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Peregrinações brasílicas
Modalidades da Aventura no século XVI. O exemplo de Antony Knivet, inglês*

 
Ilda dos Santos
Université de la Sorbonne Nouvelle — Paris III

Uma narrativa de viagem intitulada Aventuras admiráveis e estranhos fados de Antony Knivet que foi com Thomás Cavendish em sua segunda viagem para o mar do sul no ano de 1591 foi publicada em 1625 na colectânea inglesa de viagens organizada por Samuel Purchas.1 Knivet, apresentando-se como simples marinheiro, embarcara em 1591 no galeão Leicester, nau capitania duma armada de cinco navios dirigida por Cavendish. Este último tinha realizado no ano de 1588 a primeira circumnavegação inglesa, façanha que lhe trouxera lucro, honra e glória ; a segunda tentativa foi todavia um falhanço. Depois de ter saqueado a vila de Santos, a armada não conseguiu dobrar o estreito de Magalhães e procurou novamente a costa do Brasil entre tempestades, fomes, rumores de insubordinação duma tripulação diminuída, resistências dos colonos portugueses e crueldades do capitão-mor tais como o abandono na ilha de São Sebastião de mareantes feridos ou achacados. Não podendo continuar a viagem rumo ao Pacífico, o corsário ter-se-ia suicidado na rota do regresso à pátria.

A narrativa de Knivet sobre a sua participação nessa expedição contrasta com as tonalidades grandiloqüentes da confissão deixada por Cavendish2 e, sendo o « narrador » um dos moribundos abandonados na ilha despovoada, ela oferece um painel rico em peripécias de peregrinações em terras brasílicas e mares atlânticos entre 1591 e 1601. São vagueações corporais, isto é, culturais que interessam o campo da história, da etnologia e da literatura.

Para esclarecer o âmbito da publicação, lembramos que Samuel Purchas encontrara a narrativa de Knivet em documentos reunidos por Richard Hakluyt, seu predecessor. As compilações de viagens nascem da curiosidade pela geografia, considerada como o olhar da história, mas também do desejo de promover a nação inglesa, exaltar a sua coragem e as suas actividades marítimas numa ótica abertamente imperialista.3 Presente na colectânea em textos de teor variegado, o Brasil cujo povoamento fora por muito tempo descontínuo e precário é, na rede da expansão lusitana, um alvo mais fácil para empresas individuais de negócio, guerras predátorias e esboços de colonização : os Franceses desde o início de quinhentos e os Ingleses desde a década de trinta estabeleceram laços comerciais com algumas tribus e sondaram os ânimos do gentio adverso aos Portugueses. Convém igualmente ressaltar que, desde 1570, a Inglaterra multiplicava esforços para reconhecer territórios a norte e a sul de América — as famosas passagens para o Pacífico — e dedicava-se a actividades de pirataria nas áreas atlânticas ; o desejo de império baseado sobre o comércio e o patriotismo ligando-se à promoção da fé protestante numa época de rivalidade anglo-castelhana. Se o discurso de Knivet é, de facto, o fluir duma existência no mundo da experiência e da confrontação, a estruturação dada na colectânea à narração obedece a um plano estratégico que coloca uma história individual num plano muito mais englobante. A narrativa consta significativamente de seis capítulos divididos entre memorialística (os quatro primeiros), o mapeamento quasi etnológico do gentio brasílico e, por fim, um roteiro minucioso das barras dos rios da costa povoada, da praticagem dos portos e das ilhas do Brasil. O texto despertou deste modo a atenção de especialistas que nela foram buscar informes sobre o Brasil de finais de quinhentos. Convém referir o primeiro estudo, oitocentista, de Teodoro Sampaio dedicado à compreensão da rede complexa das peregrinações do inglês, na medida em que se esboça no relato um quadro das primeiras entradas pelos caminhos e rios através do alto e baixo Paraíba, do Tietê e dos seus afluentes, desde a capitania de Espírito Santo até Cananeia, do Rio de Janeiro até às regiões campestres do sul de Minas. Muitas outras andanças pela Serra do Mar, nas zonas do centro sul ao Rio da Prata e do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Norte, e até um curioso episódio angolano são aliás também recortados… Restituindo os feitos das expedições ao sertão à cata de escravos, as viagens punitivas contra tribus rebeldes, dando notícias das minas cuja exploração principiava, o texto foi considerado como um valioso contributo para a história principiante das entradas e bandeiras. Além da cartografia real, surpreende-se uma geografia fabulosa oriunda da imaginação popular e creando contos fantásticos a respeito de terras auríferas e de povos míticos que despertou a curiosidade dum Jaime Cortesão. Nota-se ainda o colorido das observacões sobre a sociedade colonial e o Rio de Janeiro da dinastia dos Correia de Sá aproveitadas por um Norton de Matos e um Joaquim Veríssimo Serrão, sem esquecer os dados sobre as várias tribus indígenas e a violência por elas sofrida colhidos por Hemming, ou mais recentemente, um reflexo na obra de John M. Monteiro.4

Além destes elementos, o texto de Knivet é sobretudo um relato extraordinário que se insere tanto na « autobiografia da época isabelina como no principiante romance de aventuras » como agudamente apontou Philip Edwards num estudo e apresentação das viagens de Cavendish, Hudson e Ralegh.5 Nele é possível interrogar as modalidades da aventura no século XVI com as suas implicações narrativas e políticas. Verifica-se deste modo a plasticidade do texto de viagem que evidencia confluências de géneros abrindo para outras trilhas da ficção : o romance dum ser mergulhado num espaço insólito e prosaico, vivendo peripécias transformadas em problemas, transitando por espaços físicos e humanos encenando e veladamente questionando os ritos e a retórica da comunicação assim como as roupagens da comunidade.

