Entrevista: MTV nº5
Junho de 2001


“EU SOU UM SOBREVIVENTE”

A entrevista com Alexandre Abrão, o CHORÃO, rolou dentro
da Van da MTV, na Via Anchieta, estrada que liga São
Paulo à Santos. Ele havia chegado do Rio e demos uma
carona até seu apartamento no Canal 3 (lugar de bacana
em Santos), onde pudemos conhecer o Chorão DJ. O cara tá
remixando tudo! Ele falou sobre o jovem brasileiro, que
não é levado a sério, música e mandou bala nas
injustiças sociais e na política. E, justiça seja feita,
no trajeto de 1 hora e meia sentimos porque ele é o
líder de uma das maiores bandas do Brasil:
CHARLIE BROWN JR!!!!

“Você ligar o rádio e ouvir sua música é de chorar”
“Eu sou quem eu sou e vou continuar sendo”
“Eu nem saio muito na rua pra não dar mau exemplo”
Cara feia “Afasta, o sorriso aproxima, cê tá ligado?”
“Os valores estão prontos para serem mudados”

Para ler ouvindo As Curvas da Estrada de Santos, do
Roberto Carlos *

MTV E aí, o que você tá achando da revista MTV?
Pô, acho bem legal, acompanha bem a proposta da MTV, uma
proposta aberta. Ampla, democrática. Acho a diagramação
super moderna. É legal você ver uma parada dessas, que
você não vê em nenhum outro lugar.

MTV Até que ponto suas novas buscas vão influenciar na
sua carreira e na banda?
Vão influenciar um pouco, mas o que eu pretendo é
voltar muito ao rock’n’roll no próximo disco. Que é como
a gente começou.

MTV A discotecagem já é fruto dessa pesquisa que você
anda fazendo?
Com certeza, mas também é um pouco de tudo que eu já
gostava antes. Nessa de mixagem eu vou tentar misturar
Emerson Lake and Palmer com Roni Size. Coisas totalmente
antigas, com coisas mais novas. E tentar dar uma cara
ainda mais nova pro lance. O conhecimento musical é
infinito, você vai estar sempre escutando e aprendendo
coisas e aquilo pode te influenciar ou não.

MTV A sua carreira já está consolidada?
Eu acho que três discos bem sucedidos já denota isso.
Acho que a gente tá bem. Temos um público, saímos com
100.000 discos vendidos. Em termos de rock. Isso é pra
caralho! O rock sempre vai ser marginal. Por mais que
ele esteja na televisão. Eu apareço na MTV, mas apareço
na Xuxa também. Mas não deixo de ser quem eu sou e nem
de acreditar nas coisas que eu sempre acreditei. Eu sou
quem eu sou e vou continuar sendo. Acredito que hoje a
gente já tenha nosso espaço consolidado. E temos sorte
porque damos show pra muita gente. Nos últimos anos,
fizemos os principais festivais. Desses grandões a gente
só não fez o Rock in Rio.

MTV E como foi essa história de vocês não fazerem o Rock
in Rio?
Não rolou. O festival perdeu e a galera também perdeu.
Mas este Rock in Rio poderia Ter sido mais legal se
tratassem os gringos como é de praze e tratassem os
brasileiros também superbem, com uma hora legal para
passar o som, hora para tocar, soundcheck... Pô, a
gente reivindicou coisas básicas. Pra mim não fez
diferença não termos tocado. Foi O Surto lá, tocou uma
música minha e pessoas da organização me disseram que a
música mais cantada do festival foi Tudo Que Ela Gosta
de Escutar. Eu estive no último dia, sem estar. Não é
porque eu não toquei no festival que eu sou inimigo de
alguem lá.

MTV Tem bandas consideradas como “estilo Charlie Brown”,
como você vê tudo isso?
As doenças proliferam. Hoje existe Chororréia, Charlie
Brownrréia, e alguns vírus pegam... Os caras do
Ostheobaldo tocam há tempos, eles têm disco lançado
antes do Charlie Brown. Eu tenho respeito total por
todos, até pelo Falamansa, tá ligado? Quem tá
trabalhando merece respeito, até por estar trabalhando.
Acho que eles foram beber em algumas fontes que eu já
bebe muito ao longo da minha vida. Mesmo se pensasse
alguma coisa, não ia passar esse recibo.

