“Não é um garoto, mas se existisse no reino animal um bicho pensativo e
belo e eternamente jovem que se chamasse garoto, Francisco Buarque de
Hollanda seria dessa raça montanhosa. “
Clarice Lispector
Eis aqui um dos maiores ícones da Música Popular Brasileira de todos os
tempos, grande expressão da cultura brasileira desde a década de 60 até
os dias atuais.
Francisco Buarque de Hollanda, conhecido com Chico Buarque,
é músico, cantor, compositor, teatrólogo e escritor brasileiro.
É clara a importância deste artista não só no contexto artístico como
também político do país e a contribuição dada por ele para a música, o
teatro, o cinema e a literatura brasileira. Suas músicas denunciavam
aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais.
Nascido na década de 40, desde o início de sua carreira, marcou a
história da MPB fazendo grande sucesso e repercutindo explosivamente nos
festivais dos quais participou, com suas músicas inteligentes, compondo
e interpretando canções, abordando temas políticos ou românticos,
driblando historicamente a censura da época, fazendo de suas letras e
voz instrumento para, além de encantar, espalhar seus ideais dividindo
com o público, suas lutas políticas e sociais, angústias comuns aos
dois.
No campo das definições, no entanto, é na verdade, muito grande. Pois,
dentre tudo o que representou também foi o carioca que viveu muito entre
os paulistas, o exilado, o pai, o amigo, o boêmio. Teve parceiros
notáveis como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Toquinho, Milton Nascimento
e Caetano Veloso. Seus parceiros mais constantes são Francis Hime e Edu
Lobo.
Desde muito jovem, conquistou reconhecimento de crítica e público tão
logo os primeiros trabalhos foram apresentados.
Falar de Chico Buarque é, portanto, espetacular. Êxito e sucesso são
sinônimos praticamente inerentes ao nome Francisco Buarque de Hollanda.
A obra completa do artista é uma das maiores riquezas que a cultura
brasileira produziu até hoje.
1-
FRANCISCO BUARQUE DE HOLLANDA – OS PRIMEIROS ANOS

No dia 19
de junho de 1944 nasce na Maternidade São Sebastião, no Largo do
Machado, Rio de Janeiro, Francisco Buarque de Hollanda, o quarto dos
sete filhos do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda e da
pianista amadora Maria Amélia Cesário Alvim.
Compositor,
intérprete, poeta e escritor, Chico Buarque é hoje uma referência
obrigatória em qualquer citação à música brasileira dos anos 60 pra cá.
Sua influência é decisiva em praticamente tudo que aconteceu
musicalmente no Brasil nos últimos 35 anos, pelo requinte melódico,
harmônico e poético que suas obras apresentam.
Morou
em São Paulo, Rio e Roma durante a infância. Desde criança
teve contato em casa com grande personalidades da cultura brasileira,
como Vinicius de Moraes (que viria a se tornar seu parceiro), Baden
Powell e Oscar Castro Neves, amigos dos pais ou da irmã mais velha,
Miúcha, também cantora e violonista.
Aos cinco
anos de idade parece surgir seu primeiro interesse pela música,
materializado sob a forma de um álbum de recortes com fotos de cantores
do rádio. Um ano mais tarde, ao partir de viagem para a Europa, se
despediria da avó com um profético bilhete:
"Vovó, você está muito velha e quando eu voltar eu não vou ver você
mais, mas eu vou ser cantor de rádio e você poderá ligar o rádio do Céu,
se sentir saudades". (<http://chicobuarque.uol.com.br/vida/vida.htm>)
Em 1964
começou a se apresentar em shows de colégios e festivais e no ano
seguinte gravou pela RGE o primeiro compacto, com "Pedro Pedreiro" e
"Sonho de um Carnaval". Desde então não parou mais de compor e se
apresentar, participando de festivais internacionais de música, atuando
no programa O Fino da Bossa, da TV Record.
Ainda em
65, musicou o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo
Neto, que fez enorme sucesso no Brasil e na França, para onde
excursionou, arrancando elogios até mesmo do poeta João Cabral, que
admite só ter autorizado a utilização do poema por amizade ao pai de
Chico.
Com o
Festival de Record de 1966 tornou-se conhecido no Brasil inteiro por sua
música "A Banda", interpretada por Nara Leão, que conseguiu o primeiro
lugar (empatada com "Disparada", de Geraldo Vandré e Theo de Barros).
Sua
participação em festivais foi definitiva para a consolidação de sua
carreira. Fez sucesso com "Roda Viva", "Carolina" e "Sabiá", e defendeu
ele mesmo suas músicas "Benvinda" e "Bom Tempo". Lançou LPs no fim da
década de 60, fazendo shows na França e Itália, onde morou por
aproximadamente um ano.
De volta ao
Brasil, fez música para cinema e gravou um de seus discos mais
bem-sucedidos, "Construção". Várias de suas composições e peças de
teatro tiveram problemas com a censura na época da ditadura militar, e
chegou a usar o pseudônimo Julinho de Adelaide para assinar algumas de
suas músicas, como "Acorda, Amor".
No teatro,
escreveu "Gota D’Água" com Paulo Pontes, e a "Ópera do Malandro". Como
escritor, lançou em 1991 o romance "Estorvo" e, quatro anos depois,
"Benjamin". Depois disso voltou a dedicar-se à música, lançando "Paratodos"
em 1993 e "as cidades" em 1999, ambos com amplas turnês pelo Brasil e
exterior.
Em 1998 foi
enredo da Mangueira, que ganhou o desfile daquele ano. Em 2001, Chico
lança o DVD “As cidades”. Além do show "As Cidades", filmado em
película, o especial traz cenas captadas no Rio de Janeiro e
em Buenos Aires. Entre
as participações especiais estão Jamelão, a Velha Guarda da Mangueira e
Maria Bethânia.
Chico
morou dois anos em Roma. Aos oito inventava marchinhas de Carnaval. A banda foi a canção que mais lhe trouxe dinheiro.
Sonhava ser cantor de rádio e imitava João Gilberto.
Sua irmã
Ana de Hollanda, a "Baía", conta que aos doze, treze anos de idade, já
de volta a São Paulo, Chico compôs "umas operetas" que eram cantadas em
conjunto com as irmãs mais novas, Ana, Cristina e Pii.
Embora
fosse um apaixonado torcedor do Fluminense, a camisa que seu ídolo
vestia era a do Santos. Seu nome: Paulo César de Araújo, o Pagão, nome
que Chico adota até hoje, em homenagem ao craque, quando veste a camisa
número 9 de seu time de futebol, o Politheama. Alguns amigos brincam,
afirmando que Chico só se tornou músico porque não conseguiu brilhar no
futebol.
Em 1961,
publica suas primeiras crônicas no jornal por ele batizado de
Verbâmidas, do Colégio Santa Cruz. Sonhava um dia vê-las publicadas
nas grandes revistas semanais, ao lado de cronistas consagrados.
Em 1964
começou a se apresentar em shows de colégios e festivais e no ano
seguinte gravou pela RGE o primeiro compacto, com "Pedro Pedreiro" e
"Sonho de um Carnaval". Desde então não parou mais de compor e se
apresentar, participando de festivais internacionais de música, atuando
no programa O Fino da Bossa, da TV Record.
Em 65,
musicou o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto,
que fez enorme sucesso no Brasil e na França, para onde excursionou,
arrancando elogios até mesmo do poeta João Cabral, que admite só ter
autorizado a utilização do poema por amizade ao pai de Chico.
Em
mais de 3 décadas de carreira, Chico Buarque compôs centenas de canções,
compostas em parcerias, versões e adaptações, compostas para teatro,
cinema e aquelas que só aparecem em discos de outros intérpretes. Suas
músicas foram gravadas em cerca de 40 álbuns.
2– CHICO, HUMOR SURREALISTA

Contar a
história dos gênios da música popular é tentar separar mito e realidade.
Com Francisco Buarque de Hollanda, carioca criado
em São Paulo, não é diferente. Os amigos contam que Chico
tem o hábito de criar situações absurdas para exercer um humor
surrealista, do qual o bilhetinho para a avó, em 1952, é um aperitivo. A
história que, distraído, o poetinha Vinícius de Moraes, amigo família,
sentou no sofá em cima do bebê Chico, quase encerrando prematuramente a
brilhante carreira do futuro compadre e parceiro, bem, essa história é
lenda. Ou quase, porque o episódio, de fato, ocorreu, mas Vinícius
sentou em cima de Cristina uma das quatro irmãs do compositor. Chico
Buarque é tímido? Vamos aos fatos. Era envergonhado, é verdade, a ponto
de o diretor de tevê Fernando Faro pedir aos câmeras que o focalizassem
de baixo para cima, única forma de captar a imagem do rosto do cantor.
Mas, aos 18 anos, para comemorar a aprovação no vestibular, subiu na
mesa de um bar e fez um discurso jogando ovos para cima.
Já cantor de sucesso, em show coletivo num
estádio em Patos de Minas (MG), pregou outra peça. O comediante Ronald
Golias costuma trazer para a vida real os tiques nervosos de seus
personagens, como franzir a testa ou piscar um olho insistentemente.
Chico inventou que Golias estava fazendo caretas porque havia perdido as
lentes de contato. Logo havia dezenas de pessoas à procura das lentes de
Golias no gramado. A veia dramática do compositor existe muito antes de
ele se consagrar com peças como Calabar e Ópera do malandro. Ao receber
o primeiro cachê - 50 mil cruzeiros, ou US$ 30 - em 1964, enfiou o
dinheiro no bolso e foi visitar uma namorada no interior paulista.
Convenceu o amigo e colega de faculdade, o arquiteto Carlos Jaguaribe
Ekman, o Barão, hoje com 56 anos, a acompanhá-lo. "A viagem era longa, a
gente ia de pé no ônibus e bebia cachaça para agüentar", conta Barão.
Chico inventou que era sul-africano ao registrar seu nome no hotel. A
mulher olhou por cima do óculos e comentou: "Pensei que os africanos
fossem todos pretos." Barão, cúmplice, retrucou: "Olha o cabelo dele,
todo enrolado." Chico, que até então estava calado, começou a falar num
idioma que ele criou naquele exato instante.
1.2. - A
vida de Chico Buarque de Hollanda por
Graziela
Salomão
Ele já foi
considerado 'unanimidade nacional', chamado de 'alienado' pelos
tropicalistas e invocado como 'a voz dos exilados brasileiros'. Hoje, é
'apenas' uma referência obrigatória em qualquer citação à música
brasileira a partir dos anos 60 e foi eleito recentemente o músico
brasileiro do século. Esse é um mero resumo do papel de destaque na
música nacional exercido por Francisco Buarque de Hollanda, ou melhor,
Chico Buarque. Nos últimos quarenta anos, não há como separar a
influência poética, harmônica e melódica de suas composições do
amadurecimento da MPB. Chico também fica marcado na música brasileira
como o homem que melhor conseguiu compor como mulher. 'Mulheres de
Atenas' é uma das pérolas de seu lirismo feminino.
Chico
Buarque, atualmente, não é só o compositor de Construção ou o intérprete
de A Banda. Ele conseguiu ampliar suas investidas e produzir trabalhos
de muita profundidade como poeta e escritor.
Em
comemoração aos seus 60 anos, a BMG lança a caixa Francisco, com doze
CDs e dois DVDs, reunindo todos os discos de Chico lançados pela
gravadora desde que ele passou a fazer parte de seu cast, em 1987.
Chico
nasceu no dia 19 de junho de 1944, no Rio de Janeiro. Foi o quarto de
sete filhos do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda e da
pianista amadora Maria Amélia Cesário Alvim. Com dois anos de idade,
mudou-se com a família para São Paulo, onde o pai assumiria a direção do
Museu do Ipiranga.
A infância
de Chico Buarque ainda seria completada em Roma, para onde foi aos nove
anos de idade, quando o pai fora convidado a dar aulas na Universidade
de Roma. Na Itália, Chico tornou-se trilingüe, uma vez que estudava em
escola americana, conversava com os colegas em italiano e, em casa,
falava o português. É no país, também, que começou a escrever suas
primeiras 'marchinhas de carnaval'.
A formação
cultural do pequeno Chico seria composta, ainda, pelas constantes
visitas de figuras importantes do cenário artístico brasileiro, como
Vinicius de Moraes, Baden Powell e Oscar Castro Neves, por intermédio de
seu pai ou pela amizade à sua irmã mais velha Miúcha.
No meio dos
anos 50, Sérgio Buarque de Hollanda volta com a família para o Brasil.
Chico começa a dar seus primeiros passos no mundo da música, escrevendo
pequenas 'operetas', as quais cantava com suas irmãs mais novas Ana,
Cristina e Pii.
Os sambas
tradicionais de Noel Rosa, Ismael Silva e Ataulfo Alves eram os
preferidos do jovem Chico, junto com as canções estrangeiras, que faziam
sucesso na época, de artistas como Elvis Presley e The Platters. Mas,
sua relação com a música foi definitivamente influenciada por João
Gilberto e seu disco Chega de Saudade. Chico dizia que seu sonho 'era
cantar como João Gilberto, fazer música como Tom Jobim e letra como
Vinicius de Moraes'. Mal sabia o garoto que, algumas décadas depois, ele
desbancaria esses grandes nomes e seria considerado o músico do século
no Brasil.
Ainda sem
se decidir pela música, Chico ingressou em 1963 na FAU - Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Mas, sua turma
gostava era mesmo de um bom samba e cachaça e, no terceiro ano do curso,
Chico abandonou a faculdade.
Em 1964
aconteceria a estréia de Chico na música, cantando 'Canção dos Olhos' em
uma apresentação no Colégio Santa Cruz. O ano seguinte delimitaria,
definitivamente, a incursão de Chico Buarque no cenário musical do país
com seu primeiro compacto - com a música 'Pedro Pedreiro' - e com o
convite de Roberto Freire, diretor do TUCA, para musicar o poema 'Morte
e Vida Severina', de João Cabral de Mello Neto. Esse foi um sucesso e,
durante excursão pela Europa, a peça conquistou o festival de teatro
universitário de Nancy, na França.
Os festivais de música que aconteciam nos
anos 60 eram a mostra do turbilhão criativo intelectual e artístico pelo
qual o país passava. Os compositores escreviam e interpretavam suas
músicas fervorosamente. Chico tornava-se uma celebridade no país com
várias de suas músicas inscritas nos festivais. 'A Banda', por exemplo,
foi uma das vencedoras do II Festival de Música Popular Brasileira da TV
Record e propiciou o reconhecimento de Chico em várias partes do Brasil
e até mesmo do exterior. Carlos Drummond de Andrade chegou a se referir
ä música como a marchinha, 'tão antiga em sua tradição lírica', que
trazia ao país o amor de que ele precisava. Foi a glória para Chico: com
apenas 23 anos, ele conquistava um público diversificado, tinha
depoimentos gravados no Museu da Imagem e do Som e, segundo Millôr
Fernandes, tornara-se a única 'unanimidade nacional'
Enquanto o
cenário cultural se voltava para um momento de grande criatividade e
qualidade, o país sofria o endurecimento da ditadura. Às vésperas do
AI-5, que instauraria de vez um duro regime militar, os envolvidos na
produção cultural eram 'obrigados' a tomar posições. Enquanto de um lado
o tropicalismo propunha um rompimento estético com o belo e uma absorção
do que também era considerado feio, a música de Chico tendia para o que
ainda era bonito. Mesmo suas composições mais nostálgicas declamavam uma
alegria contagiante.
Chico
começou a ser criticado como 'alienado'. Sua música 'Bom Tempo' foi
vaiada, pois não era possível falar em dias claros enquanto o céu
brasileiro escurecia com a mancha da ditadura. 'Sabiá', uma parceria de
Chico e Tom Jobim, recebeu a maior vaia da história dos festivais em
1968 e, mesmo assim, foi escolhida vencedora, desbancando o hino da
oposição 'Pra Não Dizer que Não Falei das Flores', de Geraldo Vandré.
Mas, a premonitória 'Sabiá' teria seu valor reconhecido tempos depois,
quando se tornou um hino dos exilados brasileiros pela ditadura.
Chico
Buarque promoveu um auto-exílio em Roma, onde a gravadora tinha um plano
de divulgação de seu trabalho pela Europa. Lançou dois discos fora do
Brasil, que não obtiveram sucesso. Em 1970, voltou ao país e lançou seu
quarto LP, marcado por um amadurecimento de seu trabalho. Chico deixou
de lado o lirismo nostálgico e descompromissado que antes o
identificava, e suas letras passaram a transmitir um protesto político
mais duro ao regime ditatorial em que o Brasil estava imerso. 'Apesar de
você' registra essa nova fase do compositor. 'Apesar de você/Amanhã a de
ser outro dia' dizia a canção em uma referência implícita ao general
Emílio Garrastazu Médici, então presidente da República, cujo governo
foi marcado pelas mais atrozes barbaridades cometidas contra os
opositores do regime.
