A Virgem Assassina

 

            Ele sabia o que queria, só não sabia como conseguir. Mas isso não era problema.

            Quatro anos depois tudo estava resolvido, finalmente poria as mãos em um poder real, para uma pessoa qualquer, quatro anos não seriam o suficiente para se aprender os mistérios do oculto, mas ele era diferente, sua sede por poder o fez assim.

            No inicio, seu aprendizado foi com pessoas sérias, mas sua ansiedade não permitiu que ele esperasse muito, a solução foi seguir seu próprio caminho, criar seus próprios rituais, que como conseqüência acabaram sendo baixos e sombrios demais. Ninguém queria se juntar a ele para a realização do ritual que lhe daria muito poder sobre os mortais. Depois de muito pesquisar, já se sabia o que seria preciso: alguns apetrechos rotineiros de magia negra e algo um tanto fora do comum e muito arriscado... o corpo de uma virgem para fertilizar a terra que seria o berço de seu poder, quanto mais pura fosse a garota, mais chances ele teria para alcançar seus objetivos.

            No subúrbio onde morava, havia uma igreja, e um pastor e a filha do pastor, que ele nunca vira com ninguém. Arrastá-la para o covil não seria tão difícil. Como ele fez para atraí-la não vem ao caso, o que realmente interessa é que ele conseguiu. Frio e inanimado, o corpo da jovem fora enterrado em uma cova rasa no cemitério da cidade, a cova era rasa para que ele com facilidade pudesse retirá-lo todas as noites e manter relações sexuais com o cadáver, e assim foi durante nove noites. No décimo dia (uma sexta-feira), tudo estaria pronto.

            Exatamente à meia-noite, o ritual começou, sobre a cova da garota (que não seria mais desenterrada) uma estaca fora fincada e na estaca fora presa a cabeça recém decapitada de um cão de rua, as velas postas para darem a forma de um caixão sobre a sepultura foram acesas. Quando os ventos nefastos começara a soprar, uma série de palavras eram carregadas pelo mesmo.

Olhos que foram olhos, dois buracos

Agora, fundos, no ondular da poeira...

Nem negros, nem azuis e nem opacos.

Caveira!”

            Eis que um pequeno tremor surge no centro do desenho formado pelas velas, felizmente ele está do lado de fora, o que quer que aconteça, não irá ultrapassar as chamas das velas para pegá-lo.

“Um véu de luar funéreo

Cobre tudo de mistério”

 

“Do céu no estrelado luxo

Passa a sombra de um bruxo”

 

“Como fantásticos signos,

Erram demônios malignos”

 

“Brancura das ossadas

Gemem as almas penadas”

 

“O vulto dos enforcados

Uivam nos ventos irados”

Uma ventania levantou a terra ensangüentada e podre do cemitério, ele hesitou, por um momento, mas já estava está perto de mais para desistir e mesmo que quisesse já era tarde, só lhe restava terminar o rito macabro.

“Luxúrias de virgens mortas

Rasgam as portas!”

            Um vulto surgiu da cova da virgem, a forma escura e indefinida, materializou-se e arrastou o corpo esquálido que ali estava, para fora do desenho feito pelas velas . A mulher de rosto fantasmagórico arrastava suas mortalhas negras em direção a ele. Vendo-se em apuros, ele não sabia o que havia dado errado, só sabia que estava em um enorme perigo, correndo desenfreadamente pelas vielas escuras do cemitério, seus pés tropeçaram em ossadas postas ali para serem queimadas. Com os nervos em frangalhos ele não conseguia se mover, o vulto aproximou-se dele cobriu-o com suas mortalhas negras, sufocando-o lentamente... em minutos, Angelus, esse era seu nome, estava morto e sua magia perdida na mórbida paz do cemitério.

 

 

Bruno de Oliveira.

P.S.: Os versos aqui contidos são de Cruz e Souza.

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