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POESIA hoje

("Esse texto também aparece na Revista Veredas N° 3")

 
Virgílio de Lemos
Moçambique

Antes de entrar no tema de minha intervenção quero homenagear a poesia brasileira. E não o farei lendo poemas de poetas que sempre adorei e me marcaram, como Manuel Bandeira, Drumond e João Cabral, mas dois fragmentos de um poeta jovem que se acha entre nós e cujo último livro acabo de ler.

Trata-se de Entre Nervuras de Marco António Saraiva (Ed. Sete Letras, Rio de Janeiro, 1995):

A PARÓDIA
Capturado pelo não
Captado
espiado pelas pálpebras
da paisagem
permutado a poema parnaso
o poeta é parodiado
pela sua poesia.

E um outro que Marco António dedicou a João Cabral :

Procuro a poesia à beira de um rio seco
com petrificadas palavras na erosão
da língua
como sílabas aradas pelo sol
como fundo no poema
seu cascalho de pedras tónicas
e seixos átonos
no entreleito onde a própria margem
se caminha
em sua sintaxe branca inavegável.

A poesia hoje, final do milénio, não perde inteiramente sua vitalidade, mas desaparece da televisão, se vai tornando mais confidencial e fico com a impressão que ela tem tendência a desapareceer face ao grande público.

Diante da programação para entreter, fazer esquecer agruras do quotidiano, e por indiferença geral do "homem novo" criado pelo capitalismo contemporâneo, o "accionista consumidor".

Marginalizada, como se me afigura, ela poderá mesmo se ver forçada à clandestinidade diante das novas estratégias do sistema actual.

Poesia hoje, e globalização no final do milénio

Fala-se da globalização – fenómeno da economia mundial – como de um fato consumado e que a preparação dos espíritos se vem fazendo para acelerar a entrada numa nova fase do supracapitalismo.

Sol e chuvas, acidentes nas estradas de França continuam a ceifar vidas vertiginosamente. Timor Leste e suas populaçoes de novo viveram horas trágicas. Dentro e fora a luta pelo controlo do poder persiste entre superpotências mundias e regionais. Kosovo, horrores e massacres, depuração étnica que muda de sinal, a vingança dos albaneses contra sérvios. Entre os próprios movimentos apostados na luta interna pelo poder. Rússia não hesita em atacar seus ex-satélites tetchenos e outros. No Afganistão o poder islâmico integrista infringe os direitos da mulher, que é punida severamente ante a passividade de uma ONU agindo num esquema inaceitável.

As pessoas, na vertigem de fugir ao stress de seus empregos – onde a rentabilidade é a primeira exigência – e ao stress do quotidiano das grandes cidades, tendem a perder seu sentido de responsabilidade e dos perigos da vertigem nas autoestradas de França e da Europa.

Eclipses vários, de sexualidade e sexo, convertidos também em corrida, competência e técnica do "mais-gozar" característico do hedonismo contemporâneo.

Mas poucos defendem o direito que cada um de nós deveria ter de ser dono de seu próprio corpo. Da liberdade total de dele nos servirmos como desejarmos, sem dar contas à sociedade, mas no respeito da sexualidade e do sexo dos outros.

Feito este retrato caricatural da crise que se atravessa aqui e lá fora, com um ar de que tudo vai bem, entro, sem mais delongas, no prazer da leitura e do papel da poesia, hoje.

Quem se preocupa nos últimos tempos com o prazer? Quem persiste em editar e quem entre os leitores consome poesia, senão um punhado de indivíduos dos meios libertários, pelo menos em França ?

Deixaram de existir as bases sociais que existiram no séc.XIX, quer seja a burguesia ou o proletário clássicos.

