O cavaleiro do caos e das trevas
A crítica está sendo (quase) unânime em aclamar esta seqüência do ótimo “Batman Begins” (2004). “Cavaleiro das Trevas” vem colecionando recordes de bilheteria e as resenhas costumeiramente lhe imputam notas máximas, uma atrás da outra. Com louvor. E declarações de amor apaixonadas. Em qualquer parte, diga-se, basta dar uma corridinha pelos sites especializados. Um fenômeno em si, realmente. Elogiado a torto direito, o projeto merece amplamente cada adjetivo desferido, e além, o justo seria inventar outros deles para fazer jus aos diversos méritos inclassificáveis deste clássico moderno, só para ficar no mínimo das bajulações. Filme baluarte de um gênero em crescente amadurecimento, as benditas “adaptações de quadrinhos” ganharam nesta película o ponto alto de suas peripécias na Sétima Arte. Seja pelo respeito ao material original ou pela capacidade de remexê-la a tal ponto que foi criado algo novo. Fantasiosamente sombrio e realista. Numa "amálgama" virtuosa entre HQs e cinematografia, extraindo o máximo de ambos, sem se prender a nenhum deles. Inacreditavelmente, pra delírio dos fãs-críticos.
Quando Christopher Nolan (do excelente “Amnésia”) assumiu o manto de diretor, tendo que revitalizar uma série maculada pelos exageros nonsenses de Joel Schumacher (autor dos odiosos “Batman Eternamente” e “Batman e Robin”), as boas expectativas subiram ao nível da enorme desconfiança (natural) depois de tantos fracassos. Afinal, quatro longas (sendo os dois primeiros, comandados por Tim Burton) não tinham sido suficientes para segmentar o personagem no meio. Depois de reintroduzir o “homem morcego” nas telonas, com enorme competência, virando uma maré contrária a seu favor, Christopher agora completa o serviço - soltando todas as amarras que aprisionavam sua cria no passado - recolocando-a em direção ao futuro (elaborando um caminho a ser seguido daqui pra frente, exaustivamente). Induzindo uma evolução, sem melindre algum, deste "herói" para uma saga (policialesca) recheada de interessantes conceitos, resvalando na tórrida textualização sobre criminalidade, psicose e vigilantismo, tudo rediscutido de forma muito inteligente - e belamente exemplificado através do rico (singular) universo alegórico dos guardiões/arquiinimigos de Gotham City.
Aproveitando-se demais do generoso grupo de figuras icônicas, vide a trinca "combatentes da liberdade": Tenente/Comissário Gordon, Harvey Dent (conhecido alter-ego de "Duas-Caras") e Batman, representando respectivamente os poderes policiais, judiciários e o senso de justiça do Homem. A parceria oficiosa coleciona ações bem-sucedidas contra bandos de criminosos comuns, mas provocam (num efeito proporcionalmente contrário) uma resposta aterradora do crime organizado - certa psicótica ameaça - incontrolavelmente poderosa - que responde pelo lapidar nome de “Coringa”, o "senhor do caos" (como o próprio se autodenomina). Intalando total - literal - anarquia pelas ruas da cidade cativa. O belicoso megalomaníaco desafia os três (citados) poderes vigentes num ímpeto deliciosamente malévolo. Cada cordinha da trama é acionada pelo “palhaço”, sempre causando estragos por onde passa e roubando a cena de uma forma muito surpreendente - principalmente a cada reviravolta surpresa (e são inúmeras) na história retorcida (seguidamente) por sua doentia obsessão pela destruição generalizada.
A ascensão deste perigoso levante de mega-vilões psicopatas (sim, no plural!) se deve, em parte, aos inerentes efeitos psicológicos provocados pela dramática aparição (repentina) de Batman, simbolicamente abusando da "imagem justiceira" para modificar uma desesperada sociedade (já fragilizada). Contudo, este cruel (aka ensandecido) Coringa assusta - sobretudo - pelo absurdo domínio cênico de Heath Ledger, seu falecido interprete (lamentavelmente). O talentoso ator (cuja morte precoce chocou Hollywood) joga-se (soberbamente) em sua melhor atuação, totalmente absolvido pelos toques transloucados de um sujeito tão conturbado, algo que pode lhe render uma homenagem (póstuma) no Oscar da categoria. Merecidamente. Afinal, o trabalho de Ledger consegue ofuscar até a brilhante (só que cômica) composição de Jack Nicholson, até então, imortalizado pelo mesmo papel no longa-metragem de 1989.
Apelando para um conjunto dotado de temáticas fortes e criaturas lapidares, Nolan subverte algumas concessões ordinárias para poder arriscar-se - livremente - em ambientes totalmente verossímeis, extraindo no fim, uma linguagem adulta, de conteúdo consistente, encorpado, marcante. Capaz - inclusive - de nos afetar profundamente, como se fossemos vítimas desta violência - e de certa forma somos. Assistindo aos inebriantes eventos (hipnóticos) lá da sala escura, fica realmente difícil não transportá-los para nossa cruel realidade cotidiana, numa intercessão gritante entre o que ocorre visceralmente nestes dois lados (por vezes opostos). Ampliando a magnitude do golpe desferido pela obra e modificando nossa vida fora dela - algo simulado apenas quando os cidadãos de Gotham se deparam com o batsinal - iluminando os céus e modificando o horizonte noturno. Seja dentro ou fora das peças ficcionais.