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UMA IMAGEM/VIAGEM NA EMIGRAÇÃO PORTUGUESA PARA O BRASIL

 
Domingos Caeiro
Universidade Aberta

"Portugal emigra sem saber para onde vai; como a maior parte dos povos que emigram, impelidos pela necessidade.(...) Mas outrora, a emigração era quase exclusivamente rural; hoje, as cidades também emigram, porque o mal dos campos as invadiu também, e Lisboa como o Porto estão dando a hora presente um forte contingente à emigração". (Chagas: 1897; 128)

Constituindo um fenómeno estrutural endémico (tanto por motivos demográficos como económicos), a emigração em Portugal, particularmente a partir da segunda metade do séc. XIX, assume características próprias e conhece um maior incremento. Contribuiu para esse facto um progressivo desequilíbrio e agravamento das estruturas socio-económicas da formação social portuguesa, na qual a agricultura teve um papel dominante. De facto, o sector agrícola caracterizava-se a sul do rio Tejo por uma excessiva concentração da propriedade, enquanto no norte do país se verifica a sua fragmentação, deixando por isso grande parte da população com uma pequena porção de terra, ou desprovida da mesma. Uma vez que a produção não conseguia satisfazer as exigências de consumo, nem apresentar os excedentes necessários à reprodução, dificilmente se podia fazer face às despesas sociais (que o novo Estado liberal exigia monetariamente) muito menos havia lugar para a realização de melhoramentos nos métodos tradicionais de produção.

Confrontando as três correntes ou teses de Jaime Reis, utilizadas na explicação do atraso económico português, podemos referir que uma das razões do problema residia claramente na estrutura fundiária e produtiva excessivamente fragmentada numa parte importante do País. As consequências disto eram a subcapitalização, e apetrechamento técnico inadequado, a indisciplina quanto à qualidade e a resistência aos melhoramentos técnicos, justamente em zonas com as melhores possibilidades de produzir para o mercado internacional (Reis: XX; 7-18). A emigração apresentava-se, pois, como uma alternativa à desarticulação e degradação da estrutura fundiária a que não é estranha a progressiva penetração capitalista nos campos (forma que tomou em Portugal, numa larga medida no século XIX, o precesso de expropriação da terra). No entanto, as causas do processo emigratório não podem ser só atribuídas a um sector em crise. Há que considerar também as estruturas produtivas da formação social portuguesa e os projectos de política económica seguidos.

As cidades do litoral português, nomeadamente Lisboa e Porto, foram incapazes de proporcionar, à imensa massa que, oriundas do meio rural, nelas convergiam, em busca de trabalho e de outras/melhores condições de vida.

Inevitavelmente, este facto terá como consequência o aumento da emigração. Não foram só exactamente os mais empreendedores que, desejosos de prosperarem noutras paragens, decidiram emigrar;1

"Era corrente - afirmava Eça de Queirós - dizer-se a partir dos meados do séc. XIX que a emigração na Inglaterra era uma vocação, na Alemanha uma carreira em Portugal era uma vocação e uma carreira - era um fim para a qual desde a aprendizagem das primeiras letras se preparava os jovens" (Queirós: 1979; 37).

Parte-se assim do princípio de que a maioria dos que emigraram fizeram-no por motivos económicos, na tentativa de conseguir uma ocupação em que a remuneração obtida lhes pudesse assegurar uma existência condigna e, a longo prazo, o desejado regresso ao país em condições socio-económicas aceitáveis. O horizonte que principal e particularmente preencherá estes objectivos é o Brasil, quer pelo seu desenvolvimento económico (que permitia a abertura de um largo mercado de trabalho), quer pelas afinidades culturais que mantinha com Portugal.

Acentua-se ainda, quanto ao Brasil, a importância do "grande surto cafazeiro que descola em flecha de 1825 a 1855, atravessa uma recessão no decénio seguinte mas recupera-se rapidamente a partir de 1865, e, imediatamente a seguir, no período de 1869 a 1875 o desenvolvimento da cultura algodoeira em São Paulo. Graças a estes desenvolvimentos do café e do algodão, a balança comercial do Brasil, deficitária até 1861, passa aos saldos positivos a partir do ano seguinte, permitindo assim o crescimento das saídas de invisíveis com as transferências para a mãe-pátria feitas pelos imigrantes" (Godinho: 1975; 49), que aí tinham acorrido em grande número, respondendo à "política imigrantista" do Governo Brasileiro.

