GONÇALO JÚNIOR
Gonçalo Júnior,jornalista,grande estudioso dos quadrinhos.Foi também muito importante para o movimento dos fanzines dos anos oitenta,editando entre outros,o fanzine" Quadrinhos Magazine".Atualmente,prepara livros contando sobre a história dos quadrinhos no Brasil.Está sempre presente nos principais eventos de HQ.Não poderíamos deixar de entrevistá-lo.
Entrevistador:Gonçalo,achei importante entrevistá-lo porque acho que você representa um ícone da fase auréa dos fanzines no Brasil,que foi a segunda metade da década de 1980.Seu estilo era bem definido,super-nacionalista e com um pé no underground.Você concorda com isso?
Gonçalo Júnior: Claro,você resumiu tudo de modo bastante objetivo.Crêio que eu era uma espécie de militante idealista dos quadrinhos nacionais.Embora minha mesada fosse irrisória,eu comprava quase tudo que saía.Acreditava que,se fizesse isso,ajudaria a criar mercado para o artista brasileiro e para mim mesmo, já que escrevia compulsivamente roteiros para quadrinhos de terror e erótico,únicos gêneros que as pequenas editoras aceitavam na época.Defendia nos fanzines que fazia("A Folha dos Quadrinhos"e "Quadrinhos Magazine" )que se a turma fizesse o mesmo que eu,a coisa daria certo porque conseguiríamos vendas razoáveis.Não me arrependo de ter feito isso,mas hoje vejo que fui ingênuo e pouco crítico quanto aos artistas brasileiros.
Como assim?
Outro dia,eu estava num boteco conversando com alguns conhecidos sobre a morte de Flávio Colin.Estava ali meio de intruso,já que limito-me a um fã que estuda,pesquisa e escreva sobre quadrinhos,mas não faço quadrinhos,como a maioria.Quase apanhei quando lamentei também a morte de Waldir Igayara de Souza,que ocorreu em maio deste ano.Igayara comandou o núcleo de quadrinhos da Abril entre 1974 e 1989.Defendi que ele foi um importante editor,que revitalizou a Marvel e a DC e trouxe as Grafic Novels.
E por que reagiram assim?
Olha,eu queria mostrar que ele foi importante num contexto mais amplo do mercado de quadrinhos que incluía,inclusive,os artistas brasileiros.Só não imaginei que alguns sectários presentes odiavam tanto ele com aquele velho discurso dos anos de 1960 que o acusava de não ter feito nada pelos quadrinhos nacionais.Pior,responsabilizaram ele por ter criado na Abril um "cemitério de elefantes",onde grandes talentos se escondiam atrás dos personagens Disney.Na pior das hipóteses,ele dava emprego para um monte de pais de família.Por outro lado,era um cara só,numa gigantesca engrenagem,mas que fez o possível para lançar revistas brasileiras.Oh,pobres quadrinhos nacionais,sempre vítimas do imperialismo americano.Essa pelo menos é a visão deles.Em seguida,esbravejaram até que admitiram que Igayara tinha criado o projeto "Tiras "em 1979,para distribuir autores brasileiros.Aí,outro notório sectário o acusou de só beneficiar a panelinha que já existia para quem trabalhava na Abril.Não foi nada disso.Mas preferi ficar calado.
E qual sua opinião sobre este discurso de que nossos quadrinhos são vítimas do imperialismo americano?
Simplificar a questão dessa forma é muito cômodo,principalmente para um bom número de desenhistas e fanáticos que atuam no meio e que nunca desceram de seus pedestais para fazer uma auto-crítica.Afinal,alguns precisam justificar para si mesmo o porquê de uma carreira fracassada,não é?Dizem assim:"Por que não dou certo como desenhista de quadrinhos?Ora,por causa do imperialismo americano".Tem sido assim há cinquenta anos,desde que começou a discussão para a criação de uma lei de nacionalização dos quadrinhos,em 1948,num movimeto liderado por José Geraldo Barreto,no Rio de Janeiro.Para mim,não damos certo por uma série de fatores que passa por uma rigorosa auto-crítica.É inegável que os syndicates se instalaram no Brasil e criaram um mercado para eles,com personagens bem construídos,amparados pela indústria do cinema e por um esquema de distribuição eficiente porque lucra no atacado.
Como então lutar contra isso?
Você tocou no ponto central da questão.Os syndicates não são indestrutíveis e os excelentes Fernado Gonsales(Níquel Náusea),Adão(Aline),Angeli(Chiclete com Banana) e Maurício de Souza estão aí para provar .O problema é competir à altura dos gringos e com isso,não necessariamente,exige uma base de mercado.Para mim,tem a ver com o esforço pessoal de cada artista no sentido de se tornar competitivo e oferecer um produto de qualidade.Por ser brasileiro,certamente levará certa vantagem.Os erros,creio,vêm sendo cometidos há décadas e hoje,com o quase desaparecimento dos quadrinhos,ficará muito difícil.Quem faz quadrinhos no Brasil costuma se sentir uma divindade entre os mortais.Aqui faço justiça e excluo pelo menos três nomes:Júlio Shimamoto,Flávio Colin,e Rodolfo Zalla,cujas carreiras acompanhei mais de perto.Outros jamais admitiram algum dia olhar para o próprio umbigo e reconhecer suas deficiências.
