Breve História do violão

           Não existe documentação precisa sobre o desenvolvimento inicial do instrumento. Informações fragmentadas de um passado remoto indicam claramente a existência de instrumentos de corda, tangidos ou tocados com arco; contudo, a época em que surgiu o violão como o conhecemos não está registrada. Existem indicações de que uma espécie de violão já existia desde o séc. XII. Um parente próximo e simplificado da VIHUELA, instrumento que floresceu na mesma época que o ALAÚDE, principalmente entre as classes de poder aquisitivo mais baixo - de fato, o Alaúde era instrumento de fabricação mais custosa que a Vihuela.
               A Espanha foi o centro de desenvolvimento do violão. Dos poucos grandes homens que na verdade delinearam a história do violão clássico, a maioria era da Espanha. Até hoje, sente-se a influência do compositor e professor José Ferdinand Sor (1778-1839), mais conhecido como Fernando Sor.
               Sor viajou muito pela Europa. Em Paris conheceu René-François Lacote e em Londres, Louis Panomo, dois luthiers muito conhecidos. Ambos ficaram impressionados com a superioridade de tom dos violões espanhóis e passaram a utilizar métodos espanhóis de projeto e construção em suas próprias oficinas.
               No entanto, Panomo e Lacote foram exceções ao adotar métodos espanhóis nas oficinas. De modo geral, os violões fabricados nos diversos países europeus possuíam sua próprias características regionais. Ingleses, franceses, italianos e outros fabricavam instrumentos muito bem trabalhados e decorados, mas, quanto ao timbre, projeção e sustenação, os espanhóis eram muito superiores.
              Apesar disso, os instrumentos tocados por Sor e seus contemporâneos mais famosos, como Dionisio Aguado (1784-1849) e Matteo Carcassi (1792-1849), eram muito inferiores aos de hoje em dia. O salto no desenvolvimento da construção de violões clássicos se processou pelas mãos de um carpinteiro de San Sebastian de Almeria, Antonio Torres Jurado (1817-1892). Mais conhecido como Torres, foi, sem dúvida, a figura mais importante na história da construção do violão. Músicos que tocavam seus violões imediatamente punham de lado os de outros fabricantes. Luthiers de toda a Europa passaram a adotar suas técnicas de fabricação de violões. Na verdade, até hoje constroem-se violões quase exatamente à maneira de Torres.
              Torres aprendeu os princípios da construção de violões em Granada, nas oficinas de José Pernas. Julian Arcas, seu amigo e violonista, pediu-lhe que tentasse melhorar o timbre do violão. Foi o que fez Torres. Em meados do séc. XIX ele fazia violões que portavam seu próprio nome.
              Ele aumentou a área do tampo e o tamanho da caixa acústica, fazendo violões mais "fundos" (antes, a distância entre o fundo e o tampo era de 5 centímetros, ou menos); arredondou os bojos e alterou as proporções relativas; reduziu a espessura das madeiras usadas no tampo, as faixas e o fundo, e utilizou madeiras mais leves e mais flexíveis; desenvolveu um sistema de sustentação em leque, que permite ao tampo vibrar muito mais eficientemente. Foi ainda ele que estabeleceu a medida de 65 centímetros para a escala, e que melhorou os vernizes usados em violões.
              Era inevitável que a redefinição da arte de construção de violões teria como conseqüência grandes avanços musicais. E foi outro espanhol que se utilizou dessas vantagens: Francisco Tarrega (1852-1909), considerado o pai das técnicas modernas para o violão clássico.
              Tarrega desenvolveu a postura, as posições das mãos e o uso do cavalete para o pé esquerdo, que todo estudante de violão clássico aprende. Tarrega também transcreveu para o violão os trabalhos de grandes compositores, como Bach, Beethoven e Mozart. Mesmo não tendo sido o primeiro a adaptar ao violão música escrita para outros instrumentos, foi ele que efetivamente desafiou a opinião geral de que o violão era um instrumento inferior, incapaz de fazer jus a esse tipo de música.
              É impossível deixar de mencionar o nome de Andres Segovia (1893-????). Mais que qualquer outro músico, foi ele o responsável pela aceitação do violão como instrumento de concerto, válido para a execução de música clássica.
              Muito embora os violões mais renomados sejam europeus, o Brasil conta já com boa reputação internacional na fabricação desses instrumentos.
              Violão Flamenco Flamenco é a música dos ciganos da Andaluzia, região da Espanha limitada ao norte por Córdoba, ao sul por Cadiz, a leste por Almeria e a este por Huelva.
              As origens do flamenco são obscuras, acreditando-se que tenha influência norte-africana (moura). Surgiu no final do séc. XVIII e era tocado sempre numa combinação de dança, canto e acompanhamento de violão. Mais tarde, a forma original se desenvolveu em canto flamenco (baseado em diferentes formas cantadas) e violão flamenco de solo. Ramon Montoya (1880-1949) é considerado o criador do violão flamenco.
              O flamenco tradicionalmente passa de geração a geração, sem o auxílio de notação musical. É considerado uma forma de música solta, indisciplinada - o que não é correto. Trata-se de uma combinação de improviso com estruturas rítmicas rígidas, que são muitas. Flamenco não é música do homem simples. Por exemplo, os soleares, uma das quatro estruturas mais importantes, tem um ritmo baseado em doze tempos, com acentos no terceiro, sexto, oitavo e décimo tempos tocados em andamento 3/4 (quem entende um pouco de notação musical clássica, sabe o que estou falando). Muitas das outras formas cantadas tem padrões rítmicos bem mais complexos, e um violonista freqüentemente se especializa em apenas um deles.
              A construção do violão flamenco é baseada no desenho o violão clássico espanhol, com modificações para satisfazer o estilo flamenco. Devido a posição em que tocam, os violonistas devem dispor de um instrumento leve, mais fácil de segurar. Mais uma vez, foi Torres quem desenvolveu o desenho básico, utilizado até hoje. O violão flamenco é em geral um pouco menor que o clássico. O fundo e as faixas são feitos de cipreste espanhol muito delgado, para produzir som mais brilhante, mais penetrante, e para dar mais volume ao instrumento. No entanto, isso resulta em perda de timbre e de suavidade. Por isso muitos solistas de flamenco usam violões clássicos.

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