Deste modo, configurando os momentos da emigração portuguesa e a sua entrada no Brasil, no séc.XIX, teremos três períodos :

- 1º período - de 1808 a 1850; e que corresponde à predominância no Brasil, da força de trabalho escravo, não só rural - o das lavouras, o da criação, o das casas grandes - mas, também o urbano - o do cais e dos carregamentos na cidade, o dos transportes em cadeirinhas ou em redes. Caracterizou-se, sobretudo, por parte dos portugueses, pela ligação às actividades urbanas, visto que o trabalho escravo na agricultura pertubava a fixação, era concorrente.

- 2º período - de 1850 a 1880; com a adopção da lei que proíbe o tráfico de escravos (1850), criaram-se outras condições de fixação e intensifica-se a procura de mão-de-obra estrangeira. Entra em declínio o trabalho escravo, o que não foi pacífico, gerou-se um confronto entre os adeptos da escravatura e os partidários do recrutamento imigratório, com o contributo de pressões externas venceram os últimos. Em Portugal, os engajadores, testas de ferro dos vencedores, alargaram as possibilidades de emigrar! No Brasil, e fruto da guerra com o Paraguai, uma grave crise financeira no Rio de Janeiro irá ter duas consequências; a primeira, diminuição do fluxo migratório; a segunda, abalo da "colónia" portuguesa, ligada como estava ao rico e influente banqueiro António José Alves Souto (visconde do Souto) natural do Porto.

- 3º período - de 1888 em diante; com a abolição do regime servil, inicia-se o terceiro período, crescendo as correntes e fluxos migratórios não apenas em número mas, também, na diversificação. As actividades urbanas são, essencialmente, a ocupação primordial desta mão-de-obra, a maioria incógnita que partiu de Portugal. É neste período que se consolida o processo de urbanização do Rio de Janeiro onde, obviamente, o emigrante teve um importante papel pela influência que exerceu na vida social dessa cidade.

O problema da emigração não residia exclusivamente na ancestral autarcia e pobreza do mundo agrícola. Fundamentava-se no marasmo económico de que, na verdade, Portugal nunca se libertou. A inexistência de uma verdadeira política de fomento industrial e agrícola fazia com que a sociedade portuguesa vivesse uma situação deveras paradoxal: a oferta de trabalho não correspondia à procura (Canaveira: 1990; 104).

Referia João Chagas que, noutros tempos, emigravam os rapazes das aldeias; naquela época (1894-96) emigravam os homens das cidades.

"Noutro tempo, levavam consigo uma arca de pinho, um bragal de linho, alguns pintos e uma desmedida esperança. Hoje levam malas de coiro, excelente roupa branca, algumas libras. Quando um país vê emigrar o homem das cidades, esse país está extenuado" (Chagas : 1897 ; 131). Referia-se, obviamente, ao seu caso pessoal.

O aperfeiçoamento dos transportes marítimos com a introdução do vapor, e a facilidade das comunicações, participam do processo de estímulo à emigração. Difundem-se conhecimentos e notícias sobre as novas terras e os novos países. "A emigração começa a ser um acto acessível, seguro de custos mais baixos, que o emigrante pode preparar como qualquer acto de trabalho", diz-nos Eça na sua brilhante e oportuna análise sobre a emigração - e prossegue:

"O mundo transatlântico está organizado e policiado: os transportes são mais acessíveis a todas as bolsas, as viações para os postos de embarque são mais rápidos e seguros com o caminho de ferro. As informações, profusamente espalhadas, habilitam o emigrante a conhecer minimamente o país do seu destino em todas as suas particularidades (...).

