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Ruínas de Império: a cidade-fortaleza de Chaul
K. David Jackson
Universidade de Yale Depois de 500 anos, a presença portuguesa na Ásia é mais visível, paradoxalmente, através de uma ausência sensível: nas ruínas das cidades e fortalezas costeiras que transformaram a história em arqueologia e a cultura em semiótica. Tal é a fortuna da cidade-fortaleza de Chaul, na costa ocidental da Índia, porto de grande antigüidade, conhecido aos gregos pelo nome de Symulla, que no século XVI foi uma das praças mais importantes da Índia portuguesa, muito antes de existir a povoação vizinha de Bombaim. Em estado de ruínas desde o século XVIII, Chaul representa um grande número de fortalezas, monumentos, construções e inscrições através da carreira da Índia, hoje ruínas, que testemunham silenciosamente a ausência sensível desse império marítimo português que com o tempo "nunca foi por ser existindo," dando a razão à definição enigmática do verso pessoano. Contemplando a cidade de Chaul no século passado, o estudioso indiano Gerson da Cunha escreveu: Um pouco de imaginação ativa não deixará de tornar viva esta cena arruinada do antigo poderio e a glória dos Portugueses, onde ainda se encontram os resíduos do passado heroísmo e as lembranças do seu domínio--agora irrevocavelmente desaparecidos!--e dos seus empreendimentos de piedade e o laudável zelo pela divulgação do Cristianismo, que eles executaram com entusiasmo medieval. Seria fácil encontrar os passos...visualizar por um momento o aspeto antigo da cidade, de vestir novamente os altares e as paredes das igrejas com os panos de cores vivas, como ficaram antes das devastações provocadas tanto pelo sacrílego Marata como pela mão pesada do tempo; encher mais uma vez as naves abandonadas e os corredores com o som do grande canto gregoriano; e atribuir-lhe novamente aquele interesse histórico que, mais do que a arquitetura, impressiona e provoca no observador a admiração e o assombro.1 (Cunha, 1876, 81) Um estudo comparado de cidades coloniais--trabalho do Centro para a História da Expansão Européia na Universidade de Leiden, Holanda--revela certas características arquitetônicas e culturais comuns, além de um processo social intenso de aculturação (Telkamp, 1978, 33): A influência dos ideais renascentistas no planejamento urbano das cidades portuguesas construídas na Índia se evidencia em Damão e Bassein, construídas na segunda metade do século 16 na costa ocidental da Índia. Ambas cidades têm um padrão geométrico de ruas, cercadas por muros com baluartes, influências claras do Renascimento.2 (Teixeira, 1996, 230) As cidades costeiras dos portugueses na Índia, freqüentemente construídas sobre outras povoações, eram centros de administração colonial e focos de comunicação ao longo do caminho marítimo. O sincretismo arquitetônico trazia planejamento geométrico, fortificação militar e construção eclesiástica ao cenário asiático, enquanto acrescentava uma população mista e itinerante à sociedade indígena. Embora de caráter heterogêneo, com uma diversidade de funções, a urbanização visava a estratificação étnica, racial e econômica, afastando a população racialmente mista, imigratória e indígena para fora dos muros. Na imagem da população de Chaul fica a distinção entre os que vivem na cidade [«duzentos Cazados Portugueses, e sincoenta pretos Christãos da terra»] e os que residem fora dos muros, sendo esta uma população sujeita à crioulização étnica e lingüística [«quinhentos homes cazados pretos entre christãos e gentios»].1 Os descendentes euro-asiáticos miscigenados mantinham a identidade indo-portuguesa e levavama sua cultura namemória. Segundo Luís Felipe Thomaz (1983), a sociedade luso-asiática se caracteriza pela confluência do Catolicismo, dos "descendentes", do sistema de castas, da organização social das aldeias, e das profissões letradas entre a burguesia. Acrescentamos a tradição oral e a memória cultural, a cozinha, o vestuário e as perspectivas transoceânicas cultivadas pelo império marítimo. As cidades de além mar espelhavam a estrutura e a fortuna do império, começando quase a partir de sua fundação um longo período de declínio, fracasso e destruição, muitas reduzidas a ruínas até fins do século XVII. Continuavam a formar um laboratório para os ideais urbanos de razão e ordem a ser realizados na metrópole na era do Iluminismo. (Teixeira 26) Os Ossos do Império: A Visão e A Volúpia As ruínas, na civilização ocidental, são uma invenção moderna, sendo um conceito cultivado