pros filhos que vão nascer, pra mãe que eu já escolhi. Dre.

  dedicatória: não me desculpo àqueles que gostam de pontuação.

 

I, II, III, IV, V [continua]

 

Primeiro Capítulo, r

 

... corre o laço de Emilia ...menino na brincadeira menina namoradeira O laço é azul certamente está torto mas é bonito. Ah! Como é bonito, não o laço, seu sorriso... não que o laço seja feio, ao contrario, é até lindo. Inda mais no cabelo de Emilia o cabelo dela ri se é que um cabelo pode achar graça em algo... é um exercício e tanto esse de imaginar um cabelo achando graça. Emilia não vê graça nos garotos da sua idade... precoce? Ao contrario. É faceira.  Sejamos honestos, é namoradeira. Mas isso já foi dito e não custa repetir; é namoradeira, sim senhor... Grita menina grita que é pro pátio inteiro escutar a bola é sua Pedro não vai jogar. Que horror gostar de gente mais nova inda mais tendo um laço de fita rindo nos cabelos inda mais se os cabelos são de moça namoradeira inda mais se sem motivo algum não se gosta de meninos mais novos, certo?! certo nada apenas comum... onde estávamos?  Nos meninos, e que peste os meninos dessa idade se Emilia marca bobeira acabou-se o laço de fita restou apenas a fita sem sorriso e inda por cima azul e principalmente com gente mais nova no vento. Pedro é fora de moda e o mais honesto seria dizer que Pedro usa uniforme - o que é o mesmo que fora de moda. Pra ser bem sincero Pedro é sujo o normal dos meninos mais novos sem banho e sem pasta de dente. Mas a verdade é que Pedro não é bonito crime previsto no código penal da garotada do sexo feminino crime de morte pra Emilia artigo 3.127/97... que importa! é feio e pronto, ponto final Que horror ser feio e gostar de Emilia assim o cabelo de Pedro não sorri e por fim nem Pedro... O laço de Emilia foi-se com o vento sinceramente ajudado pelos dedos de algum Pedro... menino sujo menino feio tem até uniforme é garoto é menino é criança qualquer coisa. Alá! rapazes grandes tratam bem garotas Ola! rapazes grandes vejam meu sorriso porque o laço perdi era azul era de fita. Sem ver pode-se pensar em Emilia atirada mas não atirado só o cílio que se fecha lento num passo que Pedro acompanha mas não chega ao colegial nada além do primário e que primário. Soube de umas fulaninhas planejando roubar seu cílio coisa da meninada que troca criativa o cabelo de Sansão com o cílio de Emilia. Fato é que o cílio de Emilia trouxe o laço de volta Pedro parado com o laço na mão azul pisado um charme desgrenhado o cabelo parecia gritar contra ela, a fita, o guri entendeu o cabelo, excitou culpado, contrariar o cabelo não é bom nada bom, contrariar Emilia... muito pior. Durou ano enquanto Emilia puxava o laço Pedro sentiu enjôo, o laço na fita na mão de Emilia na mão de Pedro... ui! ele desmaia segura o menino perdeu a cor o cabelo dele não cheira mal existe um porem ele é até mais alto que eu como pode? ser até educadinho chega acabou a fita mas antes atirar o cílio - clack! e Pedro oscila... oscilação é coisa de bamba, mesa bamba pêndulo vai não vai joão bobo. Nem bamba nem bobo melhor contar que inclina e volta, tudo rápido, nem um ano, no tempo dele... tem uma teoria que anda por aí dizendo que o tempo é relativo no amor. Até pode. Se o inverso do quadrado em proporção com a meia esfera der em uma casinha desenhada com flor solzinho tudo colorido e família no meio aí tem. A segunda idéia é dar choque no menino e ver quanto tempo até a resposta... eu falei isso alto? priiiiiiii! sinal final acabou o intervalo, recreio é de criança olha a lousa a tia o relógio que anda um tantinho pra frente outro pouqinho pra trás. Lição: a grafia de football é futebol. Emilia acha chato, pensa na mãe, pensa no bolo, no laço – foi mamãe que fez – pensa no vento, trazendo Pedro, a grafia de balançar seria ballançar como lançar a bola como queimada como ballançando pra fugir da ball... Pedro, lê pra gente. Mas tem que ser eu tia? A tia nem respira. O tempo agora é relativo à quantidade dos olhos, são tantos numa sala tão pequena, olhando, e já se escuta as risadas de fundo. Alguém grita um palavrão as carteiras se mexem zum zum zum a professora faz shshshsh entre os dentes nem vento passa na sala fugiu pela fechadura morrendo de medo.

 

A Bola, por Pedro Carpeaux.

 

“A bola é redonda, mas papai gosta sempre de dizer que não existe nada redondo. Eu vejo a bola e acho papai meio maluco. Ele é meu pai e por isso tem que ser verdade, entre meu pai e a bola eu amo meu pai e então deve ter alguma coisa errada com meu olho. Em casa ninguém gosta de football e nem de futebol, meu vô é santos mas também é católico além de tudo não mora em casa porque tem uma só dele. Eu brinco na escola de futebol e também de football, tem uma aula só pra aprender os dois, tudo junto. O moço que ensina isso disse que eu sou uma merda mas também disse pra não falar que ele disse isso. A tia sabe que eu não sou obediente. Uma colega disse que eu sou burro porque football é um jogo americano que se joga com a mão. Burra é ela que não sabe que foot é como o nosso pé só que de americano. Professora, você que sabe um monte de coisas podia contar se football é com o pé ou se o americano anda de ponta cabeça, isso porque papai gosta sempre de dizer que o americano troca os pés pelas mãos e mamãe concorda. Esse negócio de time eu entendo muito bem, é como lá em casa, tem horas que eu torço pra um e tem horas que eu torço pro outro. Pode ser pro meu pai, pra minha mãe e sempre pra minha irmã porque ela também sempre torce por mim. O que eu não entendo mesmo é porque as torcidas não são amigas se eu amo todo mundo lá em casa e cada hora torço pra um. Menina não gosta de futebol, tirando a Priscila que é meio menino como a gente, eu também não gosto e não sou meio menina. Menina gosta de segredo, porque não bagunça cabelo, não suja a roupa, não deixa cheirando mal. Mamãe diz que isso é besteira, que somos todos iguais. Eu vejo as meninas e acho mamãe meio doida. Ela é minha mãe e por isso tem que ser verdade, entre minha mãe e outras meninas eu amo minha mãe e então deve ter alguma coisa errada com meu olho. Minha mãe tem um laço de fita lindo no cabelo igual ao da Emilia.”

 

...que lindo que lindo esse garoto me encantou porque chama Carpeaux, “eaux” com som de “o” com trema. Mas o que a tia achou desse texto? a tia não tem nome, Beatriz porque Beatriz é nome de tia da escola, fica sendo. Beatriz é toda espanto parada com o lábio nos dentes mostrando que é noiva cutucando o anel, da uma tremidinha e vai passeando até Pedro... um beijo... na bochecha... alguém ri... Pedro lembra da mãe, quase chora... Emilia bem no fundo sente raiva da professora. Um aluno sorrateiro abre a porta e escapa acabou a aula um tanto mais cedo pouca coisa o relógio saltou e aqueles cinco minutos poderiam andar pra trás uma pilha de redações sobre a mesa da sala sete vazia em um corredor lotado. O sinal bate, Pedro ainda guarda o cheiro do laço, Emilia se finge de brava e derrete ao ver o sorriso do pai no portão. Leva inda o cabelo sorrindo mas disfarçando um que amarelado e na barriga uma coisa tipo fome que não passa se comer. Uma quinta-feira normal e eu quase chorando já com saudade, não deveria ser permitido ao narrador abandonar a história assim no meio, e no mais, esse também é vazio até saber o que deu cada uma das suas crias... essa história devia ter começado póstuma.

