AUTO-RETRATO

NOME: Vinicius. Por quˆ?
O Quo Vadis, sa¡do em 13
Ano em que tamb‚m nasci.
Sobrenome: de Moraes
De Pernambuco, Alagoas
E Bahia (que guardo em mim).
Sou carioca da G vea
Bairro amado, de onde nunca
Deveria ter sa¡do.
Fui, sou e serei casado
E apesar do que se diz
N„o me acho t„o mau marido.
Filhos: trˆs e um a caminho
Altura: um metro e setenta
Me„o, pois. O colarinho
Trinta e nove e o p‚ quarenta.
Peso: uns bons setenta e trˆs
(precisam ser reduzidos...)
Dizem-me poeta; diplomata
Eu o sou, e por concurso
Jornalista por prazer
Nisso tenho um grande orgulho
Breve serei cineasta
(Ativo). Sou materialista.
Deito mais tarde que devo
E acordo antes do que gosto.
Fui auxiliar de cart¢rio
Censor cinematogr fico
Funcion rio (incompetente)
Do Instituto dos Banc rios.
Atualmente sou segundo
Secret rio de Embaixada.
Formei-me em Direito, mas
Sem nunca ter feito pr tica.
Infƒncia: pobre mas linda
T„o linda que mesmo longe
Continua em mim ainda.
Prefiro vitrola a r dio
Autom¢vel a trem, trem
A navio, navio a avi„o
(De que j  tive um desastre).
Se voltasse a vida atr s
Gostaria de ser m‚dico
Pois sou um m‚dico nato.
Minhas frutas prediletas
Por ordem de preferˆncia:
Caju, manga e abacaxi.
Foi com meu pai, Clodoaldo
de Moraes, poeta in‚dito
Que aprendi a fazer versos
(Um dia furtei-lhe um
Para dar … namorada).
Tinha dezenove anos
Quando estreei com meu livro
"O Caminho para a Distƒncia"
Meu preferido ‚ o £ltimo:
"Poemas, Sonetos e Baladas".
Toco viol„o, de ouvido
E fa‡o sambas de bossa
Garoto, lutei "jiu-jitsu"
Razoavelmente. No tiro
Sobretudo em carabinas
Sou quase perfeito. As coisas
Que mais detesto: viagens
Gente fiteira, facistas,
Racistas, homem avarento
Ou grosseiro com mulher.
As coisas que mais gosto:
Mulher, mulher e mulher
(com prioridade da minha)
Meus filhos e meus amigos.
Ajudo bastante em casa
Pois sou um bom cozinheiro
Moro em Paris, mas n„o h  nada
Como o Rio de Janeiro
Para me fazer feliz
(E infeliz). Desde os 7 anos
Venho fazendo versinhos
Gosto muito de beber
E bebo bem (hoje menos
Do que h  dez anos atr s).
Minha bebida ‚ o u¡sque
Com pouca  gua e muito gelo.
Gosto tamb‚m de dan‡ar
E creio ser essa coisa
A que chamam de boˆmio.
Em Oxford, na Inglaterra
Estudei literatura
Inglesa, que foi
Para mim fundamental.
Gostaria de morrer
De repente, n„o mais que
De repente, e se poss¡vel
De morte bem natural.
E depois disso, ao amigo
Jo„o Cond‚ nada mais digo.
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     SONETO DE FIDELIDADE

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivˆ-lo em cada v„o momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, ang£stia de quem vive
Quem sabe a solid„o, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que n„o seja imortal, posto que ‚ chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
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  SONETO DA SEPARA€ŽO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das m„os espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a £ltima chama
E da paix„o fez-se o pressentimento
E do momento im¢vel fez-se o drama.

De repente, n„o mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo pr¢ximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, n„o mais que de repente.
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       SONETO DO AMIGO

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retalia‡”es, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

 bom sent -lo novamente ao lado
Com olhos que cont‚m o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfar‡ar com o meu pr¢prio engano.

O amigo: um ser que a vida n„o explica
Que s¢ se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

                       Los Angeles, 7/12/1946.
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  SONETO DE ANIVERS†RIO

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadure‡am as ilus”es da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensa‡”es e desenganos.

Fa‡a-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cres‡am os danos
Ven‡a o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
‘ medida que a tˆmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande ‚ este amor meu de criatura
Que vˆ envelhecer e n„o envelhece.
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      Soneto de V‚spera

Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da ang£stia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?

Que beijo teu de l grima terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga m goa quando
N„o puder te dizer por que chorei?

Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo mart¡rio da mem¢ria imensa
Que a distƒncia criou - fria de vida

Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e … minha pena
E que quisera nunca mais perdida...


                             Oxford, 1939
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           Soneto … lua

Por que tens, por que tens olhos escuros
E m„os lƒnguidas, loucas e sem fim
Quem ‚s, quem ‚s tu, n„o eu, e est s em mim
Impuro, como o bem que est  nos puros?

Que paix„o fez-te os l bios t„o maduros
Num rosto como o teu crian‡a assim
Quem te criou t„o boa para o ruim
E t„o fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti solu‡a nua
E n„o ‚s Tatiana e nem Teresa:

E ‚s t„o pouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, pat‚tica, indefesa
Ÿ minha branca e pequenina lua!
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Soneto de inspira‡„o

N„o te amo como uma crian‡a, nem
Como um homem e nem como um mendigo
Amo-te como se ama todo o bem
Que o grande mal da vida traz consigo.

N„o ‚ nem pela calma que me vem
De amar, nem pela gl¢ria do perigo
Que me vem de te amar, que te amo; digo
Antes que por te amar n„o sou ningu‚m.

Amo-te pelo que ‚s, pequena e doce
Pela infinita in‚rcia que me trouxe
A culpa de te amar - soubesse eu ver

Atrav‚s de tua carne defendida
Que sou triste demais para esta vida
E que ‚s pura demais para sofrer.
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x    SONETO DO AMOR MAIOR

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que n„o sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vˆ descontente, d  risada.