Muitas
músicas de Chico começaram a ser barradas pela censura. Como forma de
burlá-la, o compositor decidiu criar um personagem heterônimo chamado
Julinho de Adelaide, fazendo com que suas canções passassem com maior
facilidade pelos censores. A estratégia surtiu efeito e músicas como
'Acorda, amor' e 'Milagre brasileiro' passaram sem maiores problemas.
Entretanto, uma reportagem publicada em 1975 pelo Jornal do Brasil
desmascarou o verdadeiro Julinho de Adelaide.
Chico
Buarque procurou outras formas de artes pelas quais pudesse se
expressar. Chegou a atuar no filme Quando o Carnaval Chegar (1972), de
Cacá Diegues, produzir a trilha sonora de Vai Trabalhar Vagabundo, de
Hugo Carvana e escrever o roteiro e as músicas da peça 'Calabar', com
Ruy Guerra.
Em 1978,
Chico conquistou o Prêmio Molière como melhor autor teatral do ano com a
peça 'A Ópera do Malandro', com texto e música escritos por ele. Chico
também ingressou no campo da Literatura com obras como a novela 'Fazenda
Modelo', em 1974, e 'Estorvou', em 1991.
Os anos
noventa se anunciaram como um divisor de águas para parte daqueles que
fizeram a MPB dos anos 60 e 70. Chico, Caetano e Gil foram segmentados e
o popular perdeu a dimensão desses artistas, fazendo com que suas
músicas ficassem voltadas para uma pequena parcela da população
brasileira de classe média.
1. 3 - Curiosidades
Chico é
apaixonado por futebol e torce freneticamente para o Fluminense.
Entretanto, seu ídolo no esp
orte
vestia a camisa
alvinegra do Santos: o número 9 Paulo César de Araújo, o Pagão. Até
hoje, quando joga pelo seu time Politheama, Chico veste a camisa nove em
homenagem ao jogador. Quando jovem, Chico gostava de ler os clássicos da
literatura francesa, alemã e russa e só se interessou pela literatura
nacional quando um colega de escola o criticou por ler apenas livros
estrangeiros. Chico Buarque envolveu-se com um grupo ultraconservador da
igreja chamado 'Ultramontanos'. Chico foi casado com a atriz Marieta
Severo com quem teve três filhas: Sílvia, Helena e Luiza. Em 1997, após
trina anos de união e boatos de casos extraconjugais de Chico, o casal
se separou.
2-
O político:
coragem, ousadia, astúcia, inteligência
Volta-se
para o protesto político com Apesar de você, uma resposta crítica
ao regime ditatorial no qual o país ainda estava imerso.
Surpreendentemente, a música passaria incólume pela censura prévia e se
tornaria uma espécie de hino da resistência à ditadura. Depois de vender
cerca de 100 mil cópias, a canção é censurada, o disco é retirado das
lojas e até a fábrica da gravadora é fechada. Para o público, não havia
dúvidas: o "você" da música era o general Emílio Garrastazu Médici,
então presidente da República, em cujo governo foram cometidas as
maiores atrocidades contra os opositores do regime. Ao ser interrogado
sobre quem era o "você" da canção, Chico responde: "É uma mulher muito
autoritária". Após este episódio, o cerco às suas composições endurece.
Participa
do Circuito Universitário, com shows promovidos pelos centros acadêmicos
das universidades por artistas com dificuldades em mostrar seu trabalho
nos meios de comunicação.
Ao lado,
entre outros nomes, do arquiteto Oscar Niemeyer, do editor Ênio
Silveira, e de seu próprio pai, participa do Conselho do Cebrade -
Centro Brasil Democrático - organização de intelectuais publicamente
comprometidos com a luta contra a ditadura. A aproximação com o Cebrade
lhe valeria, durante bom tempo, o rótulo de membro da "linha auxiliar"
de um dos dois partidos comunistas brasileiros, o PCB, pró-Moscou.

3-
O CHARME CHIQUE DA MÚSICA DE CHICO BUARQUE DE HOLLANDA -
TÁTICAS CARNAVALESCAS DE TRANSCENDER A OPRESSÃO DA DITADURA

Em 1980, à
pedido da bailarina Marilena Ansaldi, faz as músicas para a peça Geni.
Participa
da festa do Avante, órgão oficial do Partido Comunista Português,
e do projeto Kalunga, em Angola, onde se apresenta, com mais 64 artistas
brasileiros, por todo o país. A renda dos shows é destinada à construção
de um hospital.
O cineasta
argentino Maurício Berú realiza o documentário Certas palavras,
sobre Chico Buarque, com participação - em números especiais ou
depoimentos - de Caetano Veloso, Maria Bethânia, Vinícius de Moraes (que
é filmado pela última vez), Toquinho, Francis Hime, Ruy Guerra, Miúcha,
Sérgio Buarque de Hollanda e outros amigos e familiares.
Ainda em
1980, faz duas músicas para a peça O Último dos Nukupirus, de
Ziraldo Gugu Olimecha.
Lança o LP
Vida, que traz, entre outras, a música Eu te amo, feita
especialmente para o filme homônimo de Arnaldo Jabor.
A peça Roda
viva foi escrita por Chico Buaque no final de 1967 e estreou no Rio de
Janeiro, no início de 1968 com Marieta Severo, Heleno Pests e Antônio
Pedro nos papéis principais. A temporada no Rio foi um sucesso, mas a
obra virou um símbolo da resistência contra a ditadura durante a
temporada da segunda montagem, com Marília Pêra e Rodrigo Santiago. Um
grupo (de cerca de 110 pessoas) do Comando de Caça aos Comunistas - CCC
- invadiu o teatro Galpão,
em São Paulo, em julho daquele ano, espancou artistas e
depredou o cenário.
No dia seguinte, Chico Buarque estava na
platéia para apoiar o grupo e começava um movimento organizado em defesa
de Roda viva e contra a censura nos palcos brasileiros.
O primeiro
livro de Chico Buarque, publicado em 1966, trazia os manuscritos das
primeiras composições e o conto Ulisses, e ainda uma crônica de
Carlos Drummond de Andrade sobre A Banda. Em 1974, escreve a
novela pecuária Fazenda modelo e, em 1979, Chapeuzinho Amarelo,
um livro-poema para crianças. A bordo do Rui Barbosa foi escrito
em 1963 ou 1964 e publicado em 1981. Em 91, publica o romance Estorvo.
Em janeiro
de 94 sobe aos palcos para fazer o show do disco
Paratodos,
lançado no final de 93 e que é recebido com grande expectativa depois de
um jejum de quatro anos sem gravar.
Participa
da "Campanha Nacional Contra a Fome e Pela Cidadania", do sociólogo
Herbert de Souza, o Betinho.
Escreve o
segundo romance, Benjamim, que, lançado em 1995, recebe críticas
desfavoráveis de parte da crítica literária, não obstante o sucesso de
vendas e os elogios de grandes nomes da literatura.
No último
ano do 2º milênio, o filme Estorvo, de Ruy Guerra, concorre à
Palma de Ouro do 53º Festival Internacional de Cinema de Cannes. Baseado
em romance homônimo de Chico, é uma co-produção de Brasil-Cuba-Portugal.
Traz no elenco o cubano Jorge Perugorría e os brasileiros Bianca
Byington, Leonor Arocha e Tonico Oliveira.
A versão
cinematográfica de Estorvo marca mais uma parceria de Ruy Guerra e
Chico. Eles já haviam trabalhado juntos na peça Calabar e na
adaptação para o cinema do musical A Ópera do Malandro.

3.1 – O cinema e o teatro
Em 1966 fez
seu primeiro trabalho para cinema compondo as canções para o filme
Anjo assassino
de Dionisio Azevedo.
Como ator, participou de Garota de Ipanema, de Leon Hirzman
(1967); Quando o carnaval chegar, de Cacá Diegues (1972) - para o
qual compôs diversas canções além de organizar as peladas nos intervalos
da filmagem; no documentário; Certas palavras (1980 - sobre sua
vida), de Maurício Beirú;
Ed Mort,
de Alain Fresnot (1996); e
O mandarim,
de Júlio Bressane (1995).
No teatro,
escreveu "Gota D''Água" com Paulo Pontes, e a "Ópera do Malandro".
Escreveu os roteiros de Os saltimbancos trapalhões, de J. B.
Tanko (1981) e Ópera do malandro, de Ruy Guerra (1986). Sua
música Samba do grande amor é o tema de um dos quatro episódios do filme
Veja esta canção,
de Cacá Diegues (1996). Compôs para o cinema brasileiro algumas dezenas
de
canções.
Em
1965, a pedido de Roberto Freire, diretor do TUCA, Teatro da Universidade
Católica de São Paulo, Chico musicou o poema Morte e Vida Severina,
de João Cabral de Melo Neto, para a montagem da peça. Desde então, sua
presença no teatro brasileiro tem sido constante.
Aqui, você pode conhecer as quatro peças que escreveu além das diversas
canções que
compôs para teatro.

3.1.1- Chico e Caetano
participam de filme de Carlos Saura
Lisboa, 05
Dez (Lusa) - Chico Buarque e Caetano Veloso participam da produção de
"Fados", o novo filme do cineasta espanhol Carlos Saura, que será
apresentado no próximo dia 13, no Palácio da Mitra, em Lisboa, disse
nesta quarta-feira à Agência Lusa uma fonte da produção.
O filme foi
gravado em Lisboa no verão europeu (de julho a setembro) e passa pela
África e pelo Brasil, de acordo com Carlos do Carmo, que é um dos mais
famosos fadistas portugueses e colaborador da produção.
3.2 – Os Festivais
Qualquer que seja o conteúdo (bom ou ruim)
da música feita no Brasil hoje (ou seja lá o que você ache bom ou ruim
em matéria de MPB), não foi por falta de background cultural. Marcas
indissociáveis da formação de público, cujo gosto fora desenvolvido e
apurado para a música feita no país, os festivais da canção,
tradicionais competições entre compositores das mais variadas vertentes,
formaram a maior parte, o "grosso" do conjunto de compositores e
intérpretes que ainda ouvimos, não importam se ainda estão aqui ou não.
Sempre lembrados com saudosismo e com
aquele suspiro de "Bons eram os festivais...", os maiores concursos
tendo como matéria de competição a música popular brasileira são lidos,
relidos e estudados pelas mãos e memória do pesquisador Zuza Homem de
Melo, decano da pesquisa musical e melhor indicado para a tarefa.
Em A Era
dos Festivais: Uma Parábola, integrante da ainda mais valiosa coleção Todos Os Cantos
(Editora 34), Zuza trata da ligação evidente entre a realização dos mais
de dez festivais da canção e o momento político em que os mesmos tomaram
corpo, relata com uma fidelidade quase que obsessiva, nomes, datas,
locais (em especial a decoração dos mesmos), detalhes musicais (em
algumas partes para não íntimos à teoria musical, o livro parece
egípcio) e principalmente compositores e suas obras. "Esse livro serve
para os jovens, para os contemporâneos dos festivais e para quem estuda
a história social e cultural deste país", explica Zuza, em entrevista
por telefone num sábado à tarde.
A
tri-indicação da obra tem seus porquês: para os jovens, o livro serve
como uma espécie de mapa genético da música popular brasileira. Por ele,
é possível saber como surgiram nomes como Milton Nascimento, Dori Caymmi,
Edu Lobo, Geraldo Vandré... se formos listar, uma matéria será pouco.
Para os contemporâneos aos festivais, em sua maioria saudosos pela
efervescência que criavam os festivais e suas acirradas disputas, uma
espécie de relatório, de livro de memórias. Para pesquisadores, a coisa
fica ainda mais interessante.
No meio do
fogo cruzado político em que o Brasil viveu entre a renúncia de Jânio e
o fim do regime militar, os jovens iam aos estúdios de TV (naqueles
tempos, em teatros) para ver um conflito muito mais interessante do que
o travado em Brasília e nos quartéis. O conflito entre Chico Buarque e
Gilberto Gil no Festival da Record em 1966. Chico entrava de sola com A
Banda. Gil chutava de Ensaio Geral. Deu Chico. "Os festivais foram
grandes válvulas de escape da juventude que os frequentava", analisa o
autor, um absoluto descrente no jovem 'consumidor' de música no Brasil.
"é de se lamentar a forma como as gravadoras conduzem as coisas hoje em
dia. Os jovens se acostumaram a ouvir tolices e acharem aquilo palatável
e bom. Estão todos errados", alfineta ele.
Surge a
questão: foi realmente indispensável a realização dos festivais para a
saúde da música brasileira? "Foi, se você pensar que a maioria daqueles
que foram revelados nos festivais ainda estão ativos, compondo, muito
bem, obrigado", ironiza o autor, ligando obviamente ato a fato: Dos
chamados 'grandes' pela audiência musical no Brasil (Chico, Caetano,
Gil, João Gilberto, meio que por vias difíceis, entre outros tantos,
compositores e intérpretes), a suprema maioria permanece gravando,
compondo, fazendo apresentações, com exceções e ausências. "O trabalho
deles ficou e ficará para outras tantas gerações. Sem os festivais,
talvez a identificação com aquilo (a música popular brasileira) se daria
de uma forma mais 'comercial', como é hoje", relativiza ele,
aproveitando para re-alfinetar as ditas 'majors' e seus super-esquemas
de divulgação.
Figura
notória quando o assunto é MPB, Zuza coleciona e mostra no livro,
algumas histórias conferidas in loco que dão a medida do que eram
aqueles dias. "Caetano, em dúvida, me mostrou uns vinte dias antes de um
festival, duas músicas que queria inscrever: uma era Alegria Alegria,
lembra. Aliás, o que hoje podemos considerar como um acinte à MPB não
passava de mero fato banal. No festival da Record em 1967, Erasmo Carlos
teve uma canção eliminada na primeira fase. Capoeirada não era páreo ao
poder de Alegria Alegria, Domingo no Parquee para a vencedora Ponteio,
de Edu Lobo e Capinam. Certa vez, o compositor Zé Keti fez nada menos
que 16 sambas para ter o que inscrever num outro festival.
No Festival
Internacional da Canção de 1971, Jorge Ben foi de Porque É Proibido
Pisar na Grama, desconhecida talvez até do próprio, então defendida por
ele mesmo, enquanto Moacir Franco defendia arduamente. Um Novo Sol, de
Carlos Imperial e Ângelo Antonio. Ben teve mais sorte no ano seguinte,
quando ganhou o último FIC, também o último festival da "Era" descrita
no livro, com Fio Maravilha. A essa altura, os festivais eram feitos na
Rede Globo, cercados do regime do presidente Médici por todos os lados.
E ninguém nunca mais ouviu falar em Ângelo Antonio.
Sua
participação em festivais foi definitiva para a consolidação de sua
carreira. Fez sucesso com "Roda Viva", "Carolina" e "Sabiá", e defendeu
ele mesmo suas músicas "Benvinda" e "Bom Tempo". Lançou LPs no fim da
década de 60, fazendo shows na França e Itália, onde morou por
aproximadamente um ano.
Com o
Festival de Record de 1966 tornou-se conhecido no Brasil inteiro por sua
música "A Banda", interpretada por Nara Leão, que conseguiu o primeiro
lugar (empatada com "Disparada", de Geraldo Vandré e Theo de Barros).
3.3 - Chico de Hollanda, de aqui e de alhures

Ruy
Guerra, cineasta, fala sobre o amigo Chico Buarque e sua notoriedade:
"Parceiro
de euforias e desventuras, amigo de todos os segundos, generosidade
sistemática, silêncios eloqüentes, palavras cirúrgicas, humor afiado,
serenas firmezas, traquinas, as notas na polpa dos dedos, o verbo
vadiando na ponta da língua - tudo à flor do coração, em carne viva...
Cavalo de sambistas, alquimistas, menestréis, mundanas, olhos roucos,
suspiros nômades, a alma à deriva, Chico Buarque não existe, é uma
ficção - saibam. Inventado porque necessário, vital, sem o qual o Brasil
seria mais pobre, estaria mais vazio, sem semana, sem tijolo, sem
desenho, sem construção." (Ruy Guerra, cineasta e escritor, outubro de
1998).
O retorno
de Chico Buarque ao Brasil é marcado pelo "barulho" organizado por
recomendação de Vinicius de Moraes: muita gente o esperando no
aeroporto, manifestações de amigos, entrevistas à imprensa e um show
marcado na boate Sucata para lançar seu
quarto LP,
um disco de transição, gravado em circunstâncias complicadas. Afasta-se
do samba tradicional, variando mais a linha das composições e revelando
novas influências como a toada, em Rosa dos ventos, até o iê-iê-iê
italiano em Cara a cara. A mudança se reflete também nas letras, nas
quais ele parece desvencilhar-se explicitamente do lirismo nostálgico e
descompromissado que antes parecia identificá-lo.
Volta-se para o protesto político com
Apesar de você, uma resposta crítica ao regime ditatorial no qual o país
ainda estava imerso. Surpreendentemente, a música passaria incólume pela
censura prévia e se tornaria uma espécie de hino da resistência à
ditadura. Depois de vender cerca de 100 mil cópias, a canção é
censurada, o disco é retirado das lojas e até a fabrica da gravadora é
fechada. Para o público, não havia dúvidas: o "você" da música era o
general Emílio Garrastazu Médici, então presidente da República, em cujo
governo foram cometidas as maiores atrocidades contra os opositores do
regime. Ao ser interrogado sobre quem era o "você" da canção, Chico
responde: "É uma mulher muito autoritária". Após este episódio, o cerco
às suas composições endurece.