 

 

 

Segundo Capítulo, r

 

...se da pra dormir apaixonado? criança dorme até ao contrário, apóia o ouvidinho na perna e boa noite. Sonho eu não conto que eu não sou abusado, e quem é chato alem da conta pra invadir sono de criança! eu não! porque será que mãe sempre acha que pode entrar em quarto de filho pode nada! e ninguém explica porque entra em de menino sem entrar no de menina Emilia acorda como gente grande com despertador de galinha branco e vermelho com patinha amarela... nem tão grande assim. Pedro ganha beijo da mãe faz preguiça puxa o lençol cobre a cabeça e acorda com a luz no nariz pisa em alguma coisa no chão xinga e tá de pé. Estrelinha na alvorada pé com pé até o chuveiro nada no lugar precisa botar o braço bem pra cima e abrir uma bocona grande o brilho vem surgindo com a água que leva o sono pelo ralo leite quente nem pensar, dá um soninho. Menino não toma café você é muito novo vida de criança é inferno tv com censura hora de dormir come isso aquilo não... e tem escola credo em cruz. Vida de adulto é coisa mansa trabalho nove horas escola sete salário mesada manda obedece alcança em cima da geladeira nossa como incomoda papel em cima da geladeira que a gente não sabe o que é. Filho, camisa tá ao contrário. Mãe, faz laço. Deixa eu ver isso aqui tá sujo o canto da boca. Lambe o dedo e limpa o canto... quando Emilia era mais nova, chamava Alice, era outra história, corria atrás de pomba era domingo Alice também tinha laço, é uma obsessão queria usar mas sou menino, o nariz sujo escorrendo a mãe limpa na barra do vestido coisa de mãe é muito amor acho bonita essa cena queria ser mãe... sem maldade. O herói arrumou a camisa a mãe limpou a sujeira tomou café escondido queria imitar o pai não no jornal que é muita letra ganhou uma fruta de lanche escondeu na mochila pra jogar fora em seguida. A mãe fazia o laço, ganhou um beijo do pai, se derreteu, era apaixonada pelo pai dava até dor de barriga e vontade de chorar... aqui Freud não apita nada o homem era carinhoso mesmo com C maiúsculo e o resto das letras também e que laço bonito hoje amarelo daquele que da gosto de ver, gema de ovo, de destacar mesmo no cabelo claro tão bonito que era que eu nem sei se existe. Uma revoada de pássaros passou na janela fez barulho Beatriz assustou viu um casal parar na janela um cantou o outro passou o bico no peito do um chegava a parecer cabeça no colo o outro também cantou e o um fez igual Beatriz olhou pro lado da cama vazia e deu pena até nos passarinhos o noivo saiu cedinho serviço as cinco e meia abrir a loja e os passarinhos se foram. Beatriz dormiu bem mal com filho na cabeça, queria na barriga, o salário não deixava. Contraceptivo capitalista regra da força bruta parêntese político peço perdão mas vai se repetir. Antes do noivo existia o anel ela gostou da provocação na vitrine da loja entrou e comprou assim dava pra fingir um. Bia tinha uma separação e trinta e quatro anos história triste problema entre as famílias não entraram num acordo e a família levou o marido embora casamento de três semanas foram-se os dedos ficou o anel. Agora Bia tinha noivo de verdade e dedos pra colocar o anel. Pedro chegou a propor casamento e deu trabalhão pra escapar com jeito queria um Pedro adulto mas não podia falar isso e arriscar um trauma no menino mas queria um Pedro moleque também não dos outros mas filho seu... não vou falar do salário de novo.

 

Bia Pedro Emilia, passarinho com café, e o sol nascia a manhã trazia luz e nenhum sorriso, tirando o beijo do pai Mia não via graça em nada tinha uma fome que não passava com comida... ninguém chama Emilia de Mia, é que eu criei intimidade achei mais carinhoso, e Beatriz em Bia é coisa minha também, sem carinho só com pena, como os passarinhos. Manhã não tem nenhuma alegria, nenhum livro me convence disso. Essa vinha azul do azul pisado da fita manchado de branco denso coisa de nuvem com um amarelo bonito, gema de ovo que nem sei se existe, coisa do sol, saindo pelas bordas um roxo verde triiiste escorrendo feito aquarela, um casal de ipês morando bem longe trocavam sementes. Cada minuto da manhã é como uma lavada tudo vai se transformando numa única cor bem sem graça uma cor que não tem nome próprio sem identidade que a gente tomou por habito chamar de claro. A gente confunde o que é bonito com o que é contente. Manhã vem num corpo colorido mas com a alma num colorido sem cor baço num preto avermelhado não se vê nada nessa alma repleta de homogêneo sem fundo e frente sem forma na ausência de um sinal todos os sentidos da vida ganham o ar de coisa nenhuma. E como pedir um sorriso pela manhã? Bia chora calçando as meias... e é de dar dó.

 

São seis e meia todo mundo sai correndo Mia vai de carro com o pai Pedro espera uma van Beatriz se esfrega no ônibus numa linha sempre lotada que dá uma volta sem pressa a linha é um zoológico o chão é um ninho de cobra cheio de pés vagando uns sobre os outros de repente alguém sobe com uma bicicleta e o ônibus descamba a reclamar baixinho enquanto se aperta “isso é um absurdo!” “pois não é!” “vergonha!” o motor também adere o coro e engasga numa gota d’água envergonhado o rapaz da bicicleta desce e como se fosse sua culpa o motor arranca novamente. Bia percebe o pneu furado da bicicleta e sente pena do rapaz andando a pé, a cidade é intransigente as vezes, quem sabe sempre, o que se há de fazer. No quarteirão da escola o ônibus atropela uma senhora parece morte rápida sem dor Beatriz salta e vai a pé “o que se há de fazer”. Mia escuta sobre o overnigth sem entender coisa alguma nova alta do dólar o pai faz que não gosta da notícia ela consente com a cabeça ele acha graça, faltando um quarteirão pra escola o trânsito para repentino atrasado muda o rumo e Mia segue o resto a pé não gosta do que vê muita gente e um corpo lembra da avó e foge correndo. Pedro escuta alguém fazer um comentário maldoso sobre Emilia sente até dor fica vermelho amuado num canto o trânsito não anda a van espera ele chega atrasado. Enfim a escola todo mundo seguro, o mundo é mau também é feio... e oprime e machuca e magoa faz a gente gostar de qualquer lugar fechado o quarto de Pedro a sala de Bia ou o mundo de Mia tudo tem graça fora do mundo. E por que? Sim! Football é um jogo muito comum entre os americanos que se joga com a mão e as vezes com o pé e não! o americano não anda de ponta cabeça é só um nome, tem mais você não foi educado com sua colega Priscila blábláblá o relógio parece que parou Emilia está adorando enquanto se fala sobre Pedro ela pode olha-lo procurar defeito desfazer o encanto ou sabe-se lá o que é isso a mão é uma graça na fôrma de fazer carinho como de bolo daqueles com cobertura de massinha pra fazer boneco bixinho e coração de desenhar igual régua vazada de estrelinha bolinha cachorro e coração Mia nem se dá conta que a professora parou de falar com Pedro que a sala olha pra frente e é a única virada de lado com o olhar vazio apontando o crime. Mantém o sorriso por muito tempo pensando que régua vazada é uma invenção genial lembrando das cores no seu estojo apontando os lápis mentalmente relaxando a vida a imagem da senhora estatelada no chão sumindo num papel branco de pintar cena nova alegre e no canto do papel um desenho pronto ganhando cor forte contornando um menino e ela já acha esse menino muito parecido com Pedro “Emilia!” “han?!” o estojo vai longe pra lá da carteira vizinha todo mundo ri Beatriz esconde faz cara brava é! você! fala professora. Alguém começa a passar um papel pela sala dizendo alguma coisa sobre namorados. Sobre a redação Emilia você não fez. Desculpa professora... como pode gente pequena ser tão cuca fresca machucar agora e sarar agora mesmo a velha morre e a criançada corre no pátio roda de menina aqui boneca lá dois campinhos com time na espera e num canto um par se engalfinha por causa de bola o mais velho leva vantagem uma meia dúzia em volta quer sangue.

