palco

 

 

 

 

 

 

 
 

 

O show

                                         Autor desconhecido

Que sei de seus sentimentos,
se vivo às escuras, sem uma palavra sequer
que me diga: te gosto
ou não te gosto!
Invento que você me ama
Invento estranhos diálogos
Invento que você me fala
em esotéricas linguagens
Imagino você aqui
bem perto
do meu coração
e me faço bonita sempre
para seus olhos que não me vêem.
Às vezes , no silêncio da noite,
entre taças de champanha,
no salão cheio de flores,
iluminado,
ao som de músicas de Gershwin, Porter
ou Lennon
faço o meu show...
Ora sou Chaplin,
chapéu preto, novaiorquino,
(um certo e triste sorriso?)
Smile?
Ora sou Liza, insinuante,
num rendado "body",
sedosas meias,
nas longas pernas,
sapatos em prata a brilhar...
Tento cantar:
Imagine
You'll never know
The man I love...
E danço
num imaginário tablado,
pra lá e pra cá
(com uma varinha nas mãos)
como se na Broadway estivesse...
Em outros dias, como uma Diva me visto
e invento que no Scala ou Caracalla estou
(ou será que o meu palco é o bosque da minha rua?)
Trino a Valsa da Musetta,
a Butterfly ou
uma Ave-Maria qualquer...
Simplesmente cantarolo no teclado,
de Albinoni, o Adágio,
(que sai como um Réquiem)
Mas nas noites de calor ardente,
Amado meu,
desço as escadas do jardim,
enlouquecida, envolta em véus,
inebriada pelos perfumes dos caraguatás...
Flutuo na piscina, em carícias,
em águas turquesas,
nua, como Luz del Fuego,
seios a brilharem na superfície morna,
como duas estrelas radiantes...
E miro, miro Vésper distante,
tão distante!
O meu público, querido amado,
É só você e os pássaros da noite
(a coruja azul ou a coruja branca,
que já não é,
mas que me fascina e arrepia,
com seus piados, na janela do meu quarto...)
E, no final de meu show,
imagino seus olhos, muito abertos,
(De espanto? Alegria? Emoção?)
Sei lá...
Você me atira uma rosa,
A rosa azul, colhida nos campos dos sonhos...
Depois, amado meu, caio exausta nos seus braços
e nos perdemos de paixão.
Mas, de repente,
só me vejo,
(no salão ou palco iluminado?)
E adormeço atirada no sofá...
O show acabou, as cortinas cerraram,
mas, ouço ao longe, as gargalhadas de alguém,
gargalhadas ferinas, roucas, impiedosas
(Invejosas?)
Vaiando o meu desajeitado, ridículo
e cômico show...