Abandono leva mais idosos ao alcoolismo

Fonte: Jornal o Estado de São Paulo - Repórter Carlos Franco

Aposentadoria, perda de parentes e amigos, internações hospitalares, insônia e tremor empurram, cada vez mais, uma parcela da população idosa para o alcoolismo. Não importa onde estejam, mas certamente os idosos ou aposentados que habitam os grandes centros urbanos são mais vulneráveis e mais propensos a afogarem as mágoas num copo de álcool. Tudo para não se sentirem abandonados, num canto qualquer de uma cidade, observando o passar dos dias sem motivação para agirem. Situação que se agrava porque uma dose de álcool por dia para alguém mais velho e com um organismo já debilitado pode causar problemas cognitivos, como dificuldade de locomoção e fala, e agravar doenças vasculares.

Estas são as principais conclusões de pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos sobre Envelhecimento e Saúde do Idoso, do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde (Daps) da Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz.

Ao analisar o comportamento de 120 idosos, que procuram o centro de atendimento ao alcoólico e sua família da Fiocruz, os pesquisadores da instituição perceberam que a maioria deles já havia se aposentado e tinha um histórico de perdas. Em comum, são pessoas que encontraram no álcool um alívio arriscado para a tensão cotidiana provocada pela ociosidade e a ausência de uma tarefa capaz de reconhecer e estimular suas habilidades.

Envelhecimento - O que fazer, então, para solucionar o problema, levando-se em conta que a população brasileira está envelhecendo?

Em 1991, 13 milhões de pessoas tinham mais de 60 anos, total que deve chegar a 20 milhões no Censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E a média de crescimento desse universo vem sendo mantida desde 1960.

Para o psiquiatra Marcelo Alves Chagas, autor do estudo da Fiocruz, o dependente nunca vai abandonar a bebida, por isso é importante que o vínculo com esse paciente seja permanente, caso contrário ele volta ao álcool. "Na Fiocruz, há um programa de semi-internato para o dependente químico. Porém, o alcoolismo ainda é visto de uma forma ineficaz na grande maioria dos hospitais. Tem de ocorrer uma integração entre o serviço clínico e o atendimento psiquiátrico para se tratar do alcoólatra", diz Chagas.

O psiquiatra encontra respaldo na receita que dá para o problema nas próprias estatísticas feitas por sua equipe. Hoje, por exemplo, cerca de 100 pacientes são atendidos pelo programa da Fiocruz e, após um mês de tratamento, de 80% a 90% dos pacientes param de beber. Porém, aproximadamente 70% deles voltam a beber depois de três meses. Mas, entre aqueles que mantêm o vínculo com o programa, apenas 30% retornam ao álcool.

A dificuldade está em motivar essas pessoas, integrá-las a um grupo social, em que possam enfrentar os mesmos problemas em conjunto, rompendo a solidão que faz com que um copo vazio, cheio de ar, precise do álcool para ganhar densidade.

Alcoolismo afeta 15% da população brasileira

Fonte: Jornal o Estado de São Paulo - Repórter Gabriela Scheinberg

Cerca de 15% da população brasileira é alcoólatra, de acordo com levantamento realizado pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Dados obtidos em outros países giram em torno de 12% a 13%, segundo o coordenador do grupo, Arthur Guerra de Andrade.

O levantamento, que foi divulgado ontem por Andrade durante o Encontro Álcool e suas Repercussões Médico-Sociais, em São Paulo, foi feito com base no cruzamento de dados obtidos no Grea, na Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe), na Ambev e no Ministério da Saúde.

De acordo com os pesquisadores, o País gasta 7,3% do Produto Interno Bruto (PIB) por ano para tratar de problemas relacionados ao álcool, que variam desde o tratamento de um dependente até a perda da produtividade por causa da bebida. Já a indústria do álcool no País movimenta 3,5% do PIB. "O País gasta o dobro para tratar problemas provocados pelo álcool do que usa para produzir a bebida", diz Andrade. "Não há nenhum país onde essa avaliação foi feita que ganhe mais do que perde com o álcool, mesmo considerando os grandes exportadores mundiais de bebida."

Produção - Segundo Andrade, o País é o quinto maior produtor de cerveja do mundo, com a terceira maior empresa da área, a Ambev. Da produção da Ambev, que representa 70% do total do Brasil, 90% são destinados ao mercado nacional. "Do total de cervejas produzidas pela empresa, 35 milhões são engarrafadas por dia", afirma Andrade.