 

Sei lá se é pra pensar alguma coisa eu prefiro não pensar nessas coisas de maldade a criança lá sorrindo e eu filosofando sobre ser ou não ser daquelas com palavra num código complicado tipo ontologia da Mia ora essas! na forma simples é não pode com três pontos de exclamação não pode sorrir nem pode brincar já falei que vida de criança é pra lá de chata sossega se cala aí não não! não! não! Fulano quer ser pai de enfeite pra dizer que tem... deu raiva da Bia precisa motivo pra ter filho explicar criança como palavra assim como significado coisa de sentido do mundo não demora aparece uma amiga pregando o fim do mundo e a criança perde o motivo. Sei lá se Bia quer ter filho ou quer uma explicação pensando bem toda a vida é chata tudo tem que ter motivo e a gente inventa e vira mentiroso.

 

Professora Beatriz! Fala Cacilda. Se tudo cai na terra porque a lua fica lá em cima? Mas a lua cai Cacilda, só que cai de um jeito diferente, meio de lado... shiiii! essa mulher não sabe de nada basta olhar que noite sim noite sim tá lá ela presa no alto Beatriz desenha alguma coisa na lousa fala sobre gravidade e ninguém se importa uma voz no fundo da sala pergunta isso cai na prova? cai nada. A mesma voz cutuca Pedro pra contar sua teoria, motivo tem pra o ponteiro cair aponta o relógio explica o porque do relógio lento da seis ao meio dia os dois caem no riso. Pedro é garoto bom mas levou suspensão uma vez quase morre duas vezes uma na briga outra com o pai na hora do castigo a mãe chama o pai e o garoto era grande grandalhão que era dava pra ver até pêlo de barba querendo nascer era um pequeno homem e se me cabe dar nome neste... vai ser Átila tipo Pitbull da Silva vai nada pra deixar ridículo coisa como Plínio inho pêlo de barba e quatro olhos muque bem na lata do olho esquerdo e palmada do pai na bunda... eis nosso Pedro, um covarde. O joelho ficou ralado porque o soco virou o menino que nem com as duas palmas deu pra evitar a queda eu fico com dó do Pedro assim todo machucado trim trim trim quem fala? Fala a senhora mãe do Pedro. A senhora pode passar aqui pra um papo? “Tô no serviço não dá pra resolver sem mim?” isso é voz de pensamento que o ouvido escuta mas a boca não fala – Vou sim! Claro! Pedro vai esperar duas horas que é pra terminar a aula da mãe professora, pai e mãe, professores numa universidade cheia de gente que não é nem grande nem pequena é jovem. Na volta da escola tem o blábláblá da mãe mas pede Pedro pra papai do céu que é pra ser menor castigo do papai da terra ou não deu ouvido ou achou por bem merecido fingiu de surdo e Pedro levou uma sova das pantufas do pai, onde já se viu guri brigar na escola e foi por aí que Pedro escutou. O pai do Plínio escutou coisa como chutar o totó e assim barato não fica não que é pra aprender que bichinho é coisa de Deus e é coisa fofa de Deus! Calma lá a história não é bem essa que o inho contou ele não conta nada quem conta sou eu totó é o cachorrão do inho e deu na louca da fuça do um pegar na roda da bicicleta do outro - que diga-se de passagem é Pedro - a fuça fez da roda chiclete e Pedro ficou olhando de longe ameaçando sai cachorrão! sai senão... senão nada que Pedro tem fobia de cachorro e medo até do totó guardar a cara dele como testemunha pra encurtar a fuça do Pedro resolveu reclamar com a orelha do Plínio a tal roda da bicicleta e acabou ficando sem roda e estatelado no chão os dois são vizinhos e isso deixou o pai do Pedro em  maus lençóis.

 

...a professora achou que era um bom motivo pra mandar os dois pra diretoria o casal de passarinhos o ônibus a velhinha tudo era também um bom motivo pro humor curto da Beatriz o mundo é mau a cidade intransigente o que se há de fazer? Nada se há de fazer é bom que essa garotada aprenda antes de ser engolida pelo mundo injustiça educativa errado mas pro bem deles os dois pra sala da diretora mas professora sem mas anda. Dessa vez deu pra escapar um puxão de orelha da diretora Angelina e os dois podem voltar pra sala sete. Quer saber?! Ninguém dá suspensão na sexta-feira se eu soubesse disso na sétima série deixava toda bagunça pra sexta e bau bau mas quem disse que eu agüentava na segunda já entrava com tudo na punição chegava terça e a coisa ficava séria na quarta ia pra casa mais cedo e as vezes só podia voltar depois de uma semana passei uns quatro anos pulando de escola em escola até que uma resolveu pro bem das outras me aprovar logo e aí formatura bebedeira vestibular universidade e a vida vai em frente... ninguém quer saber da minha história não é mesmo? mas também não tem nada disso contei assim pra parecer divertido a única coisa que eu juro é que eu passei a sétima de primeira e sem nem advertência quase um ano inteiro sem historia pra contar e se fosse só um tava bom. Mia nessa história toda ficou esquecida Emilia nunca tomou suspensão boa garota avoada tem que chamar atenção as vezes dizer bem alto o nome pra voltar pra terra mas sem dar trabalho sem brigar com colega trabalho só quando crescer com os meninos vai saber como cresce rápido?! Depois da bronca não deixa ninguém responder pergunta da professora acerta até pensamento pra ganhar ponto de boa aluna de novo. O pai nunca bateu na Mia tudo vira conversa confia mais na filha que na consciência não tem porque mentir vem até pedir conselho quando quer fazer coisa errada e sabe que quando não pode não pode e pronto sempre tem motivo pra não poder e contra motivo Emilia não vai. O homem sabe o que é overningth e Emilia não sabe nem o que é dólar. O pai de Beatriz bebia e batia na mãe. Um bilhete sai assinado “Mia” autentico e original dobrado escrito “Pedro segunda fileira fundo” o papel cai em cima do livro aberto de história na página que inicia o capítulo A Escravidão Negra susto concentrado com olho pregado na ilustração “A Redenção de Can” lê a assinatura e esquece Modesto Brocos, o cara do quadro. “A professora está chata hoje né? ass: Emilia.” Pedro olha pra Mia com sorriso grande vê estrelinha no olho da amiga e acena com um piscada sobra só confusão a moça negra sentada não tem criança no colo mas tem laço rosa forte o homem calça um tênis igual seu o resto desapareceu estilo cuca fresca que criança é.

