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"Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro (1862-3), de Joaquim Manuel de Macedo.
Resgate Histórico e Contextualização Ideológica no Romantismo Brasileiro" Tania Rebelo Costa Serra
UnB Jaz o opulento império do Brasil no hemisfério antártico ( ). Do novo mundo ( ) é a melhor porção; vastíssima região, felicíssimo terreno em cuja superfície tudo são frutos, em cujo centro tudo são tesouros, em cujas montanhas e costas tudo são aromas ( ); admirável país, a todas as luzes rico, onde prodigamente profusa a natureza se desentranha nas férteis produções, que em opulência da monarquia e benefício do mundo apura a arte. Sebastião da Rocha Pita, in História da América Portuguesa (1724), p. 19-20. Este imenso e rico país da América ( ), este vasto éden ( ). Com tão felizes disposições da natureza o Brasil necessariamente inspirar devera seus primeiros habitadores ( ). Os brasileiros músicos e poetas nascer deviam. Gonçalves de Magalhães, in "Ensaio sobre a História da Literatura do Brasil" (1836), p. 25-26. Dir-se-ia que a natureza virgem e portentosa do Brasil supria com suas inspirações patrióticas e arrebatadoras as academias e os mestres abalizados que faltavam na América Portuguesa a esses (eloqüência e pintura) e a todos os belos talentos. Certo é que eles excederam a expectativa da família real e dos fidalgos portugueses, que reconheceram não ter deixado na culta Lisboa quem os levasse à palma na eloqüência e na música sagrada. J. M. Macedo, in Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro (1862-3), p. 36. Com a proximidade das comemorações dos quinhentos anos do descobrimento do Brasil, torna-se assaz pertinente o estudo do papel desempenhado pelos artistas do Romantismo brasileiro na fixação de uma cultura e uma História essencialmente brasileiras. Dentre eles sobressai-se Joaquim Manuel de Macedo, que teve um importantíssimo lugar na execução desse projeto nacionalista. O objetivo desta comunicação é inserir as crônicas de Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro1 no grupo de trabalhos não ficcionais do romancista, dedicados ao que chamei de uma taxionomia da História do Brasil, conforme pesquisa embasada no Ano Biográfico Brasileiro.2 Também se visa a mostrar que Macedo nelas procede a um resgate da tradição histórica anterior - tanto a oral quanto a escrita -, ao mesmo tempo em que contextualiza ideologicamente o Império do Brasil. Por outro lado, quer-se mostrar que suas obras não ficcionais transmitem a idéia, subreptícia, de um país novo, majestoso, idealizado e, conseqüentemente, mitificado, no qual seria viável a realização de um "Quinto Império". No caso específico do Passeio, esta idéia está em estado latente, ainda germinando, para se completar mais tarde no Noções de Corografia do Brasil. Esta idéia/mito - que na verdade tem sua gênese no Brasil colônia - chega à década de 1860 fortificada pelo liberalismo do II Reinado e pela idealização do Romantismo, sobretudo pela idéia do progresso sem limites, que se tornará, um pouco mais adiante, com o Positivismo, uma verdadeira religião. É importante, ainda, ter em mente que nas crônicas de Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro, D. João VI é sistematicamente poupado das críticas contundentes ao absolutismo, não só pela proximidade de parentesco com os quase inatacáveis imperadores, mas também, e sobretudo, para mostrar que a paideia brasileira - que já existiria, portanto, antes do "tempo do rei" - atravessa a ponte da independência política com tranqüilidade. Assim, mais um mito macediano estaria criado: o de que as revoluções no Brasil fazem-se sem sangue: "O, brave new world,/That has such people in't!" Cabe freqüentemente a Macedo o papel de pioneiro3 nas letras brasileiras. Em 1861, no mesmo ano em que estão aparecendo suas crônicas no jornal fluminense,4 Macedo publica o Lições de História do Brasil, manual que havia preparado para os alunos do Imperial Colégio Pedro II, e que Wilson Martins considera a autoconsciência histórica do país: Nas perspectivas de uma 'entidade brasileira', os três livros mais importantes de 1861 são O Tratado de Geografia Elementar, Física, Histórica, Eclesiástica e Política do Império do Brasil, de J. G. Amadeo Moure e V. A. Malte Brun; as Lições de História do Brasil, de Joaquim Manuel de Macedo, e esse monumento de erudição geográfica e histórica que é L'Oyapoc et l'Amazone, de