Helena Claudia de Faria Guimarães de
Sousa Pereira
DO
DESERTO
Pensar o Mal com Hannah
Arendt
Tese de Dissertação de Mestrado
em Filosofia Moderna e Contemporânea
sob a orientação da Exma .
Senhora Professora Doutora Maria José Cantista
F L U P 2 0 0 0
Agradecimentos
Ao Exmo. Senhor Professor
Doutor Eduardo Abranches de Soveral, coordenador deste Mestrado, e à Exma. Senhora
Professora Doutora Maria Manuel de Araújo Jorge, a simpatia, as novas perspectivas para
que os seus seminários tão bem souberam convidar.
À Exma. Senhora
Professora Doutora Maria José Cantista, minha orientadora, a confiança, o ânimo e a
alegria que sempre soube transmitir-me em momentos difíceis; a serenidade, amizade
disponível, tão determinantes para a concretização deste trabalho.
Ao João Gomes Pinto,
a cordialidade, o brilhantismo intelectual com que animou os seminários, e que se
constituiu como um renovado convite a dar o meu melhor.
À Isa, à Isabel
Figueiredo, à Umbelina e à Isabel Tavares, à Isabel Braga, ao João Sousa Dias e à
Joana Rodrigues, a amizade, a disponibilidade e o interesse com que acompanharam a
realização deste trabalho.
Ao Alfredo e à
Eliane, à Anita Ribeirinho, à Ana Serapicos, à Becas e à Sílvia, ao Né e à
Cristina, à Lídia, à Ana Maria Cunha, ao Miguel e à Joana, às tias Júlia, Clarisse e
Bel, à Sofia Miguéns, à Dra. Fernanda Guerra, tantas palavras de ânimo.
Ao Manel e à
Laurinda, o carinho, a atenção, o interesse... e a estadia em Moledo (!), que inaugurou
o andamento sério dos trabalhos.
À Helena Pedro, amiga
de sempre, os ralhetes com que, ternamente, censurou os meus momentos de preguiça.
Aos meus pais, a
perseverança, a dedicação, o empenhamento e o orgulho que põem em tudo quanto faço.
Ao Miguel, a alegria,
meu melhor descanso.
Ao Manel, enfim, o
amor inteiro, a paciência infinita.
Aos meus pais e
ao mano Miguel
SIGLAS UTILIZADAS
Nas obras de Hannah Arendt
RV Rahel Varnhagen. The Life of a Jewish
Woman, redigido em 1933, salvo os dois últimos capítulos, redigidos em 1938. Primeira
edição East and West Library, Grã-Bretanha,1957 (John Hopkins University Press,
1997)
OT The Origins of Totalitarianism, Hartcourt
Brace and Jovanovich, New York, 1951 (Les Origines du Totalitarisme, Vol. I Sur
lAntisémitisme, trad. Micheline Pouteau, Paris, Seuil, 1984 ; Vol. II
Sur lImpérialisme, trad. Martine Leiris, Paris, Seuil, 1982 ; Vol. III
Le Système Totalitaire, trad. Jean-Loup Bourget, Robert Davreu e Patrick Lévy, Paris,
Seuil, 1972)
NT Understanding and Politics, Partisan
Review, Julho-Agosto, 1953
Religion and Politics, Confluence, ed. H.A.
Kissinger, Cambridge, 1953 (La Nature du Totalitarisme, trad. Michelle-Irène B. Launay,
Paris, Payot, 1990)
CH The Human Condition, university of Chicago
Press, Chicago, 1958 (La Condición Humana, trad. Ramón Gil Novales, Barcelona, Paidós,
1993)
BPF Between Past and Future, Viking Press,
New York, 1961(Penguin, 1993)
CC La Crise de la Culture (trad. francesa de
Between Past and Future), Paris, Gallimard, 1972
EJ A reporter at large: Eichmann in
Jerusalem, A Report on the Banality of Evil, The New Yorker, 16 de Fevereiro, 1963
(Penguin, 1994)
VP Truth and Politics, The New Yorker,
Fevereiro, 1967 (Verdade e Política, trad. Manuel Alberto, Lisboa, Relógio dÁgua,
1995)
HTS Men in Dark Times, Harcourt Brace, 1968
(Homens em Tempos Sombrios, tradução de Ana Luísa Faria, Santa Maria da Feira, Relógio
dÁgua, 1991)
CM Thinking and Moral Considerations, A
Lecture, Social Research, nº3, 1971 (Considérations Morales, trad. Marc Ducassou e Dider
Maes, Paris,
Payot et Rivages, 1996)
VE The Life of the Mind, Harcourt Brace &
World, 1978 (La Vie de lEsprit, Vol. I La pensée, trad. Lucienne Lotringer,
Paris, PUF, 1981 ; Vol. II Le Vouloir, Paris, PUF, 1983)
JP The Jew as a Pariah, Grove Press, New
York, 1978
AJ Auschwitz and Jerusalem, Deuxtemps Tierce,
Col. Agora, 1991
QLP Was ist Politik?, München, Piper, 1993
(Quest-ce que la Politique? tradução e prefácio de Sylvie Courtine-Dénamy,
Paris, Seuil, 1995)
PHA The Portable Hannah Arendt, Penguin,
Middlesex, England, 2000
INDICE
|
11 |
O Mal e o
Problema da Justificação dos Actos Humanos |
|
|
12 |
1. Apresentação do Trabalho
|
12 |
2. O Problema do Mal
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16 |
3. Tradição e Modernidade
|
24 |
|
31 |
1. Totalitarismo, Ditadura, Tirania
|
31 |
2. Medo e Terror
|
38 |
3. Totalitarismo e Anti Semitismo
|
44 |
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51 |
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|
|
52 |
1. O Mal como Necessidade
- Mundo e pré-Modernidade
|
53 |
2. O Mal como Irrealidade
- Mundo e Época Moderna
|
63 |
2.1 Da Descoberta da América a Galileu
|
65 |
2.2 Aparência e Mundo
|
69 |
2.3 Mundo e Realidade
- O problema do Sionismo e dos Direitos do Homem
|
75 |
3. O Mal como Ausência de Pensamento
|
88 |
4. Os Campos como Mal Radical
|
112 |
- Em jeito de Conclusão
|
123 |
|
131 |
|
136 |
DO DESERTO
PARTE I
O Mal e o Problema da
Justificação dos Actos Humanos
CAP. I
INTRODUÇÃO
1. Apresentação do trabalho
À Sú e ao Manel
Ognuno sta solo sul cuore della terra
trafitto da un raggio di sole
ed e subito sera
Giuseppe Ungaretti
O percurso que,
na concretização deste trabalho, encontra o seu primeiro momento de repouso, é, a um
tempo, afectivo e intelectual tem, por isso, as limitações e as virtudes, as
lisuras e os sobressaltos dos percursos em que estas dimensões não souberam (não
quiseram, não puderam) separar-se. É, para o melhor e para o pior, um trabalho vivido. E
por isso valeu a pena.
O meu primeiro
encontro com Hannah Arendt data de 1991 estudava, então, as belíssimas páginas
de A Condição Humana, dedicadas à temática da eternidade e da imortalidade, na cadeira
de Antropologia. Dado o interesse e a curiosidade que esse estudo, na altura, despertara,
foi com grande entusiasmo que, anos depois, acolhi a sugestão de trabalhar a autora em
tese de mestrado, feita pela minha orientadora, a professora Maria José Cantista. Não
sabia, ainda, o quanto, acontecimentos por vir, determinariam o amadurecimento da minha
relação com o pensamento arendtiano, o quanto, enfim, poderia existir de providencial na
coincidência...
Originalmente pensado
em três partes Do Deserto-Do Oásis-Amor Mundi este trabalho acabaria por
ser inteiramente dedicado à primeira dentre elas, apenas. Por solicitação dos próprios
percursos que fui trilhando, pelo amadurecimento da relação com a obra da autora, e,
claro, por imposições de tempo, de formato até, de humildade sobretudo, acabaria por me
centrar por razões de que darei conta adiante no problema do mal.
Nos capítulos que
dão corpo à primeira parte, proponho-me esboçar, por um lado, a moldura conceptual no
âmbito da qual a noção de mal foi sendo burilada, precisamente porque, segundo Arendt,
essa moldura não dá resposta às perplexidades inerentes ao fenómeno totalitário;
proponho-me, por outro, perscrutando-lhes a significação, percorrer os acontecimentos
que, na perspectiva arendtiana, estariam, por cristalização, na origem do sem
precedentes que traumaticamente inaugura a nossa era, porquanto disso parece depender, a
existir, qualquer possibilidade de regeneração.
A segunda parte
do trabalho, enfim, consiste no desdobramento desse inédito nas suas várias figuras, de
que o Deserto é, afinal, metáfora, expoente e esta é, porventura, a sua mais
expressiva chancela - muda manifestação. [ 1 ]
Há, entretanto, um
implícito que anima este trabalho, e que requer, por isso mesmo, esclarecimentos
adicionais.
Não tive, como se
verá, a preocupação de dedicar nenhum capítulo à biografia de Hannah Arendt; assim,
à excepção dos momentos em que, para melhor compreensão de determinada temática, essa
referência se me impunha, não lhe atribuí qualquer relevância. [2] E, contudo, é a
própria razão de ser deste trabalho que me obriga, neste momento, a uma referência
desse tipo.
É conhecido o
desinteresse da jovem Hannah pela política e pela história. Conhecido, também, é o
momento em que a urgência da acção, e portanto a impossibilidade de se abster, a
despertaria do seu «sono intelectual»: decorria o ano de 1933. [3] Assumiria, desde
então, o dever da intervenção política, um compromisso de que só a morte a
libertaria, em 1975.
No nosso contexto,
importa o seguinte: o incêndio do Reichtag, a 27 de Fevereiro de 1933, que simbolicamente
inaugura a demência de que os campos de morte seriam o culminar, determinava, na vida de
Arendt, o momento em que o apelo à acção já se não podia declinar. Por outras
palavras, não compreenderemos o amor pelo mundo - de que a vida e obra da nossa autora
apresentam o mais notável testemunho - sem antes evocarmos a experiência do seu rosto
oculto, quer dizer, o assalto do deserto, a alienação do mundo, como génese desse amor
que Arendt confessa tardio. E assim, se é nas condições de deserto que o Amor Mundi se
revela, só pela experiência desse amor, por seu turno, pode o deserto chegar a
constituir-se como tema. [4]
A minha experiência
do amor pelo mundo é, também ela, uma descoberta tardia, não anterior, pelo menos, à
irrupção do amor e da morte no meu caminho. De tudo o que daí resultaria, este trabalho
recolhe uma leitura possível das reflexões arendtianas sobre os avessos do Amor Mundi
reflexões que só esse Amor pelo Mundo mesmo pode solicitar - e que encontram no
mal a sua mais radical e inquietante expressão.
2. O Problema do Mal
«O mal no III Reich tinha perdido a
qualidade pela qual a maior parte das pessoas o reconhece- a qualidade da tentação.
Muitos alemães e nazis (
) devem ter sido tentados a não matar, não roubar, não
deixar que os seus vizinhos partissem para a sua condenação. (
) Mas, só Deus
sabe, tinham aprendido a resistir à tentação.»
Hannah Arendt, Eichmann in Jerusalem
Foi a ironia do
excerto em epígrafe, o sobressalto e a dúvida que o seu conteúdo desencadeou, que de
imediato fez do percurso filosófico de Arendt e das suas reflexões sobre o mal um
desafio a aceitar. Que mal era esse, dito radical em alguns textos, de pálida (mas nem
por isso menos aterradora) banalidade, noutros, que a tradição não previra? O que é o
mal quando o já não podemos circunscrever nas categorias - da tentação, do orgulho, da
fraqueza e da falta, da carência, da corrupção, da ignorância e da transgressão
que herdamos da tradição filosófica, teológica, literária? [5] Uma tradição
segundo a qual, concretamente, o problema do mal aparece originalmente associado ao de
Deus, constituindo uma aporia cuja solução mais fácil é a que nos aparece já com
Platão, a saber, a afirmação de que Deus é somente a causa do bem e que o mal escapa,
radicalmente, ao seu poder. Seria, assim, o princípio de corrupção e destruição das
coisas, e por isso de uma dignidade ontológica francamente inferior.Nesta medida,
portanto, sendo Deus o Bem em si mesmo, entendê-lo como origem do mal seria uma
contradição nos termos. [6] E a acção, por outro lado, só pode ser motivada pelo bem,
uma vez que parece absurdo supor que alguém possa querer o mal pelo mal. Assim, só a
representação de um bem pode levar o sujeito a agir, donde «ninguém faz o mal
voluntariamente». O mal, portanto, não é senão uma fraqueza da vontade, normalmente
atribuída à ignorância. [7] É, afinal, a tese retomada por Descartes, fundador da
filosofia cristã: «omnis peccans est ignorans».
Colocada de forma
aguda pela Bíblia, a temática do mal percorre-a como um fio: do Génesis ao Livro de
Job, do Eclesiastes a S. Paulo, vêmo-lo em relação com o tema da transgressão e do
sofrimento do justo, da condição humana e da impotência, respectivamente. [8]
É o relato de Adão e
Eva que primeiramente nos fornece a chave simbólica da origem humana da falta que, porque
decorrente do uso da liberdade, dá ao mal um carácter contingente. O Livro de Job,
depois, apresenta o mal na sua figura talvez mais marcada, a injustiça enquanto
desequilíbrio entre o mal cometido e o mal sofrido. E é este tema, de resto, que
encontramos radicalizado em Hans Jonas e na proposta que nos deixa de, ao invés de se
explicar o mal a partir de Deus, compreender-se Deus a partir do mal: um Deus silencioso
que, no mal radical, encontrou a marca da sua impotência. [9]
Em S. Paulo, enfim, é
evidente o tratamento do mal enquanto tentação, produto do paradoxo de uma vontade
simultaneamente orientada para o bem e limitada - porque corrompida desde a origem - por
uma atracção pelo mal. O pecado aparece como uma derrota, submissão da vontade a uma
lei, que não a de Deus, apesar de esta estar viva na consciência, sinal da presença do
divino no homem.
Do encontro entre a
religião cristã e a filosofia pagã, resultaria, entretanto, uma mudança profunda no
modo de entender o Mal e a sua relação à acção divina e em Santo Agostinho
encontramos o seu maior representante, porquanto efectua a síntese entre o racionalismo
platónico e a teologia da Criação e do poder divino (a que o pensamento clássico era
alheio) e em torno da qual gravitará todo o pensamento cristão dos séculos posteriores.
Assim, a
consideração do mal como simples privação [10] cuja origem se encontra na
filosofia pagã - vai constituir um elemento precioso no pensamento cristão e,
particularmente, no pensamento agostiniano. Com efeito, o combate mais intenso deste ex
maniqueísta vai ser o de, precisamente, insistir no facto de que o Mal não é
nada de positivo, mas apenas uma privação do bem devido, um puro nada. [11] Deste modo,
garantia, por um lado, a perfeição da Criação, onde o mal encontra o seu lugar - não
há coisas más, mas apenas coisas a que falta o bem que deveriam ter; [12]
des-responsabiliza Deus relativamente ao problema do Mal, por outro; e, finalmente, dá um
sentido à diversidade das naturezas criadas e à desigual distribuição dos bens entre
elas.
O Mal é, além disso,
condição de um bem superior: não só no sentido de que os defeitos das partes são
condição da harmonia do conjunto, como também no de que, se é verdade que o homem pode
escolher livremente fazer um bom ou mau uso das suas faculdades, elas são, em si mesmas,
boas, e, sobretudo, no sentido de que o próprio pecado original é uma felix culpa,
porquanto é motor da história da Salvação e da vinda do Redentor.
Em Leibniz, que
inaugura um novo período da filosofia moderna pelo estatuto que confere ao problema da
irracionalidade, o mal não é um escândalo senão para o ignorante, e é integrado num
esquema de explicação do Universo - nada existe que não tenha a sua razão de ser, no
entendimento de Deus que, porque absolutamente bom, não poderia ter feito o mundo com
outra natureza que não a Sua: o Bem está sempre e originariamente presente na ordem do
mundo e, deste modo, Razão e Bondade implicam-se mutuamente. [13]
O mal, portanto, faz
parte apenas da condição humana (inclinada para o amor-próprio mais do que para o
Outro, arrogante a ponto de se crer mais sábia do que o seu Criador), mas não tem, por
si mesmo, uma natureza própria; é uma «falta de ser», que não tem uma «causa
eficiente», mas «deficiente». [14] Não se trata, ainda assim, de pôr em causa a
existência do mal, mas de rever a sua pertinência enquanto conceito. Mais longe, afinal,
foi Espinoza, que reduziu o mal a uma realidade ilusória, inteiramente dependente de
juízos de valor subjectivos e, por aí mesmo, arbitrários. [15]
Relacionando o mal à
História, Kant e Hegel concebem-no como momento necessário ao desenvolvimento de um
processo- do «plano da Providência, no primeiro caso, do «Espírito», no outro. Em
ambos os casos, portanto, mantém-se a caracterização do mal como «falta», não lhe
sendo atribuída a densidade ontológica de poder transformar a natureza humana a ponto de
a tornar maligna.
Em Hegel, [16]
concretamente, o mal é entendido como descontinuidade necessária ao progresso em
direcção ao bem, pelo que está justificado - trata-se, no fundo, da transposição da
tese de Leibniz, que distingue a vontade antecedente de Deus, que quer o Bem, e a sua
vontade consequente, que o realiza pela mediação do mal. Através, pois, de uma
reavaliação do negativo, a dialéctica consagra o mal como necessário à realização
da liberdade na História. [17]
Em Kant, o mal é
indissociável da faculdade humana de desejar, pelo que, mesmo no que diz respeito ao mal,
por ele apelidado de «radical», trata-se apenas da possibilidade geral de desobedecer à
lei moral. Derivando de um desequilíbrio entre sensibilidade e razão, o mal,
concretamente na figura do pecado original, é a subordinação da lei moral/vontade à
sensibilidade, transfiguração enganadora do dever em móbile de satisfação.
Reflectir sobre o mal
é, ainda, prospectar os actos dos homens e as relações que se estabelecem entre eles,
pelo que o problema da justificação dos actos humanos, enquanto problema político, é
tão urgente quanto incontornável, neste século sobretudo, surpreendidos que fomos por
acontecimentos políticos fundadores da dominação totalitária, onde formas de
indizível des-razão mancharam, irremediavelmente, o tecido das relações humanas.
Ora, são precisamente
essas formas que tornam inadequada, na perspectiva de Arendt, qualquer presunção de uma
natureza humana pecadora, incapaz de dominar os seus interesses: « o mal, ensinamo-lo às
crianças, releva do demónio; ele encarna-se em Satanás que "cai do céu como um
raio"(S. Lucas, 10, 18) ou Lúcifer, o anjo caído ("O diabo é, também ele, um
anjo" Miguel de Unamuno) cujo pecado é o orgulho ("orgulhoso como
Lúcifer"), esta superbia de que só os melhores são capazes: eles não querem
servir Deus, querem ser como Ele. Os maus, costumamos dizer, são movidos pela inveja [
Ricardo III e Caím] , e podem ser também guiados pela fraqueza (Macbeth). Ou, ao
contrário, pelo ódio poderoso que a maldade sente perante a pura bondade [ Iago,
Claggart] , ou ainda pela cobiça, "fonte de todos os males"(Radix omnium
malorum cupiditas). Entretanto, o que tinha perante os olhos, se bem que totalmente
diferente, era um facto inegável». [18]
Como procurarei
mostrar, o projecto da superfluidade humana não se deixa explicar, afinal, pela
voracidade dos apetites de uma alma tirânica, tentada a desempenhar o papel de Deus. [19]
Além disso, e como a própria autora salienta, «é um traço inerente a toda a nossa
tradição filosófica que não possamos conceber um "mal radical": isto é
verdade tanto para a teologia cristã, que atribuía ao próprio diabo uma origem celeste,
como para Kant, o único filósofo que (...) deve ter pelo menos suspeitado da existência
de um tal mal, ainda que se tenha apressado a racionalizá-lo pelo conceito de uma
"vontade perversa", explicável a partir de móbiles inteligíveis». [20]
3. Tradição e Modernidade
Em A Crise da Cultura,
pode ler-se: « A nossa tradição de pensamento político tem um começo bem determinado
nas doutrinas de Platão e Aristóteles. Creio que conheceu um fim menos determinado nas
teorias de Karl Marx. (...) O começo e o fim da filosofia têm em comum que os problemas
elementares da política não são nunca tão distintamente revelados na sua imediata e
simples urgência como quando são formulados pela primeira vez e quando conhecem o seu
último relance». [21]
Rejeitando embora,
como se verá no ponto a seguir, a noção de um qualquer tipo de explicação causal para
o fenómeno totalitário, não deixa de ser possível vislumbrar, ainda assim, uma
relação - e uma relação que a própria autora estabelece - entre a tradição
ocidental da filosofia política e o espírito da Idade Moderna, e que abarca toda a
história do pensamento político, de Platão e Aristóteles a Hitler e Estaline.
Tema central na
reflexão arendtiana, avultadas que são as suas consequências nos conceitos de
liberdade, acção e juízo, na filosofia ocidental, a substituição do agir pelo fazer
encontramo-la já em Platão e Aristóteles. [22] Trata-se, como se verá, da
consequência de uma fundamental desconfiança relativamente à possibilidade da liberdade
humana se manifestar como pura espontaneidade, no âmbito da esfera pública. Mais, que
liberdade e não-soberania pudessem coincidir- na medida em que a capacidade de começar
é correlativa da incapacidade de controlar sequências de acontecimentos radicalmente
novos que cada começo, em si mesmo, solicita- assumia-se tão absurdo, quanto
perturbador. Deste modo, portanto, parece possível estabelecer um paralelo entre o
fenómeno totalitário e a tradição, como se aquele levasse a cabo uma radicalização
dos fundamentos da segunda. [23]
Pela analogia que
estabeleceram entre o político justo e o artesão- «Na República, o filósofo-rei
aplica as ideias como o artesão o faz com as suas normas e modelos; "faz" a sua
cidade como o escultor uma estátua» [24] - evitava-se o caos da política democrática
que condenara Sócrates, viabilizava-se que apenas alguns dominassem as opiniões. É que
o modelo do artesão implica, também, a separação entre saber e fazer- «quem sabe não
tem que fazer e quem faz não precisa de pensamento ou conhecimento» [25] - e,
concomitantemente, um modelo político em que a doxa e a deliberação plural são
substituídas por uma relação de ordem e obediência, que está na base de todas as
teorias da dominação. Ora, « O problema que originam estas formas de governo não é
que sejam cruéis, já que frequentemente o não são, mas que funcionem demasiado bem.
(...) Entretanto, todas têm em comum o desterro dos cidadãos da esfera pública e a
insistência em que se preocupem com os seus assuntos privados e que só "o
governante deve atender aos assuntos públicos». [26] Consumava-se, afinal, a oposição
entre verdade e opinião que constituiu «a mais anti-socrática conclusão que Platão
tirou do julgamento de Sócrates». É, de resto, esta tendência que, nos regimes
totalitários, encontra o seu extremo, fim de um caminho de marginalização do juízo em
favor da dedução silogística da acção.
Esta analogia implica,
ainda, que o poder do agente decorra de uma fonte externa e superior, que transcende, ela
mesma, a esfera política, assegurando-se, deste modo, a superação da contingente
fragilidade dos assuntos humanos. Por outras palavras, eis que se anuncia mais um tema de
toda a tradição, mais um argumento especioso da metafísica: o da supremacia do Ser por
relação à simples aparência.
Com efeito, todos os
esforços intelectuais dos filósofos- como dos homens de ciência- foram feitos no
sentido de descobrir qualquer coisa para além das aparências, o que sempre implicou uma
fuga do mundo enquanto tal e um fechamento sobre si, a procura de um fundo que não
aparece sobre a superfície que o faz, e que seria causa ontologicamente mais digna do que
o visível aparente. Ora, isso «não seria grave se não fôssemos senão simples
espectadores, demiurgos lançados num mundo para velar pelas suas necessidades, para fruir
dele, para nos distrairmos, conservando uma qualquer outra região à maneira de habitat
natural. Mas, de facto, nós somos do mundo e não simplesmente no mundo». [27]
Assim, pois, a
substituição do agir pelo fazer, - com todos os ecos que gerou- garante da soberania do
agente, esta consagração da categoria meios- -fins, marcariam de forma indelével todo o
pensamento político ocidental.
E, contudo, « A
questão é que Platão, e em menor grau Aristóteles, em cujo critério os artesãos não
mereciam a plena cidadania, foram os primeiros a propor que se manejassem os assuntos
políticos e se regessem os corpos políticos à maneira da fabricação. Esta aparente
contradição indica com clareza a profundidade das autênticas perplexidades inerentes à
capacidade humana para a acção e a força da tentação para eliminar os riscos e
perigos ao introduzir na trama das relações humanas as categorias, muito mais mornas e
dignas de confiança, inerentes às actividades nas quais enfrentamos a natureza e
construímos o mundo do artifício humano». [28] Pela renúncia à capacidade de acção,
com a sua futilidade e insegurança, viabilizava-se um remédio para a fragilidade dos
assuntos humanos.
Assim, « A trivial
noção, que já se encontra em Platão e Aristóteles, de que toda a comunidade política
é formada por governantes e governados (...), fundamenta-se na suspeita que inspira a
acção, mais do que no desprezo pelos homens, e procede do desejo de encontrar um
substituto para a acção, mais do que da irresponsável ou tirânica vontade de poder».
[29]
Estes pressupostos
chegarão quase intactos à época moderna, onde adquirirão novos contornos com a
filosofia marxista que, paradoxalmente, assumindo-se conscientemente contra a tradição,
se mostrou, enfim, incapaz de a abandonar: « na filosofia de Marx, que não virou do
avesso Hegel, tal como não inverteu a hierarquia tradicional do pensamento e da acção,
da contemplação e do trabalho, da filosofia e da política, o começo de Platão e
Aristóteles prova a sua vitalidade conduzindo Marx a teses manifestamente
contraditórias, sobretudo na parte da sua doutrina habitualmente chamada de utópica».
[30] As mais importantes são três, a saber: «o trabalho criou o homem» (que, contra a
tradição, troca o poder de Deus pelo do homem; o animal rationale pelo animal laborans;
a razão pelo trabalho), contudo, o ideal da revolução consiste na sua abolição; «a
violência é a parteira de toda a velha sociedade, grávida de uma nova»
(tradicionalmente ultima ratio na relação entre as nações, pelo que a fórmula
marxista é simultaneamente, a renúncia aos aristotélicos zoon politikon e zoon logon
ekhon), contudo, com o cumprimento da luta de classes e o desaparecimento do Estado,
nenhuma violência será mais possível; «os filósofos não fizeram senão interpretar o
mundo de diferentes maneiras, o que importa, agora, é transformá-lo» (contra a
tradição de Platão a Hegel, em que a filosofia, em rigor, não é «deste mundo», a
utopia de Marx prevê a identificação do mundo dos assuntos humanos com o mundo das
ideias), contudo, quando a filosofia tiver sido, ao mesmo tempo, realizada e suprimida,
nenhum tipo de pensamento restará.
Ora, « Contradições
tão fundamentais e flagrantes raramente se encontram em escritores de segundo plano, onde
podem ser negligenciadas. Na obra de grandes autores elas conduzem ao centro do seu
trabalho». [31] No caso de Marx, dissimulam a dificuldade de tratar problemas novos nos
termos da tradição, « sem a estrutura conceptual da qual o mais tímido pensamento
parecia impossível». [32]
As teses de Marx, de
resto, não são sequer, em rigor, utópicas, porquanto « reproduzem as características
do Estado-cidade ateniense, que era o modelo de experiência para Platão e Aristóteles
e, consequentemente, o fundamento sobre o qual repousa a nossa tradição». [33] Com
efeito, se Aristóteles opõe à vida política o seu ideal do lazer (s c o l h ), «a
sociedade sem classes e sem Estado realiza, de uma certa maneira, o estatuto geral do
lazer na antiguidade, lazer por relação ao trabalho e, ao mesmo tempo, lazer por
relação à política». [34]
Tendo em conta, ainda,
o papel desempenhado pela violência na fabricação, o impacto e a dimensão que ela
assume na tradição do pensamento político e na época moderna apresentam nuances a
considerar. Com efeito, « A violência, sem a qual não poderia dar-se nenhuma
fabricação, sempre desempenhou um papel importante no pensamento e esquemas políticos
baseados numa interpretação da acção como construção; mas até à época moderna,
este elemento de violência permaneceu estritamente instrumental, um meio que carecia de
um fim para se justificar e limitar; (...). A sentença de Marx, "a violência é a
parteira de toda a velha sociedade grávida de uma nova" (...), apenas resume a
convicção da época moderna e tira as consequências da sua profunda crença de que a
história "fazem-na" os homens, da mesma maneira que a natureza a
"faz" Deus». [35] E é nesta perversão da acção política em feitura da
história que Arendt vê a ligação entre Marx e o totalitarismo: pelo desdém de ambos
relativamente à pluralidade, pelo estatuto de obstáculo ao telos da história que ambos
lhe atribuem, partilham da distorção que convida ao sacrifício do indivíduo, das
classes e outros grupos, a bem da espécie. [36]
Assim, pois, « O fim
de uma tradição não significa necessariamente que os conceitos tradicionais tenham
perdido o seu poder sobre o espírito dos homens. Ao contrário, parece, às vezes, que
este poder das velhas noções e categorias se torna tão mais tirânico quanto a
tradição perde a sua vitalidade e a lembrança do seu começo se afasta». [37]
Em suma, portanto, se
o começo da filosofia política marca o desvio do filósofo por relação à política,
à qual torna para impor as suas normas aos assuntos humanos, o fim chega quando o
filósofo se desvia da filosofia, a fim de a "realizar" na política: « Virando
do avesso a tradição no interior do seu próprio quadro, [ Marx] não se desembaraçou,
verdadeiramente, das ideias platónicas, ainda que tenha tomado parte no obscurecimento do
céu claro onde essas ideias, bem como outras presenças, se tinham outrora tornado
visíveis aos olhos dos homens». [38]
Entretanto, nenhum
destes dados está, por si só ou no seu conjunto, habilitado a explicar a catástrofe
totalitária do nosso tempo. Ela constitui-se como uma ruptura por relação às
categorias de pensamento e critérios morais tradicionais, pelo que se assume como o
radicalmente sem precedente.
CAP. II
COMPREENDER O SEM PRECEDENTES
« A instituição dos regimes
totalitários, na medida em que as suas estruturas e as suas técnicas são absolutamente
sem precedente, representa a novidade essencial da nossa época. Compreender a sua
natureza- o que não é possível senão após ter descrito e analisado as origens e
estruturas do fenómeno- equivale, por assim dizer, a compreender o coração mesmo do
nosso século.»
Hannah Arendt, La Nature du Totalitarisme
1. Totalitarismo, Ditadura, Tirania
Porque o mal
totalitário não se deixa explicar pelo recurso à lição da história, deve
distinguir-se, antes de mais, das formas mais familiares de terror que a revolução, a
ditadura ou a tirania consubstanciam. [39] Com efeito, « os meios da dominação total
não são somente mais radicais, mas é o totalitarismo que difere, por essência, das
outras formas de opressão política que conhecemos, como o despotismo, a tirania ou a
ditadura. (...) [ Começou-se] a agir segundo um sistema de valores tão radicalmente
diferente de todos os outros, que as nossas categorias utilitárias, sejam elas as da
tradição, da justiça ou do bom senso, já não são nenhuma ajuda para nos conciliar
com a sua linha de acção, para a julgar ou prever». [40]
Nesse sentido, o
título de As Origens do Totalitarismo não deve iludir-nos: [41] não se trata de
qualquer tipo de explicação causal, que pudesse conduzir- -nos à interpretação do mal
totalitário como rejeição dos limites morais tradicionais ou como patologia pessoal,
emanação do génio demoníaco do líder: « Os componentes do totalitarismo constituem
as suas origens, na condição de que por "origens" não se entenda
"causas". A causalidade, quer dizer, o factor de determinação de um processo
composto por elementos no seio do qual, sempre, um acontecimento causa outro e pode ser
explicado por ele, constitui verdadeiramente, no domínio das ciências históricas e
políticas, uma categoria totalmente deslocada e fonte de distorção». [42] Com efeito,
é característica do fenómeno totalitário - e do universo concentracionário em
particular- derrubar a categoria de meios- fins, tão querida à explicação das
ciências sociais e da psicologia, a que Arendt não poupa as mais severas críticas:
«Evidentemente, as categorias utilizadas pelas ciências sociais, mesmo que se tenham
tornado muito estereotipadas, têm mais hipóteses de chegar a algumas intuições do que
as noções dos psicólogos, nem que seja porque as primeiras são tiradas de um mundo
real e não de um universo fantasmático. Mas na verdade, isso não faz, infelizmente,
muita diferença. Desde que a imagem do pai invadiu as ciências sociais e que a pequena
burguesia domina as disciplinas psicológicas, as diferenças que separam estes dois
domínios tendem a tornar-se negligenciáveis». [43] Trata-se, antes, de compreender o
absolutamente sem precedentes, ou seja, exercitar a faculdade do juízo sem o seu chão
habitual de senso-comum, confiar numa «imaginação destemida» preparada para «insistir
nos horrores». Menos irónica, escreve no seu artigo As técnicas da ciência social e o
estudo dos campos de concentração: « Qualquer ciência funda-se necessariamente sobre
um certo número de postulados implícitos, elementares e axiomáticos, que não se
expõem e não explodem a não ser que os confrontemos com fenómenos inesperados, e a
partir daí incompreensíveis, no quadro das categorias desta ciência. As ciências
sociais e as técnicas que usaram ao longo do século passado, não constituem uma
excepção a esta regra. Este artigo defende que a instituição dos campos de
concentração e de extermínio - e isso refere-se tanto às condições sociais em vigor
no interior dos campos como à sua função no aparelho mais vasto de terror, próprio aos
regimes totalitários - poderão muito bem tornar-se nesse fenómeno inesperado, o
obstáculo na via de uma compreensão adequada da política e da sociedade
contemporâneas. Fenómeno que obrigará os investigadores em ciências sociais e
historiadores a reconsiderar os seus a priori fundamentais e nunca postos em causa sobre a
evolução do mundo e do comportamento humano». [44]
Como se se tratasse de
retomar o pedido de Salomão de um «coração inteligente»- a faculdade de imaginar que,
longe de se assemelhar à fantasia, tem esse poder extraordinário de penetrar todas as
trevas.