Participa
do Circuito Universitário, com shows promovidos pelos centros acadêmicos
das universidades por artistas com dificuldades em mostrar seu trabalho
nos meios de comunicação.
De volta ao
Brasil do exílio, fez música para cinema e gravou um de seus discos mais
bem-sucedidos, "Construção". Várias de suas composições e peças de
teatro tiveram problemas com a censura na época da ditadura militar, e
chegou a usar o pseudônimo Julinho de Adelaide para assinar algumas de
suas músicas, como "Acorda, Amor".
Em 1998 foi
enredo da Mangueira, que ganhou o desfile daquele ano. Em 2001, Chico
lança o DVD “As cidades”. Além do show "As Cidades", filmado em
película, o especial traz cenas captadas no Rio de Janeiro e
em Buenos Aires. Entre
as participações especiais estão Jamelão, a Velha Guarda da Mangueira e
Maria Bethânia.
O CD Duetos
é lançado em 2002 e reúne 14 das mais de 200 participações de Chico
cantando com outros artistas. Participaram do CD: Marçal, Ana Belén,
Nara Leão, Zeca Pagodinho, Sergio Endrigo, Nana Caymmi, Johnny Alf,
Pablo Milanés, João do Vale, Dionne Warwick, Miúcha, Tom Jobim e Elba
Ramalho.
O DVD
“Chico ou o país da delicadeza perdida” é lançado em 2003. Neste
trabalho, Chico Buarque estreou para a televisão francesa em 1990. Após
8 anos sem gravar um disco de inéditas, Chico Buarque lança o CD
“Carioca” em 2006. São 12 faixas, algumas em parceria com artistas como
Edu Lobo, Ivan Lins e Tom Jobim.
4- Publicações, depoimentos e entrevistas

Entrevistas, artigos, depoimentos, reportagens e textos do próprio
compositor revelam o olhar de amigos, parceiros, imprensa e dele mesmo
sobre sua vida e sua obra:
"...Palmas pra ala dos barões famintos, o
bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do bulevar. Meu Deus, vem
olhar! Vem ver de perto uma
cidade a cantar. A evolução da liberdade até o dia clarear. Ai, que vida
boa, olerê. Ai, que vida boa, olará. O estandarte do sanatório..."
(Chico Buarque)
O músico do século
Istoé
- 28/02/99
Todos
os sons
Estamos publicando a biografia dos
20 músicos
do século. Esse é o segundo fascículo do projeto O Brasileiro do Século,
que começou com a eleição do esportista mais destacado. Convém lembrar
que a indicação dos vencedores obedece a um rigoroso processo. Primeiro,
um júri de
30 personalidades
indica 30 destaques. A partir dessa lista, o leitor é convocado a
escolher os premiados, indicando sua preferência numa cédula encartada
em ISTOÉ.
Se a
escolha do esportista do século foi polêmica porque ficou
polarizada entre Ayrton Senna e Pelé (com a vitória de Senna), o prêmio
da Música, certamente, causará muita discussão por razão oposta: o
excessivo número de candidatos. Como explicar o fato de Chiquinha
Gonzaga e Carmen Miranda ocuparem as duas últimas posições desse seleto
grupo, se não pela juventude do eleitorado? No mesmo caso se enquadram
Cartola (representando a nobreza do samba dos morros cariocas) e
Lupicínio Rodrigues (o mestre da canção da dor-de-cotovelo). É de se
louvar o reconhecimento a Villa Lobos, um erudito que ganhou um lugar
merecido na memória popular.
Entre
os contemporâneos, a briga foi acirrada. Na apuração dos votos que
chegavam à redação de ISTOÉ, o primeiro lugar foi ocupado sucessivamente
por Chico Buarque, Tom Jobim e Roberto Carlos, entre outros, indicando
que o resultado final seria apertadíssimo. O leitor, ao final, escolheu
Chico, com 76,48% dos votos. Se a soma dos percentuais de todos os
indicados é superior a 100, a explicação é simples: cada cédula tinha
dez nomes assinalados, e não apenas um. Chico Buarque recebeu o voto de
76,48% dos leitores e muitos (a maioria) deles também votou em Tom
Jobim, por exemplo, que abocanhou 73.78% das indicações.
4.1 – Depoimentos
Folha de
São Paulo - 19/10/1991
O
historiador escreve sobre seu filho Chico Buarque
Sérgio
Buarque de Hollanda
A imagem
que o público fixou de meu filho não é correta. Para o público, Chico é
tímido (antes de tudo, tímido), bonzinho, retraído. Nada disso. Pelo
menos em família e com os amigos, é completamente diferente, um rapaz
brincalhão, extrovertido, bem para fora. Quando ele aparece em público,
torna-se diferente. Talvez seja o medo de parecer ridículo. Mas podem
crer, ele não é tímido, nem bonzinho. É, sem dúvida, uma boa pessoa. Mas
não bonzinho, no sentido em que esta palavra é interpretada. Quando
criança, jamais foi um rebelde. Posso assegurar que se tratava de uma
criança normal.
Procurava
sempre ser independente. E essa independência ele afirmava, procurando
fazer tudo o que faziam os irmãos mais velhos. Nem um "amor de criança",
nem um "enfant terrible". Normal. Não era nem ligado ao pai nem à mãe.
Dava-se bem com todos. Com as irmãs, tias e avós. Quando viajamos para a
Itália (nesse tempo tinha 8 anos), deixou para avó um bilhete: "Avó, vou
para Itália. Quando eu voltar, provavelmente a senhora estará morta. Mas
não se preocupe. Eu vou me tornar um cantor de rádio. É só a senhora
ligar o rádio do céu que vai me escutar".
Desde
menino, sempre se interessou por música e futebol. Jogo, não perdia uma
irradiação. Seus ídolos eram Telê, do Fluminense, e Pagão, do Santos. Na
Itália, torcia pelo Genoa. Da música popular, seus ídolos eram Ismael
Silva, Caymmi e Ataulfo Alves. Mas tarde, João Gilberto, de quem
procurava imitar o estilo. Não acredito que Noel exerça influência sobre
Chico. A maior semelhança entre os dois é a temática: urbana. Caymmi,
Ataulfo e Ismael marcaram mais que Noel. Chico também não é um
compositor de classe média, como afirmam por aí. Não há dúvida, Noel e
Chico também se assemelham um pouco, porque ambos enfocam temas urbanos.
Nada mais. Aliás, há no Brasil uma mania de Noel! Qualquer compositor
que surge é imediatamente comparado com o grande criador carioca. Creio
que há um pouco de exagero em tudo isso.
Quando
surgiu a bossa-nova, Chico se encontrou com ela. Apreciava muito João
Gilberto e ouvia-o seguidas vezes. Vinícius, muito amigo da família,
aparecia sempre em festas e Chico ficava a ouvi-lo, com grande
admiração.
Desde cedo, Chico já tinha namorada. Sempre foi muito vivo e alegre.
Jogava futebol nas ruas, como todos os garotos de sua idade. Quanto aos
estudos, dedicava-se a eles principalmente às vésperas de exame.
Estudava duas ou três horas seguidas, depois cansava e ia se divertir.
Em 1962, quando terminou o curso científico, foi orador da turma,
provocando muitas risadas com seu discurso cheio de humor.
O sucesso não o mudou essencialmente,
chateia-o um pouco, apenas. Hoje, não pode sair às ruas sem que lhe
venham pedir autógrafos. Para ir à praia, há dificuldades, só
em São Conrado. Bem
longe. Continua fiel aos amigos, embora não tenha muito tempo para se
dedicar a eles. Assim que chega a são Paulo, telefona para todos,
organiza noitada com eles. Chico sempre viveu em bando, com muitos
amigos, uma verdadeira turma. Sua formação é, sem dúvida, paulista.
Nasceu no Rio, mas quando completou 2 anos, mudamos para São Paulo.
Aqui, passou toda sua infância. Preferiu fazer o científico porque
achava que o curso clássico era coisa de mulher. Dado momento, escolheu
um ramo bem aproximado do artístico: arquitetura. Ficava em casa criando
cidades imaginárias. Todas tinham uma fonte no meio da praça: lembrança
das fontes de Roma, onde moramos algum tempo. Chico, em vez de começar a
falar, cantou. Desde que tentou se expressar foi através da música. Mas
tarde, ficava com as irmãs aí pela sala, inventando música. Dizia que já
que não conhecia de cor música de outros compositores, era obrigado a
inventar as próprias. O sucesso veio de repente, sem que ninguém
esperasse. Recebi a notícia de que Chico tinha ganho o Festival de
Música Popular Brasileira com "A Banda", quando estava
em Nova York. Um jornal norte-americano publicou a
notícia. Claro que me senti muito orgulhoso. Cheguei à conclusão - o que
uma revista publicou na época - de que, antes, ele era meu filho. E
depois do festival eu passei a ser o pai dele. Não há posição melhor.
Têm surgido boatos por aí, de que eu componho as músicas para ele. Mas,
meu Deus, quem sou eu para ter tanto talento? Se eu soubesse escrever
músicas como ele, há muito tempo não seria eu mesmo, mas Chico Buarque
de Holanda. São boatos sem fundamentos, como muitos que vão por aí. Como
essas notícias que circulam, afirmando coisas que jamais afirmamos. Um
jornal carioca publicou que, após ver a peça "Roda Viva", eu tinha dito:
"eu sabia que havia tudo isso aí dentro do meu filho". A frase talvez
pudesse ter sido dita por mim, mas que não disse, não disse. Das suas
músicas todas, gosto mais de "A Banda", "Pedro Pedreiro", "Roda Viva" e
"Carolina". Nunca me esquecerei do dia em ouvi "A Banda" pela primeira
vez,
em Nova York, na casa de um amigo. Foi uma grande emoção. Não
obstante todo o sucesso, o qual não lhe provoca muito prazer, é bem
capaz de Chico largar tudo isso e partir para uma outra coisa qualquer,
bem diferente. Ele é bem capaz disso. Muito inquieto. Muito inteligente.
Sempre gostou muito de ler. Guimarães Rosa é um de seus autores
preferidos. Quando fez "Pedro Pedreiro", inventou uma palavra: penseiro.
Talvez inspirado
em
Guimarães Rosa, que também era dado a inventar palavras.
Tolstoi e Dostoiévski também eram seus favoritos. Assim como Kafka. Em
geral, ele ia lendo tudo o que caía em suas mãos. A música é responsável
por ele ter abandonado o curso de arquitetura, decisão que tomou
sozinho. O sucesso abriu uma impossibilidade de estudar. Excesso de
compromissos, solicitações. Creio que, na música, ele se realiza mais,
se torna muito mais feliz. É preferível um compositor realizado, que um
arquiteto frustrado, como todo mundo sabe. Quando vai compor, geralmente
fica isolado, no quarto, sozinho. A música e a letra sempre nascem
juntas, uma ligada à outra, indissoluvelmente. Encontrou grande
dificuldade em musicar "Morte e Vida Severina", porque a letra não era
sua. Desde que aprendeu a tocar violão, com sua irmã Heloisa, hoje
casada com João Gilberto e morando em Nova York, nunca mais deixou de
compor. Sua adolescência foi normal, sem nenhum conflito especial. Posso
considerá-lo um rapaz feliz. Suas primeiras composições falavam de amor.
Mais tarde, quando ingressou na faculdade, passou a fazer música de
participação, sendo que a primeira foi "Pedro Pedreiro". A família ficou
um pouco tonta com o sucesso tão fulminante, tão rápido. Mas já nos
acostumamos. Chico é que não se habituou a ele. Ficou muito contente de
ter ido a Paris, porque ninguém o conhecia por lá. Talvez o sucesso
tenha provocado uma espécie de defesa, tornando-o um pouco retraído. De
fato, meu filho não é tímido. É bem diferente a imagem que temos dele.
Trata-se de uma pessoa normal, alegre, sem problemas graves de
personalidade. Eu sei o que eu estou falando. Sou seu pai há 23 anos.
4.2 - Entrevistas

Revista
Manchete - 1978
Texto
de Renato Sérgio
Entrevista a Ivandel Godinho Jr.
Chico
Buarque está aí, outra vez, para os Caros Amigos, preparando uma comédia
musical (O dia
em que Frank Sinatra
veio ao Brasil) e um filme baseado em sua peça Gota d'Água.
Parece
mentira, mas já tem gente jurando que o homem secou. E argumentando:
como é que pode, alguém tão fértil (três filhas e tantas músicas,
teatro, disco, livro, televisão, cinema, show, tudo) não ter lançado uma
grande novidade durante o ano inteiro? Pois, modestamente, qualquer um
pode contra-argumentar que ele anda meio estéril
apenas porque está usando toda a sua fertilidade na feitura de uma
comédia musical chamada "O Dia
em que Frank Sinatra
Veio ao Brasil". E também — bomba, bomba! — nos primeiros rabiscos do
roteiro de um filme baseado na sua peça "Gota d'Água". Portanto, o homem
não secou coisa nenhuma. É intriga da oposição. Aliás, muito pelo
contrário, continua mandando bala por aí. Exemplo? Está gravando um
disco para crianças.
Me
alimentaram / Me acariciaram / Me aliciaram / Me acostumaram / O meu
mundo era o apartamento / Detefon, almofada e trato / Todo dia
filé-mignon / Ou mesmo um bom filé de gato / Me diziam todo momento /
Fique em casa e não tome vento...
A música
chama-se História de uma Gata. Adaptação de uma melodia do italiano
Sérgio Bardotti para uma peça infantil baseada num conto dos Irmãos
Grimm. Sílvia e Helena — as mais velhas de suas três filhas — fazem
parte do coro, ao lado das vozes de Miúcha — irmã de Chico —, Rui e
Magro, do MPB4...
mas é
duro ficar na sua / quando à luz da Lua / Tantos gatos pela rua / Toda a
noite vão cantando assim / Nós gatos já nascemos pobres / Porém já
nascemos livres / Senhor, senhora, senhorio / Felino não reconhecerás.
Chico vem
acompanhando atentamente as gravações. Há pouco mais de um mês ele
esteve naquele mesmo estúdio, para os últimos retoques no seu mais
recente disco, "Caros Amigos", já um tremendo sucesso de vendagem,
apesar de não ter nenhuma música inédita.
Chico
Buarque de Hollanda. Aos 32 anos de vida, 10 de carreira, não tem quase
nada a ver com o mocinho meigo que fez a Banda passar. A começar pela
aparência física. E pelo violão, antigamente sempre presente, que agora
dá lugar aos livros e aos muitos papéis rabiscados. Em comum, nos dois
Chicos, apenas a timidez. E a eterna graça carregada de crítica.
De
manhã eu voltei pra casa / Fui barrada na portaria / Sem filé e sem
almofada / Por causa da cantoria / Mas agora meu dia-a-dia / É no meio
da gataria / Pela rua virando lata / Eu sou mais eu / Mais gata / Numa
louca serenata / Que de noite sai cantando assim / Nós gatos já nascemos
pobres / Porém já nascemos livres / Senhor, senhora, senhorio / Felino
não reconhecerás.
"Se a gente
comparar minhas atividades atuais com as de 10 anos atrás, vamos
encontrar muitas diferenças. Antes eu viajava pelo Brasil inteiro,
apresentando shows em todos os cantos. Hoje meu ritmo de vida é
diferente, mesmo porque não agüentaria o ritmo antigo. Então eu admito
uma tendência em me concentrar mais no ato de criação, ou seja, o astro
estaria desaparecendo para dar lugar apenas ao criador. Realmente, não
pretendo me apresentar em público tão cedo. Mas isso pode ser também um
estado cíclico, não posso garantir que seja
definitivo. De qualquer forma, mais do que
nunca estou concentrado no processo criativo. Um pouco porque estou
cansado de shows, um pouco porque estou me sentindo predisposto a esse
tipo de trabalho. E um pouco por causa do meu próprio temperamento: fico
sempre numa posição nada confortável em relação ao público e acabo me
desgastando, sofrendo. E, além do mais, tenho mais prazer, ultimamente,
com um trabalho criador. Como aconteceu, por exemplo, com o livro
Fazenda Modelo. Às vezes trabalhava até 12 horas por dia e com um enorme
prazer. Só não escrevo outro livro agora porque não tenho uma boa idéia.
Se tivesse, largaria tudo para me dedicar apenas a ele. Posso até
garantir que compor uma música me dá um prazer que não dura tanto quanto
escrever um livro ou uma peça de teatro."
— No
momento você está escrevendo uma comédia, quase teatro de revista, como
você mesmo diz. Não é esquisito que isso aconteça depois de uma peça
altamente politizada, polêmica, como "Gota d'Água"?
