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Pátria, uma trajectória de deriva
("Esse texto também aparece na Revista Veredas N° 3")
Maria Armandina da Cruz Maia
Universidade Nova de Lisboa Para quando a nova viagem para esse outro desconhecido
que somos nós mesmos e Portugal connosco? Eduardo Lourenço1 Não posso viver comigo,
Não posso fugir de mim. Sá de Miranda2 Oceanites erraticus é o nome de uma ave marinha, "descoberta" em 1972, pelo cientista e filósofo Dietz, como a primeira a encetar uma deriva continental, muito antes do aparecimento dos homens na terra. Numa tentativa de reconstruir o voo que executava na época em que a Pangeia existia, em rota directa de sul a norte, esta ave marinha executa agora uma trajectória de migração turtuosa, em zig-zag, que se inicia no Antártico. Atravessando o Atlântico várias vezes, toca primeiro a Argentina, voando depois para a África austral, poisando entre as chicambas do rio Limpopo, de onde segue para o Brasil, norte de África, Terra Nova e Land's End, para terminar na sua zona de postura, as ilhas Spitzbergen, no Ártico, impreterivelmente a 1 de Abril de cada ano3. Ha aventuras, como a deste pássaro, que nos lançam por caminhos árduos. Falar de pátria, por exemplo, depois do Pessoa é, procurar de novo um azul na infinita distância, o que, obrigatoriamente, nos obriga a viajar por dentro de nós próprios. Falar de pátria significa, portanto, antes de mais, falar de uma condição, de um modo de estar e de sentir o mundo. Não são aqui convocados -e não deverão ser confundidos- os territórios políticos que deram lugar a estruturas organizacionais que regem o colectivo nacional de cada povo. A pátria de que aqui venho falar desenha-se, fundamentalmente, numa estruturação íntima da geografia do sentimento, que nos liga lugares a lugares e pessoas, um berço e um refúgio indelevelmente associados a um estado de pureza original, bem longe dos interesses que regem Estados e até nações. Este «pedaço de mim», ou «metade exilada de mim», como o chamou Chico Buarque, tem testemunhos poderosos na poesia caboverdeana, cuja postura insular, foi classificada pelo "mestre" Pierre Rivas como «Insularité e deracinement, deux structures constitutives et antagonistes de l`identité capoverdienne».4 Sugestiva e precocemente, ela viria a apontar um caminho de fusão sentimental da vivência da pátria: para além da tua epiderme de jambo dourado o lirismo antigo da minha raça crucificada na encruzilhada de duas sensibilidades[...] que és para mim? Minha amante, Minha mamãi adormentando os meus cuidados[...] Osvaldo Alcântara, Presença5 O exemplo de Cabo Verde, protagonizou uma luta tão sem tréguas quanto inglória, quando os poetas que ambicionavam «casar-se com a respiração do mundo», foram confundidos com cidadãos em crise de rebelia pequeno-burguesa. A famosa polémica do evasionismo, cujo padrinho de baptismo dava pelo nome de Manuel Bandeira, com a seu Vou-me embora p´ra Pasárgada, coroado de Estrelas da manhã,6 acabaria por tornar-se um marco da incompreensão geral e generalizada, que os imperativos políticos interpuseram entre a criatividade e um imaginário «dever patriótico»: era a voz do povo, o grito do povo, o choro do povo.[...] Aguinaldo Brito Fonseca, Poeta e Povo7 Por ocasião da morte prematura de um grande poeta caboverdeano, Pedro Corsino de Azevedo, o duplo de Osvaldo de Alcântara, de seu nome Baltazar Lopes, iria pôr termo a esta questão, ao definir o evasionismo como a necessidade de «completar a sua alma», classificando o jovem poeta como alguém «em quem a capacidade de se debruçar sobre os abismos interiores, superava déficits provincianos de cultura».8 No Portugal desse tempo, trazíamos na alma uma pátria triste, emparedada, um passaporte para turistas em busca de um Abril em Portugal, que só podia fazer-nos sentir saudades do futuro. Deste Portugal ficaram cicatrizes longas de apagar, apesar da memória do esquecimento persistir em atenuar a cisão irreparável, de, durante séculos, termos vivido na sombra da História, na cauda da Europa, numa casa portuguesa que se