Assim, dirá Arendt:
« Se, por exemplo, aplicarmos ao fenómeno do terror totalitário a categoria de meios e
fins, pela qual o terror seria um meio para manter o poder, para intimidar as pessoas,
para as amedrontar, e deste modo fazê-las comportar-se de determinadas maneiras e não de
outras, torna-se claro que o terror totalitário seria menos eficaz em atingir esse fim do
que qualquer outra forma de terror. O medo não pode ser um guia fiável se aquilo que
constantemente temo me pode acontecer independentemente do que eu faça. (...) Poder-se-ia
dizer (...) que neste caso os meios se transformaram em fins. Mas isto não é, realmente,
uma explicação. É apenas uma confissão, disfarçada de paradoxo, de que a categoria de
meios e fins já não funciona». [45]
O terror é um
processo em espiral, cuja "finalidade" consiste em revelar a superfluidade dos
seres humanos, reduzindo-os a rostos desumanizados, ao anónimo da espécie. Como se
verá, os campos de extermínio confirmam ou, mais ainda, exponenciam, as leis da Natureza
- cujo imperativo consiste no genocídioo - e da História [46] - cujo desenvolvimento
culminaria na extinção do capitalismo e dos inimigos da classe trabalhadora - a que todo
o processo se subordina. [47] Esta é, de resto, « a pretensão monstruosa e, contudo,
aparentemente sem réplica, do regime totalitário que, longe de ser "sem lei",
remonta às fontes da autoridade, de que as leis positivas receberam a sua mais alta
legitimidade; longe de ser arbitrário, está, mais do que nenhum outro antes, submetido a
estas forças sobre-humanas; longe de exercer o poder em proveito de um só homem, está
pronto a sacrificar os interesses vitais imediatos de quem quer que seja à realização
daquilo que pensa ser a lei da História ou a da Natureza». [48] Ora, pela subordinação
a uma necessidade sobre- humana, líderes e seguidores totalitários experimentam um poder
peculiar. [49]
É, de resto, no
contexto do processo gigantesco, do movimento sem fim das leis naturais e históricas,
obnubilação da liberdade, da contingência mesma, em nome da ideologia determinista, que
melhor se há-de compreender a noção arendtiana de "mal radical" como o telos
implícito do totalitarismo, a saber, a transformação da natureza humana - [50] é que,
em situação totalitária, tudo é feito para "estabilizar" os homens, para
impedir qualquer acção, «de modo que o terror como lei do processo possa desenvolver-se
sem obstáculo, sem ser travado por esses homens». [51] Mais tarde abandonado, [52] é
certo, o conceito de mal radical merece, ainda assim, que o precisemos: nas palavras de
Hannah Arendt, « O mal provou ser mais radical do que o esperado. Em termos objectivos,
os crimes modernos não estão previstos pelo Dez Mandamentos. (...) Os maiores males, ou
mal radical, já nada têm a ver com tais motivos pecaminosos, humanamente
compreensíveis. [ ...] Trata-se de tornar os seres humanos enquanto seres humanos
supérfluos (não os usando como meios para um fim, o que deixa a sua essência de humanos
intocada e afecta apenas a sua humana dignidade; antes tornando-os supérfluos enquanto
seres humanos). Isto acontece assim que qualquer imprevisibilidade - que, nos seres
humanos é equivalente à espontaneidade - é eliminada». [53]
Não se trata,
salientemo-lo, nem de desvelar uma concepção de natureza humana desiludida, ou mais ou
menos pessimista, nem de questionar o seu carácter naturalmente bom ou egoísta, [54] mas
de averiguar da existência de limites para o poder humano, concretamente no que toca à
plasticidade do material humano: tal como Arendt o afirma, «É a natureza humana enquanto
tal que está em jogo, e ainda que pareça que tais experiências conseguiram, não mudar
o homem, mas apenas destruí-lo, criando uma sociedade em que a niilista banalidade do
homo hominilupus é realizada com consistência, devemos ter em mente as necessárias
limitações para uma experiência que requer controlo global, de modo a mostrar
resultados conclusivos.» [55]
De que maneira, pois,
pode evidenciar-se o seu carácter único- e este não é, de modo algum, « um ponto de
erudição que pudéssemos tranquilamente abandonar aos "teóricos"» [56] -,
sabendo embora que nem o terror político nem os campos são uma invenção totalitária,
é o que se trata, agora, de esclarecer. Para tal, há-de ser possível resistir a duas
tentações maiores: primeiramente, a de subsumir o estranho no familiar, para que Arendt
alerta quando procede à análise da banalização do uso dos termos «imperialismo» e
«totalitarismo» no discurso popular, da assimilação do totalitarismo à tirania ou à
ditadura: « A afirmação desta equivalência, o reconhecimento aparente, nos
acontecimentos mais recentes, de certas tendências antigas e às quais o tempo concedeu
os seus pergaminhos de nobreza, comporta um motivo de consolação particular e
particularmente eficaz: nada pior do que a agressividade, conhecida de nós desde que a
história existe, nada pior do que a tirania que, em certo sentido, sempre representou a
forma especificamente política da natureza pecadora do homem, vem ameaçar-nos. O
denominador comum que recobrem termos como imperialismo e totalitarismo, quando são
utilizados como termos passe-partout na sua generalidade abstracta, faz sempre papel de
cortina de fumo, atrás da qual se dissimulam os acontecimentos e as formações
políticas verdadeiras». [57] Além disto, deverá ainda recusar-se qualquer explicação
que assimile o fenómeno totalitário a um país particular, sob pena de «minimizar a
nocividade e o carácter sem precedente do totalitarismo, ou de lhe retirar a sua
pertinência para a análise dos problemas políticos contemporâneos». [58] Mais ainda,
numa formulação surpreendente, Arendt rejeita interpretar a Solução Final como o
culminar de uma história de anti-semitismo: « A única consequência directa e não
adulterada dos movimentos anti-semíticos do século XIX não foi o Nazismo, mas , ao
contrário, o Sionismo, que, pelo menos na forma ideológica ocidental, era uma espécie
de contra-ideologia, uma "resposta" ao anti-semitismo». [59]
2. Medo e Terror
Começarei, pois, por
estabelecer a diferença, qualitativamente fundamental, entre tirania e totalitarismo,
decorrente do papel que, nestas formas de governo, assumem o medo e o terror,
respectivamente.
Com efeito, se é
verdade que, apoiada no medo, a tirania procura o isolamento dos seus membros e a
desertificação da esfera pública, também o é que o agir, obedecendo ou evitando
conflitos, continua a ser possivel, se bem que como mero princípio de sobrevivência.
Nesse sentido, afirma
Arendt: « Porque até o medo é, ainda, (de acordo com Montesquieu) um princípio de
acção e, enquanto tal, imprevisível nas suas consequências. (...) O medo é o
princípio dos movimentos humanos neste deserto de companhia [ neighborlessness] e
solidão [ loneliness] ; enquanto tal, contudo, é ainda um princípio que guia as
acções do indivíduo que, assim, retém um mínimo, amedrontado contacto com outros
homens. O deserto em que este homem individual e totalmente atomizado se move, retém uma
imagem, ainda que distorcida, daquele espaço que a liberdade humana requer». [60]
Assim, se é certo que
o isolamento, na tirania, desgasta a capacidade humana para a acção, a esfera privada,
com todas as suas possibilidades, é ainda preservada. Ora, « Nós sabemos que o círculo
de ferro do terror total não deixa espaço a uma tal vida privada, e que o
autoconstrangimento da lógica totalitária destrói no homem a capacidade de experimentar
e de pensar, bem como a de agir». [61]
O terror é, ele
próprio, essência da dominação totalitária: eliminando a liberdade enquanto tal, no
sentido de dar cumprimento aos juízos de morte da História e da Natureza, o terror
totalitário incapacita para a acção. Com efeito, «A partir do momento em que o terror
é total, o próprio medo não é bom conselheiro da conduta a adoptar: porque o terror
escolhe as suas vítimas sem ter em conta as acções e os pensamentos individuais, mas
exclusivamente segundo a necessidade objectiva do processo natural ou histórico. Em
situação totalitária, o medo está, certamente, mais espalhado do que nunca antes; mas
perdeu a sua utilidade a partir do momento em que as acções que inspira já não são
nenhuma ajuda para evitar os perigos temidos pelo homem. A mesma coisa é verdadeira para
a simpatia ou apoio manifestados ao regime; porque o terror total não se contenta com
escolher as suas vítimas segundo critérios objectivos». [62]
Além disso,
entretanto, e dado o seu carácter essencial, deve evitar-se analisar o terror como um
meio de poder político [63] - o terror como essência assume, de algum modo, o estatuto
de fim em si mesmo, o que significa atribuir-lhe, com Arendt, o estatuto de «instrumento
incomparável». [64] É, de resto, neste sentido, que Arendt afirma: « O terror começa
por apagar os limites instituídos pela lei dos homens, mas não o faz em proveito de uma
qualquer vontade tirânica, do poder despótico de um homem contra todos os outros, e
menos ainda para permitir a guerra de todos contra todos. O terror substitui aos limites e
aos modos de comunicação entre os indivíduos uma golilha que os mantém tão apertados
que ficam como que fundidos, como se fossem um». [65]
Em suma, o terror
vaporiza o próprio critério de definição da essência dos governos, a saber, a
alternativa entre legitimidade e arbitrariedade, entre legalidade e ausência de lei e,
assim, a dominação totalitária assume-se como o regime em que o terror é, ele mesmo,
guiado pela lei, quando « o próprio termo de lei mudou de acepção: exprimia o quadro
estável no seio do qual as acções e os movimentos humanos eram supostos ter lugar, era
a sua condição, e veio a constituir a própria expressão desses movimentos». [66]
Deste modo,
inviabilizando a lógica binária do «nós» e «eles», o totalitarismo tem por
princípio o «ninguém está a salvo», pois « Não é nem a favor dos homens nem contra
eles que o terror está instituído. A sua existência tem por função fornecer ao
processo natural ou histórico um instrumento de aceleração incomparável». [67] Em As
Origens do Totalitarismo, Arendt reitera e aprofunda: « Os cidadãos de um país
totalitário são atirados e tomados pelo processo da Natureza ou da História com vista a
acelerar-lhe o movimento; como tal, não podem ser senão os executores ou as vítimas da
lei que lhe é inerente. O curso das coisas pode decidir que aqueles que hoje eliminam
raças e indivíduos, ou os representantes de classes agonizantes e os povos decadentes,
sejam amanhã os que devem ser sacrificados. Aquilo de que tem necessidade o reino
totalitário para guiar a conduta dos seus sujeitos, é de uma preparação que torne cada
um deles apto a desempenhar tanto o papel de carrasco, como o de vítima. Esta
preparação de duas faces, substituto de um princípio de acção, é a ideologia». [68]
Em suma, a dinâmica
totalitária do terror remete-nos para uma forma de governo radicalmente nova, com
finalidades igualmente inauditas: eliminar a capacidade de acção independente dos
indivíduos, pela supressão do espaço entre eles, favorecendo a criação efectiva, mais
do que de um monopólio do poder público, de «Um Homem de dimensões gigantescas» onde
a pluralidade e a concomitante diferença de perspectivas não encontra lugar - [69] «
Abolir as barreiras das leis entre os homens - como o faz a tirania - equivale a suprimir
as liberdades humanas e a destruir a liberdade enquanto realidade política viva; porque o
espaço entre os homens, enquanto delimitado pelas leis, é o espaço vital da
liberdade.(...) Esmagando os homens uns contra os outros (...), [ o totalitarismo]
destrói a única condição essencial a toda a liberdade: simplesmente, a faculdade de se
mover, que não pode existir sem espaço». [70]
É verdade que ambos
os regimes, tirânico e totalitário, aspiram à dominação de uma população privada de
liberdade política. É verdade, também, que em ambos encontramos a convicção de que um
só pode, e deve, velar sobre todas as actividades humanas, sejam elas quais forem.
Contudo, neste ponto em que as semelhanças se acentuam, anuncia-se, irremediavelmente, a
diferença crucial: « Com efeito, Nero, na sua loucura, não desejava ter frente a si
senão uma só cabeça, para que a calma do seu reino não fosse, nunca mais, ameaçada
por uma nova oposição (...), e sabia que isso era impossível. O ditador totalitário,
ao contrário, considera-se como o único chefe do conjunto da raça humana, e não se
preocupa com a oposição senão na medida em que esta deve ser eliminada, antes mesmo que
ele possa reinar pela dominação total. O seu objectivo último não é a tranquilidade
do seu reino, mas [ a reprodução ou interpretação] de certas leis, da natureza ou da
história, que são leis do movimento e que, consequentemente, exigem que constantemente
se tomem medidas e se torne (...) as alegrias seculares da dominação tirânica (...)
impossíveis por definição». [71]
O totalitarismo não
tem, portanto, muito em comum com a tirania, e a mesma distinção pode estabelecer-se
relativamente à ditadura, com a qual, frequentemente, se confundiu. Com efeito, Arendt
não se cansa de salientar que as ditaduras não são totalitárias: o regime de Lenine
apoiava o seu poder no aparelho burocrático do partido; Mussolini prestava um verdadeiro
culto ao Estado; a Espanha de Franco aceitou o apoio e os limites impostos pela Igreja
Católica. [72] Ora, em situação totalitária « nenhum grupo, nenhuma instituição do
país permanecem intactos, não somente no sentido de que devem "articular-se"
com o regime e apoiá-lo do exterior- o que já é grave-, mas no sentido literal em que,
a longo prazo, não são supostos, sequer, sobreviver». [73]
Em suma, o fenómeno
é sem precedente e recusa qualquer tipificação baseada em categorias como as de
causalidade, ânsia de poder ou «ismos» de qualquer ordem, e por isso « O aborrecido
com os regimes totalitários não é que eles manipulem o poder político de uma maneira
particularmente impiedosa, mas que, por trás da sua política, se esconda um conceito
inteiramente novo, sem precedente, da realidade. Supremo desprezo pelas consequências
imediatas mais, do que inflexibilidade; ausência de raízes e negligência dos interesses
nacionais, mais do que nacionalismo; desprezo de uma ordem utilitária, mais do que
perseguição inconsiderada do interesse pessoal; "idealismo", quer dizer, fé
inquebrantável num mundo ideológico fictício, mais do que apetite de poder- -tudo isso
introduziu na política internacional um factor novo, mais perturbador do que o teria sido
a agressividade pura e simples». [74]
3. Totalitarismo e
Anti-Semitismo
No que ao problema do
anti-semitismo diz respeito, escreve Arendt: « Em simples termos de anti-semitismo, não
podemos compreender plenamente nem o destino dos judeus da Europa, nem o estabelecimento
das fábricas da morte. Ambos transcendem o raciocínio anti-semita tanto quanto os
móbiles políticos, sociais e económicos que se escondem atrás da propaganda dos
movimentos anti-semitas. O anti-semitismo apenas preparou o terreno e facilitou, com o
extermínio dos judeus, o de outros povos». [75]
Tendo recusado, como
se viu antes, as potencialidades hermenêuticas da noção de causalidade, no que toca ao
fenómeno totalitário, por que razão faz Arendt preceder o último volume de As Origens
do Totalitarismo, dedicado ao Sistema Totalitário, de dois outros, um consagrado ao
Anti-Semitismo, outro ao Imperialismo? Creio que, convicta embora de que nada do que
acontecera anteriormente pode ser entendido como conduzindo inevitavelmente ao
totalitarismo, Arendt considerava que a propagação do anti-semitismo, do imperialismo e
das políticas racistas que este executou, tudo contribuiu para a possibilidade do milagre
negro, que agora era preciso compreender: « Como todas estas correntes subterrâneas só
se revelaram na ocasião da catástrofe final, que as juntou, teve-se tendência a
assimilar o totalitarismo aos seus elementos constitutivos e às suas origens, como se
toda a explosão de anti-semitismo, de racismo ou de imperialismo pudesse ser uma
manifestação de "totalitarismo". Este erro é tão perigoso para a
investigação da verdade histórica como para o julgamento político. A política
totalitária- longe de ser simplesmente anti-semita, ou racista, ou imperialista, ou
comunista- usa e abusa dos seus próprios elementos ideológicos e políticos, a ponto de
a base concreta que tinha fornecido às ideologias a sua força e o seu valor de
propaganda- a realidade da luta de classes, por exemplo, ou os conflitos de interesses
entre os judeus e os seus vizinhos- quase ter desaparecido». [76]
Na sua incomensurável
perversidade, o totalitarismo esconde uma razão, segue uma lógica que, contudo, nos
termos em que Ben-Gurion a formulou, por altura do caso Eichmann, Arendt não poderá
senão rejeitar como farsa, como a mais hipócrita lição que Judeus, Árabes Israelitas
e Gentios poderiam tirar da história negra que constituiu o Holocausto: «Havia a lição
para o mundo não- -judeu: "queremos estabelecer perante as nações do mundo como
milhões de pessoas, porque eram judeus, um milhão de crianças, por serem crianças
judias, foram assassinados pelos nazis. (...) Queremos que as nações do mundo saibam
(...) e se envergonhem". Os judeus da Diáspora deviam lembrar-se como o judaísmo,
"durante quatro mil anos, com as sua criações espirituais, as suas lutas éticas,
as suas aspirações Messiânicas" tinha sempre feito face a um "mundo
hostil", como os judeus tinham degenerado até caminharem para a própria morte como
cordeiros, e como apenas o estabelecimento de um Estado judeu teria permitido aos judeus
ripostarem, como os Israelitas tinham feito na Guerra da Independência, na aventura do
Suez, e nos quase diários incidentes das infelizes fronteiras de Israel. E se aos judeus
fora de Israel tinha de ser mostrada a diferença entre o heroísmo israelita e a dócil
submissão judia, isto era uma lição também para os que estavam dentro de Israel:
"a geração de israelitas que cresceram desde o Holocausto" estavam em risco de
perder os seus laços com o povo judeu e, por implicação, com a sua própria história.
"É necessário que a nossa juventude lembre o que aconteceu ao povo judeu. Queremos
que conheçam os mais trágicos factos da nossa história". (...) Em alguns aspectos,
as lições eram supérfluas. Noutros, completamente enganadoras». [77]
Com efeito, a amarga
ironia com que rejeita as lições de Ben-Gurion, já em As Origens do Totalitarismo as
explicara; como se verá a propósito da sua temporária ligação ao Sionismo- convicta
umas vezes, outras reticente-, o que estava em causa era contestar um certo modo de
conceber a história do povo judeu como «uma continuidade ininterrupta de perseguições,
expulsões e massacres desde o fim do Império Romano até à Idade Média, da era Moderna
até aos nossos dias, frequentemente embelezada pela ideia de que o anti- -semitismo
moderno não é senão uma versão secularizada das superstições populares medievais.»,
[78] que Arendt considera tão falaciosa quanto o mito anti- -semita da secreta
dominação do mundo, por parte dos Judeus, desde a Antiguidade.
Assim, pois, se
queremos compreender o motivo pelo qual o anti-semitismo pôde tornar-se um elemento
fundamental das ideologias maiores do século XX, há que desmontar, antes de mais,
algumas explicações mais clássicas: «Este livro- escreve no volume de As Origens...
dedicado ao anti-semitismo- constitui uma tentativa de compreensão de factos que, ao
primeiro olhar, e até ao segundo, pareceriam simplesmente revoltantes. Compreender,
entretanto, não significa negar o que é revoltante e não consiste em deduzir a partir
de precedentes o que é sem precedente. (...) Compreender, numa palavra, consiste em olhar
a realidade de frente, com atenção, sem ideia preconcebida, e resistir à necessidade
dela, qualquer que seja ou pudesse ser esta realidade». [79]
Neste sentido, Arendt
fundamentará a sua recusa das explicações até então usadas para a explicação do
surgimento da máquina infernal, mostrando, por um lado, que constituem respostas
improvisadas à pressa para suprir a falta de sentido e de razão dos acontecimentos sem
precedente que pretendem explicar e, por outro, que todas coincidem numa fuga à
realidade, numa rejeição da responsabilidade que os próprios judeus teriam tido no
curso dos acontecimentos. [80]
Assim, pois, a
primeira interpretação a contestar é a que identifica o anti-semitismo com um
nacionalismo latente manifesto em explosões de xenofobia; ora «Os factos mostram,
infelizmente, que o anti-semitismo moderno aumentou à medida que o nacionalismo
tradicional declinava; o seu apogeu coincidiu exactamente com o colapso do sistema europeu
dos Estados-nação e a ruptura do equilíbrio precário dos poderes que daí resultou».
[81]
Com efeito, a
história mostra (concretamente os estudos de Tocqueville relativos ao ódio do povo
francês pela aristocracia, na altura da Revolução) que os homens toleram mais
facilmente o poder- mesmo na figura da opressão- ao qual reconhecem alguma utilidade, do
que a riqueza sem poder, associada a privilégios parasitas e intoleráveis. Assim, do
mesmo modo que os aristocratas franceses foram mais odiados numa altura em que já não
detinham o poder mas mantinham a sua riqueza, também o caso Dreyfus explode, não quando
os judeus franceses estavam no apogeu do seu poder, «mas sob a terceira República,
quando os judeus tinham quase desaparecido dos lugares importantes.», [82] e também o
anti-semitismo exasperou-se «no momento em que os judeus tinham perdido as suas funções
públicas e a sua influência, não conservando senão a sua riqueza». [83]
Mais, a hipótese do
nacionalismo não circunscreve o que animava a ideologia nazi, que se confessava, ela
própria, um «movimento» mais importante do que o Estado.
Em suma, « O declínio geral dos judeus na Europa
ocidental e central não é senão o pano de fundo dos acontecimentos que se seguiram.
Este declínio não explica, por si só, os factos, do mesmo modo que a simples perda de
poder da aristocracia não explica a Revolução Francesa. É preciso, simplesmente,
lembrar estas leis gerais para refutar os argumentos de simples bom senso que nos levam a
crer que um ódio violento ou uma revolta súbita são sempre uma reacção contra um
poder imenso e abuso manifesto, e que, consequentemente, o ódio desencadeado
sistematicamente contra os judeus é forçosamente uma reacção contra a sua influência
e o seu poder». [84]
Entretanto, a teoria
que supõe a absoluta ausência de poder dos judeus, e que os converte nos eternos bodes
expiatórios sobre os quais se faria recair toda a responsabilidade pelos conflitos
generalizados e insolúveis do seu tempo, não é menos falaciosa: esta teoria «implica
que o bode expiatório poderia ter sido qualquer um. Supõe a inocência perfeita da
vítima, uma inocência tal que não somente a vítima não causou nenhum mal, mas também
que não fez nada que tenha a mínima relação com o problema em jogo». [85] Ora, lembra
Arendt, muito antes de o terror ter varrido todas as distinções entre culpados e
inocentes, os judeus já estavam no centro da ideologia nazi, e uma ideologia, que tem que
persuadir e mobilizar as pessoas, não pode escolher a sua vítima arbitrariamente.
Escreve, em Eichmann em Jerusalém: «É falso que tenhamos sido em toda a parte e sempre
essencialmente vítimas inocentes. Mas, se tal fosse o caso, seria aterrorizante, pois
isso excluir-nos-ia definitivamente da história da humanidade, como todos os outros
perseguidos». [86]
Radicalmente oposta à
teoria do bode expiatório, aparece a doutrina do «eterno anti-semitismo», segundo a
qual nenhuma explicação especial é necessária para um ódio de mais de dois mil anos.
O mais surpreendente,
contudo, não é que esta interpretação tenha sido rapidamente adoptada pelos
anti-semitas, nomeadamente enquanto álibi para o horror; «O mais surpreendente, nesta
ideia de um eterno anti-semitismo, é que ela foi adoptada por um grande número de
historiadores objectivos, e por um número ainda maior de judeus. É esta curiosa
coincidência que torna a teoria tão perigosa e própria a gerar a confusão». [87] De
algum modo, estamos perante um prolongamento e uma modernização, ainda que invertidos,
do mito da eleição, ao que acresce o fenómeno da assimilação e concomitante perda de
valores religiosos e espirituais: «O que se passou, de facto, é que uma grande parte do
povo judeu se encontrou ao mesmo tempo ameaçada do exterior, de extinção física, e de
desintegração interna. Em tais condições, era normal que os judeus, preocupados com a
sobrevivência do seu povo, viessem a pensar que, antes de mais, o anti-semitismo poderia
ser um excelente meio de manter a unidade do povo judeu; foi um erro desesperado mas, no
imediato, consolador, uma vez que parecia que esse dito anti-semitismo eterno garantiria
ao povo judeu uma existência eterna». [88]
Em suma, se Arendt
considera que a consequência directa do anti-semitismo é o sionismo e não o nazismo, é
porque rejeita, simultaneamente, a causalidade e a contingência, em história. A sua
desconfiança recai, assim, sobre todas as ideias geralmente aceites que pretendem
explicar tendências inteiras da história.
Reflectir sobre o mal
é, então, enfrentar e assumir a novidade que o fenómeno totalitário protagoniza; é,
além disso, questionar a filosofia - concretamente a filosofia política - confrontados
que somos, no séc. XX, com um acontecimento que «pulverizou manifestamente as nossas
categorias morais assim como os nossos critérios de juízo morais». [89]
O fenómeno da
dominação totalitária e as várias formas de des-razão que aí irrompem levarão
Arendt a questionar, não só a crença no progresso das formas de relação entre os
homens, [90] como a própria acção, que agora revelava o mal como sua dimensão
essencial: « É aparição de um mal radical, desconhecido de nós anteriormente, que
põe termo à ideia de que os valores evoluem e se transformam. Aqui, não há critérios
nem políticos nem históricos, nem simplesmente morais, mas no máximo a tomada de
consciência de que há, talvez, na política moderna qualquer coisa que não deveria
nunca ter-se encontrado na política, no sentido usual do termo, a saber, o tudo ou
nada». [91]
É, pois, do próprio
interior das relações humanas que surge a possibilidade da degenerescência, quer dizer,
a possibilidade de um desregramento sistemático e pretendido; é a acção que se vira
contra o que ela própria é, enquanto acção livre. [92] Com efeito, « (...) a
manifestação dos princípios não se produz senão pela acção (...). Os princípios
neste sentido são: a honra, a glória, o amor da igualdade a que Montesquieu
chamava virtude- a distinção ou excelência (...), mas também o medo, a desconfiança
ou o ódio. A liberdade ou o seu contrário aparecem no mundo cada vez que tais
princípios são actualizados .» [93] É, enfim, ao nível da própria inteligibilidade
da acção, no plano do querer, que um desconhecido nos interpela, rosto obscuro a
confrontar e a compreender. [94]
«Para combater o
totalitarismo escreve Arendt- basta compreender isto: ele representa a negação
mais absoluta da liberdade». [95] O modo como, em qualquer um dos casos que passarei a
analisar, a negação da liberdade resulta sempre numa exclusão do mundo, mostrará como
Arendt questiona, mais do que a dimensão moral do Mal, a sua dimensão política.
PARTE II
Mal, Mundo,
Liberdade
CAP. I
As Figuras do Mal
Na filosofia
arendtiana, o mal enquanto figura da ausência de mundo e de liberdade aparece associado a
três fenómenos mais gerais: o recuo pré-moderno (de raiz grega, romana e
cristã) por relação à esfera política e a concomitante valorização do pensamento,
recusa da humana condição da publicidade em favor da contemplação filosófica; a
valorização moderna do eu, da intimidade e do privado, contra a dimensão
política e pública da existência humana; a dominação totalitária enquanto forma de
governo aniquiladora do mundo, que reduz à ficção da ideologia.
São estes fenómenos
que passarei a tematizar.
1. O Mal como necessidade
«Nada afasta alguém de maneira mais
radical do mundo do que a exclusiva concentração na vida do corpo, concentração
obrigada na escravidão ou na dor insuportável. (
) A única actividade que
corresponde estritamente à experiência de não-mundaneidade, ou melhor, à perda do
mundo tal como ocorre na dor, é o labor (
)»
Hannah Arendt, A Condição Humana
Que a necessidade é
um mal, os Gregos sabiam-no: « A instituição da escravatura, na Antiguidade, ainda que
não nos últimos tempos, não era um recurso para obter trabalho barato ou um instrumento
de exploração em benefício dos donos, mas a tentativa de excluir o labor das
condições de vida do homem. O que os homens partilhavam com as outras formas de vida
animal não se considerava humano (...). E a verdade é que está plenamente justificado o
uso da palavra "animal" no conceito de animal laborans, para diferenciá-lo do
muito discutível uso da mesma palavra na expressão animal rationale.» [96]
Com efeito, os
processos biológicos do corpo fazem-nos partilhar com os restantes organismos vivos do
afã de produzir o vitalmente necessário. E se o poder do laborar, em rigor, consiste em
ser capaz de produzir mais do que os bens necessários para a sua própria sobrevivência,
esta «produtividade», contudo, « não é mais do que outro modo do "crescei e
multiplicai-vos" no qual, por assim dizer, a própria voz da natureza nos fala.»,
[97] uma natureza que é indiferente à sorte da individualidade.
De facto, Arendt não
se cansa de salientar que, enquanto integrante da Zoe, o homem não aparece senão
enquanto membro da espécie, pelo que não é ainda indivíduo. [98] Como se de um
estádio primitivo e infra-humano do existir se tratasse, confrontamo-nos com o sem limite
da indiferenciação- o «indivíduo» orgânico constituinte da Zoe, está submetido
àquilo a que Arendt chama uma «circularidade natural», ou seja, o homem é
verdadeiramente da natureza, pertence-lhe totalmente. [99]
O labor é a mais
natural e menos mundana das actividade do homem- «De todas as actividades humanas, só o
labor, não a acção nem o trabalho, é interminável, e progride de maneira automática
e em consonância com a própria vida e à margem das decisões ou propósitos humanamente
intencionados». [100] E porque o processo da vida se localiza no corpo, o labor é
actividade ligada à vida por excelência. Ora, é à necessidade que o homem deve ser
capaz de opor o seu poder de começar, isto é, a sua contingência, porquanto a vida
humana - se se quer humana - deve confrontar o natural, elevar-se acima dele e vencer:
[101] « A "natureza" do homem não é "humana" senão na medida em
que se abre ao homem a possibilidade de se tornar qualquer coisa não-natural, a saber, um
homem». [102]
Do mesmo modo que homo
laborans e homo faber dispõem do corpo de formas inteiramente distintas- aquele em
subordinação à necessidade, este em liberdade criativa- também a não-mundaneidade do
laborante nada tem a ver com a fuga voluntária e activa à publicidade do mundo que as
«boas obras» requerem: «O animal laborans não foge do mundo, é expulso dele enquanto
está encerrado no privado do seu próprio corpo, encurralado no cumprimento de
necessidades que ninguém pode partilhar e que ninguém pode comunicar plenamente». [103]
Opor à necessidade a
contingência é, finalmente, confrontarmo-nos com o problema da temporalidade: enquanto
imerso nos processos naturais, sejam eles cósmicos- da physis- ou da Zoe, o ser humano
está perante o sem fim, pelo que, afinal, a distinção entre processos cósmicos e
terrestres não assume grande significação. Em ambos os casos, portanto, a ausência da
noção de relação, que resulta da total pertença a um continuum material e atemporal.
[104]
Ora, escreve Arendt em
A Condição Humana: « A vida é um processo que em todas as partes consome o durável,
desgasta-o, fá-lo desaparecer, até que finalmente a matéria morta, resultado de
pequenos, singulares e cíclicos processos da vida, retorna ao total e gigantesco círculo
da natureza, no qual não existe começo nem fim e onde todas as coisas naturais giram em
imutável e imortal repetição. A natureza e o cíclico movimento em que esta obriga a
entrar todas as coisas vivas, desconhecem o nascimento e a morte tal como os
entendemos».[105] O tempo, pois, aparece como uma categoria exclusivamente humana,
resultado da afirmação do homem enquanto indivíduo distinto do que o rodeia. Neste
sentido, a natureza está fora do tempo, imersa numa periodicidade cíclica a que Arendt
chama imortalidade natural, imortal eternidade do humano e das outras espécies animais,
«duração, vida sem morte nesta terra, neste mundo, tal como se concedeu, segundo o
pensamento grego, à natureza e os deuses do Olimpo». [106] Já em O Conceito de
História, Arendt salientava que « Todas as criaturas vivas, o homem incluído, estão
contidas neste ser-para-sempre, e Aristóteles assegura explicitamente que o homem,
enquanto ser natural e pertencente à espécie humana, possui imortalidade; através do
recorrente ciclo da vida, a natureza assegura o mesmo tipo de ser-para-sempre tanto a
coisas que nascem e morrem como a coisas que são e não mudam. "Ser para criaturas
vivas é Vida" e ser-para-sempre (a e i e n a i ) corresponde a a e i g e n e V ,
procriação». [107]
É neste sentido que
apenas os homens são mortais, porquanto apenas eles se constituem como algo mais que
membros de uma espécie, a saber, como indivíduos. Assim, pois, « A mortalidade do homem
radica no facto de que a vida individual, com uma história reconhecível desde o
nascimento até à morte, surge da biológica. Esta vida individual distingue-se de todas
as outras coisas pelo curso rectilíneo do seu movimento, que, por assim dizer, corta o
movimento circular da vida biológica. A mortalidade é, portanto, seguir uma linha
rectilínea, num universo onde tudo o que se move, o faz numa ordem cíclica». [108]
O trabalho dos nossos
corpos, por outro lado, assume-se, em rigor, como um «misturar-se com», uma vez que o
reverso do labor é o consumo. Por esta razão, « Quando Marx definiu o labor como
"o metabolismo do homem com a natureza" (...) indicava com clareza que
"falava fisiologicamente" e que labor e consumo não são mais do que duas
etapas do sempre repetido ciclo da vida biológica». [109]
Na medida em que
participa do ciclo vital, o labor produz para consumir, produz apenas vida e só
incidentalmente objectos, pelo que não deixa atrás de si nenhum produto durável- neste
sentido, «as coisas menos duradouras são as necessárias para o processo da vida. O seu
consumo apenas sobrevive ao acto da sua produção. (...) Após curta permanência no
mundo, retornam ao processo natural que as produziu (...) em consonância com o sempre
repetido ciclo da natureza». [110]
É, pois, o puro
funcionalismo dos bens de consumo que remete para o Eclesiastes: «Não há nada de novo
sob o sol. (...) Não ficaram lembranças de outrora». [111] Este aspecto devorador e
destrutivo do labor, contudo, só se evidencia de um ponto de vista outro que não o do
labor mesmo, a saber, do ponto de vista do mundo, do ponto de vista da história.