A narrativa de A. Knivet — tipicidade e atipicidade

Abandonado na ilha de S. Sebastião, Knivet conseguiu sobreviver : preso pelos Portugueses viveu quase dez anos no Brasil ora escravo cruelmente tratado nos engenhos da Guanabara, ora soldado servindo nas múltiplas expedições montadas pelos Correia de Sá e por Francisco de Sousa, ora fugitivo procurando abrigo nos sertões e entre tribus gentílicas. Em 1599, data da sua ida a Lisboa em companhia de Salvador Correia de Sá, o Inglês trabalhou nas alfândegas como intérprete para comerciantes ingleses e escoceses, regressando à pátria somente no ano de 1601.6 Um regresso que ainda permanece enigmático porque a narrativa se fecha abruptamente num último grito do mísero Knivet, reencontrando de novo em Lisboa os seus velhos confrades « a prisão e a miséria».7 Essa figura do cárcere corporal é aliás paradigmática da narrativa de viagem, uma metáfora das multiplas peregrinações e do problema da comunição.

Como muitos textos de viagem, o discurso de Knivet despertou dúvidas e interrogações por causa de episódios misteriosos, nitidamente exagerados ou ainda confusões, a disposição dos sucessos carecendo de certa unidade. Como já o indicara Teodoro Sampaio, é muito próvavel que a redação se deva a outrem, feita sob o ditado do marinheiro ou segundo reminiscências ao acaso recolhidas ; no texto, indicações marginais de Samuel Purchas vêm esclarecer ou confirmar certos passos contribuindo desse modo para a ambiguidade do tecido auctorial. Pormenores concretos e episódios romanescos accumulam-se em outros momentos podendo ser lidos como fluxos e refluxos da memória, recuperação e desvio de documentação alheia (nomeadamente a parte roteirística) mas também como mero desejo de alimentar a paixão pelo dramático e maravilhoso dum público. O problema da fidedignidade ou da historicidade da narrativa não é todavia fundamental, sabendo-se que os primeiros grandes sucessos editoriais no campo da narrativa de viagem — os textos atribuídos a Amerigo Vespucci — jà são montagens de discursos recuperando estilhaços de narrativas anteriores, jogando com o romanesco, o tratado científico e abrindo directamente para a ficção.8 Reencontram-se de facto na narrativa de Knivet sucessos e intrigas típicas de outras experiências : os quadros patéticos das calamidades do peregrinar, a vivência entre ameríndios retomando rasgos da autobiografia de Hans Staden,9 as vagueações estonteantes, as lutas e o bestiário fantástico que jà recheavam o testemunho do soldado Ulrich Schmidel. Salienta-se ainda a curiosa travessia subterrânea duma serra para atingir montanhas resplandecentes e sertões oníricos que soam como um prolongamento exótico do romance de cavalaria ou da alegoria medieval… Numerosas e também clássicas são as tentativas de sustentar a fiabilidade do relato com inserção de nomes e apelo a testemunhas. A própria estruturação do material legado alimenta esse obsessivo desejo de justificação : o catálago do gentio e as linhas roteirísticas seguindo a confissão retomam e, por vezes, pormenorizam peripécias na autobiografia já evocadas ; a circulação e o permeio da informação servem assim de fundamento de veracidade. É provável que sejam lapsos da redação, sinais de precipitação ou vestígios de manipulação, mas estas « retomadas » tendem a legitimar o discurso e acabam por criar um curioso « efeito de real » textual.

É todavia o estilo chão, desprovido de ornatos retóricos, e o tom de franqueza beirando a ingenuidade que fortificam a confissão do peregrino. Notam-se na auto-representação de Knivet uma indiferença total à glorificação ou ao panegírico ou ainda desajustes inquietantes no retratar épico que frisam o grotesco e o absurdo. Muitos episódios provocam risos e sorrisos e as desgraças sofridas por Knivet acotovelam-no com o herói ora astuto, ora bobo da picaresca. Nesse mundo brasileiro corre a figura dum ser perpetuamente dividido entre vagabundagem e cárcere, mergulhado em aventuras que o deixam esfomeado, nu, esfarrapado ou mais favorecido ; açoitado e ludibriado ; repudiado e gozando por vezes de consideração ; desprezível e subtilmente precioso… Um ser flutuando ao acaso do mundo… « Um pobre de mim » brasílico… O fracasso perpétuo torna-se desta forma um indício de verosimilhança.

