As Sete Fábulas
O animal era grande e valente, irresistível. Mas as orelhas em riste demonstravam sua cuidadosa vigilância contra qualquer aproximação. Aín ocultara-se nas folhagens da árvore próxima ao braço do rio para vê-lo de perto. Chegara antes do sol levantar e esperava-o qual parasita agarrada ao tronco, com o cuidado de opor-se ao vento.
A figura revelou-se por entre as hastes do mato alto, farejando o ar em golfadas ruidosas. Aproximou-se vagarosamente, seu corpo era todo atenção. Sobre o largo dorso branco deitava-se uma longa crina dourado escuro. Na borda do rio, a cabeça altiva pendeu a sorver a água.
Agora, Aín podia admirá-lo com atenção. A forte musculatura desenhava-se sob o pêlo brilhante. Ele era tão esplendido de perto quanto a correr ao longo do horizonte. Valera o esforço de várias luas a observar, de longe, os hábitos daquele elemento que se destacava do bando em incursões solitárias. Já lhe dedicara até um nome, Baáu, o machado forte.
O grito de uma ave quebrou a magia daquele momento. Os olhos do animal procuraram-na por entre os galhos, eram claros como o horizonte pela manhã. Por um instante seu olhar encontrou o da moça, depois partiu em galope. Aín ficou quieta, a gravar na memória aquele brilho azul, sentiu que nunca mais conseguiria esquecê-lo.
Durante muitas noites, a partir daquele dia, Aín viu-se sobre o dorso branco, a segurar, entre os dedos, a longa crina. Corriam velozes por ravinas verdes e tão rapidamente que nem o vento conseguia acompanhá-los. A sensação, em ambos, era de liberdade plena.
Ultrapassavam as distantes terras desconhecidas e perdiam-se no longínquo horizonte inalcançável. Aín sorvia a felicidade do galope a mover seu corpo ganhando o caminho. Mas ao acordar pela manhã, a realidade doía que nem garras a apertar a carne.
A lua quase redonda espreitava a sombra que se esgueirava afastando-se da aldeia rapidamente. Um uivo longínquo avisou-a de que deveria ter cuidado ao expor-se em idas tão distantes. Seu objetivo era alcançar a manada de animais reunidos a luz de prata. Aín ia ligeira, pois durante muitos dias evitara dirigir-se para aqueles lados. Andara a perguntar a Miza, o mais velho do grupo, sobre seus sonhos. Ele dissera-lhe que sua aproximação do animal de patas rápidas iria trazer muitas transformações para a vida de toda a tribo.
De início, a afirmação soara-lhe como uma ameaça, mantendo-a afastada de seu desejo. Mas, a paixão de voar por longos caminhos, como o vento a correr livre pelo corpo, acabou transformando a ameaça em promessa esperançosa.
Eles reuniam-se no vale, eram muitos e ariscos. De pé sobre uma elevação, a sentinela guardava o bando. Logo distinguiu a figura de Baáu, prateada pela lua. Mantinha-se afastado dos demais e também não dormia. Aín acocorou-se sob uma fenda da rocha abraçada as pernas, a fitar o sonhado companheiro.
Já de manhãzinha, ela acordou sobressaltada pelo ruído de uma respiração próxima aos seus cabelos. O levantar cuidadoso da cabeça mostrou-lhe o azul da manhã de olhos que lhe observavam com curiosidade. O horizonte estava a olha-la, Aín sentiu-se nascer naquele momento.
Fim