homem mede-se não no estudo da cronologia ou nas ações de sua vida. Fidelino de Figueiredo define a biografia como "uma unidade ideal ou inexistente, que se dispersou em impressões através de livros de memórias de autores desconhecidos, escritas ou não, publicadas ou inéditas por longo tempo ou para sempre"5. Sob esse aspecto, a obra Um Colecionador de Angústias representa uma contribuição para a análise do pensamento crítico de Fidelino de Figueiredo. Nesses ensaios, na revelação de como se processa o desenvolvimento do olhar crítico sobre o mundo, pode-se vislumbrar a formação do escritor e do crítico, pois o aprendiz de leitura do mundo é também o aprendiz do método de análise e interpretação do real. O escritor leva consigo esse leitor do mundo e para o texto convergem as mentes do escritor e do leitor, o leitor intérprete do mundo. Um Colecionador de Angústias é um conjunto de textos que mescla cenas da vida cotidiana aos estudos críticos e, ao advertir seu leitor sobre o conteúdo que irá ler, lembra-lhe a especificidade de tal texto que, de certa forma, incorpora as "impressões" do autor sobre o mundo. "Talvez fosse mais exato ver nestas páginas traços biográficos e morais de uma geração que vê extinguir-se o seu estilo, mas não ergue de entre as derrocadas literárias pungentes, nem teme o futuro. Bem sabe ela que a história se compõe de sucessivos e impiedosos movimentos renovadores, mesmo quando só acordam figurinos esquecidos - e que todas as vagas renovadoras são fanáticas e suspendem a liberdade de cada um ser quem é - a angústia das angústias"6 Define, portanto, o colecionador como aquele a quem cabe registrar as novas tendências críticas e analisar com um olhar distanciado as "vagas renovadoras", evitando as injustiças, ao interpretar a obra literária ou os juízos que se detêm unicamente na intenção declarada dos criadores. Os conceitos de angústia e de solidão, por sua vez, enquadram-se dentro do modo de ver o universo, pois, do ponto de vista do crítico, a solidão é uma característica do homem exuberante, enquanto a angústia tem essência cognitiva e estética. Os estudos críticos contidos em Um Colecionador de Angústias possibilitam uma reflexão sobre a relação entre a linguagem da crítica e a linguagem literária, pois ao lado do ensaísta, podemos detectar o cronista do cotidiano que pinça aqui e ali os motivos que lhe servirão de base para a discussão teórico-crítica. A linguagem dos textos também se modifica, adquirindo acentos poéticos, na leitura do cotidiano e distanciando-se, ao adentrar nas questões teóricas. Estabelece-se dessa forma uma correlação entre a linguagem artística e a linguagem da crítica, uma linguagem que analisa e outra que é analisada. A linguagem expressiva, criativa, com que Fidelino de Figueiredo descreve as memórias do leitor iniciante na arte de ver e de selecionar as formas de ver surge em contraponto com a linguagem descritiva, interpretativa e valorativa do crítico em outros momentos de sua obra. É sob o signo da contemplação e da busca de recortes da paisagem urbana e humana que se abre a obra Um Colecionador de Angústias. O capítulo inicial, intitulado "A Rua", pode ser lido como a imagem dos procedimentos de leitura e possibilita ao leitor de Fidelino de Figueiredo estabelecer um confronto entre a forma iniciática da aprendizagem de ver o mundo e a formação do espírito do colecionador/crítico. O olhar do leitor atrai a atenção para os fragmentos espaciais e projeta a imagem valorativa desses fragmentos. A produção dessas imagens valorativas constitui uma complexa operação da mente acionada, de um lado, pela sensação, de outro pela atenção. A leitura feita por esse olhar aprendiz do mundo representa uma tentativa de organização entre convergências e divergências, pois, ao operar com o heterogêneo, estabelece o jogo comparativo - método fundamental para o desenvolvimento do olhar diferenciado. A