A Morte Tem 7 Herdeiros

(A noite em que Agatha Christie visitou Jacuruçunga)


Resumo: Uma sátira aos livros de mistério, para morrer de rir. Em lugar de um lorde inglês temos um caipira novo-rico. Em lugar de sete comportados e insuspeitíssimos herdeiros, temos sete amalucados, todos extremamente suspeitos por suas trapalhadas. Em lugar de um assassinato clássico, temos... bem, só lendo mesmo!

PERSONAGENS

Marty Matta Leitão – o morto
Lorraine Matta Leitão – finada mulher do morto Marty, falecida há mais de 15 anos

SOBRINHOS E CANDIDATOS A HERDEIROS


Linda – a sobrinha caçula
Steve
– mulher de Steve
James
– mulher de James
– a sobrinha mais velha
David – noivo eterno de
Lene
Chris
Matthew

Daniel Hall – médico da família Matta Leitão
– Mulher de Hall, enfermeira da falecida Lorraine
Kara – empregada da família
Hannah Fontão – a caolha



A autora se reservou o direito de apresentar de surpresa personagens misteriosas não anunciadas, de pregar sustos nos leitores e de manter o assassino ou assassinos em segredo até o fim.

Capítulo 1

Lá estava o morto no caixão, muito bem embalado, num enterro de primeira, tipo luxo.
Em volta, com cara e roupa de velório, reuniam-se os sete herdeiros, cada um caprichando mais em seu papel de parente inconsolável.
- Um cafezinho? – ofereceu Linda, a mais nova dos sobrinhos de Marty Matta Leitão, a uma senhora alta e magra, de cara esverdeada e cabelos arameados de laquê.
- De que ramo da família vocês são? – perguntou Natasha, a presidenta da Liga das Senhoras Jacuruçunguenses devolvendo a xícara à enlutada Linda, que se empinou toda, como se tivesse sido espetada pela pergunta, e deitou a sua melhor pinta de quatrocentona.
- Por acaso são parentes dos Matta de Espinhão Paulista ou dos Leitões de Cocheiral Bonito? De onde mesmo vocês vieram? - continuou a presidenta com a sua suavidade de uma locomotiva.
- A origem da família é mais antiga que a cidade – respondeu Linda, empurrando uns salgadinhos para ver se tapava a boca da incômoda visita.
A presidenta mastigou a empadinha com o lado direito da bochecha, enquanto o lado esquerdo continuava:
- Por acaso os Matta Leitão não seriam descendentes dos barões de Urtigal?
- Só quem entendia dessas coisas era o tio Marty – respondeu a moça, furiosa, tentando espantar da cabeça a imagem a lembrança do avô George, de facão na mão, correndo atrás da porca gorducha e caindo de nariz no chão, o bicho levando a melhor.
- É uma bela casa a de vocês – continuou a presidenta, calculando o valor da herdeira em futuras doações. – A dois quarteirões da igreja, quase no centro, deve valer um dinheirão!
Linda apertou o lenço na cara espremida de choro fingido, para abafar o assunto. Será que aquela casa desbeiçada, cheia de quartos bolorentos e portas rangedoras, onde só faltava sair morcegos de dentro dos armários, valia tanto assim?
Em volta do caixão os outros sobrinhos candidatos a herdeiros montavam a guarda. Steve, Matthew e Chris de um lado, com , mulher do primeiro – e , Lene e , com o marido James, do outro.
- Croquete? – ofereceu Kara, antiga empregada da família, a duas mulheres de preto que cochichavam.
- Uma morte muito estranha, muito estranha – comentou Jennifer, a mais velha, agente dos correios, assim que a empregada se afastou. – Chamava-se Lorraine, a mulher dele. Não é de seu tempo – continuou ela, dirigindo-se a Brittany, a mais nova regente do coro da igreja, que balançava o terço enquanto mexia a boca, pra disfarçar a fofoca.
- Não tiveram filhos – prosseguiu Jennifer. – Daí os sobrinhos sempre rondando, adulando, de olho na herança. Mas mesmo eles, com o tempo, foram se afastando.
- E a senhora não freqüentava a casa? – perguntava a mais nova.
- Não se dava com ninguém. Os Matta Leitão sempre foram muito orgulhosos, viviam isolados neste casarão apavorante. Só o doutor Hall e a mulher, , freqüentavam a casa. Ela foi enfermeira de Lorraine. Mas o casal nunca toca no assunto e, quando se fala nisso, desconversam.
e Daniel Hall estavam do outro lado da sala. E foi naquele exato momento que a coisa aconteceu!
Linda arrumava um veuzinho preto que envolvia a cabeça do tio, quando viu uma fumacinha saindo pelo nariz do morto.
que viu, correu para o banheiro, abriu a caixa de primeiros-socorros e retirou de dentro dela dois chumaços de algodão. Voltando à sala, espetou as ditos-cujos, o mais discretamente possível, nas cavidades nasais do falecido.
- Do tio Marty pode-se esperar tudo! – falou Linda baixo para – Até deitar fumaça feito chaminé, depois de morto!
Foi então que todos sentiram aquela estranha corrente de ar, aquele arrepio na espinha, mas ninguém notou que a cortina que dava para o corredor da escada se afastar sozinha.
O tecido esfiapado e cheirando a mofo bateu num vaso de flores que estava sobre a mesinha do saguão, derrubando a água e fazendo uma pocinha no chão. Em seguida, passos sem som foram subindo a escada, deixando pegadas molhadas na passadeira.
No andar de cima, deserto àquela hora, uma porta abriu de mansinho e tornou a fechar. E naquele momento os relógios pararam.

Sentado no banquinho da copa, o doutor Hall engoliu o café recém-coado que a empregada Kara lhe estendeu. Depois olhou para e perguntou:
- O que deu em você, mulher, para sair da sala nervosa daquele jeito?
baixou o rosto e cochichou no ouvido do marido:
- Então você não viu?
- Viu o quê?
- A fumacinha querendo sair do nariz do morto?
- Você está mais doida do que eu imaginava. Marty já não fumava em vida, quanto mais em morte recente! Guardou até o último charuto como troféu!
- Pois ele fumaçou, Hall. Eu juro! Não sei como pôs a fumaça pra dentro, mas que botou pra fora, botou. Eu vi. A nuvenzinha apontou duas vezes, sai-não-sai, como se tivesse explorando o ambiente. Depois saiu de uma vez.
Daniel Hall olhou penalizado para a mulher. Era nisso que dava assistir àqueles filmes de terror, da sessão das onze, na televisão. Ou será que ela sabia de algo mais? Não, não podia ser. Ela só sabia o que ele mesmo havia contado – pensou o médico.

Hora de fechar o caixão. Linda Matta Leitão teve um hipócrita acesso de choro com um olho só – o outro vigiava o nariz algodoado do morto.
e Hall voltaram para perto do falecido. Vizinhos e curiosos que, pela primeira vez, tiveram pretexto para entrar na casa, se afastaram, deixando os parentes na frente. O padre encomendou o defunto e pronto. Tampou-se o morto.
Um suspiro de alívio rodou pela sala.
- Acho que agora ele foi mesmo – cochichou Steve para a mulher, , que, deixando cair a máscara, completou:
- E já não era sem tempo!
Do outro lado da sala, Linda desabafou pra James e para a prima :
- Acabou-se o pesadelo. Ele nos controlando, nos vigiando...
- Amenzíssimo... - respondeu James.
Daniel Hall puxou a mulher para junto da escada e falou:
- Querida, é agora ou nunca. Vou tentar encontrar aquilo.
- Agora? Mas o enterro já vai sair, vão dar pela sua falta!
- Tem que ser agora. Marty exigiu que todos passassem a noite na casa para a abertura do testamento. Se eu não voltar a tempo, diga que eu tive um chamado urgente. Se o diário não for encontrado, muitas pessoas da cidade vão sofrer com isso – justificou o médico.
avisou, ansiosa:
- Se achar, não perca tempo lendo. Leve-o logo para casa, promete?
Daniel subiu as escadas silenciosamente e desapareceu no andar de cima.
- Onde será que o Marty guardou? Tenho que encontrar esse diário depressa, ou estou perdido! – resmungou o médico.
Será que o velho havia mesmo registrado ali tudo o que tinha acontecido? O senso de humor negro de Marty era mais do que conhecido. Ou seria apenas mais uma brincadeira de mau gosto, para atormentar as pessoas?
Daniel não podia arriscar. Alcançou o quarto do morto, abriu a porta e entrou nervoso. Acendeu a luz. Quando olhou para a cama, quase desmaiou de susto! Sobre a colcha de crochê de quadrados e bicos, as roupas do morto, estendidas, imitavam a figura de Anto vivo. As calças, a camisa dentro do colete e o paletó; o cachecol de lãzinha enrolado num laço vazio, com o chapéu por cima e um charuto espetado no lugar que seria a boca.
Nos pés, os sapatos de bico fino. E, empunhada pelas luvas de pelica, a famosa bengala de cara de cachorro, que Marty jamais largara em vida.
- Quem fez essa brincadeira estúpida? – gemeu Daniel com voz apavorada.
Nessa hora as luzes se apagaram. E o médico sentiu uma tremenda bengalada no traseiro!
Daniel desceu as escadas na mais desembestada corrida.