— "É
justamente por ter vindo de uma tragédia que quis dar uma refrescada. Só
que a comédia que está sendo escrita agora não chega a ser
inconseqüente. E uma sátira social, cheia de ironias. Não há o simples
propósito de fazer rir. E tem mais uma coisa: quem observar bem "Gota
d'Água" vai ver que há uma grande parte de comédia nela. E foi
justamente — isso é engraçado — a parte mais atingida pela censura.
Agora, o importante é que eu não sou escravo de imagem nenhuma. Não
carrego nenhuma bandeira e não sou herói. E faço questão de
desmistificar isso. Meu único compromisso é com a cultura brasileira."
— Já
que não é uma comediazinha, você não tem medo que a peça seja proibida?
"Quando
estou trabalhando nunca penso na presença da censura. Faço o que acho
certo, eles que cortem depois, se discordarem. Além do mais, de nada
adiantaria eu me vigiar, porque ninguém pode adivinhar os critérios de
julgamento dos outros. Quero é terminar a peça para entregá-la, logo ao
Paulo Pontes. Com "Gota d'Água" foi o contrário: o Paulinho escreveu
primeiro e eu fiz, depois, as alterações que achava convenientes. No
caso de "Frank Sinatra", nós resolvemos mudar. Como eu estou mais ligado
à música e a peça será musical, eu escrevo tudo primeiro. Depois ele vai
mexer no que achar necessário."
—
Novos planos de trabalho da dupla para mais tarde?
— "O
Paulinho é um cara cheio de projetos. Então, é muito entusiasmante
trabalhar com ele. E já há uma idéia concreta de se filmar "Gota d'Água",
coisa que eu revelo só agora porque só agora é um projeto materializado.
Só está faltando encontrar a produção. Ao contrário da peça, o filme
será totalmente musical. Inclusive estou disposto a escrever novas
músicas o sobre o tema, para usar no filme. O roteiro será meu e do
Paulo, também. Não pretendemos entrar na produção, primeiro porque um
filme como a gente imagina vai custar um dinheiro que nós não temos,
segundo porque encerrei minhas atividades de produtor depois que investi
em "Calabar" e a peça acabou sendo proibida. Quem vai escolher os atores
é o diretor, Leon Hirschman, mas posso adiantar que pelo menos Bibi
Ferreira estará no elenco."
— E
que tal a sensação de lançar um disco como "Caros Amigos" e antes mesmo
dele chegar ao público já ter vendido 100 mil cópias?
"Soube que
ele está vendendo muito, mas apenas por informação de bastidor. Do
vizinho que disse, do amigo que ouviu falar. Eu mesmo, quando fui
comprar o disco pra mim, ouvi do vendedor: "Olha, está vendendo
horrores!". Fico contente porque foi um trabalho do qual gostei. E
espero, aliás, que ele continue vendendo. Na verdade, nesses 10 anos de
carreira, me acostumei a tudo. Tive altos e baixos. Hoje estou com uma
peça em cartaz fazendo sucesso, estou escrevendo outra, e meu disco está
saindo.
Mas já
passei por outras situações bem menos agradáveis. Teve, por exemplo, um
tempo em que fui morar na Itália e senti vontade de largar tudo. Aí
entrei para balanço. E vi que se minhas músicas incomodavam é porque
elas tinham alguma coisa para dizer. Quando voltei, estava mais forte."
— As
notícias que chegaram aqui é que desta outra vez que você esteve na
Itália, o sucesso, foi enorme.
"Foi. Sem
exagero nenhum. Mas o sucesso não foi só meu, foi da música brasileira.
Do Jorge Ben, do Gil, da Betânia. De todos os brasileiros que se
apresentaram no Teatro Sistina de Roma. E as críticas foram
espetaculares. Lembro-me de que, quando morava na Itália, apenas uma
pequena elite é que curtia a nossa música. Hoje é um público bem mais
diversificado. Dessa vez havia uma média diária de 1.400 pessoas. Eu
levei um susto. E é preciso salientar que as músicas eram cantadas em
português, no original. E quando eu morei lá, tinha de traduzir tudo
para o italiano. Isso quer dizer que há alguma coisa no ar, que os
empresários brasileiros deveriam aproveitar. Pra dar uma idéia do
interesse que há pela música brasileira por si, basta dizer que entre o
dia de minha apresentação e a do Gil, havia um intervalo. Então, os
organizadores apresentaram um conjunto espanhol ou francês, não me
lembro direito. E disseram que era música brasileira. O teatro lotou
também. Eu devo voltar para lá, em março ou abril, para gravar um disco
de músicas minhas com a Ornella Vanoni. Como ela fez com as músicas do
Vinícius. Aliás, acho que o Vinícius e o Toquinho é que foram os
responsáveis por essa euforia italiana com relação à música brasileira."
— E
porque você se limitou à Itália?
"Quando
terminaram as apresentações em Roma recebi convites para me apresentar
em Paris. Mas recusei. Estava muito cansado. Afinal, uma das
razões da minha ida era descansar. Tirar umas feriazinhas. E foi o que
fiz. Aluguei um carro e andei por tudo quanto é lado, com a Marieta,
minha mulher. Conheci Amsterdã e vi filmes que não vão passar aqui. Foi
ótimo. Voltei tranqüilo. Pronto para enfrentar o trabalho. E ver meu
Fluminense brilhar".
O Estado de
São Paulo/Caderno 2 - 29/06/05
“Tenho medo
de me tornar um idiota"
Aos 60
anos, Chico Buarque fala sobre ser escritor e músico, considera oca a
fama de sexy e rejeita o título de ícone
Ima Sanches
La Vanguardia
"Tenho 60
anos. Nasci e vivo no Rio. Estou separado e tenho três filhas, duas
netas e meia, e um neto: Chico. Sou um democrata que ainda acredita na
possibilidade de um socialismo democrático. Já tivemos quase duas
décadas de idiotice globalizada. Sou ateu. Publico Budapeste na
Salamandra em castelhano e na
La Magrana em catalão."
Uma vida
rodeado de mulheres. Sim, irmãs, filhas, netas.
O que
aprendeu com elas?
Continuo
com a curiosidade intacta, com o mesmo desconhecimento e esta estranha
admiração. Sempre me surpreendem e suas opiniões me interessam mais que
a dos homens.
Você
encabeça a lista dos homens mais sexys do Brasil.
Isso é ridículo, e essa lista é ridícula. Tenho 60 anos, percebe?
Sempre
fugiu da fama?
Não,
participei de festivais e busquei o reconhecimento para meu trabalho.
Mas logo aparece a fama boba, oca, que é a sombra do reconhecimento e
que fala se o artista está gordo ou com quem vai para a cama. Há 40 anos
não era assim.
Ficávamos
bêbados em Ipanema dizendo coisas absurdas, mas não saía na imprensa.
Hoje, alguém vai ver uma partida de futebol e vem o jornalista lhe
perguntar como está a partida. Isso não me agrada.
Mas é
o que vende.
Tem gente que persegue essa fama que não corresponde a nada. É
insólito.
Nunca vi um
movimento geral de idiotice como o de agora. Mas em meu país, de 15 anos
para cá, vem crescendo perigosamente. A idiotice nos rodeia, eu mesmo
tenho medo de me tornar idiota...
Pense
bem...
Talvez tenha razão. Tudo seria mais fácil, nada me surpreenderia e
poderia dar entrevistas sem escrever livros.
Sim, sim, anuncio que vou escrever um novo livro e passo dois anos dando
entrevistas. Depois falo do livro que não saiu. E assim passa a vida.
Hoje é possível viver de feira literária. Há festivais a cada semana em
alguma parte do mundo. E agora que finalmente sou escritor...
Custou-lhe três livros.
Sim. Agora
já me consideram como tal e posso viver me fazendo de turista literário;
certamente conseguiria ser muito mais conhecido como escritor do que sou
hoje sem necessidade de escrever mais livros.
Falemos de épocas mais intensas.
Não sou
nostálgico, não penso que éramos mais bonitos, mais magros e mais
felizes, embora tudo isso seja verdade. Não me agrada recordar nem os
anos 60 nem os 70, dos 80 não me lembro, e nos 90 começou a idiotice.
Nunca estive de acordo com o que me cercava. Me agrada estar vivo, fazer
as coisas em meu ritmo, sem pressões.
Em fins de
68 começou a verdadeira censura e a perseguição aos opositores do
regime, políticos, simples artistas ou fumadores de maconha. Isso tudo
era preciso combater e nós, os artistas mais populares, o fizemos com a
música, com prejuízo para a qualidade artística.
Você
vivia sendo preso.
Como todos,
mas saía sempre. Só dormi na prisão quando era menor de idade e roubava
carros.
Um
filho de ilustre historiador e sociólogo roubando carros?
Sim,
roubávamos carros para circular pela cidade e quando acabava a gasolina
os largávamos. No dia seguinte fazíamos o mesmo, assim até que me
pegaram. Mas durante a ditadura me chamavam ou vinham me buscar e me
levavam para perguntar por que havia cantado isso ou aquilo.
Chegou
a ter medo?
Quem tem
c... tem medo. Recebia ameaças, cartas. Hoje tem gente no Brasil que tem
medo de outras coisas e vive cercada de guarda-costas, sobretudo os
famosos, porque ter guarda-costas o torna ainda mais famoso.
Você é
um ícone da música; poderia ter dois ou três.
Não me agradaria ser ícone, soa fatal. Chegaram a me chamar de monstro
sagrado, que medo!
Para
quem escreve as letras de suas canções?
São "cantadas" para mim mesmo: é formidável, experimente, diga-se coisas
bonitas. Me lembro de Vinicius de Moraes, que quando viajava sozinho e
tinha sonhos se cantava canções de ninar e passava a mão no rosto até
adormecer. Eu tentei e não funcionou.
Você é
um insone?
Sim, por
isso sempre trabalho de noite, o que é fatal para o insone. Quando
consigo dormir, escrevo música em sonhos. Compus coisas maravilhosas,
mas logo percebi que eram de outros.
Por
que está há seis anos sem se apresentar?
Lancei o
disco, fiz um ano de concertos, depois lançaram o disco do concerto do
disco, e depois o disco do disco do concerto do disco... Em seguida
colaborei em teatro, escrevi o livro e agora estou aqui com você.
Como é
a sua mãe?
Tem 95 anos
e repete constantemente, "Juízo e alegria!", e eu lhe digo: "Mamãe, ou
juízo ou alegria." Meu pai era um sonhador e ela equilibrou seu lado
boêmio, impunha a disciplina mas com muito sentido de humor, com isso:
com juízo e alegria. Sete filhos!
O que
significou para você trazer filhos ao mundo?
É formidável. Quando nasceu a primeira eu tinha 24 anos, era quase uma
irresponsabilidade. Mas as três são melhores que seu pai e creio que se
cada um de nós pudesse dizer isso, se Bush o dissesse, por exemplo, em
30 anos teríamos um mundo melhor.
Tom Jobim
Folha
de S. Paulo - 18/06/94
Jobim
chama compositor de "gênio da raça"
O compositor Tom Jobim, que Chico Buarque qualifica de "mestre soberano"
na canção "Paratodos", rende reverência ao seu "discípulo".
Sensibilizado com a homenagem, Jobim retribui com eloquência: "Para o
Brasil, é uma coisa muito boa ter um Chico Buarque. Ele é um gênio da
raça, depositário da cultura popular brasileira. Grande poeta, grande
músico, grande letrista, grande escritor, grande tudo." "Eu nunca
pretendi ser mestre de ninguém. Nem formado sou. Abandonei Arquitetura
no primeiro ano, Chico, no último. Nem topógrafo, como ele, posso ser."
Mas Jobim
não nega a ascendência sobre o compositor. "Chico bebeu em todas as
fontes, Pixinguinha, Noel Rosa, Vinícius de Moraes, mas devo ter
influenciado um pouquinho." "Quando escuto meus garotos, que já são
esses cinquentões como Chico, Caetano e Gil, alguma coisa lembra a minha
música. Para mim, essa é a nova geração. Depois, vou perdendo o
referencial."
O compositor recorda 11 parcerias com Chico, "alguma coisa mais para
filmes, outra que eu esqueço".
Uma dessas
parcerias poderá ser conferida no próximo disco de Jobim, que será
lançado em julho ou agosto.
Chico
assina a letra de "Piano na Mangueira", música de Jobim. Desta forma, a
parceria funciona desde os anos 70.
"Mas o
Chico não precisa de mim para nada. Fui eu quem o procurou há um quarto
de século para botar letra em uma música que ia concorrer no Festival
Internacional de Canção", lembra.
"Sou um
parceiro bissexto. Chico é um homem muito ocupado, eu também. Minha
relação com Chico é muito mais de amizade do que puramente musical."
Jobim conta que a relação entre os Buarque de Hollanda e os Paes Leme,
de quem descende, começou antes da amizade com Chico. "Meu pai e o dele
já se conheciam, não sei se eram amigos, mas freqüentavam o mesmo
ambiente literário."
Entrevista, por Geraldo
Leite:
"...Os
momentos bons e as horas más que a memória coa..." (Rádio Eldorado -
27/09/89)
Pra
começar, pedimos ao Chico para falar sobre a música popular e por que é
tão expressiva no Brasil?
Olha, eu,
como estou dentro da música, nem me sinto muito à vontade de fazer uma
comparação desse tipo. Fora daqui, na Europa, nos Estados Unidos, a
música brasileira, a música popular brasileira tem consumo. Ela goza de
um conceito muito alto. Eu não poderia comparar com outras artes para
não ficar indelicado. Mas se chegou até a um casamento feliz, como
aliás, eu tenho impressão que só acontece nos Estados Unidos e em Cuba.
O casamento, quer dizer, a mestiçagem que gera a música brasileira, que
é semelhante à mestiçagem que gera o jazz e toda música caribenha. O
casamento entre a música e a letra, a formação européia dos nossos
letristas, isso vem de muito tempo. A formação européia dos nossos
melodistas, mas basicamente o ritmo. Os ritmos brasileiros é que dão um
cunho muito especial à música popular. Acontece, como eu disse, aqui
como lá nos Estados Unidos, como no Caribe. Você não vê esse mesmo
casamento, essa mesma harmonia em músicas onde há menos presença do
negro. Nos países andinos, por exemplo, tem a música popular, mas, ao
nível internacional, ela não tem o pique que tem a música brasileira.
Na música
brasileira esse elemento negro é fundamental. E a forma como ele entra,
como ele se casa com os outros elementos que compõem a música. Eu vejo
por aí.
No Brasil,
a música popular... se você quiser considerar a música como música pura,
vai levar desvantagem em relação à música mais elaborada, à música de
vanguarda, à música erudita, porque recolhe elementos dessa música e
assimila esses elementos, e produz junto com a letra, que também não é
uma poesia, produz uma obra de arte única.
Eu não sei
se as pessoas, tanto os criadores como os críticos, têm consciência
disso. É uma opinião minha, pessoal. Em relação ao meu trabalho e de
outros compositores, sempre falam muito nisso: "Ah, precisa publicar as
letras e tal." Eu resisti sempre a isto porque me parecia sempre que era
mutilar o resultado final que é a procura desse casamento entre música e
letra.
Esse
casamento já está na tradição da música brasileira. Na música brasileira
dos anos 30, 40, aquela que eu ouvia quando era garoto, nos anos 50 com
Dorival Caymi, sem falar
em Noel Rosa, Ari Barroso, isso já existia. Tanto assim que
eu acho que o pai da minha geração é o Vinícius de Moraes, o poeta do
nosso pai é o Vinícius, que a certa altura renunciou um pouco à poesia
erudita e foi fazer música popular, e foi muito criticado por isso. Mas,
eu acho que ele tinha essa visão, não estava renunciando a uma coisa
maior em troca de uma coisa menor. Não, estava, simplesmente, se
dedicando a uma outra tarefa, tarefa não é a palavra boa, mas a outra
arte.
Chico
fala agora de suas primeiras preferências musicais:
Engraçado, eu fui descobrir Dolores Duran,
o samba-canção, essa coisa toda, não exatamente na época que isso fazia
muito sucesso. Eu nem gostava tanto assim, não. Eu gostava mais que tudo
da música americana. E gostava da música brasileira... gostava de música
de carnaval, gostava de ritmo. Era um garoto. Queria pular, queria
dançar. Então, o samba-canção e muito bolero que tocava nos anos 50 não
me dizia muito não. Eu fui recuperar isso um pouco mais tarde, porque...
até harmonicamente têm coisas muito interessantes nessas músicas, nas
canções dos anos 50. O próprio Tom Jobim, que eu não conhecia, fui
conhecer o Tom a partir da bossa-nova. Mas a época dele pré bossa-nova
também é muito interessante. Mas a mim não dizia grande coisa não. Eu
adorava rock, adorava Elvis Presley. Na música brasileira eu gostava,
sobretudo, das músicas de carnaval, das marchinhas e dos sambas de
carnaval. Porque naquela época tinha isso, as músicas de carnaval
tocavam só na época do carnaval, depois o que se tocava era isso,
samba-canção e bolero. Havia um contraste muito grande entre o que se
executava em rádio entre dezembro e o carnaval. A partir daí, a quaresma
era uma quaresma musical mesmo. Você só ouvia canções lentas. (Chico
Buarque)
A seguir Chico fala de
seus compositores prediletos:
Noel Rosa, sem dúvida, Ismael, Wilson Batista,
Geraldo Pereira. Em outra linha: Custódio Mesquita, Ari Barroso e outros
que estou me esquecendo agora. (...) Eu citava Noel no samba A Rita. Eu
fiz algumas canções à maneira de Noel. Claro que Noel me marcou muito.
