1 ACUSTICO DA GERAÇÃO 90
fonte : Site Oficial
Principal banda de rock do Brasil, Charlie Brown Jr. impõe sua marca forte ao projeto da MTV.
Terça-feira, 16/9, Shopping Jardim Sul, Morumbi, 13h. Lá fora,
a capital paulista mantém seus indefectíveis céu cinza
e trânsito caótico. No hall do complexo multiplex da UCI, 20 fãs
- sorteados numa promoção de uma emissora FM - recebem camisetas
e não escondem o prazer de assistir, junto com sua banda favorita, Charlie
Brown Jr., a primeira exibição do Acústico MTV da mesma.
Chorão, Champignon, Marcão e Pelado chegam e causam frisson ao
entrar na sala digital do complexo. Sobretudo o vocalista, compositor e líder
Chorão, o mais influente artista do rock nacional atual. Cercado por
várias garotas, ele só demonstra impaciência ao recusar
o pedido de uma delas para autografar uma calcinha. Sim, uma calcinha! "Porra,
isso é rock, não é show de Wando", diz. Começa
a exibição do programa, que foi gravado nos dias 5 e 6 de agosto,
no Espaço Locall, em São Paulo, e vai ao ar dia 26, 22h, simultaneamente
ao lançamento do CD (cem mil cópias vendidas antecipadamente)
e do DVD homônimos, pela EMI (gravadora do Charlie Brown Jr. d esde a
estréia da banda santista, em 1997, com Transpiração contínua
prolongada). Os fãs gritam aos primeiros acordes. Na sexta música,
um ótimo cover de Hoje (Camisa de Vênus), com participação
especial de Marcelo Nova dançando como Elvis, com a imagem do Rei no
seu estiloso violão e reverenciado por Chorão ("Porra, acho
que sou filho bastardo desse homem. Somos os Xingalistas!"), já
está evidente que o CBJR conseguiu a proeza de subverter o formato asséptico
da maioria dos programas acústicos. Acústico furioso - Com o reforço
do produtor Tadeu Patola no violão, o grupo conserva a pegada skate-punk
que o tornou famoso. A guitarra distorcida cede espaço para dois violões
e as harmonias, simples, ressaltam as letras incisivas, imperfeitas ("Eu
não sei fazer poesia, mas que se foda! - diz em Não uso sapato)
e que, mais importante, transmitem sinceridade e sintonia com as ruas e os adolescentes.
A iluminação sombria e indireta, com feixes de luz vindos do teto
do cenário, que estiliza uma catedral gótica, o vocal (uma mistura
de rock e hip hop) e a movimentação frenética de Chorão
completam a saudável subversão. É, provavelmente, o primeiro
artista da história do Acústico MTV a não cantar sentado
em momento algum do programa. Pelo contrário, chega a ficar de pé
no banquinho. Equilibrando sucessos e canções pouco conhecidas,
o CBJ apresenta duas inéditas (a "romântica" Vícios
e virtudes e a irada Não uso sapato) e recebe outros convidados maneiros:
a rapper Negra Li em Não é sério, os homeboys do RZO (núcleo
de onde saiu Sabotage) em A banda (Ratatá é bicho solto) e o carioca
sangue bom Marcelo D2 em Samba makossa, releitura de Chico Science e Nação
Zumbi. Com os fãs saciados de ídolos, rock''n''roll, pipoca e
Coca-Cola, acaba a exibição do Acústico MTV Charlie Brown
Jr. São duas da tarde. Hora de os fãs serem convidados a deixar
a sala para o início da coletiva com os músicos. A maioria implora
para ficar mas, no final, se conforma. Abaixo, os melhores momentos de Chorão
na entrevista - entre eles, seus planos de criar um selo e a sua estréia
no cinema como roteirista e co-diretor, em 2004. ACÚSTICO MTV "Por
sermos uma banda de rock que usa muita distorção, não conseguia
imaginar como seria tocar de maneira diferente, se adaptar ao formato violão.