MTV Mas o Charlie Brown é uma influência hoje.
Sim, mas como o Planet é... como Raimundos é, como
Nação Zumbi é. Se você for ver, depois do Nação, nasceu
o Sheik Tosado, que é uma coisa que não é igual, mas é a
mesma linha, de Mangue Beat, aquela coisa. Tão tentando
arrancar isso de mim faz tempo. Que eu odeio Tihuana, O
Surto... Não é por aí, tá ligado? Rola o maior respeito.

MTV O que mudou para o Charlie Brown depois desse último
CD?
Esse último disco vendeu no começo 100.000 cópias,
depois, ao longo de quatro meses, vendeu mais 50.000...
Mas não estávamos preocupados com a venda desse CD, Com
ele, percebemos um prestígio que não tínhamos antes.
Hoje eu tô numa festa e chega um cara, tipo o Lenine, e
fala: “Moleque, tá do caralho!”, chega o Caetano e
fala: “Cara. Você é foda!” Daí eu trombo o Luiz
Melodia, que é um cara que eu acho demais, e ouço que é
um sonho dele a gente gravar junto. Então, realmente,
acho que estamos amadurecendo e as pessoas estão se
ligando nisso. Estamos conseguindo juntar todas as
coisas que vivenciamos, com um quê de bom gosto que
juntamos em três anos de estrada.

MTV Então, vocês já estão maduros?
Maduro é jaca que cai do pé! Hoje, nós temos condições
de fazer um trabalho sério, voltado para aquelas pessoas
que queremos falar, que são as menos favorecidas – que é
uma classe que eu ainda me incluo. Falamos que pobre é
uma merda, né? Rico também é. Rico é metido, não passou
por porra nenhuma, ganhou carro, foi pra Disney tantas
vezes e mal dá valor para as coisas. O pai do neguinho
paga faculdade e ele vai lá pra fumar maconha e ver a
menininhas. Eu prefiro a moral com a galera certa, do
que vender 1 milhão de discos. Eu me emociono com o meu
trabalho. Tocar nas rádios é do caralho! Você ligar o
rádio e ouvir a sua música é de chorar. É um tesão, a
pica vai lá na frente, lá em Santos.

MTV Não dá mais pra fazer as coisas sem tesão...
Ainda mais pela quantidade de opções de hoje. O jovem
tá muito rápido, a globalização... É um verdadeiro
pomar, com várias frutas. A galera faz com que a gente
tenha muito orgulho do que temos. Eles mostram que temos
um negócio digno, que não é só lucrativo, tá entendendo?

MTV E violência combina com a sua música?
Violência sempre vai Ter em qualquer lugar que tiver
desigualdade, sempre vai ter neguinho irado. Aqui no
Brasil a desigualdade está cada vez maior. Cada vez o
povo tem menos poder, menos grana, menos opções. O povo
tá meio largado, a gente paga imposto pra caramba e não
tem nada de volta, cara. Pra rodar numa estrada tem que
pagar, pra morar numa casa tem que pagar imposto disso,
imposto daquilo... imposto do bagulho e tal. Por mais
que você consiga ter uma coisa tua, você vai ter que
pagar imposto pra caralho.

MTV E nem luz eles te dão em troca....
Exatamente... Mas, agora, eu acho que tá caindo a
máscara. Neguinho tá tapando o sol com a peneira há
muito tempo. É o cobre aqui, destapa ali. Se você for
levar isso a sério, você não consegue ser feliz. No
Brasil você se sente culpado por ter as coisas. Você se
sente mal por ter uma carro legal. As pessoas te olham
como se você fosse sublinhado. Essa falta de auto-estima
que o jovem tem é gerada pela falta de perspectiva de
melhor qualidade de vida.

MTV A sua música que fala que o jovem não é levado a
sério trata bem disso.
Isso mesmo, porque sempre tem políticos com propostas
jovens, que são eleitos e não fazem nada. O Turco Loco é
um deles. O cara prometeu 25 pistas de sk8 e não
aconteceu nada. Ele tem dinheiro pra, pelo menos, Ter
feito uma do bolso dele. Eu não votei no cara e não
votaria. Eu não acredito em político. Mesmo que seja
político da moçada. Porque a moçada tá na merda, tá
ligado? E vai continuar se a moçada não se ligar que tem
que se unir, se mobilizar, para mudar as coisas.

