
O pensamento insistente é um cavalo selvagem. Devemos nos aliar ao cavalo
sem submetê-lo e sem ser por ele submetido.
A aliança com o cavalo selvagem é conseguida quando montamos e cavalgamos
através das regiões que ele nos leva. Não somos nós que definimos o trajeto
da viagem e sim o cavalo.
Mas temos que cavalgar em estado de lucidez, observando profundamente os
lugares por onde passamos e sem raciocinar a respeito.
De nada adiantaria uma cavalgada inconsciente. Isso o fazemos sempre e nada
nos tem revelado. Temos que viajar conscientemente.
Mudar de pensamento é trocar de montaria. Se ficarmos trocando de montaria a
todo momento, jamais cavalgaremos. Trocar de montaria é desconcentrar-se.
Entrar em conflito com um pensamento insistente é tentar assassinar o
cavalo. Montar em um pensamento insistente é aliar-se sem submeter-se.
Submeter-se ao cavalo é não observar para onde está nos levando. É também
perder o poder de decidir: "Agora quero desmontar". Isso não nos interessa.
Nossa autonomia enquanto consciência precisa ser preservada mas sem atentar
contra o cavalo.
Se somos cristãos, podemos viajar lucidamente através dos hinos e orações
que nos toquem emocionalmente. Se somos músicos, podemos fazê-lo com
canções. Se estamos apaixonados, podemos nos perder conscientemente na
lembrança do ser amado.
Por este caminho, a alma é arrebatada até a vastidão das alturas, dos céus,
das estrelas, das montanhas, das planícies, dos vales e dos mares
interiores.
Mas, durante os afazeres diários, temos que exercitar a lucidez focando a
observação na realidade concreta daquilo que estamos fazendo aqui e agora,
visando conhecer a nós mesmos.
Se não soubermos descobrir a nós mesmos a cada instante, permitindo que o
novo se expresse, seremos incapazes de cavalgar quando nos acomodarmos para
deixar temporariamente este mundo e viajar para outros modos de existência.
Há vários planos de consciência ou estados de ser, sentir e atuar. O modo
vígil não é o único real.
É importante permitir que o corpo adormeça se quisermos viajar. A
resistência contra o sono sabota a viagem. Devemos nos aliar conscientemente
ao sono, permitindo que venha e se instale sem que percamos a consciência.
De modo que a lucidez nunca deve ser perdida, nem mesmo quando estamos
dançando em uma fogueira que nos apaixona. Necessitamos preservar a
consciência durante a vigília e durante o sono.