Joaquim Caetano da Silva (1810-1873). Os dois primeiros, justamente por sua destinação didática, exerceriam enorme influência na constituição de um 'saber nacional', uniformizando no espírito de numerosas gerações que se sucederam uma certa imagem geográfica e histórica do Brasil. Acrescente-se que, no caso de Macedo, era, na verdade, Varnhagen quem assim configurava, por interposta pessoa, a nossa consciência da história brasileira: pode-se dizer, por isso, que, além de escrever uma História do Brasil, ele fez, em larga medida, a história do Brasil, pois a sua ficou sendo, afinal de contas, desde então, a nossa própria visão da história pátria. História da Inteligência Brasileira, vol. III, p. 132. Já em 1861, portanto, está fixada a nova tradição histórica brasileira. Por outro lado, poderíamos dizer que Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro seria a "pequena história" das Lições, em princípio com temática restrita à cidade do Rio de Janeiro, mas, de fato, oferecendo uma metáfora para todo o Brasil, já que os "passeios" retratam um microcosmos dentro do macro desafio interpretativo que era, para usar as palavras do historiador barroco Sebastião da Rocha Pita, "o opulento império do Brasil". No entanto, a fim de melhor compreender a magnitude do que está fazendo o autor d'A Moreninha, é necessário inserir seu trabalho numa perspectiva diacrônica dentro do processo da descrição histórica ou mesmo histórico-literária do país. É preciso, portanto, voltar um pouco atrás e verificar quem e o quê havia sido feito nessa área - e como havia sido feito. Até então, apenas Rocha Pita havia escrito e publicado uma história do Brasil, voltada, naturalmente, para o encômio barroco da coroa lusa e ao louvor ufanista da pátria: "vastíssima região ( ) em cuja superfície tudo são frutos, ( ) tudo são tesouros, ( ) tudo são aromas". Seu trabalho segue a linha adotada na carta de Pero Vaz de Caminha, acrescido do fervor barroco que pode ser encontrado em quase toda a literatura da época, como, por exemplo, na poesia "A Ilha da Maré", de Manuel Botelho de Oliveira. Em resumo: ufanismo e lusografia, embora sua História seja um marco nas letras nacionais, já que estabelece um primeiro cânone histórico. A partir de 7 de setembro de 1822, era necessário mudar esse cânone. Houve várias tentativas de se estabelecer uma História do Brasil e/ou uma História da Literatura do Brasil, em que o ufanismo fosse metamorfoseado em nacionalismo e a lusografia em "língua brasileira". Nenhuma veio ao prelo, já que havia a dupla barreira intransponível da herança histórica portuguesa, por um lado, e, de outro, a do paradoxo da língua. Como separar a Monarquia do Império? Como pode a literatura ser brasileira, se precisa usar o veículo da língua portuguesa? É Domingos José Gonçalves de Magalhães em 1836, com a publicação do "Ensaio sobre a História da Literatura do Brasil", quem vai resolver o falso paradoxo. Com o estabelecimento desse "anteprojeto de trabalho" ele possibilitará aos colegas de intelligentsia adquirirem as premissas ideológicas que lhes permitirão embasar a construção de uma cultura e de uma literatura nacionais. As premissas servem, na verdade, como ferramentas ideológicas e estão basicamente divididas em três grupos: a idéia retomada aos barrocos sobre a majestade da terra pátria, com a novidade romântica de que é essa terra que determina a inesgotável sensibilidade artística brasileira; a idéia da originalidade criadora do indígena, que havia tido cultura própria, embora esta, como a música e a poesia, tivesse sido castrada pelo colonizador; e, finalmente, a idéia de que cada nação tem seu homme de génie, que a serviria como uma espécie de semi-deus inspirado para revolucionar costumes obsoletos (provavelmente atribuindo-se Magalhães este paradigma). A fusão dessas três idéias permite apontar a existência de uma cultura autóctone, isto é, a existência de uma identidade nacional própria, que está na base do conceito de Pátria, tão essencial ao Romantismo em geral. Em magistral leitura do "Ensaio", Antônio Soares Amora, em O Romantismo, observa sobre o autor que estamos diante de um espírito que idealizava a realidade e procurava chamar outros espíritos à aceitação de uma filosofia da história da literatura brasileira. Uma filosofia que, como todas as filosofias, operava com idéias abstratas e exigia, de quem a aceitasse, também a aceitação de uns tantos postulados (p. 