pelo neoclassicismo, que "descobriu" e glorificou as ruínas de Roma e Atenas, cujo máximo exemplo é a obra de Piranesi, e depois pelo romantismo e decadentismo, com os seus cultos melancólicos de fascínio pelo passado remoto. No estudo sobre o mundo clássico, Pleasure of Ruins, Rose Macaulay teoriza sobre o efeito notável produzido pelo encontro humano com ruínas. Na contemplação de uma magnificência da antigüidade, sente-se o prazer complexo da sua construção e da sua decadência simultaneamente. É entrar no mundo fantástico dominado pelo tempo, onde as ruínas continuam a mudar como ainda se estivessem vivas. Na imagem de uma ruína há sempre ambivalência, afirma Paul Zucker, autor de Fascination of Decay, sendo as ruínas uma parte da vida, mas sem vida, fragmento de uma era que passou. A ruína forma parte da nossa imaginação tanto como o futuro, porque não percebemos nem as proporções nem o relacionamento do espaço e volume numa ruína. Para entendê-la, recorremos à poesia, cartas, memórias, pinturas e às artes gráficas, numa tentativa de descobrir e de compartir os sentimentos de séculos passados (Zucker, 1968: 2-3). Numa consideração geral da relação do homem com a história e com o passado no livro The Past is a Foreign Country, David Lowenthal estuda o significado complexo do artefato, responsável por traduzir a história em memória. Os vestígios coexistem com o presente, desafiando a nossa compreensão de um passado tangível porém remoto (247).Recuperar os resíduos do passado, metáfora do renascimento, chegou a formar, na nossa época, um dos fundamentos da análise psicanalítica, exemplificada pela tentativa de resgatar do subconsciente camadas "enterradas" de experiências e memórias (252-53). Uma teorização sobre o tema de ruínas se encontra na obra do arquiteto, artista e escritor de vanguarda brasileiro Flávio de Carvalho (1899-1973), no livro de viagens e memórias, Os Ossos do Mundo (1936). Flávio de Carvalho considera que os resíduos, ou ruínas, constituem matéria estética, sendo «o sopro das civilisações perdidas e esquecidas» (75). São «formas que pertencem à morfologia dos resíduos mais remotos do mundo, dos resíduos de mundos perdidos, daqueles que só o fundo da alma e uma intensa elaboração poética podem recordar» (82-3). Na observação de ruínas, o homem consegue entrar num estado de vôo, examinando o total de um mundo perdido, aproximando-se ou distanciando-se, para focalizar os detalhes «super-realistas» (75-77). O arqueólogo, como um peixe que encontra ossos humanos, pondera os ossos do mundo organizados em coleção. Esses ossos são mais importantes do que o próprio observador, porque representam a sua sensibilidade, o seu ponto de apoio e a sua recordação da história. Na teoria poética e psicanalítica de Flávio de Carvalho, o homem está sempre tentando reconstruir o seu passado. Os resíduos ancestrais são condutores de "verdade", desmanchando a cronologia do tempo. O arqueólogo tenta compreender o não-tempo, viver igualmente à vontade em todas as épocas que examina. A qualidade principal que possuem as ruínas fora do tempo é uma sugestibilidade que leva o arqueólogo ao encanto e ao amor, através de uma magia e um vigor maiores do que os do próprio observador. Apelam a uma camada mais profunda e antiga do inconsciente, regida por forças cósmicas e traumáticas, sendo acessível somente pela intuição poética das origens. A sua beleza é complexa, sendo simultaneamente um refúgio nos momentos de tristeza e uma magia que, através da intuição poética, permite a realização de desejos voluptuosos: «Para desvendar os acontecimentos representados por um residuo é necessario sentir a sugestibilidade do residuo, sentir a fôrça psicologica acumulada, e emanada do residuo...« (88). São mistérios que encobrem o detalhe, sempre um objeto irreconhecível e fetichista, sugerindo a visão e a volúpia de todo um mundo. Oferecem, ainda, um poder terapêutico que Flávio considera «pouco compreendido hoje devido ao infeliz e tacanho espirito cientifico do seculo» (84). Os resíduos apelam à memória do homem, fixada no não-acabado e não-realizado. A civilização está igualmente encaminhada à ruína, estando ligada à agonia da cidade que «certamente provem da sonolencia e conduz á extinção completa; a cidade atravancada entra aos poucos no sono da imobilidade e a população hipnotizada deseja e acalenta essa imobilidade» (30). Flávio de Carvalho registrou a sua impressão de uma rápida passagem pela a cidade de Salvador: No caso da Bahia a civilisação surge como um fantasma