Capítulo 2

Quando o médico aterrizou no saguão, o enterro já ia saindo, com os quatro herdeiros carregando as alças do caixão: Steve, Chris, Matthew e James, marido de , todos com cara de seriedade forçada.
Daniel olhou para cada um dos presentes, tentando descobrir quem faltava. Estavam todos ali no cortejo: , a sobrinha solteirona com humor de hiena, bico de periquito e vaidade de pavão; , com cara de tonta (a sua de costume), logo atrás do marido James; , emproada como uma perua, seguindo o marido Steve; Lene, se arrastando com a delicadeza de um hipopótamo; e Linda com o lenço afundado no rosto, chorando cacarejado como uma galinha.
Hall ficou ali parado, os olhos arregalados, tentando entender como aquilo tinha acontecido. Quem teria dado a bengalada?
- Mas... onde estaria ? – indagou Daniel, com seus miolos em curto-circuito.
Também não via Kara por ali.
O cortejo fúnebre saiu a pé, em direção à praça da igreja, seguindo por mais algumas quadras até a rua do cemitério. Ao dobrar a esquina do clube, passou pelo bar onde a dona – uma estranha mulher conhecida como Caolha – sem o menor respeito cuspiu no chão e falou furiosa:
- Vá pros infernos, Marty Matta Leitão! Você bem que merece!
Brittany, a regente do coro da igreja, e Jennifer, a agente dos correios trocaram olhares de cumplicidade.
, que sempre fazia perguntas burras nas horas erradas, falou:
- Nossa! Por que será que ela fez isso?
Natasha, a presidenta da Liga das Senhoras Jacuruçunguenses registrou o fato na cabeça, para futuras investigações, e fulminou a prima por detrás de seu véu preto. Ela era a única das sobrinhas enlutadas que tinha coberto a cara, o que chamou, é claro, a atenção de todo mundo para sua figura alta e ossuda.
A dona do bar entrou batendo a porta e aproveitou o incidente para ir se atrasando, sem que ninguém percebesse.
Quando ficou fora da vista dos outros, a sobrinha voltou correndo para a mansão do tio.
mal teve tempo de se esconder de Daniel Hall, que vinha saindo da casa, tentando recompor a dignidade da cara.
- “Será que a minha ausência foi notada no enterro?” – pensava o médico. “ deve ter dado um jeito. Afinal, ela também está interessada em achar o diário, antes que caia em mãos estranhas.”
De repente, a bengalada de uma suspeita atingiu o médico, desta vez no peito:
- “ estava interessada demais no diário. E por que tinha pedido a ele que não lesse antes de chegar em casa?”
Agora Hall tinha que encontrar aquele maldito livrinho.
- O senhor está se sentindo bem? – perguntou Kara, olhando para o médico com cara assombrada. Daniel voltou a si.
Kara e o médico conversavam na porta da frente, impedindo a entrada de , que não pretendia ser vista.
- Droga! – resmungou ela. – Por que será que o doutor Hall não está com os outros, acompanhando o enterro?
A sobrinha mais velha tinha pouco tempo para revistar as coisas do morto, antes que o resto da família voltasse. Deu a volta na casa e entrou pelos fundos.
- “Será que mais alguém ouviu falar no misterioso diário?” – pensou.
Na ponta dos pés, atravessou a sala onde tudo cheirava a mofo, subiu as escadas e seguiu pelo corredor. De repente, sentiu um calafrio correr pela espinha. Uns sons suaves e melodiosos vinham de dentro do quarto de Lorraine. Parecia música!
Verdade ou ilusão? Afinal a tia estava enterrada há mais de quinze anos!
- “Impressão” – decidiu a sobrinha, girando a maçaneta da porta do quarto de Marty e pensando em como tinha sido esperta cuidando que ninguém notasse sua ausência no enterro.
- Todos vão jurar que eu estive lá o tempo todo – falou rindo, enquanto entrava no quarto. Mas o riso de hiena gelou na cara bicuda de periquito da quando ela, APAVORADA, olhou para a cama do tio.
Sobre a colcha de quadrados, viu a roupa do tio cheia de ar, estufada como um balão, como se a alma do morto estivesse dentro dela.
A sobrinha avançou decidida e, armando-se da bengala de cara de cachorro que fora de Marty, caiu de bengaladas sobre o fantasmagórico espantalho, que foi murchando, murchando, até voltar ao normal.
Então, mais calma, se aproximou da roupa tentando decifrar o mistério. Alguém tinha preparado aquilo. Mas como?
E com que finalidade? Para afastar os curiosos daquele quarto, é claro!
Fechando a porta, a herdeira começou a procurar.
- Onde aquele velho múmia iria esconder um diário?
Abriu a gaveta da cômoda, revirou as roupas, tornou a fechar empurrando com força, deu um berro sem tom: tinha esquecido dois dedos lá dentro. Vasculhou todas as gavetas em vão. Revistou o guarda-roupa. Nada! Debaixo da cama, no jarro de louça... nadíssima!
- Velho idiota! – rosnou raivosa. – Onde você enfiou o maldito diário?
estava levantando a ponta do tapete quando, lá embaixo, na saguão, Hall conseguiu finalmente se livrar da empregada, que desapareceu pela porta da cozinha. Daniel fingiu que saía da casa batendo a porta, mas entrou de novo e, numa corrida, subiu a escada. Precisava encontrar o diário!
Chegando no corredor de cima, parou e olhou em volta. Tudo em silêncio! Esperou alguns instantes, com o coração na boca, ainda pensando na bengalada misteriosa. Afinal, quem poderia Ter feito aquilo? Bengalas não tem vida própria!
Daniel aproximou-se, ainda tremendo, do quarto proibido, girou a maçaneta e espiou. Mas, quando bateu o olho lá dentro, sentiu um choque elétrico do calcanhar às orelhas.
Lá dentro, deitada no chão, com a boca aberta e a língua de fora, olhos esbugalhados, estava , com a bengala do morto enterrada no coração, em meio à maior sangueira.

Capítulo 3

Enquanto Hall despencava pelas escadas, assustado, alguém saiu silenciosamente de dentro do armário do quarto de Marty.
A misteriosa personagem, ao ver o corpo de deitado no tapete, não sentiu nenhum espanto nem emoção. Retirou a bengala, limpou na barra do vestido preto da recém-defunta e pendurou (a bengala, é claro) na guarda da cama. Em seguida, fez algo estranho: amarrou um lenço no nariz da morta.
- “Tenho pouco tempo” – pensou. “Os outros já devem estar voltando. Onde pode estar esse nauseabundo diário?”
Lá em baixo, Hall saiu pelos fundos e deu a volta na casa, cruzando com Linda e Lene que vinham chegando na frente, seguidas do resto da família. Todos, menos .
Entraram discutindo, as mulheres criticavam alguém. falou:
- Ela estava ridícula com aquela roupa preta, de véu na cara.
- sempre gostou de chamar atenção. Não viu o jeito dela no enterro? Bancando a inconsolável no cemitério, jogando florzinhas no defunto... Quem não sabia que ela detestava o tio Marty?
- Onde é que se meteu aquele urubu?
- Subiu agora mesmo.
Hall ficou griladíssimo! não podia ter subido agora mesmo, ela já estava lá em cima, no quarto do velho, mortíssima!
Mas então... estava mentindo! Mas por quê? Hall não podia perguntar nada, para não se trair.
- “Mais cedo ou mais tarde o corpo vai ser descoberto” – pensou o médico – “mas não vai ser por mim!”
- Temos mesmo que passar a noite todos juntos aqui? – perguntou Lene arrastando o corpo pesado até o sofá da sala, onde todos se reuniam novamente. – Que coisa mais desagradável! Minha artrite não vai gostar nem um pouco dessa umidade.
- Paciência, prima – disse James bem-humorado. – Depois que eu herdar este mausoléu, prometo que mando botar tudo abaixo e construo uma casa decente no lugar.
- Por que você acha que vai herdar a casa? – perguntou Linda com desprezo.
- Porque sempre fui o parceiro preferido do velho no dominó e no palitinho – respondeu James sem se perturbar.
- Mas quem cuidou do velho fui eu! Morei aqui nesses dez anos, enquanto vocês passavam só alguns dias de cada vez. Eu é que agüentei tudo! – falou Linda quase gritando, fora de si.
- Calma, calma! – tentou conciliar Chris. – Não vamos perder a nossa cabeça agora. O pior já passou. Estamos livres do poderoso Leitão!
- “O pior está para vir” – pensou Matthew. “Será que mais alguém tem conhecimento do diário que o velho escrevia?”
- Estamos todos nervosos – continuou Chris. – Mas amanhã, quando o doutor Louis, o advogado de tio Marty, abrir o testamento, vai acabar nossa tensão.
- “Se não acabar conosco” – lamentou-se Matthew com seus botões.
Retomando o papel de dona-de-casa, Linda falou:
- Vou apressar o jantar. Já é muito tarde, vocês não querem subir para seus quartos enquanto isso? Chamo quando estiver na mesa.
Todos levantaram ao mesmo tempo e trataram de aceitar a sugestão o mais rápido possível.
Steve e subiram. Logo em seguida Matthew, que dormia no quarto menor, porque era solteiro. Os três em quartos do lado esquerdo, junto ao banheiro. James e foram para o primeiro quarto de casal, no fundo do corredor, à direita, ao lado do quarto de Chris, o mesma de antes do desquite. A última a subir foi Lene, sempre resmungando e se queixando da vida. Ela ocupava o último quarto daquele lado.
No centro do corredor, diante da escada principal, ficavam os quartos de Marty Matta Leitão e da falecida Lorraine, agora vazios, de portas sempre fechadas. Ao lado a escada de serviço, que descia para os fundos do casarão.
e Hall ficaram sozinhos na sala. O médico pensou em interrogar a mulher sobre a presença de no enterro, mas mudou de idéia. Achou que seria imprudência.
Dizendo que precisava telefonar, Hall afastou-se de e seguiu para o escritório de Marty, no fundo do casarão.
Vendo o saguão finalmente vazio e tudo calmo, Linda subiu a escada dizendo em voz alta, para quem quisesse ouvir:
- Vou pegar lençóis para fazer as camas.
Quando chegou em cima, porém, parou um instante e escutou.
Silêncio. O corredor estava deserto.
Vendo-se sozinha, a moça foi direto para o quarto do morto. Mas não chegou a tocar na maçaneta. A porta se abriu antes disso, num tranco, e de dentro saiu um vulto todo de preto: meias, sapatos e saia até as canelas, que passou ventando por ela e desabou escada abaixo, gritando:
- Ele está morto! Está morto!
Todas as portas se abriram; os hóspedes foram saindo na maior agitação.
Hall apareceu no saguão com o coração pulando: “Finalmente descobriram ” – pensou.
- Ele está mortíssimo! – repetia a voz, meio histérica.
- ELE? – estranhou o médico.
Olhando para o alto da escada, Hall viu um vulto vestido de negro descer os degraus de quatro em quatro. Ficou branco de susto. O resto do pessoal veio descendo atrás, todos olhando espantadíssimos, sem entender nada.
É que do vestido preto da saía a cara bexiguenta do David – o eterno noivo da prima – que todos pensavam que estivesse fora da cidade.
- Quem está morto? – perguntou , que era amais calma ali do grupo.
- Matthew... está morto! – rouquejou David com os olhos ameaçando a rolar para fora das órbitas.
- Morto COMO? - perguntou James.
- Foi sufocado... – David respirou fundo antes de continuar. – Vocês não vão acreditar. SÓ VENDO!
Todos olharam uns para os outros, com cara de não-fui-eu-quem-será-que-foi?
Daniel Hall voltou a si do espanto e foi empurrado pelos outros para subir na frente. Como médico cabia a ele conferir o defunto.
Hall entrou no quarto de Marty com muita desconfiança, evitando olhar para cima da cama, onde a roupa do recém-enterrado ainda estava montada e gaiata, como antes. Mas com uma diferença, que ele notou logo: a bengala de cara de cachorro estava agora pendurada na guarda da cama.
No chão, sobre o tapete, onde deveria estar o vulto espetado de , estava o corpo de Matthew. Sufocado. Com um charuto espetado na boca, descendo pela goela abaixo. Um charuto ACESO! Hall engoliu em seco, abaixou-se ao lado do defunto e apagou o charuto.
- Não mexam em nada, vamos chamar a polícia – disse David de dentro das roupas extravagantes de .
- Polícia uma pinóia! – protestou James. – Se fizermos isso, adeus testamento amanhã de manhã! Temos que esconder o testamento até que ele seja aberto e lido. Temos que evitar o escândalo a todo custo! Somos os Matta Leitão – e pensou apavorado: “Imagine o diário caindo nas mãos da polícia!”
E então veio aquela celebre pergunta:
- Onde estavam todo mundo quando isso aconteceu?
Todos tinham estado sozinhos pelo menos um quarto de hora. Nem os casados escapavam. tinha isso buscar uma colcha de crochê no quarto da falecida Lorraine, e Steve foi ao banheiro procurar comprimidos para o fígado.
Enquanto todos falavam ao mesmo tempo, David saiu do quarto de Marty e foi se desembaraçar das roupas do velório. Na cabeça do noivo, um grilo que só Daniel Hall entenderia:
- “Onde havia se metido ? Será que ela tinha encontrado o tal diário que custara tanto esforço e colocara ele, David, naquela situação embaraçosa? No enterro, ninguém tinha notado nada. Mas agora...”
Um arrepio eletrificou a espinha do devotado noivo. Aquela manobra toda podia colocar a herdeira como a principal suspeita da morte de Matthew, e ele, como cúmplice!

