AUGUSTO DOS ANJOS - "Eu e outras poesias"

O poema abaixo ‚ de autoria de um paraibano, nascido no
Engenho Pau d'Arco, na Para¡ba do Norte:

    N„o, Jesus n„o morreu, mora na Serra
    da Borborema, no ar da minha terra!

Era formado em Direito, como seu pai, e estava se  for-
mando em Medicina, quando morreu de  tuberculose aos 28
anos de idade.

Seu nome: Augusto dos Anjos.  Sua obra mais  conhecida:
"Eu e Outras Poesias". Era adepto de Darwin:

    A hiena que gargalha na floresta
     com certeza minha irm„ mais velha.

 um poeta algo discriminado, porque cantou a DOR humana
como nenhum outro.
-------------------------------------------------------------
             VANDALISMO

Meu cora‡„o tem catedrais imensas, 
Templos de priscas e long¡nquas datas, 
Onde um nume de amor, em serenatas, 
Canta a aleluia virginal das cren‡as.

Na ogiva f£lgida e nas colunatas 
Vertem lustrais irradia‡”es intensas 
Cintila‡”es de lƒmpadas suspensas
E as ametistas e os flor”es e as pratas.        

Com os velhos Templ rios medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos. . .

E erguendo os gl dios e brandindo as hastas, 
No desespero dos iconoclastas 
Quebrei a imagem dos meus pr¢prios sonhos!
-------------------------------------------------
           VERSOS INTIMOS

Vˆs! Ningu‚m assistiu ao formid vel 
Enterro de tua £ltima quimera. 
Somente a Ingratid„o - esta pantera 
Foi tua companheira insepar vel ! 	

Acostuma-te … lama que te espera! 
O Homem, que, nesta terra miser vel, 
Mora, entre feras, sente inevit vel 
Necessidade de tamb‚m ser fera.

Toma um f¢sforo. Acende teu cigarro !
O beijo, amigo, ‚ a v‚spera do escarro, 
A m„o que afaga ‚ a mesma que apedreja. 	

Se a algu‚m causa inda pena a tua chaga, 
Apedreja essa m„o vil que te afaga, 
Escarra nessa boca que te beija! 	
-------------------------------------------------
              VENCEDOR

Toma as espadas r£tilas, guerreiro, 
E … rutilƒncia das espadas, toma 	
A adaga de a‡o, o gl dio de a‡o, e doma 
Meu cora‡„o - estranho carniceiro !

N„o podes? ! Chama ent„o presto o primeiro 
E o mais possante gladiador de Roma. 	
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma 
Nenhum p“de domar o prisioneiro.

Meu cora‡„o triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E n„o p“de dom -lo enfim ningu‚m, 
Que ningu‚m doma um cora‡„o de poeta! 	
-------------------------------------------------
           IDEALISMO

Falas de amor, e eu ou‡o tudo e calo!
O amor da Humanidade ‚ uma mentira.
. E ‚ por isto que na minha lira
De amores f£teis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a am -lo?
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
 o amor do sibarita e da heta¡ra,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois ‚ mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
- Alavanca desviada do seu fulcro -

E haja s¢ amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!
-------------------------------------------------
           ULTIMO CREDO

Como ama o homem ad£ltero o adult‚rio
E o ‚brio a garrafa t¢xica de rum,
Amo o coveiro - este ladr„o comum
Que arrasta a gente para o cemit‚rio!

 o transcendental¡ssimo mist‚rio!
 o nous, ‚ o pneuma, ‚ o ego sum qui sum,
 a morte, ‚ esse danado n£mero Um
Que matou Cristo e que matou Tib‚rio!

Creio, como fil¢sofo mais crente,
Na generalidade descrente
Com que a substƒncia c¢smica evolui...

Creio, perante a evolu‡„o imensa,
Que o homem universal de amanh„ ven‡a
O homem particular eu que ontem fui!
-------------------------------------------------
        CISMAS DO DESTINO I

Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao C‚u o fumo de um cigarro, 
H  mais filosofia neste escarro 	
Do que em toda a moral do Cristianismo!

Morte, ponto final da £ltima cena,
Forma difusa da mat‚ria imbele,
Minha filosofia te repele,
Meu racioc¡nio enorme te condena!
-------------------------------------------------
      Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amon¡aco,
Monstro de escurid„o e rutilƒncia,
Sofro, desde a epigˆnese da infƒncia,
A influˆncia m  dos signos do zod¡aco.

Profundissimamente hipocondr¡aco,
Este ambiente me causa repugnƒncia...
Sobe-me … boca uma ƒnsia an loga … ƒnsia
Que se escapa da boca de um card¡aco.

