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A Irrelevância nossa de cada dia
Eliane Catanhêde - 17/10/2001
 
Os atentados nos EUA e os mísseis no Afeganistão deixaram evidente a irrelevância da política, dos partidos e dos personagens dessa nossa vidinha brasileira. E deixaram também evidente como a imprensa consome a própria beleza, o papel dos patrões e a paciência dos leitores com movimentos tão secundários. E nem sempre no rumo certo.
 
No artigo "A gestação do fenômeno Collor: de uma eleição a outra" (em "A imprensa faz e desfaz um presidente", Nova Fronteira, 1994), o professor Fernando Latteman-Weltman vai no fígado, ao lembrar quanto espaço se jogou fora descrevendo cada passo, cada movimento, cada declaração dos grandes partidos e dos principais políticos na primeira eleição direta para presidente pós-64.
 
E isso não foi uma particularidade daquela eleição. Relembrando:
 
* Em 1984/85, ainda na eleição indireta, a imprensa só considerava dois pólos governistas: Paulo Maluf, correndo por fora, contra Mário Andreazza, Aureliano Chaves, Octávio Medeiros e outros menos cotados se esmurrando entre si e sonhando nocautear Maluf.
 
No final, nem um nem outros. Deu Tancredo Neves, que não tinha nada a ver com o regime. Era do PMDB, da oposição.
 
* Em 1989, os alvos da atenção e das toneladas de papéis eram as reuniões, articulações, manobras, xingamentos, idas e vindas dos grandes partidos, ou dos partidos "com chances": PMDB, PFL e PSDB, principalmente, além de PT e PDT, em segundo plano.
 
No final, não deu Ulysses, Aureliano ou Mário Covas. Lula ainda quase chegou lá, mas Brizola acabou em terceiro lugar. E deu Fernando Collor, do descartável PRN.
 
* Em 1994, Lula estava disparado na frente, a eleição não tinha nem muita graça, e aí veio o inesperado: o Plano Real formatou a campanha de Fernando Henrique Cardoso e a vitória ficou até fácil. Algo que ninguém, em sã consciência, conseguiria prever um ano antes.
 
* Em 1998... bem, aí não vale. Já valia a reeleição, o que é uma outra história.
 
Pegando os exemplos da história recentíssima e transportando para a situação de hoje, temos mais ou menos o seguinte: dá-se de barato que o segundo turno vai ser entre Lula e o candidato do governo, qualquer que seja ele. Mas não é prudente fazer apostas.
 
Daí que as toneladas de papel da imprensa são devoradas pelas artimanhas, almoços e jantares da chamada "base governista". O tucano José Serra encontrou-se com o ministro não sei o quê do PMDB, o governador Tasso Jereissati visitou o cacique tal do PFL, a governadora Roseana Sarney virou uma estrela das pesquisas e articula tal e qual com o PSDB. E todos trabalham contra Itamar.
 
Mas, se for como em 84/85, essa bagunça incontrolável dos governistas (como foi com Andreazza, Aureliano e cia.) pode muito bem confirmar o favoritismo do oposicionista Lula nas urnas, ou produzir um Tancredo (alguém fora do contexto).
 
E, se for como em 89, e os candidatos mais curtidos, mais antigos e mais tradicionais podem simplesmente não ter vez na hora "h" da eleição. Num país como o Brasil, nunca se podem afastar hipóteses, digamos, surpreendentes.
 
E, enfim, se a tendência repetir 1994, estão faltando até agora dois ingredientes decisivos: um novo Plano Real e um novo FHC, com a sua decantada capacidade de ficar bem com muitos ao mesmo tempo.
 
Antes de saber, vamos continuar consumindo toneladas de papel e de paciência dos leitores. Com um agravante e um atenuante. O agravante: o papel de imprensa é importado e, com este dólar de hoje em dia, está pela hora da morte! E o atenuante: pelo menos aqui, na "pensata", a gente não joga papel fora, não é?
 
Origem: Jornal O Globo - 17/10/2001