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Os sentidos da busca: o coletivo e o individual na expansão marítima portuguesa

 
Cláudio de Sá Capuano
UFRJ

O empreendimento marítimo português foi fruto de vários anos de investimento econômico, político e intelectual que, aliado às exigências técnicas necessárias às viagens, acabou por possibilitar a conquista do oceano desconhecido.

A idéia de penetração no desconhecido não implica necessariamente o desejo pelo novo (no sentido de inusitado). Parece estar claro que a única novidade que os navegadores portugueses buscavam era a rota alternativa que ligaria as ocidentais praias da Península Ibérica ao outro lado do mundo, onde estavam as riquezas.

Por outro lado, não buscar o inusitado não garante a ninguém, sobretudo aos que se aventuram no desconhecido, não encontrá-lo. De fato, a beleza que o empreendimento português legou à posteridade está muito mais ligada à revolução causada na sociedade ocidental da época pela descoberta de novos mundos povoados, que propriamente pelo aporte de riqueza material vinda do oriente.

Basta tentarmos conhecer a impressão que um jovem estudante, brasileiro ou português, tem da empresa marítima portuguesa que perceberemos que o que mais sobressai de todo o episódio histórico é a imagem de aventura, de desbravamento, de conquista. O que povoa o imaginário dos que apenas tomaram conhecimento da história porque cá vivem é uma vaga idéia de que, há quinhentos anos, heróis europeus lançaram-se ao mar em pequenas embarcações e acabaram por descobrir o um novo mundo.

Contudo, bem sabemos, através da história medieval portuguesa, que o que possibilitou um empreendimento de tal vulto não foi nem poderia ter sido fruto de um improviso. Fernando Pessoa, no poema Mensagem, refere-se a D. Diniz como "o plantador de naus a haver"2, aquele que plantou árvores, matéria prima das naus que cruzariam os mares. Foi igualmente o rei que fundou o Estudo Geral de Lisboa, germe da primeira universidade portuguesa, ainda no século XIII, posteriormente transferido para Coimbra. No poema a ele dedicado, Pessoa aponta pela primeira vez na Mensagem um "proto-anseio" do português pelo mar, num tempo em que a defesa da terra ainda era a tônica em Portugal.

Já no século XV, pouco mais de cem anos após a fundação da primeira universidade portuguesa, os portugueses chegam a Ceuta. Muito antes, portanto, do projeto expansionista pela via marítima que D. João II forjaria já na segunda metade do século, os portugueses começavam a concretizar a vocação atlântica que marcaria a cultura de seu povo. Por toda a primeira metade do século XV, Portugal se fez presente no norte da África. É importante ressaltar que já havia a consciência da importância de uma instrumentalização, o que passava necessariamente pelo domínio das técnicas disponíveis na época. Não foi por acaso que D. Duarte, presente na incursão de 1415 a Ceuta, viesse a valorizar os estudos de uma maneira geral, bem como o domínio de toda a tecnologia da época. A Escola de Sagres é exemplo cabal desta mentalidade que reinava no Portugal dos princípios daquele século, sendo o infante D. Henrique, filho de D. João I e também um dos presentes à conquista de Ceuta, seu fundador e maior incentivador. Também a ele Fernando Pessoa oferece papel de destaque na Mensagem, ao representá-lo como a cabeça do Grypho, o mentor, aquele que tinha "aos pés o mar novo e as novas eras"3. É somente depois da intensificação dos estudos náuticos, que transformaram os portugueses nos melhores pilotos do mundo4, que se conseguem feitos como a ultrapassagem do Cabo do Não, antigo limite geográfico a partir do qual não se podia ir, e do Bojador. Era a expansão marítima que germinava da determinação das expedições henriquinas.

Já nesta época, entre 1440 e 1460, o avanço da engenharia náutica permitiu o desenvolvimento da caravela, a embarcação mais apropriada às viagens ultramarinas. Por outro lado, ao conquistar pouco a pouco a costa africana, a coroa portuguesa consegue por fim obter ouro em pó, justificando economicamente os projetos do infante. A esta altura, D. Henrique tinha total apoio do rei Afonso V, o monarca que considerava que o desenvolvimento das Letras por as considerar "o complemento indispensável das Armas"5, uma vez que tinha a ambição de divulgar as conquistas portuguesas por toda a Europa.

As práticas da primeira metade do século XV apontam para basicamente dois aspectos. Tudo o que foi feito, tanto no campo cultural quanto no que diz respeito às incursões no mar, antes de mais nada possibilitou que se estabelecesse posteriormente um projeto definido de expansão para o mar. Por outro lado, ficou a lição de que uma conquista de tal porte só poderia ser concretizada através de várias incursões menores, pois o conjunto delas é que representaria a grande descoberta. De fato, é nisso que se baseou a estratégia marítima portuguesa nos inúmeros anos de exploração da costa africana.

