Entrevista cedida por Chorão sobre violência Urbana
21/07/2002 Titulo: EU ME SINTO UM REFÉM
Dirigindo em São Paulo, Chorão rola no CD player do carrão uma gravação de estúdio tosca com sons do próximo disco do Charlie Brown Jr."Essa aqui se chama Cidadão comum refém , vai entrar no disco da gente um trecho vai par o disco novo do MV Bill", conta, antes de começar a cantar uma rima pesada sobre base de guitarra destorcida: "Se o ódio dominar, não vai sobrar ninguém, o mal que você faz reflete em mim também". E completa: " É assim que eu me sinto, ta ligado? Um refém?
MTV- Qual a origem da musica cidadão comum refém?
CHORÃO - Minha mulher, Graziela, e eu estávamos assistindo um jornal na TV e rolou uma seqüência de três ou quatro noticias de seqüestro, duas de corrupção, sei lá quantas de assassinato, e a gente começou a conversar sobre isso. No Brasil parece que o pobre não pode ganhar dinheiro porque, se ele ganha, o governo fica em cima ou alguém arma alguma coisa pra puxar o tapete, ta ligado? E as pessoas que tem grana não podem ter as coisas porque ficam visadas, se tornam seqüestráveis, verdadeiros alvos. E ha tanta gente morrendo por tão pouco. Aí conversando chegamos a essa conclusão: somos todos cidadãos comuns reféns.
MTV - Você se sente mesmo um refém?
CHORÃO - Eu me sinto refém da miséria que oprime, que é gerada por outros, não fui eu que gerei a miséria.
MTV - Você se sente culpado por trabalhar e como conseqüência ganhar dinheiro?
CHORÃO - Não, cara, claro que não! Sou um cara que emprega gente e colabora pra que a miséria não aconteça. Meus shows movimentam varias pessoa que ganham dinheiro - o cara que trabalha na bilheteria, a pessoa que vende cachorro quente e cerveja lá fora. o segurança, o produtor, o cara do som, ta entendendo?
MTV - Como a miséria te oprime?
CHORÃO - Tipo você para no farol e é abordado pela industria da miséria. Se você não da um real muitas vezes é tratado com hostilidade. E se dá, de repente pode estar contribuindo pra neguinho cheirar cola, fumar crack. Se houvesse certeza que dar um real resolveria o problema do Brasil, todo mundo sacaria dinheiro do bolso e daria. Então acabo também me sentindo oprimido pela desconfiança que tenho do mundo, ta ligado? A gente é refém da ma distribuição e ma utilização do dinheiro publico, da ma conduta de todo mundo, da ganância, do descaso, do medo, da impressão que se tem de que não se pode ganhar dinheiro no Brasil.
MTV - Você tem medo da violência?
CHORÃO - Tenho medo da violência, sim, e tenho mais medo da violência covarde, aquela que você sofre sem poder fazer nada, sem poder se defender ou reagir de alguma forma .
MTV - Você anda na rua tenso, olhando para os lados?
CHORÃO - Não, ando tranqüilo, ta ligado?, nunca presenciei um ato de violência, graças a Deus. Mas perdi muitos amigos que sofreram violência. Perdi um amigo ha pouco tempo. Confundiram o cara com um nóinha que tava devendo pra um traficante e mandaram sete tiros no moleque. Ele morreu por nada, não tinha nada haver com a parada. Quando ocorre com alguém próximo, você vê que a violência é real e impera, que a Gerra civil existe.
MTV- Você teme mais a violência hoje, depois de ter se tornado um cara bem-sucedido?
CHORÃO - No rock não se ganha tanto dinheiro como se supõe. As pessoas acham que por aparecer na tv ou no Radio você tem muito dinheiro. Com seis anos de Charlie Brown, cada um da banda conseguiu comprar um apartamento e um carro, ta ligado? A gente vive bem e faz o que gosta
MTV- Mas mudou alguma coisa? Quer dizer, hoje você mora melhor, seu carro é melhor que o que você tinha antes...
CHORÃO - Antes nunca tive carro. Posso ser supostamente mais um alvo, mas a violência esta em todos os níveis, não só restrita ao pobre ou ao rico, hoje ela virou tipo uma cultura, neguinho tende a ser violento em certas situações, as coisas estão indo cada vez mais levando ao Caos.
MTV- Como você reage a violência?
CHORÃO- A violência me faz valorizar coisas básicas e entender que elas são o que realmente importa. A sua saúde, a sua liberdade, o direito de ir e vir, ta ligado? A sua capacidade de pensar, de refletir, de aprender, de escutar, de enxergar, de falar, de protestar. A violência me toca de uma forma que sempre digo: "Graças a Deus que estou aqui, embaixo do meu lençol, assistindo a minha tevezinha, tranqüilo, sabendo que as pessoas que eu gosto estão seguras". Agora, se alguém tiver na febre de te caçar mesmo, não vai ser um carro blindado ou uma cerca eletrificada que vão impedir. Você tem que orar, ter fé, porque a fé não costuma falhar, ta ligado?