Acompanhe abaixo toda a matéria que saiu no mês passado na revista Comando Rock n#2.

CHARLIE BROWN JR

Chorão, Sem Papas Na Língua, Dispara
"O Sucesso Acabou Com Algumas Bandas"
"Tivemos Receio de Gravar o Acústico MTV"
"Dou Trabalho, Mas Trago Grana Pra Gravadora"
"Quando Falam de Mim... Respondo na Lata"
"Fama e Dinheiro... Nada Apagou a Morte do Meu Pai"
"Pensei Realmente em Largar o Charlie Brown"

O grupo santista, que está lançando um CD com seus maiores sucessos em versão acústica, tornou-se - ao mesmo tempo - o grupo nacional de rock de maior vendagem nos últimos anos, uma "mania" entre os adolescentes e um conjunto que causa polêmica por onde passa
::Marcos Filippi

O Charlie Brown Jr. é o típico grupo que ou você ama ou você odeia. Não há meio termo. Seja pelo som seja pelas atitudes polêmicas do vocalista Chorão, que não pensa duas vezes em dizer o que sente. Mas, a verdade, é que o conjunto santista transformou-se nos últimos anos na banda de maior sucesso comercial do rock brasileiro. Seu último trabalho, Bocas Ordinárias (lançado em 2002), vendeu mais de 200 mil cópias em uma época em que a pirataria está acabando com o mercado fonográfico. Agora, o Charlie Brown Jr. coloca no mercado alguns de seus maiores sucessos com o DVD e CD Acústico MTV.
O álbum apresenta - além de hits como "Zóio de Lula", "O Coro Vai Comê!", "Tudo que Ela Gosta de Escutar", "Não É Sério", "Proibida Pra Mim" e muitos outros -, duas canções inéditas ("Vícios e Virtudes" e "Não Uso Sapato") e participações especiais de Negra Li (em "Não É Sério") e do grupo de rap RZO (em "A Banca"). Para completar, o grupo fez ótimas versões para "Hoje", do Camisa de Vênus, com a participação do cantor Marcelo Nova; "Samba Makossa" (de Chico Science), com a ajuda de Marcelo D2; e "Oba, Lá Vem Ela" (de Jorge Ben).
O Acústico MTV, gravado nos dias 5 e 6 de agosto deste ano, no Espaço Locall, em São Paulo, é lançado justamente quando o Charlie Brown vive um dos melhores momentos de sua carreira. Bocas Ordinárias, além da grande vendagem, fez com que os shows do grupo estivessem cada vez mais lotados. As canções deste álbum atingiram as primeiras posições nas paradas das rádios e os clipes das músicas "Papo Reto" e "Só Por Uma Noite" venceram, respectivamente, os prêmios de melhor vídeo do ano e melhor vídeos de rock no VMB 2003. Chorão acabou virando uma espécie de porta-voz da garatoda. Seu estilo rebelde e despojado, aliado às letras diretas da banda, fez com que os adolescentes se identificassem com o cantor. Tanto que foi chamado para estrelar o novo comercial da Coca-Cola, que está sendo exibido na tevê.
Mas, o outro lado da moeda também existe. O conjunto acabou "colecionando" alguns "inimigos" em certos momentos como os grupos CPM 22 e klb. Em outubro, Chorão foi acusado de ter agredido um jovem em uma loja de CDs em Santos. O vocalista teria se irritado com algumas declarações do garoto em relação ao Charlie Brown Jr.
Nesta entrevista exclusiva e esclarecedora, Chorão fala sobre o atual momento da banda, de como ocorreram as gravações do Acústico MTV, das encrencas que envolveram seu nome e de seu conjunto, seus projetos de fazer um filme B e abrir um selo, do sucesso e também afirma que pensou em acabar com o Charlie Brown Jr. alguns anos atrás depois da morte de seu pai.
Comando Rock: A MTV já havia convidado vocês há algum tempo para fazer o Acústico, mas vocês recusaram. No fim do show, você agradece a emissora por ter acreditado em vocês. Você não queria fazer este CD?
Chorão: Por sermos uma banda de rock que toca alto e pesado, tinha dúvidas se nossas músicas cairiam bem neste formato. Saíram as guitarras e entraram os violões. Apesar da gente começar a compor todas as canções neste instrumento e depois passá-las para a guitarra, é complicado fazer novos arranjos e modificá-las novamente para o violão. Quando havíamos lançado nosso terceiro disco, Nadando Com Os Tubarões (2000), tínhamos sido convidados para fazer este trabalho e recusamos. Não era hora. Além disso, Bocas Ordinárias estava vendendo muito bem, os shows estavam lotados e os disco ainda tinha uma vida de alguns bons meses. Normalmente, um grupo lança o CD acústico quando está meio esquecido ou então não está vendendo nada. Não era nosso caso. Mesmo assim, apostamos no projeto acredito que o Acústico ficou duca... Tivemos liberdade de escolher como o CD iria sair. Não queríamos orquestra ou arranjos de cordas ou naipe de metais. Queríamos manter nossa veia rock. Fomos o primeiro grupo da nossa geração que deu a cara para bater e fazer um acústico para a MTV.

