Toque Secreto

Por Carola Richardson

Parte 1

Kevin parou o carro na rua do campus da universidade e olhou para a república. Desceu do carro, sendo envolvido por um vento gelado carregado com flocos de neve. Olhou para o alto e concluiu que logo iria nevar se não fosse rápido com isso. Foi até a república e bateu na porta diversas vezes. Ouvia o som alto, e imaginou que não estava sendo escutado. Sua mão desceu até a maçaneta e ele girou devagar, não se surpreendendo pela porta estar aberta.
Espiou pela porta e não vendo ninguém, entrou. O clima dentro da casa estava gostoso, quente e sem nenhuma corrente de ar frio. A lareira estava acesa, dando uma luz ao ambiente e um calor que ele não esperava sentir. Encontrou o som que emitia a música alta e se aproximou dele. Foi afastando os copos de cerveja que tinham pelo chão, as roupas sujas que estavam jogadas no tapete manchando, os papéis amassados e jornais velhos. Aquele lugar era sujo demais e não sabia como ela estava lá. Abaixou o som e olhou para o corredor, esperando ver alguém.
Ouviu passos e um resmungo, e seus olhos pararam na imagem de Emma Stuart, que segurava uma toalha amarela nas mãos e secava os longos cabelos dourados. Usava apenas uma calcinha de algodão cor de rosa que moldava as curvas com perfeição que o deixou sem palavras. Ao ver que era ele, Emma cobriu o corpo com a toalha e sentiu o rosto queimar.
- Você! - disse ela, ajeitando a toalha..
Kevin acenou com a cabeça, incapaz de falar com a imagem dos seios dela na cabeça.
- Você abaixou o som? - ela enrolou-se nna toalha e foi até o som - Isso é Pink Floyd... não dá pra abaixar o volume....
Emma parou ao lado dele e seus olhos se encontraram. Ficaram se olhando por longos segundos, traduzindo muitas coisas em simples olhares. Ela foi a primeira a baixar a cabeça e se afastar de Kevin, como se ele pudesse feri-la.
- O que faz aqui?
- Vim busca-la.
- Porque meu pai não veio?
- Ele não pode.
Ela deixou escapar um brilho triste, e virou-se um pouco de costas a ele. Emma esperava que Timothy aparecesse e não Kevin. Não entendia porque Tim faria isso com ela, sendo que era do conhecimento de todos que ambos se odiavam. Ela estava pronta para ir ao aniversário da avó, Ann, mas esperava encontrar Tim e não aquele homem.
Kevin viu a tatuagem dela nas costas. A boca dele abriu-se sozinha e antes que ele protestasse alguma coisa, dois rapazes entraram na casa fumando e com um cheiro de vodka com eles. Não reconheceu nenhum dos dois e não simpatizou com eles. Emma ainda encontrava-se embrulhada na toalha e aquilo não parecia ser alguma novidade para nenhum deles, o que o deixou furioso.
- Emma amada - disse um deles, que não ppercebeu a presença de Kevin, tirando o casaco rasgado e o jogando de qualquer jeito no cabide da porta - porque não foi? Acabou agora pouco. O Tom está desmaiado lá - começou a rir e então notou a presença de Kevin. - Oh cara, nem o vi aí.
Ele não se preocupou em responder, mas pelo olhar que lançou a Emma deixou claro que não gostou dos amigos. Aproveitando-se de lembra-la de como se encontrava.
- Tenho que ir pro aniversário da minha avó - Emma explicou aos amigos, ignorando o olhar de Kevin.
- Eu sei... você comentou mas... - o mennino se aproximou dela e tocou-lhe a mão - mas não pode ir... e o ensaio?
- Ela tem que ir - a voz de Kevin rasgouu o clima da sala e todos olharam pra ele surpresos com tom de voz - e vai agora - cortou a distância entre ele e Emma, segurou-a pelo braço e a levou pelo corredor. Sabia onde ficava o quarto dela, já estivera lá antes. Abriu a porta do quarto, empurrou-a para dentro e fechou a porta atrás de si.
- Eles sempre te vêem assim? - perguntouu ele exasperado.
- O que tem? Eu não tenho nada do que elles já não viram antes.
- Como não? O corpo... o corpo de cada mmulher é uma coisa única e não deve ser tratado... tratado dessa forma?
- De que forma? Pra um homem que já dormmiu com tantas mulheres, soa hipócrita o que você está me dizendo.
- Você não pode ficar assim!
- Eu fico da forma que eu quero, quando eu quero e com quem eu quero.