Edificados pelos pioneiros da aventura, e pelos governos de acolhimento surge as associações protectoras, as agências de emigração que facilitam a sua instalação. Os governos preocupam-se com a legalidade dos contratos pela perfeição dos transportes, utensílios, mobílias. O sistema de hospedagem e de depósitos está organizado. Funcionários e conselhos dos países protegem-nos. As agências estatais proporcionam-lhe trabalho. A emigração passa a ser uma instituição onde o mais tímido o mais destituido encontra rapidamente, a sua colocação material e o emprego da sua força". (Queirós : 1979 ; 42)

No séc. XIX, um grande número dos emigrantes que se tinham dirigido para o Brasil regressam a Portugal, a maioria através da repatriação no caso de insucesso, outros para colher os benefícios do seu sucesso económico - o "Brasileiro". Este tipo social virá a constituir no universo da escrita, não só no ficcionismo como também nas abordagens de carácter económico-social, o centro das referências de políticos e romancistas.

É na literatura e na imprensa da época, quer em textos quer em imagens, que as alusões ao emigrante "de torna viagem" são mais constantes. Provavelmente esse emigrante não se consubstanciava no Eusébio Seabra, esse "ser" semi-real e semi-fictício de que Camilo se serviu frequentemente, para realçar traços tanto de carácter psicológico como fisionómico, do chamado "Brasileiro".

O problema parece-nos, no entanto, mais complexo, mais vasto e, sobretudo, mais importante e determinante histórica e sociologicamente tanto ao nível do espaço social rural como no espaço social global. Qualquer destes espaços sofre modificações de tal ordem que as poderíamos dimensionar em três momentos, de forma a simplificar uma abordagem sistematizada desta questão:

1 - a partida - que determinou, em muitos casos, quase a morte de algumas aldeias tanto em termos demográficos como económicos;

2 - a interacção com o país - o envio das notícias e de remessas, com incidências sociais e económicas, de carácter cíclico na sociedade e economia;

3 - o retorno - com particularidades nos campos social e cultural, não esquecendo as fortes incidências sobre a alteração da paisagem geográfica e das próprias mentalidades.

Apesar de na maioria dos casos se preocupar com um único tipo de análise da figura social do "Brasileiro" e não dar relevância precisa a todo o extenso campo de transformações por ele operadas na sociedade, a ficção portuguesa constitui, sem dúvida, uma fonte riquíssima de pesquisa. Conjugando as informações que dela podem retirar-se com dados fornecidos por autores com outra formação conseguir-se-á, certamente, uma melhor compeensão de todo um processo de transformações psicológicas e sociais, de que ao mesmo tempo o próprio "Brasileiro" é agente e objecto.

A presente comunicação não pretende ser um texto de referências estatísticas/quantitativas, ou de análise de situações e aspectos económicos da emigração, como provavelmente a matéria já abordada poderá sugerir. É, tão somente, uma tentativa de estabelecer um percurso, um itinerário, e, simultaneamente, revelar impressões e realidades, acompanhando alguém que sendo um indivíduo do meio urbano, parte à procura, ao encontro de outra cidade. Partiu como muitos outros, na mesma situação de emigrante, talvez, um emigrante especial/diferente.2

É com este emigrante e através das suas impressões posteriormente registadas, que também nós vamos fazer esse percurso.3 Reconstituido é certo, mas um percurso feito por milhares de migrantes portugueses, não só oriundos do país rural, mas, agora,( a partir do último quartel do séc. XIX) também os meios urbanos, os dadores dessa massa de gentes.

Acabado que foi o quadro introdutório, configurado o fenómeno da emigração, partamos também nós, conjuntamente com os nossos migrantes e, em particular com o nosso migrante especial, na reconstituição de um trajecto, na procura da diversidade de valores e de sentidos, ao encontro da cidade/sociedade de destino, mostrar outros caminhos que é preciso descobrir com urgência. São essas impressões e realidades, tais como apareciam para cada um deles (migrantes) que tentaremos que surjam em todo o seu "exotismo"; um exotismo em que o mundo fora da Europa era visto como numa aura de mistério, de admiração e de pitoresco superficial.

Nesta época, qualquer viagem, por mais seguras que fossem as embarcações, era ainda uma aventura. O migrante, o passageiro defrontava-se com o problema das doenças, da comida ou da bebida geralmente de má qualidade, do calor e do frio, muitas vezes o vestuário era mais um desconforto; no fundo, o migrar não era só uma opção, mas era uma decisão de risco e de coragem.