J  o verme - este oper rio das ru¡nas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e … vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roˆ-los,
E h  de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgƒnica da terra!
-------------------------------------------------
        BUDISMO MODERNO

Tome, doutor, esta tesoura e corte
Minha singular¡ssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu cora‡„o depois da morte?

Ah, um urubu pousou na minha sorte.
Tamb‚m, das diatom ceas da lagoa
A cript¢gama c psula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma c‚lula ca¡da
Na aberra‡„o de um ¢vulo infecundo.

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perp‚tuas grades
Do £ltimo verso que eu fizer no mundo!...
-------------------------------------------------
           HOMO INFIMUS

Homem, carne sem luz, criatura cega,
Realidade geogr fica infeliz,
O Universo calado te renega
E a tua pr¢pria boca te maldiz!

O n“umeno e o fen“meno, o alfa e o omega
Amarguram-te. Hebd“madas hostis
Passam... Teu cora‡„o se desagrega,
Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris!

Fruto injustific vel dentre os frutos,
Mont„o de estercor ria argila preta,
Excrescˆncia de terra singular.

Deixa a tua alegria aos seres brutus,
Porque, na superf¡cie do planeta,
Tu s¢ tens um direito: - o de chorar!
-------------------------------------------------
       O Lamento das Coisas

Triste a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ou‡o, em sons subterrƒneos, do Orbe oriundos
O choro da Energia abandonada!

 a dor da For‡a desaproveitada
- O cantoch„o dos d¡namos profundos,
Que, podendo mover milh”es de mundos,
Jazem ainda na est tica do Nada!

 o solu‡o da forma ainda imprecisa...
Da transcendˆncia que se n„o realiza...
Da luz que n„o chegou a ser lampejo...

E ‚ em suma, o subconsciente a¡ formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!

       Escreveu Ivan Cavalcanti Proen‡a sobre esse poema:
"... e ‚ nesse LAMENTO  DAS COISAS que nos vai falando dos sons sub-
terrƒneos do choro,  da energia abandonada,  a for‡a desaproveitada,
os d¡namos  profundos que jazem na est tica do nada, quando poderiam
estar  movendo milh”es de mundos, a forma imprecisa, o subconsciente.
E notem ent„o esse prefixo SUB que aparece sob a forma de subconsci-
ente: o som subterrƒneo e o tempo.  Condenados  pelo  tempo  que vai
passando, eles n„o se realizam, e ‚ o rudimentarismo do desejo, pri-
mitivo, forma indeterminada ainda, sem limita‡”es, completa nem per-
feita.  Esse ser  increado ‚ o que  preocupa, porque para ele muitas
faculdades do homem ainda n„o atingiram a maturidade e est„o naquele
rudimentarismo da forma, da fus„o.  O Universo ‚ incompleto, n¢s mal
sa¡mos  do momento em que a B¡blia nos fala do esp¡rito de Deus flu-
tuando sobre as  guas que encheram os abismos."  a for‡a contida em
potˆncia nessa imagem do irrealizado de Augusto que tanto fascina em
sua poesia.
-------------------------------------------------
          O Morcego

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardˆncia orgƒnica da sede,
Morde-me a goela ¡gneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circulante sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esfor‡os fa‡o. Chego
A toc -lo. Minh'alma se concenntra.
Que ventre produziu t„o feio parto?!

A consciˆncia Humana ‚ este morcego!
Por mais que a gente fa‡a, … noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
-------------------------------------------------
      ASA DE CORVO

Asa de corvos carniceiros, asa,
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre  s vezes o espa‡o e cobre  s vezes
O telhado de nossa pr¢pria casa...

Perseguido por todos os revezes,
 meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto   brasa,
Como os Goucourts, como os irm„os siamezes!

 com essa asa que eu fa‡o este soneto
E a ind£stria humana faz o panno preto
Que as fam¡lias de lucto martyriza...

 ainda com essa asa extraordin ria
Que a Morte - a costureira funer ria -
Cose para o homem a £ltima camisa!
-------------------------------------------------
     O MART‹RIO DO ARTISTA

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A ¢rbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas frontais c‚lulas guarda!

Tarda-lhe a Id‚ia! A inspira‡„o lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do £ltimo momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
 como o paral¡tico que, … m¡ngua
Da pr¢pria voz e na que ardente o lavra

Febre de em v„o falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a l¡ngua,
E n„o lhe vem … boca uma palavra...
---------------------------------------------------
    AS CISMAS DO DESTINO

Recife, Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em dire‡„o … casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!

Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!

Era como se, na alma da cidade,
Profundamente l£brica e revolta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o berro da animalidade.