rua representa o mundo a ser descoberto. O olhar do narrador espraia-se sobre o espaço e, na visão da rua, vícios, virtudes, segredos dos casarões formam um caleidoscópio, cujas imagens deverão ser interpretadas. A relação entre a visão do narrador-observador e a rua é marcada pelo isolamento do "eu", condição essencial, segundo o crítico, para melhor poder observar o objeto de estudo. As descrições e as narrativas intercaladas em Um Colecionador de Angústias recebem um enfoque poético que o leitor assimila, auxiliando-o na composição do retrato desenhado pelo crítico. Para se atingir o método crítico, é necessário desenvolver o método de análise do objeto e aprender com o mundo à volta, para que se opere, posteriormente, a síntese interpretativa. Escreve o crítico nesse capítulo intitulado "A Rua": "Aquela rua foi o seu primeiro universo e sua grande escola para certas noções que jamais se apagam da alma, antes se vincam e crescem com ela, como se ampliam indelevelmente as inscrições na casca das árvores". 7 O aprendizado do crítico se fez no conhecimento da rua e "com os materiais ministrados pela rua é que elaborou a sua enciclopédia e a sua primeira imagem da vida."8 Merleau-Ponty9 chama a atenção para esse olhar retrospectivo e ao mesmo tempo prospectivo, que busca o estímulo no passado e ao mesmo tempo projeta-o em direção ao vir-a-ser. As constantes mudanças da paisagem oferecidas ao olhar do observador e registradas cuidadosamente em sua memória são recapituladas no segredo da noite e reinterpretadas pelo colecionador: "E à noite, na sua camita, às escuras, recapitulava as aquisições do dia, ao mesmo tempo que se entretinha a interpretar as formas fantásticas desenhadas pela luz que vinha da rua, através da janelinha da casa de fora"10 Ao operar a leitura do mundo e decifrar o código espacial, o ensaísta português, para quem o conhecimento literário está em gérmen no ato inicial de pensar, descreve como o aprendiz de crítica, com seu olhar tátil, sinestésico, recuperava as imagens diárias, interpretando-as à noite, selecionando-as, decifrando o código visual como um método que lhe possibilitaria a compreensão da pluralidade e da complexidade do espaço. A leitura de Um Colecionador de Angústias, ao mesmo tempo que é um deleite para o leitor, representa um passeio pelos meandros da linguagem poética Fidelino de Figueiredo, pois reúne questões filosóficas, teóricas, críticas, obra composta de textos narrativos e descritivos que lhe servem de apoio para a discussão teórica, cujo resultado é um diálogo entre o que se diz e sobre o que se diz. Os intervalos existentes entre os textos críticos e criativos possibilitam ao leitor a compreensão da obra como um todo, na qual é constante a troca de papéis entre emissor e receptor do texto. A leitura do capítulo em análise possibilita ao leitor aproximar o conceito de leitura proposto pelo ensaísta em outras obras. Na visão de Fidelino de Figueiredo, a literatura é uma forma de conhecimento do homem e de seus reflexos deformadores sobre o universo, "conhecimento intuitivo que expressa as suas conquistas por meio da ficção, da melodia métrica e das idéias", conforme afirma em Últimas Aventuras. 11 Cabe ao crítico, portanto, interpretar a obra, de modo a traduzir a sensação estética por ela produzida, pois uma vez que a literatura é uma forma de conhecimento, não pode ser lida desprevinidamente, pois, conforme afirma, "ler desprevinidamente é ler com desconhecimento da carreira póstuma da obra. Como tocar as cordas de um violino sem caixa de ressonância"12. Segundo o crítico, a leitura em profundidade é formadora do gosto e, ao observar a forma como os críticos de seu tempo viam a obra literária, chama a atenção para a importância da crítica enquanto atividade que tem por objeto a literatura como manifestação estética: "(...) no dia em que a crítica for sinônimo de leitura em profundidade e