E que s¢ fica em paz se lhe resiste
O amado cora‡„o, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo

Fiel … sua lei de cada instante
Desassombrado, doido e delirante
Numa paix„o de tudo e de si mesmo.
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Soneto de quarta-feira de cinzas 

Por seres quem me foste, grave e pura
Em t„o doce surpresa conquistada
Por seres um branca criatura
De uma brancura de manh„ raiada.

Por seres de uma rara formosura
Mau grado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada.

Porque te vi nascer, de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura.

Por n„o te possuir, tendo-te minha
Por s¢ quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.
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Soneto de carnaval 

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um pat‚tico tormento
Pensar nele ‚ morrer de desventura
N„o pensar ‚ matar meu pensamento

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido ‚ um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ci£me do pr¢prio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breve v„o-se os anos
Para a grande partida que h  no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranquila ela sabe, e eu sei tranquilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.
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Soneto da rosa 

Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como o astro matinal, que a adora
Molhar de puras l grimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.

E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como  vida ferida
Guardar o plasma m£ltiplo da vida
Que a faz materna e pl cida, e agora

Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude

Para que o sonho viva da certeza
Para que o tempo da paix„o n„o mude
Para que se una o verbo … Natureza.
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Soneto de Montevid‚u

N„o te rias de mim, que as minhas l grimas
S„o  gua para as flores que plantaste
No meu ser infeliz, e isso lhe baste
Para querer-te sempre mais e mais.

N„o te esque‡as de mim, que desvendaste
A calma ao meu olhar ermo de paz
Nem te ausentes de mim quando se gaste
Em ti esse carinho em que te esvais.

N„o me ocultes jamais teu rosto; dize-me
Sempre esse manso adeus de quem aguarda
Um n“co manso adeus que nunca tarda

Ao amante dulc¡ssimo que fiz-me
‘ tua pura imagem, ¢ anjo da guarda
Que n„o d s tempo a que a distƒncia cisme.
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 Poema dos olhos da amada

¢ minha amada
Que os olhos teus
S„o cais noturnos
Cheios de adeus
S„o docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus ...

¢ minha amada
Que olhos teus
Quanto mist‚rio
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos maufr gios
Nos olhos teus ...

¢ minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois n„o os fizera
Quem n„o soubera
Que h  muitas eras
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperan‡a
Nos olhos teus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.
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Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos bra‡os longos para os adeuses
M„os para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim ser  a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois t£mulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silˆncio.

N„o h  muito que dizer:
Uma can‡„o sobre um ber‡o
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora n„o esque‡a
E por ela os nossos cora‡”es
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperan‡a no milagre
Para a participa‡„o da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje … noite ‚ jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
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              Para viver um grande amor

Para viver um grande amor, preciso ‚ muita concentra‡„o e muito siso,
muita seriedade e pouco riso - para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister ‚ ser um homem de uma mulher s¢;
pois ser de muitas, poxa! ‚ de colher... - n„o tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro ‚ preciso sagrar-se cavalheiro e
ser da sua dama por inteiro - seja l  com for. H  que fazer do corpo
uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma
espada - para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, ‚ preciso aten‡„o como o "velho
amigo", que porque ‚ so vos quer sempre consigo para iludir um grande
amor.  preciso muit¡ssimo cuidado com quem quer que n„o esteja
apaixonado, pois quem n„o esta, esta sempre preparado para chatear um
grande amor.

Para viver um amor, na realidade, h  que compenetrar-se de verdade de
que n„o existe amor sem fieldade - para viver um grande amor. Pois
quem trai seu amor por vanidade ‚ um desconhecedor da liberadade,
dessa imensa, indiz¡vel liberdade que traz um s¢ amor.

Para viver um grande amor, in faut, alem de ser fiel, ser bem
conhecedor de arta culin ria e judo - para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, n„o basta ser apenas bom sujeito;
‚ preciso ter muito peito - peito de remador.  preciso olhar sempre a
bem amada como a primeira namorada e sua vi£va tambem, amortalhada no
seu finado amor.

 muito necess rio ter em vista um cr‚dito de rosas no florista -
muito mais, muito mais que no modista! - para aprazer do grande amor.
Pois do que o grande amor quer saber mesmo, ‚ de amor, ‚ de amor, de
amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camar”es, sopinhas,
molhos, estrogonofes - comidinhas para depois do amor. E o que h  de
melhor que ir para a cozinha e preparar com amor uma galinha com uma
rica e gostoso farofinha, para o meu grande amor?

Para viver um grande amor ‚ muito, muito importante viver sempre junto
e at‚ ser, se possivel, um s¢ defunto - pra n„o morrer de dor. 
preciso ter um cuidado permanente n„o s¢ com o corpo mas tambem com a
mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente - e esfria um pouco o
amor. H  que ser cortˆs sem cortesia; doce e conciliador sem
convardia; saber ganhar dinheiro com poesia - para viver um grande amor.

 preciso saber tomar u¡sque (com mau bebedor nunca se arrisque!) e
ser impermi vel ao diz-que-diz-que - que n„o quer nada com o amor.

Mas tudo isso n„o adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada n„o
souber achar a bem-amada - para viver um grande amor.
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    PARA VIVER UM GRANDE AMOR