O balanço está lançado, falta-nos a situação empírica e essa começa com o avistar da cidade!

Homens, mulheres, crianças, tresnoitadas, olhos ainda cheios de sono, trepavam precipitadamente aos portalós e ora corriam de bombordo ora de estibordo gritando que fossem ver os que ainda não tinham visto, porque de um e de outro lado, à medida que avançavam, "o magnificente panorama da terra americana toma sucessivamente proporções de prodígio."(Chagas;1897: 6)

As exclamações sucediam-se, palavras de pasmo, indicações à pressa na ânsia de ver, de devorar, de contemplar, de encher para todo o sempre os olhos de um espectáculo dessa dimensão - deduzia-se a dor do prazer, e o resultado obtido provavelmente seria a felicidade.

"Eis a barra - descreve o nosso migrante -, canal estreito, abrindo à invasão da água do mar, a vasta baía do Guanabara, e eis aqui está, lá em baixo, à direita, de súbito aparecida como num rasgão de panorama, a cidade/Rio de Janeiro". Parecia-lhe desdobrar-se na vertente de uma alta cordilheira, plantada um pouco ao acaso, na linha tortuosa da beira mar e invadindo-o sem plano, espraindo-se e retraindo-se, desaparecendo para reaparecer, como se fora interrompida e recomeçada, e tendo assim de longe o aspecto de uma cidade provisória, desta forma construída ao sabor das concessões da natureza e destinada provavelmente a desaparecer para dar lugar a outra.

O olhar queria fixar-se, queria ver. Impossível -acrescenta o autor - o que era a cidade perante esse outro espectáculo, o estuário a "perder de vista". Semelhante espectáculo só podia contemplar-se.

Extasiado e desejoso de sair do vapor, embarca na lancha, também ela a vapor, "pintada de fresco, chapeada de cobre lusente", saúda, como nos livros de viagens, o grande vapor que o transportou à terra desejada.

Agora, já refeito, aproximava-se de terra. Terra habitada que não conhecia, mas ouvia falar, nova civilização que lhe ía ser revelada, a natureza deixou de interessar-lhe. "Eis finalmente este demónio de país que fica tão longe e parece ser tão belo".

A lancha encosta ao cais. Uma orgulhosa felicidade invade-o: "creio navegar na cidade, tão grande é o número de pesadas construções que se vão sucedendo de um lado e de outro, e muito cerca de mim não descubro senão docas, diques e interiores de estaleiros em plena laboração" (Chagas: 1897;17).

A cidade industrial, também, faz a sua aparição. Contempla-a e escuta-a, manifesta-se no fumegar das chaminés das fábricas, na brisa que lhe traz os ruídos cavos de locomotivas manobrando ao longe e "como que marteladas de forja".

Finalmente pisa o chão da almejada cidade. Entra, com efeito, de mala em punho como muitos outros, por uma larga porta, naquilo que lhe parece um vasto depósito.

Já na cidade, caminha por ruas estreitas, no fundo, iguais a outras ruas de cidades com portos, ruas escuras, habitadas provavelmente por gente que lhe parece de comércio, porque não via portas de escada, mas unicamente habitações de grandes fundos que lhe sugerem ser lojas e armazéns e, nos umbrais que eram de pedra, nomes de firma, inscritos uns após outros - GUIMARÃES & CASTRO - SOUSA SOARES & Cº - SERTÓRIO LEITÃO E SUCESSORES; todos eles, por sinal, portugueses.