Ao se ver sozinho com ela naquele quarto, lembranças vieram a tona. Ainda mais quando a toalha escorregou e voltou a revelar a pele alva de Emma, as curvas perfeitas e tatuagens que enfeitavam a pele. O corpo dele reagiu com era esperado, mas ele manteve-se segurando a maçaneta e sem se mover, olhando para ela, a devorando com os olhos. Então abaixou a cabeça e desviou o olhar, orgulhando-se disso.
Conversariam depois sobre as tatuagens.
- Vamos, vista-se. Não temos o dia todo,, e é uma longa viagem.
Emma recolheu a toalha e foi se vestir. Sozinho ali, Kevin olhou para a cama, vendo a mala dela pronta, e lembrou-se de ter deitado nela. Estava acontecendo novamente, ele pensou, estava voltando a ter aquelas idéias malucas com Emma, aquelas fantasias. Mas não tinha como fantasiar... ela agora tinha apenas vinte e três anos, mas a conhecera com quatorze.
Suspirou enquanto a ouvia abrir portas e gavetas, e olhou em volta. O quarto dela era o mais bonito, paredes com papel rosa e azul, o chão limpo e o ar perfumado. Tinha pôsteres de artistas na parede e imensos corações em volta deles. Havia um quadro onde tinha foto dela com amigos e fotos de Robert Plant. A guitarra dela estava encostada junto ao amplificador, e havia cifras empilhadas. Emma fazia faculdade de música, tocava guitarra muito bem e gostava de músicas progressivas, sons trabalhados e música clássica. Amava Jimi Hendrix, Dixie Dregs, Steve Vai, Joe Satriane, G3, Steve Ray Vaughan e pro fim, Steve Morse, que parecia ser a única pessoa que tinha o poder de encanta-la.
Ele sentia ciúmes porque Emma nunca gostara de pop, nunca gostara dele. Era somente aquela atração forte entre eles, aquela coisa carnal. Não havia nada mais do que isso, porque eles se detestavam, e não escondiam isso de ninguém. Era por isso que Ann pedira para que ele fosse busca-la, para que eles pudessem passar algum tempo juntos, para ver se mudava algo entre eles. Como Lois, sua namorada, estava terminando as gravações do seriado que participava, ela iria depois. E ele desejava que ela fosse junto, porque passar horas sozinho com Emma não seria nada fácil.
Mesmo para um homem como ele, que se dizia preparado para todas as possíveis situações.
- Parece que vai nevar Emma, leve casacoos - ele avisou enquanto mexia nas coisas dela como se possuísse intimidade pra isso. Viu os perfumes, tocou nos brincos, deslizou o dedo por um sutiã de seda que estava ali em cima da cômoda e seus olhos pararam numa foto que estava no porta-retratos. Ele, seu irmão e Emma. Pegou o porta-retratos e olhou para ele, imaginando se havia algum sentindo aquele foto estar ali, separada das demais. Era do conhecimento de todos que Emma tinha paixão por Tim, porque ele a adotara e a criara como uma filha.
Emma tinha uma história triste, e lhe dava orgulho saber que seu irmão tinha um coração imenso e cuidou daquela garota que perdera os pais de maneira tão trágica. Havia fotos dos pais verdadeiros ali também, porque Tim dizia que ela nunca deveria se esquecer deles. E ela não esquecia.
Deixou o objeto no lugar, quando notou que ela estava voltando para o quarto.
- Sabe, você não precisava gritar com meeus amigos... você - ela apareceu saindo do closet ajeitando um casaco longo - você se acha grande coisa, mas quer saber? Não é nada. Nunca foi. Não precisava ter gritado, tanto porque ninguém aqui é surdo.
- Duvido muito, ouvindo o som naquele voolume.
- Eu escuto Floyd no volume que eu queroo. E alias, era Dark Side Of The Moon, sabe o que é isso? Ah claro... um cantorzinho pop não pode entender o que significa isso. Qual é a importância histórica desse álbum.
Kevin cruzou os braços no peito e a encarou. Ficava cansado de ouvir toda vez a mesma ladainha, e de tanto que ela falava sobre Pink Floyd, ele acabou indo saber quem diabos era. E o pior... gostara. Dark Side se tornara um de seus álbuns favoritos, e assim como os críticos, ele considerava aquele o melhor álbum da história do rock progressivo. Ele descobrira um som novo e gostara da mudança. Devia isso a Emma, mas nunca que confessaria nada, até mesmo porque não era da conta dela.
- Já está pronta?
Emma revirou os olhos azuis, e deu as costas a ele, terminando de pegar um cachecol que ela mesma fizera, em silêncio. Voltaram a sala, depois dela ter trancado seu quarto. Encontraram mais pessoas na sala dessa vez, alguns jogados pelo chão outros em sofás agarrando-se com alguém. Aquele ambiente deixou Kevin nauseado. O que Emma fazia ali?