Quais seriam essas deficiências, por exemplo?
Primeiro,nunca fomos profissionais não por falta de mercado,mas pela mentalidade.Por exemplo,em encarar uma produção altamente competitiva,capaz de oferecer uma alternativa nacionalista aos americanos.Não foi o que o Mauricio de Souza fez?O artista brasileiro sofre da síndrome do Cinema Novo,do gêniozinho auto-suficiente incompreendido,que não admite sequer entrar num esquema produtivo no qual têm de dividir tarefas com roteiristas e arte-finalistas preparados para isso.É a turma do "eu sozinho",do "porque -eu-posso- tudo","sou o melhor".Muita gente têm essa mentalidade.O quadrinhista brasileiro pensa que já nasceu gênio,prontinho para esoturar no mercado.Eu desafio qualquer um a citar uma grande obra do quadrinho nacional nos últimos anos além de "Pererê",de Ziraldo,e os álbuns de Lourenço Mutarelli.Há,sim,boas histórias,boas idéias,bons desenhistas.Nada além disso,no entanto.Nossos artistas desdenham a necessidade de estudar,de se aperfeiçoar , de reciclar.E não me venham com o papo de que não ganham para isso.Ao mesmo tempo,não lêem romances,não fazem pesquisas,não assistem filmes,não estudam a linguagem das artes.
Qual a saída então?
Uma autocrítica imediata,um gesto de humildade,pelo menos.Sentar,reavaliar seu trabalho e ver onde estão suas deficiências.Um passo inicial está em perceber que história em quadrinhos é como cinema ou telenovela:É necessária uma boa trama,um bom argumento,um bom roteiro.Só desenhos maravilhosos não bastam.É como ter técnica e estratégia para correr.Até o calçado é importante.Culpar os americanos apenas esconde uma explícita arrogância,além de uma postura submissa diante da situação.Vamos fazer bons quadrinhos como faz Lourenço Mutarelli e todo mundo vai respeitar e gostar.Mutarelli não pode ser visto apenas como um gênio dos quadrinhos,mas uma referência por exemplo de disciplina e como deve ser um artista.Enquanto ninguém presta atenção nisso,ele vai dando passos largos,rumo às obras-primas que está prestes a criar.
De volta aos fanzines,o que vem à sua cabeça quando recorda daquela época de fanzineiro?
Foi um período importante de aprendizado,principalmente no meu caso,que acabei caindo no jornalismo.Acho que gostei tanto da experiência que virei jornalista.Curiosamente,quando comecei a fazer esse tipo de publicação,sequer conhecia o termo.Chamava-se apenas de "jornalzinho".Até hoje,acho que fanzine não era exatamente a melhor denominação para o que fazíamos,uma vez que,ao invés de revistas de fãs,a coisa virou meio que uma tribuna para apresentar novos talentos e experimentos,brigar pela abertura de mercado e discutir o rico momento que atravessavam as histórias em quadrinhos no Brasil.Vivíamos três fenômenos paralelos naquela época:A explosão da Circo Editorial,a chegada das "grafics novels" e os quadrinhos eróticos e de terror feitos no Brasil pela Press,Nova Sampa e D-Arte.Nesse contexto,zines como os de Henrique Magalhães,Worney Almeida de Souza,Edgard Guimarães,os meus e muitos outros tiveram alguma importância.Apesar da tiragem muito pequena,nosso público era extremamente seletivo e incluía desenhistas,editores,fanzineiros,pesquisadores,colecionadores e,claro,fãs.Muito do que saía nos zines tinha repercussão nesse meio.Portanto,o movimento dos fanzines nos anos de 1980 não foi meramente quantitativo,mas qualitativo.E isso se estendeu a outras áreas como música,poesia,literatura,comportamento,etc.
O "Quadrinhos Magazine" foi seu principal fanzine?
Sim.Pelo menos foi o mais querido e de maior longevidade.Comecei a fazer fanzines em 1983,quando lancei "A Folha dos Quadrinhos",ainda com impressão em mímeografo.Durou 24 números mensais.Depois fiz"Jornal dos Quadrinhos","Baianada","' Quadrinhos Magazine"(primeira série),"Quadrinhos Magazine"(segunda série),"Livre Cativeiro"e "Ballon Quadrinhos".Este,em 1991,quando já estava na faculdade.Apesar de mais profissional editorial e graficamente,Não gostava do resultado porque não havia sintonia entre os quatro estudantes que o faziam.O próprio nome não me agradou,veio de "Balão",o famoso fanzine que lançou Luiz Gê,Laerte e os irmãos Caruso em 1972.Era muito"cabeça",com ensaios bem intelectualizados sobre os quadrinhos,no pior estilo do academicismo.Por isso,acho que"Quadrinhos Magazine " foi melhor porque tinha uma função ao mesmo tempo militante e informativa.