"Não sou contra o álcool", explica Andrade. "A bebida não provoca danos desde que seja consumida socialmente, de forma moderada." Para o especialista, as causas do alto número de pessoas dependentes de bebidas alcoólicas no País deve-se, principalmente, à cultura nacional. A cerveja, por exemplo, é aceita como uma bebida tradicional. "Você bebe no frio para esquentar e no calor para esfriar", diz. "Ela está sempre presente."

Sair para beber também faz parte da cultura do brasileiro, outro fator que, para Andrade, aumenta o número de usuários. A bebida alcoólica é facilmente encontrada em vários pontos do País a preços acessíveis. Não há uma regulação efetiva de quem compra. "A idade em que o adolescente começa a tomar álcool está cada vez menor", afirma, ressaltando que a média atual está em torno de 13 anos.

Adolescentes - Para esses adolescentes, a melhor forma de evitar o consumo precoce é a informação e a educação. Os pais devem dar o exemplo. Andrade explica que, muitos pais, por beberem, não costumam impedir que seus filhos o façam. "Geralmente, a principal preocupação dos pais é a maconha", diz. "Mas é preciso saber que o álcool é a porta de entrada das drogas."

Um levantamento realizado pelo Grea indica que os filhos de país alcoólatras têm um risco até quatro vezes maior de desenvolver a dependência. "Existem também os fatores genéticos que predispõem ao vício", diz o médico

Tomando um trago já no ventre materno

Maria-E Lange-Ernst - Fonte: Vita Sana Magazin, nº 5 de 1991.

Ninguém é capaz de dizer exatamente quantos nenês nascem com o sinal de droga no rosto:lábio superior reto e extremamente fino, nariz largo, olhos pequenos e reduzidos por dobras no lado interno da pálpebra. O que pesa muito mais é o retardo mental vitalício da criança que — como embrião indefeso — foi condenada a compartilhar a bebida.

Na Alemanha, cerca de 3 recém-nascidos em 1.000 vêm ao mundo com essa doença incurável, a síndrome do alcoolismo fetal. Hoje, 30 mil jovens são incapazes de levar uma vida normal. Perderam essa chance no ventre materno. Isso soa extremamente duro, mas todo esforço em atenuar o fato está errado em vista desse sofrimento evitável. Há milênios sabemos que o álcool pode ter conseqüências perigosas durante a gravidez. Na Bíblia, no Velho Testamento, um anjo adverte a mãe de Sansão a não tomar vinho durante a gravidez. Há 200 anos, uma comissão britânica tachou os recém-nascidos de mães alcoólatras de "famintos, atrofiados e defeituosos". Há duas décadas, médicos franceses e americanos documentaram e divulgaram as conseqüências do abuso de álcool durante a gravidez. Na mesma época, os pediatras Hermann Löser e Frank Majewski observaram um "faro" específico nas mães de bebês prejudicados. Fazendo perguntas sobre problemas com álcool, obtiveram a confirmação. Desde então, prestaram atenção à manifestação de problemas causados pelo álcool quando examinavam seus pequenos pacientes.

Além da má-formação dos olhos, dos rins, do esqueleto e dos genitais, constataram defeitos cardíacos em 30 de cada 100 crianças com a síndrome do alcoolismo fetal. Hermann Löser observou 200 dessas crianças nos anos seguintes e acompanhou seu desenvolvimento até a idade adulta. Há vários anos ele ajuda a "Iniciativa de pais de crianças prejudicadas pelo álcool" como conselheiro médico e engajou-se na pesquisa e divulgação: "Não estamos saindo do lugar", diz o pediatra. "Desde que conhecemos a doença, não foi possível diminuir o número de recém-nascidos atingidos". Os motivos disso são:

1. Poucos médicos decidem conversar com suas clientes sobre o hábito de beber.

2. Muitas mulheres não sabem, ou reprimem o conhecimento, que as crianças, vítimas do álcool, são prejudicadas pela vida toda.

3. Nas garrafas e latas de bebidas alcoólicas faltam advertências, que são obrigatórias, por exemplo, nos Estados Unidos.

4. São raros os locais adequados para o tratamento de gestantes dependentes do álcool. Quando existe, o tratamento ocorre, muitas vezes, somente depois do parto.

