ALÉM DA CRUZ E A ESPADA
ALGUMAS PALAVRAS ACERCA DAS RELAÇÕES ENTRE PAGANISMO E IGREJA NA LITERATURA DE CAVALARIA
"Que todos sejam livres para servirem ao deus que quiserem."
Merlim
Róger Monteiro
Prelúdio
O crepúsculo é a hora da imaterialidade.
É ao cair do sol que as sombras se tornam traços alongados sobre o chão. É ao levantar da lua que as formas se difundem, se confundem, em um jogo de cores e matizes, em uma dança meio que desordenada de ícones e símbolos. O crepúsculo é o momento do diáfano, do irreal, do etéreo, do não palpável. É a morte do dia, o nascimento da noite, mas já não é mais dia, e ainda não é noite. Enfim, o crepúsculo é o reino do vir a ser, um castelo construído com as pedras da virutalidade.
A Idade Média é uma zona de crepúsculo. Um tempo em que as fronteiras, tanto geográficas como psicológicas, ainda estão longe de estarem definidas. São séculos que tem a palavra incerteza encrustada nos portais de suas cidades muradas, escrita com letras de fogo por sobre os portais das igrejas e no coração de seus habitantes. E levar essa palavra - incerteza - em consideraçõ é uma condição básica para que ousemos nos aproximar da dita Idade das Trevas.
Uma vez que passamos a considerar aqueles séculos como um grande trabalho de colagem, como uma obra de Klimt, nos aproximamos do espírito que pairava por entre aquelas sólidas torres. A Idade Média é um grande amálgama, onde as mais variadas culturas, sobrepostas, costuradas - muitas vezes de maneita não lá muito firme - acabam por formar um todo. Um todo, sim, porém nunca homogêneo.
Esse caráter fragmentário tornar-se-ia explícito em quase todas as instâncias do cotidiano medieval. O próprio país não passava de uma justaposição de feudos, células independentes que, por motivos circunstanciais formavam uma unidade maior. A guerra também era uma atividade fragmentária, com a Cavalaria valorizando a unidade, a individualidade, um pensamento completamente contrário ao de Roma com suas Legiões, grandes exércitos atacando o inimigo em blocos maciços. Entretanto, talvez seja no campo das artes que essa cultura do fragmento tenha sua expressão mais marcada.
O legado artístico deixado pela Idade Média aos séculos futuros é inestimável. Encontramos reflexos do Trovadorismo até hoje, como no caso dos repentistas e cantadores de cordel do nordeste brasileiro. Porém, praticamente toda a manifestação estética surgida naquele período reflete a estrutura fragmentária da sociedade em que foi concebida.
Uma dessas manifestações, talvez a mais recorrente delas, corrobora essa idéia de maneira bastante sólida. O mosaico, técnica de representação de cunho pictórico, nada mais é do que a união de minúsculas partes, a harmonização de pequenos pedaços, de maneira a dar a impressão de todo. E, de uma certa forma, ouso dizer que toda a arte medieval é, na verdade, um grande mosaico, uma vez que essa fragmentação se alstrou por todas as outras formas de manifestação artística, incluindo aqui a literatura.
Se tomarmos como objeto de análise a vasta obra dos trovadores, perceberemos que tanto em seu primitivismo formal quanto em sua simplicidade temática, ela não passa da colagem de vários fragmentos, versos que são dispostos em volta de um refrão, quase sempre em duplas, onde esses versos aparecem duas vezes, de maneira a fechar um pequeno círculo hermético, que não dá margens para escapadas interpretativas muito grandes.
Já na prosa medieval, campo que interessa mais de perto a este texto, o caráter fragmentário apresentar-se-á de modo um pouco diferente. Ainda há, é claro, a cultura do fragmento no âmbito formal, como na Chanson de Roland, em que o foco da narrativa vai se alternando entre os Doze Pares de França, formando uma grande teia de episódios e aventuras que podem - ou não - serem lidas em sequência, uma vez que alguns desses capítulos constituem histórias fechadas, com começo, meio e fim.