Ela despediu-se deles, e antes mesmo que iniciasse uma conversa, Kevin a puxou novamente, e dessa vez em direção ao carro dele. Na rua, vento gelado envolveu Emma, fazendo os cabelos dourados flutuarem pelo ar durante alguns segundos, antes de caírem como um manto pelas costas dela. Ela apertou o casaco e gemendo de frio entrou logo no carro dele. O viu entrar logo depois de deixar as malas dela no porta-malas e a guitarra no banco de trás.
Sem dizer nada, ele ligou o aquecedor, enquanto Emma encolhia-se no banco do passageiro, fazendo o casaco se abrir e mostrando as pernas. Ela usava saia. Quem, em nome de Deus, usaria uma saia tão curta no inverno?
- Você deveria ter se vestido melhor - eele comentou, dando a partida no carro - pode ficar com frio.
Fechando o casaco, Emma evitou olha-lo até saírem do campus. Muitas pessoas iam pra casa naquela época do ano. Ela era uma delas, que todos os anos viam busca-la para o aniversário da avó. E todos os anos ela tinha que ficar na companhia das desagradáveis namoradas de Kevin e fingir que gostava do que elas falavam e da presença delas. Sorrir quando ouvia alguma critica sobre o que vestia ou o que falava.
Odiava todas elas, Lois em especial. Ela vivia de perseguir Emma com o propósito que ela vendesse o cabelo, ou fizesse algum penteado. Gostava do cabelo comprido e reto, que alcançava agora a linha da cintura. Gostava das coisas como eram e não do que elas sugeriam.
- E cadê sua mulher? - ela perguntou, faazendo uma voz de quem não estava interessada em saber e perguntava por educação.
- Está gravando - respondeu ele - porquee? Está com saudades dela?
- Eu? Eu disse isso por acaso? Hunf! - vvirou o rosto e ficou olhando a paisagem que estava enjoada de ver pela janela, fingindo ser mais interessante do que falar com ele.
Ficaram em silêncio durante uma longa hora, até que Kevin, já na estrada, ligou o rádio. A neve estava se intensificando, e ele considerava a idéia de achar um lugar para parar, antes que fossem pegos por uma nevasca. Procurou por noticias no rádio, e não achou nada sobre o tempo. Acabou deixando na rádio que estava acostumado a escutar, somente com o intuito de provocar Emma. Para sua surpresa, ela não falou nada. Estava encolhida e olhava a paisagem pela janela.
Kevin dirigiu o quanto deu e quando a neve impedia a visão, ele parou num motel de estrada.
- Vamos esperar um pouco. Vamos alugar uum quarto - disse ele saindo do carro, e ouvindo que Emma o seguia de perto. Entrou no motel e pediu dois quartos de solteiros, mas só haviam quartos de casais, e mesmo a contra-gosto ele ficou com um. Pegou as chaves e uma mala do carro e foi com Emma para o quarto.
Ao entrar no quarto, Emma ligou o aquecedor e olhou para a cama de casal com pesar. Estremeceu quando ouviu Kevin fechar a porta e deixar a mala sobre uma cadeira.
- Eu durmo no sofá - disse ele atrás della.
- Ótimo - respondeu Emma indo até a camaa e pegando o controle remoto da tv, e ligando o aparelho. Não ficou surpresa ao notar que só pegava um canal. Ela olhou para Kevin, e ele olhava pela janela. Durante aquele tempo precioso, aplacou aquela vontade que tinha de olha-lo.
O cabelo estava curto e arrepiado, e tinha um cavanhaque bem feito. Usava um pesado casaco preto e usava botas que estavam sempre lustradas e novas. Ainda usava aquele anel no polegar, mas nenhuma aliança de compromisso.
Desviou o olhar depois e olhou para o espelho que tinha em cima da cama, imaginando ela e Kevin deitados naquela cama, sem nenhuma roupa e tocando-se desesperadamente. Assim como da outra vez. Igual. Exatamente igual.
- Alô? Oi querida, tudo bem? - Kevin ateendeu ao telefone trazendo Emma para o presente. Ela tombou para trás e ficou se olhando no espelho. Não havia o que fazer para apagar aquela atração que havia entre eles. Ficar no mesmo ambiente já deixava o ar mais elétrico, mais sensual. Era algo que a deixava desnorteada, pois nunca com outra pessoa era daquela forma.
E nenhumas das vezes que transara com o cara que estava saindo fora perfeita como a vez que se deitara com ele. Era algo que somente eles dois juntos podiam fazer e justamente por aquilo que ela o detestava. Porque queria aquela magia com outra pessoa e não com alguém que não podia ser dela, alguém que lhe era de certa forma proibido. Aquele homem era seu tio, ele era odioso de lindo, mas era seu tio.