O Charlie Brown é uma banda com vários hits. Como foi a escolha do repertório deste álbum?
Pegamos nossos cinco CDs e vimos que tínhamos muitas canções de sucesso. Resolvemos pegar algumas que não tinham sido trabalhados nestes álbuns e que cairiam bem no formato acústico. Os maiores hits teriam de entrar. Chegamos a estas 20 faixas que estão no CD. Levamos quase três meses para ensaiar e mudar nossas canções para este formato.

Queria que você falasse das músicas inéditas ("Vícios e Virtudes" e "Não Uso Sapato") e das participações.
As inéditas foram compostas para este CD mesmo. As duas músicas seguem nosso estilo. "Vícios e Virtudes" é a história do vício que conheceu e "comeu" a virtude (risos). "Não Uso Sapato" é direto. Fala "eu não sei fazer poesia, mas que se f.../ eu odeio gente chique, mas que se f...". Os convidados eram nossos amigos ou então eram homenagens. Camisa de Vênus é f... Chamamos o Marcelo Nova para prestar uma homenagem ao "reverendo". O D2 é brother das antigas. Abrimos o show do Planet Hemp quando tínhamos apenas uma demo. A galera do RZO e a Negra Li sempre estão com a gente. Acho que formamos os "xingalistas" e não os Tribalistas (risos).

Como foi participar da propaganda da Coca?
O mais legal é que gravamos o comercial como se estivéssemos em um show. Era ao vivo. Nada de playback. O eminem faz propaganda, a madonna faz. Por que eu não faria? Eu não fumo, então não faria um comercial do minister, por exemplo. Mas eu bebo Coca-Cola pra c... De cerveja eu faria também. Mas tinha de ser cerveja light. O pessoal do marketing nunca pensou em colocar um gordão como eu bebendo cerveja. Ia ser demais. Gostei de fazer o da Coca. Aliás, bem melhor do que o da Marabrás... (risos).

O Charlie Brown é um conjunto que é muito copiado por outras bandas. Isso te incomoda?
De jeito nenhum. Não tem um monte de gente copiando Bad Religion? É bom ter bandas que façam nosso tipo de som para que a cena cresça.

Você compões tanto músicas que falam de amor quando de questões sociais. O que é mais difícil?
Com certeza escrever sobre amor. É difícil falar disso sem ser piegas. Falar de problemas sociais é fácil. É só você ligar a tevê ou abrir um jornal e tudo está lá. O mais complicado é escrever uma crítica social com ironia como é o caso do "Rubão".

Você é um cara polêmico. Como é trabalhar em uma gravadora multinacional que exige metas?
Eu sou um cara que dá trabalho para eles, mas também dou grana. Têm coisas que faço porque quero e têm outras que faço porque tenho que fazer. A gravadora pensa em ganhar dinheiro. É normal. Faz parte do business do rock and roll.

O Charlie Brown é uma banda que é amada por muitos e odiada por outros. Como é que você vê isso?
Ninguém gosta de ouvir algumas verdades que machucam. Eu levo a vida na sinceridade. Eu falo aquilo que penso e quero. E isso acaba aborrecendo muita gente. Mas eu não entro em festa que não sou convidado. Eles que entram no meu show e na minha vida. Quando falam de mim, respondo aquilo que penso deles.