não de erudição marginal, quando o conteúdo e o destino da obra forem o tema principal dessa crítica e o recebimento da força promotora ou dos estímulos estéticos prevalecer sobre a preocupação avaliadora ou quando se conseguir algum critério judicativo articulado à filosofia do conhecimento - nesse dia a crítica literária ou a ciência da literatura terá dado um passo decisivo para sua dignificação"13. Seguindo o método histórico, sem descartar o estilístico, Fidelino de Figueiredo afirma reiteradas vezes em seus ensaios a importância de uma leitura crítica que apreenda a obra literária como um todo, embora deixe claro que cada obra só atinge a sua plenitude após uma longa carreira histórica. Na leitura que faz da obra literária (a grande literatura, como ele a denomina), esta é definida como "um feixe de luz disparado em leque para o futuro, como estrela que se acendesse de novo nos espaços e soltasse aqui um reflexo luminoso, criasse ali uma sombra fantástica, deformasse e recriasse acolá toda a realidade" 14. Sob esse aspecto, a obra Um Colecionador de Angústias pode ser descrita como uma crítica da recriação, pois o duplo papel de leitor crítico e de criador possibilita a leitura das perspectivas críticas na relação leitor-obra. O método histórico é uma forma de se chegar ao juízo crítico sobre o valor estético das obras literárias e, ao referir-se às diferentes leituras do Quixote, Fidelino de Figueiredo mostra o percurso da crítica em suas fases sucessivas de interpretação da obra de Cervantes: "sátira política, sátira literária de chave autobiográfica, um símbolo e outro, para chegar a ser o que é: o mais representativo mito da Idade Moderna"15. Em busca de novas interpretações guiadas pelo "feixe de luz", uma das expressões com que define a obra literária, o crítico vai desvendando os múltiplos pontos de vista do texto, dele extraindo as categorias necessárias para distinguir os fenômenos específicos da obra de arte. Na visão do ensaísta, "toda obra literária viva se compõe funcionalmente desse conjunto: o criador ou autor, que concentra todas as influências que determinam a obra; a obra, que dele se solta como organismo vivo do ventre materno e vai viver destino próprio; e os meios sucessivos ou a ondulação infinita das gerações que recebem a obra e lhes incutem um destino ou uma "vária fortuna"16. As obras literárias têm um crescimento próprio, em acordo ou desacordo com o público receptor e, no fundo dessa acordo/desacordo está o gosto estético da comunidade. A crítica é, sob esse prisma, poderoso instrumento de formação humana. Ao rastrear as interpretações da crítica sobre a obra de Balzac, o leitor poderá analisar, segundo Fidelino de Figueiredo, a própria evolução da crítica, no seu século áureo e no reinado francês. A leitura profunda do texto literário deve ser feita na sua relação com a tradição literária, com a história da cultura e com outras disciplinas, entre elas a Filosofia, e a História. Ao definir o conjunto de ensaios de Um Colecionador de Angústias como uma viagem através de documentos vivos, o crítico revela o critério colecionista: a observação, a leitura em profundidade, a interpretação crítica. E ao lançar seu olhar sobre textos críticos e filosóficos que compõem seu repertório de leituras, Fidelino de Figueiredo chama a atenção para o método comparatista, para a importância dos estudos da literatura oral e para o estudo entre a arte literária, a visual e a musical. Sob esse aspecto, é fecunda a contribuição crítica de Fidelino de Figueiredo aos estudos literários, pois seu pensamento incorpora às tendências filosóficas a avaliação de métodos críticos, a historiografia, os estudos de literatura comparada, além das referências à oralidade e às artes não verbais. A comparação entre a arte verbal e a não verbal permeia o discurso do crítico que recorre, a cada passo, a comparações entre artes plásticas e a