Capítulo 4

O que vamos fazer com ele? – perguntou Steve apontando para o recém-defunto, que todos tinham concordado em esconder.
- Vamos embrulhar nem cobertor elétrico para não esfriar – sugeriu Hall, recobrando o senso prático, refeito do susto. – Ele tem que remorrer amanhã, depois da leitura do testamento, não tem?
- Ótima idéia! Assim vai ficar mole e quentinho para amanhã.
Todos aceitaram a idéia. Era um a menos para herdar...
Hall tentava agradar aos futuros herdeiros, ele ia precisar muito da compreensão deles! E lembrou-se de quando, quinze anos atrás, tinha prestado idênticos serviços a Marty Matta Leitão, passando atestado de óbito de Lorraine como “ataque cardíaco”.
Será que isso também estaca no diário? Era bem capaz. O senso de humor deteriorado do velho não tinha limites!
Estando todos de acordo, Linda dirigiu-se ao armário do corredor para buscar o cobertor elétrico. Quando abriu a porta, deu com um vulto negro, embolado no meio dos travesseiros e almofadas. Linda falou zangada:
- David, chega de brincadeiras. Você está com humor de muito mau gosto hoje. Parece o tio Marty!
- Falou comigo Linda?
- Falei, sim. Saia daí, David! Eu sei que você não gostava do velho, e tinha suas razões. Mas brincadeira tem hora e limites!
- Do que é que você está falando, Linda?
A voz confusa de David vinha de trás, notou Linda. E a moça foi se virando...
De dentro do quarto do Poderoso Leitão, todos ouviram um berro em duas vozes – uma grave, outra aguda – de arrepiar os cabelos. E correram na direção.
David puxava para fora do armário os despojos de sua ex-querida eterna noiva .
- E agora, que vamos fazer? – perguntou Lene, de cara azeda.
Hall acudiu, sem perder o sangue frio.
- Embrulhamos os dois defuntos no mesmo cobertor.
Todos se olharam. Pensavam a mesma coisa: “Dois herdeiros a menos!”
De repente, os olhares se viraram ao mesmo tempo para David, que tinha tomado o lugar da noiva durante o enterro.
Agora, todos se surpreendiam! Mas então... já podia estar morta há muito tempo!
Qual deles seria o assassino?
Daniel Hall falou, quebrando o gelo.
- Acho que vocês devem esperar em seus quartos até a hora do jantar. Fechem muito bem as portas! Deixem que eu empacoto os dois e levo para o porão.
- Eu ajudo você – disse Chris. – Podemos descer com eles pela escada de serviço, que dá para os fundos e direto na escada do porão.
Steve e James empoleiraram os defuntos bamboleantes nas costas de Chris e do médico. Abrindo a porta, sumiram escada abaixo.

O jantar já estava no meio quando Chris e o médico entraram na sala esbaforidos. Todos olharam ansiosos para os dois homens. Hall fez um gesto afirmativo com a cabeça, indicando que estava tudo em ordem.
Ninguém falou até que Kara tirasse a mesa. Aí passaram para a sala de estar. O silêncio continuou, até que David resolveu falar:
- Acho que devíamos tomar alguma providência. Há um assassino entre nós. Não podemos ignorar isso!
- David tem razão. Nosso irmão Matthew está morto, e eu acho que o assassino deve pagar. Não é justo que a gente divida com ele a herança de tio Marty.
- Devemos fazer algo, é claro – apoiou James. – Mas só depois da abertura do testamento pelo doutor Louis.
James estava pensando em como fazer para apanhar a sua parte da herança e dar o fora do país antes que os defuntos fossem encontrados. A mesma idéia passara pela cabeça de Chris. Quanto ao médico, só pensava em achar o diário, para se mudar de cidade.
Steve começou a suar frio, fazendo cara de enjôo. passou a mão na testa do marido, preocupada.
S- Por favor, meu bem – gemeu ele – vá buscar minha pílulas para o fígado. Com essa confusão toda, me esqueci de tomar.
levantou-se e foi andando em direção à escada.
- Espere, , vou com você. Estão acontecendo coisas muito estranhas nesta casa – propôs David.
Os dois se dirigiram para o andar de cima.

Capítulo 5

O frio aumentava à medida que ia ficando mais tarde, embora o relógio estivesse parado, marcando sempre a mesma hora, naquela fria noite de outono. se enrolou melhor no casaquinho de tricô feito à mão e falou:
- A gente bem que podia acender a lareira...
Todos olharam para ela espantados, e a herdeira completou com sua cara de tonta:
- Se tivesse uma!
Linda então propôs:
- Vai ser uma longa noite. Que tal se a gente fizesse um joguinho para passar o tempo? Um dominó, um buraquinho...
- Por que a gente não faz o jogo do copo?
- Que jogo é esse?
- Alguém faz uma pergunta e o copo responde. É emocionante! – continuou a sobrinha bocó. – Podemos perguntar quem matou e Matthew.
Todos tomaram seus lugares nas cadeiras em volta da mesa da sala de jantar, um salão lúgubre e escuro que dava para os fundos da mansão, de onde se ouvia o assobio e o gargarejo incômodo dos cano de água cada vez que alguém abria qualquer torneira.
cortou papeizinhos de tamanhos iguais, Chris foi escrevendo neles as letras do alfabeto. Os papeizinhos foram distribuídos em círculo sobre a mesa. No centro do círculo pôs, virado de boca para baixo, um copo que Linda trouxe da cristaleira.
- Agora tudo mundo põe um dedo em cima do fundo do copo, de leve, sem fazer pressão – explicou a prima, com uma deliciosa expressão energúmena na cara.
- E depois, o que acontece? – perguntou Lene inquieta na cadeira.
- Então, cada um pensa na pergunta que quiser. Daí a gente fecha os olhos, o copo começa a correr letra por letra formando palavras. Reunidas as palavras, aparecem sentenças respondendo às perguntas.
Steve coçou o queixo:
- Escuta, : se estiver todo mundo de olho fechado, como é que a gente vai saber qual foi a letra que o copo apontou?
- Alguém fica de olho aberto e vai anotando. Os outros fecham os olhos para fazer força mental! – explicou a prima.
- Está pronto. Mas será que e David foram fabricar as pílulas lá em cima?
- Vamos começar agora mesmo – propôs assanhadíssima. – Alguém apague a luz.
Nesse mesmo momento, sem ninguém se levantar da cadeira, as luzes se apagaram.
- Cruzes!
- Foi Alfred – Explicou ela, tateando à procura de velas e fósforos.
- Quem é Alfred? – perguntou Hall, perplexo.
- Nos romances policiais ingleses não tem sempre um mordomo chamado Alfred?
- Mas aqui não tem mordomo, – falou o marido pacientemente.
- Então quem foi que apagou a luz?
- A mesma força que vai fazer o copo vibrar – explicou Hall para acabar com a discussão. – Energia mental. Agora façam silêncio e pensem. Pensem com bastante força na pergunta que quiserem. Quem tiver o pensamento mais forte, vai ter a resposta.
Começaram todos a fungar e a bufar, como se para fazer pensamento forte fosse preciso fazer força física. Lene ficou com a caneta na mão tomando nota; por dinheiro nenhum fecharia os olhos aquela noite, naquela casa. Ainda mais no escuro!
No fim de algum tempo se acalmaram, e já estavam com os dedos cansados, quando o copo tremeu. Vibrou e deu um pulo. Depois rolou para o lado e parou diante de uma letra. Em seguida voltou para o centro, ficou vai-não-vai, foi.
E assim, cada vez mais rápido, o copo formou uma palavra, depois outra, Lene grafando tudo. Até que o copo parou.
- Leia a mensagem – falou doutor Hall, preocupadíssimo.
Prima Lene forçou a vista e foi juntando as letras. Quando leu, deu um grunhido de espanto. Estava escrito:
- “Meu sobrinho James é um sem-vergonha que perdeu toda a fortuna em apostas de cavalos. Portanto, jamais será meu herdeiro. Há, Há, Há e Há!”
- ISSO É UMA CALÚNIA! – gritou James enquanto tinha um chilique de susto. – Alguém empurrou o copo para escrever essa besteira!
falou dando um risinho:
- É mesmo. Você só aposta no burro, só uma vez jogou na borboleta. Mas no cavalo, nunca!
James fez uma cara furiosa para a mulher, que engoliu de volta metade do riso. Mas Lene estava impressionadíssima:
- Será que foi mesmo tio Marty que esteve aqui e fez o copo girar?
- Se foi ele, continua mentiroso mesmo depois de morto – protestou James.
- Pois eu acho que foi uma mensagem do titio – falou Linda, felicíssima com a bronca que o primo tinha levado do morto. – Só o velho Marty ria assim: “Há, Há, Há e Há”. Era a marca registrada dele.
- Vamos continuar. Só assim saberemos mais.
- É mesmo, melhor tirar as dúvidas – O jogo tinha começado a ficar interessante! – Vamos fazer todos a mesma pergunta: “Quem esteve aqui?”
Novamente puseram os dedões esticados no traseiro do copo, que correu desinibido, como se soubesse as letras de cor. Quando parou, Lene leu com voz cavernosa:
- “Agatha Christie esteve aqui” – estava escrito no papel.