estranho; os habitantes da cidade paralizados entre as frestas dos cubos cultivam o temor das cousas estranhas, das cousas que podem perturbar o sono secular, romper o fio de uma aranha ou o zumbido de uma mosca. O baiano, dentro das frestas da sua cidade experimenta as doçuras da escuridão intrauterina e cultiva pelo tacto o gosto da poeira das sombras. A sua fobia, aprendisagem essencialmente colonial, rejeita os fantasmas da civilisação como elementos perigosos a essa fórma de estabilidade, e capazes de precipitar catástrofe. Os sinos das 300 igrejas estalam no timpano do homem adormecido, o ruido do mundo se apresenta como uma cousa longinqua feérica e inacessivel, tocar o ruido do mundo seria perturbar o delicioso suicidio furando a volupia. Não se esqueça que o rítmo do sino mantem em conserva a sonolencia e isola o heróe uterino do mundo do perigo... repica sino... repica sino... a população anestesiada te abençôa, Kirie Eleison... o mundo em paz dorme! (Carvalho, 1936: 31) A civilização produz objetos estranhos, de origens e fins desconhecidos, que penetram e rasgam a sua superfície. A estatuária e a arquitetura acabam mutiladas pelo tempo. Para o arqueólogo, as ruínas são um mundo de perigo e de novidade ao mesmo tempo, profundamente atávicas mas ao mesmo tempo poeticamente reveladoras. Flávio de Carvalho afirma que, na sua animosidade, as ruínas proporcionam o mais profundo contato do homem consigo mesmo. Arqueologia e Semiótica Estando entre ruínas indo-portuguesas do século XVI, a admiração e o assombro são as sensações conflitantes evocadas por arqueólogos do século passado. O viajante atual encontra ruínas nos dois lados do tempo: a estranha presença dos vestígios materiais de uma realidade quepassou e os fragmentos impossíveis detradições folclóricas vivas que sobreviveram apassagem do mundo português. Como num passeio de um luso-indiano pela cidade de Chaul em 1875, dentro dos muros da antiga cidade em ruínas, Cunha descreve as principais construções do passado: passa a "Porta da Terra" e a "Porta do Mar"; a Igreja matriz, Nossa Senhora do Mar, dos Franciscanos (1534); a Misericórdia; a Igreja de Pedro e Paulo, dos Jesuítas (1580); o colégio do Jesuítas onde se ensinava, latim, lógica, teologia, gramática e música; Nossa Senhora da Graça, dos Augustinianos (1587); o Ouvidor; a igreja e o convento dos Franciscanos, da qual só permanece a torre de 30 metros, que também servia de farol para as naus que chegavam; Nossa Senhora de Guadalupe, dos Dominicanos (1548); a capela-residência de S. Francisco Xavier; o palácio do Capitão de Chaul (1516), também feitoria e "tronco"; numerosas mansões e casas particulares. Encontravam-se extra muros a Alfândega (1633) e as igrejas de S. Sebastião (desaparecida), S. João e "A Madre de Deus", dos Capuchinos (ruínas). Cunha menciona umas poucas sobrevivências curiosas: ao lado da Porta do Mar, a figura de um guerreiro de capacete e com a insígnia da Ordem de Cristo, o globo terrestre de D. Manuel, as armas de Portugal e a Cruz de Malta da Ordem de Cristo. Na horta dos Jesuítas, então floresta, Cunha ainda pôde identificar várias espécies de árvores frutíferas cultivadas pelos religiosos, entre as quais a guava (Psidum pyriferum), a jamba (Jambosa vulgaris), a maçã silvestre (Anona squamosa) e a jaca (Artocarpus integrifolia). E entre os escombros, o grito das corujas e o vôo dos morcegos. Os Ossos de Chaul As comunidades costeiras constituem rico repositório histórico da língua, das artes e cultura indo-portuguesas. Em 1987 e 1993 visitei o porto antigo de Chaul, cidade-fortaleza a 56 km. ao sul de Bombaim, centro importante comercial e religioso indo-português por mais de duzentos anos, de 1516 a 1739. Chaul pertencia às "províncias do norte," uma faixa costeira que se estendia desde 200 km a norte de Damão até 30km para o interior. Há um esboço histórico no Maharashtra State Gazetteer (1964): «A sua história, tal como a de Bassein, está cheia de episódios românticos. Muito antes de Bassein ascender à Capital do Norte, Chaul era o principal entreposto de comércio, e a principal estação naval e arsenal dos portugueses nesta parte da Índia. O viajante francês, François Pyrard, que viajou nesta costa entre 1601 e 1608, descreve a vila e a fortaleza dos portugueses em Chaul como sendo muito diferente de Damão e Bassein, porque a terra, diz ele, era extremamente rica, com abundância de bens valiosos, que os mercadores de toda a parte da Índia e do Oriente vinham buscar. O clima era saudável e a vida barata. Chaul portuguesa