Estas múltiplas aventuras não apontam todavia para um canto do desengano insinuando o avesso da História nobilitante mas dizem sim a experiência dum ser mediano e mediador mergulhado no mundo do fenómeno. Neste, a dimensão da estranheza brasileira encena, decerto, a experiência da viagem e o seu transtorno mas ela configura sobretudo a experiência do viver e esse mesmo transtorno dos discursos e imagens idealizantes que esbarram nos factos e reduzem-se a pretextos. A narrativa de Knivet mostra afinal que não é somente o conteúdo que faz a aventura mas também, e talvez essencialmente, a maneira de experimentar o mundo e de comunicar com os outros. Experimentação e comunicação que são intensas formas de negociação…

O mundo da aventura : Negociação e Jogo dos possíveis ; comunicação e comunidade reversíveis.

A aventura como negócio e negociação aparece perfeitamente delineada nas narrativas de viagem : negociar com o concreto físico do mundo (navegar, caminhar, mover-se em espaços que tanto podem agradar e engrandecer como diminuir e arruinar), negociar com outros seres (igualmente movediços e que tanto podem ser parceiros como adversários) e talvez negociar com si próprio (especular sobre o a vontade e o desejo, sobre a sabedoria e a capacidade de agir e de reagir).

Na narrativa inglesa estas facetas são paradigmaticamente retratadas. Sabe-se que Knivet pertencia a uma família nobre de Norfolk e Antony era decerto um gentleman, não um simples marinheiro. Jovem querendo percorrer e devassar o mundo em busca de acção e de lucro, eis um traço fundamental da figura do aventureiro. Multiplicam-se no limiar do Renascimento viajantes que produzem cartas comerciais mas também relatos de viagens, ambos acabando quase por se confundir, ou ainda nobretes, filhos segundos, procurando no agir o meio de se dignificar. A aventura marítima torna-se ou, melhor, é mergulho económico num mundo que exige habilidade e astúcia. Este mundo como palco e arena capitalista em constante deslize e metamorfose é dramatizado na narrativa de Knivet : viagem como pirataria, saque de vilas e procura desenfreada de bens materiais ; ganância que salta para o espaço agreste do sertão (compra de escravos, escambo com indígenas e busca de ouro) e se desdobra sob máscaras declaradas ou mais subtis no espaço policiado das povoações, vilas e cidades (engenhos, trabalhadores e escravos ; políticos, negociantes e burgueses ; trocas entre os portos do Brasil e de Angola ; alfândegas de Lisboa…). O mundo brasílico, teatro e metáfora do mundo, surge como um espaço do negociar interminável com contratos, pactos e tractações daí a multiplicação de aventuras que são procedimentos, intensões transviadas e saídas sem saída. Essa dimensão é plenamente humana porque o corpo, a inteligência e o saber prático são realmente mercadorias e produtos. O corpo ocupa desta forma um lugar fundamental : a sua dignidade é hiperbolizada na sua vulnerabilidade (comer, vestir-se…), na sua capacidade a mover-se, a seguir e afrontar as transformações da paisagem natural ou social. Inúmeros são os retratos e situações onde Knivet aparece famélico, atónito, paralisado, o corpo transformado em armazém de pancadas (inglesas, portuguesas e indígenas), mas também palrador, transitando continuamente, lutando e vencendo… O que o corpo sofre ou faz permite de facto uma meditação do político, dessas formas do poder que são, no século XVI, muito visíveis e hierarquizadas mas também invisíveis e flexíveis e o valor da experiência individual encontra-se numa relação dialéctica com outros valores ideais e políticos. Vagueando por brenhas, matas e terras, Knivet atravessa tecidos humanos ; é esse ponto de encruzilhada e de tensão entre o dentro e o fora que abruptamente, ou mais sorrateiramente, leva por vezes o narrador, e sempre o leitor, a lançar um olhar inquieto e duvidoso sobre a ética, os códigos da comunicação e as leis da comunidade.

A comunicação ocupa um lugar de destaque no relato de Knivet e o seu poder vital ou mortífero verifica-se em vários passos : recuperação da palavra falha ou construção de discursos retóricos em momentos críticos,10 sobrevivência graças aos dons linguísticos. Notável ao longo da narrativa é também o contacto procurado com todos aqueles que são estrangeiros : portugueses embarcados nas naus inglesas, japoneses, mamelucos, mestiços, indígenas ou outros forasteiros vivendo no Brasil… Se Knivet oscila entre comunidades, é o indivíduo que atrai a sua atenção como Philip Edwards o salientara. Todavia essa curiosidade tem características de profunda ambiguidade e ela é sobretudo interesse no seu sentido material. A primeira amizade narrada é simptomática : achando inesperadamente um tesouro numa arca do colégio de jesuítas de Santos, Knivet conclui um pacto com outro mareante, um japonês, escolhido por ser um homem de experiência utilizável, tendo a historieta um desfecho francamente divertido na medida em que o parceiro tenta enganá-lo…11 Este jogo de burlas e de permeio de papéis (burlador/burlado) multiplica-se no relato e atinge todos os espaços e estratos sociais : o navio dos ingleses, as comunidades portuguesas, os estrangeiros radicados no Brasil, as tribus indígenas… Tudo é sujeito a dúvidas e contaminações. A famosa candura do narrador, essa maneira de exibir sem torneios fraquezas e mazelas, indicam afinal até que ponto a comunicação é silenciamento, elipse ou falseamento, a comunicação como « jeitinho ». Esse flutuar atinge a identidade ( Knivet homem nobre ou pobre mareante 12; inglês e francês;13 escravo e escravizador, negociante e mercadoria), desprende-se das razões da partida de Inglaterra (instinto romanesco da aventura ou cobiça14) e das várias intrigas (abandonado na praia ou simples desertor;15 amigo leal ou desastrado manipulador, vítima ou algoz…16) Eis um universo onde sobressai a intimidade entre aventureiro e jogador.