Deitada ali, Emma não pode deixar de imaginar as mãos dele sobre seu corpo, o calor da pele dele contra a sua. De olhos fechados, permitiu-se imaginar isso, enquanto seu corpo aquecia-se e preparava-se para recebe-lo.
- Sei sei... - Kevin tirou os olhos da jjanela e da neve, e ainda com o telefone celular na orelha, olhou para cama e viu Emma deitada ali. Não escutou nada mais do que Lois falava, olhando a garota deitada que de olhos fechados ia lentamente tirando o casaco e mostrando a ele a blusinha de decote provocante, o ventre liso e a saia curta que deixava boa parte das pernas a mostra. - Sei... - disse ele nem sabendo porque falava isso.
Emma tombou a cabeça na direção dele e abriu os olhos. De um azul intenso, desesperados, brilhantes. Os lábios rosados entre abriram-se e a mão dela percorreu o pescoço, passou sobre os seios, a barriga e terminou sobre a saia.
A sua calça parecia números menores, justa e incômoda. Aquele lugar estava quente. As mãos dele tremiam de vontade de toca-la e uma veia começou a latejar na sua fronte.
Aquilo era demais para ele.
- Tá... tá... - ele tinha os olhos fixoss na ninfeta e sem saber bem o que fazer, saiu do quarto e andou pelo motel. Desligou o celular sem ao menos dar uma boa explicação para Lois e enfiou-se num bar que havia ali perto. Se voltasse para o quarto, sabia que iria ceder a tentação, então tinha que ficar ali até o frio voltar e enregelar seus ossos novamente, trazendo a ele a sabedoria e a razão.
Pediu uma bebida, e sentado no balcão, não entendia o que havia entre ele e Emma. Era algo estranho, forte e poderoso. Nenhum dos dois conseguia conter, e só podiam com isso quando estavam longe um do outro. Era isso, a distância resolveria o problema, mas prometera a Ann que levaria Emma e agora tinha que lidar com o problema tentando manter a cabeça mais fria o possível. As duas de preferência.
Da mesma forma que Emma ia para perto dele sem que ele fizesse alguma coisa, qualquer coisa que ela fizesse por menor que fosse explodia a sua frente como um espetáculo sensual que deixava seu corpo quente. Aquela sensação de domínio surgia nele, quando não era dado a isso, e ele queria tomar a garota para si. Faze-la sentir o desejo que provocava nele apenas por ser ela mesma. Era extremamente ciumento com ela, possessivo.
Bebeu um gole de sua bebida e sorriu sozinho. Quem imaginaria que ele era ciumento? Numa explosão de ciúmes anos atrás que ele cometera o erro tremendo de dormir na cama dela durante toda a noite... dormir? Não, isso certamente foi o que ele menos fizera. Ela era tão ávida quanto ele, e toda hora a língua dela estava em alguma parte de seu corpo, o deixando louco. A todo instante ela roçava os mamilos rosados eretos nele, as mãos dela passeavam pelo corpo dele, explorando cada lugar.
E eles não falavam nada a noite inteira. Nada. Nenhuma palavra. Apenas gemidos e murmúrios de palavras desconexas. Nada mais. Não era estranho? Já era estranho o fato dele ser tarado por uma garota com menos de vinte anos, sua "sobrinha" e que não fazia quase barulho algum quando transava.
Num gole só, bebeu todo o conteúdo do copo, sentindo o corpo quente novamente. Era bobagem ficar lembrando disso, e naquele instante ele concentrou-se em Lois e tudo o que viveram juntos. Na metade das lembranças, concluíra que não gostava dela, mas isso pouco importava. Eram um casal perfeito. Ricos, independentes, donos do próprio nariz, sexualmente compatíveis. O que poderia ser melhor?
Voltou para o quarto algumas horas depois e encontrou Emma dormindo na cama, tranqüilamente. O casaco dela encontrava-se numa cadeira, junto com a roupa que ela vestia. Mesmo assim, ele podia ver a sombra de uma blusa e ele concluiu que ela levara algo para dormir. Ele tirou o casaco e a bota e usando as cobertas que ela deixara sobre o sofá, se acomodou sobre ele e tentou dormir.
Tentou, porque era tão pequeno que ele não cabia direito lá em qualquer posição. Depois de tanto se mexer e reclamar, acabou por acorda-la. Emma sentou-se na cama e acendeu o abajur, olhando na direção dele enquanto passava as costas da mão sobre um olho.
- O que foi? - ao ver a situação dele noo sofá, ela entendeu - Deita aqui, essa cama é grande - disse, deitando novamente e voltando a dormir.