Entretanto, o fragmento está presente nessas narrativas também no campo temático. Todo aquele clima de incerteza, de imaterialidade, de indefinição irá contaminar, por assim dizer, a prosa da Idade Média com esse paroxismo, resultante das várias culturas em convivência, muitas vezes não lá muito pacífica. As imposições culturais são naturais em sociedades formadas por povos diversos, e as lutas resultantes dessas tentativas de supremacia são inevitáveis.
E encontraremos nos textos em prosa, principalmente nas novelas de cavalaria, reflexos claríssimos desse embate entre culturas, uma vez que elementos essencialmente pagãos, provenientes das culturas celta e germânica, que foram passando de geração em geração; e de árabes e turcos, em virtude da invasão e permanência desses povos infiéis em território europeu durante várias décadas, aparecem nesses textos andando lado a lado com os sacramentos da Igreja Romana, com os santos do catolicismo, com a figura do próprio Cristo.
Essa covivência esteticamente muito frutífera é incontestável. O objeto de análise dessas linhas não é a existência ou não desses elementos pagãos diluídos entre os reinos da cristandade, mas sim o relacionamento dessas imagens com a toda poderosa Roma. Na verdade, é a busca de uma explicação, ou pelo menos de algo próximo a isso, para que certos elementos tenham sido tolerados, e até mesmo incorporados ao imaginário cristão pela classe clerical, enquanto outros foram decretados como heresia, condenados à fogueira e à virtualidade do esquecimento.
Para essa temerária análise, começarei com a leitura de dois dos romances mais importantes da chamada Matéria da Bretanha, ciclo narrativo que enfoca o Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Um deles, a Demanda do Santo Graal, que narra as aventuras desses cavaleiros em busca do cálice onde teria sido recolhido o sangue de Jesus Cristo após a crucificação. O outro, incorporado à Matéria da Bretanha mais tarde, Tristão e Isolda, a história dos amores adulteros entre o cavaleiro Tristão de Lionês e Isolda, a Loira, rainha da Cornualha, esposa de Marcus, tio e soberano do cavaleiro. Não necessáriamente nessa ordem. Mas nada impede que outros textos façam suas aparições esporádicas
Sendo assim, pedindo aos deuses e demônios para que nada escrito aqui seja considerado herético pelo Tribunal da Inquisição, lancemo-nos, pois, ao instigante exercício da especulação literária.
Cavaleiros de Armaduras Brilhantes
Se por um lado é certo que a Idade Média produziu, no campo da Literatura, muito mais versos do que narrativas, também é certo que, por quaisquer que sejam os motivos, são esses textos em prosa que nos apresentam um panorama um pouco mais fiel da sociedade medieval. É claro que há muito de fantasia desabrida ao longo daqueles textos, de elementos fantásticos e ficção, à qual, muitas vezes, se tenta atribuir valor de verdade. Entretanto, mesmo impregnados por esse caráter maravilhoso, são esses textos que nos permitem reconstituir, de algum modo, o contexto em que foram escritos, uma vez que a poesia dos Trovadores muito pouco, ou quase nada, nos oferece a respeito do cotidiano medieval, quer por sua limitação temática, quer por seu primitivismo linguístico.
Sendo este um texto que se propõe a estudar as relações entre a Igreja e os últimos resquícios das antigas religiões pagãs da Europa, nada mais natural do que tomar como objeto de análise o gênero de prosa mais popular e mais recorrente na Idade Média, a novela de cavalaria.
As novelas de cavalria são descendentes diretas das chamadas canções de gesta, que tiveram sua gênese entre os germanos, mas logo se espalharam pelos principais pontos do Velho Continente, na época, o único. Tratam-se de longas narrativas em prosa, geralmente enaltecendo os feitos e as virtudes de uma personagem principal, um guerreiro que se destaque entre os seus, quer por habilidade com as armas, quer por força física. Em sua essência, são muito semelhantes aos antigos poemas épicos da Antiguidade Clássica, diferindo, entretanto, pelo seu caráter individualista em contraponto ao coletivo das epopéias gregas e romanas. Enquanto os clássicos encaravam o herói como um ícone da comunidade em que estava inserido, como um representante de todos os ideais e crenças dessa coletividade, os autores dessas canções de gesta já permitiam aos seus heróis alguma fraqueza, ou, pelo menos, discordância em algum ponto com a sociedade que o cercava, numa antecipação, guardadadas as devidas proporções, do que seria o futuro arquétipo do herói romântico, uma personagem que busca valores autênticos em uma sociedade degradada. Entretanto, a despeito dessas suaves diferenças, o cunho das narrativas são práticamente os mesmos, combates, aventuras fantásticas, monstros e criaturas sobrenaturais.