(Primeiro
número do Quadrinhos Magazine)
Como era dividido o conteúdo?
Trazia entrevistas,muitas novidades,polêmicas até,que me custaram uma meia dúzia de desafetos.Faz parte,como disse aquele rapaz da TV.Também publicamos novos artistas como Carlos Alberto,de Natal ,um talento até hoje sub-aproveitado.Infelizmente,QM acabou no momento em que o projeto estava amadurecendo.Três números permaneceram inéditos,com capas e matérias prontas-sobre Marcatti,a história da Grafipar e uma longa entrevista com Franco de Rosa.
Você tinha,em parceria com o desenhista Sidney,personagens interessantes,como o "Baiano","Vampiros do terceiro mundo",e "'As bichas".Não pensa em publicá-los novamente?
Puxa Ademir,você ainda se lembra disso?Foram personagens de temática profundamente preocupada em dar aos quadrinhos a função de levar o leitor a uma reflexão sobre os problemas sociais do país."Baiano"foi criação de Sidney,sem nome,que nós transformamos num favelado de Salvador que se virava para não morrer de fome numa cidade eternamente festeira,que parece em permanente estado de delírio,onde o choro das crianças famintas costuma ser abafado pela potência sonora dos trios- elétricos,mais barulhentos que as turbinas de um boing.
E "Vampiros"?
"Vampiros do terceiro mundo"tentava situar o Brasil na economia global, tentava satirizar com a política externa numa época em que a não éramos um país falido e o FMI não era o nosso sindico da massa falida-aquele sujeito nomeado pelo juiz para liquidar uma empresa quebrada.Até mesmo "As bichas" tinha uma pretensão parecida.Tanto eu quanto Sidney-um gênio dos quadrinhos,também sub-aproveitado,que conhece como poucos as potêncialidades e os enquadramentos do gênero-e nosso terceiro comparsa,Leônidas,somos heterossexuais,mas condenávamos o preconceito contra os gays e por extensão aos negros e pobres.Não me lembrava mais deles,mas crêio que a idéia ainda têm folêgo e atualidade para ser retomada.
Eles foram publicados em "Livre Cativeiro".Por que esse fanzine não foi além do primeiro número?
Foram três números,mas só um foi impresso.Na época,perdi a boquinha que eu tinha na gráfica de meu antigo colégio,porque o meu contato lá saiu para montar sua própria empresa e não consegui localizá-lo."Livre Cativeiro" era uma espécie de "gibizine",só trazia histórias em quadrinhos.Todo o material foi escrito por mim e Leônidas e Sidney.Como Leônidas é um excelente roteirista,ele melhorou muito o que eu escrevia.Tínhamos uma sintonia muito boa.Mas pagamos caro pelas críticas de política e comportamento que imprimimos as estórias.O fanzine foi detonado pelos editores,taxado de pornográfico e boicotado por outros pontos de venda de publicações alternativas de Salvador.Mas valeu muito,estávamos num momento de descobertas do rock nacional e internacional(que surgia),da boa literatura beat que a Brasileinse e a L&PM estava editando.Líamos Charles Bukowisk,Jhon Fante,Jack Keourac,Karel Tchapek,William Burroughs,Jack London,Joseph Conrad.Devorávamos os filmes do papa do surrealismo,Luís Bruñnel,que chegavam ao Brasil pelo vídeocassete,uma novidade daquela década.E ouvíamos muito Raul Seixas-bem antes dele morrer,diga-se,- e Camisa de Vênus.

(Baiano,personagem de Gonçalo e Sidney)
Você prefere os quadrinhos (nacionais e internacionais)daquela safra ou os atuais?
Pode parecer saudosismo,mas a produção dos anos 1980 não encontrou qualidade equivalente na década seguinte.A expectativa criada pelas potencialidades gráficas e de criação trazida pelas ghafic novels estagnou-se rapidamente.Ao mesmo tempo,os super-heróis sucumbiram a uma pasteurização de poluição visual terrível.No caso do Brasil,aconteceu o mesmo.A exceção de Lourenço Mutarelli,não tivemos boas surpresas.Assim,continuo preferindo Miguelanxo Prado,Will Esisner,Alan Moore,Frank Miller e Neil Gayman,nessa ordem.Como leitor e pesquisador,acredito que o grande problema dos quadrinhos é a falta de idéias ,de boas idéias.