Ora, « O mundo, o lar
levantado pelo homem na Terra e feito com o material que a natureza terrena entrega às
mãos humanas, é formado não por coisas que se consomem, mas por coisas que se usam. Se
a natureza e a Terra constituem, no geral, a condição da vida humana, então o mundo e
as coisas dele constituem a condição sob a qual esta vida, especificamente humana, pode
estar no lar sobre a Terra».[112] Esta passagem remete-nos, afinal, para aquele que é,
de acordo com Arendt, o verdadeiro summum malum, a saber, a privação dos seres humanos
do seu mundo.
Compreender,
finalmente, a pré-moderna perda de mundo (bem como a mesma perda na modernidade e
contemporaneidade, como veremos nos pontos a seguir) requer, portanto, que explicitemos as
relações entre natureza e história, tal como a Grécia de Homero as entendia, primeiro,
e com as alterações que a partir de Parménides se anunciaram, depois; e requer,
também, uma referência ao papel desempenhado, neste contexto, por Roma e pelo
Cristianismo.
A preocupação pela
grandeza, tão evidente na poesia e historiografia gregas, remete-nos para a relação
existente entre os conceitos de natureza e história, que de modo algum constituiu uma
oposição, porquanto o seu denominador comum se encontra na preocupação pela
imortalidade. Assim, pois, «A história recebe na sua memória aqueles mortais que,
através de feitos e palavras, provaram-se dignos da natureza, e a sua fama perpétua
significa que eles, apesar da sua mortalidade, podem permanecer na companhia das coisas
que duram para sempre». [113]
Aqui, entretanto, o
paradoxo porventura o mais relevante da cultura grega - solicita uma reflexão
adicional: para os gregos, tudo era, por um lado, visto e medido por contraponto com as
coisas que duram para sempre e, por outro, a grandeza humana residia, precisamente- para
os gregos pré-platónicos, salientemo-lo- nas actividades mais fúteis e perecíveis, os
feitos e as palavras, de que Ulisses constituiria, para sempre, a mais bela e mais
eloquente expressão.
Ora, a inicial
solução para este problema foi poética, e consistiu «na fama imortal que os poetas
podiam conceder à palavra e ao feito para os fazer sobreviver ao fútil momento de
discurso e acção e até à vida mortal do seu agente». [114] Quer dizer, para a Grécia
dos poetas, é do compromisso com a concreta realidade da esfera dos assuntos humanos, e
com a vida política em particular, é da assunção da contingência, da insegurança
efémera, da demasiado humana fragilidade de tudo o que à vida dos homens sobre a terra
diz respeito, é, enfim, do elogio da finitude - e não do poder do pensamento que
encontrou na alienação do mundo a sua grandeza - que pode surgir ainda um destino
imortal.
Com Platão, contudo,
e numa viragem já preparada por Parménides e Sócrates, o desejo de imortalidade
individual é abandonado: equiparando o desejo de fama imortal ao natural desejo de ter
filhos, o desejo de imortalidade individual é substituído, na filosofia política de
Platão, pelo da imortalidade da espécie. E é neste sentido, enfim, que o original
sentido da grandeza dos mortais, distinta da dos deuses e da natureza, se perdeu: o
movimento histórico, entendido como a interrupção violenta com que as actividade
humanas ferem aquilo que, na ausência de mortais, seria eterno, entendido, por outras
palavras, como figura do extraordinário, passara a construir-se à imagem da vida
biológica.
O velho paradoxo,
enfim, «foi resolvido pelos filósofos negando ao homem não a capacidade de se
"imortalizar", mas a capacidade de se medir a si mesmo e aos seus feitos contra
a grandeza perpétua do cosmos, de conciliar a imortalidade da natureza e dos deuses com
uma imortal grandeza dele próprio. A solução aconteceu claramente a expensas do
"fazedor de grandes feitos e orador de grandes palavras"». E foi também o
"fazedor de grandes feitos e orador de grandes palavras" - [115] e até a
imortalidade mental experimentada pelo filósofo que o Cristianismo sacrificou.
[116] Com efeito, «A "boa nova" cristã sobre a imortalidade da vida humana
individual inverteu a mais antiga relação entre o homem e o mundo, e elevou a coisa mais
mortal, a vida humana, à posição da imortalidade, até então ocupada pelo cosmos».
[117] Ora, com a sacralização da vida e, mais precisamente, da vida individual,
que ocupa agora o posto que tivera, outrora, a vida do corpo político - adviriam
consequências desastrosas para a dignidade da vida política, no que concerne,
concretamente, ao desiderato de imortalidade mundana que a caracterizou. E foi, enfim, a
ênfase cristã na sacralidade da vida, que «tendeu a nivelar as antigas distinções e
articulações dentro da vita activa; tendeu a considerar igualmente sujeitos à
necessidade da vida presente o labor, o trabalho e a acção. Ao mesmo tempo, ajudou a
libertar a actividade laboral, quer dizer, qualquer coisa que seja necessária para manter
o processo biológico, do desprezo que por ela sentia a antiguidade». [118]
A tradição romana,
enfim, concretamente a filosofia estóica, resultara também numa alienação do mundo
que os romanos haviam experimentado em ruína, pelo colapso de todas as estruturas
mundanas-, não pela grega transcendência do mundo das aparências, certamente, mas pela
radical retirada do mundo e da própria contemplação, em direcção ao «interior» da
consciência, onde as «impressões» dos objectos se formam, alheias ao mundo exterior,
razão pela qual o pensador emerge, afinal, mais real que o próprio mundo. Assim, «O
pensamento tornou-se techné, domínio técnico de um género particular que podemos
talvez julgar o mais avançado - em todo o caso aquele cuja necessidade é mais urgente,
uma vez que é com o que se retira dele que se organiza a vida. Não se trata de vida no
sentido de bios theoretikos ou politikos, de vida consagrada a uma actividade particular,
mas daquilo a que Epicteto chama "acção"- acção que não se faz em uníssono
com o que quer que seja, que não modifica senão o eu, que se não torna manifesta senão
através da apatheia ou ataraxia do "sábio", quer dizer, a recusa de reagir bem
ou mal ao que quer que possa acontecer-lhe». [119] E, portanto, se algo existe, depende
da decisão de o reconhecer ou não como real, sendo que esta possibilidade de «pôr-
entre- parêntesis» a realidade deve-se, não à vontade, mas à natureza mesma do
pensamento, da consciência, que permite às actividades mentais concentrarem-se em si
próprias.
Neste sentido, «O
truque descoberto pela filosofia estóica é o de se servir do espírito de tal modo que a
realidade não atinge aquele a quem ele pertence; mesmo quando este homem não se retira
da realidade; em vez de se pôr, através do pensamento, longe de tudo o que está
presente e próximo, ele atrai a si todos os fenómenos e a sua "consciência"
torna-se um substituto completo do mundo exterior, apresentado sob a forma de impressão
ou imagem». [120]
Em suma, pois, « A
queda do Império Romano demonstrou visivelmente que nenhuma obra saída de mãos mortais
pode ser imortal, e essa queda foi acompanhada pelo crescimento do Evangelho cristão, que
predicava uma vida individual imperecível e que passou a ocupar o lugar de religião
exclusiva da humanidade ocidental. Ambos tornaram fútil qualquer luta por uma
imortalidade terrena. E conseguiram tão eficazmente converter a vita activa e o bios
politikos em assistentes da contemplação, que nem sequer o surgimento do secular, na
Idade Moderna, e a concomitante inversão da hierarquia tradicional entre acção e
contemplação, chegou para salvar do esquecimento a luta pela imortalidade, que
originalmente tinha sido fonte e centro da vita activa». [121]
Pode compreender-se,
enfim, quão distantes nos encontramos, hoje, da original compreensão grega da relação
entre natureza e história; remetendo para Rilke [ Berge ruhn, von Sternen überprächtigt;
/ aber auch in ihnen flimmert Zeit. / Ach, in meinem wilden Herzen nächtigt/ obdachlos
die Unvergänglichkeit] , [122] escreve Arendt: « Se olharmos estas linhas com olhos
gregos, é quase como se o poeta tivesse tentado conscientemente inverter as relações
gregas: tudo se tornou perecível, excepto talvez o coração humano; a imortalidade já
não é o meio no qual os mortais se movem, mas levou o seu refúgio sem lar para o
coração mesmo da mortalidade; coisas imortais, trabalhos e feitos, acontecimentos e até
palavras - apesar de os homens poderem ainda exteriorizar, reificar a recordação dos
seus corações - perderam o seu lar no mundo; uma vez que o mundo, uma vez que a natureza
é perecível, e uma vez que as coisas feitas pelo homem, uma vez vindo a ser, partilham o
destino de todos os seres - começam perecendo no momento em que vieram à existência».
[123]
Ao recuperar a tensão
entre o durável e o efémero, o pensamento arendtiano assume um perfil trágico que nos
permite situá-lo, sem nostalgia, na melhor tradição poética e historiográfica gregas.
[124]
«Sem tirar as coisas das mãos da
natureza, e sem se defender dos naturais processos de crescimento e decadência, o animal
laborans não poderia sobreviver. Mas sem se sentir a gosto no meio das coisas cujo
carácter duradouro as torna adequadas para o uso e para erigir um mundo cuja própria
permanência está em directo contraste com a vida, esta vida não seria humana.»
Hannah Arendt, A Condição Humana
O mundo é, antes de
mais, o espaço que as mãos humanas resgatam aos processos automáticos [125] e, nesse
sentido, ele é, primordialmente, uma transcendência. [126] Com efeito, « Sem um mundo
em que os homens nasçam e morram, só existiria a imutável e eterna repetição, a
imortal eternidade do humano e das outras espécies animais. (...) Só dentro do mundo
humano o cíclico movimento da natureza se manifesta como crescimento e decadência».
[127]
As coisas do mundo
estão, também elas, condenadas a decair, mas o seu fim não é a destruição inerente
às coisas de consumo, até porque podem substitui-se com a passagem das gerações, e
assim, possuem uma «relativa independência por relação aos homens que as produzem e
usam, [ uma] "objectividade" que as faz suportar, "resistir" e
perdurar, pelo menos por um tempo, às vorazes necessidades e exigências dos seus
fabricantes e usuários. Deste ponto de vista, as coisas têm a função de estabilizar a
vida humana». [128]
Ora, o mundo, na sua
permanência e durabilidade, é a condição da existência humana enquanto, precisamente,
humana. «Nós somos do mundo- -escreve Arendt- e não apenas no mundo»-, o que implica,
em igual medida, que, tal como a existência humana não é possível sem coisas, também
as coisas se constituem como condição dessa existência, sob pena de se reduzirem a um
não-mundo de artigos não relacionados.
Assim, pois, « Se o
animal laborans precisa da ajuda do homo faber para facilitar o seu labor e aliviar o seu
esforço, e se os mortais necessitam da sua ajuda para erigir um lar sobre a Terra, os
homens que actuam e falam precisam da ajuda do homo faber na sua mais elevada capacidade,
isto é, da ajuda do artista, de poetas e historiadores, de construtores de monumentos ou
de escritores, já que sem eles o único produto da sua actividade, a história que
estabelecem e contam, não sobreviveria. Com o fim de que o mundo seja o que sempre se
considerou que era, um lar para os homens durante a sua vida na Terra, o artifício humano
há-de ser o lugar apropriado para a acção e o discurso. (...) Não é necessário
escolher entre Platão e Protágoras, ou dizer se há-de ser o homem ou um deus a medida
de todas as coisas; o certo é que a medida não pode ser nem a acossante necessidade da
vida, nem o instrumentalismo utilitário da fabricação e do uso». [129]
Este mundo, portanto,
não é idêntico à Terra ou à Natureza: [130] « antes está relacionado com os
objectos fabricados pelas mãos do homem, assim como com os assuntos dos que habitam
juntos no mundo feito pelo homem. (...) O mundo, com tudo o que está no meio, une e
separa os homens ao mesmo tempo. A esfera pública, tal como o mundo comum, junta-nos e,
não obstante, impede que caiamos uns sobre os outros, por assim dizer». [131]
Ser privado de mundo
equivale, consequentemente, a ser privado do espaço da aparência, onde cada um é visto
e ouvido por todos, equivale, nas palavras de Heráclito, a ser algo que «passa como um
sonho, que não tem qualquer realidade». [132]
2.1 Da descoberta da América a
Galileu
Ora, três eventos
essenciais, considera Arendt no último capítulo de A Condição Humana, estão no limiar
da idade moderna e da perda de mundo que lhe esboça o perfil: a descoberta da América, o
movimento da Reforma, a invenção do telescópio.
Mais do que pela
abertura do Novo Mundo, da secularização ou da confirmação da teoria copernicana, que
estes acontecimentos, respectivamente, determinaram, é o seu protagonismo na moderna
alienação do mundo que a Arendt interessa esclarecer.
Neste sentido, o que
de mais significativo se pode recolher da descoberta da América, consiste na
possibilidade que ofereceu ao ser humano de conceber a Terra como objecto, que
circunscreveu, cuja lonjura reduziu às dimensões da palma de uma mão, e da qual,
portanto, pôde alienar-se, em ordem à sua descrição que indicia, afinal, a sua
conquista. Com efeito, «Nada poderia ter sido mais estranho ao propósito dos
exploradores e circumnavegantes da primeira Época Moderna do que este processo final;
eles iam ampliar a Terra, não reduzi-la, e quando se submeteram ao apelo do distante,
não tinham a intenção de abolir a distância. Só a sabedoria da percepção tardia vê
o óbvio, que nada pode permanecer imenso se se pode medi-lo, que toda a panorâmica junta
partes distantes, e portanto estabelece a contiguidade onde dantes imperava a
distância». [133] E assim, os mapas e as cartas de navegação antecipavam as
invenções posteriores, que reduziriam a Terra a um pequeno espaço ao alcance da mão.
A Reforma, por seu
turno, porquanto marcou o início do processo de expropriação de propriedades, é
também figura da alienação: privando milhões de indivíduos do seu «lugar no mundo»,
preparou o terreno às expropriações futuras e à acumulação de riqueza típicas da
economia capitalista. Com efeito, é na Reforma que radica a depois irremediável
indiferenciação entre as esferas privada e política, que se deveu ao aparecimento do
social é na sequência das expropriações, e da concomitante substituição da
família e da propriedade pela solidariedade social, que o modelo orgânico se instala,
esboçando condições segundo as quais a liberdade política não pode existir: «A nova
classe laboral (...) não só permaneceu sob a urgência da necessidade, como ao mesmo
tempo ficou alheada de todos os cuidados e preocupações que não eram resultado imediato
do próprio processo da vida». [134]
Com a expropriação,
em suma, as urgências inerentes ao processo vital, e a essencial homogeneização que
decorre da redução da actividade humana à luta pela sobrevivência, esboçam as
condições necessárias à emergência da sociedade de massas. « A ascensão do social
escreve Arendt em A Condição Humana determinou o declínio simultâneo das
esferas pública e privada. Mas o eclipse de um mundo comum público, tão determinante na
formação do solitário homem de massa e tão perigoso para a formação da mentalidade
a-mundana [ worldless] dos modernos movimentos ideológicos de massa, começou com a muito
mais tangível perda de um lugar privadamente possuído no mundo». [135] Com a ascensão
do social, portanto, a tónica deslizou do mundo para a natureza, e é este deslize,
afinal, que está na base das críticas de Hannah Arendt à filosofia de Marx. [136]
Surpreendente,
entretanto, é «a semelhança na mais distante divergência. Porque esta alienação do
interior mundano nada tem que ver, em intenção e conteúdo, com a alienação da Terra
inerente à descoberta e posse da Terra. Mais ainda, a alienação do interior mundano
(...) não está só presente na nova moralidade que surgiu das tentativas de Lutero e de
Calvino de restaurar a inflexível ultramundaneidade da fé cristã; também está
presente, se bem que a um nível completamente diferente, na expropriação do
campesinato, que foi a imprevista consequência da expropriação da propriedade da Igreja
e, como tal, o maior factor do derrube do sistema feudal». [137]
A invenção do
telescópio, finalmente, para além de demonstrar quão fundamentado podia estar, afinal,
o receio relativamente aos dados dos sentidos, abria caminho ao ponto de vista universal
da ciência moderna, definia a necessidade de se encontrar um ponto de vista fora do
universo, um ponto de vista que reduz a Terra, também ele, a apenas um objecto mais. E a
filosofia cartesiana, afinal, constituiria a resposta filosófica ao padrão absoluto
introduzido pela ciência, e completaria a retirada arquimediana com o recolhimento ao eu,
substituto possível da certeza -perdida - de um mundo à medida dos nossos sentidos. Por
outras palavras, o cepticismo metódico do omnibus dubitandum est cartesiano, partilha com
as ciências universais a desconfiança relativamente à fiabilidade dos sentidos e,
portanto, a assunção de que o que é verdadeiro e inquestionável deve a sua descoberta
ao pensamento. [138] Em suma, «O moderno ponto de vista do mundo astrofísico, que
começou com Galileu, e o seu desafio à suficiência dos sentidos para revelar a
realidade, deixou-nos um universo de cujas qualidades só conhecemos a maneira como
afectam os nossos instrumentos de medida. (...) No lugar de qualidades objectivas noutros
mundos encontramos instrumentos, e em vez da natureza ou do universo copiamos as
palavras de Heisenberg o homem só se encontra consigo mesmo». [139]
Ora, e este é um
ponto crucial no nosso percurso, uma vez que já não é o mundo, nem sequer a relação
do sujeito ao mundo ou dos sujeitos entre si, que está em causa, a filosofia cartesiana
introduz um ponto de vista que proclama a vida e a sua fertilidade como o bem mais
precioso. Reflectindo o espírito da dúvida, a filosofia moderna manifesta-se como perda
de confiança na crença cristã da imortalidade individual e como reconhecimento de que a
verificação da realidade e da verdade depende dos processos cognitivos eles mesmos. É
neste sentido que «a questão da certeza seria decisiva no desenvolvimento da moralidade
moderna. O que se perdeu na Época Moderna não foi a apetência pela verdade, a
realidade, a fé, nem a concomitante e inevitável aceitação do testemunho dos sentidos
e da razão, mas a certeza que anteriormente vinha com elas. Na religião não foi a
crença na salvação ou no mais além o que imediatamente se perdeu, mas a certitudo
salutis, e isto ocorreu em todos os países protestantes em que a queda da Igreja
católica tinha eliminado a última instituição que, onde a sua autoridade não foi
desafiada, se manteve entre o choque da modernidade e as massas de crentes». [140]
2.2 Aparência e Mundo
Em A Vida do
Espírito, escreve Arendt: « O mundo onde nascem os homens engloba um grande número de
coisas, naturais e artificiais, vivas e mortas, provisórias e eternas que têm todas em
comum aparecer e, por aí mesmo, serem feitas para se ver, ouvir, tocar, serem sentidas e
saboreadas por criaturas sensíveis dotadas de sentidos apropriados». [141] Estar vivo,
portanto, significa ocupar um mundo em que aparecemos uns aos outros, é ser movido pela
necessidade de nos mostrarmos. Com efeito, « Na vida de todos os dias, como para o estudo
científico, o objecto é determinado pelo seu breve intervalo de plena aparência, a sua
epifania. A escolha [ do que é uma coisa viva] , fundada no critério único de
cumprimento e de perfeição da aparência, seria completamente arbitrária se a realidade
não fosse, antes de mais, de natureza fenomenal». [142]
É neste sentido, de
resto, que o mundo das aparências é anterior a qualquer região que o filósofo possa
eleger como lugar onde se sente em casa, uma vez que « Quando o filósofo se despede do
mundo oferecido aos nossos sentidos e faz meia-volta (periagoge, em Platão) em direcção
à vida do espírito, é ainda àquele que ele pede um fio condutor que lhe revelará a
verdade subjacente. Esta verdade- a letheia, o que é desvelado (Heidegger)- não se
concebe senão como uma aparência mais, um outro fenómeno escondido na origem mas
sentido como de ordem superior, e atesta por isso a predominância persistente da
aparência». [143]
É bem diferente,
contudo, a perspectiva que a tradição nos oferece. Com efeito, à mais antiga das
questões colocada tanto pela filosofia como pela ciência, a saber, «O que é que faz
com que qualquer coisa ou qualquer pessoa, eu incluído, apareça, e o que é que o faz
aparecer com esta forma e este comportamento e não outro?», [144] a tradição
filosófica respondeu com a noção de uma causa, de grau ontologicamente mais alto do que
aquele que reconhecia à aparência.
Além disso, e mais
recentemente, a ideia de um progresso sem fim e o concomitante e vantajoso funcionalismo
que favorece, não contraria a dicotomia entre Ser verdadeiro e simples aparências,
convertendo estas na condição necessária aos processos essenciais que se desenvolvem no
organismo vivo.
Se há erro,
entretanto, não é puramente arbitrário: uma vez que as aparências não só não
revelam de si mesmas o que está por trás, como, além disso, dissimulam, não é linear
considerar ilegítima a suposição dessa função de protecção como a mais importante.
Ainda assim, Arendt considera haver, realmente, um erro: «O erro elementar de todas as
teorias que se apoiam na dicotomia Ser/Aparência é evidente e foi muito cedo descoberto
pelo sofista Górgias, que o resumiu num fragmento do seu tratado agora perdido Sobre a
natureza e o não-ser refutação, ao que parece, da filosofia eleática: "Ser
não tem nada de manifesto uma vez que isso não aparece (aos homens: dokein); parecer
(aos homens) é frágil, porque não consegue chegar a ser". (...) Dir-se-ia que o
Ser, uma vez tornado manifesto, prevalece sobre as aparências- mas ninguém, até agora,
conseguiu viver num mundo que não se revela de si mesmo». [145]
Nesta medida, « Será
possível que as aparências existam, não para as necessidades da vida, mas, ao
contrário, que a vida esteja aí para o melhor bem das aparências? Uma vez que vivemos
num mundo que agarramos enquanto aparece, não seria mais plausível que o que ele tem em
si de significativo e de pertinente se situe, precisamente, à superfície?». [146]
Os trabalhos de Adolf
Portmann oferecem, a este respeito, uma nova perspectiva; em poucas palavras, aventam a
hipótese de que o não-aparente tenha o papel de sustentar, engendrar e manter as
aparências, donde a inversão das prioridades levada a cabo pela sua «morfologia», e
que o próprio formula nestes termos: « Não é o que é uma coisa, mas a maneira como
aparece, que deve orientar a investigação». [147]
Com efeito, a sua
investigação reclama, pela tónica que põe na superfluidade da ostentação daquilo a
que chama as «aparências autênticas», que se interprete a variedade animal e vegetal
em termos que vão para além do funcional. Estamos perante estruturas visuais (a penugem
de um pássaro, por exemplo), que têm como finalidade única «produzir um certo efeito
no olho do amigo ou inimigo... O olho e o objecto examinado formam um todo disposto
segundo regras tão rigorosas quanto a nutrição ou os órgãos digestivos», [148] por
oposição às quais Portmann nos fala de «aparências inautênticas», aquelas que só
se manifestam quando se manipulam as primeiras (é o caso das raízes das plantas ou dos
órgãos internos de um animal).
Ora, se as
«aparências autênticas» se apresentam numa variedade quase infinita, as « aparências
inautênticas» chamam a atenção pela sua flagrante semelhança. De algum modo, Arendt
entende, na linha de Portmann, que o exterior tem por função dissimular o equipamento
funcional do processo da vida, pelo qual todos nos assemelharíamos, e, assim, « Estas
descobertas sugerem que o lugar dominante da aparência exterior deixa supor uma
actividade espontânea, ajustando-se ao carácter puramente receptivo dos nossos sentidos;
tudo o que vê, quer ser visto, tudo o que ouve, grita para se fazer ouvir, tudo o que
pode tocar avança para ser tocado. É, na verdade, como se toda a coisa viva- além do
facto de que a sua superfície é feita para aparecer, digna de ser vista e destinada a
aparecer aos outros- fosse movida por uma necessidade de aparecer, de se integrar no mundo
das aparências apresentando, não o seu "eu interior", mas o indivíduo que ela
constitui». [149]
A condição humana da
mundaneidade, portanto, o facto de sermos tão feitos de mundo, consagra-nos sujeito que
vê, ouve e toca, tanto quanto objecto para o Outro, que é garante da sua realidade
«objectiva». Por esta razão, «Aquilo a que chamamos habitualmente
"consciência" (...) não bastaria nunca para garantir a minha realidade».
[150] Em Rahel Varnhagen, das obras de Arendt- -porventura injustamente- a menos
valorizada, escreve: «Desejos que não são de antemão marcados pelo destino, que são
apenas expressões, convertidas em fantasias, de pretensões semi-infantis à felicidade;
sonhos de juventude, não importa a que ponto complementos característicos da
frustração e descontentamento, ou protestos legítimos contra obstáculos ao
desenvolvimento ou falta de alegrias, dissolvem-se, vaporizam-se ao primeiro impacto da
vida, o impacto que vem com a experiência real, com a paixão ligada a algo específico.
Por outro lado, qualquer resposta ao apelo apaixonado que vem directo a nós do grande,
vasto mundo, que é dirigido a nós em particular, confirma-nos esta resposta
absorve e concentra toda a fantasmagoria de desejos num dos três desejos do conto de
fadas, que tem de ser realizado se não quisermos pensar-nos para sempre infelizes».
[151]
Neste sentido,
consequentemente, «A nossa sensação de realidade depende por inteiro da aparência e,
portanto, da existência de uma esfera pública. (...) O termo "público"
significa o próprio mundo, enquanto é comum a todos nós e diferenciado do nosso lugar
possuído privadamente nele». [152]
Neste mundo em que
entramos quando nascemos e que, com a morte, deixamos para trás, «Ser e Aparecer
coincidem», [153] e é significativamente adequada, pois, a frase de W.H. Auden com que
Arendt abre a secção «Aparência», em A Vida do Espírito: « Julga-nos Deus pelas
aparências? Tenho bem a impressão que sim». [154]
Ora, « A vita activa,
vida humana até onde se encontra activamente comprometida em fazer algo, está sempre
enraizada num mundo de homens e coisas realizadas por eles, que nunca deixa nem transcende
por completo. Coisas e homens fornecem o meio ambiente de cada actividade humana que
seriam inúteis sem essa situação. (...) Nenhum tipo de vida humana é possível sem um
mundo que, directa ou indirectamente testemunha a presença de outros seres humanos».
[155] O mundo, consequentemente, não se me apresenta nunca enquanto tal, dependente que
está da comunicação dos diferentes e particulares pontos de vista que se formam a seu
respeito, e é neste sentido, afinal, que o mundo só é visível enquanto mundo comum.
Por esta razão, enfim, se há uma identidade da humanidade, ela manifesta-se enquanto
diversidade de indivíduos e povos - [156] «Não é o homem mas os homens que habitam
esta terra»- e é esta pluralidade de raiz que o projecto de uniformização do humano
põe em perigo.
Indivíduo e mundo,
portanto, enriquecem-se e complementam-se mutuamente: daquele, depende a humanidade do
segundo e, deste, a mundaneidade do primeiro: «A experiência tinha tomado o lugar do seu
não-ser; agora sabia: A vida é assim». [157]
Qualquer estratégia
de retirada ou fuga do mundo deve ser, pois, cuidadosamente equacionada, sob pena de
estarmos renunciando à nossa humanitas. [158] Com efeito, «O mundo e os homens que o
habitam são duas coisas. O mundo estende-se entre os homens e este "entre"- bem
mais que os homens ou o homem - é hoje o objecto da maior preocupação». [159] É esta,
precisamente, a questão que se coloca de cada vez que o indivíduo se retira para a
invisibilidade do pensar e do sentir, de cada vez que, pervertido o mundo em não-mundo do
totalitarismo, o indivíduo se refugia numa «emigração interior», porquanto «nenhum
ser humano pode isolar-se completamente; será sempre devolvido ao mundo se tem qualquer
esperança nas coisas que só o mundo pode dar: "coisas vulgares, mas coisas que
temos que ter". No final, o mundo tem sempre a última palavra, porque podemos apenas
fazer introspecção em direcção ao interior do nosso eu, mas não para fora dele outra
vez». [160]
2.3 Mundo e realidade
- a questão do Sionismo e dos Direitos do
Homem
A questão está,
pois, em saber « qual é a quantidade de realidade que é preciso manter num mundo
tornado inumano para que a humanidade não fique reduzida a uma palavra vã ou a um
fantasma (...), até que ponto continuamos obrigados para com o mundo, mesmo quando fomos
perseguidos ou nos retiramos dele». [161]
Ora, uma vez que a
retirada do mundo equivale a uma recusa em responder por ele e pelo mal que, nele, tem
lugar; uma vez que, pela perda de mundo que cada retirada pessoal implica, somos
co-responsáveis pela sua perversão, afigura-se paradigmática a questão do pária e as
concomitantes formas de relação ao mundo que, nesta condição, podem ainda
estabelecer-se.
Arendt, ela própria
judia (ainda que despertada para essa realidade sobretudo a partir de 1933 e,
irremediavelmente, em 1943, quando pela primeira vez ouve falar de Auschwitz e já
marcada, nessa altura, pela experiência dos sem pátria), só com o Holocausto vive a
revelação da sua judeidade, que a assalta irreversível. Poderia, então, tomar para si
as palavras de Lazare: «Não me sentia judeu. Hoje sinto que devo sê-lo (que é preciso
que o seja), que devo regressar ao lugar donde saí e que devo recriar a minha pessoa
intelectual e moral. Pertenço a um grupo, vou voltar a entrar nele, servi-lo, servindo a
humanidade». [162]
É o sentido que lhe
atribuiu Bernard Lazare que Arendt retoma no seu conceito de pária; como tal, estamos
perante uma categoria não somente sociológica mas, sobretudo, política, designando
três tipos, três distintas possibilidades de relação ao mundo: em primeiro lugar,
designa o indivíduo que permanece à margem da sociedade- o arrivista; depois, aquele que
se adapta à sociedade ao preço de uma situação degradante- o assimilado; finalmente, o
indivíduo que, assumindo-se como pária, desenvolve um combate sem tréguas pela
justiça- o pária consciente.
Dois traços
caracterizam a situação de pária para um povo: o isolamento/ reagrupamento forçado e a
ausência de direitos do indivíduo. Uma vez que Arendt faz remontar ambos os fenómenos
à emancipação dos judeus, no século XIX, impõe-se que descrevamos brevemente essa
nova situação, em ordem ao melhor esclarecimento deste aparente paradoxo.
Em Rahel Varnhagen,
escreve: «Os judeus não tinham senão o mais pobre entendimento da nova era e da nova
geração na qual Herder tinha tido uma influência crucial. Esta incompreensão era
manifesta não só nos poucos "Pais Judeus", mas em quase todo o judeu
individual, com poucas excepções. Só compreendiam uma coisa: que o passado se colava
inexoravelmente a eles, enquanto grupo; que só o podiam sacudir enquanto indivíduos. Os
truques usados pelos indivíduos tornaram-se mais subtis, os caminhos individuais muito
mais numerosos, à medida que o problema pessoal se intensificou; os judeus tornaram-se
psicologicamente mais sofisticados e socialmente mais engenhosos. A história dos judeus
alemães evaporou-se por um breve período- até ao primeiro Decreto de Emancipação de
1812- na história de indivíduos que conseguiram escapar». [163]
O que sobressai da
análise do segundo volume de As Origens do Totalitarismo, consagrado ao anti-semitismo,
é a afirmação arendtiana de que a emancipação teria conduzido a novas condições de
exclusão: «Os judeus sentiam simultaneamente o arrependimento do pária, de não se ter
tornado arrivista, e a má consciência do arrivista, que traiu o seu povo e trocou a
igualdade de direitos por privilégios pessoais. Uma coisa é certa: se se queria evitar
todas as ambiguidades da vida em sociedade, era preciso resignar-se ao facto de que ser
judeu consistia em pertencer ou a uma classe superior privilegiada, ou a uma massa
desfavorecida». [164]
Assim, pois, tendo uma
boa parte dos judeus abandonado o particularismo ritual, nem por isso conseguiu
integrar-se em nenhuma das novas estratificações sociais do século XIX; a
assimilação, por outro lado, convida a uma situação impossível em que o indivíduo se
esforça por, ao mesmo tempo, ser e não ser judeu. A título individual, entretanto, o
judeu permanece fora da sociedade, mas esta situação reflecte, por si mesma, o estatuto
político do próprio povo. Cada vez mais, a questão da judaidade é reduzida a um
problema individual que «assombra a vida privada» [165] dos indivíduos: «O adágio
"um homem fora do lar, um judeu em casa" tornou-se uma amarga realidade.
(...)Como não parecer um "judeu em geral", permanecendo judeu? Como
esforçar-se por não ser como os judeus e mostrar, entretanto, com clareza suficiente que
se é um deles? O judeu médio, nem arrivista nem "pária consciente" (Bernard
Lazare), podia, quando muito, acentuar uma alteridade sem significação. (...) Os judeus
assimilados, meio orgulhosos, meio envergonhados de serem judeus, pertenciam visivelmente
a esta categoria [ de homens que a sociedade simultaneamente admirava e punha de lado] ».
[166]
A assimilação é,
assim, um fenómeno social liminarmente rejeitado por Arendt: [167] « Enquanto o D.
Quixote continua cavalgando para conjurar um mundo possível, imaginário, a partir do
mundo real, é apenas um tolo, e talvez um tolo feliz, talvez até um tolo nobre, quando
se compromete a conjurar do mundo real um ideal definido. Mas sem um ideal definido, sem
almejar uma imaginária revisão do mundo, ele tenta apenas transformar-se a si próprio
numa espécie de possibilidade vazia do que poderia ser, torna-se apenas um "sonhador
tolo" e, ainda por cima, oportunista, que tenta destruir a sua existência em troca
de algumas vantagens». [168]
Ainda na linha de
Lazare, [169] crê que a assimilação não só não dá uma resposta consistente às
injustiças sofridas pelos judeus, como tolda as realidades políticas. A linguagem a
recuperar é, assim, a que um retorno à época dos Macabeus nos ensinaria: «Não é a
linguagem dos mártires que não conhecem senão a glória de Deus, nem a dos desesperados
que não possuem senão a triste coragem do suicídio. É antes a linguagem do que é hoje
a vanguarda de um povo, a que pensa tomar amanhã a frente das reivindicações
políticas». [170]
Creio, finalmente,
estarem agora reunidas as condições que possibilitam a cabal compreensão de duas
asserções distintas de Arendt: primeiramente, a convicção de que, se atacado enquanto
judeu, é enquanto judeu que um indivíduo deve defender-se; a seguir, a crítica que
dirige aos Direitos do Homem.
