--- Algumas meditações e um pouco de Descartes
"Nan-in, um mestre japonês da era Meidji (...) recebeu um professor universitário que viera informar-se sobre o Zen.
Nan-in serviu chá. Encheu a taça do seu visitante e, depois, continuou a deitar.
O professor observou aquele transbordar até que não pôde conter-se por mais tempo:
--- Está a deitar por fora. Não cabe mais nada!
--- Tal como esta taça, --- disse Nan-in, --- estás cheio das tuas próprias opiniões e conjecturas. Como poderei revelar-te o Zen, se antes não esvaziares a tua taça?"
Nyogen Senzaki e Paul Reps, "101 Histórias Zen".
No limiar do inútil, olhada de lado, a Filosofia
é uma arte difícil num tempo marcado pela pressa,
pela economia da comunicação, vamos ao que interessa,
deixemo-nos de conversas moles que não adiantam nem atrasam!
Só por engano a Filosofia é
paixão, actividade que emagrece, tira o sono, não
deixa fazer mais nada. Pelo contrário, é uma longa paciência,
regressar aos locais de sempre, procurando aquilo que se não vê
quando corremos o mundo com horas marcadas, fotografar à pressa,
depois por entre balbúrdias mil, mostrar as "imagens"
da viagem a parentes e colaterais.
Na correria dos "programas", professores
e alunos visitam 2500 anos de História, entrando e saindo dos velhos
gregos, desarvorando em direcção à época Moderna,
acumulando teorias, argumentos, demonstrações, Gnosiologias,
Lógicas, Metafísicas, Ontologias, Éticas, tudo terminando
em "pontos", classificações, apelos lancinantes
à criatividade e "espírito crítico".
O filosofar é, sobretudo, um elogio
da lentidão, arte da espera, um quase impossível reencontro
com perguntas infantis que estão no origem deste estranho ser, aparecido
há 100.000 anos sobre a Terra, que por convenção chamamos
de "Homo Sapiens". Dotado dum cérebro gigantesco, colonizou
todos os continentes, viveu das dádivas da caça e pesca,
inventou a agricultura, criou cidades, atravessou mares, desenhou mapas,
chegou à Lua e ao coração da matéria.
No grande oceano do desconhecido ergue-se
uma imensa barreira de coral, feita do trabalho acumulado por mil gerações
de humanos e nós, os agora-aqui, nascemos dentro dessa imensa
laguna por toda a parte povoada por sons, luzes, bibliotecas, ciências,
escolas, especialistas. É fácil esquecermos que tudo isto
ocorre dentro da "barreira de coral", do aquário climatizado
que, um pouco temerariamente, convencionamos chamar "Mundo".
Mas a Filosofia deve ser também um
caminho que nos mostre que há "outro lado" para além
dos limites do horizonte, e que esse local é feito da exacta matéria
da nossa ignorância. Olhar para lá, é ser capaz de
subir a montanha dos livros, e espreitar uma paisagem de que mal vemos
os contornos, pois a luz que emitimos é insuficiente para iluminar
a enorme noite que está "lá fora", irmã
gémea do grande silêncio sobre o qual ecoam as milhares de
vozes.
Talvez por isso, o problema do Mundo
e da sua origem tenha sido uma das obsessões permanentes dos primeiros
filósofos, no momento em que tentaram compreender para além
dos grandes Mitos e Religiões que sempre apaziguaram os nossos medos.
A invenção da "Razão", se nos permitiu avançar
no sentido do conhecimento, abriu a porta à dúvida, à
incerteza, à paz consoladora mas fictícia de todos os deuses
benévolos ou cruéis. Com a Filosofia ficamos só
nós, nós e os outros como nós, conversando, experimentando,
procurando, se existir, o verdadeiro "princípio de todas as
coisas". E, talvez com alguma arrogância, imaginando que tal
"princípio", se existir, há-de ser conforme aos
poderes do pensamento.
A Filosofia parte dessa palpite e, pacientemente,
olha de novo o Mundo como se fosse a primeira vez. O grande problema era
inventar a "engrenagem" que fazia mover planetas e estrelas,
gerava eclipses, iluminava os céus com brancas caudas de cometas.
Qual a origem e o porquê de tantas coisas, que "causa"
ou "quem" os colocou ali, imagens de eternidade silenciosa que
viram desabar Impérios, ergueram zigurates e fizeram cair o pobre
Tales no poço do filosofar?!
Passando as hesitações da Escola
de Mileto, logo na alvorada da Filosofia, é a estranha comunidade
pitagórica que marcará o caminho duma hipotética resposta.
Olhando para a gigantesca imensidão cósmica, aposta-se na
harmonia dos Números, na ideia duma simplicidade que fará
mover astros esféricos numa singular melodia, só acessível
àqueles que tiverem a paciência de encontrar aquilo que
permanece para além das coisas que passam.
Está lançado um "princípio"
que agrada à Razão humana e será o fundamento de toda
a Ciência. A realidade colorida e diferenciada do Mundo só
será compreensível se ultrapassarmos o vendaval dos sentidos
e nos aproximarmos da arquitectura escondida e eterna duma "mente
cósmica" que se reduz à beleza das equações,
ao bailado celestial duma geometria que nos assegura que tudo "isso"
tem uma lógica.