Assim nos vamos acercando da cidade comercial. Depois das ruas estreitas vem uma larga rua, com largos passeios, à beira dos quais estão quiosques com lotarias; na parede de uma esquina, um estendal de jornais e folhas ilustradas, um café deserto, engraxadores ociosos, e, "de um lado como de outro, comércio, finanças, tráfico, negócio, dinheiro, tabuletas de agências, portas gradeadas de Bancos, vitrines de cambistas cheias de ouro e notas, enormes cartazes anunciando vapores, espaventosos reclames a licores e drogas e, sempre, a cada porta, em cada tabuleta - firmas, apelidos, sociedades, companhias, comanditas" (Chagas: 1897; 24). Decide percorrer essa rua larga de largos passeios, essa artéria que fazia viver essa cidade - essa rua era a rua, do Ouvidor. "A dois passos me encontrei nela e dentro dela, e foi a passo e aos encontrões, ora olhando a multidão que a enchia e me enrodilhava, ora levantando a vista surpreendida para as mil coisas novas que me cercavam, que eu a atravessei pela primeira vez" (Chagas: 1897; 41). Para ele, ido da monotomia da vida lisboeta, encantava-o e maravilhava-o tanta vida, tanta agitação, tanto ruído, parecendo-lhe essa rua, tal como a cidade, cheia de sombra e de ruído, estar em plena festa. O borborinho, a animação dos rostos e das palavras, toda essa cidade social, todo esse som particular de rua cheia em dia de acontecimento, pareciam-lhe dizer, seduzir e convidar ao mesmo tempo, a entrar, definitivamente, nessa cidade caprichosa e opulenta, "cheia de prazer e de aparato, impaciente por civilizar-se até ao ponto de exceder a própria civilização", mas, simultaneamente, reclamava para nutrir-se, para vestir-se para viver e fruir.

O migrante - o nosso autor - está perante a cidade. Não é uma cidade de sonho, é o resultado de um sonho, é a cidade encontrada. Deslumbrado, no meio dessa cidade, no passeio dessa rua onde passavam homens de braço dado, falando com cordialidade, passavam indivíduos atarefados e passavam sobretudo mulheres. "Quantas mulheres!" - perguntava J. Chagas - poucas lhe pareciam passar por acaso por essa rua atravancada de curiosos; quase todas pareciam passar de propósito. "Observo isto - continua o autor - a mulher vem ver ou mostrar alguma coisa, elas disputam o tempo, e no Rio de Janeiro não falta quem perca horas para as ver passar"(Chagas: 1897: 44).

As mulheres que passavam pareciam-lhe que respiravam ao mesmo tempo franqueza e confidência - confidência do amor que não conheceram, confidência do amor que já lhe foi revelado. E todas elas passavam, se não eram formosas eram atraentes. Todas elas passavam orgulhosamente, nenhuma com timidez, mesmo aquelas que fazendo parte da miséria aventureira da Europa indo ali aos "saburros de uma civilização opulenta e tentar pôr à venda o que já nada vale"(Chagas: 1897; 46,72).

Submetido às casas, ruas, praças, objectos, às particularidades, às diferênças, partiu em busca da quotidianidade. Encontrou na cidade a importância dessa quotidianidade, a sua gestação e a sua consolidação, a sua monotomia na satisfação. Encontrou na cidade uma estratégia urbana onde tinham lugar, os aventureiros, os vagabundos, as prostitutas, as novas forças sociais. De todos eles a cidade - o Rio de Janeiro - tinha uma enorme necessidade que não a faziam soçobrar de tédio.

Quatro aspectos sobressaem dos registos que elaborou no contacto com a quotidianidade da cidade - o trabalho, o Bond, a carta de recomendação, o patrício/migrante.

Um dos aspectos que mais o impressionou foi a categoria de migrantes portugueses que encontrou no Rio de Janeiro; adolescentes, idos dos meios urbanos, dos campos como anteriormente, "despachados da aldeia" ali os encontrou com a sua candura e o seu terno de briche ao balcão da tradicional casa de negócio.

O essencial era ser novo e ser simples. Com juventude e simplicidade havia mais probabilidades de chegar ao fim, porque, por via de regra, o migrante português não ía ao Brasil para grandes inovações, o que lhe convinha era seguir a rotina, começando por onde todos começavam até concluir como a maior parte, senão com fortuna, pelo menos com a modesta mediania.

Entrava como marçano, geralmente aos doze anos, numa casa de comércio, onde o trato era rude; aos quinze já estava habituado, aos vinte começava a conceber a esperança de ser rico. Para o conseguir, um dos principais segredos da fortuna era sujeitar-se. Sujeitar-se a aturar os patrões, fazer-lhes os recados, ouvir-lhes as repreensões, ser castigado, ser humilhado. Mas a esperança, a vontade é muita e servido da sua "mocidade e da sua inexperiência, arrosta com estas provações". Se ficava na casa em que começara, a sua aspiração era possui-la ou a partilhar dos seus interesses; se a deixava e tinha crédito, protecções, influência, estabelecia-se por sua conta e fundava uma firma, o que nessa cidade/sociedade de negociantes equivalia à glória de um nome literário.