Mas eu queria dizer: também tem o Ismael. Eu gosto tanto de Ismael
quanto de Noel. Mas eu não posso negar que Noel, pra mim, representou
uma influência mais forte até do que o Ismael. Mas eu queria fazer
justiça: Ismael estava aí vivo e esquecido. Ismael eu conheci muito, era
um grande personagem. Noel era uma lenda pra mim. Conviver mesmo eu não
diria. Porque a vida que eu levava, a chamada roda-viva, pra cima e pra
baixo. Eu me encontrava com eles muito naqueles programas da TV Record
que juntava essa gente. Eu convivi bastante com o Ciro Monteiro, com o
Ismael. Mas principalmente com o Ciro Monteiro. Aí entram motivos
extra-musicais. A gente ia junto pro Maracanã. Ele era flamenguista, eu
era tricolor. Motivos gastronômicos também, porque tinha um feijão que a
mulher dele fazia, a Lu, que era uma maravilha. Ele tinha isso de reunir
muita gente na casa dele. Vinícius era muito amigo dele também. Com o
Ciro eu convivi bastante. Os outros não. Eu cruzava muito com Ataulfo
Alves, que era outra antiga admiração minha. Tenho músicas feitas a
la Ataulfo, pelo menos uma claramente, que é Quem te viu,
quem te vê. A gente se cruzava nos bastidores do Teatro Record. (Chico
Buarque)
4.2.1 - Influências
Chico
fala sobre sua relação com o poeta Vinícius de Moraes e diz que
tinha já um carinho pessoal por ele. Mas isso não interferiu tanto. Ele
conheceu Vinícius quando era criança. Mas passou a ser fã de Vinícius a
partir da bossa-nova. Foi aí que se interessou:
Eu não lia muita poesia. Acho que eu não
conhecia o poeta Vinícius de Moraes. Eu conhecia o boêmio e compositor
Vinícius de Moraes, amigo lá de casa, e a partir de Chega de saudade
passei a conhecer. A bossa-nova foi que desencadeou a minha paixão pela
música popular e a paixão da minha geração inteira. É um ponto comum de
referência de todos nós. É João Gilberto, é Tom Jobim e é Vinícius.
Virou uma página mesmo. Foi a partir daí que eu comecei a me interessar
pelo violão e querer fazer música mesmo. Eu gostava muito de musica. Mas
eu seria talvez um arquiteto que gostasse de música. (Chico Buarque)
Conheceu
João Gilberto acho que em Nova Yorque. (...) Ele gravou Retrato em
branco e preto bem mais tarde. Não faz tanto tempo. Há menos de 10 anos.
Acho que já faz dez anos que eu não vejo o João Gilberto.
Chico
fala sobra a possível influência dos Beatles:
Era, mas não tanto. Eu conversei isso outro dia
com o Djavan, que é pouco anos mais novo que eu, apesar daquela cara de
garoto, não é tão mais novo assim. Os Beatles pra ele representaram o
que a bossa-nova foi pra mim. Existe uma idade, 15, 16 anos, quando você
está aberto pras novidades musicais. Quando apareceram os Beatles eu já
estava fazendo minha música. É claro que eu gosto dos Beatles, mas não
teve o mesmo impacto que teve pra mim a bossa-nova. Ela me pegou veia,
no momento certo, na idade exata da definição até profissional minha.
Foi João Gilberto, foi a bossa-nova. Os Beatles já me pegaram dentro do
bonde. Eu já estava fazendo música. (Chico Buarque)
Chico
fala agora sobre a presença da música estrangeira no Brasil e do fértil
período da bossa-nova:
Nos anos 50 eu ouvia, sobretudo, música
estrangeira, e gostava de música estrangeira. Você não pode recriminar o
jovem de hoje por gostar de rock. E não poderia fazer isso porque eu só
gostava de rock até o aparecimento da bossa-nova. Agora, também não foi
de graça que apareceu a bossa-nova. Não por coincidência, bossa-nova
apareceu num momento em que estavam germinando o Cinema Novo, os novos
movimentos de teatro no Brasil, a arquitetura de Oscar Niemeyer,
Brasília. Foi numa época em que havia uma euforia, um sentimento, não
vou dizer ufanista porque essa palavra foi descaracterizada mais tarde,
mas havia um sentimento nacional de orgulho bastante forte. Você era
brasileiro e gostava de ser brasileiro, e queria construir uma nação.
Isso foi abafado mais tarde, por motivos que todo mundo conhece. Vai ser
difícil, hoje, forçar, através de um decreto-lei, de uma proteção de
mercado, criar o mesmo espírito que resultou no aparecimento da
bossa-nova e dos outros movimentos de que eu falei em todos os setores
da cultura brasileira. (Chico Buarque)
Chico
fala agora da dificuldade do trabalho após 64 e de suas esperanças:
A partir de
64 a cultura brasileira esteve cerceada. Houve dificuldades em dar
continuidade aos projetos. Os movimentos eram encarados com suspeitas.
Acho que está na hora de aparecer gente nova. Inclusive porque tem gente
com muito talento, às vezes desperdiçado, querendo fazer coisas. Eu
tenho esperança, é claro, não sou pessimista. Tenho quase a certeza que
mais cedo ou mais tarde essa página toda da bossa-nova vai ser uma
página viradíssima. A bossa-nova existe até hoje. Volta e meia ela
renasce porque ainda é uma música moderna. Foi criada em cinqüenta e
poucos. Eu fico torcendo pra bossa-nova ser uma coisa do passado mesmo.
Antecipamos a solução de um problema que era esdrúxulo: a ausência de
relações diplomáticas entre Brasil e Cuba. São dois países muito ligados
atavicamente, culturalmente. (...) Havia motivos políticos até pra eu me
manifestar por isso, porque havia uma perseguição a tudo que dissesse
respeito a Cuba. Mas a minha aproximação foi mais até com os artistas do
que outra coisa. Havia a necessidade de se conhecer a cultura cubana,
mesmo porque eles também tinham muito interesse pela cultura brasileira
e havia essa barreira intransponível, ou quase. Eles conheciam tudo via
Paris. Conheciam os discos de música brasileira que eram editados
em Paris. Essas coletâneas misturando fulano e fulano.
Chegava lá ele sabiam mais ou menos quem era quem, não sabiam
exatamente. (Chico Buarque)
Chico
fala sobre as canções feitas de encomenda para alguns intérpretes:
É você tem que partir de alguma coisa. É um velho
tema: o papel em branco..." O que que eu vou escrever? Pra que que eu
vou escrever? Se você tem pelo menos "pra quem que eu vou escrever",
isso já ajuda. "Vou compor uma música pra GAL." É estimulante. Sou
apaixonado por ela. É uma cantora maravilhosa. Aliás, tenho que fazer
uma música pra ela nesses dias. Você acabou de me lembrar que eu tenho
que terminar a música. Pensando na maneira dela cantar, isso sempre
ajuda, estimula. Como é que eu vejo a Gal? Eu sinto a Gal tão claramente
aqui, na minha cabeça, que eu sei que tem uma música com cara de Gal.
Mas não sei te traduzir. (Chico Buarque)
Fala sobre
Nara Leão, Bethânia e Gal:
A Nara mais de uma vez até me ajudou um pouco
mais. A Nara me encomendava temas. Pelo menos uma vez ela encomendou.
Por exemplo: Com açúcar, com afeto foi uma canção que eu fiz pra ela sob
encomenda. Ela pediu: "Eu quero uma canção que fala que a mulher sofre,
a mulher espera o marido etc. e tal." Eu fiz pra Nara e pro tema exato
que ela pediu. Uma canção sob encomenda mesmo. Mas, normalmente, não
acontece isso não. As cantoras deixam a gente à vontade. O que ajuda e
não ajuda. A Bethânia é a mesma coisa que a Gal. Quer dizer,
inteiramente diferente, mas eu também sei o que que é uma canção pra
Bethânia. A Bethânia tem uma coisa teatral. Eu fiz muitas músicas para
teatro, as famosas canções no feminino que eu fazia pra determinados
personagens. Mas o personagem, às vezes, pra mim, não era tão claro
quanto quem iria cantar. Então, às vezes, eu pensava no ator ou na atriz
que iria cantar. Mas, às vezes, a atriz que iria cantar, iria cantar só
teatro, porque não era uma cantora profissional. Então, misturava, na
minha cabeça, a encomenda do personagem, a atriz e a cantora que eu
gostaria que gravasse aquela música. Então saíram canções como Folhetim,
que tinha a cara de Gal, que servia pro personagem, mas que eu já compus
pensando que a Gal iria cantar lindamente. (Chico Buarque)
Chico
fala sobre a versão de Cauby para Bastidores:
Bastidores
eu fiz pra minha irmã Cristina. Mas ele encarnou. É. Ele encarnou. Eu
lembro que eu estava pra viajar e um jornalista amigo meu, Tarso de
Castro, me pediu uma música para um disco do Cauby que ele estava
produzindo. Eu disse: "Não tenho nenhuma música nova. O que eu tenho é
isso aqui, que a Cristina gravou. Se ele quiser gravar..." Mas o disco
dele atropelou, acabou saindo antes e ele encarnou, como você disse.
Ficou sendo a música do Cauby. (Chico Buarque)
Buarque
fala que, quando chegava na hora do disco, muita vezes não tinha o
material pra completar um disco. E então era obrigado a pegar de volta
canções que tinha dado. Por exemplo, Olhos nos olhos ele gravou num
disco dele; O meu guri gravou, regravou na verdade nos próprios discos.
Ele só segura pra si, quando está, realmente, em cima da gravação:
Durante os dois três meses em que eu estou
gravando um disco eu tenho que ser um pouco egoísta. Aquela músicas que
eu compus ali, são pra mim, eu vou gravar no meu disco, são pra mim, e
eu não dou pra ninguém. Senão meu disco só sai com regravação, com
repeteco. E eu tenho a impressão que as pessoas compram o meu disco
pensando no compositor. Eu ainda sou considerado um compositor que canta
as suas músicas. E é natural que as pessoas esperem encontrar músicas
inéditas. (Chico Buarque)
Sobre sua
timidez, diz que não se apresenta em público com muita naturalidade. Tem
muito a sensação de super-exposição:
Eu tenho a impressão, a impressão não, eu tenho
certeza de que os grandes intérpretes usam uma espécie de uma máscara.
Eles são intérpretes. Na hora que ele estão no palco eles são
personagens. Eu cantei com Bethânia durante cinco meses no Canecão. É
impressionante a transformação da Bethânia quando ela entrava
em cena. Eu
estava com ela até cinco minutos antes no camarim e era uma pessoa. Daí
a pouco ela encarnava o personagem e entrava. E eu não. Eu levava pro
palco os meus problemas todos. Era uma extensão de quem estava no
camarim pouco antes. (Chico Buarque)
A
seguir, Chico comenta a nova mulher dos anos 70 e sua produção para
teatro:
Nos anos
70 a mulher deu um salto incrível em direção a sua própria liberdade.
Quando a Nara me pediu uma canção em 66, era da mulher submissa, não é à
toa. Mais tarde a mulher começou a sair e vieram os movimentos
feministas etc. Mas eu acho que essas canções são mais conseqüência do
meu trabalho pra teatro, onde por algum motivo as mulheres sempre foram
muito fortes. Desde a Joana que a Bibi Ferreira fazia no Gota d´água,
até as personagens de Calabar. Calabar é a história de Calabar contada,
na verdade, pela sua mulher, sua viúva, que é a grande personagem da
peça. Na Ópera do malandro a Teresinha é a personagem que dá a volta na
história. As mulheres são muito fortes nesse meu trabalho pra teatro. E
eu compus para essas personagens femininas. Então era natural que as
canções refletissem essa força da mulher, da mulher independente. (Chico
Buarque)
4.2.2 – A censura
Por
Buarque de Hollanda, o Caso Calabar, 1973:
O episódio foi bem significativo do período que a
gente estava vivendo. Aconteceu o seguinte: havia uma censura prévia
(parece uma coisa tão distante: uma censura prévia). Você mandava o
texto pra ser examinado pela censura federal. Esse texto era aprovado ou
reprovado, ou aprovado com cortes. Ele foi aprovado com cortes. Alguns
palavrões aqui, uma coisa ali, que a gente não podia levar ao palco. O
resto estava aprovado. Quer dizer: sinal verde para montagem da peça.
Então, nos reunimos, o Ruy Guerra, que é meu parceiro na peça e eu, mais
o Fernando Torres, produzimos a peça. O ensaio geral pra censura é
marcado e a censura não foi assistir ao espetáculo. Não foi, adiou,
adiou...não foi, não foi, não foi... e aconteceu o quê? Chegou uma hora
em que não havia como manter aquela produção em pé, então, falimos. Eles
não proibiram. Eles obrigaram os produtores a jogar a toalha. A gente
recorreu e meses mais tarde ela foi proibida pelo general Bandeira, que
era o chefe do serviço de censura. Ele era superior ao chefe que tinha
aprovado anteriormente. A peça foi proibida dessa forma esdrúxula, e foi
proibida a divulgação da proibição na imprensa. E a palavra Calabar foi
proibida na imprensa. (Chico Buarque)
Quanto
as proibições da censura, ele relata:
Havia proibição de músicas integralmente, e havia
proibição de palavras dentro do texto. Ou você era obrigado a mudar
essas palavras ou simplesmente não podia pronunciá-las. Você podia
optar. Em algumas músicas eu desisti. Outras eu troquei palavras. Não só
em Calabar como em outras músicas desse período. Por exemplo, em Partido
alto, onde estava brasileiro, eu botei batuqueiro, onde estava titica eu
botei coisica. Ou, então você cortava simplesmente a palavra. Ou como no
disco ao vivo com Caetano na Bahia, o recurso foi aumentar os aplausos
na hora das palavras proibidas. Atrás da porta tinha: "me agarrei nos
seus cabelos, nos teus pêlos". Pêlos foram proibidos. Já a Elis quando
gravou eu mudei para no teu peito. Já, aí, eu não podia mudar porque eu
tinha cantado. Por um descuido eu cantei a letra correta no dia do show.
Então o quê que a gente fez no disco? Aumentou o volume dos aplausos.
(Chico Buarque)
E
continua sobre o esquema de funcionamento da censura para liberar as
músicas:
A censura prévia que valia pra teatro valia para
letras de músicas também. Antes de gravar qualquer música tinha que
mandar a letra pra censura federal. E espera até a volta dessa letra,
com carimbo e assinatura do chefe de censura. O que, aliás, provocava
problemas graves porque gerava uma burocracia muito grandes, atrasos...
E às vezes não era nem implicância. As letras se perdiam no meio do
caminho. Os produtores ficavam desesperados. Era um atraso de vida
danado. É evidente que, uma vez proibido, ficava marcado. Eu e outros
autores que tinhamos uma ou outra música proibida, ficávamos numa
espécie de index da censura. Então a música que chegava com o meu nome
chamava a atenção. E eu comecei a sofrer uns cortes bastante
arbitrários. Tinha uma música que eu fiz pro Mário Reis e que não era
nada, era brincadeira, e eles proibiram alegando que era uma ofensa à
mulher brasileira. Chamava-se Bolsa de amores. Era uma brincadeira que
eu fiz com o Mário Reis porque ele gostava muito jogar na bolsa, tinha
mania dessas coisas... Era a época em que só se falava em bolsa...
(Chico Buarque)
As pessoas
atribuíam às vezes outros sentidos que ele mesmo não tinha atribuído.
Enfim, aí ele sentiu que a barra estava pesada e aí falou:
Vamos experimentar com outro nome que pode ser
que melhore. E realmente melhorou. As três primeiras músicas que eu
mandei, onde eu assinava como Julinho da Adelaide, passaram. Se fossem
com o meu nome, provavelmente, não passariam. Foi um artifício que
funcionou durante pouco tempo. Depois ficou meio marcado, porque só se
gravava esse tal de Julinho da Adelaide, e começou a correr a suspeita
de que o Julinho da Adelaide seria um pseudônimo, até que o Jornal do
Brasil publicou uma matéria falando sobre a censura e divulgou a
verdade: que o Julinho da Adelaide era realmente um pseudônimo. (Chico
Buarque)
Indagado sobre o quê você mais gosta da obra do Caetano, responde:
Eu gosto de tudo que o Caetano faz. Não tem o que
eu gosto mais. Inclusive, porque ele continua fazendo e me surpreendo.
Tenho uma relação pessoal com ele muito boa. Sempre tive. Eu sou
inteiramente diferente dele. Por isso mesmo que a gente se entende bem.