Com o advento da Lírica Occitânica, ou Lírica Provençal - assim chamada por haver surgido na Provença, região ao sul da França, na época independente - essas canções de gesta, predominantes nas terras do norte, começaram, aos poucos a sofrer modificações sensíveis. Os ideais do movimento chamado Amor Cortês, paulatinamente foram sendo incorporados pela matéria das canções de gesta. Dessa forma, já não tínhamos mais somente as cenas de batalhas, mas as narrativas começaram a dedicar grande parte de suas linhas à vida palaciana, às intrigas da côrte e aos amores, lícitos ou ilícitos, que floresciam por trás da cortina de repressão sexual e castidade sacral. Tudo isso resultou em uma nova forma de encarar a literatura, uma vez que esses novos elementos requeriam uma sutileza muito maior do que a pura e simples carnificina. Assim, as novas narrativas, as novelas ou romances de cavalaria, tornaram-se textos estilística e tematicamente mais ricos, mais ao gosto das côrtes que começavam um processo de refinamento, relfetido na apreciação dessas manifestações artísticas, agora não mais somente em louvor à Igreja e a Cristo.
As civilizações tendem a escolher seus heróis. E o nome desses heróis, mesmo que ficcionais, fica de tal modo enraizado na história dessas civilizações ao ponto de, a partir de determinado momento, começarem a ser tratados como figuras históricas reais. A Grécia tem seu inesquecível Odisseu, aquele que após a guerra de Tróia enfrentou a morte mil vezes para retornar ao seu lar; Roma tem Enéias, sobrevivente de Tróia que fundou, sob a proteção dos deuses aquele que viria a ser um dos maiores impérios do Ocidente. A Idade Média não é diferente.
Muitos foram os heróis nascidos sob o signo da civilização medieval e muitos os seus feitos grandiosos. Porém, a palavra grandiosidade não se aplica de maneira tão plena a nenhum deles como se aplica a Arthur e seus cavaleiros.
Tem-se notícia de um Arthur histórico. Ele teria sido o líder de uma das inúmeras tribos celtas, que defenderam o território inglês contra as invasões dos saxões. Entretanto foi o imaginário popular, por motivos não facilmente explicáveis e que não vêm ao caso agora, que o transformou em grande Rei da Inglaterra, aquele que teria unificado todas as tribos que compunham o mosaico inglês em um grande exército que marchou contra os invasores. E o folclore - derivado de folk, da palavra inglesa para povo - vai além, quando lhe atribui uma origem cercada por mistério e feitiçaria, uma espada dotada de poderes mágicos e até mesmo uma morte não definitiva(1) .
Consequentemente, a maior parte dos romances de cavalaria adota como seu tema principal a Matéria da Bretanha, que é o conjunto dessas aventuras vividas pela côrte de Arthur e que já circulava entre o povo na forma de literatura oral. Essas narrativas constituem o ciclo conhecido como Lancelote-Graal, que relata as aventuras de Lancelote, o mais famoso cavaleiro do mundo, ligando-as às do Rei Arthur e demais cavaleiros da Távola Redonda e à Demanda do Santo Graal. Escrito na primeira metade do século XII, esse ciclo organiza uma vasta matéria narrativa, matéria essa que evoluiu muito rápido e que, no próprio século XII já constituám o cânone da cavalaria, então em plena ascenção. A reelaboração ficcional de histórias tão remotas no tempo serviu, dessa forma, a leituras da realidade social e cultural contemporânea.
Aos pocuos, outros personagens que, originalmente não estavam ligados a Arthur e seus cavaleiros foram sendo incorporados à sua côrte, como Tristão de Lionês, Isolda da Irlanda e Marcus da Cornualha. A lenda de Tristão é de origem celtica, mas sua gênese é incerta e nebulosa, como, aliás, a da maioria dos textos medievais. Entretanto, existem elementos que atestam a ligação entre o texto e os antigos cultos ao Sol daquelas tribos, bem como determinados traços filológicos relativos aos nomes das personagens e a fragmentos de manuscritos mais antigos.