Na verdade, a MTV nos convida para gravar o Acústico desde o terceiro
disco (Nadando com os tubarões/2000), mas na época era cedo. Agora
já temos cinco discos, tocamos no Brasil todo, até em Portugal,
acabamos de ganhar os prêmios de audiência e melhor clipe de rock
no VMB. Difícil foi ensaiar para o Acústico em pleno meio da turnê
de Bocas ordinárias, que já vendeu 200 mil cópias".
GERAÇÃO 90 "Somos a primeira banda dos 90 a gravar o Acústico
MTV. É importante mas, ao mesmo tempo, não tínhamos nem
em quem mirar como exemplo de como ficou. O Rappa, Planet Hemp... Ninguém
fez o projeto. Lá fora este é um projeto que serve para as bandas
relerem seu repertório com outra sonoridade, como fizeram Nirvana, Pearl
Jam, Deftones, Jay-Z, etc. Aqui pegou esse estigma de que é algo para
revitalizar carreiras de artistas. Pode ser para as gravadoras, mas não
acredito que a MTV pense dessa forma". CONVIDADOS ESPECIAIS "Chamamos
pessoas que se adequassem ao repertório e com as quais temos alguma afinidade.
Não tem nenhum medalhão. Marcelo Nova, por exemplo, chamei mais
por mim mesmo. Foi um punk dos anos 80 e as músicas dele fizeram parte
da trilha sonora da minha adolescência. D2 é brother, a gente abriu
show do Planet Hemp em São Paulo. Já RZO e Negra Li estão
sempre ali, com a gente". SAMBA "Tem essa coisa de que eu não
gosto de samba, não gosto de pagodeiro. Nada a ver. Eu não gosto
é de pagode de corno. Gosto de Zeca Pagodinho. Não conheço
ninguém mais rock''n''roll de que Zeca Pagodinho (risos). Respeito o
Exaltasamba. Eles nos receberam bem quando chegamos na EMI. Já eram famosos
e poderiam nem dar a mínima para a gente, mas ajudaram a tornar o ambiente
legal". CLONES "Essa história de banda nova ser parecida com
quem já está estabelecido é normal. Me preocupa mais é
fazer o meu trabalho. É bom ver banda nova que se parece com o som que
o Charlie Brown faz. Nos EUA, surgiu o Bad Religion e depois um monte de banda
parecida, Green Day, Blink 182, Sum 41 etc. Quanto mais bandas de rock, melhor
para a cena, seja nacionalmente, seja na sua cidade. Tem muita gente que estuda
para tocar rock. Eu sou o cara mais porra-louca disso tudo. Sou skatista antes
de ser músico". VIDA E PROSPERIDADE "Sempre falei de tudo nas
minhas músicas. Na época de Rubão (2001), eu estava mais
duro. Eu tinha tomado uma chacoalhada da vida. Tinha minha grana, mulher, meu
filho, não morava mais na incerteza, tava ajudando meu pai e aí
vem a vida e diz: Ah, tá feliz, é? E perdi o meu pai. Depois Thiago
saiu da banda e a gente tinha que ficar explicando para as pessoas algo que
nunca ficamos sabendo o porquê. Essas coisas mexem com você. Depois
tem o caos cotidiano que influencia a vida da gente, do ser humano largado na
rua à guerra no Iraque. Chega uma hora em que é melhor fazer uma
música de amor classe A do que uma música sobre violência,
porque a violência da realidade já é maior do que tudo e
você já falou sobre o assunto várias vezes. E tem o cara
que olha para você e acha que você agora é sacana e trocou
de lado. Não vêem que você trabalhou muito para conseguir
ter alguma coisa. Cara, prosperidade não faz mal a ninguém".
SELO E CINEMA "Penso em fundar um selo no próximo ano só
para gravar um cara de Santos, o Tarso. PM, feio, banquelo, ele é uma
figuraça histórica da cena roqueira de lá. No cinema, fiz
o roteiro e vou co-dirigir um longa-metragem que vai misturar ficção,
música e cultura de rua. É a história de um produtor musical
muito louco. As negociações estão avançadas mas,
por enquanto, não posso adiantar nada sobre o diretor e os atores profissionais
que vão participar. O Charlie Brown vai fazer a trilha e aparecer tocando
no filme".