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Facilitação pela concentração...

Facilitação da concentração pela carga afetiva

Por Cleber Monteiro Muniz em 18 de fevereiro de 2002.

othna@terra.com.br

 A carga afetiva em torno de uma imagem interna facilita sua visualização consciente endoperceptiva.

O impacto realístico (eidético-numinoso) e a continuidade do fluxo atencional sem desvio de foco são mais facilmente atingidos quando o pensamento que elegemos para ser o único é, por si mesmo e sem que o busquemos artificialmente, insistente em invadir nosso campo de consciência.

A adoção de um pensamento espontaneamente repetitivo como objeto de atenção torna a concentração sobre o mesmo naturalmente contínua durante um bom tempo.

É um erro impor os caprichos egóicos à prática formal de se concentrar. Temos que fazê-lo de acordo com nossa disposição psíquica.

O pensamento único deve ter seu conteúdo inicial escolhido de acordo com a tendência que apresenta no sentido de naturalmente permanecer no campo de consciência.

Não confundamos, entretanto, a invasão automática de um pensamento que não sofre a participação da consciência com a imaginação consciente que aqui tratamos.

Temos que permitir que o pensamento único se processe espontaneamente e sendo conscientemente percebido.

A fascinação pelo pensamento "apaga" a luz da consciência. É a chamada distração. É inútil aos nossos propósitos.

Entregar-se à distração é adormecer a consciência, permitindo que os processos mentais aconteçam espontaneamente porém sem serem vistos e sem apresentarem uma continuidade no campo de atenção.

O extremo oposto seria o de forçar o fluxo de imagens do modo que acreditamos ser correto. Os conteúdos imagéticos não devem ser definidos segundo os caprichos do ego, ainda que este os tome por sagrados, inefáveis, maravilhos e muito espirituais.

Muitas vezes o ego praticante tenta forçar o fluxo imagético de acordo com o que acredita ser o rumo de uma correta prática de meditação ou concentração. Torna-se cego ao novo e bloqueia o desenrolar do pensamento único.

O que nos interessa é uma síntese entre a alta lucidez e não-interrupção do fluxo natural de imagens relacionadas ao pensamento único. Ambas devem coexistir e se fundirem.

Se temos medo de cantos noturnos de grilos, por exemplo, podemos utilizar esse medo para que a atenção seja mais facilmente mantida sobre ele sem interrupção. Não obstante, temos que fazê-lo com máxima lucidez.

 

 

Se uma música insiste em repetir dentro de nossa cabeça, pode ser usada como objeto de contemplação lúcida ininterrupta. Muitas imagens internas poderão se formar a partir daí.

É melhor capturar um pensamento insistente para viajar às remotas paragens interiores do que entrar em conflito com o mesmo.

 

 

 

O pensamento insistente é um cavalo selvagem. Devemos nos aliar ao cavalo sem submetê-lo e sem ser por ele submetido.

A aliança com o cavalo selvagem é conseguida quando montamos e cavalgamos através das regiões que ele nos leva. Não somos nós que definimos o trajeto da viagem e sim o cavalo.

Mas temos que cavalgar em estado de lucidez, observando profundamente os lugares por onde passamos e sem raciocinar a respeito.

De nada adiantaria uma cavalgada inconsciente. Isso o fazemos sempre e nada nos tem revelado. Temos que viajar conscientemente.

Mudar de pensamento é trocar de montaria. Se ficarmos trocando de montaria a todo momento, jamais cavalgaremos. Trocar de montaria é desconcentrar-se.

Entrar em conflito com um pensamento insistente é tentar assassinar o cavalo. Montar em um pensamento insistente é aliar-se sem submeter-se.

Submeter-se ao cavalo é não observar para onde está nos levando. É também perder o poder de decidir: "Agora quero desmontar". Isso não nos interessa.

Nossa autonomia enquanto consciência precisa ser preservada mas sem atentar contra o cavalo.

Se somos cristãos, podemos viajar lucidamente através dos hinos e orações que nos toquem emocionalmente. Se somos músicos, podemos fazê-lo com canções. Se estamos apaixonados, podemos nos perder conscientemente na lembrança do ser amado.

Por este caminho, a alma é arrebatada até a vastidão das alturas, dos céus, das estrelas, das montanhas, das planícies, dos vales e dos mares interiores.

Mas, durante os afazeres diários, temos que exercitar a lucidez focando a observação na realidade concreta daquilo que estamos fazendo aqui e agora, visando conhecer a nós mesmos.

Se não soubermos descobrir a nós mesmos a cada instante, permitindo que o novo se expresse, seremos incapazes de cavalgar quando nos acomodarmos para deixar temporariamente este mundo e viajar para outros modos de existência. Há vários planos de consciência ou estados de ser, sentir e atuar. O modo vígil não é o único real.

É importante permitir que o corpo adormeça se quisermos viajar. A resistência contra o sono sabota a viagem. Devemos nos aliar conscientemente ao sono, permitindo que venha e se instale sem que percamos a consciência.

De modo que a lucidez nunca deve ser perdida, nem mesmo quando estamos dançando em uma fogueira que nos apaixona. Necessitamos preservar a consciência durante a vigília e durante o sono.

 

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