Essa capacidade para a comunicação e para a emoção com a dupla faceta de aproximação amigável e de distanciamento podendo levar à violência — teor do emotivo na teoria aristotélica — é uma faceta da solidão do homem descobrindo progressivamente o mundo em diálogo com tudo aquilo que não é ele e o ultrapassa, e um indício da ausência de fraternidade e de comunidade.

Essa descoberta e suspeita torna-se possível porque o aventureiro se situa no mundo da margem (geográfica e social), e essa posição permite um olhar mais agudizado sobre mundos ora amigos ora adversos, ora amigos e adversos. Deste modo os aventureiros brasílicos, e todos os aventureiros, são homens de fronteiras, portadores de códigos que a experiência do mundo interroga e transtorna, sendo também espectadores de códigos e leis ondeantes : a relação com o outro, as formas de justiça e de autoridade, a noção de sociedade. Desprende-se deste modo da narrativa um questionamento da justiça e da ética mais profundo que os problemas e críticas abertamente narrados. Esta faceta transparece claramente nos relatos de viajantes estrangeiros na medida em que o Brasil não é pensado num modo binário (bons ameríndios /selvagens irredutíveis ; bons moradores e colonos cruéis) mas no registro da múltiplicidade e da reversibilidade. Encontram-se os jogos dos possíveis, as passagens constantes entre uma emoção e outra, a porosidade das normas e dos códigos. Se essa noção de fronteira é evidenciada num espaço sentido como fronteira da civilização, ela tem desmembramentos, derrames… Um exemplo verifica-se na entrada de Knivet no Rio de Janeiro, vila que deveria ser policiada em relação à ilha deserta de São Sebastião, e que é vista como prolongamento do espaço selvagem : preso pelos portugueses, o inglês é lançado na praia no meio dos festejos e risadas e acolhido com o lusitano grito de « Ahi vem o nosso espólio», exclamação que soa tradicionalmente no recinto antropofágo quando a presa é introduzida para o sacrifício. Esta encenação e « citação » não participa só duma clássica assimilação entre o Brasil e a selvajaria ou, mais profundamente, duma crítica européia (e de obediência protestante) ao colonizador católico e ibérico, na medida em que, noutros passos da narrativa, a vila colonial ou o grupo de moradores podem ser acolhedores e o espaço inglês, a nau e os companheiros forasteiros, um lar de calúnias, rivalidades e injustiças.17

Assim nesse mundo onde reinam os pecados e a transgressão dos mandamentos, surge de maneira ora velada ora gritante o espectáculo não da compartimentação entre o bem e o mal, o possuir e o nada, o centro e a periferia, o civilizado e o selvático mas o espectáculo da mistura e do hibridismo. O mundo vivido e narrado viravolta e as diferentes cenas bailam num jogo de ricochete ; é, no fundo, um espaço anárquico onde não há moralidade mas, sim, contingência.

Confluências de géneros literários— da peregrinação à viagem, à passagem

Ser da flexibilidade, o viajante é reintegrado no espaço nacional pelo poder da experiência consagrada na palavra e na escrita, captada pela sociedade letrada e normativa. As narrativas de viagem deste tipo de aventureiro, reunidas em compilações, são deste modo valorizadas como modelos didácticos e pragmáticos e podem serem consideradas como um equivalente profano das vidas de santos : heróis e anónimos, na mediação e na transição, descobrindo, lutando e reconhecendo. Mas a arte que dessas compilações se desprende é a eficácia para penetrar o mundo, acrescentar saberes, ter espelhos de comportamentos tácticos, emoldurados com discursos moralizantes ou nacionalistas. A ligação entre essas publicações e as lutas do tempo, entre o viajar e o sentimento nacional transparece nitadamente nos prefácios e nos aparatos críticos dos compiladores e editores. Introduzindo as narrativas de Knivet e de Cavendish, Purchas tece flores de eloquência sobre as navegações deste capitão e do famigerado Drake.18 Ora no mesmo prefácio, o editor frisa o conjunto impressionante de misérias e a raridade da emoção sofrida por Knivet e dá-las como susceptíveis de proporcionar momentos de prazer ao leitor que, na paz e talvez na monotonia do seu lar, acompanha o percurso do andarilho.19

Não sendo pensado (e não podendo sê-lo) como literatura, este texto, como tantos outros textos de viagens renascentistas, situa-se na confluência de géneros literários e apresenta elementos embrionários que interessam a evolução da narrativa.