Na década de 1980,os quadrinhos da Marvel e DC vendiam muito.Traziam algumas ótimas histórias.Isso durou até os anos de 1990,com a explosão da Image e milhões de exemplares vendidos .Atualmente,a Marvel está mal,a Dc está mal e a Image,salvo "Spawn",já era.A indústria de HQ vive um momento delicado e corre o risco de acabar?
Recentemente,a Panini lançou no Brasil a mini-série "Origem", sobre Wolverine.Falaram muito,mas é um lixo de quinta categoria,uma trama mal elaborada,cheia de buracos e incoerências.Crêio que isso deve ser considerado quando se discute que o mercado de quadrinhos praticamente desapareceu.A crise nos gibis não teria a ver,por exemplo,com o exito dos super-heróis dos gibis no cinema? Não se pode negar,por outro lado,que novas tecnologias como a Internet,a TV paga,RPGs e os videogames tiraram o público dos quadrinhos.Mas não se fez o dever de casa: Boas histórias.No ano passado,Neil Gayman esteve no Brasil,e autografou numa noite 800 livros.Por quê? Ora,por causa de "Sandman",uma obra marcante na história dos comics.
Gonçalo ,tente explicar para o jovem internauta de hoje e fã de quadrinhos,o que era aquele movimento de fanzines da década de 1980.
Os fanzines da década de 1980 são o que hoje representa a Internet:A possibilidade de livre expressão,de expor seus primeiros desenhos em quadrinhos,de divulgar sua poesia ou mesmo uma banda de rock.Diferentemente da rede mundial de computadores,trazia o charme da colagem,do amadorismo,da irreverência que hoje foi pasteurizado pelos programas de computador.É uma pena que a Internet não tenha ainda sido tomada pelos fanzineiros.Talvez por ser ainda uma ferramenta cara.Ao mesmo tempo,parte dessa criatividade se perde no meio fácil e calhorda que a rede se tornou para imbecis se esconderem atrás de pseudônimos para sacanear os outros.
Poderia avaliar a dimensão da perda de um artista como Flávio Colin?
Como escrevi para o site Universo HQ,crêio que Flávio Colin virou uma referência para os quadrinhos brasileiros pelo seu traço personalíssimo,perfeito domínio narrativo-tanto do texto quanto dos desenhos-e por ser um criador gênial,apaixonado pela cultura brasileira.Mas além disso,não se pode deixar de realçar sua quase solitária luta de toda uma vida por um mercado para o artista brasileiro.Por mais de quarenta anos,ele se posicionou quase inflexível em suas convicções sobre como profissionalizar o mercado.Pela disposição que sempre teve em se manter na linha de frente em todos os momentos que se discutiu a organização de um movimento capaz de consolidar o mercado.Lá estava ele.Deu um bom número de entrevistas,nas quais ao invés de deixar fluir a vaidade diante da reverência de seu grande talento,preferia denunciar as distorções que corriam na sua profissão e lhe tiravam trabalho.Por isso,pagou um preço alto durante a guerra fria,que ganhou corpo e forma no Brasil, quando os militares derrubaram o presidente João Goulart,em 1964,e instituíram uma ditadura.Colin nunca foi militante comunista,mas se tornou uma das primeiras vítimas das caças às bruxas,que se seguiu quando ele e outras lideranças como Júlio Shimamoto e o incansável José Barreto-que lutavam por uma lei que obrigasse as editoras a publicar um percetaul de quadrinhos nacionais foram banidas do mercado .Tanto ele quanto Shima passaram na publicidade,porque tiveram seu espaço fechado nas editoras.Por tudo isso,Colin era um artista completo:Consciente do seu papel como artista-formador de opinião e difusor da cultura nacional e um eterno lutador pela valorização do quadrinhista brasileiro.Com sua morte,resta o consolo de termos para sempre a companhia de seus trabalhos memoráveis,embora ainda não devidamente valorizado do ponto de vista gráfico e editorial.
(mestre
Flávio Colin,no traço do Bira)
Você mantêm contato com fanzineiros daquela época?
Não,perdi o contato com o pessoal há mais de dez anos.Felizmente reecontrei você,o que me trouxe alegria e saudades daqueles tempos.
Quem é o grande nome dos quadrinhos brasileiros,na sua opinião?
Gosto de Júlio Shimamoto,pelo caráter e pelo talento.E de Cláudio Seto,também pelo caráter e talento.São dois artistas completos em todos os sentidos,que têm um ampla visão das potencialidades da linguagem dos quadrinhos e fizeram coisas muito boas.
Você costuma escrever sobre HQ no jornal em que trabalha?