Dessa forma, mais por influências externas, uma vez que os escritores dessa época geralmente concebiam seus textos sob encomenda da nobreza, o destino de vários heróis independentes em suas raízes acabou sendo ligado ao de Arthur, ligação que, com o passar do tempo acabou por tornar-se de tal maneira solidificada pela abrangência dos textos que adiquiriu um certo caráter natural.
Mas o que realmente importa para o decorrer desta breve análise é a origem celta, e, portanto, pagã desses dois grupos de personagens. Uma vez concebidas por uma cultura completamente diferente da cristã, vigente na Europa durante o período em que foram prosificadas, é natural que essas narrativas apresentem traços bem marcados das crenças, costumes e ideais daquelas sociedades. E, no caso das tribos celtas, estes traços são mais acentuados pelo fato de se tratarem de sociedades matriarcais em que era adotada uma religião de cunho também matriarcal. Outro ponto importante a respeito dessa religião é o fato do sexo ser encarado pelos celtas como uma celebração à vida, uma forma de homenagem à Deusa, à Grande Mãe, ou seja, uma concepção completamente oposta à da Igreja Católica. Assim, seria inevitável que estas histórias trouxessem consigo toda essa carga ideológica diametralmente opostas a qualquer dos preceitos cristãos. Criou-se então um problema crucial: o que fazer com esse paganismo? Deixá-lo livre, detentor da virtualidade da corrupção da alma do povo, uma vez que essas idéias pagãs eram muito mais atraentes do que o eterno mea culpa do cristianismo? Ou destrui-lo por completo, como seria feito com as chamadas heresias, talvez a maior e mais famosa, a Heresia Albigense?
Primeiramente, vejamos mais de perto que elementos pagãos específicos eram esses e que importância eles apresentam, dentro de suas respectivas obras, para o todo das narrativas. Para ilustrar esses elementos, escolhi duas obras que considero fundamentais em se tratando da literatura cavaleiresca: Tristão e Isolda e a Demanda do Santo Graal.
Entre Dragões, Bruxas e Poções
Como já foi dito aqui, quase toda a prosa medieval, mas em especial as novelas de cavalaria encerram em si uma série de elementos fantásticos provenientes de suas raízes celtas, e, portanto, não-cristãs. Esses elementos da cultura pagã muitas vezes aparecem como simples acessórios, ficando à margem da estrutura narrativa. Entretanto, em outros momentos esses traços constituem a coluna vertebral do texto. As obras aqui selecionadas para análise, A Demanda do Santo Graal e Tristão e Isolda são exemplos de um e outro caso, respectivamente.
Tristão e Isolda insere-se dentro do grupo de narrativas que centra seu eixo nos elementos remanescentes da antiga religião celta. Praticamente ao longo de todo o texto o sobrenatural estará presente, e sempre desempenhando um papel muito ativo no rumo dos acontecimentos, desde o início até o final.
Tristão vem a conhecer Isolda indeiretamente através de um dragão. O dragão talvez seja um dos personagens pagãos mais recorrentes não só nas crônicas de cavalaria como também na prosa dita científica da época. Com muita frequência, ao abrirmos as páginas de algum bestiário medieval, gênero muito produtivo onde eram listados todas as espécies de animais conhecidas, encontramos um dragão ao lado de cães, gatos, galinhas e outros animais domésticos. Isso leva a crer que a Idade Média realmente acreditava na existência dos dragões, o que inviabilizaria sua classificação como imagem pagã. Entretanto esse pseudo cientificismo não pode ser encarado ao pé da letra, pois vários outras formas literárias da época, por assim dizer, não hesitavam em misturar ficção à realidade, como no caso dos Livros de Linhagens, por exemplo, onde inúmeras famílias alegavam descendência de personagens importantes, desde o Rei Arthur até casos absurdos como o da Melusina. Por ora prefiro continuar tratando os dragões como figuras do imaginário pagão. Afinal o que seria da cavalria sem o dragão?