erguia orgulhosamente só, num imenso deserto que circunscrevia o mundo à pobre e resignada respiração deste modo de "ser português", pequenino, doméstico e domesticado que os poetas do desassossego definiram assim: há novecentos anos. Não cresci nem mudei. Manuel Alegre, Canto Peninsular9 No meu país há uma palavra proibida. Mil vezes a prenderam, mil vezes cresceu. Manuel alegre, O canto e as armas10 Por um país de pedra e vento duro Por um país de luz perfeita e clara Pelo negro da terra e pelo branco do muro Pelos rostos de silêncio e de paciência Que a miséria longamente desenhou Rente aos ossos com toda a exactidão Dum longo relatório irrecusável […]Espaço raiz e água Ó minha pátria e meu centro Me dói a lua me soluça o mar E o exílio se inscreve em pleno tempo Sophia de Mello Breyner, Pátria11 Esta dor da pátria que se tem e a dor da pátria que se queria ter, vai dar lugar a um espaço de utopia, numa busca incessante de um onde, sem lugar exacto e sem tréguas, numa dilacerada vivência que nos bifurca a todos, ao sermos nós, pacíficos cidadãos e simultaneamente o contrário de tudo isso, como antecipou Pessoa, ao querer simplesmente ser «todo em cada coisa», por imperativo pessoal e intransmissível, onde não assomam quaisquer laivos de patriotismo, ao contrário de um discurso oficial que durante décadas alimentou uma pátria de contornos nítidos, que porém não ultrapassava a fronteira de uma imagem mítica e virtual. Um sítio por dentro. Um obscuro ponto No mapa luminoso Do coração. Manuel Alegre, Ítaca12 Cheguei à procura de um sonho. A floresta recebera os meus passos no prenúncio das colinas e vales onde me esperava o silêncio de um nome Fernando Pinto do Amaral, Horace Townsend13 A virgindade almejada nestes textos vai cruzar-se, na história dos povos, com o momento de libertação, que, aparentemente, iria substituir o espaço asfixiante envolvente, expresso em termos épicos, que vão desde a revelação do silêncio mais recôndito à explosão libertária, libertina, opulenta e excessiva, da palavra, do gesto e dos sentidos. O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo Sophia de Mello Breyner, 25 de Abril14 Enchem-se as ruas de júbilo. Destemem-se os corpos. Apertam-se mãos desconhecidas. Trocas de sorrisos e cravos gravam a marca da liberdade nesta hora de prata. […] os seios das mulheres despejam-se nos olhos encadeados dos soldados.[…] A agitação do povo pelas ruas faz pensar num animal manietado que, na sombra, durante séculos, olfacteasse a liberdade. […]Soltem-se as rolhas do champanhe desde há muito engarrafado na nossa esperança. Natália Correia, Não percas a rosa15 Não sentindo já o cerco dos mecanismos da censura, viajámos então de novo, rumo a um espaço não circunscrito a fronteiras. É o tempo do voo transatlântico, transcontinental, dos horizontes sem limites do olhar, de ser estrangeiro em toda a parte, e simultaneamente coabitar uma pátria comunitária, avassaladora, que galga, com uma força agregadora incomum, as distâncias impostas por uma cartografia física, alheia à vontade soberana dos povos, que agora dela se reapropriam. As fronteiras diluem-se, liquefazem-se, "maritimizadas", como diria Guimarães Rosa, o mestre da palavra inventada. e viu crescer o cogumelo em Hiroshima Vibrámos tanto com o Bogart em Casablanca Depois aprendemos a cantar Kalinka Era o tempo das certezas redondas como as abóboras cada ano mais felizes no Kolkhoze Manuel Alegre, Babilónia16 Estamos juntos. E moçambicanas mãos nossas dão-se [...] com os olhos incendiados nos poentes do Mediterrâneo recordamos as noites mornas da praia da Polana e a beijos sorvo a tua boca no Senegal e depois tingimos mutuamente os lábios das negras amoras de Jerusalém[...] José Craveirinha, Canto do nosso amor sem fronteira17 (Quatro pulsações febris de um corpo só oh África do Nilo e do Zaire oh África do Zambeze e do níger quem em ti está pensando de coração em África? África dos rios velhos e ruínas ossificadas de Zimbawé China das muralhas de crisântemo e sangue Malaias e Indonésias com encruzilhads de sono e de febre Indochina