Concluído o processo histórico da expansão, mas não muito distanciado do tempo da grande prosperidade advinda das navegações, surge o documento literário português mais famoso, cujo objetivo foi registrar, como teria sido de pleno agrado de D. Afonso V, os feitos portugueses, desde a formação do estado até a sua maior empresa. Refiro-me obviamente ao magistral poema de Camões, Os Lusíadas.

A viagem de Vasco da Gama, tal como é narrada por Camões, evidencia alguns pontos interessantes. Em primeiro lugar, há o registro de uma sucessão de atos heróicos, que buscam destacar do conjunto dos demais europeus o povo português. Não é à toa que Camões escolhe a épica, um gênero laudatório, no qual a história narrada, por ser de antemão conhecida, não reserva surpresas nos acontecimentos em si, mas sim na disposição dos fatos e nas estratégias utilizadas para que seja composta.

Podemos perceber, ao fim de uma leitura atenta do poema, que se trata de uma narrativa marcada por duas ânsias: a da busca e a do retorno.

O desejo de buscar é, como vimos, a força primordial que teria movido os portugueses rumo ao desconhecido. Ao acrescentar inúmeros obstáculos, associando-os à presença do elemento maravilhoso, mais que simplesmente ser fiel ao gênero escolhido, Camões valoriza os feitos dos navegadores portugueses. Isto não quer dizer que as realizações por si só não tivessem o valor suficiente que justificasse a épica, mas o que o Poeta acaba fazendo é sublinhar ainda mais tal valor. Por outro lado, se pensarmos nas reflexões que fizemos anteriormente, perceberemos que, ao destacar o desejo da busca, Camões coloca o poema em sintonia com o que de fato houve nos anos que preparam as condições necessárias para que a viagem de Vasco da Gama ocorresse.

Há, no entanto, um detalhe importante. Para quem busca algo com o intuito de conquistar, faz-se necessário o retorno ao ponto de partida. Somente assim a conquista se efetiva. De nada teria adiantado ir além do Bojador, se a expedição que realizou o feito não tivesse voltado para efetivar a conquista. Na prática, a descoberta não se concretiza exatamente no momento em que ocorre, mas apenas quando a viagem se encerra, quando se retorna ao ponto de partida.

Esta é uma imagem recorrente na cultura ocidental. Basta lembrarmo-nos do mítico fundador de Lisboa, Ulisses. A sua trajetória não termina juntamente com a Guerra de Tróia. A vitória na guerra não é garantia da reconquista do que deixou para trás. São necessários vários anos de peripécias no mar, com muitas dificuldades, que não desfazem seu desejo de retornar, para que o herói consiga alcançar Ítaca. Ulisses jamais desistiria, poruqe tinha a nostalgia do porto da partida, tinha razão e desejo de voltar.

Toda a construção religiosa do mundo ocidental, a partir do desenvolvimento na crença no cristianismo, se baseia na esperança do retorno do messias. Tal retorno tem um ar de triunfo, de vitória do bem sobre o mal, da verdade única sobre a mentira. O mesmo acontece na construção do mito sebástico. No poema "A última nau"6, por exemplo, Fernando Pessoa compõe a imagem do desejo da volta, a imagem do rei, sob a forma de um "vulto baço / que torna"7 da cerração, da névoa que finda. Há que se notar, ainda com relação a este poeta, que o lugar em que D. Sebastião permaneceu é uma "ilha indescoberta", justamente indescoberta porque de lá não voltou.

Vamos pensar agora na idéia da busca associada à do retorno. O esforço da busca é fruto de desejos individuais, como o foi o do infante D. Henrique, mas encontra respaldo na coletividade. Camões, ao dar o nome do povo a seu poema igualmente reforça o valor do coletivo em detrimento do individual. Por mais que Vasco da Gama apareça como a encarnação do herói épico, não se pode dele dissociar o caráter metonímico, ou seja, a representação nele de todo o povo português. Não é Vasco da Gama quem consegue chegar à Índia: é Portugal. Se o poema praticamente inteiro é dedicado à narrativa da ida, isto é, à narrativa da busca, não pode dele faltar, ainda que em pouquíssimos versos, a menção ao retorno. Se o que se buscava não era exatamente o inusitado, já que o que se queria era algo bem definido, uma nova rota para as Índias, essa busca não se efetivaria a não ser que houvesse o retorno ao ponto de partida.