Podemos assim rapidamente indicar a prosificação da épica e da tragédia que ressalta na emergência do singular e dum quotidiano trivial. Apesar do prefácio insistir na dimensão alheia do espaço da peregrinação de Knivet, o mundo atlântico, brasílico, africano ou lisboeta é insólito mas também trivial na medida em que as necessidades e as emoções elementares são magnificadas.

Notam-se também discrepâncias com formas narrativas da época, nomeadamente a novela de cavalaria ou a novela barroca. Detectam-se laivos da ideia da viagem como passagem da vida ou caminhar para o reconhecimento, todavia estes elementos são marginalizados e o conceito ou o discurso da provação oriundo da alegoria medieval ou da narrativa cavaleiresca transformam-se em acidentes a dominar ou em simples palavrear. O discurso espiritual ou idealizante, quando assumido, apresenta dissonâncias que revelam o seu teor teatralizado ou ficcional. A narrativa evidencia essa tensão/fricção na transformação de cobras e serpentes em degradadas imagens de dragões guardadores de passagens que o herói deve vencer. Talvez o episódio mais esclarecedor seja uma peregrinação maravilhosa em que o inglês e, significativamente, doze aventureiros portugueses, se afastam da bandeira de Martim de Sá para mergulhar no sertão. O motivo inicialmente apontado era abertamente mercantil : « mais acertado era buscarmos o mar do sul do que voltar com as mãos vazias ». Ora, quando o primeiro obstáculo se ergue no caminho — atravessar uma serra engolfando-se por um rio subterrâneo —, a retórica idealista irrompe e Antony, transformado em capitão, incita os seus doze pares a continuar para deixarem de « viver […] sem honra, sem fama e sem religião […] quais brutas alimárias ». O discurso valorizando o autocontrolo é assim disfarce para o acto ; um artifício aliás cruelmente revelado pelo desfecho irónico que transforma a encenação cavaleiresca em cena canibalesca : os portugueses mortos e servindo de banquete graças à autêntica valentia dum « guapo mocetão » tamoio.

Muitos passos avizinham-se também dos contos de sabor medieval : situações, intrigas ou fraseados realistas e grotescos oriundos da farsa ou se espraiando em formas da narrativa breve renascentista, sem distanciação nem mediação estílistica. Deles a narrativa oferece vários exemplos, alguns clássicos (frades escondidos numa caixa de farinha ; tesouros encontrados em recintes sagrados ; burlas múltiplas ; corpo de Knivet escalavrado e denegrido de bordoadas, fugas fracassando perpetuamente…) outros mais originais (o inglês sendo talvez um dos primeiros experimentadores dum escafandro inventado para recuperar uma peça de artilharia soçobrada na Bahia de Guanabara e morrendo quase sufocado com a tal maquinaria que o deixa « um mês inteiro desacordado »).

Deste modo, a paisagem narrativa ostenta uma relação profunda com a narrativa picaresca : a origem textualmente ambígua do narrador, o mundo irregular e trivial onde os heróis lutam para sobreviver ; a ingenuidade e a tolice mas também a manha e a maldade (embora no texto secretamente silenciada) do narrador que o aparentam ao pícaro e mais tradicionalmente à figura fugidia e ambivalente do herói e aventureiro popular — Pedro Malasartes, o trickster — comum a todos os folclores. Livre e circulando de amo em amo, movendo-se sem mudar realmente, Knivet apela ao destino e à sina mas enfrenta sobretudo a experiência, o seu percurso descrevendo normas e transgressões e sublinhando abismos entre espírito e prática. Em constante deambular, e fechando-se repentinamente, com o corpo encarcerado e o grito esformeado de Knivet, a narrativa não deixa espaço para a recapitulação da vida, a reflexão sobre a aprendizagem de teor moralizante inseridas nas narrativas picarescas. Lapso de edição, perda de folhetos ou jogo com a fragmentação, pouco importa, a ilusão e metamorfose continuam, e Knivet, personagem, poderia continuar as suas peregrinações no palco europeu ou noutras espaços.

O conjunto de todos esses elementos indica sobretudo a aliança entre a narrativa de viagem e a novelística européia de fins do século XVI e do início do século XVII, com traços e motivos do romance de aventura mais tardio.20 Encontramos, de facto, o mundo do individual e o mundo do problema jà burguês ; o mundo do inesperado, do perigo e da solidão que pede acção, capacidade de resolução. Por outro lado, o mundo narrado é nitidamente um mundo de machos. As mulheres são simples adjuvantes e o elemento que poderia ser rotulado de exótico e de romanesco, com essa sensualidade velada ou abertamente lúbrica que desponta muitas vezes nas narrativas de viagens, aflora para logo ser recusada.21 A masculinada é de facto uma das componentes básicas do herói do romance de aventuras ; uma masculinidade que exalta o homem e o companheirismo e que é ao mesmo tempo o canto do limite do masculino. Uma masculinidade que apresenta também, aliás, tonalidades homosexuais. Podem-se deste modo detectar no narrativa inglesa tipos fundamentais do aventureiro : o tipo do herói solitário, isolado e desenvolvendo práticas e técnicas para sobreviver — o Robinson de Daniel Defoe ; o homem da errança, espia ou renegado, que permite um questionamento dos códigos morais e das leis da comunidade e do nacional ; o homem das fronteiras, do ser que se move entre civilização e selvajaria, e que é, conforme apontou Martin Burgess Green, o tipo dominante nas letras européias e norte-americanos, a prefiguração imperialista do homem branco.