da virilidade com abraços tricolores de fraternité [e palavras de balas quem em vós está pensando de coração em África, nas Chinas [e Malaias, Indonésias e Indochinas de sonhos crispados?) Francisco José Tenreiro, Coração em África18 Mas o circuito pátrio não vai parar de se ampliar, com o nosso olhar que cresce em exigência, à medida que o mundo cresce em imperfeição. A censura tinha sido, afinal, um estádio temporal, na "Queixa das almas jovens censuradas", que ainda hoje mantém toda a sua actualidade, não obstante a nossa obstinada vontade de mudar o mundo. Que tem a forma de uma cidade Mais um relógio e um calendário Onde não vem a nossa idade Natália Correia, "Queixa das almas jovens censuradas"19 Apetece "desnascer", como disse o José Mário Branco, perante a iniquidade do real. Para não morrer, restam os atalhos que se inscrevem numa «poética da resistência», contra a uniformização do mundo global. Assim se chega de novo a uma atitude de indagação, um espaço pátrio, de medida humana, única na sua subjectividade. Um espaço que cada um vive, pelo avesso, na dor e no sofrimento, muitas vezes. Na ausência, sempre. Por isso a pátria só pode sentir-se e nunca tocar-se, e nela vivemos em toda a parte, enquanto herdeiros de códigos e decifradores de mensagens e sinais e símbolos, que nos cumpre transmitir. Por isso, a pátria da nossa (con)vivência é sempre um espaço marginalizante no texto poético, longe de qualquer registo triunfal e triunfante. São muitos os lugares que percorre, incansável, o sujeito desta pátria. Podemos vê-la atravessar os textos, no tempo límpido da infância, doce ou amarga, mas sempre um lugar de recolhimento e paz, mesmo nos maiores nomes do desassossego literário: A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela. Um menino impúbere ainda sem o amor de ninguém, gostando apenas de demorar as mãos ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas. Jorge de Sena, Andante20 O Portugal futuro é um país Aonde o puro pássaro é possível E sobre o leito negro do asfalto da estrada As profundas crianças desenharão a giz Esse peixe da infância que vem na enxurrada Ruy Belo, País possível Cresce dentro dos textos, esta pátria que procuramos, como o crescer da idade a que ninguém foge. Podemos vê-la nas palavras tímidas, entreditas, de uma viagem iniciática do mistério de dos sentidos, aproximando-se do olfacto e do tacto africanos, herdeiro de lições ancestrais de sensualida e erotismo, num outro xadrês, onde as regras escapam e se escapam das margens do tabuleiro: Acordas de manhã no golfo do meu ombro E vem contigo a luz dos passos dos «campi» de Veneza com a laguna ao longe e gôndolas na sombra Um rosto Uma cidade a espreguiçar-se ao vento Luz de canais em torno E de canais por dentro David Mourão-Ferreira, Um rosto Uma cidade21 Ilha, corpo, mulher. Ilha, encantamento. Primeiro tema para cantar. Primeira aproximação para ver-te, na carne cansada da fortaleza ida, na rugosidade hirta do casario decrépito, a pensar memórias, escravos, coral e açafrão. Minha ilha/vulva de fogo e pedra no ìndico esquecida. Circum-navego-te, dos crespos csbelos da rocha ao ventre arfante e esculturo-te de azul e sol. Tu, solto colmo a oriente, para sempre de ti exilada. Luís Carlos Patraquim, Os barcos elementares22 Já não cabe em nenhum palmo de mão, e muito menos na palmatória do Torga, esta pátria, solta, que se espraia pelos mais recônditos pensamentos. As "Três Marias" profanam definitivamente o território sacro dos sonhos húmidos das mulheres, uma lição que a história literária consagraria, mais fora do que dentro de Portugal, então ainda país exilado de si próprio: Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance, à porta do café. [...] Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco.[...]Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas.[...] elas chamam de noite nomes que não vêm. [...] Elas queriam outra coisa. Maria Velho da Costa, Produção de desejo23 Rasgou o ventre materno, esta pátria que sonhamos, e, porque a sonhamos alto, tem de dizer adeus, um adeus intoleravelmente ingrato, com sabor de traição «No fundo de mim eu sei que te traí, mãe», mas que tem de ir «com as aves» (Eugénio de Andrade), um adeus com o sentimento de um remorso, que Osvaldo Alcântara confessa, entregando-se como «filho vadio»24 aos cuidados da «mamãi» e que Régio descreveu com uma fúria inegualável, optando, como Pessoa, por não se deixar tributar, um luto que Alexandre O'Neill expressa deste modo: golpe até ao osso, fome sem entretém, ricim engraxado, feira cabisbaixa, meu remorso, meu remorso de todos nós Alexandre O'Neill, "Portugal"25 Crescido o corpo e vencida a dificuldade do difícil adeus, a perturbação cresce, à medida que ousamos avançar mais longe neste lugar recôndito, visitar as suas membranas íntimas, tão aprazíveis quanto pecaminosas: à sombra aguda do desejo, eu me abandono. [... Minha pedra de orvalho, meu amor, meu punhal, eu me abandono. Minha lua queimada, violada, colhe-me, recolhe-me: eu me abandono. Eugénio de Andrade, "Ostinato", Mar de Setembro26 Não é fácil morar nesta pátria, mas, uma vez descoberto este espaço dos sentidos, não mais nos será permitido ignorá-lo, porque há que pagar o luto de viver sem ele, se assim o decidirmos. Este acto amoroso pode mesmo não ousar consumar-se, delineando-se apenas num espaço fraterno que marca grande parte da produção poética pós-libertação: eu gosto dos teus olhos quando me fitas assim tímida e suplicante a expiar crimes sofrendo por ter sofrido Gosto dos teus olhos que me segredam o tudo está consumado do teu calvário e me indicam o caminho do ressurgimento Agostinho Neto, "Vendedeira de ananases", A renúncia impossível 27 Mas os limites foram para sempre derrubados, e, tal como acontece na vida real, o risco é o preço a pagar, de deslumbramento em deslumbramento, somos chutados sempre mais além, anulando fronteiras proibitivas e barreiras protectoras. Negligenciando as regras da escrita de marfim, Rui Knofli escreve O País dos outros, um lento e demorado urro de libertação interior, um nó na garganta que se solta, uma língua que já não hesita em inscrever-se, recorrendo a termos triviais, que, porem, nunca tocam a orla da banalidade, numa língua precocemente lusófona, mestiça, «desvestida» e nua: nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina, Eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também Tinham nomes por que era costume designá-los. Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso e misterioso, habitado por deuses e duendes de uma mitologia que não vem nos tomos e tratados que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois, com valados, elevações e planuras, e mais rios entrecortando a savana, e árvores e caminhos, aldeias, vilas e cidades com homens dentro, a paisagem estendia-se a perder de vista até ao capricho da linha imaginária. A isso chamávamos pátria […] Uma Só e várias línguas eram faladas e a isso, por estranho que pareça, também chamávamos pátria.[…]legado de palavras, pátria é só a língua em que me digo Rui Knopfli, "Pátria"28 A língua espraia-se e confunde-se de tal modo com a ausência de fronteiras, que não se restringe ao espaço lusófono. Como seria de esperar, surgem textos que reclamam a mais completa liberdade e se exibem com plena autoridade num espaço linguístico em que a multiculturalidade, mais que defendida, é definitivamente proclamada, por intercalares de línguas nacionais no texto escrito em português, como acontece nos textos de Ruy Duarte de Carvalho, Ana Paula Tavares e Manuel Rui, por exemplo, ou até pela mestiçagem de línguas europeias: Que partout, everywhere, em toda a parte. A vida égale, idêntica, the same, É sempre um voo cego a nada[…] Reinaldo Ferreira, "Nocturnos229 O conjuntivo "desinstala-se" da gramática do texto, que se desnuda e nutre com o amor físico, cujo melhor exemplo se encontra na relação que Eduardo White instaura com o corpo, seu e da mulher, num acto de posse e de sujeição recíproco, uma circuncisão definitiva com o despudor necessário para se afirmar pelo sua crescente gradação de qualidade estética e ética, como uma acto deontologicamente