Ele quase voou pra cama depois do convite, deitando-se confortavelmente. Foi difícil conciliar o sono, e boa parte ele ficou com os braços cruzados olhando-se no espelho que havia no teto. Emma ressoava baixinho a seu lado, num sono pesado que o deu inveja. Por fim, conseguiu dormir. Quando acordou, estava abraçado as costas de Emma, que lindamente dormia com a cabeça sobre seu braço e colada ao corpo dele. Afastou-a antes que fosse tarde e levantou para tomar banho.
Ao andar em direção ao banheiro, pisou num frasco de vidro e o pegou depois. Olhando para o frasco, ele compreendeu porque ela dormia num sono pesado. Deixou o frasco no mesmo lugar, e foi se banhar. Depois ele tentou até acorda-la, mas nada. Emma o afastara bruscamente, murmurando para a deixasse em paz.
Kevin a largou lá, e foi tomar café no restaurante. O gelo estava acumulado as margens, mas pelos menos ele não caia mais. Poderiam seguir viagem antes de outra tempestade ou de uma nevasca. Fez seu pedido colocando cafés adicionais pelas horas de sono perdidas.
Na quarta xícara, ele mudou a página do jornal e viu Emma entrar. Vestia o casaco longo e o cachecol, e somente Deus sabia o que ela vestia por baixo, se é que poderia estar vestindo algo. Bocejando, ela sentou-se na mesa dele, e não falou nada, fingindo que ele não estava ali. O que parecia ser bem comum aos dois aquele tipo de comportamento.
Ela fez o pedido, e Kevin espantou-se pela quantidade de coisas pedidas e imaginou se ela poderia e iria realmente comer tudo. Ele olhou para as manchetes sem conseguir ler, pensando no frasco no chão do quarto. Precisava falar sobre isso, mas como iria falar? Provavelmente ambos trocariam farpas a mais e a viajem seria um verdadeiro inferno. Ainda assim ele tinha que tentar.
- Não pude deixar de notar - começou elee, escolhendo um tom de voz neutro e falando calmamente, enquanto dobrava o jornal ao meio - que você toma comprimidos. Pra que são exatamente? - a encarou.
- Desde quando o que eu faço é da sua coonta? - Emma revirou os olhos.
- Vai ser até eu leva-la a casa de sua aavó - revidou num tom sério - aposto que meu irmão não ficaria feliz em saber disso.
- Escuta aqui, isso não é da sua conta! Deixe Tim fora disso.
- Pra que é, Emma? Porque está se droganndo?
Emma ficou em silêncio, o olhando. Depois desviou os olhos para a garçonete que a serviu, e olhou para as panquecas que havia num prato.
- Tenho insônia - disse por fim.
- Você foi ao médico?
- Não... eu consegui o medicamento no meercado negro. Sabia que é bem mais fácil do que ir ao médico? Bem mais fácil por sinal - falou sarcástica - claro que eu fui ao médico. Por acaso acha que eu sou alguma irresponsável? Você é muito irritante sabia? Porque não cuida da sua vida?
- Ele te deixa com um humor ótimo não? Ela o olhou nos olhos, e viu a ironia neles. Odiou ainda mais a forma que aquele homem podia desconcerta-la. Concentrou-se nas panquecas para esquece-lo, mas o perfume da loção pós-barba, não a deixava pensar em nada a não ser nele. Ficou visivelmente irritada.
- Que foi? As panquecas não estão boas? - perguntou ele que levava a xícara de café aos lábios, após ver a expressão de fúria dela.
- A companhia que não está boa - resmunggou ela sem olha-lo.
- Ora, porque não se senta em outro lugaar então? Não me lembro de ter pedido sua companhia.
Não falaram nada depois disso, e ambos acharam melhor assim. Depois, arrumaram suas coisas e partiram. A estrada estava escorregadia, e Kevin foi dirigindo bem devagar. As paisagens ao longo do caminho estavam cobertas de neve, dando aquele aspecto natalino. A única coisa que se ouvia dentro do carro era o som das músicas que tocavam na rádio, e Emma não fez menção nenhuma para que ele trocasse de estação. Ao que parecia ele teria que arranjar outra coisa para provoca-la, porque o rádio já não mais funcionava.
Ela estava sentada a seu lado, o casaco bem fechado junto ao corpo, mas pelo o que ele pode ver, ela estava vestida. Olhava pela janela e nem ao menos suspirava. Passava um longo tempo sem vê-la e quando a via, aquele tremor interno começava e ambos iniciavam sua briga. Enchiam a cabeça de cada um apenas de vontade, e ele estava com vontade. De que ao certo ele não sabia. Mas sabia que estava com muita vontade. Talvez fosse de ouvir a voz dela, de saber que ela o odiava tanto, de saber dela.