Ah! Com certeza, Deus me castigava!
Por toda a parte como um r‚u confesso,
Havia um juiz que lia o meu processo
E uma forca especial que me esperava!

Na ascens„o barom‚trica da calma,
Eu bem sabia, ansiado e contrafeito,
Que uma popula‡„o doente do peito
Tossia sem rem‚dio na minha alma!

Chegou-me o estado m ximo da m goa!
Duas, trˆs, quatro, cinco, seis, sete
Vezes que eu me furei com o canivete,
A hemoglobina vinha cheia de  gua!

Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao c‚u o fumo de um cigarro,
H  mais filosofia nesse escarro
Do que em toda a moral do Cristianismo!

Porque, se no orbe oval que os meus p‚s tocam
Eu n„o deixasse o meu cuspo carrasco,
Jamais exprimiria o ac‚rrimo asco
Que os canalhas do mundo me provocam!

Ser cachorro! Granir incompreendidos
Verbos! Querer dizer-nos que n„o finge,
E a palavra embrulhar-se no laringe,
Escapando-se apenas em latidos!

Eu queria correr, ir para o inferno,
Para que, da psique no oculto jogo,
Morressem sufocadas pelo fogo
Todas as impress”es do mundo externo!

Mas a Terra negava-me o equil¡brio...
Na natureza, uma mulher de luto
Cantava, espiando as  rvores sem fruto.
A can‡„o prostituta do lud¡brio!
----------------------------------------------
  Poema Negro (de Augusto dos Anjos)

                 A Santos Neto

Para iludir minha desgra‡a, estudo.
Intimamente sei que n„o me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares f£nebres, carrego
A indiferen‡a est£pida de um cego
E o ar indolente de um chinˆs idiota!

A passagem dos s‚culos me assombra.
Para onde ir  correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
- Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.

Em v„o com o grito do meu peito impreco!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco.
Eu tor‡o os bra‡os numa ang£stia douda
E muita vez, … meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que h  de comer a minha carne toda!

 a Morte - esta carn¡vora assanhada -
Serpente m  de l¡ngua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
- Faminta e atra mulher que, a 1 de Janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro n„o lhe mata a fome!

Nesta sombria an lise das cousas,
Corro. Arranco os cad veres das lousas
E as suas partes podres examino...
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podrid„o daquele embrulho hediondo
Reconhe‡o assombrado o meu Destino!

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Ent„o meu desvario se renova...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajes pretos e amarelos
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos drag”es antigos!

E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De decl¡nio em decl¡nio; e de decl¡nio
Em decl¡nio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era p¢, vi que era esterquil¡nio!

Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam...
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.

Tu n„o ‚s minha m„e, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me a‡oitaste vinte e duas vezes...
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgra‡ados nove meses!

Semeadora terr¡vel de defuntos,
Contra a agress„o dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros;
Acorda, e ap¢s gritar a £ltima inj£ria,
Chocalha os dentes com medonha f£ria
Como se fosse o atrito de dois ferros!

Pois bem! Chegou minha hora de vingan‡a.
Tu mataste o meu tempo de crian‡a
E de segunda-feira at‚ domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

S£bito outra vis„o negra me espanta!
Estou em Roma.  Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.

Como as estalactites da caverna,
Cai no silˆncio da Cidade Eterna
A  gua da chuva em largos fios grossos...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abra‡ar-lhe os ossos!

N„o h  ningu‚m na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de S„o Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas...
O vento entoa cƒnticos de morte.
Roma estremece! Al‚m, num rumor forte,
Recome‡a o barulho das matracas.

A desagrega‡„o da minha Id‚ia
Aumenta. Como as chagas da morf‚ia
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-me os c¡rculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Est„o dizendo que Jesus ‚ morto!

N„o! Jesus n„o morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na mol‚cula e no  tomo... Resume
A espiritualidade da mat‚ria
E ele ‚ que embala o corpo da mis‚ria
E faz da cloaca uma urna de perfume.

Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos.
Desperto.  t„o vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um peda‡o de cera derretida!

Dorme a casa. O c‚us dorme. A  rvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensanguento na vig¡lia!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcaral da austera sala
E a impassibilidade da mob¡lia.

Meu cora‡„o, como um cristal, se quebre;
O term“metro negue a minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
E eu me converta na cegonha triste
Que das ru¡nas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!

Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em l grimas imersos...
Rola-me na cabe‡a o c‚rebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante n„o farei mais versos.
---------------------------------------------------
Grito e se grito ‚ para que meu grito
Seja a revela‡„o desse Infinito
Que eu trago encarcerado na minh'alma!
-----------------------------------------------------------------
E para n„o perder o costume... Augusto, em 1910, com 26 anos, se
casou. N„o se sabe se por desejo ou descuido, logo nos primeiros
meses de casamento,  sua mulher engravidou.  Mas  infelizmente a
gravidez n„o foi bem sucedida e, num parto prematuro,  perde seu
primeiro  filho.  Mais tarde viriam ainda outros dois,  mas  tal
perda  abalou  profundamente o poeta,  e desta  forma compos seu
SONETO  dedicado ao seu "primeiro filho nascido e morto com sete
meses incompletos".

Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande for‡a fecundante
De minha br“nzea trama neuronial,

Que poder embriol¢gico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
E tua morfogˆnese de infante
A minha morfogˆnese ancestral?!

Por‡„o de minha pl smica substƒncia,
Em que lugar ir s passar a infƒncia,
Tragicamente an“nimo, a feder?!

Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na monumentalidade do NŽO SER!
----------------------------------------------------------
       ‘ MESA (Augusto dos Anjos)

Cedo … sofreguid„o do est“mago.  a hora
De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,
Antegozando a ensangentada presa,
Rodeado pelas moscas repugnantes,
Para comer meus pr¢prios semelhantes
        Eis-me sentado … mesa!

Como por‡”es de carne morta... Ai! Como
Os que, como eu, tˆm carne, com este assomo
Que a esp‚cie humana em comer carne tem!...
Como! E pois que a Raz„o n„o me reprime,
Possa a terra vingar-se do meu crime
        Comendo-me tamb‚m.
-----------------------------------------------------------------
Em 1901, AA come‡ou a publicar poemas no jornal "O Com‚rcio", na
Para¡ba.  Claro que ningu‚m gostou da tem tica e do estilo dele.
AA passou  a ser chamado de "Doutor Tristeza", "Poeta Raqu¡tico"
(ele era bem magrinho mesmo) e outras coisas.  Um professor, que
a Hist¢ria se encarregou  de  manter an“nimo,  mandou imprimir e
distribuir na Para¡ba c¢pias de uma carta aberta atacando Augus-
to dos Anjos e seus poemas. Augusto dos Anjos respondeu em verso,
como se segue:

           BILHETE POSTAL

Ilustre professor da Carta Aberta: - Almejo
Que uma alimenta‡„o a fiambre e a vinho e a queijo
Lhe fortale‡a o corpo e assim lhe fortale‡a
As m„os, os p‚s, a perna et coetera e a cabe‡a.
Continue a comer como um monstro no almo‡o
Inche como um bal„o, cres‡a como um colosso
E v  crescendo e v  crescendo e v  crescendo,
E fique do tamanho extraordin rio e horrendo
Do c‚lebre Tit„o e do H‚rcules lend rio;
O seu ventre se torne um ventre extraordin rio,
Cheio do cheiro ruim de f‚tidos res¡duos,
As barrigas ent„o de cinqenta indiv¡duos
N„o poder„o caber na sua ampla barriga;
N„o mais lhe pesar  a desgra‡a inimiga,
O seu nome tamb‚m n„o ser  mais Ant“nio.
Todos h„o de cham -lo o colosso, o dem“nio,
A maravilha das brilhantes maravilhas.
As hienas carni‡ais, as leoas e as novilhas,
Diante do seu vigor recuar„o, e diante
Do estribado metal de sua voz atroante
Decerto correr„o mansas e espavoridas.
Se as minhas ora‡”es forem, pois, atendidas,
O senhor h  de ser o Teseu do universo.
Seja um gigante, pois; n„o fa‡a, por‚m, verso
De qualidade alguma e nem tamb‚m me fa‡a
Artigos tresandando a bolor e a cacha‡a,
Ricos de incorre‡”es e de erros de gram tica,
Tenha vergonha, esconda essa tendˆncia asn tica,
Que somente possui o seu c‚rebro obtuso --
Esconda-a, e nunca mais se exponha a fazer uso
Da pena, e nunca mais desenterre alfarr bios.
Os tolos, em geral, s„o tidos como s bios,
Que sabem calar-se e reprimir-se sabem,
O senhor ‚ papalvo e os papalvos n„o cabem
No centro liter rio e no centro pol¡tico.
Respeite-me, portanto!
                       O Poeta Raqu¡tico.
--------------------------------------------------------------
Aqui vai o texto quase in‚dito EM PROSA de Augusto dos Anjos;  que
consta na edi‡„o de sua  "OBRA COMPLETA" pela editora Nova Aguilar
que  re£ne 58 poemas do EU,  48 reunidos sob o t¡tulo  de  "Outras
Poesias",  108 poemas "esquecidos"  escritos entre 1900 e 1914, 73
textos sob  o t¡tulo de  "Versos  de Circunstƒncia", 138 cartas e,
pasme, 32 textos in‚ditos  em  PROSA,  entre cr“nicas e discursos.
 quase uma "enciclop‚dia Augusto dos Anjos" disse Alexei Bueno no
GLOBO de 4 de setembro de 94.