Duma forma ou doutra, é esse o caminho
da Filosofia e da Ciência quando pensam o Universo, desde o heliocentrismo
genial de Aristarco de Samos ao trabalho esforçado do Demiurgo no
Timeu de Platão, passando pelos cálculos de Eudoxo de Cnido,
os catálogos de Hiparco e o paciente "puzzle" de Claudio
Ptolomeu.
Com a chegada do Cristianismo ao Ocidente,
a meditação cosmológica cai numa espécie de
limbo de esquecimento, não porque o problema do Universo deixe de
ter interesse, mas porque uma grande Religião responde aos "porquês"
e "comos" através da palavra de Deus inscrita na voz dos
profetas. É preciso esperar 1.500 anos para a Europa consentir debater
a questão do Universo, com um entusiasmo temperado de medos-mil.
A época moderna não encontrará a Filosofia na primeira
linha das perguntas e respostas. A literatura, a poesia, a aventura das
naus e caravelas vão manifestamente à frente e são,
de facto, os verdadeiros herdeiros da curiosidade nascida um dia nas colónias
da Jónia.
Não esqueçamos o primeiro filósofo
que, por convenção, inaugura a modernidade. Prudente e discreto,
Descartes vive na 1ª metade do século XVII, bem depois de Índias
e Américas terem revelado outros céus e outras constelações
do lado de lá da Terra. Farto das incertezas, teorias e hesitações
das "interpretações" que tanto dizem uma coisa
como o contrário dela, decide construir um método e uma Filosofia
que tenha o encanto e precisão das evidências matemáticas
e geométricas. Só o racionalmente evidente é
aceitável e, deste modo, há-de ser um "pensamento rigoroso",
aberta ao progresso, distante das disputas e controvérsias que a
desprestigiavam face à eficiência das Ciências.
Portanto, trata-se de tudo esquecer, de regressar
ao grau zero, nada mais restando à partida que duas evidências:
existe o Pensamento (res cogitans), a Matéria-Mundo (res
extensa) e, claro, um Deus geómetra e bondoso que garante não
estarmos a sonhar ou a ser ludibriados por um génio maligno! Admirador
de Galileu, anti-aristotélico prudente, católico convicto,
preferindo habitar as ruas fervilhantes e anónimas da Holanda protestante,
Descartes garante-nos que há uma equação indesmentível.
O Mundo é Extensão e a Extensão é o Mundo.
Tudo o resto é duvidoso e só nos afasta do essencial.
Neste Universo, tirando a alma humana, tudo
é material. Como a Matéria é Extensão, quer
dizer, confunde-se com o Espaço, eis um território ideal
para matemáticos e geómetras, onde sempre prevalece a lei
da quantidade e do cálculo. Pensar o Universo é pensar
o Espaço, pensar o Espaço é pensar a Matéria.
Estranha conclusão dum filósofo aparentemente virado para
o Espírito, mas que abre caminho ao mais radical dos materialismos,
onde tudo são máquinas, autómatos, alavancas, por
toda a parte fluxos, esquemas, cálculo, geometria.
O Universo é, para Descartes, uma
gigantesca "máquina material", acessível à
Razão humana, apesar das limitações dos sentidos.
Planetas, sóis, cometas circulam nos céus obedecendo a equações
e só há matéria "mais grossa" e matéria
"mais fina e subtil". Os movimentos dos astros não obedecem
a forças misteriosas, mas resultam de "turbilhões",
vórtices, redemoinhos, imenso jogo de mecânica totalmente
demonstrável e compreensível.
Apesar de Descartes ter morrido pouco antes
de Newton, em 1687, ter proposto o princípio da gravitação,
a ideia duma força atractiva universal, nunca os cartesianos concordariam
com tal "princípio", que parecia mais próximo da
magia medieval-renascentista que da racionalidade moderna.
Nos séculos XVIII e XIX a Física
e Cosmologia cartesianas são consideradas erros crassos, delírio
racionalista sem fundamento ou utilidade, cedo esquecido no armazém
das curiosidades e velharias. Mas não deixa de ser surpreendente
que, a seu modo, o século XX re-utilize o perfil de Descartes através
do pensamento de Einstein, que na Teoria da Relatividade acaba por nos
dizer que o segredo do Universo reside na Geometria, que a "matéria"
é redutível ao "Espaço-Tempo" e que a substância
do universo é o "contínuo espaço-tempo de
4 dimensões" de curvatura continuamente variável.
Como até hoje não se encontrou
melhor modelo, parece estarmos condenados a viver num Mundo inacessível
aos nossos sentidos, que não podemos desenhar, nem pintar, nem intuir.
Só longas equações o descrevem, tal como o tinham
previsto, por pura aposta mental, os pitagóricos. É um Universo
aristocrático, inacessível às maiorias, aos
homens e mulheres que nascem, morrem, lutam, riem ou sofrem. Não
porque o segredo esteja fechado a sete-chaves, mas porque para o entender
é necessário dedicar uma vida inteira a preparar a contemplação
da harmonia e elegância dessas equações.
Há momentos em que penso que nada
disto é justo, pois o importante escapa-nos sempre, a quase todos.
E quase sinto saudades dos "dias do princípio" em que
a Terra era um disco plano terminando no horizonte a que nunca chegamos
e, docemente, flutuava sobre as águas.
Porto, Dezembro de 2001