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Viajantes ilustrados contra o Brasil

 
Matildes Demetrio dos Santos
Universidade Federal de Viçosa

 
O livro trabalha com a idéia macunaímica do herói sacana
e sem nenhum caráter, mas sem nenhuma idealização poética.
Miguel Sanches Neto
1

Trabalhando o lado mais perverso da contemporaneidade brasileira, surge Contra o Brasil, de Diogo Mainardi, 1998, com um excesso de idéias execráveis sobre o país e os brasileiros. O livro, caminhando entre a ficção e a crítica social, escancara teorias e interpretações grosseiras que desarmam os que ousam pensar de modo diferente. Ao mesmo tempo, um ceticismo debochado e paralisante revive a história oficial brasileira não com o objetivo de derrubar certezas complacentes ou distorcer normas opressoras mas de impingir um discurso destrutivo e avesso ao diálogo.

O novo texto tem o seu duplo em outros textos que lhe servem de ilustração para a tese de que a identidade brasileira está comprometida com o que há de pior no gênero humano. Como um nó dentro de uma rede de referências literárias e históricas, a escrita se faz na mesma medida em que se apropria de discursos difamatórios em que o Brasil aparece representado ou inventado por visitantes ilustres que, uma vez no país, deixaram ou forjaram informações que tentam explicar a realidade nacional, sua cultura, seu legado histórico, seu futuro como nação.

Dessa forma, o autor vai buscar em fontes diversas os motivos que comporão o espaço aventureiro da obra. Tristes Trópicos de Claude Lévi-Strauss influenciou-o na escolha do percurso que o herói segue pelo interior do país, em busca do que restou dos índios nambiquaras que, segundo o antropólogo francês, viviam completamente isolados da civilização, levando uma existência primitiva, simples e original. O objetivo de Pimenta Bueno, o personagem principal do romance, no entanto, é encontrar esse povo-símbolo da primitividade brasileira e comprovar a tese de que o país, apesar dos séculos, não progrediu e continua preso à Idade da Pedra.

As caricaturas do brasileiro como malandro, oportunista, preguiçoso e depravado moral têm seu respaldo nos relatórios escritos por Charles Darwin, quando em visita ao país em 1832, escreveu em seu diário que os "brasileiros são profundamente indelicados e desagradáveis, suas casas e suas pessoas costumam ter um aspecto imundo."2 Da correspondência privada do conde de Gobineau retirou a teoria de que o povo é "infame, a ralé do gênero humano, com sangue viciado, espírito viciado e feios de meter medo."3 De referências menos conhecidas, ele cita o caso do marinheiro inglês, Anthony Knivet, que participou da viagem do pirata Thomas Cavendish ao Brasil em 1591 e que, de acordo com os registros da época, preferiu terminar os seus dias entre os índios canibais a sujeitar-se a viver ao lado dos brasileiros. Registros também curiosos recheiam a narrativa trópicos como o da americana Elizabeth Agassiz, que visitou o Brasil em companhia do marido, que era naturalista. Das suas conversas conta que ela teria resumido sua opinião sobre os trópicos, citando um dos mais célebres versos do "Inferno" da Divina Comédia: "Lasciate ogni speranza, voi che’ntrate!"

O conhecimento desse fato basta para despertar a veleidade poética de Pimenta que pensa imediatamente em escrever uma epopéia à moda de Dante Alighieri. No seu poema, ele se pavoneia com a chance de imortalizar a estirpe ordinária e vil do brasileiro, procura a rima apropriada para cantar os desencantos da pátria e se delicia com a possibilidade de condenar ao inferno todos os personagens da História do Brasil.

E há outros textos, ainda, em que o ilustrado personagem trata de conceituar a arte brasileira, os feitos históricos, as lendas e mitos nacionais, as teorias que buscam definir a identidade nacional. Linha por linha, ele apresenta depoimentos e testemunhos desalentadores que comprovam a tese de que a terra nunca fora amada pelas pessoas que nela se estabeleceram ou vieram para estudo e pesquisa. Na sua boca ferina, a riquíssima coleção de impropérios soa como uma cantiga de escárnio gritada em praça pública. O país odiado deve ser castigado e amaldiçoado todos os dias e sempre: "País nefando! País nauseabundo! País lazarento! Que se abatam sobre o Brasil as mais tremendas calamidades! Que o Brasil seja devastado pelas maiores..."4 A praga mesclada com desaprovação e desprezo é o discurso obstinado de quem só pretende expor os males do seu próprio país à zombaria do mundo.