103) ( ) Estavam, finalmente, definidas, para os franceses interessados no Brasil, e principalmente para nós mesmos, as premissas de uma concepção da cultura e da 'literatura nacional' brasileira, ( ) as premissas de seu nacionalismo e de seu Romantismo (p. 89). Embora se deva concordar com o professor Amora que a interpretação do texto da Niterói pode ser feita através de uma leitura filosófica, eu diria que seria também importante analisá-lo através de uma leitura ideológica. Era necessário dar à intelligentsia nacional pós-1822 não só um projeto, mas sobretudo um instrumental de trabalho com o qual pudesse efetivá-lo. Com as premissas lançadas em 1836 Magalhães preenche essa lacuna. A partir dele fala-se de literatura brasileira com algum tipo de bagagem conceptual definida para o que seria sua especificidade - sua "brasilidade". Assim, tendo como ponto de partida essas duas vertentes, Macedo vai inovar a partir de 1862-3 usando: 1o) o nacionalismo, que havia sido ufanismo em Rocha Pita, e deste autor aproveitando a tradição histórica; 2o) criando fatos histórico-culturais que preenchessem o arcabouço teórico deixado vazio nos prolegômenos do "Ensaio" de Magalhães e, finalmente, 3o) metamorfoseando estes fatos, sob a ótica do nacionalismo romântico, em mitos formadores do Império brasileiro, processo apenas iniciado nesse momento: Dir-se-ia que a natureza virgem e portentosa do Brasil supria com suas inspirações patrióticas e arrebatadoras as academias e os mestres abalizados que faltavam na América Portuguesa a esses (eloqüência e pintura) e a todos os belos talentos (p. 36). É nesse cenário teórico, portanto, que entram em cena suas obras não ficcionais.5 Assim, publica as Lições de História do Brasil e, nos dois anos seguintes, o Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro, visando a preencher com obras, conforme já foi observado, o arcabouço histórico-literário preparado anteriormente, e, em o assim fazendo, fixando nosso corpus histórico e literário. Portanto, se com as Lições Macedo estabelece a nova tradição histórica brasileira, com o Passeio ele consolida nosso cânone artístico-cultural, o que será aprofundado quatorze anos depois com o Ano Biográfico Brasileiro. Essas obras não ficcionais têm todas, em verdade, uma dupla função, ao mesmo tempo histórica e ideológica. Como já foi dito no início deste trabalho, os "passeios" são um microcosmo da História do Brasil, vista a partir da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Este procedimento é metafórico, já que o que está por trás do texto escrito é a existência de uma mensagem ético-utópica sobre o que DEVERIA ser histórico-cultural, no lugar do real, que seria transformado não só pela nova ideologia romântica, mas também pela "luz" do II Reinado. Nesse sentido, poder-se-ia afirmar que a Cidade de Macedo é uma metáfora idealizante do Brasil, possibilitada pela nova proposta teórica do Romantismo. Portanto, também seria possível afirmar que, dentro de um tal cenário idílico, o passo seguinte do país, ou mesmo o seu "destino" - para utilizar um termo querido ao autor -, seria o de ter a grandeza de um verdadeiro império. Outra chave para a compreensão dessas crônicas repousa na identificação, para fins de análise, de um tripé estrutural, em que o primeiro "pé" consiste no aproveitamento da tradição da microhistória oral, que o autor faz questão de prestigiar. É neste trabalho de levantamento e registro que se configura a taxionomia da História brasileira, mencionada no início deste trabalho: o inventário comentado, e freqüentemente "amenizado", de fatos, mas sobretudo de obras e homens brasileiros em sua essência, e que por isto merecem registro: Até hoje só tenho escrito com a idéia de aproveitar ao povo e àqueles que pouco sabem. ( ) Que fiz eu? Procurei amenizar a história, escrevendo-a com esse tom brincalhão e às vezes epigramático que, segundo dizem, não lhe assenta bem, mas de que o povo gosta. Ajuntei à história verdadeira ( ) ligeiros romances, tradições inaceitáveis e lendas inventadas para poder falar à imaginação e excitar a curiosidade do povo que lê e que eu desejo que leia os meus passeios; mas nem uma só vez deixei de declarar muito positivamente qual o ponto onde a invenção se mistura com a verdade. (p. 17-18). (Em verdade,) achareis que vos estou contando cousas que todos sabem. Ah! Lembrai-vos que os tempos que vão passando levam consigo, pouco a pouco, as usanças, os costumes, as