 

Eu queria falar uma coisa que ficou pra trás falar sobre menina. Na ocasião do conflito Pedro versus inho Plínio houve um racha nas mocinhas da sala sete um tanto caiu encantada pelo inho como era forte aparecia bem chegava a parecer mais velho que era e até mais bonito na outra turma as meninas acharam o máximo Pedro não saber brigar precisar de alguém pra cuidar como boneca e brincadeira de mãe porque é frágil e tem coisa mais charmosa que gente frágil?!... o resto neutro porque sempre tem a turminha do nem aí. Bom Deus eu não entendo cabecinha de menina que gosta do frágil e gosta do forte o frágil não é seguro e o forte machuca mesmo sem querer não entendo de verdade como gosta alguém de alguém nem de alguma coisa não dá pra gostar de nada e a gente continua gostando sem sentido nem motivo e como se entende sem razão? Não sei e gosto sem saber querendo não gostar sabendo... Mia também não soube e gostou dos quinze centímetros a mais de inho tanto como dos quinze a menos do Pedro somou sem saber o que e deu no meio com uma caída leve no mais fraco nunca mais viu Pedro do mesmo jeito era feio mas tinha um olhar precisando de cuidado levou até doce pra dar no dia seguinte mas esqueceu e deu pra amiga Pedro também não foi era o castigo da escola. Tem sentido mais bobo que a vergonha mas eu não lembro depois da bofetada vem uma dor bem mais cheia nem dá vontade de levantar do chão sorriso pastel e qualquer desculpa como nem tava esperando o olho de cada um machuca muito mais que tapa de pai ou murro de inho vontade de chorar nem de susto nem de briga de derrota o que não é ofensa é piedade tudo humilhação de forma igual absoluta e universal por um momento nada é relativo ao momento e todo o evento volta sempre sendo ofensa porque não existe espaço que contenha o pronome “meu” na vergonha todo significado torna-se impessoal “eu” fora do todo é nulo e talvez por isso não exista um exílio onde os derrotados construam conjuntos não vazios. Identidade e individuo nos pronomes “nós” e “eu” arruinados no mistério da vergonha na pratica da ofensa... mas porque ofendido, ainda é substancia, ainda é, como substantivo ou adjetivo daquilo que sofre ofensa diferente de vazio substancia sem forma ou na forma de incontido remodelado num limite... refigurado no mesmo ou sabe-se lá o que esperar. Eu começo a re-visitar conceitos enquanto caminho sob um céu de estrelas guiado agora na constelação de Mia, Pedro e Bia... e faço isso batendo boca com um tal Lukacs ou com os três como queira. Fato é que a própria perda de sentido perde sentido e eu me desculpo com Beatriz busca de sentido nos vários sentidos que a vida oferece longe da vontade na arquitetura das forças físicas nada metafísicas toda lógica está sujeita as revoluções permanentes hoje ontem e amanhã toda história se escreve na medida da escrita... e até o fim quem sabe eu já estou acreditando no contrario... essa história deveria ter começado póstuma.

 

 

Terceiro Capítulo, r

 