O enunciado atualiza, de modo galhofeiro, o tema das viagens de exploração e pesquisa. E, na condição de viajante estranho e estrangeiro ao país, Pimenta empreende a sua busca pelos descendentes dos antigos Nambiquaras. Quando os encontra, percebe que o pequeno grupo já está integrado à sociedade mas confiante na sua capacidade de argumentação, empreende a missão de moldar os indígenas para que regridam ao ponto de se tornarem semelhantes à interpretação documentada por Lévi-Strauss: "são dos mais primitivos que se possam encontrar no mundo."5

O trabalho de aculturação não lhe demanda grande esforço, pois o Outro se apresenta como dócil, maleável e submisso, prestando-se aos mais absurdos aprendizados. De forma satírica, o "missionário", reduz os nativos a uma massa anônima e descartável que não se rebela, tornando fácil a tarefa de imprimir a marca de suas leituras naqueles corpos que, para ele, são meros significantes sem nenhum significado. Esse diálogo entre o antibrasileiro e o nambiquara, José Maria, demonstra como a "catequese" se processava:

Pimenta Bueno Conhece Theodore Roosevelt?

José Maria Quem?

Pimenta Bueno Theodore Roosevelt foi ainda mais longe, afirmando que os verdadeiros Nambiquaras "nem sequer chegaram à Idade da Pedra", sendo "ingênuos e ignorantes como animais domésticos".

José Maria Eu sou ingênuo e ignorante como um animal doméstico.

Pimenta Bueno Conhece Claude Lévi-Strauss?

José Maria Quem?

Pimenta Bueno Claude Lévi-Strauss comparou os Nambiquaras a "uma raça de formigas".

José Maria Eu pertenço a uma raça gigante de formigas!6

Importa ressaltar que a cultura do protagonista altera substancialmente a visão que o Outro tem de si mesmo. Como um ventrílogo, José Maria repete e endossa a proliferação de interpretações depreciativas sobre sua própria raça. Com pouco talento literário mas valendo-se das concepções sobre os brasileiros que vigoram entre os intérpretes de várias nacionalidades aqui estabelecidos ou de passagem, Pimenta repete à exaustão: essa gente não tem lei, não tem o mínimo bom senso, é covarde, medrosa, supersticiosa. O objetivo é manter à disposição do leitor uma coleção de opiniões abalizadas e consagradas pela tradição que constituem a alegoria de um mundo já codificado que a intriga romanesca aciona e põe em marcha. Os diálogos construídos com citações, às vezes, entre aspas, se incorporam ao enredo como reflexo de uma mesma idéia que se impõe pela força da repetição ostensiva: o brasileiro é uma raça inferior fadada ao extermínio.E o romance ritualiza esse desígnio à medida que Pimenta Bueno prossegue com suas "lições" até eliminar José Maria, o último dos Nambiquaras.

A trama acentua o individualismo e o descaramento desse brasileiro à-toa no espaço da nova modernidade, deixando-o livre para agir impunemente. Intolerante, no último capítulo do livro, ele sintetiza sua idéia fixa:

O Brasil estimula a traição! É a única virtude deste país! Não temos nada pelo que lutar! Podemos eliminar tudo! Podemos eliminar pátria, família, Chopin! Podemos criar um universo perfeitamente simplificado em que reste somente a nossa infâmia!7

Dessa maneira, os textos apresentados abatem a ingenuidade do discurso ufanista com seu humor corrosivo e parodista, envenenam todas as noções positivas que se possa ter a respeito do país, abraçando apenas conceitos, depoimentos e teorias negativas que têm a pretensão de parecerem legítimos e recomendados. Os onze motivos apresentados pelo conde de Afonso Celso, no já centenário livro Por que me Ufano de meu País 8, para demonstrar a superioridade do Brasil em relação aos outros países, são rechaçados e satirizados.