         NOITE EM JOŽO PESSOA
   "A noite de ontem, ostentando uma cenografia muito l£gubre, nos
deu a impress„o de que a Justi‡a, na Para¡ba do Norte, havia aber-
to falˆncia.
   Afigurou-se-nos,  ent„o, que nosso aer¢pago forense, tornar-se-
ia d'ora em diante um n£cleo trist¡ssimo de bachar‚is escaveirados,
com a  faculdade pros¢dica obstru¡da por uma alalia incur vel, ar-
rastando desconsoladamente pela sala das audiˆncias as f¢ssies to-
gas hipotecadas.
   O  largo da Catedral  de  N. S.  das Neves, oferecia sem nenhum
exagero, uma perspectiva inteiramente deslentadora.
   A ilumina‡„o el‚trica, de um efeito intesivo p‚ssimo, iluminava
com reflexos  morti‡os toda aquela decadˆncia  sintom tica que bem
equivalia … justi‡a  mundial agonizante, festejando com alguns c¡-
rios e com o cinema Halley a v‚spera de sua desintegra‡„o absoluta.
   Pouqu¡ssimos circunstantes.
   Alguns, exibindo hiatos  de desilus„o mal contida,  regressavam
aos lares com o atabalhoamento nervoso e a diminui‡„o concomitante
da verticalidade dorsal de quem est  sendo vaiado publicamente.
   (...)
   Ah! certamente, a noite da Justi‡a, com sua treva e os  "films"
magr¡ssimos de seu cinema plebeu, foi apenas o prel£dio incoerente
e mal  definido  dos  deslumbramentos futuros que as outras noites
h„o de trazer, como uma compensa‡„o muito carinhosa,  ao nosso es-
p¡rito decepcionado."

                                                      A.A.
Se se interessar por mais, h  uma boa reportagem no J.B. de 26  de
Dezembro de 1994. Ela s¢ n„o traz, infelizmente, nenhum outro tre-
cho desse nosso "ang‚lico" poeta.
--------------------------------------------------------------------
Quando AA tentou se auto-definir ( e n„o ‚ no EU ):

     O POETA DO HEDIONDO

Sofro acelerad¡ssimas pancadas
No cora‡„o. Ataca-me a existˆncia
A mortificadora coalescˆncia
Das desgra‡as humanas congregadas!

Em alucinat¢rias cavalgadas,
Eu sinto, ent„o, sondando-me a consciˆncia
A ultra-inquisitorial clarividˆncia
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me d¢i no c‚rebro essa sonda!
Ah! Certamente eu sou a mais hedionda
Generaliza‡„o do Desconforto...

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto ‚ morto!
-------------------------------------------------------
"OBRA COMPLETA"  pela editora Nova Aguilar que re£ne 58 poemas do EU,
48 reunidos sob o t¡tulo de "Outras Poesias", 108 poemas "esquecidos"
escritos entre 1900 e 1914, 73 textos sob o t¡tulo de "Versos de Cir-
cunstƒncia", 138 cartas e, pasme,  32 textos in‚ditos em PROSA, entre
cr“nicas e discursos.   quase uma  "enciclop‚dia  Augusto dos Anjos"
disse Alexei Bueno no GLOBO de 4 de setembro de 94.
    Se se interessar por mais, h  uma boa reportagem no J.B. de 26 de
Dezembro de 1994.  Ela s¢ n„o traz, infelizmente, nenhum outro trecho
desse nosso "ang‚lico" poeta.
    LIVROS no Globo, e LITERATURA no JB.   ( Se eu n„o me engano...)
---------------------------------------------------------------------
       SOLIT†RIO

Como um fantasma que se refugia
Na solid„o da natureza morta,
Por tr s dos ermos t£mulos, um dia,
Eu fui refugiar-me … tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
N„o era esse que a carne nos conforta...
Cortava assim como em carni‡aria
O a‡o das facas incisivas corta!

Mas tu n„o vieste ver minha Desgra‡a!
E eu sa¡, como quem tudo repele,
—Velho caix„o a carregar destro‡os—

Levando apenas na tumbal carca‡a
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fat¡dico dos ossos!
------------------------------------------------------

    Source: geocities.com/athens/4379

               ( geocities.com/athens)