Eu n„o ando s¢
s¢ ando em boa companhia
Com meu viol„o
Minha can‡„o e a poesia
(falado)
Para viver um grande amor, preciso
‚ muita concentra‡„o e muito siso
muita seriedade e pouco riso
para viver um grande amor
Para viver um grande amor, mister
‚ ser homem de uma s¢ mulher
pois ser de muitas-poxa!-‚ pra quem quer
n„o tem nenhum valor
Para viver um grande amor, primeiro
‚ preciso sagrar-se cavalheiro
e ser de sua dama por inteiro
seja l  como for
h  que fazer do corpo uma morada
onde clausure-se a mulher amada
e portar-se de fora com uma espada
para viver um grande amor
Para viver um grande amor direito
N„o basta apenas ser um bom sujeito
‚ preciso tamb‚m ter muito peito
peito de remador
‚ sempre necess rio ter em vista
um cr‚dito de rosas no florista
muito mais, m;uito mais que na modista!
Para viver um grande amor
conta ponto saber fazer coisinhas
ovos mexidos, camar”es, sopinhas
molhos, fil‚s com fritas-comidinhas
para depois do amor
E o que h  de melhor que ir pra cozinha
e preparar com amor uma galinha
com uma rica e gostosa farofinha
para seu grande amor?             (obs. s¢ Vin¡cius poderia
                                    dizer isso!)
Para viver um grande amor ‚ muito
muito importante viver sempre junto
e at‚ ser, se poss¡vel,um s¢ defunto
pra n„o morrer de dor
 preciso um cuidado permanente
n„o s¢ como corpo, mas tamb‚m com a mente
pois qualquer "baixo" a amada sente
e esfria um pouco o amor
H  que ser bem cortˆs sem cortesia
doce e conciliador sem covardia
saber ganhar dinheiro COM POESIA    (o grifo ‚ meu)
N„o ser um ganhador
Mas tudo isso n„o adianta nada
se nesta selva escura e desvairada
n„o se souber achar a grande amada
para viver um grande amor!
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O mais-que-perfeito

Ah, quem me dera ir-me
Contigo agora
Para um horizonte firme
(Comum, embora...)
Ah, quem me dera ir-me!

Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ci£mes
De algu‚m em algum lugar
Que n„o presumes...
Ah, quem me dera amar-te!

Ah, quem me dera ver-te
Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais: cuidado...
Ah, quem me dera ver-te!

Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num ch„o verde
Para eu morar-te
Morar-te at‚ morrer-te...
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O poeta 

Olhos que recolhem
S¢ tristeza e adeus
Para que outros olhem
Com amor os seus.

M„os que s¢ despejam
Silˆncios e d£vidas
Para que outras sejam 
Das suas, vi£vas.

L bios que desdenham
Coisas imortais
Para que outros tenham
Seu beijo demais.

Palavras que dizem
Sempre um juramento
Para que precisem
Dele, eternamente.
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Soneto do amor como um rio 

Este infinito amor de um ano faz
Que ‚ maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que ‚ real, e que, contudo
Eu j  n„o cria que existisse mais.

Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que ‚ o t£mulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu ‚ como um rio; um rio
Noturno, intermin vel e tardio
A deslizar macio pelo ermo

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paix„o na treva
Para o espa‡o sem fim de um mar sem termo.
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     RUA DAS AC†CIAS (Poesia In‚dita)

Amigo Jean-George
Olha que rua bela e feliz
 a Rua das Magn¢lias
que vai dar em Oitis.
Oitis vai dar em Ac cias,
onde residem os Moraes.
Oiti, amigo, foi tempo,
magn¢lias, n„o h  mais.

De ac cias, um p‚ havia
na entrada do meu jardim.
Lembro-me at‚ que colhia
todo o ouro para mim.
Aqui faz trˆs graus a menos
que Ipanema e Leblon.
Sinta, Jean-George, que ameno,
respira, amigo, que bom.

Para aqui. De Lopes Quintas
rapazinho me mudei,
quando ainda um troca-tintas,
em Direito me formei.
Aqui bati muita bronha
sofrendo de n„o ter fim
de amor da fria Ant“nia
que n„o quiz dar para mim.

Depois casei. N„o com ela,
mas com meu segundo amor,
a m„e de Suzana, a Bela,
e Pedro, o Mergulhador.
Mor vamos bem ali,
junto … ladeira sombria
Era tanta poesia
que quase, quase morri.

Minha Rua das Ac cias
que nem ac cias tem mais.
Ah, se esta rua mostrasse
minhas pegadas seminais
Ah, se esta rua contasse
A hist¢ria de um sexo em flor
Talvez eu ressuscitasse,
Ant“nia, louco de amor...
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Teu nome

Teu nome, Maria L£cia
Tem qualquer coisa que afaga
Como uma lua macia
Brilhando … flor de uma vaga.
Parece um mar que marulha
De manso sobre uma praia
Tem o palor que irradia
A estrela quando desmaia.
 um doce nome de filha
E um belo nome de amada
Lembra um peda‡o de ilha
Surgindo de madrugada.
Tem um cheirinho de murta
E ‚ suave como a pel£cia
 acorde que nunca finda
 coisa por demais linda
Teu nome, Maria L£cia...
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  BLUES PARA EMMETT LOUIS TILL
(O Negrinho Americano Que Ousou
 Assoviar Para Uma Mulher Branca)

Os assasinos de Emmett
- Poor Mamma Till!
Chegaram sem avisar
- Poor Mamma Till!
Mascando cacos de vidro
- Poor Mamma Till!
Com suas caras de cal.

Os assassinos de Emmett
- Poor Mamma Till!
Entraram sem dizer nada
- Poor Mamma Till!
Com seu h lito de couro
- Poor Mamma Till!
E seus olhos de punhal.

- I hate to see that evenin'sun go down...
Os assassinos de Emmett
- Poor Mamma Till!
Quando o viram ajoelhado
- Poor Mamma Till!
Descarregaram-lhe em cima
- Poor Mamma Till!
O fogo de suas armas.

Enquanto contendo o orgasmo
- Poor Mamma Till!
A mulher faz um guisado
- Poor Mamma Till!
Para esperar o marido
- Poor Mamma Till!
Que a seu mando foi ving -la.

O how I hate to see that evenin'sun go down...
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            OLHE AQUI, MR. BUSTER...*

Olhe aqui, Mr. Buster: est  muito certo que o Sr. tenha um
apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.

Est  muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Parthenon, e no quintal
de sua casa em Hollwood

Um po‡o de petr¢leo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro
E de noite para lhe dar ins“nia.

Est  muito certo que em ambas as residˆncias o Sr. tenha
Geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito
Racial

Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marylin Monroe, e m quinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto
Tanto dinheiro em v„o na guerra da Cor‚ia.