Capítulo 6

Todos ficaram petrificados de susto, como estátuas encadeiradas. Menos , que aplaudia com um risinho guinchado:
- Viram só? A gente não tem lareira nem mordomo, mas tem Agatha Christie. Não é genial?
A besteira da prima cortou o bolo de gelo. Lene reagiu:
- Se é verdade que Agatha Christie veio até Jacuruçunga, não vai sair daqui sem dar serviço. Ela vai ter que dizer qual de nós é o assassino!
- Ótima idéia, prima! – aprovou Steve.
Remexeram-se todos inquietos nas cadeiras, e o jogo recomeçou. O copo já corcoveava, quando ouviram um grito que vinha do andar de cima.
- ! – exclamou Steve, dando um salto. – É ela!
Todos correram escada acima, a respiração suspensa no ato de inspiração ou expiração, conforme tinham sido surpreendidos.
No corredor, diante da porta fechada do quarto de Steve e , David estava caído. Enquanto os outros reanimavam o ex-noivo, Steve e Hall arrombaram a porta trancada por dentro. Estendida na cama, tinha os olhos arregalados e respirava com dificuldade.
- Que foi?
- Que não foi?
David respondia confuso:
- Não sei! Eu estava aqui esperando, enquanto ela procurava o remédio de Steve. E então, de repente, senti uma bordoada...
Dentro do quarto, resfolegando e tossindo, tentava explicar:
- Eu estava procurando o remédio de Steve dentro da minha bolsa e não conseguia achar. De repente, aquela mão branca... veio pelas minhas costas. Enfiou os dedos pelo meu nariz... ela queria me sufocar!
- Mão branca?
- Por que você não respirou pela boca?
- ...É que veio a outra mão branca e tapou minha boca – respondeu ela soluçando. – Daí eu desmaiei e só agora voltei a mim.
Steve começou a revistar o quarto todo, olhou debaixo da cama de casal e dentro dos armários. Os outros imitaram o primo, procurando também.
Então Linda levantou alguma coisa do chão, segurando com as pontas dos dedos, como se pegasse um rato pelo rabo:
- Veja, a luva de pelica do tio Marty! A que ele usou na noite em que recebeu o título de comendador da Liga Jacuruçunguense.
- Quem está tentando matar todo mundo? – perguntou com sua cara mais tonta.
Todos olharam para David, que se defendeu:
- estava trancada no quarto. Por dentro!
- O quarto tem uma sacada que dá para fora – lembrou Chris.
- A varandinha? Todos os quartos têm.
- E elas se ligam umas às outras.
- Acho que estamos todos em perigo – choramingou Linda.
- Isso pra mim é coisa de alma de outro mundo.
Todos sentiram um fio gelado escorrendo pela espinha, mas foi Linda quem falou, se dirigindo ao médico:
- Vocês fecharam bem a porta do porão?
- Deixe de tolices, Linda – cortou Chris, o cabeça-fria da família. – Desse jeito você põe os outros nervosos.
- Nós já estamos nervosos – respondeu a moça.
- Acho que vocês devem ir dormir um pouco - aconselhou o médico. – Tranquem bem as portas dos quartos. Amanhã as coisas vão parecer melhores. Se vocês quiserem, eu e a podemos ficar aqui esta noite.
Todos concordaram aliviados. Mas o alívio de Hall foi maior ainda. Ele teria a noite inteira para procurar o maldito diário enquanto os herdeiros estivessem trancadíssimos, morrendo de medo, em seus quartos.
Os primos foram se recolhendo, Steve foi para o banheiro tomar banho.
- Steve deve estar passando mal, mesmo. Viu só que cara de berinjela?
olhou furiosa para ela, virou as costas e saiu do quarto. Aproximou-se da porta do banheiro e ouviu a água do chuveiro que corria, os canos assobiando.
- “Tenho que aproveitar agora” – pensou ela.
Pé ante pé, se dirigiu ao quarto de Marty Matta Leitão, abriu a porta e entrou. A porta que dava para a sacada estava aberta, escancarada para a noite escuríssima lá de fora.
- “Quem será que abriu essa porta?” – pensou. “Tenho que fechá-la antes de acender a lanterna.”
A moça aproximou-se cautelosamente da porta aberta, estendeu os braços para a veneziana e deu de cara com aquele vulto de malha preta e cabeça encapuzada.
- SOCORRO! O ASSAS...
A mão tapou a boca de e o vulto encapuzado pensou:
- “Eu sei o que ela veio procurar; está com medo do diário do morto!”
Nisso, deu uma valente mordida no gordinho da mão que apertava a sua boca.
Aproveitando o uivo de dor e o espanto do vulto que soprava a mão mastigada, saiu correndo do quarto, gritando:
- SOCORRO! O assassino está no quarto de tio Marty!
Aos poucos, os primos foram abrindo as portas de seus quartos e aparecendo com seus pijamas e camisolões. Todos se atropelaram na entrada do quarto do velho. Chris acendeu a luz.
- Não há ninguém aqui. A porta está fechada, como eu mesmo deixei.
Todos olharam firme para .
- O que você estava fazendo no quarto do tio a essa hora?
ficou verde, não sabia o que responder. Nisso, gritou do corredor:
- Água! Inundação!
- Onde?
- Como?
- O que foi?
Todos se mandaram para a direção apontada.
Por baixo da porta do banheiro, a água escorria aos borbotões, inundando o corredor. E já ia descendo a escada, em cascata, pulando alegrinha de degrau em degrau pela passadeira.
James meteu o ombro na porta. Estava aberta. Ele voou pelo ladrilho molhado e ensaboado, indo aterrizar sobre o cesto de lixo.
- O que está acontecendo aqui?
- As torneiras estão todas abertas e o chuveiro ligado – respondeu Linda enquanto fechava tudo.
- Que fumaceira! Não dá pra enxergar nada!
- Vejam, aqui atrás da porta, é Steve! – berrou . – Steve, ai meu Deus!
Abanando o vapor para ver melhor, Hall se debruçou sobre o herdeiro, examinou. Então falou com voz trágica:
- Está morto!
- COMO? – gritou Linda, como se o vapor, além de deixar cegas, tornasse as pessoas surdas.
O médico pegou um vidrinho de pílulas do colo do morto e levantou em resposta:
- VAZIOZINHO!
- Suicidou-se com pílulas para o fígado?
- Não são pílulas para o fígado – respondeu o médico, cheirando o tubo destampado. – É cianureto!
- FOI ELA! – gritou Linda apontando para . – Foi ela que matou meu irmão!
recuou apavorada.
continuou acusando:
- Pensa que eu não sei o que você fez com ele? Mau irmão me contou, sua mulher desnaturada!
- Você está doida, Linda? – defendeu-se .
- Doida nada! Você vendeu toda a coleção de selos dele na Praça da República! E ele me confessou que você também estava de olho na coleção de moedas. Agora ele está morto, pode vender todas. E os maços de cigarros vazios, a coleção de revistas em quadrinhos numeradas, os rótulos de pinga, as etiquetas de roupas estrangeiras, agora você pode vender tudo, sua insensível!
estava branca como anúncio de sabão em pó, mas revidou:
- Eu também quase foi morta, lembra-se? Sufocada com uma luva! Com duas luvas!
- Isso é o que você disse. Mas quem viu? Você estava trancada por dentro, no quarto. Além disso, até agora, foi a única vítima que não morreu!
- Calma, Linda, calma! – apartava Hall segurando a mais nova dos Matta Leitão, que queria a todo custo acertar a cabeça da cunhada com um desentupidor de pia.
- Vendi a coleção dele, sim – confessou . – Seu irmão era um pão-duro que gastava todo o nosso dinheiro em revistinhas de segunda mão e só comprava carne de cachorro desidratada pra gente comer em casa.
estava furiosa, e até juntava cuspinho no canto da boca enquanto falava:
- Mas eu não matei ninguém, não. assassino é você, que botou veneno no remédio de nariz do tio Marty. Eu sei! Depois, abriu todas as portas e janelas ao mesmo tempo pra fazer corrente de ar e provocar um resfriado no velho.
- MEN-TI-RO-SA!
Linda se soltou das mãos de Hall e avançou para a cunhada.
- Sosseguem, meninas! Todos tinham motivo para dar cabo do tio Marty. Até o Matthew, que descanse em paz, falsificou a assinatura do velho quando fugiu com a balconista da peixaria. Depois falsificou de novo, pra se ver livre dela.
- E quem matou Matthew? – perguntou , sentada no banquinho.
De repente, todos se acalmaram.
- Ela tem razão. Pela primeira vez na vida disse uma coisa sensata. Quem matou Matthew e Juliana, então?