Começo a acreditar que o texto perdeu a mão em alguma coisa e que essa coisa é a linha narrativa. Como pode o narrador dizer uma coisa dessas? Da forma mais simples, dizendo. Melhor retornar no terceiro capítulo que deixar a história à deriva até a falência. Será? As notas marginais não servem àquele que escreve, talvez um tanto, mas tornam público o impasse, as superações e os enganos deste, de Mia, Bia, Pedro e seja mais quem for. Mas o que isso importa voltemos aos tais... Moça bonita paga barato! Moça feia paga dobrado! Pipoca com queijo pipoca doce colorida... a garotada rasga a risada quem é moça bonita enche o peito, entre elas Emilia, quem se acha feia não gosta Bia censura o vendedor com um olhar azedo vale dizer que ela se acha um tanto acima do peso uma bobagem ta tudo no lugar mesmo com a vida e cuidando da sala sete ainda tem cara e cheirinho de adolescente Pedro vê no sorriso de Emilia alguma coisa de feia pensa metida! Não gosta de gente rindo dos outros resolve juntar numa fonte e lê... “Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram. Romanos 12.” Mas quem disse essa bobagem? Menino isso é da bíblia aí que é bobagem mesmo olha a boca calo nada não acredito em Deus eu também não professora tudo bem tudo bem cada um acredita no que quer mas ninguém tem direito de zombar da fé dos outros professora se eu me alegrar pecando a senhora tem que se alegrar também? Eu já disse pra parar então a bíblia tá errada? chega! Pedro seu nome está anotado aqui - mas professora - sem mas... na continuação lê-se “Submeta-se cada pessoa as autoridades constituídas; porque não há autoridade que não venha de Deus (...) Mas, se fazes o mal, tens motivo pra temer, pois não é em vão que ela empunha a espada, sendo ministro de Deus, encarregada de castigar quem pratica o mal (...) É também por esse motivo que pagai os impostos (...) a quem se deve o imposto, o imposto, a quem se deve as taxas, as taxas; a quem se deve o respeito, o respeito; a quem se deve a honra, a honra. Romanos 13.”... Vou falar mais uma vez, aqui dentro não é pra correr, não pode mexer em nada. Isso é um museu e não uma quadra de esporte... os grupos se formam é coisa rápida seis meninas pra cá quatro guris pra lá um punhado segue a professora Pedro anda sozinho olhando tudo com calma o grupo de Mia se aproxima uma colega pergunta por que a moça tá rindo? Porque é primavera. E isso é motivo? Quando se passa frio o calor é sempre bem vindo - a mocinha apóia no ombro de Pedro ele enverga – como você sabe das coisas Emilia morde a bochecha se sente roubada aquela frase era dela batalha perdida mas não a guerra – e o outro? Pedro perde a cor uma mulher nua deitada na rede alguns índios carregando tudo muito lindo mas tem uma moça pelada bonita mas pelada. Co-como? na-nada! Os dois continuam olhando fingindo nada de mais alguém diz eca o homem ta quase sem roupa mas o cachorro é uma gracinha todo mundo concorda e segue em frente. Onze horas Pedro trouxe refrigerante e um salgado jogou fora a fruta abre um caderno e começa a revisar o que escreveu enquanto mastiga “igreja... paisagem, bicho... homem... gente triste... quadrado, bola, muito chato, quadrado e bola é muito chato... papel borrado, parece lixo...” um passarinho com o peito vermelho para do lado parece amigo faz pinta de seguro da dois pulinho pra banda de Pedro pia ganha migalha some no arbusto volta com par Pedro acha um abuso mas joga mais um tanto o outro enche o papo o um pia parecendo obrigado Pedro pensa no filhote sem pena bem feinho mas bonito faz tchau com a mão assim que os dois voam. A vitória-régia encanta Emilia pinta o laginho colorindo verde e rosa folha e flor aberta pensa na primavera da moça e entende o sorriso não como Pedro calor pra quem tem frio mas cor onde antes monocromático isso de monocromático é meu porque Mia sabe o que pensa mas não sabe contar quando crescer vai aprender a palavra e é assim que vai explicar o sorriso na primavera da moça. Sabe que toda essa história de cor calor sorriso me lembrou da morte?! Todo mundo tem alguém que morreu pai parente agregado a galinha no quadro é uma coisa sempre tão morta uma sala paisagem morta aperta Pedro aperta um qualquer pouco espaço quadro por cima do outro outro por cima do quadro traço cor tudo tão morto como quarto de defunto e a coisa sufoca toda até cachorro no canto da estrada a estrada vazia e o cachorro lá com mosca no olho final de tarde dá cheiro na sala e a gente gosta se incomoda e gosta  como o cachorro foi parar ali? lembrança de criança é cara de vô morto no caixão nunca foi tão sério ruim com algodão no nariz e som de velório que mesmo quieto faz respiração pesada - ... .... ... - na sala não...  silêncio -           - se passa filme quando morre não sei memória é coisa sem explicação quem fica sente saudade que lembrança é coisa tão dura que quase dá pra pegar se venta no pensamento a gente sente mexer no cabelo saudade aguda é tudo num peso invisível e por muito tempo ainda escuta alguém chorando na casa. Com galinha num é não peru cachorro pavão fruta fora do pé a gente volta pra sala e o cheiro do enterro ainda tá no nariz ninguém chora quadro só lembrança e o cachorro morto ali sem história sem importância e julgado de mau gosto, eu gosto penso nele vivo ainda doente andando na estrada querendo parar só um descanso... e nunca mais. A galinha não, ela quer viver, Beatriz pensa assim nem entra na sala eu penso que a galinha não pensa mas deve sentir muito medo, má sensação e o que se tira da natureza não volta pra casa sem saber se deixou alguém esperando a gente bate o olho na codorna e esquece do bando pra mim codorna para no galho e passa o bico no peito da outra chorando um pio apaixonado com um céu bem laranja no fundo e cavalo velho toma coice dos outros a natureza não é fácil quem ficou pra trás favorece o grupo fora do grupo mas vale um na mão que dois voando chumbo na codorna e aquela cena do galho bau bau é isso que penso do número impar. Pega um par e tira um, isso é um pra matemática, falando assim eu penso em zero, coisa de elipse, um o que? um par tira um par resta zero a gente aprendeu a falar as coisas como elas são a matemática como elas parecem eu queria montar um museu só de gente chorando outra vez eu explico. Mia revelada na cor tem que olhar tudo outra vez mas com outros olhos agora vai sozinha enquanto a turma junta no parque pra escrever trabalho “meu dia no museu. vi coisas lindas etc etc etc “ e olha tanto que começa a pensar e pensa tanto que some e some tanto que enxerga o que pensa e tanto pensa enxerga e some que acha e acha que é tanta cor que ela não viu que viu tão pouco e é tão pouco que ela se vê pastel sumida na cor da tela clara e entristece caindo pro chumbo incomodando o quadro à ponto de avermelhar vergonha e envergonhada some de vez pra lugar nenhum incolor e chora até borrar... evidencio aqui minha já tão evidente incompetência abandonando uma seqüência de “tanto” e “atés” sem charme algum o que se deu da tão colorida Emilia só ela sabe e me arrisco a dizer que nada de acordo com a posição antes defendida dos envergonhados. Emilia ressurge em suas cores de Mia junto ao pátio e encontra a professora aflita na procura - onde esteve? sempre aqui que assim seja vamos no ônibus só falta tu a tarde ameaça cair e a valorosa sala sete anda exausta nada houve no museu alem de corre corre e brincadeira o céu pode se chamar de verde e Mia vê tudo aquilo com cores de vestido calçada em um tênis folgado e rabo de cavalo. Numa quinta-feira qualquer pousa em cima da mesa papeis de trabalho Correia Silva Pinto nosso Carpeaux e agora Mia Gaitzger - lido como se escreve. “A primavera dos TTempos, por Emilia Gaitzger” mas não seguirei o habito de reler notas cartas ou textos prefiro acompanhar sua escrita. Não recordo meu tempo de escola quanto menos a confecção das tarefas se me sentava e lá ficava mordendo o lápis não o posso saber no entanto nossa Mia tudo tinha na cabeça pronto faltava apenas a exposição em papel organizada devidamente abandono a ela as palavras que se seguem nada escondo e sem delongas à sua angustia “nada devo esconder de minhas conclusões... me perco! me perco! e como deveria estar se me encontrei? Eis minha primavera de mulher, florescendo em laços tão diversos. Sinto a primavera no vento, mas não em seu calor, a temperatura é uma escala técnica, a cor entende-se apenas amando. Pim! Pim! Pim! ouço o lapidar do técnico... o arpejo jamais se pode transformar em acorde - quanto menos em música! Tão grande é a fadiga incapaz de imprimir vida. O trabalho é uma entrega e a vida se esvai aos poucos... que digo eu? me perco tamanha amargura em ser crisálida... mas voarei em tempo certo. Não há vida que desbote, ela se espalha em manchas. “racione a tua tinta”, gritam alguns... para o inferno com a razão! Perdoai o artífice, ele não sabe o que faz. O homem é capaz de pintar sem reconhecer sua pintura... é a técnica! é sua culpa! Uuuuuuh! Fora à escala térmica! Sinto que alcei vôo, mas já?... A arte é a traficância das cores, que frauda o conceito, a idéia - eu odeio a idéia acima de minhas forças!! O amor é nada mais que o amor, fraudar a palavra e dar a ação. Pode a palavra erguida levantar bravatas, o dedo em riste, enquanto em suas costas os amantes não cessam... de amar! Pim! Pim! Pim! são os que nada eram, esculpindo palavras - lê-se; “ EU SOU O PAI ! ”. Ainda nada são... Redimi os filhos, eles não conhecem o pai! A arte é seu feitio, e eles não o sabem. A palavra lhes rouba o lavor e se outorga a si como pai. Repete-se o que se lê... é a técnica! Vou mais alto e a razão me grita “recorda-te de Ícaro!”, as favas a escala térmica. Porem devo deter-me, já não sei mais por onde vôo se o que faço é reler “eu já não creio em ti”” ...devo preservar Mia antes que alguém a considere uma idiota. Eu estava presente e sei de suas intenções, acho até que começou muito bem com leve queda até o final pois deixem que sonhe uma criança confusa não merece a cruz. Que posso eu dizer? não foi possível deixa-la só com seus pensamentos apenas desejei ajuda-la trocando algumas palavras certo o relato inteiro quem sabe mas fiz em plena convicção de não abandonar em nada o original sinto-me no dever de pai talvez padrasto ou seja lá que raios sono tranqüilo consciência limpa não me culpo e garanto que me orgulho! Toda critica me cabe mas apenas os covardes a farão. Seja como for Mia acordou naquela quinta-feira e antes do banho fez gosto de ganhar cinco minutos de janela, no fundo, longe da vista, os ipês ainda se amavam... me permitam o tempo de arvore passa manso. Andava radiante pelo quarto no entanto muito insatisfeita com a composição que reservara na noite anterior desmontou o guarda roupa sobre a cama e ajustou uma roupa ao espírito digo até que transformada em um quadro expressionista dessa forma entrou no banho tão feliz quanto nua pra lavar a cor de sono num borrado de quarta e terminou por limpar a cor de Mia nesse intervalo desejei colocar algo como aqui jaz jovem Mia enfim madura mas achei precipitado. Saiu molhada do banheiro deitou na cama tomou vento no lugar não deixou nem mesmo enfeite uma linda bagunça que a mãe achou horrorosa desceu pro café e eu deixei passar muita coisa me atento agora Pedro ficou muito tempo ainda na epistola aos romanos a fonte agradava e a primeira passagem era um dilema pensava no pai na mãe na irmã Emilia e Beatriz no quanto gostava de um e de todos a alegria desses tornava-se rapidamente a sua e amargava no inverso a segunda vista a frase já não era tão louca bem dentro das suas crenças que conhecia muito bem um menino muito esclarecido quase maduro sinceramente alegre ou triste era importância menor seria alegremente triste se assim ajudasse alguém que gosta mas por que então se incomodava tanto com o sorriso zombeteiro escapando entre os dentes da colorida Emilia seus cílios esnobavam o mundo chegava a ofender a mira e ela era tão abusada neles que deixava a vista de Pedro toda escura de amor adorava sua irmã mas faria censura se ela se risse de um qualquer o carinho por Beatriz que fugia rápido frente a injustiça o que seria o amor pela mãe sempre de laço se a felicidade dela não importava mais que o resto o que seria o amor se ele não ignorasse os erros pobre Pedro enlouquecia molhou a testa na água da fonte e já ardia em febre. Fato curioso, toda historia tem um, não abandono a verdade pra engaiolar o leitor, eis a vida como é, monótona. Tudo aqui é muito comum como se acorda se passa o dia como se dorme nada alem do que um dia pode provocar no outro e já é tanto! O tal fato. Calçados denunciam a idade olhando se pode adivinhar a idade de quem se mete neles esse era um par adulto não restava duvida sem apresentações um largo sorriso sentou ao lado tem fogo? como? fogo, tem fogo? não! por que não? oras moço por que teria? não sei, não fumas? como? cigarros, sabe? ah, de forma alguma. não entendi esse “de forma alguma”. simplesmente não fumo. e por que não? o senhor percebeu que sou uma criança? evidente que sim! então, crianças não fumam. ainda não compreendo. diga-me, o senhor já viu alguém da minha idade com fumo? certo que não! então?! jovem, isso não me prova nada, sei de tanta coisa que não se vê e no entanto existe. o senhor é um adulto e peço perdão mas a mim me parece uma besta. que rude, que humor, achei o isqueiro... acreditas no bom Pai? no meu! sabe que te pergunto de Deus. não senhor. entendo, jamais o viu. apenas não acredito. ihhhhh, lá vem você com “apenas” “simplesmente”. o senhor por acaso é padre? por certo que sim, simplesmente um padre. e me pergunta se tenho fumo? apenas pergunto. nada sei de religião mas sei que vício não pode. concordo! e fuma? quem disse? o senhor me confunde, pra que o isqueiro? entregue os mistérios ao Nosso Senhor, só nele mora a verdade. esse Senhor talvez seja seu, nosso não é, e você pode ser padre mas também é um doido e alem disso me incomoda... na verdade isso não tem importância, contei porque é curioso e pra mim pareceu um padre safado. A relevância dessa passagem é pessoal, pra mim chega a ser vazia, desejo profundamente apaga-la mas ainda não me decidi em absoluto. Se for necessário voltaremos a febre de Pedro sua confusão basta evidente nos acontecimentos digno de nota é o traço da confusão que ao encontrar confusão segunda escreve uma terceira que nada resolve apenas porque deve ser resolvida primeira segunda e terceira... ah! me confundo. Em febre é melhor nada ver Pedro não fecha os olhos e Emilia denuncia desordem o retorno tumultua em Pedro... não se deve olhar! a imaginação conclui algo novo e não cessa de questionar o que pobre Pedro acha recomendável subir o grau trinta e oito não é suficiente o corpo pesa o sono vem sem cutucar seu sonho é evidente que fantasia a expressão de Emilia Beatriz notou em acordar o garoto sua febre fez recomendações à mãe “pensa que não sei cuidar meu filho” frase silenciosa manhã a coisa toda é trinta e sete criança que quando da pra ter saúde é de causar inveja mas levanta indisposto melhor ficar na coberta e até quinta. Disse que pulei muito e contei nada é um engano contei do pensamento menino e é tanto basta saber que eles pensaram é fato virou destaque acredito merecido. De volta a nossa quinta-feira. A tarde de quarta bastou o menino já ta bem. No pátio anda um vestido morte certa é a inveja que até guri muito macho deseja pra mamãe Emilia foi feliz no escândalo cada cor que é pra dizer adivinhou o clima um quase homem da oitava cutuca a namoradinha e aponta ganha um tapa no ombro não dói de amor quem não vê é cego e sente. Nosso Pedro parece errado sem assunto olhando grama crescer sarado ta mas fraco como uma palhinha saúde não é vem das idéias distração tamanha e Mia cisca pavoa em torno do pátio todinho nada vaidosa só alegre tudo ainda é um mistério e ainda bem que essa história não é póstuma.