Partindo da primeira,
esclarece-se a ligação de Arendt ao sionismo, pela mão de Kurt Blumenfeld, bem como os
motivos que a levaram a demarcar-se daquele movimento. [171]
Com efeito, o que
inicialmente atrai Arendt ao Sionismo é o facto de este movimento, como ela própria,
rejeitar a visão apologética da história judaica, quer dizer, o facto de propor uma
leitura segundo a qual o povo judeu é convidado a assumir-se, já não como vítima, mas
como responsável, construtor da sua própria história, autor do seu destino,
comprometido na acção política (já em Rahel Varnhagen, tinha escrito: «Se nos
limitarmos a aceitar o destino, se pura e simplesmente não agirmos, conseguimos uma
segurança que nos permite oferecer a mesma resistência passiva a qualquer
infortúnio»). [172] E é esta leitura, ainda, que permite compreender a comoção e o
entusiasmo com que a nossa autora se refere à sublevação armada dos judeus do gueto de
Varsóvia: «Aquilo por que os judeus do mundo inteiro, e antes de todos eles, os do
yishouv da Palestina, tinham reclamado há anos, a saber, a constituição de um exército
judeu, foi subitamente realizado por aqueles de que menos esperávamos que agissem, e que
não tinham outra saída senão ir povoar, no futuro, os asilos e os sanatórios -
mortificados na carne e no espírito - na qualidade de beneficiários da caridade do
judaísmo mundial. Aqueles que, no ano anterior, desesperados, clamavam socorro e eram
vítimas sem defesa da barbárie, que estavam condenados a terminar um dia a sua
existência na qualidade de beneficiários da caridade estrangeira, decidiram-se, de um
dia para o outro, a ajudar-se a si próprios e, em todo o caso, a ajudar o povo judeu».
[173]
Ora, a possibilidade
da constituição de um exército judeu pela qual Arendt sempre se bateu - foi,
precisamente, um dos pomos da discórdia, que se revelaria irreversível, entre Arendt e o
movimento sionista. Em 1942, escreve: «Desde as negociações de Herzl com os ministros
da Rússia czarista ou do Império alemão, até a essa carta memorável que um Lorde
inglês, Lorde Balfour, escreveu a um outro Lorde inglês, Lorde Rothschild, e que tinha
por objecto o destino do povo judeu, os dirigentes sionistas puderam, sem grande suporte
do povo judeu, estabelecer negociações em favor deste povo com homens de Estado que,
também eles, agiam pelos seus povos e não enquanto representantes dos seus povos. (...)
Os esforços em favor de um exército judeu mostram muito claramente que as simpatias e
diligências das "personalidades influentes" não devem, uma vez mais, ser
levadas a sério. Enquanto um movimento popular não emergir dos diferentes comités e
comissões políticas, não teremos a mínima hipótese». [174]
Ora, o Sionismo sempre
tinha seguido, na perspectiva de Arendt, uma linha- que considerava ser indispensável aos
seus objectivos- de negociação com os grandes poderes e, mesmo, com os governos
anti-semitas, concretamente com os nazis. Chocada com o cinismo e o perigo de uma
colaboração sustentada em «interesses mútuos» (os sionistas, o de quererem os judeus
europeus na Palestina; os nazis, o de se quererem ver livres dos judeus), moveu-lhe uma
crítica sem paralelo, que culminaria com o desacordo, igualmente violento, relativamente
à questão do conflito judaico-árabe. [175]
Com efeito, a partir
de 1944, a cisão entre Arendt e aquele movimento não podia, não mais, escamotear-se:
«A partir da sua última convenção anual que se desenrolou em Atlantic City em Outubro
de 1944, os sionistas americanos, tanto de esquerda como de direita, adoptaram
unanimemente a reivindicação de uma Commonwelth judaica, livre e democrática,
compreendendo "toda a extensão da Palestina, sem divisão nem diminuição".
Trata-se de uma viragem na história do sionismo porque isso significa que o programa
revisionista, tão longa e amargamente repudiado, finalmente triunfou. A resolução de
Atlantic City vai mesmo mais longe do que o programa Biltmore (1942), em que a comunidade
judaica tinha dado à maioria árabe direitos próprios da minoria. Desta vez, os árabes
não são, pura e simplesmente, mencionados na resolução. (...) Parece admitido
implicitamente que só razões de oportunismo tinham anteriormente impedido o movimento
sionista de enunciar os seus objectivos últimos». [176]
Por razões
políticas, Arendt comprometera-se com o sionismo; por razões políticas,
abandoná-lo-ia, sem retorno; compreender a «dissidência» de Arendt passa, assim, por
esclarecer as objecções políticas que colocava aos conceitos de «Estado-nação» e de
«soberania nacional», bem como as alternativas que propôs.
O debate sobre o
futuro da Palestina estruturava-se em torno de duas concepções políticas opostas: a que
configurava a Palestina enquanto pátria judaica, e a que defendia a constituição de um
Estado judaico soberano.
Uma vez mais a
contra-corrente, escreve Arendt: «Os intelectuais judeus de esquerda, que há
relativamente pouco tempo olhavam para o Sionismo como uma ideologia para os fracos de
espírito, e viam a construção de uma pátria judaica como um empreendimento sem
esperança que eles, na sua grande sabedoria, tinham rejeitado antes mesmo que começasse;
os homens de negócios judeus, cujo interesse pela política judaica tinha sido sempre
determinado pela sempre importante questão de como manter os judeus afastados das
parangonas dos jornais; os filantropos judeus, que tinham apresentado a Palestina como uma
caridade terrivelmente cara, fazendo desaparecer os fundos, destinados a outros
propósitos "mais válidos"; os leitores da imprensa yiddish, que durante
décadas estiveram sinceramente convencidos de que a América era a terra prometida- todos
eles, do Bronx a Park Avenue, até Greenwich Village e Brooklyn, estão unidos na firme
convicção de que um Estado judeu é necessário». [177]
Ora, o problema maior
levantado por esta solução, de pendor revisionista, constitui-se, na perspectiva de
Arendt, como uma armadilha. Em primeiro lugar, porque adopta um modelo político que a
história demonstrou já não ser viável- «Não será fácil salvar os judeus nem a
Palestina no século XX e é altamente improvável que isso possa fazer-se com a ajuda de
categorias e métodos do século XIX. Se os sionistas mantiverem a sua ideologia sectária
e o seu "realismo" de vistas curtas, terão perdido todas as hipóteses de que
os pequenos povos persistam no nosso mundo, que está longe de ser belo» - depois,
portanto, porque alimenta a lógica segundo a qual as populações minoritárias
constituem, irremediavelmente, um problema: a conversão dos seus elementos em cidadãos
de segunda classe; a sua exclusão do novo Estado na pior das hipóteses, era o que se
tinha verificado entre os Estados-nação europeus e os judeus, e que estes estavam
prontos a repetir, desta vez em relação aos vizinhos árabes.
A possibilidade de uma
federação parece-lhe, assim, a única alternativa séria: «De uma maneira geral, a
verdade é que a Palestina, como pátria nacional para os judeus (bem como de outros
pequenos países e outras pequenas nações) só pode ser salva se for incorporada numa
federação. Os sistemas federados têm muito futuro porque é provável que ultrapassem
os conflitos nacionais e possam, consequentemente, definir o fundamento de uma vida
política em que os povos poderão reorganizar-se politicamente». [178]
Enquanto vigorar o
conceito de «Estado-nação», portanto, seja sob a forma de entidade isolada, seja sob a
forma de aliança com outras, o problema da maioria-minoria perdurará, com os problemas
de direitos que se lhe associam. Com efeito, «Uma verdadeira federação é constituída
por diferentes elementos políticos, nacionais e outros, claramente reconhecíveis, que no
seu conjunto compõem o Estado. Numa tal federação, os conflitos nacionais podem
resolver-se pelo facto de que o problema insolúvel maioria-minoria já não existe. Os
Estados Unidos foram o primeiro exemplo de uma tal federação. Neste tipo de união,
nenhum Estado tem supremacia sobre outro e todos os Estados governam o país em
conjunto». [179]
Em que medida,
finalmente, pode toda a problemática respeitante à condição de pária explicar a
rispidez com que Arendt aborda a questão dos Direitos Humanos e das sociedades que se
constituíram para a sua defesa - que padecem, na sua perspectiva, de uma «inquietante
semelhança, em linguagem e composição, com as sociedades para a prevenção da
crueldade para com os animais» [180] - é o que se pode, creio que agora sem equívoco,
compreender. A denúncia que leva a cabo, afinal, é a de que « A concepção dos
direitos humanos, baseada na suposta existência de um ser humano enquanto tal, fracassou
no momento mesmo em que aqueles que professavam acreditar nela foram pela primeira vez
confrontados com pessoas que tinham de facto perdido todas as suas outras qualidades e
relações específicas- excepto que eram, ainda, seres humanos. O mundo não encontrou
nada de sagrado na nudez abstracta de não se ser senão humano». [181]
Reconhecendo embora
que, nunca antes da sua proclamação (nos finais do século XVIII), teriam os Direitos do
Homem sido tratados como um tema político prático, certo é, contudo, que os fundamentos
em que se alicerçam (a emancipação do homem da tutela divina, a concomitante soberania
por relação à lei e, enquanto povo, soberania em questões de governação, a
identificação, enfim, dos direitos do homem com os direitos do povo), geram
perplexidades difíceis de ignorar. A este propósito, afirma Arendt: « O homem tinha
acabado de aparecer como um ser completamente emancipado, completamente isolado, que
transportava a sua dignidade no seu próprio interior, sem referência a uma qualquer
outra ordem mais ampla e envolvente, quando tornou a desaparecer enquanto membro de um
povo. (...) Toda a questão dos direitos humanos, consequentemente, foi rápida e
inextricavelmente ligada à questão da emancipação nacional». [182]
Além disso, a
Revolução francesa impusera uma concepção de humanidade que privilegiava o povo sobre
o indivíduo, pelo que era aquele- não este- que determinava a imagem do homem. Ora, os
acontecimentos, entretanto, tomariam um rumo nunca previsto: o aparecimento de pessoas e
povos sem Estado (a bem dos quais, porventura mais do que de nenhuns outros, urgia clamar
pela salvaguarda de direitos) veio mostrar que, ao invés da suposta independência dos
direitos do homem por relação a qualquer governo, eles deixavam de funcionar quando a
essas pessoas não restavam senão os direitos mínimos- «Eles não despertavam, na sua
humanidade nua, face à qual a única resposta é a piedade, senão a estranha impressão
de qualquer coisa totalmente inumana» [183] - e que nenhuma autoridade ou instituição
parecia, desde então, disposta a garantir. Por outras palavras, « Os Direitos do Homem,
supostamente inalienáveis, mostraram-se inaplicáveis - mesmo em países cujas
constituições se baseavam neles - sempre que apareciam pessoas que já não eram
cidadãos de nenhum estado soberano. A este facto, em si mesmo suficientemente
perturbador, acresce a confusão criada pelas muitas e recentes tentativas de formular uma
nova lista de direitos humanos, que demonstraram que ninguém parece estar apto a definir
com alguma segurança o que estes direitos humanos gerais, enquanto distintos dos direitos
dos cidadãos, realmente são». [184]
A perda de um lar ou
da protecção de um governo, entretanto, não é um fenómeno inédito; é dela que
decorre, afinal, toda a tradição do direito ao asilo político, tal como o conhecemos
nos países civilizados. Contudo, só se «os milhares de homens, aos quais o governo
americano assegurou um asilo temporário nos Estados Unidos, fossem indivíduos
perseguidos por governos da sua pátria, em razão da sua confissão religiosa ou das suas
convicções políticas, essa medida tomaria uma grande significação. Ela significaria
que um dos mais antigos e sagrados deveres dos Estados ocidentais e que um dos mais
antigos e sagrados direitos dos homens do Ocidente, o direito de asilo, é honrado.
Contudo, os milhares de homens que devemos esperar, aqui na América, não são refugiados
no sentido antigo e sagrado do termo». [185] Inédita, então, é a circunstância no
âmbito da qual um vasto número de pessoas reclama essa possibilidade, até então
reservada a casos excepcionais. Mais grave, a preocupação pelo reforço dos direitos
humanos, só incidentalmente toca o verdadeiro refugiado político, porquanto «Os novos
refugiados eram perseguidos não em virtude do que tinham feito ou pensado, mas pelo que
irremediavelmente eram - nascidos na raça errada, ou tipo de classe ou recrutados pelo
tipo de governo errado (como no caso do Exército Republicano Espanhol). (...) Mas o facto
de serem e parecerem apenas seres humanos cuja própria inocência - de todos os pontos de
vista, e especialmente do ponto de vista do governo perseguidor- era a sua grande
desgraça. Inocência, no sentido de completa falta de responsabilidade, era a marca da
sua falta de direitos tal como era o selo da sua perda de estatuto político». [186]
Não é a vida,
portanto, nem sequer a liberdade, que constitui o direito fundamental; antes delas,
impõe-se o direito a um lugar no mundo que torne significativas as acções e as
palavras, e é neste sentido que «Os espíritos pragmáticos, demasiado zelosos, que
acreditavam que se salvavam primeiro os homens e que não se podia determinar senão a
seguir o seu estatuto político e jurídico, mostraram-se irrealistas e desprovidos de
sentido prático. Só quando os judeus europeus tiverem sido reconhecidos como um dos
povos confederados com os Aliados e a questão dos hóspedes vindos do país de ninguém,
bem como o problema da salvação dos judeus da Europa, tiverem encontrado a sua solução
jurídica, é que teremos dado um passo em frente». [187]
A pessoa ou povo
privado de direitos humanos em rigor, a não-pessoa e o não-povo - é, assim,
aquele que é excluído « não do direito à liberdade, mas do direito à acção; não
do direito a pensar o que quiser, mas do direito à opinião. Privilégios em alguns
casos, injustiças na maioria deles, bençãos e perdição sãolhes destinados
acidentalmente e sem qualquer tipo de relação com o que quer que façam, tenham feito ou
possam vir a fazer». [188]
Em suma, todas as
actividades humanas são condicionadas pelo facto de os homens viverem juntos; o
artifício humano distingue a existência humana da circunstância meramente natural; a
existência de uma esfera pública, simultânea presença de inumeráveis perspectivas que
conferem ao mundo a sua realidade, configura-se como transcendência, como potencial
imortalidade terrena e, assim, «Se a tragédia das tribos selvagens é a de que habitam
uma natureza intocada que não podem dominar, e da qual, contudo, depende a abundância ou
frugalidade da sua vida; se é a de que vivem e morrem sem deixar rasto, sem terem
contribuído com coisa alguma para um mundo comum, então estas pessoas sem direitos são
realmente atiradas para um peculiar estado de natureza. Não são bárbaros, certamente;
algumas delas até pertencem aos estratos mais educados dos seus respectivos países;
ainda assim, num mundo que quase liquidou a selvajaria, aparecem como os primeiros sinais
de uma possível regressão da civilização». [189]
3. O Mal como ausência de
pensamento
« O que tinha perante os olhos era
totalmente diferente [da concepção tradicional- literária, teológica, filosófica].
(
) Os actos eram monstruosos, mas o responsável (
) era absolutamente vulgar
(
). A única característica notável (
) era de natureza inteiramente
negativa: não era a estupidez, mas uma falta de pensamento.»
Hannah Arendt, A Vida do Espírito
Eis o problema
levantado pelo encontro de Arendt com Adolf Eichmann, em 1961, e que a levaria à
polémica reflexão sobre a banalidade do mal- «A questão impossível de iludir é esta:
a própria actividade de pensar (
) faz parte das condições que obrigam o homem a
evitar o mal e que o condicionam negativamente em relação a ele? (
)». [190] A
resposta é, como se verá, afirmativa. [191]
Arendt afirma mais do
que uma vez não ter qualquer pretensão a que Eichmann em Jerusalém se constitua como
algo mais do que uma reportagem. Esta obra, porém, inscreve-se e deve ser lida à luz do
trabalho de Arendt no seu conjunto, que a morte deixou por terminar.
Antes, portanto, de
abordarmos a questão em epígrafe, há que estabelecer, com Arendt, uma série de
distinções, concretamente entre pensamento e argumentação filosóficos e pensamento e
juízo políticos, porquanto se trata de mais uma distinção que o pensamento filosófico
e político ocidental obliterou, com as consequências nefastas que já conhecemos.
Ora, « A distinção
estabelecida por Kant entre Vernunft (razão) e Verstand (entendimento) é crucial para o
nosso percurso. (...) O que faz a demarcação entre as duas faculdades de razão e
intelecto coincide com uma diferenciação entre duas actividades mentais absolutamente
outras, pensamento e saber, e dois tipos de preocupação totalmente distintos, o sentido,
para a primeira categoria, o conhecimento, para a segunda». [192] Mais, é ainda o
confronto entre solidão e pluralidade humana que está em causa, pelo que estamos perante
uma série de consequências que o próprio Kant não anteviu. Com efeito, «Ainda que
insista sobre a impotência da razão em alcançar o saber, sobretudo tratando-se de Deus,
da Liberdade e da Imortalidade- do seu ponto de vista, os objectos supremos do pensamento-
não pôde desembaraçar-se completamente da convicção de que o fim último do
pensamento, como do saber, é a verdade e o conhecimento. (...) Nunca se deu
verdadeiramente conta de que tinha libertado razão e pensamento, que tinha justificado
esta faculdade e a actividade correspondente, mesmo não podendo estas reivindicar
resultados "positivos"». [193]
Apoiando-se, portanto,
na distinção kantiana de sentido e verdade, [194] que leva às ultimas consequências,
Arendt amplia o alcance da razão, que considera exercer-se sobre tudo o que acontece,
numa interpretação da significação segundo um modelo outro que não o da verdade.
[195] Considera, com efeito, que «o obstáculo maior que a razão (Vernunft) coloca no
seu próprio caminho surge do lado do intelecto (Verstand) e dos critérios perfeitamente
fundados que ele estabeleceu para o seu próprio uso, quer dizer, para estancar a nossa
sede e satisfazer a nossa necessidade de saber e de conhecimento. A razão pela qual Kant
e os seus sucessores não prestaram nunca grande atenção ao pensamento enquanto
actividade e, menos ainda, às experiências do eu pensante, é que, a despeito de todas
as distinções, eles exigiam o mesmo género de resultados e aplicavam o tipo de
critérios de certeza e de evidência que são os resultados e os critérios do
conhecimento». [196]
Ora, pensamento e
razão transcendem- legitimamente, de resto- os limites do conhecimento e do intelecto; o
pensamento não antecipa o conhecimento, revela, antes, a busca de significado que não
atinge nunca resultados tangíveis. Razão e pensamento, consequentemente, dirigem o seu
interesse a objectos que, incognoscíveis, não deixam por isso de ter um alto interesse
existencial. As questões últimas que o pensamento coloca, não só não estão separadas
da vida quotidiana, como a sustentam; abandoná-las por impossibilidade de lhes dar
resposta definitiva, equivaleria a renunciar «à sua faculdade de responder às questões
às quais pode responder». [197]
«Desejo de saber»,
preocupação pelo conhecimento, não é, portanto, «necessidade urgente de pensar»,
preocupação pelo incognoscível, pelo que « A manifestação do vento do pensamento
não é saber; é a aptidão para distinguir o bem do mal, o belo do disforme. Aptidão
que, nos raros momentos em que a parada [ enjeu] é conhecida, pode muito bem desviar as
catástrofes, pelo menos para o eu». [198]
Colocar a questão do
sentido corresponde, deste modo, a constantemente recomeçar do zero, num movimento em que
a universalidade indeterminada do sentido e a particularidade concreta da experiência se
alimentam e definem reciprocamente. É nesta acepção que «Os homens, apesar de
totalmente condicionados existencialmente- limitados pelo intervalo de tempo entre o
nascimento e a morte, sujeitos ao labor de modo a viver, motivados para o trabalho de modo
a sentirem-se em casa no mundo, e impelidos para a acção em ordem a encontrar o seu
lugar na sociedade dos seus companheiros-homens podem transcender mentalmente todas
estas condições, mas apenas mentalmente, nunca na realidade ou na cognição ou no
conhecimento, em virtude do que conseguem explorar a realidade do mundo e a sua
própria». [199]
Assim, pois, os riscos
que o estado de não-pensamento implica, em assuntos políticos como morais, são claros:
« Subtraindo as pessoas ao perigo do exame crítico, ensina-se-lhes a agarrarem-se
solidamente às regras de conduta, sejam elas quais forem, de uma dada sociedade, numa
dada época. Aquilo a que elas se habituam, então, é menos ao conteúdo das regras, cujo
exame as mergulharia na perplexidade, do que à possessão de regras nas quais se podem
fazer entrar os casos particulares». [200] Esta possessão de regras, o que a permite é,
em situação totalitária, a ideologia, e é ela, ainda, que convida a compreender as
distorções de Eichmann à luz de algo mais do que a simples mentira.
A ideologia, segundo
Arendt, é precisamente o que o nome indica: a lógica de uma ideia. Ora, « A
"ideia" de uma ideologia não é nem a essência eterna de Platão, acessível
aos olhos do espírito, nem o princípio regulador da razão segundo Kant: ela tornou-se
um instrumento de explicação.(...) O que habilita a "ideia" a ter este novo
papel, é a sua "lógica" própria, a saber, um movimento que é a consequência
da própria "ideia" e que não requer nenhum factor exterior para a pôr em
movimento». [201]
A dedução é o
movimento de que aqui se trata, e o que importa salientar é o facto de estarmos perante
um movimento interno que evita, a todo o custo, o confronto com o acontecimento, a
factualidade, a experiência. [202] O que importa na ideologia não é, então, a ideia no
sentido de conteúdo, mas a coerência lógica, o seu poder constrangedor de tudo
explicar: [203] « O constrangimento puramente negativo da lógica, a interdição de
contradições, torna-se "produtiva" de modo que uma linha de pensamento
pudesse, de uma ponta à outra, ser instituída e imposta ao espírito, tirando dela as
conclusões à maneira da simples argumentação. Este curso da argumentação não podia
ser interrompido nem por uma ideia nova (...), nem por uma experiência nova». [204]
Ora, na ideologia
reúnem-se e reforçam-se mutuamente dois aspectos essenciais ao desbravamento do caminho
da banalidade do mal, a saber, o abandono à necessidade e a fuga à realidade, a troca da
liberdade inerente à faculdade de pensar pela «camisola lógica, com a qual o homem pode
constranger-se a si mesmo quase tão violentamente como é constrangido por uma força
exterior». [205] A ideologia é, pois, o meio pelo qual os seres humanos são privados da
fonte da sua liberdade e espontaneidade: interiorizando a necessidade lógica da
"ideia", tornam-se dóceis e previsíveis.
É neste sentido que,
« As oportunidades de Eichmann para se sentir como Pôncio Pilatos eram muitas e, à
medida que os meses e os anos passaram, ele deixou de ter necessidade de sentir o que quer
que fosse. As coisas eram assim, (...) fizesse o que fizesse, fê-lo como cidadão
obediente à lei. Fez o seu dever (...). Não só obedeceu a ordens, também obedeceu à
lei. Eichmann tinha uma suspeita confusa de que esta poderia ser uma distinção
importante, mas nem a defesa nem os juízes lhe pegaram». [206] Não lhe pegaram,
também, os críticos de Arendt, e toda a controvérsia que rodeou a reportagem sobre a
banalidade do mal acabou por eclipsar o verdadeiro problema que o caso Eichmann colocava:
o que pode acontecer à consciência numa situação de colapso moral, tal como a que o
regime nazi proporcionou, concretamente através da burocracia, cujo papel solicita breves
reflexões adicionais.
Com efeito, Arendt
chama a atenção para o facto de o processo que culminou na perpetração do Holocausto
ter assumido, uma dentre muitas, a figura de uma socialização burocrática, isto é, o
tipo de socialização que permite que um indivíduo entenda como o seu mais alto dever
moral obedecer às ordens do seu superior, e que resulta da conjugação de quatro
componentes fundamentais, a saber: vulnerabilidade económica, perda de autonomia,
instituição da lealdade como valor moral fundamental e identificação da virtude e da
consciência com o escrupuloso seguimento das ordens dadas. Com mais pormenor: em regime
totalitário, e por circunstâncias institucionais, o indivíduo tem fortes razões para
temer pela sua permanência num trabalho, porquanto a insegurança económica se constitui
como a primeira forma de o levar a fazer o que quer que seja para o manter.
Consequentemente, a lealdade do paterfamilias para com o seu núcleo familiar, rapidamente
se transformará em lealdade para com o seu empregador. Por outro lado, a engrenagem da
burocracia é caracterizada, nas palavras de Arendt, como animada pela «Lei de Ninguém»
[ Rule of nobody] [207], segundo a qual cada indivíduo é apenas uma pequena peça da
maquinaria. Perdendo o controlo do processo decisório, tanto quanto a capacidade de
acompanhar o modo segundo o qual as decisões serão executadas, a consciência do
burocrata não chega a temer pelas consequências das suas acções. A lealdade, enfim,
pressupõe a subordinação dos objectivos e valores individuais aos objectivos e normas
da instituição, decorrente da perda do sentimento de responsabilidade pessoal, e
encontra o seu expoente mais alto na transformação da própria consciência, cumprida
que foi, entretanto, a desumanização burocrática. [208] O moralmente errado é agora, e
apenas, algo difícil de suportar, um dentre os muitos deveres institucionais. [209]
Neste sentido, a
questão maior que a renúncia ao pensamento coloca «não é uma questão de bondade ou
de maldade, do mesmo modo que não se trata de inteligência ou estupidez. Aquele que não
sabe o que é a relação silenciosa (na qual se submete ao exame crítico o que se diz ou
o que se faz), não teme contradizer-se, o que significa que não terá nunca nem a
possibilidade nem o desejo de justificar o que diz ou faz; do mesmo modo que não se
deixará parar pela ideia de um crime, pois que pode contar esquecê-lo na hora seguinte.
As pessoas más não estão "cheias de remorsos"». [210]
Que relação
silenciosa é esta, ao que parece capaz de nos condicionar negativamente por relação ao
mal, é o que se trata, agora, de esclarecer, uma vez que « Se existe alguma coisa que
pode impedir os homens de fazer o mal, deve ser uma propriedade inseparável da própria
actividade, qualquer que seja o objecto». [211] Noutros termos, poderíamos perguntar,
com Arendt, «O que é que nos faz pensar?».
Percorrendo, com o
propósito de responder a esta questão, a história do pensamento filosófico, nota
Arendt: « Se desembaraçarmos estas respostas [ de Platão a Hegel] do seu conteúdo
doutrinal (...), confrontamo-nos com confissões de uma necessidade única: a de tornar
concretas as implicações do espanto platónico, a necessidade que experimenta (em Kant)
a faculdade de raciocínio de transcender os limites do cognoscível, (...)- em Hegel, sob
a forma de "necessidade da filosofia", capaz de transformar os acontecimentos
exteriores em pensamentos próprios ao indivíduo (...). É esta incapacidade do eu
pensante em dar conta de si mesmo que faz dos filósofos, dos pensadores de profissão,
uma casta difícil de suportar». [212]
Assim, pois, para que
possamos abordar o problema colocado, há-de ser possível encontrar um modelo da
actividade de pensar na sua realidade, «Em duas palavras, um pensador que saiba
permanecer um homem entre os outros, que não fuja da praça pública, que seja um
cidadão como os outros, que não faça nada e nada exija além do que cada um, segundo
ele, pode esperar e vir a ser». [213] Arendt refere-se, é já evidente, à figura de
Sócrates.
« O que surpreende
nos diálogos socráticos de Platão- escreve - é que todos eles pregam o cepticismo. A
argumentação ou não leva a lado nenhum, ou anda em círculos». [214] Tudo começa com
termos por demais conhecidos do discurso quotidiano- coragem, justiça, entre outros- mas
que, à tentativa de definição, escapam fugidios. Além disso, não parece que a
vocação de Sócrates seja, como a dos pensadores profissionais, a de decifrar enigmas ou
proporcionar demonstrações; bem ao contrário, o seu intuito é o de confirmar junto de
outros as suas próprias incertezas, o do exercício desinteressado da reflexão, à qual
constantemente nos obriga. Trate-se do Sócrates moscardo- que desperta os cidadãos do
sono crítico em que, de bom grado, permaneceriam- parteira- que traz à luz do dia
opiniões e juízos prematuros, nunca antes examinados- ou do Sócrates torpedo- que se
imobiliza a si próprio e tudo aquilo em que toca, em ordem a um outro tipo de actividade
e de vida, porventura a mais elevada- o resultado não é nunca o de uma verdade que se
substitui às más opiniões entretanto denunciadas. Ao vento do pensamento, enfim,
estamos interditos de pedir resultados definitivos, porquanto ele « possui, a cada
instante, um efeito de sapa, de destruição a respeito de todos os critérios
estabelecidos, os valores, os padrões de bem e de mal, em duas palavras, em relação aos
costumes e regras de conduta de que tratam os princípios da moralidade e a ética. Estes
pensamentos entorpecidos, parece dizer Sócrates, são de tal modo práticos para o uso
que nos podemos servir deles a dormir; mas se o vento do pensamento, que vou agora
levantar em vós, vos arrancar ao vosso sono, vos acordar e encher de vida, vereis que
não tendes senão incertezas, e que o melhor que há a fazer é partilhá-las com os
outros». [215]
Destroçar crenças
sem, por si só, dar origem a outras; subverter o estabelecido, vaporizar as referências
segundo as quais os homens se orientam, tal é o poder corrosivo do pensamento. Na medida
em que nada substitui ao que faz desmoronar, esta actividade não pode encontrar o seu
sentido senão no seu próprio âmbito, segundo um critério que não pode ser- não mais-
o da verdade. Como se verá a seguir, o critério e o sentido do pensamento crítico- ou
socrático- é a busca da conformidade do eu consigo mesmo. No caminho que leva a esta
conclusão, a análise arendtiana de duas proposições de Sócrates - «Cometer uma
injustiça é pior que sofrê-la» e «Mais valeria servir-me de uma lira dissonante e
desafinada, dirigir um coro mal regrado ou encontrar-me em desacordo e em oposição com o
toda a gente do que o estar comigo, totalmente só, e contradizer-me» - revela-se
fundamental.
Relativamente à
primeira, Arendt começa por esclarecer que, enquanto cidadãos, a nossa preocupação é
a de evitar que o mal aconteça, porquanto é o mundo em que vivemos todos- autor do
crime, vítima e espectador- que está em causa. Neste sentido, portanto, «não é o
cidadão que fala aqui pela boca de Sócrates, porque o cidadão é suposto preocupar-se
primeiramente com o mundo, mais do que consigo mesmo; é o homem que se consagra antes de
mais ao pensamento». [216] Não é, pois, a moral, mas a própria experiência do
pensamento enquanto tal; não é o mundo, mas a necessidade de tudo submeter ao exame
crítico, o amor da sabedoria e da filosofia, que parece implicar na realidade é
condição sine qua non que, «por pouco que o mundo seja como tu [ Cálicles] o
descreves, dividido entre fortes e fracos (...) de tal modo que não há outra
possibilidade senão fazer o mal ou sofrê-lo, saberias então que mais vale sofrer do que
fazer». [217]
No que à segunda
proposição concerne, é o seu carácter altamente paradoxal que obriga a um exame mais
profundo. Com efeito, «Sócrates diz ser um e, consequentemente, incapaz de correr o
risco de não estar em harmonia consigo próprio. Mas nada de idêntico a si mesmo,
realmente e absolutamente Um, como A é A, pode estar em harmonia ou em desacordo consigo
mesmo; é preciso sempre pelo menos dois tons para produzir um som harmonioso. (...) O
"ser um" de Sócrates não é tão evidente como parecia; não sou somente para
os outros, mas para mim, e, neste caso, não sou manifestamente um. Insinua-se uma
diferença na minha unicidade». [218]
A diferença
quer dizer, a pluralidade não é do exterior que se apresenta, mas uma dualidade
inerente a qualquer entidade, pelo que o pensamento, actividade solitária embora, não
é, contudo, isolada. A consciência que o homem tem de si mesmo introduz a dimensão
plural, dá origem ao diálogo interior em que, simultaneamente, sou quem coloca as
questões e lhes responde. [219] Assim, pois, «Não é a actividade de pensar que
instaura a unidade, que unifica o dois-em-um; bem ao contrário, o dois-em-um torna-se Um
quando o mundo exterior se impõe ao pensador e interrompe bruscamente o processo de
pensamento». [220]
O ego mental só vive,
portanto, em dualidade; a diferença e a pluralidade são as condições da sua
existência e, «tal como a metáfora preenche o fosso entre o mundo dos fenómenos e as
actividades mentais que aí se desenrolam, o dois-em-um socrático traz um bálsamo para a
solidão do pensamento; a sua dualidade inerente deixa entrever a pluralidade infinita que
é a lei da terra». [221]
O pensamento, em suma,
enquanto actualização da diferença presente na consciência de si, constitui-se como
faculdade constantemente presente em qualquer indivíduo, mas da qual qualquer indivíduo,
em determinadas circunstâncias (e circunstâncias às quais a inteligência ou estupidez
são alheias), pode fugir. Não se trata, saliente-se, de concluir pela possibilidade de
um «Eichmann em cada um de nós», [222] mas tão só de assumir que a incapacidade de
pensar, a fuga à relação de si a si mesmo que Sócrates descobriu, a permanência no
«Ich bleibe mir aus» (falto-me, não compareço a mim mesmo) de Jaspers, é a ameaça
que paira, sem descanso, sobre qualquer ser humano.
Deste modo, enfim,
«Uma vida desprovida de pensamento nada tem de impossível; não chega a desenvolver a
sua própria essência, é tudo - não é somente desprovida de significação; não é,
realmente, viva. Os homens que não pensam são como sonâmbulos». [223]
Compreender, portanto,
em que sentido Eichmann se declarava «inocente no sentido da acusação» e apenas
«culpado perante Deus», [224] depende, em ultima análise, da nossa capacidade de
acompanharmos o modo de funcionamento dessa consciência, [225] e de resistirmos à
tentação compreensível embora- de a considerar, sem mais, ausente: « Atrás da
comédia dos peritos em almas permanece o duro facto de que o seu caso não era,
obviamente, de moral, para não falar de insanidade legal. (...) Pior, o seu não era,
obviamente, um caso de ódio insano aos judeus, de fanático anti-semitismo (...).
