Data de publicação: Sábado, 17 de Janeiro de 2004

O Mar Pode Avançar 44 Metros no Algarve nos Próximos 50 Anos
Por IDÁLIO REVEZ

Daqui a 50 anos, a praia frente à Quinta do Lago deverá ter recuado 44 metros. Nessa altura, se não houver recarga artificial da praia do Vale do Lobo e o reforço do cordão dunar das zonas mais sensíveis da Ria Formosa, algumas casas já terão caído ao mar. O panorama é mais ou menos conhecido, mas ontem foi apresentado à comunidade científica, através de um estudo desenvolvido na Universidade do Algarve.

Óscar Ferreira, um dos quatro autores do trabalho sobre linhas de risco na península do Ancão (Quinta do Lago), explicou que o previsto avanço do mar "é suficiente para degradar e erodir todo o cordão dunar" do Ancão e Vale Garrão. Assim sendo, o restaurante do Gigi, uma das referências gastronómicas da zona terá desaparecido do mapa. Mas a praia, pelo menos, deverá manter-se.

O investigador prevê que, durante as tempestades, o mar venha a galgar a duna, avançando pelo sapal. Durante o Verão, os turistas poderão continuar tranquilos à beira-mar. Mas o mesmo não acontecerá se forem lá no Inverno: "Assustam-se. As ondas vão saltar por cima da duna."

Ao fim e ao cabo, recorda, a situação é muito semelhante ao que acontece na praia de Faro. Nas zonas mais baixas, como em frente ao parque de estacionamento, quase todos os invernos o mar avança para a estrada. Na mapa das zonas de risco constam também as ilhas da Fuzeta e Farol.

Sobre as perspectivas para o futuro da praia da Quinta do Lago, Cacela Velha foi dada como um exemplo. O Ministério do Ambiente, em 1996, mandou reforçar com areias o cordão dunar para preservar aquela zona da Ria Formosa. Mas, em cada Inverno, o mar tem arrastado uma parte desses inertes. Agora, analisando a situação, concluiu o investigador: "O limite do tempo para uma nova intervenção está a esgotar-se. Numa das últimas tempestades, já abriu nova barra."

O estudo, da autoria de quatro investigadores, foi apresentado num "workshop" sobre "Métodos de Determinação e Representação de Riscos Costeiros" realizado ontem em Faro. O encontro registou cerca de 80 estudiosos dos fenómenos costeiros, pertencentes às Universidades de Lisboa, Porto, Aveiro e Algarve. A integração da ciência na sociedade civil, no que se refere à gestão costeira, é "algo de que muito se fala mas que tarda em ser colocado em prática", comentou Alveirinho Dias, em nome da comissão organizadora,

O preço para manter a costa algarvia no estado actual - vergada com o peso de alguns empreendimentos turísticos - é bastante elevado. Tal política de conservação da natureza "exige um fornecimento continuo de areia, e tem custos de manutenção", explicou Óscar Ferreira. "Se se permitir a evolução natural - que é outra tendência perfeitamente defensável - teremos um problema de ordenamento costeiro."

No que diz respeito à praia Vale do Lobo, Óscar Ferreira lembrou que também beneficiou de uma recarga artificial de areia, em 1996, mas está a precisar de outra. Se não houver uma intervenção muito rápida, sublinhou, "acontecerá um ataque directo às infra-estruturas implantadas." Este é o empreendimento turístico do Algarve que mais tem sofrido o efeito da erosão do mar: há vivendas construídas sobre as falésia, em queda livre. Porém, esses exemplos não têm impedido de continuarem a surgir "cada vez mais empreendimentos à beira de água."

Fonte: Público

 

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