Capítulo 7

Temos que nos livrar do corpo de Steve. Que vamos fazer? Cobertor elétrico, só tem aquele – confessou Linda.
- Mas bolsa de água quente existe uma em cada quarto – lembrou James.
- Isso! Tragam todas elas e vamos encher com água fervendo – disse Hall. – Depois enrolamos Steve ora se esquentar até amanhã, igualzinho aos outros dois.
- Coitado do meu irmãozinho! Afinal, não morreu do fígado. Isso foi uma sorte!
- Melhorou bem depois de morto – reparou . – Está até mais cor-de-rosinha...
- É, perdeu a cara de fruta colhida antes do tempo – notou .
Hall equilibrou o mais recente dos herdeiros-defuntos nas costas, com a ajuda de James e Chris, e dirigiu-se para a escadinha dos fundos. Enquanto isso, Linda enchia as botijas com água fervendo e entregava a Chris.
- Tome. Eu não desço ao porão, nem morta!
Todos olharam para ela, Linda ficou verde-amarela. James pigarreou.

Meia hora depois estavam todos reunidos na biblioteca de Anto, repleta de livros carunchados e amarelentos.
- Vamos ficar todos aqui juntos. Assim um vigia o outro.
Ajeitaram-se todos como puderam, mas ninguém mais foi se deitar.
- Vou fazer um café para espantar o sono – anunciou Linda.
Atravessando a sala de jantar e a copa, a moça entrou na cozinha e acendeu a luz. Encheu a chaleira de água, pôs no fogo. Kara, que dormia no quartinho ao lado da escada de serviço, abriu a porta e apareceu de roupão.
- Quer que ajude?
Linda reparou que ela estava com a mão enfaixada.
- Que isso, machucou-se?
- Queimei na frigideira – respondeu Kara arrumando as xícaras na bandeja. – O açucareiro está vazio – avisou.
- Deixa que eu encho – falou Linda, abrindo a porta do armário e retirando alara de açúcar.
Quando levantou a tampa, arregalou os olhos apavorada e deu um berro estroboscópico!

A sobrinhada toda correu para a cozinha, seguida do médico e da mulher. Linda continuava ali parada, imóvel, branca como os azulejos da cozinha.
- Que aconteceu?
- Que foi?
- Por que foi que ela gritou?
Linda, de boca aberta e olhos saltados, olhava para dentro da lata de açúcar, onde, num vidro de boca larga, boiando num líquido amarelo, nadava uma tripinha escura e enrugada. Hall esticou o pescoço e diagnosticou:
- O apêndice de Anto Matta Leitão, que eu operei há quinze anos!
- Tem um papelzinho junto – mostrou David.
Chris pescou o papel e o desdobrou, lendo:
- “Há, Há, Há e Há! Estou me vingando a prestação. Se duvidam, saibam que vocês comeram minhas amídalas à milanesa na hora do jantar”.
Alguém estava, decididamente, se divertindo às custas dos herdeiros sobreviventes.
Voltaram todos para a biblioteca, Kara serviu o cafezinho aos apavorados hóspedes, que resolveram fingir que nada estava acontecendo.
sentou-se no braço da poltrona de Lene, apanhou um velho álbum de fotografias e começou a folhear. De repente parou num instantâneo amarelado:
- Olha, prima, uma foto do tempo em que você era magra e montou aquela firma de fabricar uísque falsificado!
- EU NUNCA FIZ ISSO EM MINHA VIDA!
- Como não? Você comprava garrafa vazia de bebida estrangeira e enchia, com seringa de injeção, de uísque nacional, iodo e pinga misturados. Já esqueceu daquele vez em que eu e o James escondemos você da polícia, sua mal-agradecida? Tio Marty tinha razão. Você não merecia!
Foi preciso que James e Chris interferissem para afastar as primas, antes que as duas se embolassem.
- Meninas, meninas, vocês são duas Matta Leitão! Comportem-se à altura do nome da família – repreendeu Chris.
pegou o álbum da mesinha, foi virando ao acaso, até dar com uma foto de Lorraine vestida de baiana, à la Carmen Miranda. O instantâneo estava solto, e embaixo estava escrito: “Se quiser encontrar o diário, venha me procurar”.
ficou fascinada. Pensou, pensou, até dar nó nos miolos, pra ver se decifrava o enigma. De repente, um raio de luz rasgou seu cérebro.
A recém-viúva levantou-se e saiu pelo corredor dos fundos, como quem fosse ao toalete, logo ao lado da escadinha de serviço que Hall tinha usado por duas vezes naquela noite e deixara destrancada.
Na biblioteca, Chris olhou pensativo para Linda e falou:
- Onde é que você estava logo depois do enterro de tio Marty? Nem cobriram o velho, você evaporou do cemitério.
- Eu me senti mal e fui sentar num banco da praça. Mas você, onde estava na hora do discurso do presidente da Academia Jacuruçunguense de Oratória?
- Durou cinqüenta e cinco minutos, quem agüentava em pé? – protestou Chris, lembrado que Lene também fugira do discurso.
- Eu sei onde vocês querem chegar – revidou Lene. – Mas se eu tive tempo de vir aqui e matar , vocês todos também tiveram. Durante os pêsames eu estava lá, e não vi nem James nem – acusou a prima, em resposta.
David não estava gostando nada daquela conversa. Mas logo ficou provado que todos tinham se afastado do cemitério durante a cerimônia, num momento ou noutro.
Ainda discutiam a embaraçosa descoberta quando apareceu na porta, pálida como um fantasma.
- Ela está lá em cima, cantando, vestida de Carmen Miranda!
Dizendo isso, desabou como um saco de batatas.

Capítulo 8

No quarto de Lorraine Matta Leitão, alguém se desembaraçou da fantasia de baiana, que tornou a vestir no manequim, e desligou a antiga vitrola, onde um disco de 78 rotações ainda rodava, sem som.
Em seguida, a misteriosa personagem deslizou pelo corredor e desceu a escadinha dos fundos, sem que ninguém percebesse. Estavam todos acudindo . Todos? Na confusão, podia bem faltar alguém...
- Que foi, ? Que aconteceu?
debruçou-se sobre , pronta para pôr em prática seus dotes de enfermeira.
- Eu fui lá em cima, no quarto de Lorraine...
- Fazer o quê?
fingiu não ouvir a pergunta.
- Quando abri a porta, ela estava lá, requebrando e dançando.
- Ela quem?
- Carmen Miranda, vocês não ouviram a dizer?
- Deixe de estupidez, . Alguém está se divertindo às nossas custas, isso sim. E só pode ser o assassino – deduziu Chris.
- Quem de nós não estava aqui agora há pouco?
- David não estava – acusou Linda. – Encontrei com ele no corredor dos fundos, perto da despensa.
- Então você também saiu da sala.
- Tanto quanto você – xeretou , ainda fula com a prima. – Eu vi você saindo...
Todos falavam ao mesmo tempo, se culpando, se acusando.
- Calma, silêncio todo mundo! – berrou Chris, perdendo a paciência.
Todos se calaram e olharam para o rapaz.
- Nós temos que nos controlar, senão ninguém agüenta até a hora da leitura do testamento. Estamos uma pilha de nervos!
Linda cochichou para Lene:
- É a Segunda vez que escapa do assassino. Só ela! Nenhum dos outros escapou até agora...
- É a terceira vez, minha querida. Se é verdade o que ela disse, escapou no quarto de tio Marty, também.
- Até parece que é cúmplice! – continuou Linda, furiosa. – Ela queria se ver livre de meu irmãozinho. Fingia que gostava dele, mas obrigava o coitadinho a ler Os Lusíadas toda noite pra ela, porque tinha insônia. Horas seguidas! Até o sono chegar...
- Que horror! – protestou Lene. – Não tenho nada contra Camões, mas a letra é muito pequena.
Foi nessa hora que tocou a campainha e todos deram um salto. Uns pra a frente, outros pra trás.
- Quem será a essa hora? – perguntou James olhando o relógio da parede. Estava parado. O da mesinha também. Todos os relógios da casa estavam parados!
- Deixem que eu abro a porta.
E Hall dirigiu-se para a entrada.
- Boa noite – cumprimentou a moça toda encapotada que foi enfiando para porta adentro duas malas enormes.
Passado o primeiro espanto, Chris perguntou para a recém-chegada, roxo de raiva:
- O que você veio fazer aqui?
- Vim receber a nossa herança, meu querido. Então o amado tio vai desta para melhor e você nem me avisa?
Chris ficou cor de tangerina:
- Nós estamos des-qui-ta-dos, ! – berrou ele.
- Calma, amorzinho. Agora que o velho desencarnou, não há mais motivos para ficarmos separados. Ele não vai mais fazer chantagem com você por ter roubado e vendido todas as jóias de sua finada tia, pra me montar um fliperama. Ninguém mais vai mandar você pra cadeia.
Chris sentiu que ia perder o sangue-frio. Ela continuou:
- Talvez você fique feliz em saber que vendi o fliperama...
- Ainda bem que criou juízo! – suspirou Chris.
- ...e comprei uma roda gigante.
- UMA O QUÊ?
- Roda-gigante, meu amor. Estava em liquidação no Playcenter. Eu queria mesmo era comprar o King Kong de controle remoto, mas esse não me quiseram vender.
Chris caiu sentado no sofá, totalmente sem forças.
- Amanhã vocês me ajudam a montar no jardim, ajudam? Quero ver se não falta nenhuma peça.
- Eu ajudo – foi falando , entusiasmada.
- Não se meta no parque de diversões dos outros, mulher. Que coisa! – reclamou James.
- Acho que agora finalmente podemos dormir um pouco – propôs Hall.
E todos, exaustos, concordaram, subindo para seus quartos.