Infelizmente, ninguém acreditou nele. (...) E os juízes não acreditaram nele porque
eram bons demais para admitir que uma pessoa medianamente "normal"(...) podia
ser perfeitamente incapaz de distinguir o certo do errado (...) e perderam o maior desafio
moral e até legal de todo o caso». [226]
Se a voz da
consciência não perturbou Eichmann - «Quem era ele para julgar? Quem era ele para ter
os seus próprios pensamentos sobre a matéria?» [227] - isso deveu-se, ainda, a um outro
factor: não havia ninguém, absolutamente ninguém, que fosse realmente contra a
Solução Final, e por isso «não precisava de fechar os ouvidos à voz da consciência
porque a sua consciência falava com uma "voz respeitável", com a voz
respeitável da sociedade à sua volta». [228] O povo alemão, portanto, tinha aprendido
a proteger-se da realidade exactamente com os mesmos meios que impregnavam a mentalidade
de Eichmann. Por isso ele não era um monstro, mas um «idealista», e por isso insistia
que os seus actos não eram, na altura, criminosos. [229]
Mais e este é,
porventura, o ponto mais sensível de toda a reportagem - «onde quer que vivessem judeus,
havia líderes judeus reconhecidos, e esta liderança, quase sem excepção, cooperou, de
uma maneira ou de outra, por uma razão ou por outra, com os nazis. A verdade é que se o
povo judeu tivesse estado realmente desorganizado e sem liderança, teria sido o caos e a
miséria, mas o número total das vítimas dificilmente teria estado entre os quatro
milhões e meio e os seis milhões de pessoas». [230] Além disto, escreve na mesma obra,
quando oficiais da Gestapo e das SS estavam destacados noutros países - na Dinamarca, na
Bulgária - as coisas já não se passavam com a crueldade que todos conhecemos;
surpreendentemente, tornavam-se inseguros de si mesmos e já não eram de confiar, porque
« tinham conhecido a resistência baseada em princípios, e a sua "dureza"
derreteu como manteiga ao sol, foram até capazes de mostrar uns tímidos princípios de
genuína coragem». [231]
Decido deter-me na
primeira passagem, pela seguinte razão: foi, talvez, a mais controversa e mal entendida,
não só porque não veicula um juízo moral sobre os membros dos Conselhos Judaicos, como
é frequentemente afirmado, como não insinua que os seis milhões de judeus assassinados
o não teriam sido, se esses mesmos conselhos não existissem. Para evitar um discurso de
pendor apologético alcançada a empatia que o estudo mais cuidado de um autor
naturalmente pode facilitar, é difícil aceitar os epítetos que Arendt suscitou aquando
desta e de outras questões (foi desacreditada e vilipendiada como sofrendo do «complexo
de enfant-terrible», foi considerada «desalmada», «maliciosa», «arrogante»,
«colaboracionista», «traidora» e «leviana» ...)- limitar-me-ei a chamar a atenção
para o seguinte: o que Arendt diz era não só conhecido, como sustentado por vários
estudiosos do Holocausto ; [232] a explicação que a própria dá da razão que a levou a
fazer referência ao «mais negro capítulo de toda a história negra», não deixa
dúvidas: « Insisti neste capítulo da história, que o julgamento de Jerusalém não
conseguiu mostrar ao mundo nas suas verdadeiras dimensões, porque oferece a mais
impressionante perspectiva da totalidade do colapso moral que os nazis provocaram na
respeitável sociedade europeia não só na Alemanha, mas em quase todos os
países, não só entre os perseguidores, mas também entre as vítimas». [233]
O que Arendt põe em
causa, finalmente, é que a conduta moral se dê por costume, convicta de que «ninguém
no seu perfeito juízo pode continuar a acreditar nisto». [234] Trata-se, com efeito, da
rejeição do tradicional e clássico entendimento da virtude e, em A Vida do Espírito,
escreve: « Só os hábitos e os costumes podem ser ensinados, e sabemos bem demais com
que alarmante velocidade eles são desaprendidos e esquecidos, quando novas
circunstâncias reclamam uma mudança nos usos e padrões de comportamento». [235] E esta
era a grande lição que podíamos tirar dos acontecimentos do século XX. [236]
Eichmann dizia
eu não precisava de fechar os ouvidos à voz da consciência, porque ela falava
«com a voz respeitável da sociedade à sua volta», e, nesta medida, começam a
clarificar-se as relações entre terror e ideologia: o terror nasce do medo perante a
acção e a humana potencialidade de renovados começos, pelo que aniquila as relações
entre os homens; a ideologia, do medo da liberdade do pensar, pelo que corta as relações
com a realidade: « A preparação [ levada a cabo pela propaganda] é coroada de sucesso
a partir do momento em que as pessoas perderam todo o contacto com os seus semelhantes
tanto quanto com a realidade que as rodeia; porque na perda destes contactos, os homens
perdem também a faculdade de experimentar e de pensar. O sujeito ideal do reino
totalitário não é nem o nazi convicto nem o comunista convencido, mas o homem para quem
a distinção entre facto e ficção (isto é, a realidade da experiência) e a
distinção entre verdadeiro e falso (isto é, as normas do pensamento) não existem
mais». [237]
Esta incapacidade para
distinguir facto e ficção, verdadeiro e falso, tem consequências ainda a um outro
nível - o da linguagem.
A respeito de
Eichmann, Arendt escreve: « A sua incapacidade de falar estava estreitamente ligada a uma
incapacidade de pensar, nomeadamente do ponto de vista de outra pessoa. (...) Estava
rodeado da mais fiável escolta contra as palavras e a presença de outros, e por isso
contra a realidade enquanto tal». [238]
«Amtssprache é a
minha única língua», declarou Eichmann, frequentemente, e a sua «conversa oca»,
denunciada pelos juízes, devia-se ao facto de ser totalmente incapaz de construir uma
frase que não constituísse um cliché. O próprio sistema, de resto, favorecia esta
circunstância, ao obrigar os seus colaboradores a rígidas «regras de linguagem»: com
efeito, termos como «extermínio» ou «liquidação» são raramente encontrados na
correspondência do regime, mas o ponto capital é que « a armadilha deste sistema de
linguagem não era para manter as pessoas ignorantes acerca do que estavam a fazer, mas
para prevenir que não o comparassem com o seu velho, "normal" conhecimento de
assassínios e mentiras. A grande susceptibilidade de Eichmann em apanhar palavras e
frases comuns, combinada com a sua incapacidade para o discurso vulgar, fez dele, é
claro, um sujeito ideal de "regras de linguagem"». [239]
Um último aspecto a
considerar: a enfática e inesperada declaração de Eichmann, de que teria vivido de
acordo com o imperativo categórico de Kant.
Como Arendt relata,
Eichmann era capaz de formular o imperativo de uma forma surpreendentemente adequada;
sofria, contudo, de uma distorção que viria a revelar-se crucial. Com efeito, Eichmann
passara do «Age de tal modo que o princípio da tua vontade possa torna-se o princípio
de leis gerais» ao « Age como se o princípio das tuas acções fossem os mesmos do
legislador ou da lei do país- ou, na formulação de Hans Frank (...) "Age de tal
modo que o Führer, se soubesse da tua acção, a aprovasse». [240]
Ora, se é certo que o
princípio kantiano põe a tónica na razão prática e na sua concomitante autonomia, e
por isso consagra o homem como legislador moral mais do que como sujeito de deveres
heteronomamente dados, também o é que a distorção de Eichmann concordava realmente
como o que «ele próprio denominara versão de Kant "para uso caseiro do
homenzinho": neste uso caseiro, o que resta do espírito de Kant é a exigência de
que um homem faça mais do que obedecer à lei, vá além da mera chamada à obediência e
identifique a sua própria vontade com o princípio por trás da lei- a fonte de onde a
lei brotou. Na filosofia de Kant, essa fonte era a razão prática; no uso caseiro de
Eichmann, era a vontade do Führer». [241] Eichmann não podia, portanto, ter-se
apercebido do que fazia- em termos morais, não factuais- uma vez que o fazia em
circunstâncias de crime legalizado pelo Estado. [242] Lealdade ao regime era, portanto,
lealdade a Hitler, corporização da própria vontade de cada um: « O facto perturbador
no sucesso do totalitarismo é (...) a verdadeira ausência do eu a si próprio [
selflessness] dos seus adeptos... Para espanto de todo o mundo civilizado, ele pode estar
pronto a ajudar na sua própria perseguição e a assinar a sua própria sentença de
morte para que a sua posição como membro do movimento não seja tocada...
Identificação com o movimento e conformismo total parecem ter destruído a própria
capacidade para a experiência, mesmo as mais extremas como a tortura ou o medo da
morte». [243]
Entretanto, Arendt
nunca deixa de estabelecer a distinção entre pensamento, acção e juízo, ainda que se
possa vislumbrar o juízo como uma ponte entre o primeiro e a segunda. Certo, contudo, é
que nem o pensamento é juízo, nem o juízo é acção, pelo que o ideal da união entre
teoria e prática é rejeitado e, além disso, considerado perigoso, uma vez que reforça
a concepção instrumental da acção enquanto um meio pelo qual um determinado fim posto
pela razão seria realizado.
Eichmann nunca alterou
a sua história. Provavelmente não o podia fazer. A sua memória era alheia à
experiência, à razão, à informação de qualquer tipo. Assim, « era como se naqueles
últimos momentos estivesse a recapitular a lição que este longo caminho de humana
perversidade nos tinha ensinado- a lição da terrível, desafiadora- das- palavras- e-
do- pensamento, banalidade do mal». [244]
Se alguma resposta
existe para a violenta polémica que Eichmann em Jerusalém suscitou, ela encontra-se em
Verdade e Política: «O seu objectivo é clarificar dois problemas diferentes, ainda que
intimamente ligados, de que não tivera consciência antes, e cuja importância parece
ultrapassar as circunstâncias daquela polémica. O primeiro diz respeito à questão de
saber se é sempre legítimo dizer a verdade- acreditaria, sem reservas, no "fiat
veritas, et pereat mundus"? O segundo nasceu da espantosa quantidade de mentiras
utilizadas na "polémica"- mentiras sobre aquilo que eu escrevera, por um lado,
e sobre os factos que relatara, por outro». [245]
São duas as questões
maiores com que nos confrontamos: a de saber, por um lado, que espécie de realidade tem a
verdade se não tem poder no domínio público, esse domínio que, mais do que qualquer
outro, garante a realidade da existência dos humanos que nele nascem, vivem e morrem; a
de avaliar, por outro, se uma verdade impotente é ou não tão desprezível quanto um
poder despreocupado com a verdade.
É política a
questão que anima Arendt, mais do que filosófica ou moral e, nesta medida, interessa
deslocar o debate para o terreno das verdades de facto, porquanto «Os factos e os
acontecimentos- que são sempre engendrados pelos homens vivendo e agindo em conjunto-
constituem a própria textura do domínio político». [246]
«Historicamente-
escreve Arendt- o conflito entre a verdade e a política surge de dois modos de vida
diametralmente opostos- a vida do filósofo tal como foi inicialmente interpretada por
Parménides e em seguida por Platão, e o modo de vida do cidadão». [247] Daqui
decorreu, por um lado, que a verdade tenha sido tradicionalmente entendida como apanágio
do filósofo que, conviva das ideias eternas, fazia derivar delas os princípios
susceptíveis de estabilizar os assuntos humanos; e, por outro, que ao cidadão, absorvido
nos assuntos humanos, deles mesmos em constante mudança, cabia apenas a opinião. Os
traços deste conflito entre verdade e opinião far-se-iam observar muitos séculos
passados sobre o Górgias, de Platão, que no-lo apresentava enquanto «antagonismo entre
comunicação sobre a forma de "diálogo", discurso apropriado à verdade
filosófica, e a comunicação sob a forma de "retórica", através da qual o
demagogo, como o diríamos hoje, persuade a multidão». [248]
Passar da verdade à
opinião coincide, assim, com a passagem do singular a filosofia política
platónica, de pendor francamente tirânico, assenta na desconfiança relativamente à
possibilidade da verdade poder vir das massas- ao plural. Hoje, numa época em que, como
nunca antes, é tolerada a diversidade da opinião, poderíamos ser levados a concluir
pela resolução desse conflito. «Estranhamente, no entanto, não é esse o caso, pois o
conflito entre a verdade de facto e a política (...) tem- pelo menos sob certos aspectos-
traços muito semelhantes. (...) A verdade de facto, quando lhe sucede opor-se ao lucro e
ao prazer de um dado grupo, é hoje acolhida com uma hostilidade maior do que alguma vez
foi. (...) O que parece ainda mais perturbante é que as verdades de facto incómodas são
toleradas nos países livres, mas ao preço de serem muitas vezes, consciente ou
inconscientemente, transformadas em opiniões». [249]
Estamos, pois, perante
um problema político de primeira ordem, uma vez que é a realidade comum e efectiva que
está em jogo. De algum modo, insinua-se a suspeita de que a submissão à verdade de
facto pode constituir-se como uma atitude anti-política, o que, como se verá a seguir,
não surpreende senão aparentemente.
Com efeito,
«Considerada de um ponto de vista político, a verdade tem um carácter despótico. Por
isso ela é odiada pelos tiranos, que temem, com razão, a concorrência de uma força
coerciva que não podem monopolizar; e goza de um estatuto relativamente precário aos
olhos dos governos que repousam sobre o consentimento e que dispensam a coerção. Os
factos estão para além do acordo e do consentimento, e toda a discussão acerca deles-
toda a troca de opiniões que se funda sobre uma informação exacta- em nada contribuirá
para o seu estabelecimento. Pode discutir-se uma opinião inoportuna, (...) mas os factos
inoportunos têm a exasperante tenacidade que nada pode abalar a não ser as mentiras
puras e simples». [250]
Assim, pois, aquele
que diz a verdade encontra-se, diz Arendt, numa posição mais difícil do que o filósofo
de Platão: pode não chegar a estar em causa a sua sobrevivência, mas a sobrevivência
da sua verdade, ao contrário, está em risco, uma vez que «não apenas as afirmações
factuais não contêm princípios a partir dos quais os homens possam agir tornando-os
assim manifestos no mundo, mas também o seu próprio conteúdo se recusa a esse género
de verificação. Aquele que diz a verdade de facto, na improvável eventualidade de
querer arriscar a vida por um facto particular, cometeria apenas uma espécie de erro. O
que se tornaria manifesto no seu acto seria a sua coragem, ou talvez a sua tenacidade, mas
não a verdade do que ele tinha a dizer, nem mesmo a sua boa fé». [251]
Com efeito, só a
mentira é uma forma de acção, porquanto pretende mudar a narrativa da história e,
assim, de certo modo, o próprio mundo. A simples narração dos factos, em contrapartida,
não leva a nenhum tipo de acção, a não ser na situação extrema de uma comunidade
inteiramente submersa pela mentira organizada: «Onde toda a gente mente sobre tudo o que
é importante, aquele que diz a verdade, quer o saiba ou não, começou a agir; também
ele se envolveu no trabalho político, pois, no improvável caso de sobreviver, deu um
primeiro passo para a mudança do mundo». [252]
Há, ainda assim, uma
diferença sensível entre a mentira tradicional e a mentira moderna: aquela implicava
apenas particulares e não pretendia enganar senão o inimigo; esta, por seu turno,
assenta no engano de si próprio como instrumento indispensável à fabricação de
imagens, que é, em si mesmo, pior do que o engano dos outros, uma vez que «O resultado
de uma substituição coerente e total de mentiras à verdade de facto não é as mentiras
passarem a ser aceites como verdade, nem que a verdade seja difamada como mentira, mas que
o sentido através do qual nos orientamos no mundo real- e a categoria da verdade
relativamente à falsidade conta-se entre os recursos mentais para prosseguir esse
objectivo- fique destruído». [253]
A experiência deste
estremecimento é o que encontramos sob a dominação totalitária e, assim, «a atitude
política em relação aos factos deve seguir o caminho muito estreito que existe entre o
perigo de os tomar como resultado de qualquer desenvolvimento necessário, que os homens
não podem impedir, e sobre o qual não podem ter, pois, qualquer influência, e o perigo
de os negar, ou tentar eliminar do mundo, manipulando-os». [254]
Em suma, a função
política do historiador, do romancista, do contador de histórias, é a de ensinar a
aceitar as coisas como elas são. Só numa concepção puramente utilitária da política,
portanto, que desvirtua a humanidade desta forma de acção, porventura a mais excelente,
pode a mentira estabelecer ou salvaguardar as condições da procura da verdade; só numa
concepção utilitária da política, enfim, podem as mentiras, «precisamente porque são
muitas vezes utilizadas como substitutos de meios mais violentos, (...) ser consideradas
como instrumentos relativamente inofensivos do arsenal da acção política». [255]
Assim, portanto,
«Nenhum mundo humano destinado a durar mais tempo que a breve vida dos mortais, nele,
poderá alguma vez sobreviver sem homens que queiram fazer o que Heródoto foi o primeiro
a empreender conscientemente- a saber, l e g e i n t a e o n t a , dizer o que é». [256]
Termino, enfim, com o
comentário de Arendt sobre Peter Bamm, um médico alemão, que afirmara: « "Nós
sabíamos disto. Não fizemos nada. (...) Está entre os refinamentos dos governos
totalitários do nosso século não permitirem aos seus oponentes morrer uma morte grande,
dramática de mártir, pelas suas convicções. (...) Nenhum de nós tinha uma convicção
tão arraigada que nos levasse a um sacrifício inútil em nome de um significado moral
mais alto". Escusado será dizer- escreve Arendt- que o autor continua a leste do
vazio da sua muito enfatizada "decência" na falta do que chama "um
significado moral mais alto". É verdade que a dominação totalitária tentou
estabelecer estes buracos de esquecimento em que todos os feitos, bons e maus,
desapareceriam (
). [ Mas] os buracos de esquecimento não existem. Nada humano é
tão perfeito e há pessoas demais no mundo para tornar o esquecimento possível. Um homem
ficará sempre vivo para contar a história. Por isso, nada pode ser alguma vez
"inútil do ponto de vista prático", pelo menos não a longo prazo. (
)
Politicamente falando, sob condições de terror quase todos vão obedecer, mas alguns
não. Humanamente falando, não se pede mais para que este planeta continue um lugar
próprio para a habitação humana». [257]
4. Os campos como mal radical
« Se é verdade que os campos de
concentração são a mais consequente instituição da regra totalitária, "insistir
nos horrores" pareceria indispensável para a compreensão do totalitarismo. Mas a
recolha não pode fazer isto, tal como o não pode o relato incomunicativo das vítimas.
Em ambos os géneros há uma tendência inerente para fugir da experiência...»
Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo
Instituição
decisiva, os campos desafiam o senso-comum, corporizam um fenómeno que não se deixa
circunscrever pelas categorias tradicionais de explicação [258] e cuja essência - o
terror ele mesmo - importa analisar. Inenarrável por definição, o universo
concentracionário «serve de laboratório em que a crença fundamental do totalitarismo-
tudo é possível- se encontra verificada». [259] O pior dos males, mostrá-lo-ei, não
consiste no assassínio em massa- « A morte não é senão um mal menor. O assassino que
mata um homem (...) move-se ainda no domínio da vida e da morte que nos é familiar.
(...) O assassino deixa um cadáver atrás de si e não finge que a sua vítima nunca
existiu (...). Ele destrói uma vida, mas não o facto da própria existência». [260] O
summum malum é, então, a demonstração de que não há limites para o poder humano, nem
nada de permanente no que toca à dignidade humana. [261] Com efeito, « Se levarmos a
sério as aspirações totalitárias, e se nos recusarmos a deixar levar pelo que afirma
delas o bom senso- que são utópicas e irrealizáveis- veremos que a sociedade da morte
instituída nos campos é a única forma de sociedade em que se torna possível dominar
inteiramente o homem». [262]
Ora, «dominar
inteiramente o homem» implica, antes de mais, a eliminação, tão sistemática quanto
metódica, dos espaços de liberdade que a capacidade para a acção - enquanto decorrente
da pluralidade humana mesma - solicita. Só «Um Homem de dimensões gigantescas» pode
dar livre curso à lógica da ideia que os campos concretizam , na sua máxima expressão.
Com efeito, « Em comparação com a demência do resultado final- a sociedade
concentracionária- o processo pelo qual os homens são preparados para este fim, os
métodos usados para adaptar os indivíduos a este estado de coisas, são límpidos e
lógicos. A fabricação massiva e demencial de cadáveres é precedida pela preparação
historicamente e politicamente inteligível de cadáveres vivos». [263]
A dominação total, o
mal radical sem «grandeza satânica», [264] efectua-se em três momentos:
Homicídio da pessoa
jurídica: pela abolição dos direitos civis e políticos de toda a população, muito
antes dos campos, esta primeira fase caracteriza-se pela produção de apátridas, pela
colocação de categorias inteiras de pessoas fora da protecção da lei, e culmina com a
prisão de indivíduos inocentes, [265] cobaias ideais para a experiência de abolição
da pessoa jurídica, pelo que « à amálgama dos detidos políticos e criminosos, pela
qual começaram os campos de concentração na Rússia e na Alemanha, se juntou muito
rapidamente um terceiro elemento, que em breve se tornaria maioritário (
): pessoas
de que nenhum acto podia motivar a prisão, nem aos seus próprios olhos nem aos olhos dos
seus carrascos». [266] Deste modo, só o aparecimento deste terceiro elemento torna
evidente o contraste entre os campos e o sistema penal, porquanto a inicial presença de
criminosos e prisioneiros políticos- «ultima concessão ao senso comum»- o diluía.
Estas duas categorias de prisioneiros, com efeito, favoreciam a impressão de que os
campos puniam comportamentos susceptíveis de castigo, e só a presença dos inteiramente
inocentes marca os campos como a verdadeira instituição central do totalitarismo. [267]
Como se pode ler em La Nature du Totalitarisme, « O medo torna-se sem objecto a partir do
momento em que a escolha das vítimas se encontra totalmente liberta de qualquer relação
com os pensamentos ou acções dos indivíduos. Se o medo é, inequivocamente, a
tonalidade absoluta dominante dos países totalitários, já não pode servir de guia para
acções particulares: deixou de ser um princípio de acção. A tirania totalitária é
sem precedente na medida em que introduz um imenso movimento na calma dos cemitérios e
confunde os homens no deserto do isolamento e da atomização». [268]
O sistema
concentracionário constitui, pois, um universo separado do sistema penal normal,
condição de possibilidade da afirmação da arbitrariedade mesma, característica do
poder absoluto. [269] Assim, pois, «O objectivo de um sistema arbitrário é destruir os
direitos civis de toda uma população, que em última instância se tornou tão
fora-da-lei nos seus próprios países como os sem- -Estado e os sem abrigo. A
destruição dos direitos do Homem e o assassínio, nele, da pessoa jurídica, são o
pré-requisito para o dominar totalmente (...) e isto aplica-se a qualquer [270] habitante
de um Estado totalitário». [271] Antes, pois, de vermos o direito à vida ameaçado, há
todo um longo e razoavelmente lento processo a percorrer.
Com efeito, « Até os
Nazis começaram o seu extermínio dos judeus privando-os, primeiro, do seu estatuto legal
(o estatuto de cidadãos de segunda classe) e cortando-os do mundo dos vivos, agrupando-os
em guetos e campos de concentração; e antes de terem posto as câmaras de gás em
acção, testaram cuidadosamente o chão que pisavam e descobriram, para sua satisfação,
que nenhum país reclamaria estas pessoas. O ponto é que uma condição de completa
ausência de direitos foi criada antes que o direito à vida fosse desafiado.»; [272]
Homicídio da pessoa
moral: [273] « Aí procede-se tornando, de um modo geral e pela primeira vez na
história, o martírio impossível». [274] Determinante no processo de produção de
mortos-vivos, esta segunda fase organiza o esquecimento, e «O verdadeiro horror dos
campos de concentração e de extermínio reside em que os prisioneiros, mesmo se lhes
acontece escapar, são cortados do mundo dos vivos muito mais claramente do que se
estivessem mortos; é que o terror impõe o esquecimento». [275]
Inviabilizando o
martírio, torna-se a morte anónima e in-significante, [276] como se fosse possível
prolongá-la indefinidamente e assim esvaziá-la, tanto quanto ao próprio facto de estar
vivo, de sentido. Escreve Arendt: « Os campos de concentração, tornando a própria
morte anónima (fazendo com que seja impossível saber se um prisioneiro está morto ou
vivo), despem a morte da sua significação: o termo de uma vida cumprida. Em certo
sentido, eles despossuiam o indivíduo da sua própria morte, provando que a partir
daquele momento nada lhe pertencia e que ele não pertencia a ninguém. A sua morte
limitava-se a confirmar o facto de que não tinha nunca verdadeiramente existido». [277]
Caminhamos, nesse
momento, para o adormecimento da consciência, que se tornou inadequada ou irrelevante: «
Um homem é confrontado com a alternativa de trair e portanto matar os seus amigos, ou de
mandar a sua mulher e filhos, pelos quais é, em todos os sentidos, responsável, para a
morte...». [278] E é esta combinação de desesperança e anonimato que,
inelutavelmente, contribuirá para o aniquilamento do indivíduo enquanto sujeito de
juízo e de iniciativa. A radical solidão marca, portanto, este segundo passo,
determinando a singular atmosfera de irrealidade a que já se referiu. [279]
Em grande medida
graças ao princípio da delegação de poder a certos detidos, a solidariedade torna-se
impossível; impedidas de escolher entre o bem e o mal, as vítimas sentem-se culpadas e
cúmplices dos feitos dos carrascos - «O importante não é somente que o ódio seja
desviado dos culpados (os kapos eram mais odiados do que os SS) mas que a linha de
demarcação entre perseguidor e perseguido, entre o assassino e a sua vítima, seja
constantemente esbatida». [280] Conseguida a resignação absoluta, só uma questão se
coloca ainda- a da sobrevivência;
- Homicídio da
identidade única de cada um: [281] fase final de desumanização, engendra-se neste ponto
«um horror que eclipsa largamente o atentado à pessoa jurídica e o desespero da pessoa
moral» [282] e desvela-se a demência radical de todo o processo: [283] « Trata-se de
manipular o corpo humano, com as suas infinitas possibilidades de sofrer, de modo a
destruir a pessoa humana tão inexoravelmente como certas doenças mentais de origem
orgânica». [284] A dor assume aqui, de resto, uma relevância que não podemos
descuidar. Com efeito, «A sensação mais intensa que conhecemos, intensa a ponto de
apagar todas as outras experiências, quer dizer, a experiência da dor física aguda, é
ao mesmo tempo a mais privada e a menos comunicável de todas. Talvez não seja só a
única experiência que somos incapazes de transformar num aspecto adequado para a
apresentação pública, mas além disso tira-nos a sensação da realidade [ em extremo]
». [285]
O indivíduo é,
agora, apenas um «feixe de reacções», momento de triunfo do sistema, uma vez que
«Destruir a individualidade é destruir a espontaneidade, o poder que o homem tem de
começar algo de novo a partir dos seus próprios recursos, algo que não se pode explicar
a partir de reacções ao meio ambiente e aos acontecimentos». [286] Com efeito, e como
se mostrou, a individualidade, entendida como capacidade para iniciar algo de novo, [287]
está para além do automatismo dos processos naturais e do mero comportamento. É, pois,
a capacidade humana para a liberdade moral, para a espontaneidade mesma, que está em
causa: [288] « O que torna ridículas e perigosas quaisquer convicções e opiniões, em
situação totalitária, é que os regimes totalitários tiram o seu maior orgulho do
facto de não terem necessidade delas, nem de nenhuma forma de apoio humano. Os homens, na
medida em que são mais do que a reacção animal e que a realização de funções, são
absolutamente supérfluos para os regimes totalitários. O totalitarismo não tende para
um reino despótico sobre os homens, mas para um sistema no qual os homens estão a mais.
O poder total não pode ser atingido e preservado senão num mundo de reflexos
condicionados, de marionetes que não apresentam o mínimo sinal de espontaneidade».
[289]
Ora, é precisamente
na condição de conseguir reduzir o indivíduo a essa «marionete de rosto humano», a
«animal pervertido», a simples coisa, que se cumpre o objectivo da dominação total:
[290] organizar a pluralidade dos seres humanos como se estes não constituíssem senão
um indivíduo [291] - «O problema é fabricar qualquer coisa que não existe: a saber, um
tipo de espécie humana que se assemelha às outras espécies animais e cuja
"liberdade" consistiria em "conservar a espécie"». [292]
Um último aspecto
merece a nossa atenção: a (aparente) [293] inutilidade dos campos. Por um lado, porque
não foram criados com o objectivo da produtividade - « Qualquer que seja o trabalho aí
realizado, ele teria sido bem melhor e com menos custos em condições diferentes». [294]
E é também em virtude da sua inutilidade no plano económico que os horrores aí
cometidos adquirem contornos verdadeiramente inacreditáveis - « Por outras palavras,
não é só o carácter não-utilitário dos próprios campos o absurdo de
"punir" pessoas totalmente inocentes, a incapacidade de lhes extorquir trabalhos
úteis em certas condições de vida, a inutilidade de aterrorizar uma população já
completamente submetida - que confere aos campos as suas qualidades particulares e
perturbadoras, mas sim a sua função anti-utilitária, o próprio facto de que as
urgências prioritárias das actividades militares não pudessem interferir com estas
"políticas demográficas". Tudo se passava como se a gestão destas fábricas
de extermínio importasse mais aos nazis do que o facto de ganhar a guerra. (...) A
extraordinária dificuldade que experimentamos em compreender a instituição dos campos
de concentração e em encontrar-lhe um lugar na memória da história humana, vem
precisamente da falta de tais critérios utilitários, falta que, mais do que qualquer
outra coisa, é responsável pelo aspecto irreal que rodeia
esta instituição e tudo o que se lhe relaciona». [295]
É a esta global atmosfera de irrealidade e
delírio, portanto, que se furta à tentativa de descrição, que parecem adequar-se as
metáforas usadas na caracterização da vida post mortem: o Hades, onde se aglomeram
refugiados, apátridas e desempregados; o Purgatório, onde penam os condenados ao
trabalho forçado na União Soviética, e o Inferno, com os campos nazis. Pela sua
dramática eloquência, pelo esforço de dizer o «mundo da agonia» que escapa, pela sua
natureza mesma, ao domínio do discurso humano, remeto para as palavras da nossa autora:
« Eis os factos: seis milhões de judeus, seis milhões de seres humanos foram arrastados
para a morte sem que pudessem defender-se. O método utilizado foi o aumento do terror.
Houve, antes de mais, a negligência calculada, as privações e a humilhação, quando
aqueles que eram de frágil constituição física morriam ao mesmo tempo que aqueles que
eram suficientemente fortes e rebeldes para se matarem. Veio a seguir a fome, à qual se
juntou o trabalho forçado: as pessoas morriam aos milhares, mas a um ritmo diferente,
segundo a sua resistência. Depois vieram as fábricas da morte e todos morreram juntos:
jovens e velhos, fracos e fortes, doentes e sãos; morreram não na qualidade de
indivíduos, quer dizer, de mulheres e de homens, de crianças ou adultos, de rapazes e de
raparigas, bons ou maus, belos ou feios, mas foram reduzidos ao menor denominador comum da
vida orgânica, mergulhados no abismo mais sombrio e profundo da igualdade primeira;
morreram como animais, como coisas que não tinham corpo nem alma, nem mesmo um rosto
sobre o qual a morte poderia ter posto o seu sinal. É nesta igualdade monstruosa, sem
fraternidade nem humanidade - uma igualdade que os gatos e os cães poderiam ter
partilhado -, que vemos, como se aí se reflectisse, a imagem do Inferno». [296] Um
Inferno, portanto, que já não é metáfora dos nossos piores receios, mas antes a
constatação de que a experiência concreta de um inferno terreno deixou de ser,
precisamente, uma metáfora.
Cabe lembrar, enfim,
que o processo de dominação total, enquanto sistema que estabelece a absoluta
superfluidade humana, encontra a sua diferença específica no facto de ser continuamente
repetível e não se dirigir a nenhum grupo particular, pelo que se encontra plenamente
justificada a reflexão arendtiana sobre as condições que, no mundo contemporâneo,
podem proporcionar a sua reactivação: [297] « [ Há uma possibilidade] bastante
desconfortável, mas dificilmente negável, de que crimes semelhantes possam ser cometidos
no futuro. As razões desta sinistra possibilidade são gerais e particulares. Está na
própria natureza das coisas humanas que qualquer acto que tenha aparecido uma vez e
gravado na história do género humano, fique com o género humano como uma
potencialidade, muito depois da sua actualidade se ter tornado uma coisa do passado».
[298] Disto se dará conta no capítulo a seguir.
CAP. II
DO DESERTO
Em jeito de conclusão
É possível, neste
momento, dizer com Arendt: « Conclusão: o que observámos poderia igualmente ser
descrito como a perda crescente de mundo, a desaparição do entre-dois. Trata-se da
extensão do deserto, e o deserto é o mundo nas condições do qual nos movemos». [299]
O deserto é, então,
o espaço politicamente desorganizado, senão mesmo vaporizado, não só pelas formas de
dominação totalitária, como também e de uma forma porventura mais inquietante -
pelas actuais democracias de massa. [300]
Como Arendt salienta
em A Condição Humana, «vivemos numa sociedade de consumidores e, posto que (...) labor
e consumo não são mais do que duas etapas do mesmo processo, imposto ao homem pela
necessidade da vida, trata-se somente de outra maneira de dizer que vivemos numa sociedade
de laborantes». [301] Ora, como já se mostrou neste trabalho (Parte I, Capítulo II,
1.), a capacidade humana para a vida no mundo implica, sempre, a possibilidade de
transcender os processos da vida, e, neste ponto, a técnica tem tornado mais fácil a
fadiga do labor, menos penosa a necessidade. Com efeito, o que domina o processo do labor-
a coordenação rítmica dos movimentos individuais, a noção mesma de processo- encontra
o seu expoente máximo nas máquinas, que automatizam o processo do labor, entendamos, o
processo da vida.