Est  certo que em sua mesa as torrradas saltem nervosa-
mente de torradeiras autom ticas

E suas portas se abram com c‚lula fotel‚trica. Est  muito
certo que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem
filmes de mocinho

Isto sem falar nos quatro aparelhos de televis„o e na
fabulosa hi-fi

Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive
nos banheiros.

Est  muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por
mˆs por Elsa Maxwell

E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los
Angeles, para as duas "esta‡”es" do ano.

Est  tudo muito certo, Mr. Buster - o Sr. ainda acabar 
governador do seu Estado
E, sem d£vida, presidente de muitas companhias de petr¢leo,
A‡o e consciˆncias enlatadas.

Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga siceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe l  o que ‚ um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe l  o que ‚ ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe l  o que ‚ torcer pelo Botafogo?


*   Este poema ‚  dedicado a um americano simp tico,  extrovertido e
podre de rico,  em cuja casa estive poucos dias antes de minha volta
ao Brasil, depois de cinco anos de Los Angeles, EUA.  Mr. Buster n„o
podia compreender como ‚ que eu, tendo ainda o direito de permanecer
mais um ano na Calif¢rnia, preferia, com grande prejuizo financeiro,
voltar para a "Latin America", como dizia ele. Eis aqui a explica‡„o
que Mr. Buster certamente n„o receber , a n„o ser que esteja morto e
esse neg¢cio de espiritismo funcione.
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   A mulher que passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio ‚ um campo de l¡rios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperan‡as na boca fresca!

Oh! Como ‚s linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos s„o poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves s„o relva boa
Fresca e macia.
Teus belos bra‡os s„o cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passa
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que n„o voltas, mulher que passa?
Por que n„o enches a minha vida?
Por que n„o voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que n„o voltas … minha vida
Para o que sofro n„o ser desgra‡a?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu mart¡rio
Do teu mart¡rio que nunca cessa
Meus Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que ‚ tanto pura como devassa
Que b¢ia leve como a corti‡a
E tem ra¡zes como a fuma‡a.
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         Ternura

Eu te pe‡o perd„o por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha can‡„o nos teus ouvidos
Das horas que passei … sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela gra‡a indiz¡vel dos teus passos eternamente fugindo
Trago a do‡ura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
N„o traz o exaspero das l grimas nem a fascina‡„o das promessas
Nem as misteriosas palavras dos v‚us da alma...
 um sossego, uma un‡„o, um transbordamento de car¡cias
E s¢ te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as m„o c lidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar ext tico da aurora.
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Mar 

Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ou‡o as cantigas antigas
Do mar.

Nos frios espa‡os de teus bra‡os
Eu me perco em car¡cias de  gua
E durmo escutando em v„o
O silˆncio.

E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
N ufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.
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         PARTE E TU VER†S
 Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes

Parte, e tu ver s
Como as coisas que eram, n„o s„o mais
E o amor dos que te esperam
Parece ter ficado para tr s
E tudo o que te deram
Se desfaz.

Parte, e tu ver s
Como se quedam mudos os que ficam
Como se petrificam
Os adeuses que ficaram a te acenar no cais
E como momentos que passaram apenas
Perecem tempos imemoriais.

Parte, e tu ver s
Como o que era real, resta impreciso
Como ‚ preciso ir por onde vais
Com raz„o, sem raz„o, como ‚ preciso
Que andes por onde est s.

Parte, e tu ver s
Como insensivelmente esquecer s
Como a mat‚ria de que ‚ feito o tempo
Se esgar‡a, se dilui, se liqefaz
E qualquer novo sentimento
Te compraz

Repara como um novo sofrimento
Te d  paz
Repara como vem o esquecimento
E como o justificas
E como mentes insensivelmente
Porque ‚s, porque est s

Ah, eterno limite do presente
Ah, corpo, c rcere, onde faz
O amor que parte e sente
Saudade, e tenta, mas
Para viver, subitamente, mente
Que j  n„o sabe mais
Vida, o presente; morte, o ausente -
Parte, e tu ver s...

        (De  "Jardim  Noturno - Poemas In‚ditos")
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Amiga minha, hoje, no ceu a Lua
Tem uma face que me lembra a sua
A Lua ‚ sempre assim, ou ‚ teu rosto
que dorme no ceu posto, amiga minha ?

            Marcus Vinicius de Moraes
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               O HAVER
                       Marcus Vinicius de Moraes

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silˆncio
Resta essa vontade pedindo perd„o por tudo
- Perdoai-os!  porque eles n„o tˆm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa m„o que tateia antes de ter, esse medo
de ferir tocando, essa forte m„o de homem
Cheia de mansid„o para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa in‚rcia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprim¡vel
Essa irredut¡vel recusa … poesia n„o vivida.

Resta essa comunh„o com os sons, esse sentimento
Da mat‚ria em repouso, essa ang£stia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposi‡„o po‚tica
Em busca de uma s¢ vida, uma s¢ morte, um s¢ Vinicius.

Resta esse cora‡„o queimando como um cirio
Numa catedral em ru¡nas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa s£bita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem hist¢ria...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa c¢lera em face da injusti‡a e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si me.smo e de sua for‡a in£til.

Resta esse sentimento de infƒncia subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir … toa, esse rid¡culo desejo de ser £til
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distra‡„o, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo j  foi como ser  no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanh„ dos que n„o tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoerc¡vel de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceit -la tal como ‚, e essa vis„o
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecess ria presciˆncia, e essa mem¢ria anterior
De mundos inexistentes, e esse hero¡smo
Est tico, e essa pequenina luz indecifr vel
A que …s vezes os poetas d„o o nome de esperan‡a.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem mem¢ria
Resta essa pobreza intr¡nseca, essa vaidade
De n„o querer ser pr¡ncipe sen„o do seu reino.

Resta esse di logo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela vir  me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuar  em v‚us ao ver-me junto … bem-amada...