Passou um bom quarto de hora; a casa em silêncio. Só então e Hall abriram a porta do quarto de hóspedes, entre o banheiro e o ex-quarto do falecido Matthew, e saíram pé ante pé para o corredor.
- Eu procuro em cima e você embaixo.
- Me passe a vela...
- Tome, segure um castiçal. Eu fico com o outro.
foi direto para o quarto de Marty, e Hall se dirigiu para a escadaria. De repente, a mulher estacou:
- Olhe, Hall, venha ver!
No trinco da porta do quarto do velho havia um bilhete espetado. Daniel, aproximando a luz da vela, leu: “Quem quiser saber a verdade, desça ao porão”.
- Que verdade será essa? Talvez o diário esteja lá – lembrou , arrepiada.
- O diário, não sei. Mas os defuntos estão. Os três!
- Será que aconteceu alguma coisa com eles, Hall?
- O que pode acontecer com um defunto, mulher?
- Não sei, homem. Mas isso está me cheirando mal...
- Você está sentindo, é? Será que o coberto elétrico não está funcionando direito? É melhor eu ir lá embaixo para ver...
- Não vai, não, Hall! Eu estou com medo.
- Deixe de bobagem, mulher. Espere aqui que eu já volto.
Hall desceu pela escadinha dos fundos e ficou ali no corredor, de costas para o quarto de Marty. Resolveu esperar o marido voltar, antes de continuar a busca.
A enfermeira apoio o castiçal no pilar da escadaria que dava para o saguão da entrada. De repente, sentiu um ventinho na nuca, que quase apagou a vela. gelou até os ossos. Atrás dela, a porta do quarto do morto tinha se aberto.
Logo em seguida, a enfermeira sentiu a curva do cabo de uma bengala em volta do pescoço, apertando e puxando. A bengala de Marty. De cara de cachorro!
Abrindo a boca, meio esgoelada, soltou um berro. Mas não saiu som algum. As pernas ficaram moles. Num esforço desesperado, ela conseguiu livrar-se da bengala e rolou pela escada.
Quando aterrizou lá embaixo, a enfermeira olhou para cima e viu – à luz da vela – o vulto de Marty Matta Leitão. Vestido com a roupa que estivera sobre a cama.
Foi só um instante e a vela se apagou.
Nesse momento Hall voltou do porão gritando por todos os poros:
- SUMIRAM! DESAPARECERAM!
Com os berros do médico, as portas tornaram a se abrir e saíram todos novamente para o corredor.
- Quem sumiu?
- Quem desapareceu?
- Os defuntos sumiram, não estão mais lá embaixo no porão! – respondeu Hall com os olhos quase desorbitados.
- E Marty está VIVO! Eu VI! – grunhiu com voz de dublagem de filme de terror. – Ele apareceu no alto da escada, vestido, de cachecol e tudo!
- Não pode ser, ele já foi enterrado – disse James.
- Mas será que ele estava realmente dentro do caixão? Eu explico: estava lá dentro na hora de ser enterrado? Não houve nenhum momento em que o caixão tivesse ficado sozinho e que Marty pudesse sair lá de dentro?
- Meu Deus! Será que o tio Marty desmorreu? - choramingou .
Todos entreolharam-se cheios de pavor.

Capítulo 9

Correram para o quarto do morto. Mas a roupa estava lá, montadíssima, sobre a colcha de crochê. Exatamente como antes.
- Está vendo? andou imaginando coisas. - disse James.
Chris, porém, mais desconfiado, dirigiu-se até a porta da sacada e deu um empurrão. E ela se abriu.
- Eu mesmo fechei essa droga. Agora ela está só encostada. Todos os quartos estão ligados entre si pelas sacadas. Qualquer um pode ter vestido as roupas do velho, assombrado e fugido.
- Isso resolve o problema de aparição, mas não o de desaparecimento dos defuntos do porão.
Todos saíram pela casa procurando os corpos, menos Kara, que cruzou os braços resmungando que ia se queixar à justiça trabalhista, que ninguém agüenta trabalhar a noite toda, ainda mais sem ganhar hora extra!
Mas os defuntos não apareceram.
- Que gozado, vocês notaram? Três defuntos desapareceram e três mortos apareceram – falou , fazendo a conta nos dedos da mão.
- Lá vem besteira – previu Linda.
- Eu não acredito em defunto vivo, prima. Sou agnóstica.
- Chris, o que é ser agnóstica? – perguntou ajeitando as pregas do penhoar de babados.
- É doença que engorda – respondeu , para provocar a prima.
Lene quadrou de raiva. Quase virou paralelepípedo!
- Agora chega de brincadeiras. Entre nós há um assassino, e é claro que ele pretende afastar do caminho o maior número de herdeiros, até a leitura do testamento. , Matthew e Steve já estão fora da jogada. quase se foi!
- Ele atacou também, e ela não é herdeira do velho. Não foi, ?
A enfermeira tocou o pescoço com os dedos; não estava sequer dolorido.
- Não, ele não tentou me matar. Se quisesse, poderia ter quebrado meu pescoço facilmente. Ele nem sequer apertou... eu é que me apavorei e me debati, rolando a escada. Acho que ele quis foi... me assustar.
- Tirar você do caminho dele? Isso faz sentido. Então, vamos raciocinar: quem viu o assassino? não viu, estava de costas. Os outros três não podem contar. Somente escapou com vida.
Chris virou-se para a moça.
- Você o viu, . Apareceu para você pelo menos duas vezes: no quarto do tio Marty, de malha preta e no de Lorraine, vestido de baiana. Como era ele?
- Magrinho. Da minha altura, mais ou menos... Podia ser homem ou mulher. Não falou, só cantou dublado. Era disco, só podia ser. Tinha aquele som fanhoso dos discos antigos.
- E no quarto de Lorraine tem uma velha eletrola.
- Se é magrinho, não pode ser Lene. Ela é agnóstica... - disse rindo.
Pela primeira vez a prima não se enfureceu com a provocação. Até suspirou de alívio.
- Quando o assassino tentou me atacar eu mordi a mão dele! – lembrou . – A mão direita.
Todos olharam para Kara, com a munheca direita enfaixada.
A empregada ficou cinza-chumbo.
- Foi gordura fervendo, acidente de trabalho, vocês vão ser processados, seus Matta Leitão. Depois de tantos anos de dedicação total, falta de humanidade a de vocês, aristocratas rurais! E eu não sou herdeira!
- Tira a atadura, deixa ver se tem marca de dente ou bolha.
Louca de raiva, Kara desenfaixou a mão.
- É queimadura mesmo.
- Vão pro inferno, vocês todos! Vou-me embora de manhã, vou procurar outro emprego. Não sou uma qualquer, tenho Mobral, Telecurso, costura por correspondência. Vou me candidatar a um emprego público!
David tomou a palavra:
- Vamos ver: todos os herdeiros tinham motivo para matar, menos eu. Como minha noiva foi a primeira vítima, isso me livra de suspeitas. Sem ela, não posso herdar. O mesmo não acontece com vocês. Todo mundo aqui odiava o velho Marty, embora ninguém confessasse abertamente... E isso por causa das brincadeiras e peças que ele pregava nas pessoas. Então...
Todos prenderam a respiração. David ousaria falar daquilo?
- Comecemos pela suspeita que todos nós temos de que Marty foi assassinado.
Pela sala passou um suspiro de alívio. Afinal, ele não tinha falado no diário.
O ex-noivo de continuou:
Ki- O assassino teria começado, portanto, matando o próprio Marty Matta Leitão. E quem mata um não perde nada matando mais dois ou três. Agora vejamos: quem queria matar o velho e teve oportunidade para isso?
David respirou e continuou:
- O senhor, doutor Hall, como médico do falecido, tinha as melhores oportunidades. E motivo também, pois estava devendo os fundilhos das calças ao Poderoso Leitão, que o obrigou a prestar “certos servicinhos” para ele...
Hall sentiu gorgulhos na garganta, mas não pôde protestar. David continuou atacando:
- Há quinze anos era enfermeira de Lorraine e deu a ela pilulinhas mortais, na esperança de se casar com o viúvo. Mas ele desviou do golpe, e a enfermeira caçou você.
Pouco faltou para estourar, e Hall ficou cor de mamão. Mas David não esperou resposta. Foi em frente:
- Os dois, portanto, tinham motivo e oportunidade. Doutor Hall ainda passou, por ordem do velho, o falso atestado de óbito para Lorraine.
- E os outros herdeiros? – protestou Daniel. – Po que eu iria matar os três?
- Porque continuava devendo a todos eles. Sua situação não mudou nada. Os que morreram foram justamente os mais difíceis de manobrar.
- Pois, neste caso, você também poderia ter liquidado o velho. Ontem è noite ainda era herdeira – estava viva. O Poderoso Marty nunca ia permitir que você se casasse com ela, por causa do seu passado.
- Que passado? – perguntou , interessadíssima.
A cara de David ficou beterraba.
- Isso não é da conta de ninguém. – protestou ele.
- Já que você está descascando o passado da gente, lá vai o seu: David vendia vidrinhos de água benta falsificada, na frente da Igreja de São Francisco, em São Paulo. Daí emprestou dinheiro pra ele montar um “consultório” na Rua da Glória, primeira sobreloja, onde “curava” males sem remédio e fazia “operações” usando tripas de porco, pra enganar os trouxas.
- Que horror! – se escandalizou Linda. – Como vocês descobriram isso?
- Marty me pediu para investigar. Enviamos até lá um cara dizendo ser repórter de TV e convidamos o David para aparecer em um programa. Ele caiu como um patinho!
‘AH? É? IIIH! OH! UUUUUUH!’ – “interjeitaram” todos os presentes.
- O bobão deixou filmar e fotografar à vontade. Marty mandou ampliar as fotos e desmascarou David. Por isso o “famoso milagreiro” passou cinco anos na cadeia. Marty não quis pagar fiança, está claro.
- Então ele e também tinham motivos para detestar o velho.
- Está bem. Mas eu não tinha motivo para as outras mortes todas. E isso me elimina, a não ser que haja mais de um assassino.
- Então vamos continuar. Quem mais mataria Marty? - perguntou com cara de tonta.
- Seu ex-maridinho, minha cara. Chris teve que se separar da senhora, que é uma interesseira, com mania de comprar coisas malucas. Marty vivia ameaçando Chris com cadeia... por causa das jóias da falecida Lorraine. E a senhora, assim que soube do empacotamento do velho, veio ventando para cá, com roda-gigante e tudo!
- Eu não estava aqui ontem! – gritou .
- Quem sabe lá? Podia estar escondida por aí.
- Você não pode provar nada, Hall. E já somos seis suspeitos.
- Seis? Até agora contei cinco.
- Não vamos esquecer Linda, que envenenou o remédio de nariz do tio, e ele ficou sabendo disso.
- Mas eu não iria matar meu próprio irmão Steve, iria? – protestou Linda, dando um salto.
- Iria sim! – confirmou James. – Você odiava seu irmão, sua fingida. Foi Steve quem contou ao tio que você pretendia envenená-lo. viu tudo. Você nunca perdoou os dois por ter sido dedada. Você não agüentava mais a “mandonice” do velho e tinha que continuar aqui, cuidando dele.
Nesse momento o telefone tocou. levantou o fone e quase desmaiou com o que ouviu!