idéias ( ), e que, portanto, convém ir conservando a memória de todos esses traços que caracterizam e nos mostram as feições do nosso passado (p. 38). Por outro lado, é importante lembrar que está sempre presente, como um leitmotiv, a consciência de que a transição do passado para o presente foi feita pacificamente em todos seus níveis (histórico, cultural, político, etc), já estando este presente naquele desde o final do século XVIII, pelo menos no que se refere à existência de obras e homens de vulto já então "brasileiros": Quem não enxergar nos poemas do Uraguai, do Caramuru e depois no da Assunção de frei S. Carlos e nas obras de Valentim, de Xavier das Conchas e de outros artistas a independência do Brasil, que no fim de alguns lustros passou dos cantos dos poetas e dos quadros e trabalhos da arte para os 'clubs' dos políticos, não enxerga a luz da verdade e a origem real dos fatos (p. 64). O segundo sustentáculo estrutural dessas crônicas é a oposição, presente do início ao fim dos "passeios", entre o louvor ao momento atual, às luzes que o liberalismo do II Reinado trouxe, e a crítica ao obscurantismo existente na época da colônia, ao absolutismo dos vice-reis. Estas oposições ideológicas são o traço mais interessante do trabalho de Macedo, sobretudo a identificação, no momento presente, de "(uma) época brilhante" (p. 45), em que, prossegue o autor, "vivemos, graças a Deus, em ( ) perfeita paz" (p. 214), (já que) "a declaração da maioridade do sr. D. Pedro II veio abrir uma época nova para o Brasil" (p. 69). Esta época, percebe-se nas entrelinhas, seria o prelúdio para o destino maior que aguardaria o país. Vejamos como é introduzida uma dessas oposições, que representam, de fato, uma contextualização ideológica do II Reinado, montada em um método dialético de oposisões entre o "antes" e o "agora": Causa-nos espanto a cara horrível do patronato de hoje. Ah! Façam idéia da face medonha do patronato daqueles tempos em que o arbítrio era a lei, a vontade de um ministro valia mais que todos os interesses do país e todas as conveniências públicas. Ao menos agora cada um de nós tem nas 'publicações a pedido' dos jornais diários e em cada tipografia uma elevada tribuna em que solta a voz e fala como um deputado. E dantes? Dantes, quem falava ou escrevia fora do compasso marcado pela batuta do governo fazia uma viagem à África, ou, pelo menos, deixava o seu nome escrito no livro do carcereiro. Morto por um raio seja eu, se troco o meu tempo pelo tempo do mando e quero, se troco o direito que tenho hoje de pensar em voz alta, de discutir e de censurar, pelo antigo dever de uma cega obediência e de um silêncio de catacumbas (p. 32). ( ) Eu, ( ) dou graças a Deus por ter nascido em uma época em que tenho o direito de pensar, falar, escrever e proceder com toda a liberdade que me garante a constituição do Império (p. 46). Por fim chegamos ao terceiro sustentáculo: as críticas às mazelas do tempo contemporâneo ao autor. Curiosamente, no entanto, o "governo" - algo como uma entidade abstrata, atacadíssima por Macedo - é dissociado da imagem dos imperadores Pedro I e, sobretudo, Pedro II, facultando assim ao artista o artifício de permitir-se o distanciamento necessário à sua crítica. Essa crítica é exercida abundantemente ao longo do Passeio: contra o descaso das autoridades para com a cidade (p. 122, 230); contra a administração omissa (p. 71, 150, 180); contra a falta de caridade das autoridades manifestada com relação aos órfãos e outras minorias da cidade (p. 131, 148-9, 152,165); contra os políticos (p. 222); contra o racismo (133, 219, 234) e, last but not least, contra os jesuítas (88, 121, 211, 215, 216, 217), esses seres maquiavélicos que teriam querido dar um golpe de estado na coroa lusa e estabelecer entre nós uma teocracia. Enfim, o tripé estrutural serve ao propósito de veicular uma imagem "moderna" da Cidade-Pátria, na qual o antigo e o novo se complementam numa era de paz, prosperidade e liberdade. Uma era que deve ser assim mantida a qualquer preço, e, para que isto aconteça, os erros administrativos expostos precisam ser saneados. O tempo é escasso, no entanto, e não é possível mencionar outros exemplos; urge chegar-se às conclusões. O que se verifica, portanto, depois do exame atento do Passeio, é que, quarenta anos após a Independência, já se pode falar em consolidação da História do Brasil e na fixação de um cânone artístico e cultural. Sua publicação, ao mesmo