Resta esse constante esfor‡o para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equil¡brio no fio da navalha
Essa terr¡vel coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
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Ausˆncia

"Eu deixarei que morra em mim 
O desejo de amar os teus olhos que s„o doces
Porque nada te poderei dar sen„o a m goa de me veres sempre exausto.
No entanto a tua presen‡a ‚ qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
N„o te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero s¢ que surjas em mim como a f‚ nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldi‡oada
Que ficou sobre a minha carne como uma n¢doa do passado
Eu deixarei... tu ir s e encostar s a tua face em outra face
Teus dedos enla‡ar„o outros dedos
E tu desabrochar s para a madrugada
Mas tu n„o saber s que quem te colheu fui eu,
Porque eu fui o grande ¡ntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite
E ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enla‡aram os dedos da n‚voa suspensos no espa‡o
E eu trouxe at‚ mim a misteriosa essˆncia do teu abandono desordenado.
Eu ficarei s¢ como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ningu‚m porque poderei partir
E todas as lamenta‡”es do mar, do vento, do c‚u, das aves, das estrelas
Ser„o a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada."
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 O OPERARIO EM CONSTRUCAO

"Era ele que erguia casas
onde antes s¢ havia ch„o.
Como um p ssaro sem asas
ele subia com as casas
que lhe brotavam da m„o.
Mas tudo desconhecia
de sua grande miss„o:
n„o sabia, por exemplo
que a casa de um homem ‚ um templo
um templo sem religi„o
como tampouco sabia
que a casa que ele fazia
sendo a sua liberdade
era a sua escravid„o.

De fato, como podia
um oper rio em constru‡„o
compreender por que um tijolo
valia mais do que um p„o?
Tijolos ele empilhava
com p , cimento e esquadria.
Quanto ao p„o, ele o comia...
mas fosse comer tijolo!
E assim o oper rio ia
com suor e com cimento
erguendo uma casa aqui
adiante um apartamento.
Al‚m, uma Igreja. `A frente,
um quartel e uma pris„o:
pris„o de que sofreria
n„o fosse, eventualmente,
um oper rio em constru‡„o.

Mas ele desconhecia
esse fato extraordin rio:
que o oper rio faz a coisa
e a coisa faz o oper rio.
De forma que, certo dia
… mesa, ao cortar o p„o
o oper rio foi tomado
de uma s£bita emo‡„o
ao constatar, assombrado
que tudo naquela mesa
- garrafa, prato, fac„o -
era ele quem os fazia.
Ele, um humilde oper rio,
um oper rio em constru‡„o.

Olhou em torno: gamela,
banco, enxerga, caldeir„o,
vidro, parede, janela,
casa, cidade, na‡„o!
Tudo, tudo o que existia
era ele quem o fazia.
Ele, um humilde oper rio.
Um oper rio que sabia
exercer a profiss„o.

Ah, homens de pensamento
n„o sabereis nunca o quanto
aquele humilde oper rio
soube naquele momento!
Naquela casa vazia
que ele mesmo levantara
um mundo novo nascia
de que sempre suspeitara.
Um oper rio emocionado
olhou sua pr¢pria m„o,
sua rude m„o de oper rio
de oper rio em constru‡„o
e olhando bem para ela
teve um segundo a impress„o
de que n„o havia no mundo
coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreens„o
desse instante solit rio
que, tal sua constru‡„o,
cresceu tamb‚m o oper rio.
Cresceu em alto e profundo,
em largo e no cora‡„o,
e como tudo que cresce
ele n„o cresceu em v„o.
Pois al‚m do que sabia
- exercer a profiss„o -
o oper rio adquiriu
uma nova dimens„o:
a dimens„o da poesia.

E um fato novo se viu
qua a todos admirava:
o que o oper rio dizia
outro oper rio escutava.
E foi assim que o oper rio
do edif¡cio em constru‡„o
que sempre dizia sim
come‡ou a dizer n„o
e aprendeu a notar coisas
a que n„o dava aten‡„o:
notou que sua marmita
era o prato do patr„o;
que sua cerveja preta
era o u¡sque do patr„o;
que seu macac„o de zuarte
era o terno do patr„o;
que o casebre onde morava
era a mans„o do patr„o;
que seus dois p‚s andarilhos
eram as rodas do patr„o;
que a dureza do seu dia
era a noite do patr„o;
que sua imensa fadiga
era amiga do patr„o.
E o oper rio disse: N„o!
E o oper rio fez-se forte
na sua resolu‡„o.

Como era de se esperar
as bocas da dela‡„o
come‡aram a dizer coisas
aos ouvidos do patr„o.
Mas o patr„o n„o queria
nenhuma preocupa‡„o.
" - Conven‡am-no do contr rio" -
disse ele sobre o oper rio
e ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o oper rio
ao sair da constru‡„o
viu-se s£bito cercado
dos homens da dela‡„o
e sofreu, por destinado,
sua primeira agress„o.
Teve seu rosto cuspido,
teve seu bra‡o quebrado,
mas quando foi perguntado
o oper rio disse: N„o!

Em v„o sofrera o oper rio
sua primeira agress„o.
Muitas outras se seguiram,
muitas outras seguir„o.
Por‚m, por imprescind¡vel
ao edif¡cio em constru‡„o
seu trabalho prosseguia
e todo o seu sofrimento
misturava-se ao cimento
da constru‡„o que crescia.

Sentindo que a violˆncia
n„o dobraria o oper rio
tentou um dia o patr„o
dobr -lo de modo v rio.
De sorte que o foi levando
ao alto da constru‡„o
e num momento de tempo
mostrou-lhe toda a regi„o.
E apontando-a ao oper rio
fez-lhe esta declara‡„o:
- Dar-te-ei todo este poder
e a sua satisfa‡„o
porque a mim me foi entregue
e dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer,
dou-te tempo de mulher!
Portanto, tudo o que vˆs
ser  teu, se me adorares.
E, mais ainda, se abandonares
o que te faz dizer n„o.
Disse, e fitou o oper rio
que olhava e que refletia.
Mas o que via o oper rio
o patr„o nunca veria.
O oper rio via as casas
e dentro das estruturas
via coisas, objetos,
produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
o lucro do seu patr„o.
E em cada coisa que via
misteriosamente havia
a marca de sua m„o.
E o oper rio disse: N„o!