As narrativas portugueses — relatos de viagem, tratados descritivos, crónicas… — agarram o espaço brasileiro num olhar imperial, normativo, legível. O Brasil é cada vez mais pensado como prolongamento de Portugal, ramo transatlântico da nação, raiz possível. É necessário recorrer à leitura da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto (1614) para encontrar — de forma muita mais aperfeiçoada e consciente — a estrutura de reversibilidade e a interrogação do humano e do nacional detectáveis na narrativa de Knivet. O « pobre de mim » português ondeia no índico e nos mares de China, percorre dinâmicas sociais, atravessa tecidos sendo estrangeiro na própria pátria e joguete no mundo…

Nas letras brasileiras talvez seja possível ver nessa figura do aventureiro o corpo embrionário do Malandro,22 um ser submetido à violência e ele próprio organizador de violência, um ser peregrinando entre morro e cidade, sertão e litoral, desvendendo códigos e maquinações da comunidade e da comunicação sempre reversível e ausente.


Notas

*Esta comunicação apresenta alguns elementos dum trabalho mais amplo de edição, estudo e tradução da narrativa de Knivet a ser publicado no ano 2000 (Paris : éd. Chandeigne, collection Magellane].

1. . O original inglês intitula-se « The admirable adventures and strange fortunes of Master Antony Knivet, which went with Master Tomas Candish [Cavendish] in his second voyage to the south sea. 1591. What befell in their voyage to the straits, and after till he was taken by the Portugals », in Samuel Purchas's, Hakluytus Posthumus or Purchas his Pilgrims, 1625, part IV, p. 1201-42. Tradução : Vária fortuna e estranhos fados de Anthony Knivet que foi com Tomás Cavendish, em sua segunda viagem, para o Mar do Sul, no ano de 1591, versão por Guiomar de Carvalho Franco, com anotações e referências de Francisco de Assis Carvalho Franco, Col. « A Conquista da Terra », Editora Brasiliense limitada, São Paulo, 1947. Houve uma tradução holandesa em 1706 de alguns capítulos, ilustrados por quatro gravuras, « Aanmerkelijke Reys, en verwonderlijk-selsfame voorvallen op de selve van Antony Knivet, gedaan uyt Engeland na de Zuydzee, met Thomas Candish, anno 1591 en de volgende jaren » in Naaukeurige Versameling der Gedenk-Waardgiste Reysen na oost en West-Indien, mitsgaders andere gewesten gedaan, Zedert Het Jaar 1586 tot 1592, Van der Aa, Leyden, 1707. Dessa edição fora dada uma primeira tradução no século passado : « Narração da viagem, que nos annos de 1591 e seguintes, fez Antonio Knivet da Inglaterra ao Mar do Sul, em companhia de Thomas Cavendish », Revista do Instituto Histórico Geográfico e Etnológico do Brasil, tomo 41, primeira parte, separata, Rio de Janeiro, 1878, p. 1893-272.

2. « Master Thomas Candish his discourse of his fatal and disastrous voyage towards the south Sea, with his many disadventures in the Magellan Strait and other places, written with his own hand to Sir Tristam Gorges, his executor. », in Samuel Purchas, Hakluytus Posthumus, 1625, vol. IV, book VI p. 1192-1201.

3. The Principal navigations, Voiages, Traffiques and discoveries of the English Nation, made by sea or ouer-land, to the remote, and farthest distant quarters of the Earth, an any time within the compasse of the 1500 yeeres; devided into three volumes, according to the positions of the regions, whereunto they were directed… By Richard Hakluyt Master of Artes, and sometime Student of Christ-Church in Oxford. Imprinted at London by George Bishop Ralph Neweberie and Robert Baker, 1598, 619 p. Para a relação entre Hakluyt et Purchas ver Richard Hakluyt & his successor, ed. by Edward Lynam, London, Hakluyt Society, 1946.

4. Respectivamente, « Peregrinações de Antonio Knivet no Brasil no seculo XVI. Estudo crítico para servir de contribuição à historia e geographia do paiz », adjunta à tradução publicada em 1878, p. 347-390 ; J. Cortesão, « A bandeira dos mitos » Introdução à História das Bandeiras I, Portugália, 1964, p. 223-232 ; Luís Norton, A dinastia dos Sás no Brasil, 1558-1563, Lisboa, Agência-Geral das Colónias, 1943 ; Joaquim Veríssimo Serrão, O Rio de Janeiro no século XVI, Lisboa, Edição da Comissão Nacional das Comemorações do IV Centenário do Rio de Janeiro, 1965, 2 vol. ; John Hemming, Red Gold :The conquest of Brazilian Indians, 1500-1760, Cambridge University Press, 1978 ; John M. Monteiro, Negros da Terra, /Índios e Bandeirantes nas origens de São Paulo, São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

5. Last Voyages : Cavendish, Hudson, Ralegh, Oxford University Press, 1979.

6. Em Setembro de 1601 é indicado que « Antony Knyvett, an Englishman born in Wiltshire, who has been prisoner in Spain and Brazil these seven year's had landed at Portsmouth and was being sent by the mayor to see Sir Robert Cecil », mencionado no estudo de Philip Edwards, Last voyages,…p. 32.