música. Na sua concepção, a deformação tendenciosa que o escritor busca exprimir em sua obra representa a procura da grande linha dos artistas plásticos, que eliminam os pormenores, fundem os planos, ampliam como fez Rodin com os seus mármores ciclópicos. Em relação ao ensino da literatura, o ensaísta observa que ensinar literatura é apenas estudar ou ensinar a ler, pois o bom ensino da literatura é o bom ensino da leitura, questão que se torna o ponto central das reflexões deste trabalho. Em Ultimas Aventuras, define a leitura como "a procura afanosa, incansável e impossível dessa mesma refração individual, da adulteração da realidade pelos melhores espíritos - porque só se chega a interpretar o mundo desfigurando-o, para o pôr de acordo com o mesmo pequeno mundo interior".17 Segundo o crítico, cada palavra há de ter seu valor coletivo e seu valor pessoal, mas só raramente coincidirá com a vibração, com toda a vibração que nela pôs o artista, pois escrever é praticar a arte da léxico-estesia. Se, ao entrar em contato com os textos do ensaísta português, o leitor sente-se em casa, familiarizado com conceitos que já leu e releu em outros textos críticos, há que se recuar no tempo e verificar a cronologia dos ensaios, a maioria produzida durante a primeira metade do século XX. Por outro lado, essa visão se enquadra no pensamento do crítico, segundo a qual o autor desconhecido representa um papel relevante na cultura, pois suas idéias estão espraiadas em muitas obras de pensadores conhecidos. Ao acompanhar o pensamento crítico de Fidelino de Figueiredo, o leitor poderá detectar uma crítica da totalidade que não é apenas um produto de tendências culturais e pessoais. Noções sobre conceitos de literatura, gêneros literários, estilo, métodos da crítica e ensino da literatura estão presentes no conjunto de suas obras, das quais extraio um fragmento representativo sobre a crítica: " É a atitude ou a tendência iniludível de quem assenta os seus apreços e simpatias, preferências e juízos sobre uma análise dos fundamentos da verdade, uma procura dos resíduos de absoluto em cada pensamento, cada palavra ou cada obra. É o esforço por pautar a conduta por uma vontade racional e sequiosa do absoluto"18 Ao partir de uma perspectiva individual, o crítico passa a ver a obra de arte como uma construção, um complexo de idéias sobre as quais irá se debruçar o estudioso de literatura. Criticar é, acima de tudo, repensar o percurso criador da obra e é por isso que cada geração crítica contribui para a leitura do texto literário, formando o gosto e elevando o sentido crítico. Notas 1. Professor Assistente Doutor do Departamento de Letras da Universidade Católica de Santos. Profa. do Curso de Pós-Graduação da UNESP- Câmpus de Assis 2. FIGUEIREDO, Fidelino. Um Colecionador de Angústias. Lisboa: Guimarães Editores, 1953. 3. FIGUEIREDO, Fidelino. Ultimas Aventuras. Rio de Janeiro: Edição de "A Noite", 1941. 4. FIGUREIREDO,Fidelino. Últimas Aventuras, p. 143 5. FIGUEIREDO, Fidelino. Um Colecionador de Angústias, p. 20. 6. FIGUEIREDO, Fidelino. Um Colecionador de Angústias, p. 23. 7. FIGUEIREDO, Fidelino. Um Colecionador de Angústias, p. 33. 8. FIGUEIREDO, Fidelino. Um Colecionador de Angústias, p. 33. 9. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1966. 10. FIGEUIREDO, Fidelino. Um Colecionador de Angústias, p. 44. 11. FIGUEIREDO, Fidelino. Últimas Aventuras, p. 190. 12. FIGUEIREDO, Fidelino. Ideário Crítico. Organização, Prefácio e Notas de Carlos Assis Pereira. São Paulo: Faculdade de Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, 1962, p. 181., p. 181 13. FIGUEIREDO, Fidelino. Ideário Crítico, p. 195. 14. FIGUEIREDO, Fidelino. Ideário Crítico, p. 195 15. FIGUEIREDO, Fidelino. Ideário Crítico, p. 184. 16. FIGUEIREDO, Fidelino. Ideário Crítico, p. 187. 17. FIGUEIREDO, Fidelino. Últimas Aventuras, p. 195. 18. FIGUEIREDO, Fidelino. Ideário Crítico, p. 415. |