- Loucura! - gritou o patr„o -
N„o vˆs o que te dou eu?
- Mentira! - disse o oper rio -
N„o podes dar-me o que ‚ meu!

E um grande silˆncio fez-se
dentro do seu cora‡„o.
Um silˆncio de mart¡rios,
um silˆncio de pris„o.
Um silˆncio povoado
de pedidos de perd„o.
Um silˆncio apavorado
como o medo em solid„o.
Um silˆncio de torturas
e gritos de maldi‡„o.
Um silˆncio de fraturas
a se arrastarem pelo ch„o.
E o oper rio ouviu a voz
de todos os seus irm„os.
Os seus irm„os que morreram
por outros que viver„o.
E uma esperan‡a sincera
cresceu em seu cora‡„o.
E dentro da tarde mansa
agigantou-se a raz„o
de um homem pobre e esquecido.
Raz„o, por‚m, que fizera
em oper rio constru¡do
o oper rio em constru‡„o."
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                O IDAP (Instituto dos Apaixonados)
                       Vin¡cius de Moraes
.........
         Que o homem apaixonado ‚ um doente, disso n„o nos ficou
a menor d£vida. Doente mesmo,no duro, tal um portador do mal de
Hansen ou da mol‚stia de Basedown. Torna-se ele, para princ¡pio de
conversa, mais policial que um agente da antiga Gestapo, para n„o
trazer o assunto mais pr¢ximo, passando a julgar o ser amado,
quando fora do seu campo visual (e por vezes tamb‚m dentro
dele)capaz de qualquer trai‡„o. Para o homem apaixonado, a mulher
amada ‚ o centro do mundo e da aten‡„o geral. Todos os homens, por
princ¡pio, d„o em cima dela. Se ela olha n„o importa qu„o
casualmente para um outro var„o na rua, est  dando bola. Se n„o
olhou ‚ porque sofreu impacto: n„o ama o bastante para enfrentar
com naturalidade a cobi‡a do sexo oposto; trata-se de uma fraca,
uma venal, uma completa....-nem ‚ bom falar! Enfim, para o homem
apaixonado a mulher amada ‚ um misto de Bernadette e Lucr‚cia
B¢rgia. Nada mais irreal que a sua realidade, pois que se tem
saudade dela em sua presen‡a, e h  ocasi”es em que se quer a sua
morte para que se possa ter paz-e n„o h  paz em sua ausˆncia. A
mulher amada ‚ o paradoxo vivo, 'o fogo que arde sem se ver, a
ferida que d¢i e n„o se sente, o contentamento descontente' de que
fala Cam”es que, esse sim,sabia o que era o amor.".....
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From: ANGELA CARNEIRO
To: ALL
Subject: Achei o verso!

Essa devia ser para o Quental, mas como o Quental est 
no Nepal, depois a gente volta a lembrar.
O plagio de Vinicius, aquele, Que n„o seja imortal posto
que ‚ chama mas que seja infinito enquanto dure

‚ realmente de Henri de Regnier o verso
L'amour est ‚ternel tant qui'il dure.
de Ele ou as Mulheres e o Amor.

Por‚m, temos em Sofocleto o seguinte 'Amor eterno ‚ o que dura
enquanto existe."

E viva o dicion rio de Cita‡”es!
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     P†TRIA MINHA

A Minha P tria ‚ como se n„o fosse, ‚ ¡ntima
Do‡ura e vontade de chorar; uma crian‡a dormindo
 minha p tria. Por isso, no ex¡lio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha p tria.

Se me perguntarem o que ‚ a minha p tria, direi:
N„o sei. De fato, n„o sei
Como, por que e quando a minha p tria
Mas sei que a minha p tria ‚ a luz, o sal e a  gua
Que elaboram e liquefazem a minha m goa
Em longas l grimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha p tria
De nin -la, de passar-lhe a m„o pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) t„o
De minha p tria, de minha p tria sem sapatos
E sem meias, p tria minha
T„o pobrinha!

Porque te amo tanto, p tria minha, eu que n„o tenho
P tria, eu semente que nasci do vento
Eu que n„o vou e n„o venho, eu que permane‡o
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De liga‡„o entre a a‡„o e o pensamento
Eu fio invis¡vel no espa‡o de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma f‚
Sem dogma; tenho-te em tudo em que n„o me sinto a jeit
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem p‚-direito.

Ah, p tria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova I
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte at‚
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
‘ espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, p tria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperan‡a acorrentada
O n„o poder dizer-te: aguarda...
N„o tardo!

Quero rever-te, p tria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

P tria minha... A minha p tria n„o ‚ flor„o, nem osten
L baro n„o; a minha p tria ‚ desola‡„o
De caminhos, a minha p tria ‚ terra sedenta
E praia branca; a minha p tria ‚ o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha p tria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que ser s tamb‚m"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
P tria minha, e perfuma o teu ch„o...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, p tria minha
Atento … fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu cora‡„o.

N„o te direi o nome, p tria minha
Teu nome ‚ p tria amada, ‚ patriazinha
N„o rima com m„e gentil
Vives em mim como uma filha, que ‚s
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que pe‡a ao rouxinol do dia
Que pe‡a ao sabi 
Para levar-te presto este avigrama:
"P tria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."
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     Po‚tica (I)
(Vinicius de Moraes - New York, 1950)

De Manh„ escure‡o
De dia tardo
De tarde anoite‡o
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este ‚ meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nas‡o amanh„
Ando onde h  espa‡o:
- Meu tempo ‚ quando.
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  Samba da Ben‡„o (Vinicius de Moraes e Baden Powel)

 melhor ser alegre que ser triste.
A alegria ‚ a melhor coisa que existe.
 assim como a luz no cora‡„o.
Mas pra fazer um samba com beleza
 preciso um bocado de tristeza.
Preciso um bocado de tristeza,
Se n„o n„o se faz um samba n„o.