7. Para as citações em português, utilizamos a versão de Guiomar de Carvalho Franco, op. cit.

8. Mundus Novus [J. Lambert, c.1503-1504) ; Lettera a Soderini : Lettera di Amerigo Vespucci delle isole novemente trovate in quattro suoi viaggi, s.l.n.d., 8°, 16 f, [c.1505/1506]

9. Hans staden, suas viagens e captiveiro entre os selvagens do Brasil. Ed. comemorativa do 4o centenário do Brasil, São Paulo, 1900 [1557 para a edição alemã].

10. Nas paragens do Mar do Sul, doente e não podendo se mover, Knivet conta que por duas vezes os marinheiros iam deitá-lo ao mar e que ele se salvou porque no instante derradeiro recuperou milagrosamente a palavra. Avultam muitas variações sobre a palavra e o seu dom de salvação no relato : retórica exaltante entre ameríndios, entre portugueses…

11. Eis a versão de Antony : « Desde o início da nossa partida da Inglaterra até chegarmos a Santos, tinha eu grande simpatia por Cristóvão, um japonês, pois parecia-me que a sua experiência me seria útil em muita coisa. Este oriental e eu nos tomamos de tal amizade um pelo outro, que não existia segredos entre nós dois. Tendo-o considerado sincero durante muito tempo, contei-lhe do dinheiro que havia encontrado debaixo da cama do frade ; ao saber disso narrou-me também acerca de algum dinheiro que havia conseguido, e juramos repartir a cada um a metade, daqui por diante, do que quer que fosse que Deus nos permitisse obter, […] Acreditando em suas persuasões, concordei agir como ele achava melhor : assim resolvemos ambos que no mesmo dia iríamos a bordo; tomaria ele o dinheiro numa canoa que esconderia à margem de um rio ; pela manhã entreguei-lhe todo o dinheiro e jurou-me que em menos de duas horas estaria de volta ; mas esperei por mais de cinco horas e poderia ter esperado o resto da minha vida, pois ele havia ficado a bordo do navio; posteriormente, com jeito consegui reaver o que era meu, mas a nossa antiga amizade se quebrou », op. cit. p. 25-26.

12. Origem fidalga que o narrador, preso pelos portugueses e abandonado à chacota, tenta mascarar apresentando-se como um pobre marinheiro perante Salvador Correia de Sá, governador do Rio, e por isso censurado por um companheiro.

13. Como outros muitos navegantes, Knivet dava-se por francês quando preso pelos ameríndios.

14. Num passo da narrativa, encontramos Knivet vivendo entre os Tamoios numa meditação solitária à borda da água, amaldiçoando da hora em que ouvira nomear o mar e lamentando a loucura de haver abandonado a pátria, « que nunca mais recuperaria; nem sequer esperava tornar a ver gente cristã ». Lamentação que lembra muitas das críticas dirigidas nas « Arte de viajar » à curiosidade do peregrinar, canto das sereias que ruina a educação e só é leviana agitação.

15. Cavendish foi acusado de ter abandonado moribundos por duas vezes : no Rio da Prata e na Ilha de S. Sebastião. Como o fracasso da expedição suscitou suspeitas de traições entre capitães, Cavendish acusou o capitão John Jane de ter levado à ruina dos objectivos em se destacando da frota. Cavendish refere também as revoltas dos marujos que se recusavam a tentar de novo a passagem do estreito e menciona as deserções. John Jane que também deixou um relato justificativo indica todavia o comportamento autoritário e desumano do comandante. Na narrativa de Knivet, o retrato de Cavendish é ambíguo ora valente ora injusto e cruel, não se sabe se houve censuras ou silenciamento de outros feitos pelo editor.

16. Muitas aventuras ou anedotas frisam essa face escura do aparente genuíno narrador. Talvez mais cruel seja o jogo de Knivet entre as tribus indígenas que o recolhem quando consegue, ora sim ora não, fugir dos Portugueses : num primeiro refúgio entre ameríndios que tinham relações pacíficas com os Portugueses, o aventureiro usa da sua eloquência para levantar os brios abatidos dos guerreiros incitando-os a defenderem-se de « tais tiranos ». Desdiz-se logo que é novamente apresado. Uma tribu tamoio sofreu dramaticamente dessas tribulações britânicas : cansado de viver por mais de dois anos nu entre selvagens e desejoso de rever cristãos, Knivet aproveita a consideração grangeada entre os índigenas para leva-los dos sertões ao litoral onde a tribu foi vítima da chacina e da escravidão.