 

 

Quarto Capítulo, r

 

Pensei mesmo em fazer do capítulo anterior um sem fim mas me resolvi pelo quarto e aqui estamos.

 

Pra cada gole um murro na mulher e nos filhos seis na casa muita boca de passarinho tem que contar com ajuda dos vizinhos pra comer dinheiro pra bebida é tv e quando acaba é sofá um homem é motorista se era já não é mais nem motorista nem homem culpa da velhinha que tinha que morrer bem na linha dele a lei deu razão a ciência provou que a senhora entrou fora da faixa sem atenção quando o motorista viu a mulher era uma mancha no vidro depois do bum a senhora era senhora e agora é adubo pra empresa a importância da lei é menor a gerência manda avisar depois do bum demissão justa causa ou injusta tanto faz. A escola ensina muita coisa mas não ensina cama de gato. A relatividade engana quando acredita que cada um é um referencial, a verdade absoluta do relativo é que todo referencial é referência dos outros. O universo fez sua parte transformou o ex-motorista em ex-humano como lâmpada queimada em lixo as cores de Mia encantam o pátio a ilha das flores transborda em problemas pessoais uma e outra alegria dão sinais na hora do gol na nova boneca nova na velha última fofoca alguém lê num jornal as últimas notícias sobre o mundo lá fora tranqüilo do lado de dentro.

 

O detalhe fica por conta da meia furada se passar a mão no pêlo vai notar a distância entre cachorro de casa e criança da rua dinheiro pra comprar cola tia vagabundo marginal mais tarde a gente se cruza Beatriz tacava fogo mas pra fazer isso gente não falta tem a polícia e mais muitas dúzias desordem no equilíbrio da vida particular de Bia e afins ninguém gosta de encontrar o mundo lá de fora aqui dentro o cheiro gostoso do preconceito a história é mais confortável quando não tem negro Pedro é branco e não sou eu que estou dizendo a coisa toda é muito obvia e se deduz sozinha curioso como as filosofias universais são absolutamente brancas cristã ocidental judaica não africana ateu europeu técnico americano do norte o “mundo“ se esqueceu do mundo o trote era antes marte ataca a notícia hoje é árabes selvagens emergem do deserto sujos feios e fanáticos não demora muito vai ser negros africanos saqueiam o ocidente barbárie! e tudo não passa de pedra contra pólvora resultado conhecido antes do jogo aqui não branco entra na história como figurante no segundo plano fora de foco lembrei que o nicho filosófico do mundo de lá é um jardim encantado Beatriz é nossa professora branca tentando nos ensinar como se manter no mundo civilizado minha Beatriz fez seu serviço iluminando de idéias a trajetória da humanidade branca o obscuro caminho dos africanos sem pensamento o que dá no mesmo que o triste destino do músculo sem cérebro a ingenuidade do índio me garantiu que o lugar dele é na selva e a genética bélica do oriental seis mil anos em guerra é melhor deixa-los isolados enfim o mundo de cá é branco e pouco importa a cor da pele para o espírito desse ponto parte a missão civilizatória mais fundamental United Colors of Benetton muito além das fronteiras da linguagem o mesmo que unir todas as cores no branco o gênio civilizado não foi capaz de perceber que somos todos iguais contradiz com respeite as diferenças o jardim encantado não branco versus civilização branca não soluciona nada nem ao menos varre o preconceito pra debaixo do tapete a notícia que esqueci de dar negro morre prensado numa máquina que não reconhece cor abandonando os enfeites fodido por classe fodido por cor aqui o dinheiro separa e não é capaz de juntar enfim o gênio civilizado não foi capaz de perceber que somos todos iguais contradiz com as diferenças entre patrão e empregado isso tudo não cabe como aspecto cultural. Uma história de brancos no mundo ocidental branco resume tudo até aqui e esse parágrafo não concerta nada.

 

...nossa Mia é uma graça despenteada observando o mundo indo e vindo numa brincadeira de ir e vir metade das meninas da sala já colocaram o laço no cabelo sem charme o segredo é conforto e o laço de Emilia só sabe ser ali no loiro das suas idéias o laço é bem mais criança brincando no vento presente seguro na dona mesmo no loiro da colega despenca não aceita o nó desmonta faz manha e ninguém entende uma do grupo pensa que ela guarda um segredo como palavra mágica pra dar vida no laço uma menina mais velha puxa pra dançar com a voz tão certa que não tem erro mudava de cor se ela pedisse Pedro repara e fica preso na espiral do laço não restou nada dos padres nem dos amores não restou nada de nada tudo movimento sobe e desce e grita beleza a bailarina encantou o laço e quem parou pra olhar naquela noite as meninas sonharam com aquilo tudo quando acabou passou o laço na nuca e amarrou o cabelo e foi sem duvida o laço mais alegre do mundo Emilia tremia cativada não aceitou o laço de volta deixou de presente bem lá dentro percebia que já não era mais seu a bailarina veio do colegial e pra lá voltou com um amigo novo nossa amiga bailarina é da macumba envolvida nos santos de sabe-se lá coisa da mãe raspou cabeça no cantomba cabelo cresceu forte guiado num espírito da terra porta de cemitério só depois dos treze e pra comprar cheiro e pipoca um amor mas conta que se a perna abrir é o diabo bate cabeça fuma sem deixar cheiro e bebe sem ressaca moça arrumada alta roda só bacana na semana mas sábado depois do balé vira povo num terreno do mato não vi mas escutei dizer que quebrava coco com dente quem viu com laço viu fulana sem ver pra que serve olhar então por baixo desse encanto todo nasceu pereba na manhã bem lá onde o sol não bate no mato vale tudo e depois vai saber quem foi mudar não muda que o chamado é forte e com tanta sujeira menos se sabe onde vai a galinha vai a pipoca e cada coisa que não cabe aqui eu pelo menos não conto pra fechar negocio uma vez o pai de Mia pagou o serviço nada nada tinha que comprar metro de vela flor pano e um bode pra agradar o lado de lá pagou com cartão de credito numa lojinha que um amigo indicou não viu o trabalho mas soube do bode no celular antes de assinar o papel dizem por aí cada um se defende como pode o motorista que era e não é mais não podia e fez a ultima viagem num tombo da garupa de moto pra debaixo da terra matei o homem pra ele não virar um fantasma na história.