- Como está na faculdade? - ele perguntoou de repente sem ao menos ter certeza se era correto falar isso. Kevin era uma pessoa prudente, mas tinha algo em Emma que o fazia ser tão descuidado, que ele ficava horas se punindo em pensamento pelas coisas que fazia. E aquela certamente seria uma delas.
- Está bem - respondeu ela, para sua surrpresa.
- Suas notas estão boas? - olhou-a de sooslaio.
- Sim. Sou a melhor aluna da minha turmaa - respondeu sem vontade, ainda olhando pela janela.
- O que o menino falou na sua republica... sobre banda, o que é isso? Você faz parte de uma banda?
- Sim. Fazemos covers.
- Mesmo? Do que?
- Um pouco de tudo. Estávamos ensaiando "Secret Touch" do Rush - respondeu ela, e fez uma pausa. Kevin não disse nada, esperando que ela continuasse - Rush... conhece Rush?
- Talvez - disse ele sem muita certeza.
- Neil Peart?
- Não.
- O melhor baterista do mundo?
- Melhor? - Kevin riu. - O que faz ele o melhor do mundo? O baterista da minha banda também é muito bom.
- Ele toca muito rápido - Emma olhou para ele, e Kevin ficou feliz porque finalmente não iriam brigar... por enquanto. - É fabuloso. Vi vários shows deles. Você precisa conhecer.
- Quem sabe um dia... mas é quanto a essa "Secret Touch"? Que música é essa?
Emma ficou empolgada. Finalmente ele estava falando sério com ela e parecia interessado.
- É uma assim "You can never break the chain / There is never love without pain / A gentle hand, a secret touch on the heart" - cantou.
- Isso parece triste - comentou ele.
- Mas é verdade não? Não existe amor sem dor - e ficou o olhando.
- Acho que existe sim - achava nada. Ele estava blefando. - As pessoas que amamos que é que doem e não o amor.
Emma deu de ombros.
- Pra mim tanto faz. Mas sabemos outras músicas deles. Uma sobre a bomba nuclear, as partes de "Fear", "YYZ"... ah, você não conhece, devo estar falando grego.
- É... eu sei o que é isso que está tocando na rádio. É Britney Spears. Acho que se a conhecesse, você iria detestá-la. Ela é uma boa pessoa sim.
- Acho que sei quem é - Emma parecia perdida - mas a voz dela é irritante.
Kevin riu de novo.
- As vezes o Nick também é - comentou ele numa reclamação velada. - Você lembra dele não? - a olhou, e depois manteve olhando para a estrada - o loiro.
- Lembro sim. Mas quer ouvir Rush? - perguntou ela, já mexendo em sua bolsa. - Por acaso eu tenho um cd aqui... o penúltimo "Vapor Trails", você vai ver que legal.
- Somente com uma condição.
- Ora, qual? Você já quer impor barreiras para não conhecer o que é bom e o que pode te salvar.
- Salvar? Não acha que está exagerando?
- Qual é a condição?
- Não brigarmos até chegarmos na casa de Dona Ann.
- Aí eu acredito que você está pedindo demais. Você sabe que isso é impossivel...

O cd repetia pela segunda vez, e Kevin não tinha achado nada demais. Mas Emma parecia empolgada com a idéia dele estar ouvindo isso. As letras eram fabulosas - isso ele nunca contestaria - mas a voz do Geddy Lee... bem, não era de tão ruim. Ele suspirou. Tudo bem, admitiu a si mesmo, algumas são legais. Mas que a voz do homem era um pouco irritante, isso era.
Pararam para almoçar, e ambos estavam com o humor melhor. Era um restaurante de estrada, e estava cheio aquela hora, mas conseguiam lugares. Sentados próximos as janelas, fizeram logo o pedido, porque ainda tinham muito caminho a percorrer.
- Lois ficará feliz em vê-la - comentou ele a certa altura da conversa sobre quem estaria na festa. Emma ficou infeliz no mesmo momento e fez como sempre faria, escondeu-se atrás de uma máscara de sarcasmo e ironia.
- É mesmo? Não estou nem um pouco com vontade de vê-la. Por mim, que ela nem fosse. Não sei nem porque vai, se não é da família. É apenas mais um caso seu.
- Emma - Kevin começou - não fale assim da Lois. Ela é a minha namorada.
- Pouco me importo pra quem ela seja. Faz um favor pra mim? Deixe-a bem guardadinha aí dentro da sua boca, porque eu não quero saber nada dessa mulher.