Contudo, «
Diferentemente da sociedade esclavagista, onde a "maldição" da necessidade
continuava a ser uma vívida realidade (...), esta condição já não está plenamente
manifesta e a sua não-aparência tornou-a mais difícil de observar e recordar. O perigo
é claro. O homem não pode ser livre se não sabe que está sujeito à necessidade, dado
que ganha sempre a sua liberdade com as suas tentativas, nunca conseguidas por inteiro, de
se libertar da necessidade». [302]
É certo que a
emancipação do labor e das classes laborantes significou um progresso sensível em
direcção à não-violência. Não se tirem, ainda assim, conclusões precipitadamente
optimistas: esse progresso não abrangeu a liberdade e «nenhuma violência exercida pelo
homem, excepto a empregue na tortura, pode igualar a força natural que exerce a própria
necessidade». [303]
Ora, o perigo da
automatização consiste, precisamente, em que o processo da vida, no seu sempre repetido
ciclo natural, se intensifique enormemente, desta vez «sem dor nem esforço», tornando
mais mortal «o principal carácter da vida por relação ao mundo, que é desgastar a
durabilidade». [304]
A questão, por
conseguinte, «não é tanto a de saber se somos donos ou escravos das nossas máquinas,
mas se estas ainda servem o mundo e as suas coisas ou se, pelo contrário, essas máquinas
e o movimento automático dos seus processos começaram a dominar e até a destruir o
mundo e as coisas». [305]
A emancipação do
labor, que devemos ao mundo moderno, teve por consequência a nefasta usurpação da
esfera pública pelo animal laborans; ora, «enquanto o animal laborans continuar na posse
dessa esfera, não pode haver autêntica esfera pública, mas actividades privadas
abertamente manifestas. O resultado é aquilo a que chamamos com eufemismo cultura de
massas». [306]
Mais, a esperança
marxista de que, conquistado o tempo livre, o animal laborans pudesse finalmente tornar-se
produtivo, dedicar-se a actividades «mais elevadas», [307] revelou-se, afinal, uma
ilusão: «O tempo de ócio do animal laborans gasta-se sempre no consumo, e quanto mais
tempo livre lhe resta, mais ávidos e veementes são os seus apetites». [308] A nossa
actual economia, em que a voracidade do consumo faz desaparecer as coisas tão rapidamente
como aparecem no mundo, é disso a mais preocupante expressão.
A divisão do labor,
por outro lado, «baseia-se no facto de que os homens podem unir a sua força laboral e
"comportar-se mutuamente como se fossem um". Esta unidade é exactamente o
contrário da cooperação, indica a unidade da espécie a respeito da qual todo o membro
é o mesmo e intercambiável». [309]
A superfluidade é,
portanto, uma tendência das sociedades modernas e, nesse sentido, o perigo sobrevive aos
totalitarismos de Hitler ou de Estaline. [310] «Em situação de radical alienação do
mundo escreve em O conceito de História nem a história nem a natureza são
de algum modo concebíveis. Esta dupla perda de mundo a perda da natureza e a perda
do artifício humano no seu sentido mais amplo, que incluiria toda a história
deixou atrás de si uma sociedade de homens que, sem um mundo comum que, ao mesmo tempo os
unia e separava, ou vivem em solitária e desesperada separação, ou são comprimidos
numa massa. Porque uma sociedade de massas não é senão aquele tipo de viver organizado
que se estabelece automaticamente a si próprio entre os seres humanos que ainda estão
relacionados uns com os outros, mas que perderam o mundo, outrora comum a todos eles».
[311]
E é por isso, afinal,
que «A assustadora coincidência da moderna explosão de população com a descoberta de
aparatos técnicos que, através da automatização, farão de grandes secções da
população "supérfluas" até em termos de labor, e que, através da energia
nuclear, tornam possível lidar com esta dupla ameaça através do uso de instrumentos em
comparação com os quais as instalações de gaseamento de Hitler parecem brinquedos,
deveria ser suficiente para nos fazer tremer». [312]
Em termos arendtianos,
dir-se-ia que, tal como o fenómeno totalitário obrigou à suspensão da categoria da
tentação na abordagem do conceito de mal, também a era nuclear se alicerçou no triunfo
da ciência, no abandono da busca de significação e de liberdade política, da acção e
do discurso, em favor de um pensamento calculista. E é do restabelecimento da esfera
política enquanto tal, do seu carácter revelador, inerente, ele mesmo, à sua capacidade
de produzir histórias; é, enfim, da sua libertação da esfera sócio-económica, que
parecem depender as frágeis esperanças de reabilitação do mundo contemporâneo. [313]
Em suma, a
substituição do múltiplo pelo Uno, e a concomitante destruição da possibilidade de
agir, é o que, como se vem mostrando, pode fornecer uma chave para a inteligência do
deserto.
É chegada a altura,
então, de se concentrarem esforços na interpretação de mais um tema caro a Arendt: o
da desolação.
Desolação e
isolamento não são o mesmo: «posso estar isolado- quer dizer, numa situação em que
não posso agir porque não há ninguém para agir comigo- sem estar "desolado":
e posso estar desolado, quer dizer, numa situação em que, enquanto pessoa, me sinto à
parte de toda a sociedade humana- sem estar isolado». [314]
O isolamento tem,
além disso, um carácter positivo no que às actividades produtivas do homem diz
respeito. Assim, o homo faber, o filósofo, o poeta, estão em companhia de si mesmos e,
por aí precisamente, em contacto com os outros homens. É, de resto, o que nos revela a
frase de Catão: «Nunca estava menos só do que quando estava só.»
Deste modo, portanto,
«No isolamento, o homem permanece em contacto com o mundo enquanto obra humana; não é
senão quando a forma mais elementar de criatividade- quer dizer, o poder de juntar
qualquer coisa de si ao mundo comum- é destruída, que o isolamento se torna
absolutamente insuportável». E é quando se tornou insuportável [315] que o isolamento
deu lugar à desolação, a que Arendt não atribui - saliente-se qualquer sentido
psicológico; a desolação é, antes, a solidão do homem desenraizado, privado do chão
que o mundo constitui; diz respeito à vida humana no seu todo, e não apenas ao domínio
político da vida, como nas tiranias. Por aí mesmo, afinal, se vislumbra o carácter
inteiramente novo da dominação totalitária, que se funda «na desolação, na
experiência de absoluta não-pertença ao mundo, que é uma das experiências mais
radicais e desesperadas do homem». [316]
A inutilidade
experimentada pelas massas modernas, o desenraizamento, pode ser a condição preliminar
da superfluidade; do mesmo modo, a solidão pode tornar-se desolação, ainda que apenas
na circunstância em que o meu próprio eu me abandona («Ich bleibe mir aus», na
formulação de Jaspers).
O que torna, então, a
desolação insuportável «é a perda do eu que, se pode tomar realidade na solidão,
não pode, entretanto, ser confirmado na sua identidade senão pela presença confiante e
digna de fé dos meus iguais. Nesta situação, o homem perde a fé que tem em si mesmo,
como companheiro dos seus pensamentos, e esta elementar confiança no mundo, necessária a
qualquer experiência. A única faculdade que não tem necessidade nem do eu, nem de
outrem, nem do mundo para funcionar seguramente, e que é tão independente do pensamento
como da experiência, é a aptidão para o raciocínio lógico cuja premissa é evidente
por si». [317]
Isto pudemos aprender
com a experiência da dominação totalitária; não é tão certo que consigamos evitar
que se converta na experiência quotidiana das massas do nosso século.
Conduzidos por Arendt,
recordemos a interpretação heideggeriana da palavra de Nietzsche «O deserto cresce»:
«o que significa, a desolação (Verwüstung) estende-se. Desolação é mais do que
destruição (Zerstörung). Desolação é mais sinistro (Unheimlicher) que aniquilamento
(Vernichtung). A destruição abole somente o que cresceu e foi edificado até aqui. Mas a
desolação impede o futuro ao crescimento e impede toda a edificação [ ...] . O Sahara
em África não é senão uma forma de deserto. A desolação da terra pode acompanhar-se
do mais alto nível de vida do homem e também da organização de um estado de felicidade
uniforme de todos os homens. A desolação pode ser a mesma coisa nos dois casos e tudo
assombrar da maneira mais sinistra, a saber, escondendo-se». [318]
É, enfim, em
circunstâncias de desolação que ocorrem crimes sem castigo e sem perdão. Em A
Condição Humana, escreve: «O descobridor do papel do perdão na esfera dos assuntos
humanos foi Jesus de Nazaré. (...) Só mediante a mútua exoneração do que fizeram, os
homens continuam a ser livres, só pela constante determinação de mudar de opinião e
começar outra vez se lhes confia um poder tão grande como o de começar algo de novo.
Neste aspecto, o perdão é o extremo oposto da vingança. (...) A alternativa ao perdão
(...) é o castigo, e ambos têm em comum o facto de tentarem finalizar algo que, sem
interferência, prosseguiria interminavelmente. Portanto é muito significativo, elemento
estrutural da esfera pública, que os homens não sejam capazes de perdoar o que não
podem castigar, e incapazes de castigar o que se tornou imperdoável. Esta é a verdadeira
marca distintiva dessas ofensas a que, desde Kant, chamamos "mal radical". (...)
Aqui, quando o próprio acto nos despossui de todo o poder, podemos apenas repetir com
Jesus: teria sido melhor que uma pedra pesada lhe tivesse sido atada ao pescoço, e que
fosse deitado ao mar». [319]
Pode considerar-se
satisfatoriamente explicada, parece-me, a posição de Arendt relativamente à
condenação de Eichmann: não se trata, como alguns insinuaram, de branquear os crimes
nazis- muito menos de boicotar o seu castigo; [320] trata-se, antes, da constatação de
que foi possível cometerem-se ofensas que nem os Dez Mandamentos nem as nossas molduras
legais estavam prontos a enquadrar, e que, deste modo, deixam sempre a desconfortável
sensação de desproporção entre o mal cometido e o castigo aplicado.
Em suma, a ameaça
maior da desolação é a de devastar o mundo, a de aniquilar a possibilidade, que lhe é
inerente, de novos e infinitos começos. Ora, o começo, «antes de se tornar um
acontecimento histórico, é a suprema capacidade do homem; politicamente, é idêntico à
liberdade do homem. Initium ut esset homo creatus est "para que houvesse um
começo, o homem foi criado", diz Santo Agostinho. Este começo é garantido por cada
novo nascimento; ele é, na verdade, cada homem». [321]
CONSIDERAÇÕES FINAIS
« Na sua avidez de conhecer as coisas do
céu, ele [ Tales] perdia de vista o que se encontrava aos seus pés. (...) Quem quer que
consagre a sua vida à filosofia é objecto deste escárnio. A multidão aliar-se-á à
camponesa para rir dele.»
Platão, Teeteto
« A filosofia é este pensamento com o
qual não se pode empreender essencialmente nada e a propósito do qual os serviçais não
podem deixar de rir.»
Heidegger, Die Frage nach dem Ding
Este trabalho
é-me hoje evidente está ferido de falta, de falha e de ausência. Uma [322]
a de Heidegger reclama, dado o seu carácter ostensivo, uma justificação.
Não está em causa o
reconhecimento da influência do filósofo no percurso e na moldura conceptual de Hannah
Arendt ela é bem conhecida, no fascínio do seu início, na mágoa com que
terminou e, ainda assim, a leitura arendtiana do seu mestre primeiro parece ter-se
saldado em apropriações a tal ponto pessoais que, pela originalidade que lhe é, nessa
medida, inerente, tornar-se-ia quase espúrio, ao menos no contexto deste trabalho, o
esforço da genealogia. Refiro-me, concretamente, aos lugares diferenciados
a que aporta o comum trajecto fenomenológico de «regresso à origem», às coisas
mesmas, e de que os conceitos de mundo, de individuação, de público, de existência
autêntica/inautêntica, oferecem inequívoco testemunho. [323]
Com efeito, a
estratégia de Arendt concretiza-se no movimento de desconstrução fenomenológica, tal
qual a Introdução de Ser e Tempo a caracteriza - « O que se mostra, tal como se mostra
de si mesmo, fazê-lo ver a partir dele mesmo. Eis o sentido formal da investigação que
dá pelo nome de fenomenologia. Mas o que se exprime assim não é senão a máxima
formulada antes: "o direito às coisas mesmas!"». [324]
É também a Ser e
Tempo que Arendt, de algum modo, regressa aos temas da contingência, do
desvelamento, da mundaneidade como dimensão estrutural da existência humana - e de que
na sua ontologia da esfera pública, nos seus conceitos de acção e liberdade política,
na hierarquia das actividades humanas, na relação que estabelece entre significado e
instrumentalidade, entre o político e o social, se sente ainda o pulsar.
E, contudo, a herança
do mestre acabaria por desenvolver-se numa direcção claramente anti-heideggeriana. É
este desvio que «desculpa» a ausência, é este o desvio, ainda assim, a esclarecer.
Em Heidegger, « A
"mundaneidade" é um conceito ontológico e designa a estrutura de um momento
constitutivo do ser-no-mundo. (...) A mundaneidade é, ela mesma, um existencial. (...)
Ontologicamente, "mundo", longe de ser uma determinação do ente que,
essencialmente, não é, é, ao contrário, uma característica do próprio Dasein».
[325] Quer dizer, distinguindo claramente entre a quotidianeidade (inautêntica) e o
sentido ontológico (autêntico) do mundo, este aparece, em Heidegger, enquanto totalidade
de relações «em-ordem-a», pré-teoreticamente dada; enquanto, pois, espaço de
inteligibilidade, e, nessa medida, como condição histórico-transcendental da
possibilidade de sentido. Mais, este mundo autêntico em que o Eu se encontra só face a
si mesmo, anuncia-se no momento em que a estabilidade do quotidiano ruiu e a disposição
fundamental da angústia se expôs à experiência do Nada [ Néant] , do face a face com
a morte - e constitui-se como estranheza, não como lugar que habitamos em comum. A
resposta à questão «Quem?» («Quem é o Dasein?»), não passa, pois, pela partilha de
actos e palavras.
Ora, em hostilidade
aberta a esta viragem do eu sobre si mesmo, A Condição Humana não pretende senão,
precisamente, questionar a demarcação entre um mundo público, dito inautêntico, e esse
mundo autêntico, solipsista. Para Arendt, com efeito, a individuação só pode ocorrer
no contexto da pluralidade e da acção na esfera pública, pela partilha da palavra e dos
actos num mundo comum de aparências, e é esta inversão do considerado autêntico e
inautêntico, é este repúdio da reificação do pensamento como única acção genuína,
que abre o abismo, irreversível, entre uma fenomenologia do ser-para-a-morte e a do
elogio da natalidade, condição ontológica do actor enquanto começo. [326]
A este propósito, uma
referência breve ao «elitismo» de Arendt. A hierarquia do labor, do trabalho e da
acção refere-se a actividades, não a grupos ou tipos. O que interessa à nossa autora,
por outro lado, não é tanto o conteúdo inerente a cada uma das esferas a
pública e a privada mas a preservação da sua integridade e da sua
diferenciação. A excelência da actividade política não será excessivo
sublinhá-lo reclama a luminosidade da esfera pública, tanto quanto a sombra do
privado. E é no recolhimento do oculto, lugar originário do Mistério, que a liberdade e
a acção desveladora encontram, afinal, a sua mais elementar condição.
Finalmente e
esta é, porventura, a mais ousada ambição deste trabalho se algum tributo me
fosse permitido prestar à nossa autora, ele passaria, irremediavelmente, pelo esforço do
compromisso com esse mundo comum, que encontra na luminosidade da intervenção política
a confirmação pública. Por outras palavras, elaborar um trabalho que, mais do que um
exercício de erudição de perfil académico, pudesse contribuir, sem equívoco, para a
busca de significação, e por isso para reconciliação, a um tempo crítica e piedosa ,
[327] com a nossa época, constituiria o mais fiel assentimento à aventura humana para a
qual, nos termos de Arendt, o Mundo mesmo permanentemente nos convoca e à qual Arendt
tão magistralmente respondeu.
O Compromisso
com a vida, com os outros, com o mundo, com a humanidade a mais humana é o convite
que a vida e obra de Hannah Arendt insistentemente nos renova. Soubéssemos todos
responder-lhe tão bem. [328]
Para uma bibliografia exaustiva, remeto para For the
Love of the World, de Elisabeth Young-Bruehl
1. LIVROS
ARENDT, Hannah Les Origines du Totalitarisme
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ARENDT, Hannah La Nature du Totalitarisme
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ARENDT, Hannah Rahel Varnhagen, The Life of a
Jewish (1957), John Hopkins, Baltimore and London, 1997
ARENDT, Hannah La Condición Humana (1958),
Barcelona, Paidós, 1993
ARENDT, Hannah Between Past and Future
(1961), Middlesex, Penguin, 1993, trad. francesa por La Crise de la Culture, Gallimard,
1972
ARENDT, Hannah Sobre la Revolución (On
Revolution, 1963), trad. Pedro Bravo, Madrid, Alianza Editorial, 1988
ARENDT, Hannah Eichmann in Jerusalem, A
Report on the Banality of Evil (1963), Middlesex, Penguin, 1994
ARENDT, Hannah Verdade e Política (Truth and
Politics, 1967), trad. Manuel Alberto, Lisboa, Relógio dÁgua, Col. Sophia, 1995
ARENDT, Hannah Homens em Tempos Sombrios (Men
in Dark Times, 1968), trad. Ana Luísa Faria, Santa Maria da Feira, Relógio dÁgua,
1991
ARENDT, Hannah On Violence (1970), Harcourt
Brace & Company, 1970
ARENDT, La Vie de lEsprit ( The Life of the
Mind, 1978), [ Vol. I - la pensée, trad. Lucienne Lotringer, Paris PUF, 1981 ; Vol.
II - le vouloir, 1983]
ARENDT, Hannah Qu"est-ce que la
Politique (Was ist Politik ?1993), trad. Sylvie Courtine-Dénamy, Paris, Seuil, 1995
ARENDT, Hannah O Conceito de Amor em Santo
Agostinho, (Der Liebesbegriff Bei Augustin, 1929), trad. Alberto Pereira Dinis, Lisboa,
Instituto Piaget, Col. Pensamento e Filosofia,
ARENDT, Hannah Crisis de la Republica (Crises
of the Republic, 1969), trad. Guillermo Solana, Madrid, Taurus, 1973
ARENDT, Hannah Lectures on Kants
Political Philosophy, University of Chicago Press, 1982
2. ARTIGOS
ARENDT, Hannah Die jüdische Armee- der
Beginn einer jüdische Politik? (1941), trad. francesa de S.C.-Dénamy, l"Armée
juive, le début d"une politique juive ? in Auschwitz et Jérusalem, Agora,
Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah Des Teufels Redekunst (1942),
trad. francesa de S.C.-Dénamy, L"éloquence du diable, in Auschwitz et Jérusalem,
Agora, Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah Die Sogenannte jüdische Armee
(1942), trad. francesa de S.C.-Dénamy, La "prétendue armée juive", in
Auschwitz et Jérusalem, Agora, Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah Die Krise der Sionismus(1942),
trad. francesa de S.C.-Dénamy, La crise du Sionisme, in Auschwitz et Jérusalem, Agora,
Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah Can the jewish-arab question
be solved ? (1943), trad. francesa de S.C.-Dénamy, La question judéo-arabe
peut-elle être résolue ?, in Auschwitz et Jérusalem, Agora, Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah Für Ehre und Ruhm des
jüdischen Volkes (1944), trad. francesa de S.C.-Dénamy, Pour l"honneur et la gloire
du peuple juif, in Auschwitz et Jérusalem, Agora, Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah Balfour Declaration und
Palestina Mandat (1944), trad. francesa de S.C.-Dénamy, La déclaration Balfour et le
mandat sur la Palestine, in Auschwitz et Jérusalem, Agora, Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah The Stateless People (1944),
trad. francesa de S.C.-Dénamy, Des hôtes venus du pays de personne, in Auschwitz et
Jérusalem, Agora, Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah Neue Vorschläge für
jüdische-arabischen Verstandigung (1944), trad. francesa de S.C.-Dénamy, Nouvelles
propositions pour une entente judéo-arabe, in Auschwitz et Jérusalem, Agora, Deuxtemps
Tierce, 1991
ARENDT, Hannah Zionism Reconsidered(1944),
trad. francesa de S.C.-Dénamy, Réexamen du Sionisme, in Auschwitz et Jérusalem, Agora,
Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah Die Entrechten und
Entwürdigten (1944), trad. francesa de S.C.-Dénamy, Sans droits et avilis, in Auschwitz
et Jérusalem, Agora, Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah The Image of Hell (1946),
trad. francesa de S.C.-Dénamy, L"image de l"Enfer, in Auschwitz et Jérusalem,
Agora, Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah About Collaboration (1948),
trad. francesa de S.C.-Dénamy, Sur la "Collaboration", in Auschwitz et
Jérusalem, Agora, Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah Peace or Armistice in the Near
East ? (1950), trad. francesa de S.C.-Dénamy, La paix ou l"armistice au
Proche-Orient ?, in Auschwitz et Jérusalem, Agora, Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah Social Science Techniques and
the study of Concentration Camps (1950), trad. francesa de S.C.-Dénamy, Les techniques de
la science sociale et l"étude des camps de concentration, in Auschwitz et
Jérusalem, Agora, Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah Introdução a Auschwitz de
Bernd Naumann (1966), trad. francesa de S.C.-Dénamy, Le procès dAuschwitz, in
Auschwitz et Jérusalem, Agora, Deuxtemps Tierce, 1991
ARENDT, Hannah The Portable Hannah Arendt,
Penguin, 2000
ARENDT, Hannah De la Historia de la
Acción, trad. Fina Birulés, Barcelona, Paidós, 1998
3. CORRESPONDÊNCIA
ARENDT-JASPERS Correspondência (1926-1969),
Paris, Payot, 1995
ARENDT-McCARTHY Entre Amigas,
Correspondência (1949-1975), Barcelona, Lumen, 1998
ARENDT-BLUMENFELD Correspondência
(1933-1963), Paris, Desclée de Brouwer, 1998
ALLONES, Myriam Revault Amor Mundi. La
Persévérance du Politique, in Politique et Pensée- Colloque Hannah Arendt, Paris,
Payot, 1996
AMIEL, Anne Hannah Arendt : Política e
Acontecimento, Lisboa, Instituto Piaget, Col. Pensamento e Filosofia, 1996
BENHABIB, Seyla The Reluctant Modernism of
Hannah Arendt, Sage Publications, Califórnia, 1996
BERGEN, Bernard J. Hannah Arendt and the
Final Solution, Rowman & Littlefield Publishers, Inc., 1998
BERNSTEIN, Richard J. Hannah Arendt and the
Jewish Question, Polity Press, 1996
BOWEN-MOORE, Patricia Hannah Arendts
Philosophy of Natality, St. Martins Press, New York, 1989
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CANTISTA, Maria José O Político e o
Filosófico no Pensamento de Hannah Arendt, Separata da Revista Filosofia, Faculdade de
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CANTISTA, Maria José - A Significação do bios
politikós ou o regresso ao pensamento em Hannah Arendt, no prelo, 2000
CASSIN, Barbara Grecs et Romains. Les
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CHALIER, Catherine Radicalité et banalité
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COLLIN, Françoise NÊtre, in Politique
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TAMINIAUX, Jacques La Fille de Thrace et le
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YOUNG-BRUEHL, Elizabeth Hannah Arendt: For
the Love of the World, Yale University Press, 1982
NOTAS
1 CH, pp.39-40: «A grandeza do homérico
Aquiles só pode compreender-se se o virmos como "o agente de grandes acções e o
orador de grandes palavras", (...) o que originalmente significou não só que a
maior parte da acção política, até onde permanece à margem da violência, é
realizada com palavras, senão algo mais fundamental, ou seja, que encontrar as palavras
oportunas, no momento oportuno, é acção, deixando de parte a informação ou
comunicação que levem. Só a pura violência é muda, razão pela qual nunca pode ser
grande». Sublinhados meus.
2 Tratando-se de uma opção de cariz
claramente pessoal, não posso, entretanto, deixar de referir três biografias a que tive
acesso, a primeira das quais considero magistral: For the Love of the World, de Elisabeth
Young-Bruehl; Hannah Arendt, de Wolfgang Heuer; e Hannah Arendt, de Sylvie
Courtine-Dénamy, referidas, de resto, na bibliografia geral.
3 ARENDT, Hannah- What Remains? The
Language Remains: A Conversation with Günter Gaus, in The Portable Hannah Arendt, pp.5-6:
«Gaus: O seu interesse pela teoria política, pela acção e comportamento políticos,
está hoje no centro do seu trabalho. A esta luz, o que encontrei na sua correspondência
com o Professor Scholem parece particularmente interessante. Aí, escreveu, se me permite
citá-la, que "não estava interessada na [ sua] juventude, nem em política nem em
história". Professora Arendt, como judia, emigrou da Alemanha em 1933. Tinha então
26 anos. Está o seu interesse pela política o fim da sua indiferença em
relação à política e à história ligada a estes acontecimentos?
Arendt: Sim, concerteza. A indiferença já
não era possível em 1933. Já não era possível até antes. (...) O que aconteceu
então era monstruoso, mas foi ofuscado pelas coisas que aconteceram mais tarde. Isto foi
um choque imediato para mim, e a partir daí senti-me responsável.»
4 CANTISTA, Maria José- O Político e o
Filosófico no Pensamento de Hannah Arendt, in Separata da Revista Filosofia, Faculdade de
Letras da Universidade do Porto, II Série, Volume XV-XVI, Porto 1998-99, p.47: «Repor a
verdade acerca do homem, significa ocupar-se da fundacionalidade do político,
reabilitando o pensamento, numa denúncia das falácias metafísicas com que a filosofia
se identificou. Tal desconstrução metafísica mostrará que não é a questão do ser,
mas a questão do mundo que suscita o pensamento. A admiração inicial, o famoso
thaumadsein não conduz o pensamento ao ser, antes nos leva do mundo ao pensamento para de
novo a ele retornar. O pensamento do político, em vez de pensar o ser a partir do
pensamento, pensa o pensamento a partir do mundo. Ao substituir a acção pela
contemplação, a filosofia tal como a metafísica tradicional a entendeu, exilou o
pensamento do mundo e deixou em desabrigo o viver em conjunto, o ser em comum.
Comprometido o sentido da pluralidade e da amizade, é o sentido dialógico do humano que
se eclipsa e, com ele, o pensamento como experiência do mundo. Se queremos reaver o
sentido do homem, é, pois, pelo político que temos que começar.»
5 O quadro de que, a partir daqui,
apresentarei um esboço, não tem quaisquer pretensões de carácter exaustivo. A passos
largos, pretende apenas apresentar um cenário histórico que facilite a compreensão do
carácter sem precedente do mal totalitário, tal como Arendt o entendeu.
6 PLATÃO A República, II, 380
a: «Deus, uma vez que é bom, não é a causa de tudo, como pensamos comummente;
não é causa senão de uma pequena parte do que acontece aos homens e não o é da parte
maior, uma vez que os nossos bens são muito menos numerosos do que os nossos males, e
não devem ser atribuídos senão a ele, enquanto que para os nossos males é preciso
procurar uma causa, mas não Deus.»
7 PLATÃO- Ménon, 77c 78b :
«Sócrates: Não te parece, meu caro, que todos desejam o que é bom?
Ménon: De modo algum.
Sócrates: Na tua opinião, alguns desejam
o que é mau?
Ménon: Sim.
Sócrates: Queres dizer que eles olham o
mal como bom, ou que, conhecendo-o por mau, não deixam de o desejar?
Ménon: Um e outro caso parecem-me
possíveis.
Sócrates: O quê? Ménon, julgas tu que um
homem, conhecendo o mal pelo que ele é, possa continuar a deseja-lo?
Ménon: Realmente.
Sócrates: A que chamas desejar? é desejar
que a coisa lhe aconteça?
Ménon: Que lhe aconteça, sem dúvida.
Sócrates: Mas esse homem, imagina ele que
o mal é vantajoso para aquele que o experimenta, ou sabe que é nocivo para aquele em que
se encontra?
Ménon: Há quem imagine que o mal é
vantajoso; e há outros que sabem que ele é nocivo.
Sócrates: Mas crês que aqueles que
imaginam que o mal é vantajoso, o conhecem como mal?
Ménon: Não creio.
Sócrates: É evidente, consequentemente,
que esses não desejam o mal, que não o conhecem como mal, mas que desejam o que tomam
por um bem, e que é realmente um mal; de modo que aqueles que ignoram que uma coisa é
má, e que a crêem boa, desejam manifestamente o bem. Não é?
Ménon: Parece que sim.
Sócrates: Mas quê? os outros que desejam
o mal, tal como dizes, e que estão persuadidos que o mal prejudica aquele em que se
encontra, sabem sem dúvida que ele lhes será prejudicial?
Ménon: Necessariamente.
Sócrates: Não pensam eles que aqueles a
quem prejudicamos, são de lamentar, nisso que os prejudicamos?
Ménon: Necessariamente, ainda.
Sócrates: E que quando se é de lamentar,
é-se infeliz?
Ménon: Creio que sim.
Sócrates: Ora, há alguém que queira ser
a lamentar e infeliz?
Ménon: Não creio, Sócrates.
Sócrates: Se, portanto, ninguém quer ser
tal, também ninguém quer o mal. (...) »
8 BÍBLIA
Génesis, III 4-7: «A serpente
replicou-lhe:"vocês não têm que morrer. De maneira nenhuma! O que acontece é que
Deus sabe que, no dia em que comerem desse fruto, abrirão os olhos e ficarão a conhecer
o mal e o bem, tal como Deus". A mulher pensou então que devia ser bom comer do
fruto daquela árvore, que era apetitoso e agradável à vista e útil para alcançar a
sabedoria. Apanhou-o, comeu e deu ao seu marido que comeu também. Nesse momento,
abriram-se os olhos de ambos e deram-se conta de que andavam nus.»
Livro de Job, XIII 23-29: «Que maldades ou
pecados tenho eu? Mostra-me os meus crimes e pecados! Por que é que desvias de mim o
olhar e me tratas como teu inimigo? Precisas de meter medo a uma folha caída ou correr
atrás de uma palha seca? Fizeste contra mim um relatório de rebeldias e continuas a
fazer-me pagar por erros da infância. Prendes os meus pés com cadeias e observas todos
os meus passos, anotando em pormenor toda a minha vida. Mas a minha vida desfaz-se como
madeira podre, como roupa que a traça vai roendo.»
Eclesiastes, IX 2-3: «Para todos existe o
mesmo fim: para o inocente e o culpado, para o bom e para o mau, para o que oferece
sacrifícios e para aquele que não os oferece, para o justo e para o injusto, para o que
faz juramento e para o que tem medo de o fazer. Este é o pior dos males deste mundo, que
todos tenham o mesmo fim. O coração dos humanos está cheio de maldade, a ignorância
domina-os completamente durante a vida e, depois de tudo, acabam por morrer.»
Romanos, VII 14-24: «Sabemos que a lei vem
de Deus, mas eu sou um homem fraco, vendido como escravo ao pecado. Nem me compreendo,
pois não faço aquilo que queria fazer e faço o mal que detesto. [ ...] Encontro pois em
mim esta regra: quando quero fazer o bem, faço o mal. No meu intimo, quero seguir a lei
de Deus, mas vejo que no meu corpo há uma outra lei que está contra a minha
inteligência. É isso que me torna prisioneiro da lei do pecado que está no meu corpo.
Que infeliz eu sou! Quem me libertará deste corpo que me leva à morte?»
9 JONAS, Hans- Le Concept de Dieu après
Auschwitz, pp. 34-35 : «Acontecendo actos verdadeiramente monstruosos e inteiramente
unilaterais que os humanos feitos à Sua imagem cometem, por vezes, em relação a outros
humanos sem a falta destes últimos, deveríamos esperar que o bom Deus quebrasse de vez
em quando a sua própria regra, a extrema retenção do seu poder, e que interviesse por
um milagre salvador. [ ...] Agora, eu digo: se ele não interveio, não foi, de modo
algum, porque o não quisesse, mas porque não podia. Proponho, por razões inspiradas
pela experiência contemporânea de modo determinante, a ideia de um Deus que durante um
tempo - o tempo que dura o processo continuado do mundo - se despojou de todo o poder de
ingerência no curso físico das coisas deste mundo; de um Deus que, portanto responde ao
choque dos acontecimentos contra o seu ser próprio, não com "uma mão forte e um
braço estendido"- como o recitamos todos os anos, nós judeus, para comemorar a
saída do Egipto - mas perseguindo o seu fim não cumprido com um mutismo penetrante.»
10 Cfr. AGOSTINHO Confissões, VII,
12
11 RICOEUR, Paul- O Mal, p.32: «Agostinho
sustenta que o mal não pode ser entendido como substância, pois pensar o "ser"
é pensar "inteligivelmente", pensar "uno", pensar "bem".
Então, o pensar filosófico exclui todo o fantasma do mal substancial. Por outro lado,
nasce uma nova ideia do nada e do ex nihilo, contida na ideia de uma criação total e sem
excesso. Ao mesmo tempo, um outro conceito negativo, associado ao precedente, toma o lugar
de uma distância ôntica entre o criador e a criatura que permite falar de deficiência
daquele que é criado enquanto tal; em virtude desta deficiência, torna-se compreensível
que criaturas dotadas de livre escolha possam "declinar-se" longe de Deus e
"inclinar-se" em direcção ao que tem menos ser, em direcção ao nada.»
12 Cfr. AGOSTINHO De Civitate Dei,
XI, 22
13 LEIBNIZ, W. G. - La Cause de Dieu,
pp.433-34 : «A sabedoria infinita do Todo-Poderoso, juntamente com a sua bondade
imensa, fez com que, feitas as contas, nada poderia ter sido criado de melhor do que o que
foi criado por Deus. (...) Consequentemente, sempre que uma coisa nos parece repreensível
nas obras de Deus, é preciso lembrar que não sabemos o suficiente, e acreditar que um
sábio, que a compreendesse, julgaria que nós não poderíamos mesmo desejar nada de
melhor.»
14 LEIBNIZ, W.G. Essais de
théodicée, I, p. 116: «há uma imperfeição original na criatura antes do pecado,
porque a criatura é limitada essencialmente, donde se segue que ela não pode saber tudo,
pode enganar-se e cometer outras faltas.»
15 ESPINOZA, Baruch- Ética, Apêndice ao
Livro I, p. 67: «Muitos, com efeito, têm o hábito de argumentar assim. Se todas as
coisas seguiram da necessidade da natureza de um Deus totalmente perfeito, donde vêm
então tantas imperfeições existentes na Natureza? Quer dizer, donde vem que as coisas
se corrompam até ao fétido, que sejam disformes até à náusea, donde vêm a confusão,
o mal, o pecado, etc. É fácil responder. Porque a perfeição das coisas deve estimar-se
somente pela sua natureza e poder, e elas não são, então, nem mais nem menos perfeitas
porque agradam aos sentidos do homem ou os ofendem, porque convêm à natureza humana ou
lhe repugnam.»