O português/patrício, que J. Chagas encontrou no Rio de Janeiro, tinha envergado a nova civilização "como um novo trajo", tinha adoptado os seus usos, interessava-se pelos seus destinos, intervinha na vida política e civil, em suma, apropriara-se do seu espírito. Tendo ido muito novo para o Brasil, indubitavelmente, foi aí que conheceu a vida e aprendeu a viver. Ali passou a sua mocidade, ali se fez homem, e, pela primeira vez, ali amou. De certa forma considerava-se desligado da Pátria, que amava devotadamente mas com a qual já não tinha compromissos.

"Chegado ao Brasil - diz-nos J. Chagas -, o português pouca comunicação tem com o seu país, a não ser pelo Banco, que lhe transfere todos os meses a pensão da velha mãe, ou pelos raros periódicos, que de tempos a tempos lhe falam vagamente do que por lá se passa" (Chagas: 1897; 140). Para ele, um intelectual um homem ligado à escrita, à política e ao jornalismo, preocupava-o o facto de o português, em geral, não ler jornais, não se interessar pela vida portuguesa, "ignora grande número dos seus factos, muitos dos seus homens".

Na verdade, se tinham curiosidades intelectuais frequentavam e eram beneméritos das instituições, cuja iniciativa pertencera a outros e que eles eram continuadores, destacando-se o Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro; mas essa curiosidade era uma curiosidade que apenas aplicavam ao conhecimento do passado histórico da sua terra, do seu país - do presente nada sabiam. E disso mesmo se queixava J. Chagas nos seguintes termos:

"Lê Garret, Herculano e Castilho, os desenxabidos escritores e poetas da Regeneração, mas ignora a novíssima literatura portuguesa, como ignora todo o moderno movimento de ideias que tem revolucionado a nossa sociedade, em literatura, como em arte, como em política. Ocupado do passado, em retrocesso de muitos anos, ficou amando um Portugal que já não é o de hoje, o Portugal de D. Maria e de D. Pedro V, o Portugal bonacheirão de D. Luis. Assim o português do Brasil embezerrou num ferrenho conservantismo, que o advento da nova república (no Brasil), com as suas convulsões, não fez senão radicar" (Chagas : 1897 ; 141).

Esperançado que os novos migrantes - os do meio urbano, resultado do agravamento da situação económica e social que se vivia em Portugal na última década de oitocentos - "alterassem o panorama cultural da comunidade portuguesa no Rio de Janeiro e, provavelmente em todo o brasil", afirmava: "O movimento de classes que ultimamente se tem operado em Portugal, produziu, é certo uma emigração nova, mais inteligente e menos abastardável, que, a avolumar-se, com o tempo, dará ao Brasil uma colónia de que nos deveremos justamente orgulhar". No entanto, consciente das limitações e do alheamento aos interesses da colectividade constatava que, no fundo, o migrante desse período era ainda o colono de outrora, e esse tinha sido um cidadão perdido para Portugal.

É tempo de terminar, pensámos o esquema/percurso a partir do(s) indivíduo(s), e não apenas o(s) indivíduo(s) no quadro de um trajecto/projecto.

Partimos do desejo à saciedade; das privações à dissipação; dos afazeres ao lazer; do vazio à saturação; não esquecemos na chegada à cidade as novidades e, sobretudo, as novas raridades - o espaço, os elementos, a terra, a água, a claridade, o tempo, e acima de tudo o desejo.

O trajecto/projecto, aqui proposto, do(s) indivíduo(s) migrante(s) - que tem a sua história - corresponde no fundo, porquanto a reproduz, à história da fruição prometida ou obtida. Eles partindo na imaturidade, realizaram noutra sociedade a metamorfose que fez deles uns adultos; a sua mutação não deixou de ser problemática. O itenerário desenrola-se como uma epopeia (para os que tiveram olhos para ver e ouvidos para ouvir - um sentir quase épico à semelhança do que transparece nas narrativas romanescas que contam as aventuras dum indivíduo).