Ela virou o rosto, e começou a tamborilar os dedos na mesa. Depois, evitando olha-lo, procurou pelo garçom.
- Que demora - disse - quero ir embora daqui.
Kevin sabia que ela não gostava das namoradas dele. Que elas ficavam sempre a cansando com comentários sobre seu cabelo ou o modo que se vestia. Não que elas estivessem erradas, porque Emma precisava cortar um pouco o cabelo e ser menos escandalosa com as roupas. Principalmente a parte que tratava das roupas ele concordava com as suas ex-namoradas.
Fora besteira sua comentar de Lois. Devia ter calado a boca mesmo. Todo o esforço de duas horas parecia ter se perdido.
- Você é incansável sabia? - comentou ele depois de um longo silêncio. - Não sei como cabe tanto ódio nesse seu coração.
- Quem disse que é ódio? É desprezo, é diferente.
- Que seja então - ele deu de ombros.
Os homens que estavam sentado em mesas próximas não tirava os olhos de Emma, e embora não fizessem nenhum comentário devido a presença dele, sabia que eram incentivados pelos olhos dela e pelo sorriso.
Aquilo o estava aborrecendo. Ela parecia ávida por aventuras sexuais, e ele ficava irritado a cada minuto. Tocou a perna dela com o pé e Emma o olhou.
- Pare com isso - sussurrou ele.
- Porque? Você é meu odioso tio... não é nada mais do que isso.
Falando isso, ela voltou a olhar os homens e um sorriso desenhou-se novamente nos lábios dela. Kevin bufou, e assim que um garçom passou, ele pediu tudo para a viagem. Emma não disse nada, e ignorando-o, chegou a piscar para um rapaz, que mandou um beijo para ela.
- Já chega - ele se levantou, e a pegou pelo braço, puxando-a junto com ele. Andou pelo restaurante, e Emma ainda deu tchau para os rapazes. Pagou pela comida e quando ela ficou pronta, pegou a sacola com a comida numa mão e saiu do restaurante. Ele quase arrastava Emma atrás de si. Abriu a porta do carro, deixou a comida lá e fechou depois com força.
Emma estava encostada ao carro, passando a mão no braço que ele segurava, como se tivesse doido alguma coisa o fato dele ter a segurado. Olhou para ele com ressentimento. Kevin foi até ela, parou bem na frente e ficou bem próximo dela.
- Nunca faça isso quando estiver comigo..
- Porque não? Eu não tenho namorado. O qque você pode fazer para me impedir?
E antes que ela pudesse fazer alguma coisa, ele a segurou pela nuca e beijou-a com ardor. Prontamente, o corpo dela colou-se ao dele, e ela o instigou a aprofundar o beijo. O casaco dela abriu-se, e a mão livre dele deslizou para lá, para a cintura dela nua dela a puxou para mais perto, a mão descendo depois para contornar as curvas que a saia escondia.
O som de um carro o despertou, e ele afastou-se dela, sem ar. Sem demorar muito, ela o esbofeteou sem nenhuma piedade.
- Nunca mais - disse ela, ofegante, os llábios inchados - faça isso novamente!
Kevin tocou a face dolorida e sorriu ironicamente.
- Porque não? Você gostou - ele contornoou o carro e apontou para ela - agora entra e vamos logo embora. Que isso fique avisado, Emma, de onde veio isso tem muito mais.
- Eu odeio você! - murmurou ela, corada..
Dentro do carro, o silêncio foi absoluto. Ele ligou o rádio para se distrair e nenhum dos dois comeu. Emma estava dura no banco e apertava o casaco com força contra o corpo. Não havia como negar, os dois estavam esperando, e sabiam que isso aconteceria a qualquer momento.
- Devia contar tudo para sua namorada - resmungou ela.
- Porque não conta? Porque não conta >tudo? Os detalhes, inclusive. Lois vai adorar.
- Vou contar mesmo. Quero ver o que vai acontecer com você!
- Eu posso te adiantar se quer saber... - ele estava totalmente irônico - ela vai achar que você é apaixonada por mim, e que inventou tudo isso para terminar o namoro. Mais uma fã, que quer casar comigo.
- Apaixonada por você? Nunca... nem que fosse o último homem da terra.
Kevin parou o carro no acostamento, e Emma encheu-se de tensão. Ele a olhou bem, apoiado no volante.
- Até chegarmos a casa de minha mãe, eu serei o único homem por aqui, está claro?
Ela nunca o tinha visto daquela forma. O único homem. Aquilo era tão excitante. Os olhos verdes tinham adquirido uma coloração mais escura, e havia um volume inegável na calça dele.
- Único homem? - perguntou ela, a voz quuase não saiu.