Essa história desse Fla-Flu que se criou... Eu até comentei com ele
esses dias... é uma coisa artificial. Vai ser difícil me jogar contra
ele. Apesar dos esforços que são feitos nesse sentido continuamente. Mas
eu acho bobagem esperar que eu faça as músicas do Caetano ou que o
Caetano faça as minhas músicas. Acho bom que ele faça as dele e que eu
faça as minhas, que têm até uma origem comum, como eu disse no começo. A
nossa formação é comum: a bossa-nova. Mas a cabeça dele é.... da minha.
Eu me entendo com ele e acho que a minha música se entende com a dele
também. (Chico Buarque)

4.2.3 – Entrevista com Clarice Lispector
Xico Buark me visita
Jornal
do Brasil - 26/06/71 Clarice Lispector
Essa
grafia. Xico Buark, foi inventada por Millôr Fernandes, numa noite no
Antonio's. Gostei como quando eu brincava com palavras em criança.
Quanto ao Chico, apenas sorriu um sorriso duplo : um por achar
engraçado, outro mecânico e tristonho de quem foi aniquilado pela fama.
Se Xico Buark não combina com a figura pura e um pouco melancólica de
Chico, combina com a qualidade que ele tem de deixar os outros o
chamarem e ele vir, com a capacidade que tem de sorrir conservando
muitas vezes os olhos verdes abertos e sem riso. Não é um garoto, mas se
existisse no reino animal um bicho pensativo e belo e eternamente jovem
que se chamasse garoto, Francisco Buarque de Holanda seria dessa raça
montanhosa.
Gostei
tanto de Chico que o convidei para a minha casa. Com simplicidade ele
aceitou.
Apareceu
perto das quatro da tarde : naquele tempo, às cinco horas tinha uma
lição de música com Vilma Graça, e havia um ano que estava estudando
Teoria Musical, para depois estudar piano.
Quantos
momentos decisivos na sua vida, é muito moço para saber se eram de fato
decisivos esses momentos, se no final das contas contaram ou não. Nasceu
com a estrela na testa: tudo lhe correu fácil e natural como um riacho
de roça. Para ele, criar não é muito laborioso. Às vezes está procurando
criar alguma coisa e dorme pensando nisso, acorda pensando nisso ---- e
nada. Em geral cansa e desiste. No outro dia a coisa estoura e qual-quer
pessoa pensaria que era gratuita, nascida naquele momento. Mas essa
explosão vem do trabalho anterior inconsciente e aparentemente negativo.
O problema
lhe interessa : fez-me várias perguntas sobre meu modo de trabalhar. Eu
lhe disse : " Você, apesar de rapaz que veio de cidade grande e de uma
família erudita, dá impressão de que se deslumbrou ao mesmo tempo em que
deslumbra os outros com sua fala particular : já se habituou ao sucesso
? Dá impressão de que você se deslumbrou com as próprias capacidades,
entrou numa roda-viva e ainda não pôs os pés no chão ".
Chico acha
que tem cara de bobo porque suas reações são muito lentas, mas que no
fundo é um vivo. Só que pôr os pés no chão no sentido prático o
atrapalha um pouco. Acha que o sucesso faz parte dessas coisas
exteriores que não contribuem em nada para ele: “A pessoa tem sua
vaidade, alegra-se, mas isso não é importante. Importante é aquele
sofrimento de quem procura buscar e achar. Hoje - disse-me - acordei com
um sofrimento de vazio danado porque ontem terminei um trabalho. “
Falamos do
processo de criar de Vila-Lobos e ele contou uma frase dele dita a Tom
Jobim : Vila-Lobos estava um dia trabalhando em sua casa e havia uma
balbúrdia danada
em volta. O Tom perguntou : " Como é, maestro, isso não
atrapalha ? " Ele respondeu : "O ouvido de fora não tem nada a ver com o
ouvido de dentro." E isso Chico invejava. Também gostaria de não ter
prazo para entrega das músicas, e de não fazer sucesso : ele é
interrompido nas ruas e nas ruas mesmo é obrigado a dar autógrafos.
Chico tem
um ar de bom rapaz , esses que todas as mães com filhas casadoiras
gostariam de ter como genro. Esses ar de bom rapaz vem da bondade
misturada com bom humor, melancolia e honestidade. Tem o ar crédulo, mas
diz que não é, é apenas muito preguiçoso.
Claro que
gostou quando o maestro Isaac Karabtchevsky dirigiu a banda no Teatro
Municipal, mas o que lhe interessa mesmo é criar. Desde pequeno faz
versinhos. Pedi-lhe que fizesse assim de improviso um versinho e que,
para pô-lo à vontade, eu esperaria na copa. Daí minutos Chico chamou,
rindo : Como Clarice pedisse/ Um versinho que eu não disse/ me dei mal/
Ficou lá dentro esperando /mas deixou deu olho olhando / Com cara de
Juízo Final.
Perguntei-lhe se já experimentara sentir-se em solidão ou se sua vida
tinha sempre esse brilho justificável. Eu aconselhei que de vez em
quando ficasse sozinho, senão seria submergido, pois até o amor
excessivo dos outros podia submergir uma pessoa. Ele concordou e disse
que sempre que podia dava suas retiradas.
Logo que
entrou para Arquitetura, quando começou a trocar a régua pelo violão, a
coisa parecia vagabundagem mas depois a família se conformou.
Estava em
fase de procura e no dia anterior acabara um trabalho que era só de
música, que exigia prazo. Mas para uma canção nova estava sempre
disponível. A coisa mais importante para Chico é trabalho e amor, e,
como indivíduo, quer exatamente Ter a liberdade para trabalhar e amar.
De brincadeira perguntei-lhe o que era amor. "Não sei definir",
disse-me, "e você ?" " Nem eu", respondi.
4.2.4 – Autocrítica
Chico fala
sobre o início da carreira:
Esses primeiros discos que eu gravava,(vou
confessar uma coisa) eu gravava entre um show e outro. Eu fazia muito
show. Durante onze anos não fiz outra coisa senão cantar e às vezes em
condições precárias pelo Brasil a fora. Hoje em dia você tem todo um
aparato que te permite mil comodidades. Naquele tempo era difícil. Às
vezes eu chegava num lugar, sozinho, com o violão e um microfone só, e
auto-falantes daqueles do tempo do onça. Hoje em dia é mais fácil. Eu
fazia show pelo Brasil inteiro e entrava no estúdio os arranjos já
estavam feitos, já estavam gravados, eu chegava lá, botava minha voz
em
cima. Hoje quando vou gravar um disco me dedico só a gravar o disco.
Então eu estou lá trabalhando junto com arranjador, fazendo o que eu
quero. Hoje eu assino inteiramente. Naquele tempo não. E ia conhecer a
capa dum disco (aliás, umas capas horrorosas) quando já estavam
impressas, prontas. Não posso nem culpar tanto a gravadora, porque era
um pouco displicência minha também. Porque eu estava viajando, porque eu
estava fazendo show pra cima e pra baixo e não era muito cuidadoso com
relação aos discos. Esse ano andei trabalhando em cima desse songbook, o
que me dá uma perspectiva do que foi meu trabalho esse tempo todo. Eu
comecei a perceber coisas que na época eu não percebi. Eu estava fazendo
as coisas sem perceber o que estava fazendo. Eu tenho a impressão que eu
gravava esses discos sem a menor idéia que vinte anos depois eu iria ter
que falar sobre eles. Eram produtos inteiramente descartáveis. (Chico
Buarque)
Ele conta
que tem três discos que são praticamente iguais. São discos que reúnem
as músicas que fez ainda quase não profissionalmente. Era um estudante
de arquitetura que fazia música e tomava cachaça. No terceiro disco tem
músicas que já tinha composto na época do primeiro disco. Um disco é
continuação do outro. São de uma fase mas na época não tinha a menor
idéia de que estava criando pra ele uma profissão, uma carreira. Era uma
brincadeira. Uma extensão da vida de estudante.
Chico
continua avaliando sua obra:
Já o quarto disco é um disco complicado, porque
eu gravei na Itália, eu morava na Itália. É o disco mais irregular que
eu tenho. Eu gravei esse disco, que chama-se Chico Buarque de Hollanda
nº 4, quando eu morava na Itália. Eu mandei as fitas com as canções pro
Brasil. Aqui no Brasil foram gravados os arranjos todos, as bases. O
produtor, que se chamava Manuel Berimbau, voltou pra Itália com essas
bases e eu coloquei a voz
em cima. Eu não podia voltar pro Brasil, ou não devia voltar
pro Brasil. Compus as músicas também a toque de caixa porque eu tinha
que gravar, eu estava morando na Itália e vivendo com uma certa
dificuldade. Esse disco é um disco de transição. É o disco da minha
maturidade, não como compositor, mas como ser humano. Eu estava morando
na Itália, com problemas pra voltar pro Brasil, com uma filha pequena...
Virei um homem. Eu era moleque. Virei um homem e não sabia o que dizer.
Então, as músicas estavam com um pé ali e outro aqui. Um pé no Brasil e
outro na Itália. E eu sem saber exatamente o que ia fazer da minha vida:
Ah! Bom...vou ser compositor? Vou viver disso... vou ter que encarar
isso a sério... vou ter que encarar a vida a sério. Uma série de
circunstâncias me levaram a isso. A estar morando fora do Brasil e estar
casado e com uma filha, e a ter que pensar pra valer na vida. Eu tive
dificuldade. São as músicas mais arrancadas a fórceps que eu tenho. Essa
fitinha que eu falei que mandei pra cá, o Manuel Barenbein, que eu
chamava de Manuel Berimbau, ficou lá, eu me lembro, durante uns quinze
dias em Roma, sentado diante de mim a dois metros de distância, e eu
terminando a música e dizendo: espera aí Manuel, estou terminando aqui
essa música... Tem músicas que eu terminei nas coxas porque eu tinha
que gravar esse disco. Tinha obrigação profissional de gravar esse disco
senão... Eu tinha assinado contrato com a gravadora. Esse contrato
profissional foi que me permitiu através de um adiantamento continuar
vivendo na Itália, porque eu não tinha condições financeiras de me
sustentar na Itália. Então eu tinha que cumprir esse contrato. Tinha que
gravar as músicas pra pagar o dinheiro que eu tinha pedido emprestado. A
história é essa. É um disco feito por necessidade. Os outros três discos
anteriores são desnecessários (ri). Eu precisei passar por isso pra
chegar ao disco seguinte, que é Construção, que já é um disco maduro
como compositor. Aqui é um disco em que eu estou maduro como homem, como
ser humano. Pera aí. Sou gente grande. Tenho uma filha pra criar. Acabou
a brincadeira. Mas eu não sabia ainda como exprimir essa perplexidade.
Eu não sei se daqui a vinte anos, quando eu olhar pra trás, eu não vou
ter outra visão do que eu estou fazendo hoje, do que eu fiz há pouco
tempo atrás. A gente não tem essa perspectiva. Eu fui obrigado a fazer
essa revisão e entender o que se passava comigo há vinte e cinco anos,
que foi quando eu comecei, há vintes anos, que foi quando eu gravei esse
disco na Itália. Consegui entender isso agora.
Indagado sobre um possível alívio de produção, a partir do disco branco,
com ilustração de Elifas Andreatto, como era um momento de conflito com
a gravadora, ele discordou:
Parecia que aquele disco branco marcava já um Chico mais sereno... Já vejo diferente. Vejo um disco bastante
angustiado. Sem dúvida, isso que você está dizendo, agora, é outra
história. Se a gente continuar dividindo o trabalho, você vai ter, desde
Construção até Meus caros amigos, toda uma criação condicionada ao país
em que eu vivi. Tem referências a isso o tempo todo. Existe alguma coisa
de abafado, pode ser chamado de protesto... eu nem acho que eu faça
música de protesto... mas existem músicas aqui que se referem
imediatamente à realidade que eu estava vivendo, à realidade política do
país. Até o disco da samambaia, que já é o disco que respira, o disco
onde as músicas censuradas aparecem de novo. Não havia mais a luta
contra a censura. Enfim, a luta contra a censura, pela liberdade de
expressão, está muito presente nesses cinco discos dos anos 70. São
discos com a cara dos anos 70. Construção, Quando o Carnaval Chegar,
Caetano e Chico ao vivo, Calabar, que nem se chamou Calabar, ficou sendo
só Chico Canta, Sinal fechado, onde eu canto só músicas de outros
compositores, e Meus caros amigos. Disco por disco, você vai ver isso.
Fica bastante claro que a partir de 78 minha música está respirando
melhor. (Chico Buarque)
Sobre
o processo de criação, ele diz que:
Não existe
um processo. Se houvesse me facilitava muito a vida. Às vezes eu tenho
vontade de fazer, tenho a música encomendada, ou mesmo pra eu fazer um
disco, e a coisa não aparece com tanta facilidade. A gente vai acabar
chegando na história da encomenda. De repente, eu consigo trabalhar mais
sob pressão. De onde vem eu não sei te dizer. Normalmente elas vêm em
série. Uma puxa a outra. Há períodos em que não acontece nada. Posso
passar 4, 5, 6 meses sem compor uma única canção. (...) Quando eu
comecei a gravar tinha na gaveta 40 músicas. Gravei meu primeiro disco,
gravei o segundo e ainda gravei o terceiro com resto de músicas que
estavam na gaveta. Há aquele entusiasmo juvenil, quando não se tem
nenhuma autocrítica. Vai dizendo qualquer coisa. Mais adiante começam as
dificuldades porque você não quer se repetir. Os caminhos começam a
ficar mais estreitos. Você sabe exatamente o que não quer fazer. O que
você quer fazer, às vezes, a gente perde de vista. Quando eu aceito uma
encomenda, assim como quando eu assino contrato pra gravar um disco, eu
assino com a consciência de que estou blefando, que estou assinado um
cheque sem fundo, porque eu não sei de onde é que eu vou tirar aquilo.
Isso mais adiante vai me criar problemas. "Por que que fui aceitar tal
encomenda? Por que que eu fui aceitar fazer esse disco? Por quê que eu
fui aceitar escrever pra essa peça?" Mas tem funcionado. É claro que
isso gera uma angústia muito grande. Uma insegurança. Você sofre. (...)
Realmente se você me pedir uma música pro seu programa de rádio do ano
que vem eu vou dizer: "OK. Pode deixar." Quando chegar uma semana antes
eu vou lembrar: "Ih! Eu tenho que terminar essa música." Você perguntou
pelo processo de criação, pra mim é um mistério. Eu não sei porque que
existe isso. Eu não gostaria de ficar me criando essas angústias.
Trabalhar em cima da hora não é nem saudável, porque quando você vai
trabalhar vira a noite, se desgasta. Se eu pudesse ter uma disciplina de
trabalho, uma organização de vida que me permitisse fazer as músicas uma
por mês, direitinho, guardar ali no escaninho e amanhã apresentar,
entregar sempre no prazo, seria formidável, acho. Mas não é assim. Não
sei trabalhar assim. (Chico Buarque)
Sobre
parcerias:
Eu guardo
músicas minhas que ficaram incompletas e que eu posso mais tarde
retomar, como já fiz. Agora, mais do que tudo o que eu tenho lá é acervo
imenso de outros compositores. Quando eu comecei a fazer letras pra
outros autores... no começo eu não fazia. Depois comecei a fazer, pro
Tom, uma coisa ou outra. Depois comecei a incrementar esse tipo de
trabalho que é um trabalho bastante diferente do trabalho de música e
letras. É outra coisa. Outro departamento. Talvez até por uma certa
carência de letristas, porque a gente tem muito mais músicos do que
letristas, e um pouco talvez pra suprir a falta de Vinicius. Eu herdei
vários parceiros do Vinicius. O próprio Tom, Francis Hime, Edu, tinham o
Vinicius como seu principal letrista... Toquinho... Então eu fiquei
sendo o letrista dessa gente e de outros. Eu comecei a gostar. Eu gosto
de fazer letras. Eu recebo muita encomenda. Não é tudo que eu consigo
fazer. Também não é fazer porque gosta ou não gosta. Aí entra outro
mistério. Você não consegue às vezes encaixar uma letra. É difícil. Tudo
é difícil. (Chico Buarque)
Chico
fala agora sobre seu trabalho como letrista:
Você tem
que entrar na cabeça do compositor. Tentar adivinhar. Se você fosse ele,
o que você estaria dizendo com aquela música. Às vezes você adora uma
música... eu tenho músicas lindíssimas do próprio Tom, do Piazzola, do
Baden Powel, que eu não consegui fazer letra. Eu faço questão de
respeitar cada nota do meu parceiro. Faço exatamente como ele quer. O
fato de eu fazer música ajuda, evidentemente, porque eu fico conhecendo
melhor o som das palavras, a musicalidade das palavras. Se não soubesse
música eu não saberia fazer letras pra música. Mas eu respeito cada nota
musical que o parceiro me manda. (Chico Buarque)
O tema
agora são os parceiros do Chico. Adivinhe quem é o primeiro:
O Tom é o
que mais interfere. O Tom, às vezes, entrega a música, já com uma idéia
do que ele quer como letra. Então, às vezes, isso cria dificuldades.