Capítulo 10

Do outro lado, uma voz grave e bigoduda perguntou:
- É da casa do finado Marty Matta Leitão?
- Sim, quem fala?
- Aqui é Hannah Fontão.
- QUEM?
- A Caolha, sua capadócia. Ouça bem o que eu vou dizer: sei que vocês estão aí brigando feito urubus por causa da fortuna do morto. Mas eu tenho uma revelação importantíssima a fazer. Já estou indo até aí, esperem por mim – bateu o telefone.
A notícia da vinda da dona do bar foi um jato de água gelada por cima dos suspeitos. Ninguém mais se animou a escarafunchar o passado do outro. Lene, e James respiraram aliviados.
- Por que ela tem um apelido imbecil desses? – perguntou .
James explicou:
- Hannah sempre foi muito curiosa, é o que dizem. O boato que corre pela cidade é que ela tinha o hábito de espiar pelo buraco das fechaduras. Quem foi, e como isso aconteceu, eu não sei. Mas alguém se vingou enfiando uma chave de fenda pelo orifício, quando ela estava xeretando.
Nesse momento bateram na porta da rua. Ficaram todos de cabelo em pé. David foi abrir, e lá estava Caolha, abaixada, na sua posição preferida: com o único olho mirando o buraco da fechadura.
- Qualquer dia alguém enfia a chave de fenda no outro olho – cochichou para o marido.
- Não foi chave de fenda, James se enganou – respondeu Daniel. – Foi agulha de tricô. Foi por isso que Marty deu o bar para a Caolha. Pra fechar a boca de Hannah, depois que Lorraine fechou o olho dela.
- Nossa, eu não sabia!
A Caolha entrou na sala onde estavam todos reunidos.
- Ahhhh! Estão todos acordadinhos da silva, não é? Pois agora vão ter motivos para uma verdadeira insônia, meus distintos.
E diante dos herdeiros espantadíssimos abriu um papel amarelo, cheio de manchas de gordura.
- Que é isso? – perguntou Lene, botando os óculos.
- É uma certidão de casamento, vejam vocês mesmos com seus pares de olhos. – rosnou Caolha.
David arrancou o papel da mão dela e leu:
- Marty Matta Leitão e Hannah Fontão... NÃO É POSSÍVEL!v - Deixa eu ver – duvidou James.
- Está tudo aí, meus queridos – falou a Caolha, vitoriosa. – Podem parar de se engolir vivos, porque a herdeira sou eu. Marty e Lorraine não tinham filhos, portanto é tudo meu!
Um silêncio tumular baixou na sala.
- Não, é verdade, isso é falsificação! – berrou Linda.
- Tem cópia no cartório - completou a “camomiônica” criatura. E riu: - Há, Há, Há e Há!
- Quem ensinou você a rir assim?
- Foi o tio de seu marido, é claro. Ele sempre ria desse modo, não se lembra?
estava espumando de raiva porque a tal certidão datava de apenas dois meses após a morte de Lorraine, o que indicava que Marty nunca pretendera se casar com ela. Tinha sido enganada. Duas vezes: quando ele preferiu Lorraine – que era uma rica fazendeira – e depois da morte dela.
Hannah desabou no sofá e virou-se para Lene:
- Não tem um pouco de uísque nesta casa? mas não aquela droga que você falsificava e que quase deu em cana!
Lene tremeu as banhas de raiva.
- Como é, onde está o safado do Steve? Não o estou vendo por aqui – falou a Caolha, olhando em volta.
Todos ficaram rijos de pavor.
- Ele está dormindo – justificou , suando nas juntas.
- Aquele ordinário andou me passando dinheiro falso. Como é que vocês imprimiam aquilo? Marty ficou furioso com ele. Steve foi a única pessoa que enganou o Poderoso Leitão até hoje!
- Vocês ouviram isso?
Steve e também eram suspeitos da morte do velho. Mas Steve já estava cancelado. E , teria coragem de matar o marido? Linda achava que sim. Lene também tinha fortes motivos para ser a assassina.
James recobrou a presença de espírito e falou:
- Dona Hannah, é muito tarde, estamos todos com sono. Portanto, vamos todos dormir, já que é madrugada. É melhor a senhora ir para sua casa.
- Minha casa agora é aqui, eu também sou da família.
James ficou vermelho de raiva, mas se controlou.
- Pois amanhã, à hora da leitura do testamento, você volta – falou Linda naquele tom veja-lá-como-é-que-é-que-fala-sabe-quem-sou-eu? que os Matta Leitão assumiam diante da plebe.
- Não vou sair daqui – teimou a outra.
- Seja razoável, dona Hannah. Nós queremos nos deitar – insistiu Chris.
- Pois então vamos nos deitar – respondeu ela já de pé, pronta para subir a escada.
- Os quartos estão todos ocupados – explicou James, arrepiado.
- Todos, não. O de meu marido está vazio.
- O QUÊ? – protestou Linda. – O quarto de tio Marty? Mas ele morreu ontem, que falta de respeito!
- Ora, vamos, seus fingidos! Quem está se importando com isso? Vocês detestavam seu tio, pensam que não sei? Pois amanhã vão ter uma nova surpresa. Maior ainda que a de hoje, eu garanto!
Todos olharam meio de lado. Será que ela sabia onde estava o diário? Se a Caolha sabia, poderia levá-los até ele. E todos tiveram o mesmo pensamento, num só tempo.
- Está bem, dona Hannah. Fique no quarto de tio Marty, então – falou James, com uma idéia diabólica na cabeça. E não foi só ele!
Os herdeiros e não-herdeiros escoltaram a noiva até o quarto do defunto-esposo e, em seguida, foram para os seus.
Mal entrou e fechou a porta, a Caolha pôs-se a procurar. Então, olhando para a frente, deu com a roupa completa sobre a colcha de crochê. Viu o chapéu, o charuto, o cachecol, o par de sapato de bico fino e a bengala de Marty Matta Leitão. De cara de cachorro.
Hannah desandou a farejar:
- Onde está o Bago-de-Milho? – rosnou ela com sua voz de cimento, fuçando em todas as direções. – ONDE? Seu velho muquirana, unha-de-fome, pão-duro, mão-de-vaca! Pensa que eu vou permitir que você vá pro inferno me deixando fora do bolo da herança? Eu paguei uma nota pra conseguir aquela certidão. Ainda bem que tem gente sem-vergonha em tudo o que é profissão. Nem Steve faria um trabalhinho tão bem feito de falsificação!
Furiosa, a Caolha revistava o quarto. Abriu as gavetas da cômoda, despejou tudo no chão. Depois “desmontou” o guarda-roupa.
- Eu quero aquele anel! – roquejou ela. – O brilhantão que Marty comprou para Lorraine, e eu vi ele dando pra ela, pelo buraco da fechadura. Tem que ser meu, perdi um olho por causa dele! Maldita agulha de tricô!
Ajoelhando-se, enfiou o nariz debaixo dos móveis, do tapete, do guarda-roupa. Daí teve a idéia que ninguém jamais tinha tido: levantou-se e arrastou o móvel do lugar. Atrás havia uma porta.
Tremendo de ansiedade, girou a maçaneta e empurrou. Alguma coisa do outro lado impedia que a porta abrisse. Hannah deu um safanão, derrubou um amontoado de caixas e se enroscou numa parede de vestidos pendurados. Estava dentro de um armário embutido.
O armário estava trancado por dentro, com a chave na fechadura. Hannah girou e entrou no quarto de Lorraine.
Acendendo a luz do abajur, a intrusa deu uma boa revistada em tudo por ali. O quarto de Lorraine era enorme, um cômodo duplo, dividido por um arco. Do outro lado estavam a máquina de costura, uma velha eletrola e um manequim com uma roupa baiana desbotada e empoeirada: a fantasia de Carmen Miranda, com qual Lorraine ganhara o prêmio do Grêmio Recreativo Jacuruçunguense. No ano em que ela, a Caolha, se vestira de pirata!
Hannah se aproximava, fascinada pelo manequim, quando aporta de abriu atrás dela e um vulto escuro entrou como uma sombra, contra a luz do corredor...