tempo que produz uma taxionomia dos fatos histórico-culturais brasileiros, resgata-os para uma nova tradição canônica. Por outro lado, à medida que Joaquim Manuel de Macedo vai passeando, vai também contextualizando ideologicamente o II Reinado. Esta contextualização, no entanto, não tem apenas uma função filosófico-ideológica. Ela serve, sobretudo baseada no conceito de uma paideia brasileira, usado subrepticiamente pelo autor, para veicular o mito das excelências brasileiras e, ao fazê-lo, introduzir um dado político à mensagem. Caberia à intelligentsia nacional e ao imperador, dali para a frente, utilizá-lo como melhor lhes parecesse. Finalmente, deve-se dizer que o mito das excelências do Brasil embute a idéia naïve da "geração espontânea" - aqui, em se plantando tudo dá; e dá melhor e maior -, a qual servirá como trampolim para, dez anos depois, quando da publicação do Noções de Corografia do Brasil, possibilitar a criação do que poderia ser chamado de uma "mitografia macediana". Esta, por sua vez, serviria para embasar, justificar e sustentar ideologicamente a existência de um "Quinto Império" brasileiro, trabalho este que será abordado em futuro próximo. Bibliografia Amora, Antônio Soares. O Romantismo. A Literatura Brasileira. Vol. II. SP: Curtis, 1977. Gonçalves de Magalhães, Domingos José. "Ensaio sobre a História da Literatura do Brasil. Niterói. Revista Brasiliense. Paris: 1836. Macedo, Joaquim Manuel de. Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro. BH/RJ:Garnier, 1991. Martins, Wilson. História da Inteligência Brasileira. SP: EdUSP/Cultrix, 1977. 7 vol. Rocha Pita, Sebastião da. História da América Portuguesa. BH/SP: Itatiaia/EdUSP, 1976. Abstract Este trabalho tem por objetivo mostrar, através do livro de crônicas Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro, que, de um ponto de vista histórico-literário, o que Macedo criou na década de 1860 teve importante papel na fixação de uma cultura e de uma História brasileiras. Por outro lado, visa-se a mostrar que Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro faz parte do conjunto de obras de Macedo que instituem uma taxionomia da História do Brasil e procedem à fixação do cânone artístico nacional. Por fim, através do texto, mostrar-se-á que há não só um resgate da tradição histórica anterior, como a contextualização ideológica do Império dentro dos novos ventos políticos vindos do liberalismo europeu. Esta contextualização tem por função última inserir mitos das excelências do Brasil numa paideia brasileira, criando, na verdade, uma "mitografia macediana" que sustentaria ideologicamente a existência de um possível "Quinto Império" brasileiro. Notas 1. Publicado originalmente em folhetins do Jornal do Commercio, durante o ano de 1861, e depois em livro em 1862-1863. 2. Nesses estudos, concluí que Macedo havia não só fixado um padrão canônico, como também havia oferecido à sociedade um dos primeiros manuais de História da Literatura Brasileira de que dispomos, sendo parte essencial do grande projeto nacionalista, acima mencionado, de elaboração de uma identidade cultural brasileira, proposto em 1836 por Gonçalves de Magalhães, no "Ensaio sobre a História da Literatura do Brasil". São eles: "A oficialização do cânone literário no Ano Biográfico Brasileiro (1876-1880), de J. M. Macedo". Letras de Hoje. Anais do II Seminário de História da Literatura. Porto Alegre: PUCRS, vol. 31, no 4, dezembro 1996; "O Ano Biográfico Brasileiro, de J. M. de Macedo, como leitura da História da Literatura". Cadernos do Centro de Pesquisas Literárias da PUCRS. Anais do I Seminário Internacional de História da Literatura. Porto Alegre: PUCRS, vol. 3, no 1, abril 1997 e "Memória cultural e a construção da identidade cultural brasileira. O cânone literário romântico oficial". Cerrados, Revista da PG do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB. Brasília: EdUnB, no 8, ano 7, 1998. 3. Vide Serra, Tania: Joaquim Manuel de Macedo ou os Dois Macedos. A Luneta Mágica do II Reinado. RJ: DNL/F. Biblioteca Nacional, 1994. 4. Ainda não se chamava ao originário da cidade do Rio de Janeiro de carioca. 5. Lições de História do Brasil, de 1861; Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro, de 1862-3; Noções de Corografia do Brasil, de 1873; Ano Biográfico Brasileiro, de 1876-80; Efemérida Histórica do Brasil, de 1877 e Memórias da Rua do Ouvidor, de 1878, em que o microcosmo da Cidade reduz-se ao da Rua. |