É tempo de partir - de regressar; "Anseia -se pela volta e começa-se a olhar para a vasta enseada e para a saída da barra com a esperança que em breve a transporemos" (Chagas :1897 ; 189). Gastavam-se os sonhos, chegava o momento em que tudo os mandava partir, volver, deixar a terra da fortuna do "negócio" - a cidade era hegemónica e possuía à sua maneira, indistinta e poderosa, uma dimensão inclassificável. Daí que muitos sentissem a necessidade, tal como J. Chagas, de a trocar por outra, mais modesta, mais humana, mais conforme a sua estatura - como aos nossos pensamentos.


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Notas

1. As motivações de partida, para além das razões predominantemente de raíz económica, conjugavam-se com "todo um clima psico-sociológico que se tece em torno de uma vontade de sair"(M.B.Rocha-Trindade : 7 ; 339).

2. JOÃO PINHEIRO CHAGAS (Rio de Janeiro em 1/9/1863 ; Estoril em 28/5/1925). Originário de uma família de portugueses emigrados para o Brasil no tempo das lutas liberais, aí passou os primeiros cinco anos da sua vida. Foi educado em Lisboa, mas foi no Porto que iniciou a sua actividade profissional como Jornalista, tendo sido um dos cultores mais brilhantes do género. Imprimiu à sua escrita, uma irreverência de planfetário, uma ironia implacável, semelhante, aliás, à sua vida agitada e absorvida pelo jornalismo em defesa dos ideais republicanos. Processado frequentes vezes pelos artigos que escrevia, foi condenado em Janeiro de 1891 por causa de um artigo considerado insultuoso para a monarquia. Estava na prisão quando eclodiu a revolta do 31 de Janeiro, o que aliás o não impediu de ser condenado como participante desta. Foi degredado para África(Angola). Conseguiu fugir para Paris, não obstante o perigo que corria, voltou a Portugal onde viveu oito meses na clandestinidade na casa de um amigo no Porto. Denunciado, foi amnistiado em 1893. A sua actividade de defensor dos ideais republicanos não esmoreceram. Teve que emigrar para o Brasil, mas só esteve dois anos no Rio de Janeiro, em 1897 já estava em Madrid. Opositor da monarquia em 1908 foi mais uma vez preso por ocasião do regicídio de 28 de Janeiro. Após o advento do regime republicano foi nomeado embaixador em Paris, voltando de lá para assumir a chefia do primeiro governo constitucional(1911), de efémera duração. Voltou novamente para Paris, demitindo-se em 1915 durante a ditadura do general Pimenta de Castro. Caída esta, foi nomeado para formar novamente governo, mas durante a viagem de comboio do Porto para Lisboa sofreu um atentado, que lhe custou uma vista e esteve em perigo de vida. Restabelecido, regressou a Paris onde esteve até à sua aposentação, período este apenas interrompido com a revolução sidonista. Participou, ainda, como membro da delegação portuguesa na conferência de Paz da Sociedade das Nações. Escreveu várias obras, destacando-se : Diário de um condenado Político(1892) ; Na Brecha(1893) ; De Bond - aspectos da civilização brasileira(1897) ; Tabalhos Forçados(1900) ; Homens e Factos (1905) ; Vida Literária(1906) ; As Minhas RazÕes(1906) ; João Franco(1907-1908) ; Diário de João Chagas(póstumo - 4 vol.)

3. Entendemos este percurso à semelhança do itinerário do migrante, da mesma forma que M. B. Rocha-Trindade o definiu, ou seja, não à trajecto sem projecto e reciprocamente, vejamos : "A noção de itinerário, cujo conteúdo pretendemos fazer ultrapassar de um mero trajecto constituído por uma sucessão de pontos no espaço geográfico que o emigrante percorre. Sendo-o, também se aplica à sua trajectória social, ao caminhar num projecto de vida, ao transitar por espaços culturais nele entrosados"(M.B.Rocha-Trindade : 7 ; 337).