Sim,há cerca de quatro anos.Publicamos pelo menos uma matéria por mês,já que o nosso caderno(Fim de Semana,da Gazeta Mercantil),é semanal.Tenho procurado dar aos quadrinhos o tratamento de arte.Por isso refiro-me ao tema como artes gráficas ou arte sequêncial.O critério que uso é pessoal,claro,mas que considera principalmente a qualidade.Já demos duas entrevistas com Will Eisner,uma com o Laerte,Millôr Fernandes ,etc.E resenhamos todos os últimos álbuns de Lourenço Mutarelli.Também damos espaço para livros sobre o tema e destacamos clássicos dos quadrinhos-"Príncipe Valente",por exemplo.
Você tem acompanhado as novidades dos quadrinhos europeus e dos alternativos norte-americanos?
Muito pouco,por falta de oportunidade.Sempre fiquei de olho nos álbuns da Meribérica,que faliu recentemente e vai deixar uma lacuna enorme.Também compro alguma coisa pela Internet e acompanho os lançamentos da Ópera Gráfica,Via Lettera e Conrad.
Quais as histórias e os artistas de quadrinhos que você mais curtiu na infância e na adolescência?
Meu super-herói preferido é o Home-Aranha,que tem uma importância histórica muito grande e pouco mensionada.Com ele,Stan Lee e Steve Dikto recriaram o conceito de super-herói,deram-lhe um traço mais humanista.Gênial.Li durante muito tempo os quadrinhos do mocinho Tex,criado pelos italianos Bonelli e Gallepini.E reli umas vinte vezes a coleção completa de Ken Parker,de Berardi e Milazzo.Entre os brasileiros,Shimamoto,Rodolfo Zalla,Seto,Cedraz,Marcatti,Sidney Falcão e Watson são os meus preferidos,sem esquecer Mutarelli(puxa,como cito este cara nesta entrevista).E tem o pessoal que citei acima,da década de 1980:Moore,Miller,Gaiman,etc.
Você sabe por onde andam artistas gêniais como Rodval Mathias,Zenival, Olendino entre outros,que se encontram totalmente desaparecidos do mercado nacional na atualidade?
Não sei de nenhum deles,mas tenho uma boa idéia do quanto eles estão fazendo falta.Espero que estejam bem.
Quem era,na sua opinião,o grande talento dos quadrinhos que você achava que iria estourar e ,de repente,não aconteceu,sumiu?
O talentoso Carlos Alberto,de Natal,Rio Grande do Norte.Tem também Sidney Falcão de Salvador-poucos trabalham os quadrinhos em terceira dimensão como ele.
Em seus artigos e HQs,você costumava massacrar Reagan e o império dos USA.Ainda continua com a mesma opinião?
Certa vez,disseram-me que a idade mais perigosa para o homem era a que vinha a partir dos 35 anos.Depois dessa marca,a possibilidade do sujeito abandonar todos os sonhos e idealismos da juventude seria muito grande.Ou seja,o cara chega,olha para trás e para os lados,vê que não é mais um garoto,e ,se não se deu bem,pode correr atrás do prejuízo a todo custo.Isso,ás vezes,significa romper com sua postura passada,dá um dane-se para tudo e parte-se para o vou-me-dar-bem.Assim,passa a considerar o que pensava antes como "arroubos da juventude",idéias inconsequentes,etc.Cheguei aos 35 este ano e,até o momento,continuo o mesmo de sempre.Acompanha-me mais forte do que nunca a capacidade de me indignar com o que acho errado.
Você escreveu um belo e extenso artigo sobre Júlio Shimamoto no álbum Musashi,comente sobre este trabalho.
Acontece uma coisa curiosa no universo de leitores em quadrinhos.Basta alguém dizer que algo é legal e todo mundo vai atrás.Desde janeiro,publica-se no Brasil a laureada revista-pelo menos por aqui-"Vagabond"(Conrad).Teimei e consegui ler até o quinto número.Achei uma porcaria,tudo muito repetitivo,confuso,de dramaticidade superficial.A série fala de Miyamoto Musashi(1584 a 1645),adaptação da novela "Musashi",de Eiji Yoshikawa(1892-1962),publicada em capítulos entre 1930 e 1939 e lançada em dois livros na década de 1960.Musashi foi o mais famoso samurai japônes.Shimamoto não precisou de mais de 30 páginas para resumir com poesia e lirismo a trajetória do espadachim,numa edição luxuosa de 48 páginas publicada pela Opera Gráfica.Shima faz uma narrativa sofisticada a partir de fragmentos não cronológicos da vida do herói,Shimamoto explora principalmente a filosofia oriental de aprendizado e auto-conhecimento difundido pelo guerreiro em seus escritos.É uma aventura ao mesmo tempo cheia de ação,combates de artes marcias e o traço inconfundível do mestre,marcado por um expressionismo único nos quadrinhos brasileiros.
Qual edição de fanzine o emocionou de verdade?Lembro-me particularmente daquele "Mutação",do Marco Muller,com 132 páginas...