MTV Falta ambição pro jovem?
Falta. Não a ganância, mas a ambição, a auto-estima. Se
a galera mudar o conceito, o modo como vê as coisas, vai
crescer, brother, vai crescer porque uma coisa puxa a
outra. Eu sou um cara ambicioso, mas sou um cara do bem.
Eu nunca vou dar uma bolada nas costas de ninguém, pra
me dar bem.

MTV E drogas?
Droga é assim, você tem que ter uma média: nem mais nem
menos. Eu já me fodi muito por causa de drogas, já
apanhei muito da polícia. Hoje não posso dizer que a
maconha me inspira, tá ligado? Eu não posso dizer nada,
só dizer que um dia eu achei que foi bom, mas hoje eu
vejo que aquilo foi muito ruim em algumas épocas da
minha vida. É a experiência de cada um. Mas droga, botou
na boca, meu amigo, fodeu! As drogas são nocivas, todas
elas, o cigarro, a bebida, a maconha, a cocaína, o
ecstasy... Tudo que te tira da sua sã consciência, que
te alucina, não é legal, você pode achar que é legal,
mas não é legal, tá ligado?

MTV O que te inspira hoje?
Eu fico superinspirado quando tô fodido de grana. Daí,
eu cato o violão e faço música. O que me dá inspiração
hoje? É olhar pra trás e ver tudo que eu já percorri e
tudo que eu ainda quero fazer e posso. Eu falo que o
jovem não é levado a sério porque eu já fui um deles. Eu
sou um sobrevivente. O amor que tenho pelas minhas
pessoas e pelo meu trabalho. Isso é tudo!


MTV O seu discurso combina muito com a sua música...
A minha música é a minha cara. O meu primeiro disco,
tem umas músicas que foram taxadas de machistas, meio
babaquinhas, mas foi o meu surto adolescente. Eu gravei
com 25 anos e desde os 15 vivi essa balada da noite e
mulher, da filha de bacana que me adora, mas o bacana me
odeia. Ele ri de mim, mas eu rio dele, tá ligado? Mas
esse surto adolescente foi do caralho, foi o meu
primeiro grande trabalho, um marco, a virada que eu dei
na minha vida. Eu dei muita sorte.

MTV Você se acha um líder?
Um pouco. Querendo ou não, eu tenho que ser o líder. Os
caras já estão acostumados. Mas eu tô procurando ser um
bom líder. A galera anda com as próprias pernas, mas o
leme tá na minha mão. Um erro meu pode prejudicar a
minha banda, assim como um acerto pode colocar a gente
numa situação bem legal. O líder bom é o que sabe
levantar a moral dos caras. Eu cantei, porque não sabia
tocar guitarra. Eu sou descolado na parada, escuto muita
música, de todos os tipos que você possa imaginar, desde
Trio Los Panchos até Dead Kennedys.

MTV E o que tá pegando hoje em dia?
Ah, música eu considero música. Tudo que soa melódico
pra mim é música. Dentro da música, tem o rock que é uma
puta. Rock é promiscuo, rebelde, constatador por
natureza. O dia que isso morrer dentro do rock, morreu o
rock. Cada tipo de música tem seu espírito, seu
conceito. Eu nem posso falar do que tá rolando hoje,
porque eu gosto de tudo. Gosto de Zeca Pagodinho,
Bezerra da Silva. Gosto de Dudu Nobre e gosto também de
Garage Fuzz, pin Ups. A música certa pra mim é aquela do
momento.

MTV E essa galera que não se permite gostar de vários
estilos de música?
Eu acho isso babaquice. Gostar de várias coisas é o
futuro. O futuro é a mixagem. As pessoas têm que perder
o preconceito contra elas próprias. Quer ver? Chega um
amigo meu em casa e vê um disco do Caetano e tira a
maior onda. “Ô mano, dá a mão para o D2 e sai andando.”
As pessoas que criam tem que ter a mente aberta.

MTV Ainda mais nesta nossa época.
O lado bom da globalização é que todo mundo tem a
informação, o que diferencia é o uso que as pessoas
fazem dela. Como as pessoas que nascem na favela e
sofrem total descaso das autoridades, crianças que não
têm uma vida normal com carinho, amor... Como elas não
vão absorver a violência que tá em volta? É só isso que
elas têm! O Carlinhos Brown mudou o gueto dele. Se ele
sozinho fez isso, imagina o que o governo pode fazer. É
só parar de roubar. É, o jovem, aqui, não é levado a
sério.