Na verdade, o patriotismo ingênuo e incondicional de Afonso Celso encobre os males da nação e impede a busca de soluções mas Diogo Mainardi, além de caminhar na contramão do ufanismo e criticar os viajantes que venderam o Brasil como o Eldorado, o paraíso perdido, a terra das amazonas e o reino do bom selvagem, tem uma forma irritada de consciência antinacionalista que não só desdenha como também corrói os mitos nacionais, criando personagens sórdidos e tecendo um enredo que transforma as antigas viagens etnográficas em acontecimentos de efeito para que o leitor possa se divertir com testemunhos e revelações que colocam em evidência a fraqueza e a inferioridade da raça brasileira.

No livro, além de cristalizar apenas os estereótipos negativos sobre a sociedade brasileira o único legado da viagem do herói mainardiano ao interior mato-grossense é a constatação de que os atuais Nambiquaras não aprenderam nada com Lévi-Strauss a não ser uns rudimentos de Chopin. Na interpretação pejorativa de Pimenta Bueno, a experiência pouco significou para o país, porque aqui nada frutifica: "Representamos a boçalidade do homem em seu estado mais puro! Liquidamos qualquer veleidade de progresso universal! Somos o mínimo denominador comum da selvageria humana!"9 Até as teorias deterministas do século dezenove que revelam realidades assustadoras sobre a identidade nacional não chegam ao ponto de afirmar que "ser um molusco é a maior aspiração possível para o Brasil inteiro",10 como não cansa de afirmar o viajante do romance.

A trama se enriquece com as citações desaforadas de Pimenta Bueno e com suas ações violentas e ultrajantes porque, no seu cotidiano, seus atos são vis e condenáveis. Ele queima mendigos e índios, escraviza um negro, ofende, rouba e mata. É um herói sem nenhum caráter, emblema de uma certa classe social brasileira que se alimenta de oportunismo e impunidade: é culto, endinheirado, viajado e brilhante mas sempre frívolo, esnobe e pronto a exibir sua superioridade intelectual sobre os outros. Como um deus decaído e perverso, se nutre do enorme desprezo que sente pelo Brasil. E, enquanto se esforça para provar a inviabilidade do país, sonha com a Europa como aqueles colonizadores estrangeiros recrutados à força para uma empresa com a qual não se sentia solidário.

Pimenta Bueno é uma caricatura exagerada de todos os estrangeiros que, desde o início da colonização brasileira, sempre encararam o Brasil como um lugar provisório, uma terra onde se podia enriquecer facilmente e logo retornar à Metrópole. Já nas primeiras páginas do livro, o personagem não agüenta a sua permanência na cidade e exclama patético: "Onde Dante Alighieri escreveu o Inferno? Verona? Parto o quanto antes para Verona?11 Com uma pertinência irritante, ele muda o nome da cidade onde deseja exilar-se mas a sensação de desenraizamento se mantém até o momento em que foge para a Europa e passa a viver de aplicar golpes em mulheres ricas que não resistem à sua lábia e pretensão de fidalguia.

O romance de Mainardi não se preocupa em contar uma história mas em provar um juízo de valor através de uma alegoria que não diferencia o discurso e o seu significado. O paradigma alegórico de Contra o Brasil é o palimpsesto12 à força das emendas, interversões, chamadas que servem ao autor no afã de interpretar a realidade brasileira sob uma visão tão pessimista. Por isso não há motivo para se preocupar com a unidade de espaço, de tempo ou de ação, pois o Brasil é o único lugar que interessa descrever. Inflamado por suas leituras, o herói sai de São Paulo, viaja pelas vilas e aldeias do interior, atravessa florestas, chega aos confins de Mato-Grosso mas a sua atitude é sempre de rejeição e seu preconceito é tamanho que o cega, privando-o dos meios de interpretar a realidade brasileira de outra forma que não seja pelo viés do deboche ácido e destrutivo. O tempo é o agora, que parece eterno, porque desde o princípio a História nacional está marcada pela violência e pela degradação, sem solução, enfatiza o romance. O desenvolvimento da ação também parece não importar ao autor que produz um livro programático e deliberadamente formado pela soma de pequenas cenas que se entrelaçam somente para dramatizar as mazelas de um bufão canalha, obcecado em desmoralizar o seu país.