Se n„o, ‚ como se amar uma mulher s¢ linda. E da¡?
Uma mulher tem que ter qualquer coisa al‚m da beleza.
Qualquer coisa de triste,
Qualquer coisa que chora,
Qualquer coisa que sente saudade,
Um molejo de amor machucado;
Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher;
Feita apenas para amar,
Para sofrer por seu amor,
E para ser s¢ perd„o.

Fazer samba n„o ‚ contar piada.
Quem faz samba assim n„o ‚ de nada.
O bom samba ‚ uma forma de ora‡a”;
Porque o samba ‚ a tristeza que balan‡a;
E a tristeza tem sempre uma esperan‡a,
A tristeza tem sempre uma esperan‡a,
De um dia n„o ser mais triste n„o.

Feito essa gente que anda por a¡ brincando com a vida;
Cuidado companheiro!
A vida ‚ pra valer!
E n„o se iluda n„o, ‚ uma s¢.
Duas mesmo que ‚ bom ninguem vai me dizer que tem,
Sem provar muito bem provado com certid„o
Passada em cart¢rio do c‚u
E assinado embaixo:
Deus; e com firma reconhecida!
A vida n„o ‚ de brincadeira, amigo!
A vida ‚ a arte do encontro,
Embora haja tanto desencontro pela vida.
H  sempre uma mulher a sua espera,
Com os olhos cheios de carinho,
E as m„os cheias de perd„o.
Ponha um pouco de amor na sua vida,
Como no seu samba.

Ponha um pouco de amor numa cadˆncia,
E vai ver que ninguem no mundo vence
A beleza que tem um samba n„o.
Porque o samba nasceu l  na Bahia,
E se hoje ele ‚ branco na poesia,
Se hoje ele ‚ branco na poesia,
Ele ‚ negro demais no cora‡a”.

Eu por exemplo:
O capit„o do mato Vin¡cius de Moraes,
Poeta e Diplomata.
O branco mais preto do Brasil!
Na linha direta de Xang“.
Sarav !
A ben‡„o Senhora!
A maior ialorix  da Bahia.
Terra de Caymmi e Jo„o Gilberto.
A ben‡„o Pixinguinha!
Tu que choraste na flauta,
Todas as minhas m goas de amor.
A ben‡„o Sinh“!
A ben‡„o Cartola!
A ben‡„o Ismael Silva!
Sua ben‡„o Heitor dos Prazeres!
A ben‡„o Nelson Cavaquinho!
A ben‡„o Geraldo Pereira!
A ben‡„o meu bom Cyro Monteiro!
Vocˆ, sobrinho de Non“.
A ben‡„o Noel!
Sua ben‡„o Ary!
A ben‡„o todos os grandes sambistas do meu
Brasil branco, preto, mulato,
Lindo como a pele macia de Oxum.
A ben‡„o Maestro Ant“nio Carlos Jobim!
Parceiro e amigo querido,
Que j  viajaste tantas can‡”es comigo.
E ainda h  tantas a viajar!
A ben‡„o Carlinhos Lyra!
Parceirinho cem por cento!
Vocˆ, que une a a‡„o ao sentimento
E ao pensamento.
A ben‡„o!
A ben‡a” Baden Powel!
Amigo novo, parceiro novo,
Que fizeste esse samba comigo.
A ben‡„o amigo!
A ben‡„o Maestro Moacir Santos!
Que n„o ‚s um s¢, ‚s tantos!
Tantos como o meu Brasil de todos os santos,
Inclusive o meu S„o Sebasti„o.
Sarav !
A ben‡„o que eu vou partir;
Eu vou ter que dizer adeus...

Ponha um pouco de amor numa cadˆncia,
E vai ver que ninguem no mundo vence
A beleza que tem um samba n„o.
Porque o samba nasceu l  na Bahia,
E se hoje ele ‚ branco na poesia,
Se hoje ele ‚ branco na poesia,
Ele ‚ negro demais no cora‡a”.
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  Felicidade (Vin¡cius de Moraes e Ant“nio Carlos Jobim)

Tristeza n„o tem fim
Felicidade, sim...

A felicidade ‚ como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa t„o leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar.

A felicidade do pobre parece
A grande ilus„o do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei, ou de pirata, ou jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira.

Tristeza n„o tem fim
Felicidade, sim...

A felicidade ‚ como a gota
De orvalho numa p‚tala de flor
Brilha tranqila
Depois de leve oscila
E cai como uma l grima de amor.

A minha felicidade est  sonhando
Nos olhos de minha namorada
 como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo por favor...
Pra que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor.

Tristeza n„o tem fim
Felicidade, sim...
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Receita de Mulher (Poesia)

As muito feias que me perdoem
Mas beleza e fundamental. E preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de danca, qualquer coisa de "haute couture"

Em tudo isso  ( ou entao
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na Republica
Popular Chinesa).
Nao ha meio-termo possivel. E preciso
Que tudo isso seja belo. E preciso que subito
Tenha-se a impressao de ver uma garca apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor so encontravel no terceiro minuto
da aurora.
E preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e dasabroche
No olhar dos homens. E preciso, e absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. E preciso que umas palpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acarecie nuns bracos
Alguma coisa alem de carne: que se toque
Como no ambar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que e preciso que a mulher que ali esta como a corola ante o passaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nadegas. Nadegas e importantissimo. Olhos, entao
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca umida!) e tambem de extrema pertinencia.
E preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rotula no cruzar das pernas, e as pontas 
pelvicas
No enlacar de uma cintura semovente.
Gravissimo e porem o problema das saboneteiras: uma mulher sem 
saboneteiras
E como um rio sem pontes. indispensavel
Que haja uma hipotese de barriguinha, e sem seguida
A mulher se alteie em calice, e que seus seios
Sejam uma expressao greco-romana, mais que gotica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade minima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz e estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente a mostra; e que exista um grande latifundio dorsal!
Os menbros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de 
coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a petala e cobertas de suavissima 
penugem
No entanto, sensivel a caricia em sentido contrario.
E aconselhavel na axila uma doce relva com aroma proprio
Apenas sensivel (um minimo de produtos farmaceuticos!).