Certamente que esse fenómeno existiu nos países da Europa Central até ao fim do comunismo, a queda do muro de Berlim e a desintegração da URSS. Recordo que VaclaHavel não voltou a escrever nenhuma peça de teatro e nunca mais escreveu seus ensaios, onde ele critica também capitalismo de estado ou neo-liberal. Ora, quando ele "critica" esta critica, limita-se a uma mera protestação moral ou ética, mais VaclaHavel entrou, como a grande maioria dos intelectuais europeus, latino-americanos, africanos e outros, numa situação de conformismo, de aceitação das transformações do sistema, tal qual o neo- liberalismo o conceptualizou e pretende aplicar à escala mundial.

Assim, podemos dizer que a poesia neste final de século se produz no meio de uma indiferença geral de indivíduos alienados, quer seja por razões do emprego ou do desemprego (isso depende da posição social que cada qual ocupa nas relaçoes sociais de produção) ou, se é dirigente de empresas, pela competitividade ou o lucro. A poesia está, pois, a anos-luz das preocupações dos indivíduos ultra-socializados pela "cultura" do "laissez-faire".

Ela vive uma época delicada. A poesia atravessa, nas últimas duas décadas, uma crise grave de que muitos não se aperceberam. Ela deixa de ser um diálogo polémico entre mundo subjectivo e radical do poeta, a constituição íntima do sujeito e os problemas sociais nos quais se debatem os cidadãos.

Com a sociedade produtivista e consumista, entrámos numa época em que os impérios coloniais e as ditaduras à maneira antiga, militares ou não, são substituídas por democracias ditas da transparência. Mas onde o grande ditador passou a ser o controlo dos media, a censura da Informação, o pensamento único, o politicamente correcto, a dominação dos especialistas.

Entra-se, pois, antes de chegarmos ao ano 2000, num sistema de valores dominado pela uniformização consumista, numa globalização que procura esconder um fenómeno de conformismo generalizado: todos os valores do passado que ainda mantinham, apesar de todos os conflitos, violentos ou não, o rosto humano das sociedades, têm sido despersonalizados ao máximo.

Vivemos uma nova traição dos intelectuais alinhados na sua quase totalidade pela globalização mundial.

A subjectividade, se ela persiste ainda, torna-se trágica, impotente a transformar o mundo e a sociedade, deixando-se embarcar na deriva niilista, por vezes.

O individualismo sem subjectividade própria é colocado ao serviço da reprodução do sistema supracapitalista.

O ataque frontal contra a subjectividade particular (esta aparece como uma sorte de «anomalia selvagem» a domesticar de urgência) dos indivíduos se vem fazendo num mundo de conformismo generalizado... A internet penetra a própria introspecção individual.

Estes últimos anos os valores humanistas herdados do passado revolucionário começam a ser massivamente substituídos por valores meramente mercantis.

Os estados de direito tendem a ser regidos por estratégias económicas totalmente contraditórias com a exigência política de uma "comunidade de iguais" que constitue a parte mais radical da revolução francesa de 1789-1794.

Estes governos se servem do "ensino da ignorância" promovido como método geral da educação para fabricar indivíduos "aptos" a aceitar e considerar justificadas as leis que regem a sociedade de mercado do capital.

Que destino para a poesia ?

O regresso dos "deuses" tal que Pessoa ou Heidegger o evocaram é ainda possível num mundo totalmente "desencantado", onde o capital aparece cada vez mais como única mediação entre o Homem e o Universo?

A poesia deixou de ter um conteúdo porque faltam as bases ontológicas e metafisicas, o «chão da origem» (Heidegger) é o único a permitir ao homem de se manter direito, de pé, na verticalidade.

A poesia hoje não representa nenhuma função social num mundo que assiste à inexorável extensão e consolidação da economia mundial globalizada. Quando todos os indivíduos tendem a transformar-se em accionistas e consumidores, a poesia tende, ela, a tornar-se numa expressão clandestina subterrânea e marginalizada.

Nesse sentido ela pode ainda ser uma expressão radical da verticalidade estética e ética da revolta absoluta contra um mundo quase integralmente desumanizado. Se a poesia se não pode substituir à exigência revolucionária dos oprimidos, pelos menos ela poderá contribuir para desmoronar o edificio carceral da linguagem empobrecida da novlangue a nova lingia da comunicação actual.