Agora mesmo tem uma, que se chama Bate-boca. Ele já me entregou a música
com a letra quase toda pronta. Eu falo: "Tom, essa letra você mesmo vai
terminar." Mas ele quer que eu mexa ali, pra ele remexer, por sua vez. O
Tom é um caso muito especial porque ele é, além de tudo, um grande
letrista. Eu digo pra ele: "Tom, você é o seu melhor letrista." E ainda
tem mais um agravante: eu não consegui me libertar do culto ao Tom, que
é muito forte desde Chega de saudades. Eu tenho intimidade com o Tom de
sentar com ele lá na Plataforma, onde ele está almoçando sempre, e
conversar com ele como um amigo. Mas quando chega a coisa profissional
eu fico um pouco intimidado, além de ele não me ajudar (risos), ele me
intimida. Ele não me ajuda por isso, porque eu fico intimidado. "Poxa!!
Fazer uma música pra Tom!!" (Chico Buarque)
Chico
fala agora sobre Francis Hime, Sivuca e MIlton:
Acho que o
Francis nunca escreveu uma letra. Aí é o contrário do Tom. Ele não me dá
nem sugestão. Nem título nem nada. Deixa comigo e está lá...
em aberto. Cada música tem uma história. Cada parceiro
tem uma história. Quando faço eu música pro Milton, eu quero fazer com a
cara do Milton. As músicas que eu fiz pro Miltom, foram pro Milton
cantar. Procurei fazer uma letra que eu achasse com cara de Milton
Nascimento cantar. (...)Eu tenho uma parceria com o Sivuca que é
engraçada. Ele fez a música, que ficou se chamando João e Maria. Ele
mandou uma fita com uma música que ele compôs em 1944, por aí. Eu falei:
"Mas isso foi quando eu nasci." A música tinha a minha idade. Quando eu
fui fazer, a letra me remeteu obrigatoriamente pra um tema infantil. A
letra saiu com cara de música infantil porque, simplesmente, na fitinha,
ele dizia: "Fiz essa música em 47." Aí pensei: "Mas eu criança...". e me
levou pra aquilo. (Chico Buarque)
Trabalho de dança e de teatro com Edu Lobo:
O Edu é
diferente porque quase todas as músicas que eu fiz com ele, senão todas,
foram compostas pra projetos. Pra peças de teatros e dois balés, O
grande circo místico e Dança da meia-lua, do Teatro Guaíra. Então, tanto
ele quando faz a música e me manda, como eu quando faço a letra, nós
temos um objetivo: fazer a música pra um determinado tema, personagem.
Não é em aberto como é com Francis. O que apareceu desses trabalhos, em
disco, é a parte das canções. E tem todo um trabalho dele que não foi
gravado porque há pouco interesse por música instrumental no Brasil
hoje, mas é um trabalho muito bonito. O desenvolvimento dessas canções
instrumentais é uma coisa preciosa. Ele tinha idéia de lançar em disco,
mas estava difícil. Não há muito interesse por música instrumental.
(Chico Buarque)
Sobre
seu trabalho com trilhas para filmes, Buarque fala:
No caso do Cacá, Joana Francesa, ele me mostrou o
roteiro. Eu li e gostei muito. E eu tinha que compor a música antes dele
filmar porque a Jeanne Moreau ia cantar a canção-tema no filme. E em
Quando o carnaval chegar foi a mesma coisa. Mas, normalmente, essas
músicas entram quando o filme já está pronto. Eu vou compor em cima das
imagens que eu assisto em banda dupla ou na moviola. É o caso do próprio
Cacá, em Bye, bye, Brasil; do Bruno bsarreto,
em Dona Flor
e seus dois maridos, Miguelzinho Farias em República dos assassinos. Normalmente eu
faço em cima das imagens. (Chico Buarque)
Aos 62
anos, Chico diz que debate sobre esquerda é conversa boba e de direita.
Despojado
com camiseta branca e calça jeans, Chico Buarque, pediu ontem respeito
aos seus cabelos brancos, respeito ao seu direito de pedestre e respeito
a poder discordar "quase sempre" de Caetano Veloso.
No ensaio
do show "Carioca", que estréia no dia 4 no Canecão, em Botafogo, zona
sul do Rio, questionado pela Folha, Chico comentou a frase do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva: "Se você conhecer uma pessoa muito idosa
esquerdista, é porque ela tem problemas; se você conhecer uma pessoa
muito nova de direita, é porque também tem problemas".
"Isso é uma
bobagem. Como bobagem não precisa ser levada tão a sério. Esse assunto
não rende mais não. Essa conversa é muito antiga de incendiário e
bombeiro. Essa é uma conversa de direita sem dúvida. Eu não mudei porque
tenho cabelos brancos. Não sei se botox é de direita ou de esquerda",
disse o cantor e compositor.
Ainda se
acha de esquerda, Chico? "Acho que sim", respondeu seco. No dia seguinte
ao ataque de traficantes que causou 18 mortes, deixou 23 feridos e
provocou a destruição de dezenas de ônibus, carros e prédios públicos,
Chico se mostrou tranqüilo. "Pessoalmente não me sinto mais inseguro,
porque na verdade era de se esperar. Quando aconteceu em São Paulo, as
pessoas mais atentas perguntavam quando aconteceria no Rio. Não é
nenhuma surpresa para mim."
Disse que
não é alarmista nem estava disposto a viver a "paranóia" da insegurança.
"Todas as grandes cidades pioraram. Não sou saudosista. Não tenho
saudades do Rio. Tenho boas lembranças. Não tenho saudades de mim. Tenho
boas lembranças. Hoje é uma cidade mais violenta, mais deteriorada."
O
compositor criticou também a violência de classe média. "O sujeito aqui
corre risco de ser atropelado mesmo na faixa da segurança. Ficam falando
em violência e violência, mas é violência também quem dirige um carro e
avança o sinal. Outro dia estava lá andando, atravessando na faixa, o
sinal aberto para mim, o cara quase me atropela. Podia ter quebrado a
perna ou ter morrido. E o cara tinha um adesivo: "Basta!" Basta de
violência. Violência também é isso", disse em referência à campanha de
organização não-governamental liderada por grupos de classe média que
pede mais segurança.
Chico
elogiou o novo disco de Caetano Veloso, mas disse discordar dele "quase
sempre". "Eu adoro o disco do Caetano. É interessante isso. Ele é o
contrário do meu. A gente convive há 40 anos, às vezes por caminhos
paralelos, às vezes por caminhos diferentes, mas é bom que seja assim. É
bom que seja assim para todo mundo: para mim, para ele, para a música.
Durante estes 40 anos já tentaram criar algum tipo de conflito entre
nós. E não dá certo porque a gente se gosta, sou amigo dele, sou
admirador dele. "Também discorda na política, Chico?" "Também. Não
preciso concordar em tudo com o Caetano. Aliás, discordo quase sempre.
Isso é bom. A gente discorda amigavelmente. Acho o disco muito forte,
muito bom. Está procurando uma coisa que não é o que eu estou fazendo.
Ele foi por um caminho, eu fui por outro. Pode ser que daqui a alguns
anos eu me interesse também por outra coisa e ele... Na raiz está tudo
lá. Meu disco sem dúvida é mais rebuscado harmonicamente. Foi uma
preocupação que eu tive. São caminhos que o Caetano pode trilhar. Eu
posso querer fazer um disco mais cru. O rock não é a minha linguagem . É
muito mais dele do que minha."
Última Hora - Mário Prata -
07 e 08/09/74
O samba duplex e
pragmático de Julinho da Adelaide
Nos bares do Rio de Janeiro,
nas praias badaladas, na favela da Rocinha e mesmo na casa de alguns
milionários e ainda em algumas delegacias de polícia, Julio Cesar
Botelho de Oliveira talvez não seja muito conhecido. Mas Julinho da
Adelaide é figura das mais notórias, simpáticas e comentadas do momento.
Não se admite mais uma festa ou rodada de samba sem a presença de
Julinho da Adelaide.
Seu nome passou das crônicas
policiais para as sociais quando cantores famosos começaram a se
interessar pelo seu samba. Chico Buarque gravou Jorge Maravilha, o
MPB-4, O milagre e Nara Leão deverá gravar uma música nova.
Como começou a ficar
conhecido em São Paulo, esteve aqui no começo da semana para tentar
mostrar o seu trabalho nas casas de samba. Não lhe deram muita chance.
Três dias depois encontrei em cima da minha mesa um bilhete assinado por
Julinho e que terminava assim: "e como a barra não está dando por aqui,
eu e Leonel vamos amanhã para Portugal. Parece que a barra lá tá melhor
pru meu samba". Junto ao bilhete a fotografia de sua mãe, nos áureos
tempos do Orfeu Negro, no Teatro Municipal do Rio.
Julinho da Adelaide
- Eu não estou acostumado com o clima de São Paulo. Devo dizer que esta
é a segunda vez que venho. A primeira vez faz muito tempo, foi na época
dos festivais. Inclusive, tenho um fato interessante para contar: eu
estava na platéia quando o Sergio Ricardo jogou aquele violão. Acertou
aqui, ó.
Mário Prata
- Esta cicatriz é do violão?
JA
- É. Inclusive eu pedi para não fotografar, por isso.
MP
- Mas são duas cicatrizes.
Chico Buarque
- É que pegou o cabo aqui e a caixa aqui deste outro lado. Eu tenho a
pele quelóide, entende?
MP
- Quer dizer que você é um sujeito marcado pela música popular
brasileira?
JA
- Sou. Foi aí que eu despertei para a música, inclusive. Eu não tinha
ainda muita vocação musical. Quer dizer, eu já tinha feito a letra do
Juca que o Chico Buarque de Hollanda gravou. Juca foi autuado em
flagrante, como meliante, lembra? Foi um caso que aconteceu comigo. Mas
foi no festival mesmo que eu despertei. Eu vim de ônibus.
MP
- Nesta época, você ainda não estava nem pensando em construir casa na
Gávea, não é?
JA
- Não, isto é um pouco de confusão que estão fazendo. Quem está
construindo é meu irmão, o Leonel. Meu irmão é procurador.
MP
- E esta segunda vinda a São Paulo? Você está aqui profissionalmente? Eu
soube que você está com três músicas novas.
JA
- Três não, tenho muito mais que três, devo dizer isso. Não tenho culpa
se as pessoas pedem sempre as mesmas. Em geral pedem Chama o Ladrão,
Jorge Maravilha e O Milagre. Mas eu tenho muito mais músicas. Chama o
Ladrão teve um problema com a Censura e O Milagre teve também. Eu
queria, inclusive, aproveitar e dizer que eu não quero criar nenhum
problema com a Censura, porque, através do Leonel, eu tenho um diálogo
muito bom com eles, entende? O Leonel sendo meu procurador, me quebra
todos os galhos em todos os sentidos.
MP
- Qual a profissão do Leonel?
JA
- Na carteira tá comerciário, mas ele não exerce a profissão não. Ele
trabalha mais como meu procurador, tem boas relações e tal. Tem,
inclusive, boas relações na polícia. Então, em relação à Censura, eu
tenho esta posição: eu acho bobagem as pessoas falarem que a Censura
prejudica, quando eu acho que o negócio de fazer samba, tem que se fazer
muito samba. Eu faço muito samba, entende? Faço vários por dia, mesmo. O
sujeito que trabalha lá, o trabalho dele é censurar música. Eu respeito
muito o trabalho do cara. Quando termina o dia, perguntam: quantas
músicas você censurou hoje? O meu trabalho é fazer música. Quantos
sambas você fez hoje? Oito, nove. O dia que eu faço dez eu vou dormir em
paz com a minha consciência. Cada um no seu ramo.
MP
- Mas você realmente faz oito ou nove sambas por dia?
JA
- Faço. E faço samba duplex, também.
MP
- Antes de falar sobre samba duplex, por que você só foi descoberto
agora? Porque só agora que estão cantando as suas músicas?
JA
- Porque eu estou profissionalmente na jogada tem pouco tempo. O autor
jovem é difícil, meu. Eu, por exemplo, andei em todas as fábricas e não
consegui nada. É claro que minha voz não é muito boa pra cantar. Eu não
sou cantor e hoje em dia todos os compositores são cantores. Eles que
defendam a matéria-prima deles. Eu não posso fazer isto, então tenho que
procurar as fábricas. Mas ficavam me empurrando de um cara pra outro. Um
dia, na Phillips, eu acabei no Departamento Gráfico, lá no Rio. Fui de
porta em porta. Cheguei até a falar com o Roberto Menescal, autor do Barquinho, conhece?
MP
- E estas cicatrizes, atrapalham muito?
JA
- Embora eu não seja cantor, um dia eu pretendo gravar um disco. Você
vê, gente que não canta bem como o Chico Buarque, o Vinícius de Moraes,
o Antonio Carlos Jobim, estão cantando. Quer dizer,a minha voz não é
muito boa mas outro dia eu ouvi o disco do Nelson Cavaquinho e ele é
mais rouco do que eu e gravou um disco. Eu posso ter que gravar um dia,
entende? Aí a minha foto vai atrapalhar a vendagem do disco, não é? É
claro que eu não vou pôr na capa a minha foto. Assim, uma destas
menininhas bonitas da Rua Augusta pode comprar pensando que é um sujeito
bonito e vende mais o disco, não é? Com a minha cara eu acho que vai
vender menos. Então, é melhor não ter a cara do que ter a cara que eu
tenho.
MP
- Não vamos falar nisto.
JA
- Eu fico muito nervoso quando eu falo nisto. Se quiser, tira a
fotografia de costas. Ou então tira do meu irmão. O Leonel se ofereceu,
inclusive, para aparecer na capa, se um dia eu fizer um disco.
MP
- O Leonel está com você aqui em São Paulo?
JA
- Não. Vem amanhã. Ele me mandou porque disse que leu nos jornais - ele
lê muito jornal - que aqui em São Paulo tem muita casa de samba, que lá
no Rio não tem. Lá só tinha uma, o Sucata, mas era um show já montado e
que não podia entrar e cantar no meio. Aqui, me parece, as pessoas podem
chegar e pedir a vez para cantar. Vou lá e já vou logo avisando antes
para me desculparem por não ser um bom cantor. Tenho muita música para
mostrar. Fiz uma chegando aqui, hoje.
MP
- Você faz a música e a letra, junto?
JA
- Faço tudo junto, claro. É claro que eu faço samba duplex. Quase todos
os meus sambas são duplex.
"Minha mãe casou mais de
uma vez, mas casou sempre"
MP
- Samba duplex o que é?
JA
- São sambas que você pode mudar. Este que eu fiz agora você pode mudar.
É sobre o problema da meningite, porque o Leonel me avisou: vai para
casa de samba, mas cuidado com a meningite. Me explicou o que era,
porque eu não leio muito jornal. Aí eu fiz o samba pelo caminho que diz
assim: "eu fui para São Paulo com a Judith e só saí de lá com a
meningite". Eu sei que tem agora umas propagandas de vir pra São Paulo
nos fins-de-semana e eu não quero prejudicar ninguém. Então, se der
problema, eu mudo "eu fui para São Paulo com a meningite e só saí de lá
com a Judith". Fica, inclusive, como se São Paulo tivesse curado a minha
meningite. Faço também adaptações de sambas antigos. Eu tenho umas
idéias para o Vinícius de Moraes, que eu admiro muito, aliás.
MP
- Você conhece ele?
JA
- Pessoalmente, não. Eu estou procurando um contato com ele porque eu
fiz uma adaptação daquele samba dele, Formosa, conhece? Mudei pra China
Nacionalista. Já estou com bastante tarimba neste negócio.
MP
- Mas você diz que não lê jornal, como é este negócio de China
Nacionalista?
JA
- Eu leio só o que o Leonel manda. Ele já dá o serviço todo, entende? Se
eu ficar o tempo todo lendo, eu acho que eu não vou poder me expressar
bem. Eu sou um criador, entende?
MP
- Quer dizer que o Leonel é uma figura importante na sua vida?
JA
- Eu devo toda a minha carreira e minha vida a duas pessoas. A minha mãe
Adelaide, a quem devo inclusive o meu nome - meu sobrenome é Oliveira,
mas Oliveira todo mundo é. Então eu sou Da Adelaide. Aqui ela pode não
ser muito conhecida, mas no Rio é, e muito. E devo ao Leonel que é quem
me orienta agora a minha carreira.
MP
- Fala um pouco da Adelaide.
JA
- Adelaide foi a pessoa que me orientou a minha vida inteira.
MP
- Existe um boato de que ela teria sido uma das mulheres do Vinícius.
JA
- Eu não posso falar assim da minha mãe, não é? "Uma das mulheres do
Vinícius", o que é isto? Em todo o caso, que ela conheceu o Vinícius,
conheceu. A minha mãe é uma mulher muito honesta. Ela casou mais de uma
vez, mas casou sempre, viu? Quando ela viajou para a Alemanha, ela casou
com um luterano. O Leonel é luterano por causa disto. É loiro e é
luterano. Ele agora alisou o cabelo e está dizendo que ele é parecido
com este tal de Roberto Redford. Mas ele não é muito parecido, não. O
nariz dele é igual ao da minha mãe, grossão. Ele é loiro sarará, sabe?
Parecido, fisicamente, com o Ademir da Guia. Só que agora alisou o
cabelo e tá achando que é artista de cinema.