obrigatório na nova passagem pela pátria, cujo sujeito vive, agora, numa atracção fatal, uma travessia de risco, que raia a alucinação, num obsessivo estado de penetração em que se misturam suor e esperma, com sentimento e ausência dele, puro prazer sexual, de paredes meias com uma estética da contenção, como manda o erotismo do texto, e da vida, de que emana uma corrente imparável, pessoana, física e metafísica, como acontece nas coisas mais banais da vida e no (des)controlado e supremo acto amoroso: E tolerante do amor, tu que és onde as estrelas são lentas, as flores acordadas, o poema em toda a parte e o sangue e o centro constelar da minha própria casa[…]tu, a quem o fundo gravita o açúcar nas furnas da pele, tu que és uma lua e um relâmpago e o corpo arrancado de alguns versos calados, […]tu, que és felino fugaz e que não se engana sobre a harmonia de uma savana, quero dizer-te que estou chegado, e trago as veias e a boca informuladas, umas guelras para que dentro do teu ventre eu respire, não do modo altíssimo e belo como o trazes deitado, mas no amor tecedeiro, na aranha intensa e doméstica que és, na rosa inominável e acordada que pelo seu perfume exala a demência toda de amar-te que eu sou. Eduardo White, Os materiais do amor30 Não foi, como vemos, por mero acaso, que White respondeu ao País dos Outros, de Knopfli, como o seu País de mim,31 a que o obrigava este voo de pássaro sem dono de que apenas citámos um exemplo, que ganha folêgo à medida que o corpo se avoluma e as veias engrossam, da cabeça aos pés, numa quase alucinação, obsessiva, mas rigorosa nas marcas de pesquisa deste «eu» à procura de se encontrar no corpo de uma mulher, longe e perto do amor dito por Eugénio de Andrade como «uma ave a tremer nas mãos de uma criança». Não terá sido também por acaso que um a Ilha de Moçambique foi consagrada, como símbolo da unidade pátria moçambicana, num dos números da Revista Oceanos, que tinha por título Ilha de Moçambique, Ilha de todos nós. Daqui em diante, não nos resta outro caminho senão o da descoberta, da redescoberta, da experimentação, que Ernesto de Melo e Castro levou ao ponto de generosamente «descobrir» num texto de Gilberto Gil, que inclui no excelente trabalho As ilhas do arquipélago:32 Fazer minha home page Com quantos gigabytes Se faz uma jangada Um barco que veleja Que veleje nesse Que aproveite a vazante da informaré Que leve um oriki do meu orixá Ao porto de um disquete de um micro em Taipé Gilberto Gil, Pela Internet Para terminar estas deambulações por caminhos pátrios, em que tentei reunir duas metades do sujeito que habita este espaço, relembro a peregrinação do Oceanite erraticus que, ao contrário de nós, sabe o seu destino, sem o sentimento confuso de pertencer a uma pátria que se busca, não sendo já portador do pecado original, numa dupla identidade, que, uma vez instalada, não mais nos abandona. Olhar a Verdade Final não deve poder suportar-se, mas o meu desejo de achar essa fórmula final é maior do que o mau pavor; tenho-a debaixo da língua. Acho que é isto; «Morrer é um país estrangeiro.» É uma parte, mas não é ainda tudo. There it is: «Viver é um país estrangeiro.» Acho que sim, que era disto que andava á procura. Sinto-me agora preparado: «Morrer é um país estrangeiro. Viver é um país estrangeiro.» Vou acabar, sinto, tudo mo diz. Isto é: vou mudar-me de um país estrangeiro para outro país estrangeiro. Estrangeiro na terra, sê-lo-ei também no além que houver. E, se nada houver, nada serei: forma suprema, talvez, de ser estrangeiro» Eugénio Lisboa, Um estrangeiro na terra, excerto de uma ficção33 Obedientes e resignados a esta peregrinação interior que a conciência do nosso tempo não nos permite adiar, amemos esta pátria, plural e singular, íntima e universal. Mansa e placidamente, como fez Caeiro ou com desejo e fúria, como Eduardo White. Este acto amoroso é, como qualquer outro, de livre escolha e arbítrio. Notas 1. Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Lisboa, Ed. Dom Quixote, 3ª edição, 1988, p. 64. 