 

No sábado repetiu o hábito pas-de-bourée à tarde bate cabeça às sete quando a festa acaba mais cedo tem vestido longo salto à noite ainda o motorista da amiga dá uma carona pra qualquer um ela jantou com a família de novo tem o laço de Mia mas agora em cabelo preto daquele liso que desce fazendo curva o busto carregando sarda feito pra chamar atenção com aquela cara ninguém duvida é moça séria um drink leve pra não acabar como pai numa garrafa de scot se eles são a nata o mundo é leite e na quinta Pedro só pensou nela meio apaixonado boiando nas idéias passou na cabeça relance coisa que não deve... quem sabe deve. Cadê Emilia lá dentro de Pedro ninguém acha mais nem padre nem Bia nem Emilia só a macumbeira bailando com o laço.

 

Sei eu não por onde recomeçar tento técnica de mudar a prosa era bailante e muito misticismo na história voltando ao fato segunda de manhã Mia pede absurdo quer ir pro colégio de ônibus e quem disse que a mãe deixa mas nunca o pai até gosta dá risada deixa Silvia a menina já não cabe mas na cama de criança ta na hora de largar a saia e alem do mais eu vou com ela hoje pra aprender o caminho e esse padre não sai da minha cabeça vou colocar ele no volante da moto que matou a lâmpada queimada falei que era safado morreu também mas vê se pode Alberto você dá asa pra cabeça dela o mundo anda pra lá de doido pegam ela e deus me livre Ema olhinho aberto acompanha perspectiva algum centímetro mais pra perto do pai é! deixa vai até papai concorda e eu grandinha não dou mole ninguém carrega sua filhinha querida tudo que eu falo não importa acabo deixando porque nada muda se eu fosse muda ninguém notava mas Alberto come teu pão antes de esfriar que coisa essa casa o suspiro dela é por conta do leitor menina toma esse cartão com telefone e endereço perdida escolhe um lugar seguro e pede pra alguém me achar fica registrado protesto contra essa loucura aqui e na cabeça sonsa do autor faz isso porque a filha não é dele Alberto será o benedito você não comeu seu pão quase tudo querida quase tudo vamos logo amor antes que a mãe mude de idéia e lá se foram os dois e cá ficou a uma comendo as unhas daqui pra lá tem dois ônibus um é esse o outro você vai ver daqui a pouco Ema anota no vazio do ônibus nome número da linha movimento só sentido bairro com as moças e moços chegando pro trabalho na casa da patroa portaria do condomínio padaria loja cortar a grama e afins o cobrador tira alguma coisa do saco de papel e aproveita a calma pra comer se voltar a história ele tem esposa que deu banho nos meninos fez café e lanche passou os uniformes penteou os filhos beijou o marido e correu pra vida que não é mole mas anda bem cada guri cuida um do outro no caminho até a escola até mais ver família e no presente nhac nhac nhac em alguma coisa que Mia não consegue decifrar o pai cutuca é hora de descer anota aí ponto primeiro fora da ponte ali na frente parado é o Carlos Gomes anota isso filha anota isso papai toca pra você um dia os dois atravessam a praça da feira sem pressa e ainda sobra pra comprar um doce que é alegria fácil de criança aqui ta vendo é fácil a igreja e ponto não tem erro Ema anota aí coisa importante não fale com o padre nenhum padre nem esse nem outro enquanto os dois se apertam no espaço pouco do ponto na espera da linha ônibus é o que não falta seqüencial numa fila infinita passa um sem parar com gente pendurada na porta assim não Mia espera outro passa carro gente bicicleta ônibus e um cachorro correndo atrás latindo prum guri de bolsa e uniforme grudado na traseira seu Alberto taca a mão na testa e assusta era só o que faltava as coisas precisam mudar precisam mudar meu voto não serviu pra uma pataca olha aí é esse faz assim com o braço que ele para epa olha tem criança aqui gente pai cadê o doce esquece o doce filha sobe antes que te subam a brincadeira perde a graça amanhã volta a ser carona quanta bunda na minha cara isso é voz de pensamento e conclusão pior é muita cara na minha bunda uns três rapazes pulam a catraca Alberto faz uma cara envergonhada na hora de pagar diminuído pela malandragem dos garotos fica uma sensação de tonto menos esperto um perfume estranho irrita o nariz da Ema o pai aponta um buraco e diz aqui tinha um botão sem mim você pede pra alguém puxar aquela corda certo certo mas anotar não dá nossa Mia percebe um menino da mesma idade olhando pra ela sem disfarçar com cara de bobo e cabelo enrolado não faz o tipo dela naquela roupinha velha muito moreninho perfil de feio que ela aprendeu não se sabe de onde da vida de tudo um tanto e agora é gosto o pai cutuca e da uma piscada ela fecha o rosto e mostra a língua ele da risada e faz um carinho não falta muito melhor chegar até a porta licença desculpa por favor ops epa ei uma senhora sentada diz que linda menina qual seu nome Emilia olha que nome bonito o motor abre aí que eu vou descer a fila até a porta anda mais um tanto seu Alberto puxa a corda a primeira aula já foi inteira pro beleléo.

 

A fome traz a morte a morte traz apenas a morte mas hoje não hoje ensina a morte afirma o que antes era teoria e o sapo aberto pul sa pul sa e para de pulsar e o que era vida agora é pensamento a professora roda o laboratório enquanto o laboratório roda a professora embriagada de éter um espasmo assusta a última bancada está provado que o coração é fundamental à vida e as crianças como sempre criando algumas com nojo outras com pena outra parte entende a mecânica cartesiana do corpo muito antes de conhecer fulano a ciência é sagrada e uma pestinha imagina o coração da professora chata parando de bater Beatriz cai feito fruta madura não na idéia arteira mas no piso frio o primeiro a gritar é um puxa saco depois a turma inteira menos a peste rindo num canto um grito no corredor transforma o colégio em qualquer coisa enquanto os monitores tentam acalmar o corredor um professor e o diretor retiram as crianças do laboratório aos poucos Bia vai retomando um ultimo garoto na sala berra uma professora que assistia Beatriz socorre Ema chora horrorizada e pensa no sapo aberto na bancada acordando quando tudo termina dois pássaros empalhados desapareceram no corre corre ninguém da falta ocorrerá semana que vem uma reunião de pais e professores convocada de urgência pelo sumiço mórbido notado apenas na terça pela turma de ecologia do segundo colegial o bafafá da turma marca o rosto inconformado da bailarina que por dentro é gargalhada Bia sentada com a mão na cabeça ressaca de éter olha imóvel sua frente e pensa que complicações tudo aquilo pode trazer o diretor sentado continua discorrendo sobre a necessidade de cuidado especial no manuseio do éter entrando num blábláblá sobre a desaprovação do sacrifício de bichos inocentes desaprovação ecológica sim mas não menos pedagógica a professora que socorreu Bia se interpõem afirmando necessidades empíricas no plano ecológico e no plano pedagógico iniciando um debate sobre ética e positivismo fora da sala a secretária comunica os pais da sala sete o infortúnio e o fim precipitado do dia letivo sobre as bancadas os sapos aguardam a lixeira.