5. Não é raro a mulher dependente de álcool deixar temporariamente de menstruar. Ela só percebe que está grávida quando sente os movimentos da criança.

6. Nesse momento, as malformações orgânicas e os danos cerebrais já ocorreram. 

O recém-nascido, que precisa "beber junto" no ventre materno, muitas vezes nasce prematuro, com peso bem abaixo do normal. Tem dificuldade em respirar espontaneamente. Muitos morrem nos primeiros dias após o parto, como o bebê da clínica de Essen que chegou ao mundo com uma taxa de 1,3 ppm no sangue. A extensão do dano causado pelo álcool está estreitamente relacionada com a duração e quantidade da ingestão de álcool — e, sobretudo, com a capacidade do organismo feminino de digerir o álcool. Isso quer dizer que:

1. O tempo e a regularidade de ingestão de álcool aumentam os danos provocados no fígado. Ele demora cada vez mais para digerir o álcool.

2. Como o álcool passa rapidamente para o sangue, o drinque da mãe já atua sobre o bebê após 10 minutos, com o mesmo valor em ppm.

3. Mesmo pequenas quantidades de álcool prejudicam o embrião.

Por esse motivo, os filhos de mães que bebem moderadamente sofrem de problemas de concentração e dificuldades comportamentais. O fígado imaturo do feto produz menos enzimas que decompõem o álcool do que o fígado da mulher adulta. Durante a ingestão regular de álcool pela mãe, o órgão ainda imperfeito do feto é completamente sobrecarregado e o efeito devastador do veneno é mais prolongado, continuando ainda quando a gestante voltou a estar sóbria. O abuso de álcool não prejudica apenas o fígado; as conseqüências desse abuso se alastram até o cérebro. Em geral, esse fato não é levado em consideração durante o consumo regular de álcool!

Criança marcada pela droga - Sob a influência do álcool, o desenvolvimento do cérebro em formação fica prejudicado. As circunvoluções cerebrais são menos pronunciadas e numerosas células nervosas ficam atrofiadas. Conseqüentemente, essas células dispõem de uma quantidade menor de sinapses — as conexões tão importantes para a transmissão de impulsos. Uma rede incompleta de neurônios conduz a informações errôneas e reações estranhas. Mais estranhos são os problemas na alimentação, que só são superados através de refeições mínimas durante meses e anos — em casos graves, somente por meio de uma sonda nasal. 

Crianças com síndrome do alcoolismo fetal recusam o alimento porque lhes falta a vontade normal de comer. Muitas vezes, comer e beber lhes causa medo e mal-estar. Seu tecido adiposo não é bem desenvolvido e, apesar de muitos cuidados e carinho, baixo peso e altura são a regra. Nervosismo inexplicado frente a determinados ruídos, irritabilidade excessiva e receio de qualquer contato físico, hiperatividade, sensação de náusea frente a cheiros comuns, bem como dificuldades na fala são problemas freqüentes. Muitas crianças com síndrome do alcoolismo fetal vivem em creches ou com pais adotivos, porque os pais verdadeiros não cuidam (ou não podem cuidar) delas. Muitas vezes, as pessoas que cuidam dessas crianças não sabem nada da doença, que só é diagnosticada a tempo em um quarto dos recém-nascidos. Quando ficam sabendo dos problemas, caem das nuvens.

Além dos receios por causa do comportamento estranho, as perspectivas futuras da criança prejudicada pelo álcool são mais do que graves:

  • Apenas cerca de 17% conseguem acompanhar o currículo normal.

  • A metade tem que freqüentar uma escola para crianças com dificuldades de aprendizagem.

  • 1/5 vão a uma escola para deficientes.

  • Uma em cada oito crianças com síndrome do alcoolismo fetal não pode freqüentar uma escola.

Na maioria das crianças com síndrome do alcoolismo fetal, as deformações faciais desaparecem quando ficam mais velhas. Também a hiperatividade muitas vezes diminui. Mas a deficiência mental as acompanha pela vida toda. Conseguir ser independente, aprender uma profissão ou achar um parceiro é menos uma questão de cuidados intensivos — depende da gravidade do dano alcoólico que sofreram inocentemente.

Gestação e álcool são incompatíveis — não há meio termo. Não existe uma "dose limite" no consumo de álcool. A mulher que deseja ter um filho deve se abster do álcool já antes e durante a concepção.

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