16 HEGEL, G.W.F. - La Raison dans
l"Histoire, cap.1, p.68: «O mal no universo, incluindo o mal moral, deve ser
compreendido e o espírito pensante deve reconciliar-se com o negativo. [ ...] Esta
conciliação não pode ser alcançada senão pelo conhecimento do afirmativo no qual o
negativo se reduz a qualquer coisa de subordinado e de ultrapassado e esfuma-se. É a
tomada de consciência, por um lado, da verdadeira finalidade do mundo e, por outro lado,
da realização desta finalidade no mundo: perante esta ultima finalidade e a sua
realização no mundo, o mal não pode subsistir e perde toda a sua validade. [ ...] A
razão não pode eternizar-se ao pé das feridas infligidas aos indivíduos, porque as
finalidades particulares se perdem na finalidade universal.»
17 RICOEUR, Paul- Op. cit., p.39 : «A
negatividade é, a todos os níveis, o que constrange cada figura do Espírito a jogar-se
no seu contrário e a gerar uma nova figura que ao mesmo tempo suprime e conserva a
precedente, segundo o sentido duplo do Aufhebung hegeliano. A dialéctica faz assim
coincidir, em todas as coisas, o trágico e o lógico: é necessário que alguma coisa
morra para que alguma coisa maior nasça.»
18 VE I, p. 18
19 VILLA, Dana -Politics, Philosophy,
Terror, p. 34 : « Arendt reconhece que [ o declínio da fé] desempenhou pelo menos
um papel negativo em tornar o totalitarismo possível, contudo, contesta a ideia de que o
pecado do "orgulho" (no sentido Agostiniano tradicional) esteja por trás da
experiência totalitária. O que é crucial não é simplesmente a hubris e a aspiração
à omnipotência manifesta na ideia de mudar a natureza humana, mas o papel desempenhado
pela submissão, tanto no caso dos líderes como no dos seguidores.»
20 OT III, p. 201
BERNSTEIN, Richard J. Hannah Arendt
and the Jewish Question, p. 143: «Se Arendt está a ser justa com Kant é discutível.
Mas é claro que Arendt crê que Kant não alcançou o que ela pretende significar com
"mal radical". A análise de Kant é baseada no pressuposto de que há motivos
compreensíveis que podem explicar o mal radical. Mas é isso, precisamente, que Arendt
está a por em causa. É por isso que diz que "não temos nada em que nos apoiar em
ordem a compreender um fenómeno que, contudo, nos confronta com a sua esmagadora
realidade."»
21 CC, pp. 28-29
22 VILLA, Dana- Op. cit., p. 194 : «
O desejo de Platão e Aristóteles de pensar a acção como uma espécie de fazer- de
"reformular" a acção política de modo a que ela aparecesse tão pouco
afectada pelo facto da pluralidade humana como a actividade de fabricação- não se
esgota nas suas escolhas dos fenómenos políticos que consideravam valer a pena estudar.
Pelo contrário, levou-os a criar uma óptica sobre a vida política na qual a liberdade,
sentido e objectivo da acção, eram reinterpretadas de modo a que os efeitos
"desestabilizadores" da pluralidade humana (e da cidadania democrática ou
republicana) pudessem ser contidos, senão mesmo eliminados.»
23 Op. cit., p. 197: « A vontade de apagar
a pluralidade, de ultrapassar a "casualidade" da espontaneidade, de identificar
liberdade e controlo, juízo e episteme, legitimidade e obediência a uma "lei
superior", tudo são características da tradição Ocidental do pensamento político
(tal como Arendt o entende) e o totalitarismo.»
24 CH, p. 247
25 Op. cit., p. 243
26 Op. cit., p. 242
27 VE I, p. 37
28 CH, p. 250
29 Op. cit., p. 242
30 CC, p. 30
31 CH, p.116
32 CC, p. 38.
33 Op. cit., p. 30
34 Op. cit., p. 31
35 CH, pp. 247-248
36 BOWEN-MOORE, Patricia, Hannah
Arendt"s Philosophy of Natality, p. 128: «O homo faber de Arendt é o fabricante do
mundo. O homo faber de Marx, contudo, é o homem histórico enquanto distinto do homem
socializado (isto é, animal laborans, estritamente falando). No que respeita à
actividade política do homo faber, Marx vê o homem histórico como o fabricante da
história sempre que é instrumental em efectuar uma mudança na estrutura social através
de meios violentos (revolução). A relação entre a violência e as acções do homo
faber reside na assunção de que agir na natureza sempre requer uma ruptura com o que é
natural. Seguindo esta linha de pensamento, se a história é vista como um processo
natural, então a violência é uma interrupção necessária no curso natural das coisas.
Marx estava convencido de que a violência era a parteira da história e que a acção
política- no modo de homo faber- é primordialmente violência: daí a equação de Marx
da história com a política. Arendt explica que a convicção de que a acção política
é essencialmente violência e que a história é feita pelo homem "não se deveu à
ferocidade gratuita de um temperamento revolucionário, mas tem o seu lugar na filosofia
da história de Marx, que sustenta que a história (...) pode ser feita pelo homem com
inteira consciência do que está a fazer. (...) Ele viu a feitura da história em termos
de fabricação; o homem histórico era, para ele, primordialmente, homo faber."»
37 CC, p. 39
38 Op. cit., p. 57
39 KATEB, George- Politics, Conscience,
Evil, p. 77: « Para Arendt, nem a aspiração ao poder total nem a possessão de poder
total ou quase total é suficiente para indicar a presença do totalitarismo. O tirano
intoxicado pelo exercício do poder e o líder decidido pela completa falta de escrúpulos
- dois tipos que podem parecer mais facciiilmente diferenciáveis teoricamente do que nos
exemplos históricos que os apresentam para análise e juízo - não são inteiramente
descontínuos com a natureza humana comum. (...) O ponto é que, para Arendt, a liderança
totalitária não é para ser explicada assim. O totalitarismo é um fenómeno distinto
porque as raízes dos seus actos não são explicáveis por nenhum dos modos comuns que
usamos para dar sentido ao que pode perturbar-nos.»
40 OT III, p. 203
41 KATEB, George- Op. cit., pp. 55-57: «
Arendt está a dizer que o totalitarismo- pelo menos nas suas primeiras aparições nas
formas de nazismo e estalinismo- aconteceu contra todas as probabilidades; que foi uma
espécie de milagre, um milagre negro. Ela é clara em relação a que, por ter acontecido
uma vez, um fenómeno pode mais facilmente acontecer de novo. Difícil, é a primeira vez:
tão difícil que o fenómeno- neste caso o totalitarismo- tem de permanecer
inexplicável. (...) O Totalitarismo (...) é inexplicável num duplo sentido. [ Por um
lado] não é redutível ao "produto" de causas antecedentes, [ e, por outro] ,
resiste à atribuição retrospectiva de qualquer tipo de racionalidade. (...) Em suma, o
totalitarismo não é concebível, não é conceptualmente possível, não é
reconhecível superficialmente, não é experiencialmente familiar, não é capaz de
receber adesão e cooperação, sem várias gerações de anti-semitismo, outras formas de
racismo e imperialismo (não apenas em África). Ao mesmo tempo, o totalitarismo não é a
sua derivativa causal ou produto lógico. (...) O totalitarismo é da responsabilidade da
Europa: esta é, certamente, uma das ideias principais que Arendt nos deixa, apesar de
nunca pôr a questão assim tão cruamente.»
42 NT, p. 73
43 Op. cit., p.74
44 AJ, p. 203
45 OT III, p. 204
46 VILLA, Dana R. Arendt and
Heidegger, The Fate of the Political, p. 255: «Como Arendt salienta em "Ideologia e
Terror", nenhum regime anterior acalentou a ideia de identificar a fonte trans-humana
da autoridade directamente com a ordem política: todos tinham visto a necessidade de
estruturas de autoridade mediadoras, artificiais - por exemplo, a lei positiva - como a
necessária "tradução" do imutável ius naturale, sem as quais esta lei seria
irrelevante para a esfera dos assuntos humanos. A distinção resultante entre justiça e
legalidade é superada por um regime totalitário que varre o cascalho das autoridades
tradicionais e pretende "estabelecer o reino directo da justiça sobre a
terra".»
47 VILLA, Dana R.- Politics, Philosophy,
Terror, p.17: «(
) O que o totalitarismo assume é a possibilidade de dominar seres
humanos inteiramente ("dominação total"), de tal modo que já não possam
interferir com a "lei do movimento"- da Natureza ou História- que o movimento
totalitário procura acelerar. Tais leis do movimento (...) providenciam o
"supersentido" dos movimentos totalitários, uma meta-narrativa com a qual
tentam por a realidade de acordo. O objectivo do totalitarismo não é senão refazer a
humanidade e o mundo de tal modo que "os factos" reflictam a verdade do
supersentido ideológico.»
48 NT, p. 205
49 Cf. Nota 41
50 VILLA, Dana Op. cit., p. 35: «
Porque o alvo do totalitarismo não é, como o exemplo nazi parece mostrar, a eliminação
do "sub-humano". É, antes, a transformação do humano- deve notar-se- não num
"super homem" que faz as suas próprias leis, alheias aos ditados da moralidade
tradicional, mas numa espécie animal cujos membros, impiedosamente ensinados da sua
própria superfluidade, obedecem passivamente aos ditados das (supostas) leis da Natureza
ou História. Este é o único e sem precedente mal do totalitarismo- um sistema "no
qual todos os homens se tornaram igualmente supérfluos"- e a razão pela qual Arendt
sente que deve ser rotulado de "absoluto" ou "radical".»
51 NT, p. 102
52 Em resposta a uma carta de Gershom
Scholem, em que este se indignava com o conceito debanalidade do mal que, em Eichmann in
Jerusalem, Arendt introduzira, e em que confessava, desgostoso, não poder levar a sério
a nova tese, escreve Arendt: «Mudei de ideias e já não falo de mal radical. (...) É,
de facto, a minha opinião que o mal não é nunca "radical", que é apenas
extremo, e que não possui nem profundidade nem qualquer dimensão demoníaca. Pode
crescer desmesuradamente e devastar o mundo inteiro, precisamente porque se espalha como
um fungo na superfície. É "desafiador do pensamento" porque o pensamento tenta
alcançar alguma profundidade, ir às raízes, e no momento em que se preocupa com o mal,
é frustrado porque não há nada. Essa é a sua "banalidade". Só o bom tem
profundidade e pode ser radical.» in JP, pp. 250-51
53 Hannah Arendt Karl Jaspers
Correspondance 1926 1969
54 VILLA, Dana- Op. cit., p. 33: « A
concepção arendtiana do mal radical apoia-se num específico (e, para alguns talvez,
idiossincrático) conjunto de pressupostos normativos. Como a sua resposta a Voeglin
demonstra, seria errado atribuir-lhe uma concepção robusta de natureza humana, que
pressupusesse um hiato entre a essência imutável e a existência contingente. Ainda
assim, Arendt pressupõe uma variante existencialista do ponto rousseauniano/kantiano
sobre a liberdade e a espontaneidade.»
55 OT III, p. 200
56 p. cit., p. 13
57 NT, p. 108
58 Op. cit., p. 113
59 OT II, p. 18
60 NT, p. 105
61 OT III, p. 224
62 Op. cit., p.214
63 KATEB, George- Op. cit., p.76: « O
totalitarismo é genocídio, um genocídio metódico "num quadro de ordem
legal". O totalitarismo é a matança metódica de certas populações em grande
escala (envolvendo milhões) levada a cabo deliberadamente e como questão política pelos
que estão no poder, cujo objectivo primordial é matar essas populações, e mata-las
apesar de não serem hostis nem mesmo dissidentes, ou obstáculos para um qualquer
objectivo de utilidade, ou estarem na posse de bens de qualquer tipo de que os seus
assassinos precisem, queiram ou cobicem. Para o observador racional o totalitarismo é
tão gratuito quanto metódico: combina a mais extrema eficácia de método com o que
parece ser a total ausência ou vazio de motivo.»
64 BERGEN Bernard J. The Banality of
Evil, p. 155: « Arendt vê que se quisermos agarrar a natureza única do totalitarismo,
temos de inverter o nosso entendimento tradicional do terror: as imagens tradicionais do
terror são imagens de pessoas demasiadamente paralisadas para se mover; mas para o
totalitarismo, o terror é a arma da lei que chama os homens à acção. Mas a chamada à
acção não é uma chamada a agir, que pode apenas ser dirigida a indivíduos. Onde os
indivíduos são apenas a corporização da lei do movimento, estão apenas a transportar
[ motion-carrying] o terror que é a sua lei.»
65 NT, p. 103
66 Op. cit., p. 100
67 Op. cit., p. 103
68 OT III, p. 215
69 VILLA, Dana R. Arendt and
Heidegger, The Fate of the Political, p. 258: «A decisão de exterminar os judeus - de
eliminar, de uma vez por todas, essas testemunhas das origens plurais do Ocidente
Greco-Judeo-Latino ele mesmo - segue, como Lacoue-Labarthe enfatiza, uma lógica que é,
estritamente falando, espiritual ou metafísica. É a decisão de identificar a
heterogeneidade com um povo - ver os judeus como o elemento heterogéneo por excelência -
e "eliminar" a ameaça colocada por esta heterogeneidade exterminando a sua
corporização exteriorizada. A diferença que precede e assombra a identidade, e que
desestabiliza todas as tentativas de institucionalizar a identidade, produz uma vontade
violenta naquele "povo"- os alemães- que são os mais ameaçados pela
artificialidade da sua própria identidade nacional. De que outro modo se compreenderia a
paradoxal declaração de Hitler, "o judeu em cada um de nós", uma declaração
que, de uma só vez, reconhece a "primordial" contaminação" da identidade
e ordena a aniquilação de uma alteridade [ otherness] exteriorizada, substancializada?»
70 OT III, pp.211-212
71 NT, p. 111
72 AMIEL, Anne- Hannah Arendt, Política e
Acontecimento, p.31: « O princípio totalitário e o movimento que implica formam um
conceito novo da realidade e do poder, com, podemos insistir, um antiestadismo (o Estado
impõe a rigidez de uma estrutura, de um quadro geral, de um território), um
antinacionalismo (os Arianos não são, por exemplo, os alemães, e o movimento supera a
nação e os interesses nacionais), e um anti- utilitarismo.»
73 NT, p. 113
74 OT III, p. 148
75 AJ, p. 206
76 OT II, pp.17-18
77 EJ, p. 10
78 OT II , pp.9-10
79 Op. cit. , pp.16-17
80 KATEB, George- Op. cit., p. 59: «A
grandeza de Arendt reside, precisamente, na sua honestidade. Põe de lado tudo o que a
deixaria a si e aos seus companheiros étnicos confortáveis, se esse conforto é comprado
pela auto-ilusão ou meio-conhecimento. No seu juízo, o anti-semitismo moderno depende do
carácter do judeu moderno. Nunca diz estupidamente que os judeus mereceram o que tiveram
no século XIX e XX. Antes, tenta mostrar que dados certos padrões de vida judaica, a
resposta do anti-semitismo não estava fora da esfera da normal maldade humana ou da pouco
imaginativa resistência ao estrangeiro ou dessemelhante.»
81 OT II, p.24
83 Op. cit, p.26
83 Loc. cit.
84 Op. cit., pp.27-28
85 Op. cit., p. 28
86 EJ, p. 28
87 OT II, p.32
88 Op. cit., pp. 32-33
89 NT, p. 42
90 VILLA, Dana R.- Politics, Philosophy,
Terror, p.11: « À medida que o século XX se encaminha para o fim, é difícil evitar
ser tomado pela náusea moral. (...) Qualquer concepção de dignidade humana que parte do
pressuposto do progresso moral da espécie foi estilhaçada por estes acontecimentos.
Montaigne, o observador céptico da humana e persistente idiotice moral, e não Kant,
mostrou-se certo. Nenhuma escondida mão da providência ou natureza nos conduz.»
91 OT III, pp. 180-181
92 Cf. Nota 41
93 CC, p. 198 (o sublinhado é meu).
94 BERNSTEIN, Richard J. Op. cit.,
p. 137: «Em 1945, Arendt declarou: "o problema do mal vai ser a mais fundamental
questão da vida intelectual na Europa do pós-guerra"(EU,134). Enganou-se. A maioria
dos intelectuais evitou qualquer confronto directo com o problema do mal. Mas ele
tornou-se fundamental para Arendt. Voltou a ele repetidamente, e ainda estava a lutar com
ele na altura da sua morte.»
95 NT, p.67
96 CH, p. 100
97 RENDT, Hannah- Labor, Trabalho, Acção-
Uma Conferência, in De la Historia de la Acción,p.95
98 TAMINIAUX, Jacques- La Fille de Thrace
et le Penseur Professionnel, p. 42 : « Porque ela não é, no final de contas, mais
do que aquilo a que Marx chamava o "metabolismo com a natureza", esta actividade
de trabalho no sentido de labor não pode senão partilhar as características do ciclo
vital no qual se inscreve: repetitividade, multiplicação, interdependência dos corpos,
anonimato fundamental do agente. Entendida à luz da vida, a questão "Tu quem és,
tu que penas?" (...) não saberia pôr-se, porque uma singularidade insubstituível
não poderia surgir num processo cíclico regido pela repetição do mesmo.»
99 Cf. M0LOMB"EBEBE, Munsya- Le
Paradoxe, p.30
100 CH, p. 117
101 ESLIN, Jean-Claude
L"Obligée du Monde, p. 59 : «Em Arendt, o homem é, antes de mais, poder de se
arrancar à naturalidade, de deixar a tradição. Participar, tomar parte no mundo não é
nunca natural, não é enraizar-se, mas arrancar-se. Mas este arrancamento é também uma
pertença, não é uma subjectivização, não visa um isolamento, mas prossegue no seio
de um mundo comum.»
KOHN, Jerome- Evil and Plurality, in Hannah
Arendt, Twenty Years Later, p. 147: «Hannah Arendt estava interessada no que as pessoas
fazem e nos modos como o que fazem afecta o mundo, para o melhor e para o pior. O centro,
aqui, não é a terra natural mas o mundo humano, um artifício erguendo-se entre os
homens e mulheres, continuamente afectado pelo que eles fazem para florescer e perdurar, e
também pelos modos como pensam em ordem a reconciliarem-se com a sua existência. Os
seres mortais não pediram nem chegam preparados para viver neste mundo. É, antes, como
se emergissem de lugar nenhum, aparecendo primeiro como estranhos, depois comunicando e
interagindo, até, mais ou menos gradualmente, desaparecerem. Estas noções de aparecer e
desaparecer são relativas não à Terra mas ao mundo comum, tal como não são
exactamente o mesmo que viver e morrer. As vidas humanas passam-se à face da Terra, mas
relacionam-se, distinguem-se e são recordadas congruentes com as condições e
limitações de um mundo sofrido[ enduring] . Diferentemente da terra natural, o
artifício humano não pode ser entendido como se fosse, em algum sentido, necessário, ou
o seu curso determinado.»
102 OT III, p. 194
103 CH, p.128 (o sublinhado é meu e
remete, como se verá, para a noção arendtiana do pária, de que tratarei adiante.
Interessa apenas sublinhar, neste momento, que tanto o pária como o animal laborans
representam aqueles a quem o mundo é tirado e a quem só resta a natureza, como
preocupação, num caso, como consolação, no outro).
104 Cf. MOLOMB"EBEBE, Munsya- Op.
cit., pp.29: «Sem começo nem fim, poder-se-ia dizer, por analogia ao tempo humano, que
este campo pré-individual corresponde à eternidade, devendo esta ser compreendida não
como uma transcendência metafísica, mas como uma eternidade puramente material que a
finitude das nossas categorias humanas de conhecimento não pode integrar. Do mesmo modo
que não se pode falar aqui, propriamente, de espaço, mas de puro continuum material,
também não há tempo enquanto temporalidade, mas puro continuum "atemporal".»
105 CH, p.110
106 Op. cit., p. 30
107 BPF, p. 42
108 CH, p. 31
109 Op. cit, p. 112
110 Op. cit., pp.109-110
111 BIBLIA, Eclesiastes 1-9;11 in Op. cit.,
p. 227
112 Op. cit., p. 141
113 BPF p 48
114 p. cit., p. 46
115 PF, p. 47
116 WEN-MOORE, Patricia- Op. cit., p.112:
« a mundaneidade outra [ otherworldliness] do primeiro Cristianismo é uma forma de
não-mundaneidade [ worldlessness] que inverteu a antiga crença numa imortalidade terrena
ganha somente através da grandeza de feitos e palavras ou atingida através de um tipo de
imortalidade mental experimentada pelo filósofo. A não-mundaneidade inerente a esta
mundaneidade outra dos primeiros cristãos é tematicamente estruturada, primeiro, pela
consciência histórica que via o mundo como temporal e, como todas as coisas temporais,
perecendo com o tempo, e em segundo lugar, pela atitude abraçando o carácter
profundamente sagrado da vida que enfatizava a importância da imortalidade individual.
Ambas as atitudes devem a sua centralidade e duração ao modo como o credo entendeu o
nascimento, a vida, a morte e a ressurreição de Cristo.»
117 CH, pp. 338-339
118 Op. cit., pp. 340-341
119 VE I, pp.177-178
120 Op. cit., p. 179
121 CH, p.33
122[ Aqui até as montanhas parecem apenas
repousar sob a luz das estrelas; são lenta e secretamente devoradas pelo tempo; nada é
para sempre, a imortalidade deixou o mundo para encontrar um lar incerto na escuridão do
coração humano que tem ainda a capacidade de recordar e dizer: para sempre] - seguindo a
tradução da própria autora em BPF, p. 44
123 Op. cit., p. 44
124 Cf. RICOEUR, Paul- Lectures 1, pp.43-65
125 MOLOMB"EBEBE, Munsya- Op. cit., p.
46: « O mundo objectivo não se limita, para Arendt, ao artifício humano material. Ele
compreende igualmente o artifício humano imaterial: as leis, os costumes, os tabus,... em
suma, todas as disposições inventadas pelo homem para estabilizar e regular as
relações entre os indivíduos.»
126 ESLIN, Jean-Claude Op. cit., p.
18 : «O mundo é, evidentemente, uma noção anti-idealista, um
"anti-objecto", uma noção que evita a "objectividade". A palavra diz
da resistência de um espaço que é mais que uma sociedade ou que um universo.»
127 CH, p. 110
128 Op. cit., p. 158
129 Op. cit., p. 191
130 TAMINIAUX, Jacques- Op. cit.,
p.44 : « O mundo não é de nenhum modo a natureza como meio de vida, e ainda menos
o universo. Um mundo sustem-se num conjunto de artefactos conquistados à natureza, mas
resistindo à torrente do seu ciclo. É neste ponto que se marca o desacordo mais nítido
entre Arendt e Marx. (...) Com Marx, Arendt sustenta que os humanos se tornam tais
inventando os artefactos. Contra ele, ela sustenta que esta invenção não tinha como
finalidade assistir o ciclo da vida. Tem por fim muito mais o resistir a este ciclo para
opor ao seu eterno retorno a consistência, a estabilidade, a permanência de um habitat
no seio do qual o "quem" pudesse aparecer. (...) É preciso um mundo para que
uma vida possa aparecer como vida de alguém.»
131 CH, p.62
132 KATEB, George- Op. cit., p. 173: « Ser
alienado do mundo pode não querer dizer opressão, ou violência física ou mental. Os
párias podem estar confortáveis, embora normalmente o não estejam. O que importa
finalmente, contudo, é ter um mundo: o lugar das mais altas oportunidades existenciais
bem como dos maiores perigos. Dá aos indivíduos identidade e hipótese de
reconciliação, mas pode também pedir que se abdique de confortos e da própria vida.»
133 CH, p.279
134 Op. cit., p.283
135 Op. cit, pp. 285-286
136 Op. cit., p.284: «Este processo, que
é o "processo de vida da sociedade", como lhe chamava Marx, e cuja capacidade
de produzir riqueza só se pode comparar com a fertilidade dos processos naturais nos
quais a criação de um homem e de uma mulher bastará para produzir por multiplicação
qualquer numero dado de seres humanos, continua sujeito ao princípio da alienação do
mundo, princípio do qual surgiu; (...) Por outras palavras, o processo de acumulação de
riqueza, tal como o conhecemos, estimulado pelo processo da vida e estimulando, por sua
vez, a vida humana, só é possível se se sacrificam o mundo e a própria mundaneidade do
homem.»
Cf. Parte I, Cap. I, 3
137 Op. cit., pp. 280-281
138 BOWEN-MOORE, Patricia- Op. cit., p.118:
«A introspecção cartesiana mantém o mais alto ideal da ciência, a ponto de ambos
exaltarem o modelo do raciocínio matemático: conhecimento produzido pela mente
independentemente da estimulação externa e também independente de um mundo definido
pelas suas aparências apreendidas primeiramente pelos sentidos. O senso comum era agora
visto como uma faculdade interna sem qualquer relação ao mundo e o raciocínio de senso
comum foi sujeito à estrutura do conhecimento matemático.»
139 CH, p.289
140 Op. cit., pp. 304-305
141 VE I, p. 33
142 Op. cit., p. 37
143 Op. cit., p. 38
144 Op. cit., p. 40
145 Op. cit., pp. 40-41
146 Op. cit., p. 42
147 PORTMANN, Adolf- Das Tier als soziales
Wesen, p. 127, in Op. cit., p.43
148 Loc. cit.
149Op. cit., p. 44
150 Op. cit., p. 34
151 RV, p. 122
152 CH, pp.61-62
153 VE I, p. 34
154 Op. cit., p. 33
155 CH, p. 37
1546ROVIELLO, Anne-Marie Senso Comum
e Modernidade em Hannah Arendt, p. 26: «A singularização, e a diversidade que ela
implica, constituem a mediação necessária para que a ideia de uma identidade do humano
passe do invisível para o visível, ou seja, para a realidade do mundo.»
157RV, p. 123
158 ILLA, Dana- Op. cit., pp. 200-201:« É
tentador rejeitar a tónica que Arendt põe na esfera pública como um espaço de
criação de sentido (e a sua crítica da era moderna como responsável pela
"perda" ou "destruição" deste espaço) como romântica sem emenda.
Antes de o fazermos, contudo, devemos lembrar-nos da experiência sobre a qual Arendt
construiu o seu pensamento político. Esta experiência não era a de pares "actuando
juntos, concertadamente", como na polis grega; era, antes, a experiência do terror
sob o totalitarismo. A tónica, virtualmente de uma vida inteira, na esfera pública e na
vida da acção cresceu do seu encontro com esta negação radical da realidade pública e
da liberdade humana. O seu interesse na liberdade "positiva" da acção
política (enquanto oposta à liberdade "negativa" dos direitos civis) nasceu de
um contexto no qual as forças políticas totalitárias tiveram pouca dificuldade em
ultrapassar as fronteiras protectoras da lei positiva e em alistar massas "sem
raízes" e "sem lar" na sua causa.»
159 HTS, p. 19
160 RV, p. 93; e na página 90, escreve
ainda: «se o pensamento se fecha em si mesmo e encontra o seu objecto solitário na alma-
isto é, se se converte em introspecção- produz claramente (enquanto permanece racional)
uma semelhança de poder ilimitado pelo simples acto de isolamento do mundo; deixando de
estar interessado no mundo, monta um bastião frente ao único objecto
"interessante": o eu interior. No isolamento atingido pela introspecção, o
pensamento torna-se sem limites, uma vez que já não é molestado por nada exterior.
(
) A autonomia do homem torna-se hegemonia sobre todas as possibilidades; a
realidade só choca e ressalta.»
161 HTS, p. 32
162 LAZARE, Bernard- Le Fumier de Job, p.
8, in ROVIELLO, Anne-Marie Op. cit., p. 50
163 RV, p.106
164 OT II, p.151
165 Loc. cit.
166 Op. cit., p.152
167 BERNSTEIN, Richard J. Op. cit.,
p. 103: «O que levou, então, Arendt ao Sionismo? Foi a sua firme convicção de que o
projecto de assimilação social dos judeus europeus era um completo desastre. A
aspiração à emancipação judaica tinha sido confundida com a tentativa desesperada de
assimilar, baseada na hipocrisia e na auto-ilusão. A judiaria europeia estava a descobrir
que a assimilação não era protecção contra o anti-semitismo ou o
extermínio.»
168 RV, pp. 92-93
169 OURTINE-DÉNAMY, Sylvie Hannah
Arendt, p.55: «De Lazare, Arendt guardará os conceitos de arrivista e de pária e o
desdobramento deste ultimo em pária consciente e pária inconsciente. Como ele, pensa que
a emancipação transformou os judeus em párias. Como ele, denuncia os judeus de
excepção e o "acosmismo" do pária, privilegiando a "tradição
oculta" ilustrada por Heine, Rahel, Aleichem, Lazare, Kafka ou mesmo Chaplin, "a
tradição de uma minoria de judeus que não quiseram tornar-se arrivistas, que preferiram
o estatuto de pária consciente". Como ele, retira ensinamentos da questão Dreyfus e
empenhar-se-á num processo, o de Eichmann em Jerusalém. Talvez também conserve,
através de Jaspers, o tema do cosmopolitismo e a ideia de uma federação entre Estados.
Finalmente, o tema da necessidade da rebelião, o apelo aos judeus para a acção.»
170 AJ, p. 66
171 BERNSTEIN, Richard J. Op. cit.,
p. 25: «Arendt nunca subscreveu aquilo a que chamava a "ideologia Sionista" (ou
qualquer outra ideologia). Não foi certamente movida por qualquer apelo religioso ao
retorno a Sião. Nem partilhava a atracção e entusiasmo emocionais de tantos sionistas
seculares. O Sionismo era o único movimento sério que dava valor à necessidade de uma
solução política para a questão judaica. Contudo, Arendt era ambivalente em relação
ao Sionismo, porque tinha sérias reservas relativamente à política sionista. As suas
dúvidas e reservas viriam a tornar-se progressivamente manifestas.»
173 RV, p. 120
173 AJ, p. 65
174 Op. cit., p.50
175 BERNSTEIN, Richard J. Op. cit.,
p. 182: «Ela tinha uma reacção quase visceral contra toda e qualquer forma de
ideologia, incluindo a ideologia sionista. Era absolutamente crítica do que detectava
como uma dominação sinistra da ideologia sionista revisionista. Castigou os seus
companheiros sionistas por falharem em encarar honestamente a necessidade de negociações
e cooperação judaico-árabe directa. Avisou contra o crescimento do nacionalismo e
chauvinismo judeus. Opôs-se à ideia de um estado-nação judeu porque baseado num
perigoso e ultrapassado conceito de soberania nacional. Acusou os seus companheiros
sionistas de terem abandonado e traído a promessa revolucionária do movimento
sionista.»
176 AJ, p. 97 (o sublinhado é meu)
BERNSTEIN, Richard J. Op. cit., p.
105: «Como Bernard Lazare, Arendt ela própria (muito antes de Eichmann in Jerusalem)
estava a tornar-se pária entre o seu próprio povo. Estava perturbada, não só pela
viragem sionista para o revisionismo, mas também alarmada pelas pressões crescentes no
sentido de uma conformidade ideológica, uma conformidade que não tolerava quaisquer
opiniões discordantes e em conflito. Na sua busca do sentido da política, realçou o
papel da opinião (doxa)- especificamente a pluralidade e conflito de opiniões, que são
debatidas em espaços públicos entre pares. Isto era, para ela, o coração da política
autêntica e da liberdade pública.»
177 JP, p.180
178 AJ, p. 61
179 Op. cit., p. 62
180 PHA, p.33
181 Op. cit., p. 41
BERNSTEIN, Richard J. Op. cit.,
pp.84-85: «Os reparos de Arendt têm relevância para recentes controvérsias a respeito
do liberalismo e do comunitarismo. Uma das razões pelas quais estes emaranhados debates
podem parecer tão abstractos e académicos é que os assuntos são frequentemente
discutidos sem relação a experiências políticas concretas, o tipo de experiências que
são tão manifestas nas reflexões de Arendt. Ninguém pode acusá-la de ser uma
comunitária- ou, pelo menos, o tipo de comunitário que atenua a irredutibilidade,
conflito e pluralidade de perspectivas e opiniões no interior da vida política comum.
Mas a eterna suspeita de Arendt relativamente ao liberalismo é, em parte, motivada pela
sua própria experiência do que significa concretamente ser tratado como um ser humano
abstracto que presumivelmente tem (ou deveria ter) direitos, na sua "nudez abstracta
de não ser senão humano".»
182 PHA, p.32
183 AJ, p. 7
184 PHA, p. 34
185 AJ, p. 77
186 PHA, p. 35
187 AJ, p. 79
188 PHA, p. 37
189 Op. cit., p. 42
BERNSTEIN, Richard J. Op. cit., p.
78: «A experiência de Arendt enquanto judia sem pátria proveu-a de uma análise
aguçada dos ameaçadores paradoxos e instabilidade que acontecem quando massas de
refugiados e pessoas sem pátria são "criadas" por erupções políticas. Ela
considerava a súbita emergência de novas massas sem pátria um dos problemas mais
intratáveis do século XX- um problema que sobreviveu aos regimes totalitários. O perigo
deste novo fenómeno de massas de ausência de Estado [ statelessness] era um dos temas
que tinha em mente quando, na conclusão de As Origens do Totalitarismo, escreveu que
"as soluções totalitárias podem muito bem sobreviver à queda dos regimes
totalitários sob a forma de fortes tentações que aparecerão de cada vez que pareça
impossível aliviar a miséria política, social ou económica de um modo digno do
homem".»
190 VE I, p. 20
191 BERGEN, Bernard- Op. cit., p. 49: «
Arendt não queria dizer nem que o mal era banal, nem que a Solução Final era apenas
mais um dos males banais que afligem a humanidade; ela queria dizer, antes, que Eichmann,
como qualquer ser humano, possuía a capacidade comum de se ver a si mesmo pensando no
significado do que ele é. Mas ele é também incomum em que, não pensando sobre o que
é, tinha passado do tipo de mundo no qual os humanos geralmente vivem, para outro tipo de
mundo que era organizado à volta de um eixo de assassínio.»