Ao lado do dragão, quase que imediatamente teremos a aparição de outro elemento sobrenatural. Ao transportar a bela Isolda da Irlanda para a Cornualha, onde a princesa deveria casar-se com Marcus, tio de Tristão, os dois jovens são levados a beber de uma poção preparada pela mãe de Isolda. Trata-se de um elixir mágico, uma poção de amor, uma forma que a rainha-bruxa encontrara para que sua filha não corresse o risco de infelicidade no matrimônio. Essa poção será a responsável pela detonação de todo o drama dos amantes, uma vez que seu amor, ainda que efeito de uma droga, não encontra chances para ser realizado. O fato é que esses filtros de amor são imagens recorrentes em outros textos de cavalaria, como em um episódio da Canção de Rolando, por exemplo, onde uma donzela lancará mão de magia para obter o amor de Ogier, um dos doze paladinos. Porém em nenhuma outra obra eles desempenham um papel tão fundamental quanto na história do cavaleiro de Lionês.
Temos em Tristão e Isolda, portanto o paganismo como mola mestra da ação. São os elementos não cristãos que determinam o curso dos acontecimentos. Este caráter extremamente pagão da narrativa pode ser significativo, uma vez que este texto sai da oralidade somente no século XII, período em que a Igreja Católica já exercia um poder mais do que considerável sobre quase toda a Europa.
A Demanda do Santo Graal é uma coletânea de escritos do século XII, justapostos sobre um único pano de fundo, a busca dos cavaleiros da Távola Redonda pelo cálice sagrado. Tematicamente, poderíamos dizer que a obra é de cunho cristão, pois, além de tratar de fé, ela se vale de um dos dogmas mais básicos da Igreja Romana, a crucificação e ressureição de Jesus Cristo. Entretanto, circulando em volta desse eixo central várias episódios completos em si mesmos vão se desenrolando, e é nesses episódios paralelos que iremos encontrar o choque entre as duas culturas. Em A Demanda do Santo Graal convivem lado a lado, e pacificamente, o catolicismo e o paganismo, o Deus dos padres e a Deusa das sacerdotisas celtas, o crucifixo e os amuletos de fertilidade, o vinho consagrado e as beberagens mágicas. O paradoxo cultural aqui, não se dá somente entre a obra e o contexto social em que está inserida, mas também dentro do próprio texto, embora, dentro da narrativa ela não possua qualquer caráter paradoxal, uma vez que parece completamente natural a presença dos dois mundos.
Nessa demanda paralela, não raras vezes nos deparamos com feiticeiros e bruxas, com castelos que aparecem e desaparecem, com anéis mágicos.
Um desses elementos maravilhosos é o Cervo Branco, um animal fantástico que aparece perante Galahad, filho de Lancelote do Lago. Se estudarmos um pouco, ainda que superficialmente, a religião celta, saberemos que o cervo era um animal sagrado, assim como era sagrado o carvalho, árvore que compõe a floresta onde este cervo se oculta. O narrador da demanda tenta aproximar esse animal de Deus, usando como argumento a sua cor, branco, a cor da pureza, do manto de Cristo. Porém a analogia não se sustenta e podemos afirmar com certeza que esse cervo nada mais é do que o ícone sagrado celta.
Entretanto um desses elementos parece receber um tratamento especial por parte do narrador, a Besta Ladradora. Ela é descrita como um animal horrível, possuidor de várias cabeças que cospem fogo. Chama-se ladradora porque essas cabeças latem sem parar, causando um barulho ensurdecedor. Segundo a lenda teria sido o fruto de um incesto, crime passível de morte na Idade Média. Ela é eternamente perseguida por um cavaleiro mouro, Palamedes
Interessante aqui é o fato do paganismo não estar representado apenas por estes traços diluídos, escondidos entre os parágrafos da narrativa, mas sim de forma explícita. Não é somente a besta que empunha as armas pagãs, mas um cavaleiro as traz em seu escudo. E note-se que não é qualquer cavaleiro, um biltre, um parvo. Inacreditavelmente, até, talvez a Demanda do Santo Graal seja o primeiro dos textos medievais a conceder um lugar de destaque para um dos mais antigos inimigos da cristandade, o cavaleiro mouro, tão acirradamente combatido por Carlos Magno.
Os raios de paganismo que rompem o céu nublado cristão são muitos, na verdade incontáveis. Entretanto, creio que estes poucos elementos apontados anteriormente, sejam suficientes para formar um panorama geral das formas de tratamento que a Igreja Romana dispensava a essas pequenas heresias em potencial.