Olha,teria pelo menos uns dez ótimos fanzines para citar daquele período.Para não me alongar muito,listaria alguns editores excelentes que tivemos:Ofeliano de Almeida,Oscar Kern,Marco Muller,Edgard Guimarães,Henrique Magalhães,Marcatti,Jorge Barwinkel,Delemiro Tupi Assu e Worney Almeida de Souza.
Por que é que a Bahia,tão pródiga em gerar artistas,músicos etc,revela tão poucos quadrinhistas?Assim,de relance,recordo-me do Cedraz e do...do...de quem mais mesmo?
Olha,não sei completar sua frase.Talvez porque muitos baianos descobriram que virar cantor nos últimos vinte anos virou um bom negócio.Basta montar uma banda,subir no trio elétrico e ficar puxando o saco de ACM.Aí,meu velho,chovem convites para representar a Bahia em todo lugar,rolam patrocínios para trios e blocos.A conta bancária ficará bem gordinha.Acho que a Bahia tem ,hoje, a maior concentração de puxa-sacos do planeta.Enquanto isso,um terço dos três milhões de moradores de Salvador vivem em estado de miréria avançada.Atrás do trio -elétrico só não vai quem já morreu-e isso inclue os pobres famintos que arrastam as cordas dos trios durantes dez,doze horas em troca de dez reais,um copo de refresco e um sanduíche de presunto e o queijo,para que os turistas e abastados possam pular com segurança.
Poderia falar um pouco sobre a obra-prima "Paralelas",do Watson Portela?
Vou tentar falar um pouco.Espero não me alongar muito.Fiz um longo ensaio sobre a obra de Watson,principalmente "Paralela",no belo álbum que a Opera Gráfica lançou recentemente.Defendo que ,há quase 25 anos de carreira,o artista pernanbucano trouxe a modernidade para as histórias em quadrinhos nacionais,virou referência inimitável e merece reverência como um dos mestres das artes gráficas brasileiras.A série "Paralela"foi criada por ele para a lendária revista de terror "Spektro",da Vecchi,editada por Otacílio Barros .A história,curiosamente,nada tinha de seres do além,tão presente na publicação,especializada em quadrinhos de terror.
Paralela,obra
pioneira de Watson)
Do que se tratava,exatamente?
Era uma aventura de ficção científica e com abordagem regionalista-que seriam duas das marcas na carreira do autor."Paralela" nunca foi concluída e mesmo assim continua a ser cultuada como um marco dos quadrinhos nacionais.Como o próprio Watson contou,a aventura nasceu de seu primeiro contato com os quadrinhos estrangeiros,que seria marcante na concepção de "Paralela".Ele conheceu,então,a americana "Heavy Metal",grande sucesso entre os "experts" em quadrinhos na época.A partir de então,Moebius,o grande inovador dos quadrinhos da década de 1970,passou a aparecer com evidência nos monstros,cenários e ,também na arte-final de Watson.O público aprovou o novo traço que surgia,limpo,cheio de influências de ficção científica que tinham alguma familiaridade com os quadrinhos publicados na "Kripta",pela carioca RGE.Na verdade porém,bebiam dos novos quadrinhos europeus de autor.Watson,já em "O começo",diferenciava-se dos traços dos outros brasileiros que publicavam na revista,tanto os novos quanto os veteranos.
O que havia de relevante neste trabalho?
Muita coisa.Watson esbanjava uma modernidade que fazia o leitor babar pelos detalhes,mas sem o ambiente marcante do claro e escuro padronizado que se usava.Mesmo o público mais simples,acostumado apenas a exigir múmias,lobisomens e vampiros nas histórias de terror,publicadas com sucesso no país desde a década de 1960,ficou impressionado com a originalidade de seus desenhos.Parecia também importar pouco com a complexidade ou mesmo a suposta falta de sentido do roteiro de "Paralela",reclamado por Otacílio Barros.Em poucos mais de cinco anos,ele criaria para si um universo imaginário próprio,onde transitariam seus persongens:Um mundo urbano,caótico,ao mesmo tempo presente e futurista,pessimista,como são todos os autores de ficção científica.
Por que se disse depois que "Paralela"é irregular?
Porque foi produzida com intervalos longos de tempo,num período de intensa produção de Watson,quando ele passou por uma grande evolução num pequeno espaço de tempo.Ao comparar os episódios,no entanto,constatamos a revelação de rápido amadurecimento do traço e da arte-final.Ainda na primeira parte,percebe-se alguns defeitos de anatomia.O acabamento em nanquim compensa o visual levemente "deformado" dos persogens.Nas duas partes seguintes,realizadas num curto espaço de tempo,a evolução de seu trabalho aparecia de modo evidente.Era,enfim,um modelo acabado do nível de quadrinhos que poderia oferecer ao mais exigente dos leitores,caso fosse cobrado.Apesar de lembrar Moebius nos primeiros tempos,Watson logo alcançou um estágio surpreendente nos primeiros anos de 1980.Libertou-se das referências e realçou seu traço personalizado.Todo mundo que pretendia fazer quadrinhos na época sonhava em copiar seu traço.