Capítulo 11

No quarto de hóspedes, Daniel e conversavam.
- Eu nunca soube que Marty tivesse se casado de novo. Ele era esperto demais para se deixar pescar por aquela casca-de-ferida da Caolha. Se ele tivesse casado, eu saberia. - disse Daniel.
- Marty tinha tradição, não ia se casar com uma grossa como ela.
- Tradição? O que você sabe disso?
- Ele descendia de nobres portugueses, você não sabia? O tataravô dele era tão íntimo do rei de Portugal que o soberano convidou o amigo para comandar os navios que iam descobrir o Brasil. O próprio D. Manuel, o Venturoso! Mas o tataravô respondeu: “Não quero, lá só tem mosquito e índio nu. Mande Pedro”.
- Pedro? - indagou Dr. Daniel.
- É, o Álvares Cabral, ora. Você acha que o descendente do homem que não quis descobrir o Brasil ia se casar com um traste como a Caolha?
- Quem te contou isso ?
- Foi o próprio Marty, ora.
- É bem coisa dos Matta Leitão, mesmo. Uns enjoados e preconceituosos. Por isso mesmo eu não acredito que Marty tenha se casado. Preciso dar uma olhada naquela certidão. Posso jurar que é falsa!
acabara de se deitar quando ouviu aquele barulho na veneziana que dava para a varandinha. O barulho se repetiu mais duas vezes, como se alguém estivesse jogando pedrinhas.
A viúva se levantou e foi colar o ouvido na veneziana. Ouviu ruídos estranhos de gente tentando subir pela parede agarrada à trepadeira.
prendeu a respiração e ficou esperando. O misterioso visitante pulou para dentro da sacada e forçou a maçaneta.
Tremendo de medo, espiou pela fresta da madeira.
Quando viu quem ela viu, desandou a rezar em voz alta e a se benzer.
Uma voz abafada e muito humana reclamou do lado de fora:
- Deixa disso, mulher. Abre logo que eu estou gelado!
Assim que Steve entrou no quarto, protestou nervosíssima:
- Você morreu no banheiro, eu vi, todos viram! Morreu sentado atrás da porta, segurando um vidrinho vazio. Doutor Hall disse que tinha veneno. Como é que agora você aparece pra me assombrar?
- Eu lá tenho cara de assombração, mulher?
- Como é que eu vou saber como é cara de assombração?
Steve se aproximou e tocou o braço de , para provar que estava vivo. Desastre! Ao sentir os dedos gelados do marido, a recém-ex-viúva recuou, dando um berro rouco:
- Uaaaaa! Tira a mão de mim, seu defunto-frio!
Steve teve que tapar a boca da mulher (que esperneou e esbravejou como um polvo), até que ela acabasse de ouvir toda a explicação que ele tinha a dar:
- Eu descobri o vidro no armário do banheiro. O vidrinho verde, onde costumo guardar as minha pílulas para o fígado. Tomei três de uma vez. Depois abri o chuveiro. Você sabe como são os canos dessa casa desmantelada. Se a gente abre a torneira da pia, sai água na banheira. Pra usar o chuveiro, é preciso abrir todas as torneiras ao mesmo tempo.
- Você falou em vidrinho verde? Mas estava vazio e eu guardei nele meus comprimidos de Dormirol!
- Então foi isso, eu dormi como um guarda-noturno. E daí, o que vocês fizeram comigo?
- A gente te levou para baixo, pro porão, junto com os outros defuntos. Como é que você desmorreu e saiu dali?
- Sei lá! Acordei num depósito de lixo.
- E você não viu por lá os outros mortos? Eles também sumiram.

A Caolha olhou atordoada para o vulto que acabava de entrar.
?- VOCÊ!
O misterioso vulto foi avançado em direção à intrusa, como um trator.
Hannah Fontão recuou assustada. Alguma coisa na sombra que avançava deixou a Caolha apavorada, de cabelos arrepiados. E com razão. Em um minuto, sem saber como, ela estava pendurada pelo pescoço no lustre do teto, balançando as perninhas curtas e tortas.
?- Onde está a certidão? – perguntou a enfurecida personagem.
Ao revistar a Caolha, encontrou o papel.
- Me dá isso aqui! Você não pode me impedir, eu sou a herdeira!
?- Mortos não herdam – respondeu a terrível criatura, enquanto fazia uma bola de papel com a certidão de casamento. E, aproveitando a boca aberta da mulher que reclamava, enfiou o bolinho pela goela adentro.
- CRRRR CRRR RRRR... – a Caolha engasgava.
O assassino pegou um espanador, que estava sobre a máquina de costura, e enfiou o cabo pela garganta da esgoelada vítima, até ela engolir o documento e a metade do cabo.
A Caolha ficou ali girando, pendurada, com as penas do espanador abertas em flor saindo pela boca, o único olho esbugalhado para o vulto em sua frente. Até que o olho se fechou.
?- Pronto. Esta caso está resolvido – falou a misteriosa personagem, saindo por onde entrara.

Capítulo 12

No dia seguinte Kara foi a primeira a acordar. Fez café, botou a mesa. Era seu último dia naquela casa, ela jurara.
Linda foi a primeira a descer, seguida de Lene e . Pouco depois e Hall entraram na sala de refeições.
- Que horas são?
- Devem ser umas oito horas, mas os relógios todos continuam parados, incluindo os de pulso.
- O advogado chega às onze horas. Os outros ainda não acordaram?
James entrou bocejando. Em seguida desceu Chris e, por último, .
- Onde está a Caolha? – perguntou Linda azedíssima.
- Ainda não deu a honra de sua presença.
- Ótimo. Então, já que estamos todos reunidos, vamos examinar os últimos acontecimentos. As coisas não podem ficar como estão!
- Esperem por Steve – pediu .
Hall olhou para a viúva, penalizado. Os outros ficaram encarando .
- Viram? Ela ficou maluca. Complexo de culpa por ter dado cabo no marido.
- Você tem que se conformar. - disse Daniel.
- Conformar com o quê? – perguntou muito alegrinha.
- Com a morte de seu marido – prosseguiu o médico. – Steve não está mais entre nós.
- Agora estou – respondeu Steve entrando na sala, cheirando loção de barba.
Linda, quando viu seu fantasmagórico irmão perfumoso e recém-barbeado, ficou verde-azinhavre.
- Steve, você está MORTO! Como se atreve a aparecer em pleno dia, e com essa cara lavada? Que falta de respeito para consigo mesmo – falou ela indignada.
Todos olharam de boca aberta para o desmorrido.
Não tiveram nem tempo de fechar a boca e ouviram um berro discotecal, vindo do andar de cima. Em seguida, Kara desceu as escadas com a cara virada do avesso, de susto. a empregada apontava para o alto – falando esganiçada:
- Lá em cima... pendurada no lustre! Aquela mulher horrorosa, a dona do bar da praça, no quarto de dona Lorraine, está MORTA!
- Está mesmo morta? – perguntou Lene, passado o primeiro espanto, com um sorriso de boca inteira. – Tem certeza?
- Está com os dois olhos fechados – confirmou Kara.
- Do que foi que ela morreu? - perguntou James.
- De indigestão, eu acho. Tentou vomitar o espanador, mas ficou com metade engasgada. No maior dos entusiasmos, todos correram para cima.
Quando entraram no quarto de Lorraine, lá estava a Caolha, com as perninhas balançando, pendurada no lustre do teto. De boca brotava uma flor de penas de rabo de galo. E os dois olhos fechados. Finalmente iguais.
- Até que é útil ter um assassino na família. - comentou Linda.
- O que vamos fazer com ela? Está quase na hora do testamento chegar. Não vamos querer encrenca agora, não é?
- Ninguém viu a Caolha entrar aqui ontem à noite. Temos que nos livrar dela. - disse James. Passando pela rua, uma voz gritava num alto falante:
- "Atenção, moradores de Jacuruçunga! Esta é a Campanha do Amor Fraternal do Projeto Brucutu. Não neguem sua contribuição. Qualquer coisa serve: objetos usados, móveis e roupas velhas, utensílios domésticos, tapetes... qualquer coisa, generoso povo de Jacuruçunga! Tragam para nosso caminhão o que não serve mais em suas casas."
- O Projeto Brucutu! – gritou , excitadíssima. – É a nossa chance de nos livrarmos da Caolha!
- Como é que vamos dar um defunto para a Campanha do Amor Fraternal, sua imbecil?
- Como Cléopatra.
- Agora ela ficou maluca de vez.
Mas Chris pegou a idéia no ar. Foi assim que Cleópatra conseguiu chegar até Júlio César: enrolada num tapete! Até que a burra da tinha tido uma idéia genial!
Ninguém mais perdeu tempo. James e Chris despenduraram a Caolha do lustre e a deitaram sobre o velho tapete florido. Depois, cuidadosamente, enrolaram a defunta, formando um canudo.
- Kara, vai buscar a corda do varal – disse Linda. Em cinco minutos a empregada estava de volta.
- Passa a ponta aqui, James. Isso! Agora dá um nó aí. Pronto, está firme. Ajuda a levantar.
- UUUUUUPA! Puxa, como pesa! Eles vão desconfiar que tem coisa dentro. Não vai dar certo.
- Nós mesmos vamos pôr no caminho. Venha, vamos logo.
Meia hora depois, para grande alívio dos Matta Leitão, o caminhão do Projeto Brucutu deixava a cidade de Jacuruçunga, levando um monte de porcaria e a Caolha junto.
- Já deve estar quase na hora – avisou Chris. Os relógios continuavam todos parados, por mais que se desse corda ou empurrasse os ponteiros. – Vamos esperar todos juntos, na biblioteca.
Só então, novamente, os candidatos a herdeiros se lembraram do diário fatal.
Sentados na biblioteca, inquietos, eles esperavam o resto do tempo passar. E, mais uma vez, foi com suas idéias malucas quem salvou a situação.
- Pra passar o tempo, vou tirar a sorte dos herdeiros – disse ela pegando um baralho. Dispôs as cartas na mesinha, abriu e falou:
- Vejo um livrinho escuro (fez suspense), um diário.
Todos ficaram duros nas poltronas e cadeiras.
- Vejo coisas horríveis escritas nesse livrinho.
- De quem é esse... livrinho? - James engoliu seco.
- De um morto recém-defunto. E ele fala de pessoas...
Todos começaram a perguntar ao mesmo de quem era, se tinha nomes gravados.
- Tem. Os nomes de todos vocês. Mas não se assustem, porque não tem nada que nós já não tenhamos descoberto esta noite.
Os primos se entreolharam, muito sem jeito. E todos tiveram a mesmo idéia. Concordaram que deviam destruir o caderninho, sem mesmo ler.
- Muito bem. Então, com quem está ele? - perguntou Steve.
Todos olharam para cada um. Ninguém mais sabia nada.
- Deve estar escondido por aqui; é onde vai ser lido o testamento. Lá em cima a gente sabe que não está, todo mundo já procurou. - retrucou Chris.
Como se Chris tivesse dado a partida, todos começaram a revirar o escritório, ao mesmo tempo. Nesse momento, a campainha da porta tocou.
- Já são onze horas? Não é possível! - exclamou Dai.
O grupo ficou imóvel, esperando. Ouviram vozes no corredor e, então, a porta do escritório foi aberta. E entrou...

CONTINUA...




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