O Longo Braço da Igreja
A Igreja Católica talvez seja, se não a mais, uma das mais organizadas instituições do mundo. Graças a essa organização ela vem se mantendo viva e atuante desde os primórdios até hoje. É certo que ela não goza mais do poder político do qual gozou durante séculos. Pode ser que o Inferno já não seja um lugar tão apavorante para os habitantes do século XX como era para os do XV. Entretanto a nave de Pedro ainda pode ser considerada como uma organização respeitada.
Sem dúvida, um dos dispositivos que ajudou a Igreja Católica a manter-se viva durante tanto tempo foi a Inquisição. Um mecanismo muito simples, utilizado e aprovado por todo o tipo de governante autoritário: elimine os focos de revolta e está aliminada a revolução. Assim, com a tortura e a morte dos ditos heréticos os pilares do catolicismo foram resguardados, a custa de muito sangue, é verdade, mas antes o sangue dos heréticos do que o de Cristo.
Detentora exclusiva de quase toda a cultura durante a Idade Média, Roma pôde manipular os textos ao qual o mundo teria acesso. Dessa forma ela pode deixar que chegasse até o público leitor aquelas palavras que enalteciam a Cristo e à Virgem, bem como quaimar e destruir todas as linhas consideradas heréticas ou blasfemas. Sendo assim, surge uma pergunta: Como a Igreja permitiu a permanência desses elementos pagãos, e, na época, pagão era igual a herege, dentro dos textos de cavalaria?
Seria ingenuidade extremada da nossa parte acrditarmos que essas imagens pagãs tenhas escapado aos olhos atentos e zelosos dos frades, que tinham tempo de sobra para aplicar suas censuras à arte, uma vez que viviam às custas das doações e da venda de indulgências. Não. Definitivamente o poder da Grande Mãe não era tão grande para fazer com que seu culto fosse propagado por entre os seguidores do Cristo sem que os paladinos da Igreja ficassem sabendo. Isso nos leva a crer que, se o paganismo floresceu nas narrativas do século XII, juntamente com o culto à Virgem, ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, foi única e exclusivamente por permissão de Roma.
Mas que interesse a Igreja poderia ter na disseminação dessas crendices celtas entre seus fiéis? O que levaria o clero a correr o risco de uma onda de esoterismo indiscriminado, como a que presenciamos hoje, às portas do século XXI, influenciada pela presença pagã na literatura. É fato que o público leitor dessas obras era reduzidíssimo, e o povo, a plebe, nunca teriam contato com um livro, primeiro por que não sabiam ler; segundo, porque o preço do livro era algo absurdo, uma vez que os volumes levavam anos, às vezes para serem copiados. Porém, as narrativas eram orais, contadas em feiras e praças públicas. Talvez a Igreja não tivesse o poder necessário para editar a literatura oral, mas é difícil de acreditar que ela permitisse que esses ideais ficassem gravados em pergaminho. Verba volat, scripta manent, diziam os romanos. O dito voa, o escrito permanece(2).
Uma hipótese provável e possível é que o clero tenha usado a permanência desses elementos para uma função didática. Analisando as principais figuras pagãs presentes nesses textos, poderemos facilmente notar que elas sempre estão relacionadas, direta ou indiretamente, a eventos desastrosos ou consequências horríveis.
O episódio da Besta Ladradora nos oferece dois vestígios, um evidente, outro oculto, para que aceitemos essa idéia do didatismo.
Sendo fruto de um incesto, a Besta Ladradora nada mais é do que um elemento didático. É como se o clero apontasse seu dedo acusador e mostrasse que o pecado leva ao monstruoso.
Entretanto, existe mais um fator didático relacionado a este episódio, não ao monstro em si, mas ao cavaleiro que a persegue, Palamedes.
Palamedes, aqui, representa todo o povo mouro, o povo infiel. E é ele que persegue a besta, ícone do incesto. É como se a Igreja dissesse que o infiel persegue o pecado assim como Palamedes persegue o monstro, num exercício de lógica um tanto quanto distorcida, porém interessante à Roma.