Qual a melhor fase da HQB na sua opinião?Vecchi,Press-Maciota ou Grafipar?
Tivemos pelo menos cinco bons momentos para os quadrinhistas brasileiros,com as editoras La Selva,Outubro,Edrel,Grafipar,Circo,Press e Opera Gráfica.Cada uma teve um papel muito importante em sua época e todas lançaram grandes talentos que ajudaram a construir uma história significativa dos quadrinhos nacionais.Eu precisaria de 500 mil palavras para descrever aqui a importância de cada uma.E não sei se conseguirira.
Você mantêm contato com quadrinhistas ou especialistas que moram em outros países?
Nem de outros países nem daqui.Levo uma vida muito solitária como pesquisador de quadrinhos.É uma pena,pois ninguém dá muita bola para isso,a não ser nosso querido Luiz Cagnin,o cara que mais entende de quadrinhos no Brasil e o que mais respeito.Um grande sujeito,correto, ético.Destaco essas qualidades nele porque é muito complicado conviver com colecionadores,editores,pesquisadores e promotores de quadrinhos.Parece papo de futebol,religião ou política,ninguém chega a um consenso e tem muito neguinho arrogante que já cansou minha paciência faz tempo.Por outro lado,tem meia dúzia de cara super legais que vale por todos eles elevados ao cubo.
Que acha dos "Combo Rangers",do Fábio Yabu,que começou na Internet e consegui se dar bem comercialmente?
Puxa ,Ademir,perdoe-me pela ignorância,mas conheço o trabalho de Fábio apenas de comentários.É que consulto Internet na maior parte das vezes daqui do trabalho e meu computador é pré-histórico,tenho sérios problemas para navegar na rede.Em casa,passo mais tempo pesquisando material para algumas matérias que faço regularmente.Fico devendo essa pra você.
Mande um recado para os fãs de HQs e iniciantes na área dos quadrinhos.
Primeiro,nunca achar que é o melhor e que já aprendeu o suficiente sobre texto ou desenho.Talento ,na minha opinião,é apenas o primeiro passo para realizarmos nossos sonhos.Seja humilde o suficiente para fazer uma auto -crítica e considerar as opiniões de terceiros.Segundo,leia muito,informe-se bastante.Devore jornais,revistas e livros de história do Brasil,de comportamento,literatura nacional e estrangeira etc.Não seja um desenhista de intelecto limitado.Os livros são a melhor fonte de referência para bons roteiros.Basta criar o hábito que a leitura se tornará um vício bem saudável.Passe sempre nas livrarias,estude como trabalham os grandes mestre,leia suas entrevistas,observa sua metodologia.Acima de tudo,informação é fundamental.O resto,é não se deixar levar por discursos derrotistas,papo de frustrados que querem cortar sua onda.Não existe essa história de falta de mercado.As pessoas só precisam de oportunidades na vida.E é preciso estar pronto para quando elas chegarem.Não é,Mutarelli?
DEZ REFLEXÕES
O livro que o emocionou.
Eu diria que o livro que mais me impressionou foi "A guerra das Salamandras",do escritor theco Karel tchapek.Ele estava na lista dos maiores inimigos de Hitler que deveriam ser assassinados pela polícia secreta nazista,a SS.Quando chagaram a seu esconderijo,ele já havia morrido há dois anos.Então,mataram seu irmão,Joseph,um grande desenhista também.Em seu livro Tchapek faz uma previsão sombria sobre a expansão do nazismo a partir de uma engenhosa parábola.Sua narrativa é espetacular,super moderna.
Um grande filme.
Gosto de muitos diretores,mas destacaria dois filmes marcantes:"Laranja Mecânica",de Stanley Kubric;e "Meu Tio"de Jacques Tati..
Uma grande HQ.
Gosto muito de "Watchmen",de Alan Moore;e "Cavaleiro das Trevas",de Frank Miller.Tudo bem,não há novidade nessa citação,mas o que fazer se são as duas obras que revolucionaram os quadrinhos nos súltimos 30 anos?
Quem é melhor,Jorge Amado ou Paulo Coelho?