era muito forte, e Chaul Alta era o centro de manufaturas de artesãos hábeis e trabalhadores que faziam grande quantidade de arcas e armários de tipo chinês muito bem torneados e ricos, e camas e sofás com laca de todas as cores. Havia também uma grande indústria de tecelagem, grande abundância de tecidos de algodão, e ainda mais importante, tecia-se seda, que fornecia tanto os mercados indianos como os de Goa, onde era muito apreciada e usada para fabricar roupa fina (715-55)». O porto de Chaul mantinha um comércio marítimo unindo Moçambique à China (pão, louça, ópio, índigo, côco, canela, pimenta, drogas, cravo, tecidos, ouro, marfim, e escravos cafres), organizava anualmente expedições missionárias e era visitada pelas maiores personalidades do século XVI--generais, santos e intelectuais--entre os quais Affonso d'Albuquerque, Vasco da Gama, São Francisco Xavier, Diogo do Couto e Camões. A grande cidade-fortaleza já estava em ruínas quando visitada por Gerson da Cunha na década de 1870, exibindo uma decadência de grande escala só excedida pela velha cidade de Goa: Agora entramos numa fase na história de Chaul que, por falta de um desígnio melhor, pode ser denominada de decrepitude. Havendo passado, por assim dizer, a flor da juventude fixando-se firmemente nas margens de Revdanda, cercada por inimigos ferozes--e no vigor da meia idade resistindo às incursões e sítios dos seus vizinhos, a nobre cidade de Chaul ora cai gradativamente num estado de velhice que prefigura a sua dissolução próxima....4 (62) Chaul era notável, porém, por possuir as mais antigas ruínas cristãs da Índia portuguesa, principalmente igrejas e conventos sem teto; casas de nobres e mercadores, arborizadas entre jardins tranqüilos, ora cobertas com o detrito de prédios caídos e uma densa vegetação selvagem, entre fragmentos de torres altas de igrejas onde antigamente soaram sinos: As ruínas consistem principalmente de igrejas e conventos sem teto, de grandes mansões dos nobres e mercadores, antigamente entre lindos jardins, ora cobertos pelos detritos de edifícios caídos e cobertos por uma vegetação selvagem; altos torres chegando ao céu, possuíram naqueles tempos sinos que repicavam alegremente, ora mudos para sempre.... Todas essas coisas têm um apelo melancólico em si, o que será o suficiente, assim espero, para fazer das ruínas de Chaul, por muitos anos, até que estejam varridas da face da terra, um lugar que merece uma visita....5 (Cunha, 1876, 81) O passeio de Cunha acaba em encanto e magia, vencendo o tempo entre o presente ausente e o passado vivo da cidade de Chaul. A Voz das Ruínas: os mortos-vivos de Korlai A arqueóloga alemã Gritli Von Mitterwallner, no seu notável estudo Chaul: Eine Unerforschte Stadt an der Westküste Indiens (1964), menciona a existência de uma comunidade indo-portuguesa: «Os habitantes cristãos da congregação de Korlai, a única congregação cristã que sobrevive na área de Chaul, e que existe desde os tempos portugueses, ainda hoje falam um português adulterado». A moderna aldeia de Korlai está perto da fortaleza do morro, do lado oposto do rio Kundalika da antiga cidade portuguesa e do forte de Chaul. Desde 1970, essa aldeia de 1,000 famílias que falam o crioulo português foi tema de estudos lingüísticos e etnológicos por Theban, Clements e Jackson. Sobrevivendo em relativa isolação desde 1740, Korlai ilustra algumas das principais características da cultura indo-portuguesa, entre as quais a criação de um povo euro-asiático miscigenado, quase invisível no espaço cultural e geográfico da região, que mantem a língua crioula, a religião e os costumes, o modo de vestir, as tradições populares e o folclore. Jerome Rosario, cidadão de Korlai, cartografou as duas fortalezas para o estudo arqueológico de Mitterwallner; como falante nativo do crioulo, informou os levantamentos lingüísticos subseqüentes. O forte de Chaul, como se pode observar nos estudos arqueológicos e nas fotografias de Mitterwallner, continua em ruínas e coberto de densa vegetação. A erudita alemã, no entanto, conseguiu documentar a civilização portuguesa de dois séculos atrás através de esboços, inscrições e as ruínas traçadas e desenhadas por Jerome Rosario. Além de versos folclóricos, a aldeia de Korlai (Chaul) é repositório do conto oral (Jackson, 1987), colecionado por Clements (1990-91). Em Dezembro de 1987 a anciã Helena de Sousa, hoje falecida, acompanhada por mulheres de Korlai, cantou uma das poucas canções que sobreviveu no crioulo, "Maldita Maria Madulena", estória de uma jovem elegante