Vinte anos mais tarde, de resto, em
Thinking and Moral Considerations, p. 7, Arendt escrevia que por banalidade do mal não
queria referir-se a « teoria ou doutrina, mas a algo bastante factual, o fenómeno de
actos maus, cometidos numa escala gigantesca, que não podiam ser referidos a qualquer
fraqueza, patologia ou convicção ideológica no sujeito, cuja única distinção pessoal
era uma talvez extraordinária superficialidade.»
VILLA, Dana R. The Banality of
Philosophy, in Hannah Arendt, Twenty Years Later, p. 180: «A resposta de Arendt a esta
questão, por meio de uma meditação sobre a natureza "sem resultados" [
"resultless"] do pensamento em geral e sobre a qualidade "dissolvente"
do pensamento de Sócrates em particular, é um qualificado sim. Ao pôr fora de ordem a
nossa dedução quotidiana de acções e juízos de princípios prontos-a-usar, o
pensamento interrompe todo o fazer e inicia um diálogo interno entre mim e eu-próprio.
Foi este o diálogo a que Sócrates tentou incitar e que Arendt remete para a pluralidade
interna da própria consciência.» Este aspecto será desenvolvido adiante.
192 VE I, p. 29
193 Op. cit., p. 80
194 KOHN, Jerome Op. cit., p. 162:
«As consequências filosóficas do que Kant fez são fundamentais para [ Arendt] . Ao
colocar severos limites ao alcance do conhecimento humano, Kant tinha, para Arendt,
libertado o pensamento daquilo a que ela chama por vezes a "tirania" da verdade.
Para ela, a importância de tal pensamento liberado não pode ser forçada, especialmente
em tempos de transição, quando os padrões morais tradicionais perderam a sua validade e
o mundo humano já não é estável, ainda que, como vimos, ele não traga
"resultados".»
195 CANTISTA, Maria José- A Significação
do bios politikós ou o regresso ao pensamento em Hannah Arendt: «Na opinião da Autora,
a significação auroral do agir e da genuinidade do entido da experiência marcam a
autêntica pensabilidade, a significação primordial que desde cedo distingue do sentido
inerente ao quadro teorético da verdade lógico-veritativa, sempre secundário e relativo
àquela. Assim sendo, o pensar é a própria teorização do agir, está em intrínseca
relação com ele. O pensar é a actualidade mesma do agir humano, essência ek-sistente
ou ek-staticidade, cujo horizonte é a historicidade (daí o carácter narrativo do
pensamento que se conta em stories e não na History) e cuja morada é a linguisticidade.
O pensamento regressa assim ao seu ethos, enraíza-se no seu lugar natural- no seu ser no
mundo: é palavra e é acção.»
196 VE I, p. 30
197 ARENDT, Hannah- Philosophie et
Politique, in Cahiers du Grif, p.91
198 VE I, p. 219
199 Op. cit., p. 95
200 Op. cit., p. 202
201 OT III, p. 217
202 Não é por acaso, portanto, que nas
alturas em que Eichmann se viu obrigado a confrontar-se com a realidade dos campos, as
suas "convicções" vacilassem. Nas palavras do próprio: « Não podia; não
podia; era demais. Os gritos... estava demasiadamente aborrecido (...) E fui-me embora
(...) Tinha sido demais. Estava acabado. (...) Tinha que desaparecer.» In EJ, p.88
203 ESLIN, Jean-Claude Op. cit., p.
49 : «Este desligamento do mundo, esta perda de pontos de ligação, que ameaça o
sentido do interesse pessoal e o instinto de conservação, que conduz a que nos
contentemos com os resultados mais abstractos, conduz também a fugir da "facticidade
do mundo real" a favor da coerência, bem maior, do mundo fictício. A fuga das
massas perante a realidade é uma condenação do mundo no qual elas são obrigadas a
viver. Em suma: uma gnose. As massas "sedentas de coerência" renunciam elas
próprias à pluralidade por uma visão conformista e simplificada das coisas. (...) Um
círculo perverso cria-se entre os chefes totalitários que, no seu desprezo pelos factos,
estão prontos a defender qualquer tese, e a credulidade das massas, prontas a acreditar
em qualquer mentira, desde que seja melhor do que o mundo real.»
204 OT III, p. 218
205 Op. cit., p. 218
206 EJ, p. 135
207 Op. cit., p. 289
208 MAY, Larry- Socialization and
Institutional Evil, in Hannah Arendt, Twenty Years Later, p. 89: «Na minha
interpretação de Arendt, a socialização institucional nas burocracias transforma os
indivíduos em dentes de uma engrenagem; isto é, os indivíduos acabam por pensar em si
próprios como anónimos. Como tal, escapam às confrontações face-a-face consigo mesmos
e com as consequências das suas acções, que são necessárias ao desenvolvimento do
sentido da responsabilidade.»
209 EJ, p.106: «O problema era de como
ultrapassar, não tanto a sua consciência, mas a piedade animal pela qual todos os homens
normais são afectados na presença do sofrimento físico. O truque usado por Himmler- que
aparentemente era, ele próprio, bastante afligido por estas reacções instintivas- era
muito simples e, provavelmente, muito eficaz; consistia em virar estes instintos do
avesso, dirigindo-os ao eu. Assim, em vez de dizer: que coisas horríveis fiz às
pessoas!, os assassinos poderiam dizer: que coisas horríveis tive de fazer para cumprir
os meus deveres, quão duramente pesou a tarefa sobre os meus ombros!»
210 VE I, p. 216
BOWEN-MOORE, Patrícia- Op. cit., pp.
72-73: «Se a ausência de pensamento e o mal partilham uma "interdependência",
então o pensamento e a moralidade estabelecem uma espécie de mutualidade exibida como a
dimensão ética da vida do espírito. Deste último comentário não deve de modo algum
inferir-se que o pensamento resulta sempre num local moral, porque o pensamento, por
definição, é uma busca de sentido e não de resultados. Devemos, antes, compreender
esta última declaração enquanto significando que a actividade de pensar é tal que a
sua experiência realça as sensibilidades humanas sobre o bem e o mal, porque, enquanto o
pensamento pode não produzir "resultados", o seu sub-produto é consciência.
Inversamente, onde o pensamento atrofiou e o seu sub-produto desapareceu, o resultado é a
ausência de pensamento e isto, de acordo com Arendt, prepara o caminho para o mal.»
211 VE I, p. 205
212 Op. cit., p. 190
213 Op. cit., p. 191
214 Op. cit., p. 193
215 Op. cit., p. 200
216 Op. cit., p. 207
217 Loc. cit.
218 Op. cit., p. 208
219 KOHN, Jerome- Op. cit., p. 169: «Para
Arendt, isto é a descrição das personalidades morais num sentido filosófico, daqueles
que, confrontados com o errado, dizem simplesmente "não posso". Para estas
pessoas, que vivem consigo próprias, as proposições morais são de si mesmas evidentes,
"evidentes para si mesmas". Mas este "não posso" é inteiramente
negativo, e, no que ao agir erradamente no mundo diz respeito, aqueles que o dizem
sobretudo retraem-se de agir. Um dos aspectos mais marcantes que Arendt marca nestas
lições é que as proposições morais reflectem o eu ao eu, e por isso são tudo menos
"selfless". (...) Há uma experiência de pluralidade interior em tal
moralidade, mas não é o mundo de outros seres humanos que está "entre", ou
que é de interesse primordial para alguém ser alguém. Para os filósofos e para a
filosofia em geral, de acordo com Arendt, esta é uma experiência "marginal" ou
de "fronteira", mas em Sócrates atingiu uma validade exemplar. Sócrates sofreu
efectivamente em vez de cometer o mal: tendo apostado a sua vida na sua crença na bondade
do diálogo interior de pensamento, escolheu morrer pela sua convicção.»
220 VE I, p. 210
221 Op. cit., p. 213
222 VILLA, Dana R. The Banality of
Philosophy, in Hannah Arendt, Twenty Years Later, p. 184: « Numa conferência sobre o seu
trabalho em Toronto, em 1972, Arendt repudiou violentamente a ideia de que a sua análise
da "banalidade do mal" demonstrava que "Eichmann está em cada um de
nós". O seu objectivo não era sugerir que, dadas as circunstâncias certas, somos
todos Eichmanns potenciais (nada, do seu ponto de vista, podia estar mais longe da
verdade). Antes, o sentido segundo o qual a sua descrição da personalidade de Eichmann
tinha mais relevância, tem a ver com a atrofia geral nos nossos poderes de juízo. À
medida que a distância da "participação no juízo e na autoridade"
(Aristóteles) aumenta na sociedade de massas, há um declínio claro da nossa capacidade
de "pensar sem regras", isto é, de julgar assuntos morais e políticos. Com
este declínio, vem uma crescente confiança nos vários "pilares" (princípios
e juízos de valor prontos-a-usar) que nos permitem navegar na vida quotidiana sem termos
de parar e pensar. (...) O que Arendt teme não é o "Eichmann em cada um de
nós", nem sequer a "perda de valores", mas a crescente qualidade
automática dos nossos juízos.»
223 VE I, p. 217
224 BERGEN, Bernard- Op. cit., p. 40: «
Arendt ouviu esta declaração de Eichmann não como uma declaração sem originalidade,
que os nazis faziam desde Nuremberga, mas como levantando a questão de quem ele pensava
que era naquele tribunal de Jerusalém- uma questão que abriu o caminho para a
compreensão de quem ele era quando cometera os seus actos mortíferos mais de uma década
antes.»
225 VILLA, Dana R. Politics,
Philosophy, Terror, p. 46: « De facto, o tema primordial de Arendt [ em Eichmann in
Jerusalem] é a inadequação da consciência tal como foi concebida tradicionalmente (e
popularmente), pelo menos quando se trata de compreender o "novo tipo de
criminoso" representado por Eichmann. Este tema faz de Eichmann in Jerusalém um
trabalho de filosofia moral, pelo menos implicitamente. Não é de modo algum uma
preocupação meramente teórica, uma vez que lida directamente com o tema de como
preservar a responsabilidade por acções naquelas circunstancias em que a luta da
consciência com "motivos de base" já não pode ser honestamente (ou
rigorosamente) invocada. E, como a natureza do mal político no século vinte demonstra,
essas circunstancias tornaram-se cada vez menos excepcionais.»
226 EJ, p. 26
227 Op. cit., p. 114
228 Op. cit., p. 123
229 BOWEN-MOORE, Patrícia- Op. cit., p.74:
«A ausência de pensamento de Eichmann testemunha o facto de que ele nem tinha um
companheiro no pensamento, nem tentou fazer do pensamento ou do pensar um amigo. Se a
mente é de facto a própria "sensação de estar vivo", Eichmann é um dos seus
mais patéticos representantes. Nele, a actividade de pensar tinha atrofiado, permitindo
assim uma realidade ficcionada completada com uma nova linguagem de clichés, truísmos,
vulgaridades e slogans vazios, para se afirmar a si mesmo como um novo código de
julgamento. No momento em que Eichmann permitiu a possibilidade de os seus instintos maus
ditarem o exercício das suas acções, (...) tornou todos os juízos pessoais sobre a
realidade dada inteiramente vazios de significado e despidos de todo o conteúdo moral.
Eichmann, por isso, não só não era adequado para a experiência do político tal como
Arendt o descreve, como o não era para as aspirações da vida teorética. Eichmann traiu
a sua natalidade enquanto dimensão política e ética da existência humana. Para o dizer
do modo mais desagradável possível, Eichmann era um pigmeu mental e moral.»
230 EJ, p. 125
231 Op. cit., p. 175
232 Richard Bernstein faz referência a,
pelo menos, dois deles: Isaiah Trunk, na sua obra Judenrat (New York: Stein and Day, 1972)
e Walter Z. Laqueur, um dos mais severos críticos de Arendt, que na sua obra Hannah
Arendt in Jerusalem: The Controversy Revisited, escreve: « Mas se em muitos casos
circunstâncias atenuantes podem ser encontradas, se alguns líderes, de facto, se
comportaram de maneira heróica, o fenómeno Judenrat, como um todo, adquiriu uma
conotação negativa, e bem. A partir do momento em que os Conselhos Judaicos foram usados
pelos nazis para ajudar na "solução final", a sua acção tornou-se
indefensável.» in BERNSTEIN, Richard J. Op. cit., p. 163
233 EJ, pp. 125-126 (o sublinhado é meu)
234 BERNSTEIN, Richard J. Op. cit.,
p. 159: «Acredito, também, que a razão pela qual a reportagem de Arendt é perturbadora
é porque nos obriga a confrontar questões dolorosas acerca do significado do mal no
mundo contemporâneo, o colapso moral da sociedade respeitável, a facilidade com que o
assassínio em massa se torna um comportamento "normal" e
"aceitável", a fragilidade da dita voz da consciência, as formas subtis de
cumplicidade e cooperação que acompanham os actos mortíferos. Estes, infelizmente, não
são aspectos exclusivos do horror nazi. Permanecem connosco, e exigem que lutemos contra
eles uma e outra vez.»
235 VE I, p. 19
236 COURTINE-DÉNAMY, Sylvie Op.
cit., p. 62: «Demonstramo-lo suficientemente: Hannah Arendt não foi uma judia assimilada
e, apesar de referências frequentes à tradição grega ou à tradição cristã, já
não é permitido por em causa a sua relação com o judaísmo, com a Shoa e com a
criação do Estado de Israel; ela conheceu o exílio, pertence à tradição oculta dos
Heine, Lazare, Chaplin, Kafka "que, como ela, não foram nem homens de gueto, nem
assimilados, mas antes palhaços, párias na praça pública"(J-C. Eslin). Tendo-lhe
sido recusado o acesso ao domínio público enquanto judia, atacada enquanto judia, ela
defendeu-se enquanto judia e procurou uma lei, um domínio público com valor para a
humanidade inteira, sem excluir ninguém. Os seus primeiros livros foram, precisamente,
dedicados à vida de uma judia, Rahel, e ao anti-semitismo e é por isso que as
acusações de "má judia", contra ela pronunciadas após a publicação de
Eichmann à Jerusalem, em 1963, merecem que nelas nos detenhamos: não só porque nos
parecem erradas e tendenciosas, mas igualmente porque estiveram na origem da perda,
provisória ou definitiva, de amigos caros a Hannah Arendt, como Hans Jonas ou Kurt
Blumenfeld, sem falar de Gershom Scholem, ela que não vivia senão para a amizade, o
falar-conjunto.»
E, já em Rahel Varnhagen, podia ler-se:
«um pedaço de realidade está escondido nas respostas inteligentes das outras pessoas.
Ela [ Rahel] precisava da experiência dos outros para suplementar a sua própria. Para
esse propósito, as qualificações particulares dos indivíduos eram indiferentes.
Quantas mais pessoas houvesse que a compreendessem, mais real ela se tornaria.» (Rahel
Varnhagen, p.98)
237 OT III, p. 224
238 EJ, p. 49
239 Op. cit., p. 86
240 Op. cit., p. 136
241 Op. cit., p. 137
242 VILLA, Dana- Op. cit., p. 52: « O
"novo tipo de criminoso" representado por Eichmann não é nem um fanático do
partido nem um robot doutrinado. Antes, é o indivíduo que participa solicitamente nestas
actividades de um regime criminoso, enquanto vendo-se a si mesmo como isento de qualquer
responsabilidade pelas suas acções, quer pela estrutura organizacional, quer pela lei.
Através desta auto-ilusão (e do "distanciamento da realidade" que ela
promove), um indivíduo pode evitar com sucesso confrontar-se alguma vez com a moralidade
das suas acções. Como o caso Eichmann amplamente demonstra, onde "a lei é a
lei"- onde, por outras palavras, a ausência de pensamento reina- as faculdades do
juízo e de imaginação moral atrofiam e, depois, desaparecem.»
243 OT III, p.205
244 EJ, p. 252
245 VP, p.8
246 Op. cit., pp.14-15
247 Op. cit., p. 17
248 Op. cit., p.18
249 Op. cit., pp. 21-22
250 Op. cit., p. 28
251 Op. cit., p. 39
252 Op. cit., p. 42
253 Op. cit., p. 51
ROVIELLO, Anne-Marie Op. cit.,
pp.138-139: «A fé na veracidade dos testemunhos, que parte do pressuposto de que esses
testemunhos têm sentido, deve ser considerada uma razão suficiente para as verdades de
facto que não podem ser submetidas à verificação dos sentidos ou à demonstração
racional. Arendt recupera a ideia escotista de uma fides acquisita ideia que, aliás,
também encontramos no jovem Kant, e que prefigura a ideia transcendental do Gemeinsinn
que o filósofo define como o pressuposto de um "contrato originário" no qual
cada indivíduo se teria comprometido a respeitar a máxima da comunicabilidade e,
portanto, da veracidade. (...) É essa fé adquirida que é arruinada pelo sistema
totalitário, o qual torna real aquilo que não tem sentido para o homem. A própria
fiabilidade do real, condição para os testemunhos sobre o real, é destruída. E só
aparentemente existe uma contradição entre essa dúvida radical e a "fé"
ingénua na realização de todas as profecias dos chefes totalitários. Esta fé no poder
de uma qualquer ficção se tornar real, é o reverso da perda da fé numa realidade capaz
de resistir ao poder da pura ficção.»
254 VP, p.53
255 Op. cit., p.11
256 Op. cit., p.12
257 EJ, pp.231-32
258 CHAUMONT, Jean-Michel- A singularidade
do universo concentracionário segundo Hannah Arendt, in Hannah Arendt et la Modernité,
p. 89 «Pode-se dizer que para ela, não é tanto o extermínio, e ainda menos o
genocídio dos judeus, que representa um acontecimento sem precedentes, senão a própria
instituição concentracionária, tanto na Alemanha nazi como na Rússia comunista. A
partir daí o problema da "singularidade do extermínio dos Judeus pelo regime
nazi" não constituía verdadeiramente um problema: nem esta singularidade, nem mesmo
a dos "crimes e genocídio nazis" mas antes a dos "crimes
totalitários" parecia-lhe à época cientificamente pertinente e politicamente
importante de estabelecer.»
259 OT III, p.173
260 Op. cit., p. 179
261 VILLA, Dana R.- Op. cit., p. 31: «A
lição a retirar dos campos não é a de que o homem animal moral nunca existiu realmente
(...) mas a de que não existe uma natureza indelével em que possamos apoiar-nos como
garantia de que experiências semelhantes não acontecerão no futuro.»
262 OT III, p. 195
263 Op. cit., p. 185
264 BERNSTEIN, Richard J. Op. cit.,
p. 150: «Porque "grandeza satânica" é, ela própria, uma categoria humana -
demasiado humana. O mal radical do totalitarismo não pode ser nem mitificado, nem
esteticizado. [ ...] Jaspers critica Arendt por chegar quase a enveredar pelo
"caminho da poesia" ao descrever os crimes nazis. "Da maneira como o
exprime, quase toma o caminho da poesia. E um Shakespeare nunca seria capaz de dar forma
adequada a este material - o seu sentido estético instintivo falsificá-lo-ia - e é por
isso que não o podia tentar."(C, 62) A referência de Jaspers a Shakespear é
esclarecedora, porque foi Shakespeare que criou alguns dos maiores e irresistíveis
personagens exemplificadores de "grandeza satânica". [ ...] Porque as
construções retóricas [ de Arendt] sugerem que a alternativa à banalidade do mal é o
mal que é teológica e esteticamente caracterizado como "grandeza satânica",
podemos ser enganosamente levados a pensar que ela identifica mal radical com grandeza
satânica. Assim, numa das suas primeiras tentativas de explicar e clarificar o que quer
dizer quando fala de banalidade do mal, escreveu: " Eichmann não era Iago nem
Macbeth. [ ...] Era pura ausência de pensamento - algo de modo algum semelhante à
estupidez - que o predispôs a tornar-se num dos maiores criminosos daquele período(EJ,
287)"»
265 CHAUMONT, Jean-Michel Op. cit.,
p. 93: « Este princípio de des-ligação sistemática entre os actos e os acontecimentos
será uma das constantes mais intoleráveis da existência no seio dos campos (
)
Erigida em lei suprema de existência, este arbitrário pressupunha a destruição dos
verdadeiros direitos dos homens, por um lado, e permitia, por outro, assegurar a
renovação do "stock de pessoas susceptíveis de serem enviadas para os
campos".»
266 OT III, p.186
267 ROVIELLO, Anne-Marie Op. cit.,
p.166: « A ameaça fundamental que pesa sobre esses indivíduos cuja existência, actos e
palavras, não dependem de nenhuma jurisdição, reside no facto de a sua exclusão do
mundo jurídico-politico "ser como um convite ao homicídio". Efectivamente,
esse homicídio é sem consequências para o assassino, visto que ele mata alguém cuja
existência não é reconhecida por nenhuma lei. Do ponto de vista jurídico, o homicídio
pura e simplesmente não aconteceu.»
268 NT, p. 106
269 VILLA, Dana R.- Op. cit., p.23: « Há
e tem de haver um abismo entre o sistema dos campos de concentração e o sistema penal;
de outro modo, uma irredutível remanescência do sujeito jurídico é preservada e a
possibilidade de poder incontido vedada.»
270 É de salientar- a nota e o sublinhado
são meus- a insistência de Arendt, não tanto na especificidade das vítimas, mas na sua
comum inocência. Com efeito, mais do que reflectir sobre os grupos particulares
escolhidos para a experiência da dominação total, interessa-lhe acentuar que o universo
concentracionário determina a possibilidade de um mundo que se abre à escravização do
homem, continuada e total. Esta insistência, recorrente em O Sistema Totalitário,
encontramo-la também em Eichmann em Jerusalém, quando recusa a denúncia dos
"crimes contra os Judeus", sustentada pela acusação.
CHAUMONT, Jean-Michel Op. cit., p.
106-107: « Quando Arendt diz temer os efeitos de uma focalização sobre o facto da
judeidade das vítimas, é verosímil que ela esteja a reagir nomeadamente contra esses
banalizadores que, no próprio interior da comunidade judaica, inscrevem sem mais as
câmaras de gás como um novo episódio numa história sempre repetida de perseguições.
Ora, Arendt tinha neste ponto argumentos fortes a opor. Primeiro, dizia ela, os judeus
não foram as únicas vítimas das câmaras de gás (...). Seguidamente, Arendt acreditava
firmemente que se a Alemanha nazi tivesse sido vitoriosa, outras categorias de vítimas
teriam sido exterminadas. (...) Finalmente, ela insistia com justiça em distinguir o
extermínio dos judeus pelos nazis de outros crimes sofridos pelos judeus anteriormente
fazendo valer o carácter sem precedente das suas práticas exterminadoras.»
271 OT III, p.190
272 PHA, pp.36-37
273 VILLA, Dana R.- Op. cit., p.24: «A
"pessoa moral" não é nem o sujeito legal de direitos, nem o concreto, único
indivíduo humano. Talvez a aproximação mais correcta do que Arendt quer dizer seja dada
pela ideia de actuação conscienciosa ou moral. Ser um agente consciencioso requer um
ambiente no qual a acção moral não é nem suicida nem sem sentido. Mas o mundo dos
campos destrói os pressupostos de um tal ambiente.»
274 OT III, p. 191
275 Op. cit., p.180
276 VILLA, Dana R.- Op. cit., p. 19: « A
morte no mundo conduz à recordação da aparência distintiva, em palavras e actos, do
falecido. Viver e morrer nos campos, contudo, é ser privado da aparência no mundo, é
ser absolutamente apagado da esfera das aparências e (portanto) da memória. Aqui, a
morte já não é nossa.»
277 OT III, p. 191
278 Op. cit., p.192
279 ROVIELLO, Anne-Marie- Op. cit., p. 126:
« A pluralidade é deste modo pervertida, transforma-se numa atomização; o indivíduo
deixa de receber dos outros a revelação de "quem" ele é. A ruptura do
contacto com o mundo, a ruptura da comunicação com os outros, provoca a ruptura do
contacto consigo próprio (...) tendo como pano de fundo a sua inserção no mundo comum,
que lhe garante a integridade pessoal.»
280 OT III, p.192
281 VILLA, Dana R.- Op. cit., p. 27: «
Seguindo a destruição dos direitos e da consciência, a experiência totalitária na
dominação total foca as suas energias disciplinares no material recalcitrante do
próprio indivíduo. (...) Desde o uso de carros de transporte de gado até à raspagem
das cabeças, falta de roupa suficiente, descanso ou comida, e labor físico extenuante,
os campos eram máquinas gigantescas para a manipulação do corpo humano, apelando às
"infinitas possibilidades de sofrimento" como meio para demolir as últimas
reservas de personalidade e espontaneidade.»
282 OT III, p.194
283 VILLA, Dana R.- Op. cit., p. 20:
«Porque só quando os seres humanos interiorizaram a sua própria superfluidade, quando
se submeteram em silêncio ao poder, é que a aspiração totalitária se torna
realizável. Assim, os campos de concentração e o doutrinamento ideológico são
"experiências" em dominação que apontam a uma forma qualitativamente nova.
São experiências não no medo em si, mas em pôr à prova os limites da plasticidade
humana.»
284 OT III, p. 193
285 CH, p. 60
286 OT III, p.195
287 VILLA, Dana R.- Op. cit., p.13: «
Privados desta capacidade, atirados para um mundo onde experienciavam a sua própria
superfluidade como uma realidade diária, horária mesmo, as vítimas do terror
totalitário apresentavam-se a Arendt como a mais palpável evidência imaginável de que
os seres humanos podiam ser transformados em "animais pervertidos" através das
novas artes da dominação total.»
288 ROVIELLO, Anne-Marie- Op. cit., p. 165:
« Criar um homem novo equivale portanto a criar o não-humano, destruindo aquilo que em
cada indivíduo excede a "espécie humana". No sistema totalitário esse mais
torna-se demasiado. É o próprio indivíduo que está a mais.»
289 OT III, p. 197
290 ROVIELLO, Anne-Marie- Op. cit., p. 167:
« Aquilo que é consumado com a destruição da personalidade psíquica, mas que já se
inicia com a destruição da personalidade jurídica, é a destruição do que Arendt
designa noutro texto por "quem": a fonte interior própria a cada indivíduo,
que se manifesta por meio de actos e palavras, mas também por comportamentos e, talvez,
antes de mais nada, por uma fisionomia, pela expressividade de um rosto.»
BERNSTEIN, Richard J. Op. cit., p.
97: «A dominação total envolve matar a pessoa jurídica, a pessoa moral e obliterar a
consciência. Mas há um sentido segundo o qual a própria expressão "dominação
total" é enganadora. Porque sugere que a dominação total é dominação sobre
seres humanos. Mas o totalitarismo não para no "domínio despótico sobre os
homens". A "lógica" do totalitarismo luta pela produção de um sistema no
qual os homens são supérfluos.»
291 VILLA, Dana- Op. cit., p. 187: « Por
outras palavras, o "aperfeiçoamento" da espécie humana implica a destruição
da humanidade, como conceito, tanto quanto como a realidade fenomenológica de indivíduos
únicos.»
292 OT III, p.173
293 Os campos são, convém insistir, a
instituição central dos regimes totalitários e condição da sua permanência. Tal como
escreve em Op. cit., p. 196: « A inutilidade dos campos, a confissão cínica da sua
anti-utilidade, não são senão uma aparência. Na realidade, eles são mais úteis à
salvaguarda do poder do regime do que qualquer uma das suas outras instituições.»
294 Op. cit., p. 182
295 AJ, pp. 204-205
BERNSTEIN, Richard J. Op. cit., p.
92: «Para indicar quão anti-utilitária e irracional a maquinaria de extermínio parece
ser, podemos considerar o exemplo dos judeus húngaros. Na Primavera e Verão de 1944, era
bastante claro que os nazis estavam a perder a guerra. Não só estavam a perder a guerra
como necessitavam desesperadamente de todas as fontes disponíveis para se defenderem a si
próprios em duas frentes. Contudo, nenhum esforço foi poupado para transportar judeus
húngaros para os campos de extermínio. No Outono de 1944, 400.000 judeus tinham sido
enviados para a morte.»
296 AJ, p. 152
BERNSTEIN, Richard J. Op. cit., p.
99: «Foi descendo ao Inferno, para o abismo que se tinha aberto, foi "insistindo nos
horrores" dos campos de concentração, que Arendt pôde ver tão lucidamente o que
é fundamental e vital para a acção,para a política e para viver uma vida humana. A
isto era o que o seu mentor, Karl Jaspers, teria chamado uma desses
"experiências-limite" que nos permitem quebrar com os clichês, os preconceitos
do senso-comum e por aí descobrir o que de outro modo não discerniríamos- o que é
constitutivo da nossa humanidade.»
297 KATEB, George- Op. cit., p. 150: «
Podemos insistir no carácter único do totalitarismo enquanto genocídio metódico e
legal e ainda assim compreender que nas experiências que lhe prepararam o caminho, e nas
experiências que as suas vítimas sofreram, podemos encontrar semelhanças com outros
horrores da vida moderna. Arendt não insiste no facto de que as experiências que
prepararam o caminho são terríveis apenas porque prepararam o caminho. Nem sugere que as
experiências da desumanização podem acontecer apenas nos campos de morte ou numa vida
diária aterrorizada pela ditadura totalitária. Apesar do totalitarismo ser uma resposta
sistemática a uma dada situação histórica, elementos dessa situação estão por todo
o lado, à nossa volta, e são passiveis de continuar e até piorar. De modo similar,
elementos da resposta totalitária podem emancipar-se do sistema e aparecer e reaparecer
em várias combinações. Arendt sustenta que o totalitarismo não poderia ter surgido a
não ser que um grande numero de pessoas civilizadas sentissem profundamente que eram
supérfluas, ou abandonadas e perdidas, ou perdidas e sem significado. Mas certamente
estes sentimentos nunca estão fora de causa ou da consciência no mundo moderno.»
298 EJ, p. 273
299QLP, p. 136
300 VILLA, Dana R. Arendt and
Heidegger,The Fate of the Political, pp. 269-270: «Desperta para os perigos de um mundo
pos-totalitário, tecnológico (...) [ Arendt] acentuou as profundas e irrevogáveis
consequências da perda de realidade da esfera pública. Esta perda é moldada pela
estrutura emergente da própria modernidade (a "ascensão do social"), e torna
qualquer apelo directo à praxis, ou à "esfera pública", infinitamente
problemática, senão mesmo irónica. É precisamente a impossibilidade de uma esfera
pública genuína da pos-modernidade (...) que leva Arendt a sublinhar o agonismo sobre o
consenso, a resistência sobre a docilidade, e as "causas perdidas" do
"espírito revolucionário" sobre as políticas normalizadoras da democracia
representativa. O seu ponto, como crítica do liberalismo (e da modernidade) é semelhante
ao de Foucault: não é que tudo seja mau, mas tudo é perigoso.»
301 CH, pp. 135-136
302 Op. cit., p. 130
303 Op. cit., p. 137
304 Op. cit., p. 139
305 Op. cit., p. 170
306 Op. cit., p. 140
307 BOWEN-MOORE, Patrícia- Op. cit., p.
127: «Em poucas palavras, Arendt argumenta, Marx não só falhou em distinguir
consistentemente entre labor e trabalho, como também indicou que a "verdadeira
esfera da liberdade" consistia no tempo de lazer no qual a criatividade de cada um
pode aparecer apenas após as exigências da vida terem sido superadas. Na perspectiva do
homem socializado a verdadeira liberdade é actividade produtiva entendida como actividade
criativa.»
308 CH, p. 140
309 Op. cit., p. 132
310 CHAUMONT, Jean-Michel Op. cit.,
p. 101« A sociedade de consumo de massa tende, exactamente como os campos de
concentração mas com uma notável economia de violência, a transformar os indivíduos
em espécimes indiferenciados da espécie animal homem.»
311 BPF, pp. 89-90
312 EJ, p. 273
313 VILLA, Dana R. Op. cit., p. 189:
«Tudo o que Arendt tem a dizer sobre a acção e a esfera pública é enquadrado nos
termos de uma análise da des-mundanização [ de-worldling] do mundo público na era
moderna. O facto de onde começa é a perda desta realidade específica, aquilo a que
chama "o eclipse do mundo comum público". Isto não quer dizer que Arendt negue
que nós, modernos tardios, tenhamos uma esfera pública; antes, o seu ponto é que esta
esfera "perdeu o seu poder" de nos reunir, de "relacionar e separar"
como um mundo deveria. Na nossa esfera pública, ser e aparência dificilmente coincidem:
a pluralidade de perspectivas necessária para um tal espaço de revelação fragmentou-se
e enfraqueceu na uniforme da sociedade de massas.»
314 OT III, p. 225
315 Op. cit., p. 226
316 Loc. cit.
317 Op. cit., p. 229
318 HEIDEGGER, Martin- Qu"appelle-t-on
penser? , p.36
319 CH, pp. 258-260
320 BOWEN-MOORE, Patrícia- Op. cit., p.
147: «O perdão, para Arendt, funciona politicamente quando é dirigido tanto ao actor
quanto à acção. (...) A noção arendtiana de perdão aplica-se àqueles que agem
inadvertidamente, quer dizer, àqueles que realizam acções que prejudicam relações
politicamente estabelecidas, mas sem intenção criminosa ou mal propositado.»
321 OT III, p.232
322 Não apenas uma, certamente; porventura
no âmbito dos objectivos do presente trabalho apenas a mais relevante.
323 Não darei conta, portanto, senão dos
conceitos que mais imediatamente importam à temática de que este trabalho pretendeu
oferecer uma leitura.
324 HEIDEGGER, Martin- Être et Temps, pp.
61-62
325 Op. cit., § 14, pp.99-100
326 TAMINIAUX, Op. cit., p.30 : «Aí,
onde Heidegger separa a praxis autêntica de toda a comunicação e cuja manifestação
reserva à ciência íntima e silenciosa do Gewissen, Arendt insiste, inversamente, no elo
essencial entre práxis e lexis.»
327 Quero referir-me, aqui, ao papel
atribuído por Arendt ao perdão.
328 CANTISTA, Maria José- O
Político e o Filosófico no pensamento de Hannah Arendt, in Separata da Revista da
Faculdade de Letras, Filosofia, II Série, Vol. XV-XVI, 1998-99, p.45: «Pensar o
político com um olhar purificado de toda a filosofia, eis, em síntese, o propósito de
H. Arendt: reaver esse grande dom socrático, por oposição a Platão que pensa sempre o
político a partir de um fracasso, isto é, da condenação do Mestre que não soube
persuadir, nem os mestres, nem mesmo os amigos. Ressuscitar o interesse pela polis, sem
medos da fragilidade do agir humano, sem recurso às pseudo-seguranças de uma filosofia
especulativa.»
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