Ele não respondeu olhando para ela. A tensão no ar era quase palpável, Emma nem percebeu quando o casaco escorregou por seu ombro, presa no olhar dele. Ele balançou a cabeça, se condenando pelo o que ia fazer, e mesmo assim não encontrou nenhuma luz para ir contra. Tirou o cinto dela, e a puxou para seu colo, livrando-se do próprio cinto depois.
Afastou o casaco dela, e o jogou no banco de trás, procurando depois os lábios dela. As mãos dele se insinuaram por debaixo da blusa dela, e ele sentiu os seios dela, sem nenhum sutiã sobre eles. Gemeu, enquanto continuava beijando-a, sentindo os mamilos ficarem eretos pela caricia de suas mãos, e as mãos dela, em sua cabeça, a puxando para ela.
Largou os lábios dela, e com desespero empurrou a blusa para cima para poder beijar os seios. Emma gemeu alto e abraçou a cabeça dela de encontro a seu peito, desejando que aquele contato nunca acabasse. Era tão bom, a língua dele parecia feita para beijar e lamber o corpo dela, e disso ela não tinha nenhuma duvida. Nenhum ato de amor era tão bom como era com ele. Nada era tão bom se ele não estivesse fazendo.
- Ah Kev... não pára - murmurou ela, gemmendo depois, quando ela abocanhou o seio, e suas mãos desciam para as pernas dela. Ao empurrar a saia e perceber que ela não usava nada, ele a olhou.
- Você é tão... sensual - conseguiu dizeer, a beijando novamente - Eu quero muito você - murmurou, os dedos procurando a carne macia da sexualidade dela.
- Eu também - respondeu ela, erguendo-see da maneira que podia para o contato das mãos dele.
Quando ele a sentiu, olhou para ela e Emma tinha os olhos fechados, como satisfeita pelo contato. Ele tinha vontade de beija-la toda, mas aonde estavam isso não era possível. Sentiu as mãos dela em sua calça, tentando abri-la. E ainda mais estranho ficou, com ele tentando ajuda-la, ao menos tempo que mantinha sobre ele e com os dedos dentro dela. Por fim, conseguiram, e Emma devorava o membro com os olhos.
Ela voltou a sentar-se no colo dele, e desesperada o segurou com as mãos, querendo mesmo era senti-lo com a língua. Kevin tinha as mãos na cintura dela, e assim como ela parecia que ia explodir a qualquer momento.
Mas então...
Uma música no celular começou a tocar. Era um mp3 da Celine Dion. Let's Talk About The Love. Era a música que tocava somente para uma pessoa. Era Lois, sua namorada ligando.
- Não atende - Emma pediu.
Kevin a olhou. Era por isso que namorava Lois. Nunca iria transar dentro de um carro. Nunca. Aquilo definitivamente era loucura. Podia não gostar dela, mas havia algo em Lois... havia luz em Lois, e aquela luz o salvaria.
Emma percebeu a mudança dele, enquanto a música continuava no ambiente. Desceu a blusa, e foi sentar-se no seu lugar. Pegou o casaco, e o vestiu, passando o cinto depois. Kevin ajeitou a roupa, totalmente recuperado de sua sanidade e pigarreou para atender o telefone.
Conversaram um pouco e Emma sentia-se fora do carro, deitada no gelo. Suspirou, e pensou que fora melhor. De certa forma, finalmente Lois tinha feito algo bom para ela. Depois poderia ficar se arrependendo, ou pior, desejando mais. E então o que teria? Nada. Não havia nada entre ela e o "tio". Tio? Ele mais parecia o homem dos seus sonhos do que seu tio. Ela tinha todos os pensamentos pervertidos de sua mente direcionados a ele. Que tipo de tio era aquele que era louco para transar com a sobrinha? O melhor possível, ela pensou depois. 
Era por isso que aquele relacionamento - embora nunca chegassem a ter um - não ia dar certo. Ela tinha que ficar com outros homens, ele com Lois. E assim a questão de resolvia. Viu ele desligar o telefone, e balançar a cabeça. Olhou para ela, buscando alguma coisa que nem ao menos sabia o que era, e encontrou orgulho ferido apenas.
- Eu...
- Não fala nada - ela o interrompeu. - ÉÉ loucura, apenas isso. Podemos chegar o mais rápido possível na casa de vovó?
Kevin não falou nada, dando a partida no carro e voltando a estrada. Ele sentia que a ligação de Lois era como quilos e mais quilos de neve sobre seu corpo. A vontade que sentia só aumentou, mas agora estava controlada. Graças a Lois. Daria um grande beijo nela assim que a visse.
Ela tinha salvado o relacionamento deles sem saber. Era uma heroína.

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