e teimosa: «Maldita Maria Madulena, Maldita firmoza! Ai compra mandar fulhy Madulena, Vistida de mata» (Jackson, 1996). A gravação ao vivo desse folclore se encontra em um CD da série "A Viagem dos Sons" [Desta Barra Fora: Damão, Diu, Cochim, Korlai], lançada em 1998 pela EXPO '98 e a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (CNCDP). Essas são as últimas vozes sobreviventes das ruínas de Chaul. Eco das Ruínas As tradições portuguesas sobreviveram por 500 anos na Ásia como a voz esquecida dos descobrimentos, recuperada na canção de Helena de Sousa. As comunidades luso-asiáticas, já isoladas ou esquecidas, como Chaul e Korlai, falam com vozes irreconhecíveis ou deslocadas, desde um passado remoto cujas ruínas nos falam com uma voz que conjuga passado e presente. Hoje, procuramos examinar, na sua paradoxal ausência e presença, as ruínas espalhadas pela Ásia, sendo as formas íntimas e familiares, estranhas e distantes, onde floresceu antigamente a civilização arquitetônica, lingüística, cultural e espiritual dos portugueses no Oriente. Bibliografia Selecionada Barros, João de, Grammatica da lingua portuguesa com os mandamentos da santa madre igreja., Lisboa, 1539. Carvalho, Flávio de Rezende, Os Ossos do Mundo., Rio de Janeiro, Ariel, 1936. Cram, Ralph Adams, The Ruined Abbeys of Great Britain., New York, James Pott, 1905. 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No texto original em inglês, lê-se: «A little active imagination will not fail to bring life back again into this ruined scene of the former power and glory of the Portuguese, where are still to be found the relics of their past heroism and memorials of their dominion--now, alas, irrevocable passed away!--and of their enterprises of piety and laudable zeal for the spread of Christianity, which they prosecuted with all medieval enthusiasm. It would be easy to trace the footsteps... to recall for a moment the ancient aspect of the city; to reclothe the altars and walls of churches with their usual lively drapery, as they stood before the devastations caused as much by the sacrilegious Marathas as by the leaden hand of Time; to fill again the desolate naves and aisles with the sound of the grand Gregorian chant; and to impart to it that historical interest which, more than architecture itself, strikes the mind of the beholder with admiration and awe.» Gerson da Cunha, Notes on the Antiquities of Chaul and Bassein, Bombay, Thacker, Vining & Co., 1876,p. 81. 2. O texto original em inglês: «The influence of Renaissance ideals in the urban layouts of Portuguese towns built in India is evident in Damão and Baçaim, built in the second half of the sixteenth century on the west coast of India. Both these cities show a regular pattern of streets, surrounded by bastioned walls, that clearly denote Renaissance influences.» Manuel C. Teixeira, "Portuguese Colonial Settlements of the 15th-18th Centuries", La ville européenne outro mers: un modèle conquérant? (Xve-XXe siècles) (co-ords Catherine Coaquery-Vidrovitch, Odile Goerg), Paris, Harmattan, 1996, p. 15-26. 3. As descrições de Chaul se encontram no Arquivo Português Oriental (ed. A. B. de Bragança Pereira), Bastorá – Goa, Tipografia Rangel, 1937, p. 204, sendo uma edição do manuscrito de António Bocarro, Livro das plantas de tôdas as fortalezas, cidades e povoações de Estado da India Oriental (1635). 4. O texto original em inglês: «We now enter upon a stage in the history of Chaul which, for want of a better designation, may be named the stage of decrepitude. Having spent the bloom of her youth, so to speak, in settling herself firm in the boggy marshes of Revadanda, surrounded by a host of treacherous enemies, and the vigour of her middle age in resisting the repeated incursions and sieges of her neighbours, the noble city of Chaul now falls gradually into a stage of dotage which forebodes proximate dissolution...» p. 62. 5. O texto original em inglês: «They consist mostly of roofless churches and convents, and stately mansions of noblemen and merchants, embowered amidst pleasant gardens, now encumbered with the débris of fallen edifices, and overgrown with wild vegetation; lofty steeples soaring high in the sky, with arched belfries which once contained bells that sounded many a merry peal, now mute for ever... All these things have a melancholy interest of their own, which will make, I hope, the ruins of Chaul, for many a year to come, before they are quite swept off the earth's surface, a place worthy of a visit.... » (Cunha, 1876, 81). |