Vocês tiveram problemas com o klb e CPM 22. O que aconteceu?
Algumas bandas se dão bem... Outras não. Aquelas que ganharam uma expressão e depois perdem a fama acabam falando muita m... Eu não quero encrenca com ninguém. Mas bola que bate na parede volta. Falou, eu respondo. O cara do CPM 22 disse que éramos uma banda ultrapassada. Eu não sei o que significa o Charlie Brown Jr. para ele. Eu sei que significa para mim e para mais de 2 milhões de pessoas que compraram nossos CDs.

Antes de vocês gravarem o 100% Charlie Brown Jr. (2001), você passou por um momento complicado que foi a morte de seu pai. Existiu um boato de que você estava pensando em desistir e acabar com o Charlie Brown. É verdade?
Tinha sucesso, fama e dinheiro. Mas tudo isso não conseguiu apagar a tristeza que estava sentindo pela morte do meu pai. Não saía de casa, engordei 30 quilos e quase não fiz nada no CD 100% Charlie Brown. A banda teve muita paciência comigo, isso fez com que ficássemos mais unidos e voltássemos com toda energia. Pensei realmente em largar tudo e ser entregador de pizza na "gringa". Não tinha mais ânimo para nada. Para trabalhar, para pensar na banda. Pensava: "f... tudo". Tudo era uma m. para mim. A ligação que eu tinha com o pessoal sobre isso. Que não tinha mais forças para cantar no Charlie Brown. Fiquei seis meses parado. Pensando na vida. Quando voltei à vida, ainda estava "morto" por dentro. Por isso o Nadando Com Os Tubarões é o disco mais nervoso da nossa carreira.

Você tem medo de que o sucesso da banda possa fazer com que a amizade entre vocês acabe como aconteceu com muitos grupos?
Com certeza o sucesso atrapalha a cabeça de muita gente. Quando você começa a aparecer na mídia, o assédio dos fãs fica maior, começa a entrar grana... tudo isso pode atrapalhar uma pessoa. Não acho que isso afete a gente. Já somos famosos e temos sucesso. Éramos amigos antes mesmo de mostrarmos o Charlie. E o momento que passei ajudou a mostrar quem são meus amigos. A morte do meu pai fez que eu mudasse minha cabeça.

Você está com um projeto de abrir um selo e lançar um filme. Fale sobre isso.
Vou montar meu selo no ano que vem. Quero lançar o CD da banda Carnal Desire, do meu amigo Tarso Wiedark. Ele é de Santos. O cara é gordo, feio e, para piorar, é policial (risos). Vou lançar para dar uma força, não para vender discos. O filme é uma produção independente, um filme B. Fiz o roteiro e vou co-produzir. Será de um produtor picareta. A gente aparece na trama como nós mesmo, como Charlie Brown Jr. Vamos pegar dois ou três atores conhecidos e o resto é só molecada mesmo. Vou começar a filmar depois do Carnaval. O orçamento para este longa-metragem é bem baixo. Vamos fazer meio que na raça mesmo. Não esperem encontrar um Cidade de Deus ou algo parecido quando vocês forem ao cinema (risos).

Charlie Brown Jr. - Acústico MTV / EMI
Nada de metais, orquestras, muitos convidados, cenário rico. Tudo simples e direto. Como é o Charlie Brown Jr. O acústico que a banda fez é quase elétrico. Chorão não pára quieto. Aliás, é o primeiro vocalista que grava este formato e não senta em nenhum momento. Os grandes sucessos estão lá. Aquelas músicas que não tocaram nas rádios também. "Hoje", do Camisa de Vênus, ficou sensacional na visão punk do grupo santista. Músicas inéditas bvem feitas que, futuramente, podem virar faixas de CD "The Best Of". Atitude. Energia. Um show acústico desplugado/plugado. São 20 faixas que não cansam. Vinte músicas que não deixam o CD ficar monótono. Um disco vivo de uma banda que está muito viva. Um álbum que não servirá para levantar a banda, pois ela já está quase no topo. Rock de verdade. Rock de respeito. Rock de grupo maduro. Todos Acústico Mtv deveriam ser assim. Pena que nem sempre são. (M.F.)"