O primado alegórico pertence à enunciação, ao ato que intervém, à liberdade de não respeitar as fronteiras literárias, à uma experiência radical do texto que se apresenta como uma coleção de citações depreciativas sobre um povo e sua terra. Trata-se de uma literatura sem mistérios a serviço de uma tese. O narrador que acompanha as falcatruas do antiherói não se perturba com o que vê e observa. Sua participação limita-se a marcar a cena por onde Pimenta Bueno se introduz e reina absoluto como o personagem de uma farsa grotesca, interagindo consigo mesmo. Suas aventuras malévolas e seu discurso direto e impiedoso configuram seu péssimo caráter, sendo ele próprio o resultado daquele somatório de influências nocivas enumeradas satiricamente por ele, durante todo o romance.

Essa postura narrativa, esse processo de caracterização de um personagem antipático e hostil, preconizador do caos, chega ao leitor sem intermediários. Despudorado, acima do bem e do mal, ele se expõe e incomoda por ser a face mais cruel e detestável da vida nacional. Na visão de Diogo Mainardi não há um contraponto, só o espaço violento e sanguinário regido pelas fantasias de Pimenta Bueno.

Dessa forma, a representação parece livre de autoconsciência, ponto limite para que a alegoria se reduza a extremos de função exemplar: ela zomba do ufanismo que impede o progresso mas a face violenta e amoral que ostenta é igualmente malévola e sórdida. Assim a interpretação reducionista da História que o romance perpetua, revela-se um tanto parodoxal, visto que, ao fazê-lo, não há como evitar de abraçar a lógica que se recusa. Enfim, Diogo Mainardi não profere uma outra narrativa sobre o Brasil e os brasileiros, apenas força, ridiculariza ou exorciza o lado mais cruel dessa mesma história.


Bibliografia

ALBERTI, Verena. O riso e o risível na história do pensamento. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1999.

BOLOGNESI, Luiz. "O verdadeiro avesso do ufanismo". Cult , fev. (São Paulo, 1999) 33-34.

EAGLETON, Terry. As ilusões do pós-modernismo. Rio de Janeiro, Zahar Editor, 1996.

GRAIG, Carlos. "Que país é este?" Veja, set. ( São Paulo, 1998) 53.

HUTCHEON, Linda. Uma teoria da paródia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1993.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos. São Paulo, Livraria Martins Fontes, 1955.

MAINARDI, Diogo. Contra o Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

NETO, Miguel Sanches. "Desconstruíndo Macunaíma" Bravo 14, 2, nov. (São Paulo,1999) 117.

WENS, Craig. "The allegorical impulse: toward a theory of post modernism" in Art after modernism: rethinking representation. Boston, David R. Godine, 1988.


Notas

1. Miguel Sanches Neto a respeito de Contra o Brasil. Cf. "Desconstruíndo Macunaíma", Bravo, n. 14, 2

( Rio de Janeiro, 1998) 117.

2. Mainardi, 1998, 71-74.

3. Id., 141

4. Id., 81.

5. Lévi-Strauss, 1955, 331.

6. Mainardi, 1998, 94.

7. Id., 194.

8. Afonso Celso retoma a tradição edênica inaugurada por Pero Vaz de Caminha que enaltece a grandeza territorial, a beleza da terra, as riquezas naturais, a amenidade do clima e a ausência de calamidades naturais. No mesmo tom elogioso, descreve o caráter pacífico e ordeiro do povo brasileiro, as relações cavalheirescas e generosas com outros países, sua história heróica.

9. Mainardi, 1998, 189.

10. Id., 189.

11. Id.,9

12. Imagem criada por Craig Owens, 1988, 204-5.