Jorge Amado fez uma bobagem no final da vida:Virou garoto propaganda de Antônio Carlos Magalhães,no fim da vida.Mas isso não tira seu mérito de um dos grandes escritores brasileiros do fim do século XX,ao lado dos meus queridos José Lins do Rego e Graciliano Ramos.Quem discordar disso certamente nunca leu um livro seu.Quanto a Paulo Coelho,o que ele faz mesmo?Ah,sim foi parceiro de Raul Seixas e isso basta,não?Falando sério,li dois livros dele:O Alquimista"e "Diário de um Mago".Achei-os divertidos, fluentes,mas muito superficiais,infinitamente inferiores a muitos outros autores.Mas ele não é o único engodo do mercado.Aumente a lista segue com Jô Soares,Fernada Young,Patrícia Mello e outros.Agora,não dá para levar a sério essa indignação de que é um absurdo Paulo Coelho se tornal imortal.A Academia Brasileira de Letras é um balcão de negócios,onde todos os interesses e amizades são sobrepostos ao talento.Sua história de negociatas mostra isso claramente.Um clube de velhinhos aposentados que vivem do ouro de tolo.Como diria Raul Seixas,"eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada,cheia de dentes,esperando a morte chegar"-essa ele fez sozinho,não foi em parceria com Dom Paulo Coelho.
Watson Portela ou Moebius?
Prefiro Watson dos primeiros tempos,até a primeira metade da década de 1980,quando ele ainda não tinha trocado a riqueza do pincel pela pobreza da caneta hidográfica.E daí que ele copiava Moebius,se fez coisas maravilhosas ao misturar ficção científica com o regionalismo nordestino do cangaço?Watson foi o verdadeiro tropicalista dos quadrinhos,o pai do mangue beat!
Caetano Veloso ou Mano Brown (líder do grupo de rap racionaus MC`s)?
Gosto de Caetano dos primeiros anos e de Gilberto Gil de todos os tempos.Caetano não faz nada de interessante há duas décadas e deixou que seu ego o engolisse.É arrogante,prepotente,intransigente,autoritário e um cúmplice irresponsável pelo desgoverno que a praga do carlismo impôs à Bahia.Acompanho muito mais a atitude de Mano Brown do que seus discos e a respeito muito.Só o tempo comprovará que havia autenticidade em sua opção.Se isso ocorrer,ele terá meu respeito eterno-se isso valer alguma coisa.Aplaudo suas letras,acho que passam bem o recado de insatisfação de quem vive sufocado nos morros.
São Paulo ou Bahia?
São Paulo e Bahia.São Paulo não é uma cidade fácil,a concorrência torna as pessoas muito cruéis,terríveis às vezes.A poluição tem ferrado meus pulmões e garganta ,mas vou levando porque gosto daqui,tem mais opções culturais.Não sei o que poderia fazer na Bahia hoje.O mercado de trabalho está mais terrível lá,onde jornalistas são obrigados a trabalhar em dois lugares ao mesmo tempo e fazer dez bicos ao mesmo tempo.Além disso,a situação política e cultural lá é terrível,não suporto a subserviência mercantil-não gostaria de usar o termo prostituição-dos artistas com o poder, é absurdo.Os caras ajudam a manter um estado de delírio onde a miséria extrema é mantida com trio elétrico.Se você se refere ao futebol,Bahia até morrer.
Qual é a música da sua vida?
Essa é muito fácil:"Doce de Côco",choro de Jacob do Bandolim.A trilha sonora da minha vida.
Punk Rock ou Axé Music?
Nunca me vesti de punk,nunca fui punk,nunca andei com punk,mas me identifiquei muito com este movimento,principalmente pelo lado político social,durante a década de 1980.A revista alternativa "Livre Cativeiro"que lancei naquela época representou o momento máximo dessa adesão.Li tudo que saiu em livro sobre o tema no Brasil e incontáveis matérias em revistas.Acho que sempre fui punk em boa parte das minhas atitudes.Acredito que,embora tenha passado dos 30,acredito que consegui preservar em mim a capacidade de me indignar com tudo de ruim que o homem consegue fazer,tanto coletivamente quanto em suas posturas egoístas e individualistas.Axé Music foi um movimento interessante de renovação da música brasileira que conseguiu desbancar a ditadura das marchinhas saudosistas de carnaval imposta pela Rádio Nacional e que gosto muito.Só que a onda baiana logo se descaracterizou e virou um excelente negócio para donos de blocos e como máquina de propaganda a favor de Antônio Carlos Magalhães.Virou uma prostituição só:Os artistas baianos vivem de puxar o saco de ACM em cima do trio,sem levar em conta seu papel social como formador de opinião.Enquanto isso,um terço dos três milhões de moradores de Salvador vive em estado de miséria avançada,segundo o próprio prefeito Antônio Imbassahy.
Qual país do mundo gostaria de conhecer?
Vários.Já fui a alguns(México,Inglaterra,Portugal e Cabo Verde/África),mas tenho curiosidade pela Itália,França e Espanha,além dos Estados Unidos.Conhecer outras culturas nos ajuda a tomar um rumo em nossas vidas.É possível desejar,por exemplo,que tenhamos um nível de civilidade como têm os ingleses.Se lá deu,por que não aqui?
FIM