Por outro lado, a conquista definitiva só foi possível devido a um longo tempo de preparação, marcada pelo esforço de cada indivíduo que acreditava na possibilidade de consecução das metas expansionistas. Afirma-se que, ainda no reinado de D. Duarte, antes portanto de 1440, devido à obstinação do infante D. Henrique em ir "mais além", "criou-se uma saudável emulação, que muito contribuiu para intensificar os Descobrimentos."8

É justamente o desejo de ir "mais além" que Fernando Pessoa capta e registra em "Padrão", o segundo poema da Segunda parte de Mensagem. Se a leitura de Camões nos leva a perceber o desejo coletivo da busca, a de Pessoa introduz um dado novo. É que, no âmbito do desejo coletivo, como acabamos de pontuar, a nostalgia pela volta é fundamental. Entretanto, para se retornar, é preciso ter antes partido. Cada partida, no entanto, significava retomar uma viagem anterior, bem sucedida porque conheceu não apenas o caminho de ida, mas também o de volta. O caminho de ida era tanto maior, quanto maior tivesse sido o esforço de quem veio antes e retornou. Esforçar-se significa justamente desejar ir mais além, para fixar o padrão em um ponto mais remoto.

Há portanto uma tensão entre o desejo coletivo e o individual, o que no próprio poema é expresso por relações de oposição entre o que é finito e o que é infinito9, principalmente na fase que vai das primeiras conquistas até a vitoriosa viagem de Bartolomeu Dias, na qual se contornou o Cabo da Boa Esperança. O desejo coletivo é o da conquista total, que se efetiva no retorno, como o que realizou Vasco da Gama. Já no âmbito individual, há sempre o desejo de alcançar algo mais distante, "o porto sempre por achar"10, como nos diz Diogo Cão em Padrão, ao manifestar o sentimento do ir sempre além. O navegador se apresenta dominado por uma febre de navegar, por uma ânsia que só se satisfará no porto ainda por achar. Apaga-se, portanto, no plano individual, a possibilidade da volta. Se Vasco da Gama encarna o Ulisses clássico, o que foi justamente para voltar com a conquista, Diogo Cão é o Ulisses moderno, o Ulisses de um tempo em que a calma está sempre naquilo que ainda não foi alcançado. Vasco da Gama, a exemplo de Ulisses, passa a ser, concluída a viagem, o navegador do mar finito, do mar conhecido, pois "dobrado o Assombro, o mar é o mesmo: já ninguém o tema!"11.

Ainda que tomemos ambos os navegadores, Vasco e Diogo, como representantes metonímicos do povo português e de todos os navegadores, respectivamente, não conseguiremos esvaziar a relação observada entre o coletivo e a necessidade da volta em contraste com o individual e o desejo de infinito.

O grande esforço de cada pequeno navegador é dar a alma para levar até um areal mais distante o padrão capaz de assinalar o êxito da obra ousada. Trata-se portanto do esforço individual, pessoal. O mar por que navega Diogo Cão é o mar sem fim, que já era português quando não tinha fim, mais português ainda se tornou quando foi conquistado. É no mar conhecido que Vasco da Gama empreende sua viagem de volta, inaugurando talvez por isso o princípio do declínio do Império, assim como declinou um dia a cultura grega, depois, quem sabe, que Ulisses conquistou o mar.

Para concluir, mais uma observação. O período a que se reportam os fatos históricos aqui abordados através de textos literários corresponde a um interessante momento de transição. Esse momento engloba, por exemplo, o marco histórico do término da Idade Média. Mas os homens que fizeram com que a história sofresse essa forte inflexão eram homens ainda medievais, mas que aos poucos tomavam consciência de si próprios enquanto indivíduos. Estamos portando observando o momento em que o homem começa a ter a capacidade do olhar subjetivo, típico do indivíduo moderno12, o que irá contrastar contundentemente com a objetividade de visão do homem medieval.

Justamente neste episódio da história do ocidente podemos perceber que o esforço (grande) do indivíduo já se apresentava capaz de decidir, através da sucessão e do somatório de pequenos grandes atos, o destino da coletividade.


Bibliografia

CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. Porto, Figueirinhas / Rio de Janeiro, Padrão, 1978.

COSTA LIMA, Luiz. Limites da Voz - Montaigne, Schlegel. Rio de Janeiro, Rocco, 1993.

FERREIRA, Emaria Emma Tarracha. Literatura dos descobrimentos e da expansão portuguesa. Lisboa, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, s.d.

LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade – psicanálise mítica do destino português. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 5 ed., 1992

PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro, Cia José Aguilar Editora, 1972.

QUESADO, José Clécio. Labirintos de um livro à beira mágoa: análise de Mensagem de Fernando Pessoa. Rio de Janeiro, Elo, 1999.

SARAIVA, José Hermano. História Concisa de Portugal. Lisboa, Europa-América, 16 ed., 1993.


Notas

1. Aluno do Mestrado em Poética da UFRJ.

2. Pessoa, F. 1972, p. 73

3. Idem, p. 76

4. Ferreira, M. E. T., s.d., p. 45

5. Idem, p. 36

6. Pessoa, F., p. 82

7. Idem, p. 82

8. Ferreira, M. E. T., s.d., p. 13

9. É o que aponta a leitura de Quesado, 1999, p. 103-105).

10. Pessoa, F. 1972, p. 79

11. Idem, p. 80

12. Cf. Costa Lima, 1993.