Já em Tristão e Isolda encontraremos uma marca de punição ao paganismo, não diria que mais forte do que na demanda, uma vez que a própria história dos amantes está também contida no texto português, mas diria mais intensa, já que o leitor acompanha todo o drama da separação e morte bem mais de perto, com um caráter mais visceral que em nenhum momento aparece em A Demanda do Santo Graal.
Aqui a desgraça ocasionada pelo paganismo é completa e absoluta, levando a uma vida de desgostos e sofrimento, e, muito provavelmente à uma pós-morte atormentada no fogo do Inferno, como prevê Lancelote em seu sonho. Sonho este do qual também participa a rainha Guenevere e ele próprio, Lancelote, com quem a rainha mantinha relações ilícitas.
Novamente nos deparamos com uma advertência quanto ao incesto, uma vez que Tristão mantém amores adúlteros com a mulher de seu tio, que lhe abrigou como um pai. E mais, com a rainha, que na mentalidade medieval era considerada como mãe de seus súditos. Tristão seria, por assim dizer, um duplo incestuso, condenado às respectivas penas por um narrador simpático à sua causa, quando falamos do romance original; e por um narrador completamente impiedoso quando consideramos a história contida em a Demanda do Santo Graal.
Sendo assim, creio que fica claro o caráter didático - eufemisticamente falando, uma vez que a palavra mais apropriada seria ameaçador - desses elementos pagãos tolerados, por assim dizer, pela classe clerical.
É claro que isto é apenas uma hipótese, porém, ao mesmo tempo, é a única explicação plausível, o único critério concebível para que Roma convivesse de forma tão pacata com esses dragões, monstros cuspidores de fogo e poções de amor em uma época em que jogavam-se pessoas ao rio para certificar-se de que não eram bruxas(3).
Pseudo-Conclusão
Pseudo-conclusão, sim. É no mínimo leviano falarmos em alguma conclusão quando estamos no terreno da Idade Média. Cada vez mais me convenço que quanto mais fundo mergulhamos nesse poço sem luz, a dita Idade das Trevas, mais questões surgem e menos respostas são obtidas.Mas acho que o texto cumpriu sua proposta inicial, ou seja, tentar jogar alguma luz sobre esse misterioso critério de seleção entre os pagãos.
Sei que, até certo ponto, foi uma análise superficial, mas talvez as relações entre Igreja e Literatura o sejam por natureza. Platão baniu os poetas de sua república assim como Deus baniu a Lúcifer. E não foi porque os poetas trazem consigo a alienação, como pretendeu o grego, mas sim porque eles trazem a luz, como a Estrela da Manhã(4). Foi o anjo caído que ofertou ao homem a possibilidade do erro, da escolha. Dessa forma, a luz que Lúcifer porta não é a que ilumina o caminho, mas sim a que ilumina a razão. Uma vez que luta contra Lúcifer, a Igreja luta contra a razão, contra o esclarecimento. A Idade Média teria sido uma época de treva caso Roma pudesse ter reinado sozinha. Talvez até hoje estivéssemos atirando pessoas ao fogo. Mas os poetas estavam lá, para resistir bravamente empunhado suas penas contra os crucifixos afiados... Mas isto já é ideologia.
Bibliografia
1. ANONIMO. A Morte de Arthur. Martins Fontes, SP, 1992.
2. JUNQUEIRA, Rita Soares. O Triste Destino de Tristão na Versão Portuguesa D'A
Demanda do Santo Graal. in: Revista de Letras, UNESP, SP, v.35, 1995, p.103.
Notas
1 - Existe a lenda de que, após ser ferido pela lança de Mordred, Arthur teria sido recolhido pelas fadas da Ilha de Avalon e levado em uma barca para aquela terra magica cercada de brumas. Ele retornaria quando a Inglaterra corresse um grande perigo e tivesse necessidade de seu maior herói.
2 - Ainda que a própria transmissão oral de tantos textos antiquíssimos nos mostre o contrário.
3 - Segundo o Maleus Maleficarum, o manual dos inquisidores, atirava-se a pessoa ao rio, amarrada a uma grande pedra. Caso ela se salvasse, era burxa e deveria ser queimada; caso morresse, ficava provada sua inocência e ela teria direito a um enterro cristão.
4 - Um dos epítetos de Lúcifer.
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