2. Arthur Lee-Francis Askins, Cancioneiro de Cortes e de Magnates, ms. CXIV/2-2 da Biblioteca Pública do Arquivo Distrital de Évora Berkeley, Los Angeles: UCP, 1968), p.112. 3. Informação cedida pelo grupo de investigação Projecto Pangeia, coordenado por Vitor Gama e Carla Fernandes "Oceanites Erraticus- trajectos de deriva intercultural". A ambos, os meus agradecimentos. 4. Pierre Rivas, "Insularité et deracinement dans la poésie capovedienne", Les Litteratures Africaines de Langue Portugaise: à la recherche de l'identité individuelle et nacionale, Paris, Fondation Calouste Gulbenkian, Centre Culturel Portugais, 1985, p. 291. 5. Osvaldo Alcantara, in Claridade, revista de arte e letras, organização, coordenação e prefácio de Manuel Ferreira, Ed. ALAC., 2ª edição, revista nº 2, Agosto 1936, p. 6. 6. O maior defensor desta linha é Jorge Barbosa, que mantém quase uma correspondência poética com o modelo de Manuel Bandeira: «Há uma palavra que Manuel Bandeira descobriu/um dia na poesia/ e que poeta algum poderá mais empregar/porque só ele ficou sabendo o sentido exacto/e o simples segredo da sua expressão», "Palavra profundamente", in Claridade nº 8, cit, Maio 1958, p. 26. 7. Cit. nº 7, Dezembro 1949, p. 28. 8. Baltazar Lopes," O poeta foi para a Terra-longe", Claridade, cit., nº 4, Janeiro 1947, p.13. 9. Manuel Alegre, 30 Anos de Poesia, Lisboa, Publicações Dom Quixote, p.46. 10. Id., p.230. 11. Sophia de Mello Breyner Andresen, Antologia, Lisboa, Moraes Editores, 1970. 12. Manuel Alegre, «Inéditos», cit., p.742. 13. In poésie portugaise contemporaine, anthologie bilingue, colecção l'arbre à paroles/l'orange bleue, La reunion, Ed. L'orange bleue, p. 526. 14. « 15. Natália Correia, Não percas a rosa, diário e algo mais(25 de Abril de 1974 - 20 de Dezembro de 1975), Lisboa, Publicações Dom quixote, 1978, p. 25. 16. Manuel Alegre, cit., p. 481. 17. Karinguana ua Karinguana, Ed. Associação de Escritores Moçambicanos, Maputo, 1995, p.73-74. 18. Francisco José Tenreiro, Coração em África, Lisboa, ed. ALAC, 1982, p.99. 19. Natália Correia, «Dimensão encontrada», in Gli abbracci feriti, cit, p. 36. 20. "Perseguição", in Esorcismi, Antologia poetica, Ed. Accademia, Milano, 1974, p. 71. 21. David Mourão Ferreira, "Lira de Bolso" in poésie portugaise contemporaine, cit., p. 174. 22. Luís Carlos Patraquim, Vinte e tal Novas Formulações e uma Elegia Carnívora, Lisboa, Ed. ALAC, colecção juntamon, p. 41. 23. Maria Velho da Costa, Revolução e Mulheres, i n Gli abbracci feriti, cit., pp. 190-191. 24. Osvaldo Alcântara, "Presença", in Claridade, idem. 25. Alexandre O'Neill, "Feira Cabisbaixa", in poésie portugaise contemporaine, cit., p. 153-154. 26. Eugénio de Andrade, in poésie portugaise contemporaine, cit., p. 110. 27. Agostinho Neto, A renúncia Impossível, Lisboa, imprensa Nacional-Casa da Moeda, Col. Escritores dos Países de Língua Portuguesa, 1987, p. 51-52. 28. Rui Knopfli, O escriba acocorado, Lisboa, Moraes Editores, Círculo de Poesia, 1978, pp.13-14. 29. Reinaldo Ferreira, Poemas, Lisboa, Portugália Editora, colecção Poetas de hoje, 4ª edição, prefácio de José Régio, p. 38. Deste raro exemplar, que devo à generosidade da minha amiga Maria Helena Pato, consta um poema autógrafo que passo a transcrever Eu/morreu/só há ideal/No plural./tecidos/como os fios que há nos linhos/Parecidos/Entre si como doisolhos,/há, futuro que viver aos molhos/e que morrer sozinhos. Queria ainda registar que "conheci" este poema, cantado por um coro de poetas moçambicanos que o conhecem de cor, entre os quais Luís Carlos Patraquim e Raul Calane. 30. Eduardo White, Os materiais do Amor seguido de O desafio à Tristeza, Maputo, Ed. Ndjira, 1996, pp.15-17. 31. Eduardo White, O país de mim, Associação dos escritores moçambicanos, 1989, Prémio «Gazeta» da Revista Tempo. 32. Ernesto de Melo e Castro, «As ilhas do arquipélago» Via Atlântica, São Paulo,1997, p. 114. 33. Eugénio Lisboa, O Objecto Celebrado (miscelânea de ensaios, estudos e crítica), Coimbra, Ed. Universidade de Coimbra, 1999, p. 28. O presente excerto faz parte de um trabalho apresentado pelo autor no Congresso Pessoano, em 1988. |