MP
- E a Adelaide?
JA
- Mamãe esteve lá na Europa, com a Brasiliana. Ela é casada na Igreja
Católica Apostólica Romana, na igreja Católica Brasileira, é casada na
Igreja Luterana e tem mais uns três casamentos aí. Eu sou filho da
Igreja Católica Brasileira.
MP
- Do primeiro casamento?
JA
- Terceiro.
MP
- Se a sua mãe foi com a Brasiliana, ela é mulata mesmo?
JA
- Mulata retinta, quase preta. Quase sangue puro.
MP
- Mas e você com esta cor mais clara?
JA
- Meu pai, que eu não cheguei a conhecer. Ele morreu pouco depois de eu
nascer. O nome dele era F. Botelho. Este F. nem minha mãe sabe o que é.
MP
- Ele fazia o quê?
JA
- Meu pai? Meu pai trabalhava em jornal. Era copydesk, naquele tempo.
MP
- Então você teve uma origem assim já um pouco cultural. Você recebeu
uma certa formação.
JA
- Eu sempre tive muitos livros, apesar de morar na favela. Mas eu não
tenho nenhuma vergonha disto. Tem muita favela lá no Rio que é melhor
que estas coisas que estão fazendo agora. Se bem que eu aluguei um
cantinho pra escritório da firma que tenho com o Leonel. Eu vi até um
anúncio agora, no intervalo daquela novela, o "Espigão", onde eles
anunciam muito estes novos apartamentos de sala e quarto. Menor que o
barraco onde me criei, entende?
MP
- Quer dizer que já está pintando um dinheirinho?
JA
- Diz o Leonel que sim. Eu ainda não pus a mão neste dinheiro porque o
Leonel acha que não é legal pegar o dinheiro e fazer alguma coisa agora.
É melhor empregar, entende? E ele empregou. Parece que o dinheiro já vai
dar uns dividendos. É isso, né?
"O Chico Buarque está
faturando em cima do meu nome"
MP
- E aquela casa que você está fazendo lá na Barra? É com dinheiro da
vendagem?
JA
- Não sou eu que estou construindo. Quem comprou um terreno lá foi o
Leonel e vai construir uma casa agora. Mas isto é problema dele. Ele tem
os bicos por fora, além da participação nos meus lucros.
MP
- Aqui em São Paulo ainda não, mas no Rio você é muito conhecido. No
Degrau, no Antonio's, no Final do Leblon. Como é que se deu esta
transposição da favela para as colunas sociais e de músicas? Quem é que
te deu esta força?
JA
- Isso eu devo ao Leonel. Ele é muito ligado ao pessoal do Rio. O Zózimo
Barroso do Amaral é como se fosse irmão dele, do Jornal do Brasil. O
Carlos Imperial, da revista Amiga. Ele vive me falando dos amigos dele
de jornais. Tem muita gente aí que é amigo dele. Bloch, um negócio
assim. Então, eles me promovem. O Leonel é um cara cem por cento. Você
precisa conhecer ele.
MP
- Mas mesmo assim você ainda é uma figura pouco conhecida no Brasil.
JA
- Ainda sou, devo confessar isto. Confio em Deus que, com a ajuda Dele e
do Leonel eu vou chegar lá.
MP
- Você não seria uma criação da imprensa carioca? Como é que você vê
isto?
JA
- Por algum tempo eu fiquei meio magoado com isto.
MP
- Seu pai foi um copydesk no Rio. Você não estaria sendo lançado pela
imprensa carioca que tem penetração nacional?
JA
- É claro que a imprensa carioca me ajuda muito, mas eu tenho o meu
trabalho. Eu vim aqui para mostrar o meu trabalho, entende? Não é só
badalação, não. Este negócio de só badalação em jornal não dá camisa a
ninguém, já me dizia o Leonel. Tem que se fazer as coisas. Eu vou lançar
o meu primeiro compacto duplo que vai ser gravado agora, finalmente. Eu
tenho feito uma média de cinco a seis sambas por dia. Com este trabalho
eu acho que vou levar um grande empurrão na minha carreira e daí por
diante eu acho que todo mundo vai se interessar em gravar música do
Julinho da Adelaide.
MP
- Quem é que está cantando música sua, hoje, Julinho?
JA
- O Chico Buarque cantou num show que ele fez no Rio. Foi muito bom
porque deu dinheiro na SBAT, o Jorge Maravilha. Tem também o MPB-4 e a
Nara Leão. Eu entreguei umas outras músicas aí, que eu não sei se estão
cantando, pra uma porção de gente. Eu tenho vários estilos, sabe? Mandei
música para o Tim Maia, para a Angela Maria. Não sei se estão cantando
porque eu não tenho muito controle. O Leonel que sabe.
MP
- Mas você tem realmente uma produção muito boa ou está se utilizando de
nomes como Chico e MPB-4?
JA
- Mas, ô cara, escuta. Você vai me desculpar, mas eu já disse que não
sou cantor. Eu preciso dos cantores pra lançar meu nome, entende? O
Chico Buarque eu não devo nada a ele e nem ele deve nada a mim. Ele tá
faturando em cima do meu nome e eu estou faturando em cima do nome dele.
Acho que isto é normal. Não acho que seja aético da minha parte,
entende? Eu sou é pragmático.
MP
- Aético?
JA
- Parece que a origem desta palavra é luterana.
MP
- Julinho, aqui em São Paulo, o pouco que se sabe de você são histórias
mirabolantes. O próprio Chico falou no show dele, não sei se você sabe,
que você é uma figura das crônicas policiais que passou para as crônicas
sociais. O seu passado...
JA
- Vou lhe explicar isto. Eu sou muito tímido, conforme você deve ter
percebido, e o Leonel, com esta história dele ser procurador e sendo uma
pessoa descontraída, muitas vezes ele faz coisas impensadas. E aí,
quando vão perguntar o nome dele, ele diz: Julinho da Adelaide. Só
porque tem procuração minha. Então, é justo que eu pague pelas coisas
boas e ruins que ele faz. E olha que não acontece muita coisa ruim com
ele porque ele tem relações muito boas na polícia.
"Adelaide era amiga íntima
do Vinícius, do Jobim e do Oscar Niemeyer"
MP
- E você já foi preso?
JA
- Algumas vezes. Eu conto isto, inclusive, no samba Chama o ladrão.
MP
- Na medida que você mesmo diz que é muito pragmático, este negócio de
carregar o nome da mãe não é uma jogada oportunista da sua parte? Pra
sensibilizar uma parte do público?
JA
- Não, de maneira nenhuma. Eu me chamo Julinho da Adelaide porque todo
mundo só me chama assim lá no morro. Acontece que a minha mãe é mais
famosa do que eu lá no Rio. Ainda é. Minha mãe é célebre. Eu vou te
contar o que ela já fez. Minha mãe estava no primeiro elenco do Orfeu
Negro. Foi amiga íntima de Vinícius de Moraes, Antonio Carlos Jobim e
Oscar Niemeyer, que fazia o cenário do Orfeu no Municipal. Do Haroldo
Costa, também. Ela conheceu mais intimamente o Oscar. Tanto é que há
cinco ou seis anos atrás a gente morava ali na Favela da Rocinha quando
começaram a erguer o Hotel Nacional. Aquele redondo. Mamãe dizia pra
mim: "Tá vendo, filho? Tá vendo, Julinho? Aquilo é homenagem do Oscar
para mim." Inclusive agora botaram uma porção de homenagens na Barra.
Ela lembra dele muito bem. É claro que ela está mais velha agora e não
pode receber muita homenagem. Eu estou sabendo que não é homenagem do
Oscar Niemeyer pra ela, mas não vou tirar esta ilusão dela, né? É bonito
ela ficar pensando assim. Mamãe tem muita imaginação. Mas continuando,
depois ela viajou com a Brasiliana, casou com o luterano, foi presa na
fronteira do Tibet por causa de um monge, aprendeu a fazer cassulé e a
feijoada branca. O feijão branco dela é conhecido lá no morro. Então
todo mundo perguntava assim: qual Julinho? O Julinho da Adelaide.
MP
- Mas a própria imprensa carioca está achando que você está usando o
nome da sua mãe para se promover. Tanto é que o Leonel não se chama
Leonel da Adelaide.
JA
- Leonel Kuntis. Mas pode ser que daqui uns tempos a Adelaide passe a
ser a Adelaide do Julinho. Não tenho nada contra isto.
MP
- Como vai ela?
JA
- Mamãe está muito bem. Fazendo aquele feijão cada vez melhor. Ela tem
um quiosque. A casa dela, uma vez por semana, enche de gente.
MP
- Ela é neta de escravos, não é?
JA
- Neta de escravos. A mãe dela foi beneficiada pela Lei do Ventre Livre.
A gente tem uma gratidão muito grande pelo José Bonifácio, o Moço.
MP
- Como foi o seu primeiro contato com o Chico?
JA
- EU trabalhava na Phillips. Na fábrica, lá no Alto da Boa Vista, na
Phonogram, na prensagem de disco. Lá eles tinham um time que dia de
sábado jogava contra os compositores, contra esta gente assim, e eu
estava sempre nesta pelada e fui conhecendo o pessoal. Fiquei conhecendo
o Silvio Cesar, fiquei conhecendo o Maestro Erlon Chaves, fiquei
conhecendo o Paulo Sérgio Valle.
MP
- Mas, como foi? Você chegou para o Chico e mostrou a música, deu uma
fita, cantou para ele, como é que foi?
JA
- Não, eu não falei direto com ele. Falei antes com um rapaz integrante
do conjunto vocal MPB-4. Eu estava entrando na área e aquele mais
baixinho, gordinho, chamado Rui, me deu uma pancada por trás e o juiz
não deu pênalti. Na hora que eu estava caindo no chão ele foi legal. Me
pediu desculpas. Eu aproveitei que ele tinha puxado conversa e falei: eu
sou compositor. Ele não deu muita bola e ainda marcou o gol. Mas, como
eu tenho amizade e o primeiro contato já estava feito, eu consegui
prensar um acetato por camaradagem do pessoal da Phonogram. Este acetato
tinha duas músicas, o Jorge Maravilha e Chama o Ladrão. Parece que eles
gostaram, mostraram para o Chico e cada um gravou uma.
MP
- O Chico tem cantado a sua música e tem dado a entender que a música é
dele. Ele se refere a você como se você fosse uma figura mitológica.
JA
- Não sei, rapaz. Este pessoal que tem o nome feito, pode fazer muita
coisa e não adianta eu ficar aqui reclamando, entende? Como eu já disse,
eu sou pragmático. Eu preciso dele e ele de mim. Então eu não vou me
colocar contra ele como você está querendo. Talvez o dia que eu for mais
conhecido eu faça a mesma coisa. As pessoas têm que tirar proveito do
que lhe cai nas mãos, não é? O Leonel que me disse isso.
MP
- Eu queria que você se definisse, já que usa tanto a expressão
pragmática.
JA
- Eu não sei. Pra falar a verdade, o Leonel que mandou eu dizer que eu
sou pragmático. Quando perguntassem coisa mais complicada, pra dizer
isto. Por exemplo: "O que você acha da Censura?" Sou pragmático. Ele
falou ecumênico, também. Disse que quando me perguntassem o que eu acho
de Cuba, para eu responder que sou pragmático e ecumênico. Senão eu me
meteria em complicações. Mas eu não posso definir exatamente como eu
sou. Eu sou pragmático, pô!
Correio da Manhã, 14/10/66
Carlos
Drummond de Andrade
O jeito, no momento, é ver a
banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos
precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos
dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir
para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos
vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que
estamos vivendo ou presenciando.
A ordem, meus manos e
desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir
ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é
correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa.
Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo,
Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados
palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos
da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos
que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de
traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta
de ar.
A felicidade geral com que
foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua
tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua,
alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando
de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de
guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a
festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da
violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do
sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde
sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer,
abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e
imortal especialista português nessas matérias cordiais.
Meu partido está tomado. Não
da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às
classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra,
o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência
momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e
principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender
pelo amor, e de amar pela compreensão.
Se uma banda sozinha faz a
cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu
confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza
generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que
têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão
contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para
gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os
ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui
se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se
oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando
por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho
particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange
terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social
carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma
trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério,
o faroleiro... todos que viram a banda passar, e por uns minutos se
sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda
passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa
deixe de musicalizar a alma da gente.
Carlos Drummond de Andrade
5- TRAJETÓRIA
O ano era
1978. Num Brasil que aos poucos se reencontrava com a liberdade de
expressão, às vésperas da anistia e em clima de abertura, Chico Buarque
retornava mais uma vez ao cenário teatral - alguns anos após ter visto
sua peça Calabar ser censurada e perseguida pelo governo militar. Após a
frustração do musical anterior, Chico triunfou de modo acachapante com
sua nova produção, Ópera do Malandro; um marco do teatro musical
brasileiro, que gerou vários sucessos radiofônicos, virou filme e
consolidou o nome do compositor como legítimo inovador da arte cênica
nacional. Duas décadas e meia depois daquela estréia, a Ópera volta aos
palcos. O Rio de Janeiro é a cidade a abrigar a malandragem de Chico
mais uma vez; o espetáculo, em versão superproduzida com direção de
Charles Möeller, estreou ontem no Teatro Carlos Gomes. Uma vez mais, os
dramas e alegrias de uma galeria inesquecível de personagens que
povoavam a Lapa - bairro boêmio do Rio - nos anos 40, acompanhados por
uma trilha sonora ainda mais inesquecível, estão de volta, numa
temporada que vai até dezembro. Mais do que por sua trama ou suas
interpretações, a Ópera do Malandro original entrou para a história por
suas canções. Ilustrando seu painel dos áureos tempos da malandragem,
Chico Buarque concebeu números como Folhetim, Pedaço de Mim, Teresinha,
O Meu Amor, Homenagem ao Malandro e Geni e o Zepelim. Essas e outras
acabaram por extrapolar a repercussão da peça, sendo regravadas por
nomes como Gal Costa, Zizi Possi, Moreira da Silva e João Nogueira, ao
longo dos anos. "Nenhum musical, nem da Broadway, tem tantos sucessos
como este", afirmou o diretor Charles Möeller. Além das canções da
montagem original, a nova versão da peça incluiu também algumas outras
(como Hino da Repressão ou Palavra de Mulher) que foram feitas
posteriomente para o filme homônimo (de 1985).
Assim como
na época de sua estréia o score composto por Chico mereceu uma versão em
LP, a remontagem 2003 de Ópera do Malandro também virou CD. O elenco de
20 atores e 12 músicos tem sua direção musical coordenada por André Góes
e Liliane Secco (que também assina os arranjos). Alexandre Schumacher,
Soraya Ravenle, Alessandra Maestrini, Claudio Tovar, Lucinha Lins e
Mauro Mendonça, os protagonistas da peça e que soltam a voz nas canções
mais famosas, serão produzidos em disco por Vinicius França (colaborador
costumeiro de Chico). O CD, a ser lançado pela Biscoito Fino até
setembro, será gravado ao vivo no palco, sem a presença do público. O
disco original trazia as vozes dos já citados João Nogueira, Moreira da
Silva, Zizi Possi e Gal Costa, além de Francis Hime, Marlene e os grupos
A Cor do Som, As Frenéticas e MPB-4. É bom lembrar também que a estréia
da peça ajudou a projetar em 1978 uma então iniciante, vinda do
Nordeste: Elba Ramalho.
Inspirado
em obras de John Gay (A Ópera dos Mendigos, de 1728) e Bertold Brecht (A
Ópera dos Três Vinténs, de 1928), Chico Buarque concebeu sua peça como
um comentário à situação política e social que o Brasil atravessava no
fim dos anos
70. A
Ópera de Chico conta a história do malandro Max Overseas (vivido agora
por Alexandre Schumacher), rei da boêmia na Lapa dos anos 40. Dividido
entre os amores de duas mulheres - Terezinha (Soraya Ravenle) e Lúcia
(Alessandra Maestrini) - e vivendo à margem da lei, Max tem como
antagonista o velhaco Duran (Mauro Mendonça), dono dos prostíbulos do
bairro. Nesse ambiente sórdido e desesperançado, um complexo painel de
promiscuidades - entre criminosos e a lei, entre "gente de bem" e
degradados da sociedade - se desenha.
A nova
montagem da peça esbanja recursos e luxo. Uma orquestra completa
acompanha os atores ao longo do musical, que é encenado sobre um triplo
palco giratório (que conta ainda com um cenário de três andares).
Setenta e cinco figurinos originais foram confeccionados para os
personagens. Tudo isso, por incrível que pareça, foi arregimentado sem a
cooperação de Chico Buarque. O autor da peça encontra-se em estágio de
finalização de seu terceiro romance e, apesar de dado seu OK para a nova
versão, não exigiu controle sobre o produto final. E nem mesmo pretende
comparecer para ver o resultado no palco - pelo menos tão cedo.
6- AS LETRAS, A
POESIA E O DRIBLE À CENSURA
Construção
Chico Buarque, 1971