17. A crítica dos Portugueses — (tiranos, cruéis, amorais) — surge « classicamente » na narrativa dum viajante estrangeiro  ; todavia Knivet tem uma relação ora agrável ora desagrádavel com o governador Salvador Correia de Sá e, numa expedição ao sertão, ele é protegido por bandeirantes portugueses que se opõem à decisão de Martim Correia de Sá de o mandar enforcar. A visão da nau e do companheirismo inglês não é isenta de críticas. Por exemplo, no saque de Santos : « Nesta ocasião tivemos tais desmandos entre nós mesmos que, se os portugueses tivessem tido um pouco de coragem, poderiam ter matado muitos de nós, pois os nossos homens se disputavam a posse dos víveres, como se nunca tivessem sido cristãos, mas sim judeus, e aqueles que conseguiam a melhor parte, iam escondê-la nalgum buraco, ou no sertão debaixo de alguma árvore, e aí permaneciam enquanto durava o alimento » , p. 18. Outra variação aquando duma tentativa de roubo do arsenal preparado pelos ingleses e holandeses residentes no Rio, desvendado às autoridades por um inglês : « […] Heixt sendo metido a valente, tratou-me com as palavras mais vis, e foi denunciar ao governador o nosso plano, acrescentando que nos éramos herejes, ao passo que ele era católico. […] o governador […] declarou nunca ter topado homens de condições tão vil e perversa qual a nossa, que andávamos à busca de nos arruirnarmos uns aos outros. », p. 100.

18. « if dissolution of the body may be called a death, where the soul arriveth in heaven, the names fills the earth, the deeds are precedents to posterity, and England their country hath the glory alone that she hath brought forth two illustrious captains and generals, which have fortunattely embraced the roud waist of their vast mother, without waste of life, reputation and substance. […] The sea is a waving, wavering foundation, the winds theatre for both comedies and tragedies. », Samuel Purchas, in « To the reader »,op. cit., 1625.

19. « […] especially Master Knivet, who betwixt the Brazilian and Portugal as betwixt two millstones was almost ground to powder : whom colds, sickness, famine, wanderings, calumnies, desertions, solitariness, deserts, woods, mountains, fens, rivers, seas, flights, fights, wild beasts, wilder serpents, wildest men, and strait passages beyond all names of wildness (thos Magellan straits, succeeded by drowning, fainting, freezing, betraying, starving, hanging straits) have in various sucessions made the subject of their working ; whom God yet delivered, that out of his manifold pains thou maist gather this posy pleasures, and learn to be thankful for thy native sweets at home, even delights in the multitude of peace. », Ibidem…

20. Cf o estudo de Martin Burgess Green, Seven types of adventure tale : an etiology of a major genre, 1991. Ver a obra clássica de Jean-Yves Tadié, Le roman d'aventures, 1982.

21. Knivet vivendo entre tamoios e recusando a oferta de muitas de suas mulheres : « eu recusei o mimo, pretextando que não era costume casarmo-nos fora de nossa terra. » Nota-se, noutra perspectiva, que uma dimensão nova aparece no início do século XVII nos relatos dos viajantes estrangeiros : a aventura erótica na calada da noite com a mulher brasileira enganando seu marido. O erotismo surge como penetração dum país vedado a estrangeiros, como denúncia do mundo luso-brasileiro de violência, ciúme e hipocrisia. Corpo da mulher como territorialidade. Referimos, entre outros, este passo da narrativa de François Coréal que retoma a estrutura da narrativa de Pyrard de Laval : « Il m'arriva à moi-même à Santos une avanture assés singuliere. Malgré l'ignorance & la grossiereté de ces bonnes gens, les femmes sont, en fait d'amour, aussi subtiles & aussi rusées qu'en aucune ville d'Europe. Un jour que je me retirois chez moi sur la brune, je fus arresté par une Negresse qui me dit que sa maitresse lui avoit ordonné de m'emmener à quelque prix que ce fut. Comme je savois le danger auquel je m'esposois en la suivant, je balançois longtemps à repondre à ses instances. Enfin je me laissai gagner. Elle me conduisit par un long detour chez sa maitresse, afin que la nuit nous surprit avant d'entrer. Cette femme me reçut parfaitement bien & avec une politesse que je n'aurois pas attendue à Santos : mais il n'y a rien qui inspire plus de délicatesse & d'honnêteté que l'Amour. Elle n'épargna rien pour me regaler magnifiquement en plusieurs façons, & je promis de retourner dés le lendemain. Cette intrigue dura plusieurs jours ; mais comme j'étois perdu, si le mari venoit à la soupçonner, la donzelle me proposa de prendre l'Equipage d'un Religieux, & je la vis ainsi sans risque pendant que je séjournai à Santos : car les Portugais respectent les Cornes ecclesiastiques. Il n'y a que les seculieres qui les deshonorent ». Voyages de François Coreal aux Indes occidentales…Traduit de l'espagnol, avec une relation de Guyane, Paris, 1722, (p. 246-47). Penetração mais interessante na medida em que a aventura de Pyrard se situava na Bahia : Voyage de François Pyrard de Laval contenant Sa navigation aux Indes Orientales, aux Moluques & au Brésil… A Paris, 1615. A vila de Santos como fronteira da civilização em muitos relatos seiscentistas e setecentistas é assim a consagração da conquista mais subreptícia, do dilacerar das malhas luso-brasileiras pelo estrangeiro.

22. Remetemos para a análise de Antonio Cândido, « Dialética da malandragem » (1970), in O Discurso e a Cidade, Livraria Duas Cidades, 1993, p. 19-55.