 

Diante de um ocorrido tão incomum a sala inteira aguardando no portão os pais ou quem é de dever carona motorista bicicleta sei lá o falatório é inevitável os grupos se dividem e se misturam na mesma velocidade cada um quer falar com todos e todos com cada um o motorista da peste é o primeiro a aparecer e leva junto seis pra almoçar em casa do celular o motorista avisa que a garotada quer lasanha e é pra ontem a sala vai ficando rasa no portão de um com outro restam três Ema Carpeaux e Priscila a primeira chora o segundo reflete emocionado e a terceira racionaliza tudo é muito simples a professora sofreu intoxicação com éter houve desmaio os sapos esses já estavam mortos e ponto nada é tão simples o susto de Beatriz superou a morte dos sapos e para complicar mais um punhado de sapos mortos se somaram a professora estatelada Pedro agora é a agonia de Mia um medo por Bia bailarinas e sapos sem importância cuida de Ema em pensamento e tudo isso aparece como carinho do olho tanta confusão poucas horas nossa menina tem que chorar sensível e tão frágil recebe de Pedro sensação como fome que não passa se comer fora o que é lindo na ilha dos amores os sapos começam a feder.

 

Pensar em Emilia Pedro vai enquanto tira um canário de dentro da mochila é a vida ou melhor a morte lembra do cachorro morto no canto da estrada a mosca no olho o do canário secou com o tempo o olho fala muito da vida o par do galho quando perdeu um virou nada e tava lá no triste do olho de cada um que não restava nada esse não canta mais teve história namorou quem sabe era pai quem sabe era mãe agora é ciência num laboratório qualquer dói pensar assim onde vai o pensamento quando morre nem vai contou seu Carlos o que vai é saudade é história é o feito quando tem outro pra ir o que é vivo morre mas o que é vida fica não o pensamento esse a terra come igualzinho come osso carne tudo o que alias é muito chato porque se a terra come tudo come também saudade e resta só aqui saudade minha quem vai foi sem memória é chato sim porque é desequilibrado um pensar no um sem recíproca é mais que chato pena o segundo amassou todo olha aqui caiu até asa...

 

Quinto Capítulo, r

 

...tempo tanto faz mas depois de um mês já não sei mais por onde anda canário periquito urubu teve férias no meio as minhas dos sapos nem memória e a turma sete meio apagadinha cabeça a minha li uma pa de coisa triste toda historia tem um drama maior uma coisa que a gente gruda torce chora e se o livro é bom chora outra vez aqui falta tudo na hora h eu torci pelo sapo e ainda ando cheio de fé no casal de ipê a cruzada moral um onde vai dar fica por conta... tantas vezes é melhor um recomeço e eu deixo pra lá...

 

...não sabiá uma andorinha velha pena marrom do tipo brava cantou cantou e virou pai levou um vento de semente e aqui ficou cresceu antes de fazer sombra andorinha morreu antes de morrer fez irmão e do jeito que da pra ser uma irmã tudo andando tão devagar que o primeiro conheceu a segunda já passada família da memória tristeza caçula deu praga foi pro céu era um broto não conheceu vizinho só a grama única companheira recebeu o amigo no tombo de tão morto já seco ali onde caiu o broto a lagrima foi tanta que apodreceu cada folha verde do mato se a vontade bastar da pra sentir aquele cheiro de jardim molhado na ponta do nariz foi tempo de conversa que nasceu flor no cabelo dela namoro de ipê tem um cheiro forte e a passarinhada arrisca a paciência da arvore somando na junta dos troncos e com todo tamanho delicada mexe a folhagem pra quem tem pressa é brisa mas não pra apaixonado é charme segue assim longe da vista imensa parecendo minúscula lá por perto numa poça suja a cantoria desconhece ciência método mas conhece a morte na hora de morrer desabrigada uma formiga claudica um ferimento de batalha sob uma folha feliz quase morta mas ainda viva aguarda a sorte enquanto o primeiro cinza ensaio de chuva ganha corpo pensando nas recordações repleta no orgulho das tantas guerras da vida atento o ipê é um universo de historias pra contar sob o céu a terra e uma gota desaforada estala o transparente da janela manchando de cinza o sonho inviolável do garoto do infinito o cinza virou negro e fez até o sono deixar de ser desconhecendo sentido o menino abre a janela colocando pra dentro a natureza trazida no vento a noite tem um cheiro doído na saudade do laço do colorido de Mia da vida toda que passou que vai passar a chuva traz um fresco na certeza de que nada fica por um momento Pedro já sente saudade da morte a vida é toda muito comprida e mesmo novo já está cansado uma canção triste carrega um canto de sorriso do lábio como pó alguma coisa sempre fugidia no escritório do pai seja o que for é algo triste tudo é testemunha no primeiro fim.

 

...mas há luz e onde já não há um grito quem não pode se defender imóvel assustado aguarda não sabe o que num canto escuro da noite um estalo na mata observa o perigo distante o coração denuncia o silencio presa fácil da condição de mulher a violência escondida no grosso da chuva o todo dela inicia o longo caminho do fim apenas a terra úmida encarna meio halo escuro sob a unha um último esforço foge lento na inconsciência nos primeiros passos de balé almoço de domingo um medo de escuro arrepia a nuca na janela uma sombra de arvore encarna o assassino nenhum medo atravessou tanto sua infância a primeira brincadeira de criança o primeiro vestido de mocinha o primeiro banho de chuva o ultimo nada assim revisitado na forma de tudo segue agredida muito alem de uma manhã suja de lama tanto no corpo igual na alma e sabe mesmo dormindo que vive acordada sofrendo a miséria do corpo resta agora no abandono da fé ainda o gosto do outro e a náusea que desce pelo ralo...

 

O cheiro dos sapos venceu o tempo cada criança traz consigo na brincadeira o pátio todo em movimento não são os sapos que moram na memória mortos enfim vivos não como estar apenas como ser algo de feio torna Mia mais bonita na falta do laço o cabelo veio vestindo sapo na presilha o que pensar de um cabelo que não quer ser nu tímido?... por hoje o sol promete não se acabar o calor é tanto que o ar rarefeito para deleite dos alunos a pia é a condição do trabalho escravo eternamente uma pequena fila de cabelos pra molhar uma fulana aparece cinco vezes em cinco minutos pra matar o suor nas palmas num desrespeito absoluto o garoto se apóia no cano pra lavar a nuca a torneira dói um rangido agudo ninguém atenta e a fila circula quando voltar a aula metade dos garotos tem areia nas cuecas na quadra a bola recebe uma dentada e sangra dois monitores acodem um festival de escândalo a emergência fura a fila e a torneira ri uma espécie de vingança a bola volta a rolar no gol o substituto treme num medo de vara verde Mia observa um menino molhar os pêlos sente raiva de gostar daquilo não está pronta pros motivos sensuais toda sensação é um desconforto que agrada do lado Pedro se envergonha de reparar uma gota desce suada pela gola da camisa sem tirar o olho da torneira Emilia diz um pensamento alto “por que você não vai se lavar”...

 

Se o ipê fosse nosso e nosso fosse Mia seria Mia um ipê porque essa é minha vontade e nada continuaria sendo pois seria um algo Mia todo novo logo não devo tomar como nosso mas tomo assim sendo errado e Mia é de lilás sem laço de cabelo sem roupa de corpo sem vestido de falar sem som de ser bonita porque é assim tão simples sendo calma correndo nas veias água uma Mia enfim toda Mia e apenas teria mil anos saberia de tudo e amaria os cabelos negros de Pedro as flores brotando da alma tudo que Pedro é quando deixa de ser Pedro sendo ele mesmo nosso todo nosso então sendo simples tudo e sendo errado porque é do mundo [continua]

 

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