Preferiveis sem duvida os pescocos longos
De forma que a cabeca de por vezes a impressao
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher nao lembre
Flores sem misterio. Pes e maos devem conter elementos goticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas maos, nos bracos, no dorso e na 
face
Mas que as concavidades e reentrancias tenham uma temperatura nunca 
inferior 
A 37* centigrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferencia grandes
E de rotacao pelo menos tao lenta quanto a da terra; e 
Que se coloquem sempre para la de um invisivel muro de paixao
Que e preciso ultrapassar. Que a mulher seja em principio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos pincaros.
Ah, que a mulher de sempre a impressao de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela nao mais estara presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, nao venha; parta, nao va
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer 
beber
O fel da duvida. Oh, sobretudo
Que ela nao perca nunca, nao importa em que mundo
Nao importa em que circunstancias, a sua infinita volubilidade
De passaro; e que acriciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graca de ave; e que exale sempre
O impossivel perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudivel canto
Da sua combustao; e nao deixe de ser nunca a eterna dancarina
Do efemero; e em sua incalculavel imprefeicao
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criacao 
inumeravel.
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SONETO DO AMOR DEMAIS

N„o, j  n„o amo mais os passarinhos
A quem triste, contei tanto segredo
Nem amo as flores despertadas cedo
Pelo vento orvalhado dos caminhos.

N„o amo mais as sombras do arvoredo
Em seu suave entardecer de ninhos
Nem amo receber outros carinhos
E at‚ de amar a vida tenho medo.

Tenho medo de amar o que de cada
Coisa que der resulte empobrecida
A paix„o do que se der … coisa amada

E que n„o sofra por desmerecida
Aquela que me deu tudo a vida
E que de mim s¢ quer amor -mais nada.

(Marcus Vin¡cius da Cruz de Mello Moraes)
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A VOC‰, COM AMOR

O amor ‚ o murm£rio da terra
quando as estrelas se apagam
e os ventos da aurora vagam
no nascimento do dia...
O ridente abandono,
a r£tila alegria
dos l bios, da fonte
e da onda que arremete
do mar...
O amor ‚ a mem¢ria
que o tempo n„o mata,
a can‡„o bem-amada
feliz e absurda...
E a m£sica inaud¡vel...
O silˆncio que treme
e parece ocupar
o cora‡„o que freme
quando a melodia
do canto de um p ssaro
parece ficar...
O amor ‚ Deus em plenitude
a infinita medida
das d divas que vˆm
com o sol e com a chuva
seja na montanha
seja na planura
a chuva que corre
e o tesouro armazenado
no fim do arco-¡ris.

(Marcus Vin¡cius da Cruz de Mello Moraes)
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ACONTECIMENTO

Haver  na face de todos um profundo assombro
E na face de alguns risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunir„o em lugares desertos
E falar„o em voz baixa em novos poss¡veis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentir„o alegria
Porque deles ‚ o primeiro milagre
E dar„o o ¢bolo do fariseu com ares humildes
Muitos n„o compreender„o
Porque suas inteligˆncias v„o somente at‚ os processos
E j  existemn nos processos tantas dificuldades...
Alguns ver„o e julgar„o com a alma
Outros ver„o e julgar„o com a alma que eles n„o tˆm
Ouvir„o apenas dizer...

Ser  belo e ser  rid¡culo

Haver  quem mude como os ventos

E haver  quem permane‡a na pureza dos rochedos
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho

Escutando verdades e mentiras

Mas n„o dizendo nada

S¢ a alegria de alguns compreenderem bastar 
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as  guas mais turvas contˆm …s vezes as p‚rolas mais belas

        (Marcus Vin¡cius da Cruz de Mello Moraes)
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       REVOLTA

Alma que sofres pavorosamente
A dor de seres privilegiada
Abandona o teu pranto, sˆ contente
Antes que o horror da solid„o te invada.
Deixa que a vida te possua ardente
Ÿ alma supremamente desgra‡ada.
Abandona,  guia, a in¢spita morada
Vem rastejar no ch„o como a serpente.
De que te vales o espa‡o se te cansa ?
Quanto mais sobes mais o espa‡o avan‡a...
Desce ao ch„o,  guia audaz, que a noite ‚ fria.
Volta, ¢ alma, ao lugar de onde partiste
O mundo ‚ bom, o espa‡o ‚ muito triste...
Talvez tu possas ser feliz um dia.
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        Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor... n„o cante
O humano cora‡„o com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo al‚m, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mist‚rio e sem virtude
Com um desejo maci‡o e permanente.
E de te amar assim, muito e ami£de
 que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
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    Soneto de Devocao

Essa mulher que se arremessa, fria
E lubrica aos meus bracos, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus palidos receios
A unica entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miseria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher e um mundo! - uma cadela
Talvez... - mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tao bela.
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   Poema  Enjoadinho

Filhos...Filhos?
Melhor n„o tˆ-los!
Mas se n„o os temos
Como sabˆ-los?
Se n„o os temos
Que de consulta
Quanto silˆncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que ‚ um porrete...
C“njuge voa
Transp”e o espa‡o
Engole  gua
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morena‡o
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E ent„o cem‡a
A aporrinha‡„o:
coc“ est  brnco
Coc“ est  preto
Bebe amon¡aco
Comeu bot„o.
Filhos? Filhos
Melhor n„o tˆ-los
Noites de ins“nia
c„s prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos s„o o demo
Melhor n„o tˆ-los..
Mas se n„o os temos
Como sabˆ-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteir„o
Por‚m, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos s„o!
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    Source: geocities.com/athens/4379

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