Capricho 10/08/2003
Reportagem: Ricardo Alexandre

"Bermudões, tattoos, guitarras barulhentas e muita "atitude". A receita do sucesso de Chorão dá o tom na nova geração do rock brasileiro, que põe no molho letras melosas. Resta saber até onde esse rock pode chegar
Enquanto você lê este texto, o Charlie Brown Jr. começa a pós-produção de seu Acústico MTV, previsto para sair em setembro. O que vem depois você já imagina: quem faz disco desplugado vende adoidado (o acústico do Titãs vendeu 1,5 milhão de cópias; e o do capital inicial, 1 milhão), toca no rádio o dia inteiro e vira curtição também para quem gosta de um som mais calminho. O Charlie Brown, que já é um dos maiores grupos de rock do Brasil, com 1,5 milhão de discos vendidos em seis anos, deve alcançar muito mais projeção.
Ou seja: se o Acústico do CBJr realmente tocar "na AM, na FM e no elevador", o impasse que a banda vive - preservar as origens ou ser popular - será ainda maior. Lançada como uma banda "raivosa", para um público "macho", de skatistas e afins, o cenário mudou um pouco nestes anos. Boa parte dos compradores de Bocas Ordinárias, seu último CD, é de meninas com aparelho nos dentes, que escrevem para as redações pedindo reportagens para saber mais sobre a vida pessoal de Chorão e companhia - assunto que eles odeiam abordar, porque não interessaria ao seu público original. "Seria bom para todo o rock brasileiro que eles encarassem o desafio de ser popular nessa outra escala", diz Rick Bonadio, o descobridor da banda. "Isso só não aconteceu ainda porque o Chorão tem muitos conflitos e vive se importando com o que os outros vão pensar dele."
Se o CBJr "encarar o desafio", como diz Bonadio, a tendência é ele dar uma força às bandas que fazem um som na mesma linha. Por outro lado, se o medo que Chorão tem de ser acusado de "vendido" fizer sentido, então a banda perderá seu público atual - e não é pouca gente. Aí esses fãs órfãos procurarão música nova para curtir, de preferência parecida com a do Charlie Brown, de quem eles gostavam. E não faltarão ofertas.
Há toda uma nova geração do rock brasileiro com visual streetwear e muita "atitude" surgida na esteira da banda de Chorão. E hoje, seis anos depois de O Coro Vai Comê, muitas delas já rivalizam com a banda de Santos em popularidade. Falar de relacionamentos e passar mensagens boas é uma das marcas da nova geração do rock "Esta geração começou a aparecer para o grande público no ano 2000, com o sucesso do CPM 22", lembra Tico Santa Cruz, vocalista e letrista do Detonautas, integrante desta leva junto com o CPM 22, a baiana Pitty e o Tihuana, entre outros que estão bem na foto. Esses artistas são razoavelmente diferentes, mas têm uma coisa em comum: desprezam, de propósito, a mistura inusitada de sons. Fazem rock - só isso, e com o maior orgulho. "Nos anos 90 havia a idéia de misturar o rock com gêneros regionais, mas nossa turma é mais influenciada pelo rock americano, hardcore, new metal. Queremos buscar um padrão internacional, tocar e passar uma mensagem boa", continua Tico.
As "mensagens boas" são outra característica desta geração. Sai o "eu vou fazer de um jeito que ela não vai esquecer", de Papo Reto, do Charlie Brown Jr., e entra o "sorte de nós dois, quero te fazer feliz", de Olhos Certos, do Detonautas. É o efeito CPM 22. "Quando o CPM 22 apareceu, o rock estava machista, só coisa de homem, não podia falar de amor", diz Rick Bonadio, também descobridor desse grupo. "Eles chegaram falando coisas melosas e ainda por cima mandando um som hardcore pesadão, na maior sinceridade."
Badauí, vocalista do CPM 22, conta que as letras sentimentais surgiram naturalmente, mas hoje são ponto de honra do grupo. "Usar o microfone para dizer coisas negativas atrai coisas negativas para você mesmo", diz. "A gente ouvia muito rock brasileiro dos anos 80, que falava de relacionamentos, e sentia falta disso. Acabou virando nossa identidade."
Muita gente critica esta nova geração dizendo que ninguém mostrou nada muito diferente da música que o Charlie Brown consagrou. Rodolfo Abrantes já fazia rock viril antes do Chorão, quando cantava nos Raimundos. Hoje, no Rodox, faz reservas: "Quando os Raimundos surgiram, havia muitas bandas diferentes aparecendo ao mesmo tempo, como Planet Hemp, Nação Zumbi. A maioria vinha do circuito independente, não havia a imposição de uma fórmula. Hoje, tudo parece produto de uma mesma fábrica".
alexandre hovoruski, coordenador da rede de rádios-rock encabeçada pela 89FM, de São Paulo, concorda. "Estamos bem de bandas de hardcore", diz. "Faltam bandas que, mesmo com atitude rock, sejam mais melódicas e populares. Mas para fazer um coldplay, um radiohead brasileiro, o cara tem de cantar bem, ter qualidade de som. Quem mais se aproxima disso é o skank ou as bandas dos anos 80. A maior parte dos grupos novos valoriza o som tosco." hovoruski cita os paulistas do PB e os cariocas do Crase como grupos independentes que estão "quase lá". Falta achar o caminho do grande público - que as bandas com "atitude" já conhecem.

Equação sonora
Praticamente todas as novas bandas de rock brasileiras que você ouve no rádio partem da receita inaugurada pelo Charlie Brown Jr: visual x-large, tatuagens, pose de malaco e guitarras "na cara". Use da boa e velha matemática para conhecê-las:

CPM 22: CBJr - suingue e influências hip-hop + hardcore melódico anos 80 tipo Bad Religion + letras sobre relacionamento

Detonautas: CBJr + rock brasileiro anos 80 + letras sobre relacionamento

Houdini: CBJr - suingue e influências hip-hop + hardcore melódico anos 90 tipo Green Day

O Surto: CBJr + pitadas de influências nordestinas

Tihuana: CBJr + percussões latinas + hard rock + vocais tipo Rage Against the Machine

Pitty: CBJr - letras machistas + new metal tipo Linkin Park + uma garota no vocal

Dicas do Dr. Banda

Rick Bonadio, 34 anos, era diretor artístico da gravadora Virgin, na qual estabeleceu este padrão de rock. Ao criar uma banda, Rick orienta desde o som até o visual e a relação com a imprensa. Foi assim com um grupo de heavy metal santista até ele se tornar uma usina de hits skate-punk-ska-rap, o Charlie Brown Jr. Hoje, à frente do selo Arsenal, Rick é o único que investe em novos talentos. Se isso significa que todas as bandas saiam com sua marca, paciência. Veja o que ele leva em conta para lançar uma:

O NICHO: "As bandas têm de nascer boas para o seu público e os outros devem aprender a gostar dela. Não se deve nascer falando para todo mundo."

COERÊNCIA: "O rock não tem obrigação de ser coerente, mas uma música tem de trazer uma emoção com a qual o público se identifique. Quando as bandas amadurecem, buscam essa maldita coerência e perdem o contato com a molecada."

ATITUDE: "Ter atitude é ter uma postura. Se ninguém é coerente, pra que fingir? Ninguém está no rock para mandar mensagem."

PRETENSÃO: "Música hoje é só um entretenimento a mais, compete com a internet."