Conto 3

 

Todas as noites, enquanto a escuridão envolvia o Castelo di Speranza, a pequena Condessa, Teresa , descia para tripudiar sobre o prisioneiro. Havia formalidade nessa visita, tão estilizada quanto os movimentos de algum sacerdote pagão celebrando algum ritual antigo diante do altar.
Primeiro, ela dispensava todos os criados, até mesmo o surdo-mudo Rondo, que lhe obedecia como um cão treinado. Depois, a cada noite, machucando outra vez as frágeis mãos no aço, ela puxava os ferrolhos de seu quarto, prendia as trancas de cada janela. Se algum observador mítico pudesse se esconder por trás das cortinas, perceberia uma coisa estranha: em cada ferrolho de metal, inscrito de forma tosca e meticulosa por mãos que não estavam acostumadas a esse trabalho, havia o sinal da cruz.
Ela se ajoelhava por um momento diante do oratório de carvalho, cruzando os dedos sobre as contas ; era um mero hábito, pois há muito que deixara de rezar. O espelho no outro lado do quarto exibia o seu vago reflexo, um padrão indefinido de preto e branco; os cachos pretos dos cabelos aninhavam-se em renda fina, o preto de um vestido de luto cruzado pelos dedos das mãos alvas sobre as contas de marfim, o rosto - encovado até a brancura dos ossos, de alabastro - marcado pelas sobrancelhas pretas.
Um rosto feito para a ternura e o amor, mas agora impiedoso e cruel, os olhos irradiando ódio, a boca suave contraída para uma linha fina e pálida. Uma santa, transformada pelo tormento duplo do pesar e da vingança jurada contra um demónio das profundezas.
Levantando-se e largando as contas, a Condessa ergueu a tampa de um baú todo lavrado, tirou um chicote de couro trançado com três pontas. Em cada extremidade havia pedaços de aço afiado; o couro era enegrecido e nos pedaços de aço havia manchas opacas, de um marrom-avermelhado. Ela tocou com as pontas dos dedos no aço e retirou a mão no mesmo instante; o aço afiado lhe tirara sangue. Deu de ombros, ignorando a dor. Na pega de couro do chicote, toscamente cortado por uma faca inábil, havia também o sinal da cruz.
Não houve nenhum rangido quando ela puxou a tranca do painel secreto. Aquela porta era mantida sempre oleada, em perfeitas condições. Com uma vela levantada por uma das mãos, a Condessa desceu a escada, tão silenciosa quanto sua própria sombra, as saias varrendo teias recentes e fazendo com que pequenas aranhas corressem para as rachaduras na pedra.
O cheiro salobro de águas subterrâneas estagnadas subiu ao seu encontro. Houvera um tempo em que suas narinas delicadas tremiam a esse cheiro, mas isso pertencia ao passado distante. Ela própria mal percebia como mudara, como deixara de ser aquela jovem com medo de cada sombra, os dedos frágeis sangrando da luta com os ferrolhos enferrujados, que descera pela primeira vez aqueles degraus, em desespero e terror.
Ela parou por um instante e suspirou. "Por que estou indo?", indagou, quase em voz alta. Como um eco das profundezas húmidas, houve um sussurro e um suspiro: "Venha."
Duas voltas da escada sinuosa, e ela entrou num corredor arqueado, iluminado pelo ténue luar que se filtrava através de longos poços de ventilação, construídos há muitos séculos. Havia na passagem os remanescentes de uma época mais sombria: barras de ferro enferrujadas de uma roldana ainda sugeriam a estrapada, barras cruzadas como um divã duro, o sombrio olhar verde-bronze de uma Dama de Ferro. A Condessa mal olhou para essas coisas, que outrora a faziam estremecer; agora, pareciam amigas familiares. Até aventou por um instante uma possibilidade - podiam ser restauradas - antes de virar a última curva na passagem, parando diante de uma grade de aço que se erguia do chão ao teto em arcada. Pegando a chave grande na argola pendurada em seu cinto, ela abriu a grade e passou.
- Boa noite, Condessa. - disse o homem acorrentado à parede.
A Condessa inclinou a cabeça.
- Também lhe desejo uma boa noite, senhor. - respondeu ela, em sua voz melodiosa, cuja modulação era um hábito tão profundamente arraigado que nem mesmo a transformação de donzela em demónio podia alterar.
Ela contemplou o homem à sua frente; os braços estavam envoltos por punhos de ferro, presos à parede por correntes compridas, que passavam por uma argola ali. As pernas também se encontravam contidas em argolas de ferro nos tornozelos, unidas por uma corrente. Uma camisa branca esfarrapada e um culote de couro com manchas escuras constituíam toda a sua vestimenta; quando ele inclinou a cabeça, no entanto, os cabelos louros reflectiram o brilho da vela e a sombra instável na parede de pedra parecia ter asas largas.
A mulher, mantendo-se cautelosamente além do alcance da corrente, examinou as feições do prisioneiro, suaves, afiladas, subtilmente sensuais. Quando ele tornou a levantar a cabeça, os olhos, ardendo com algum fogo estranho, encontraram-se com os da Condessa. E ele estremeceu, como se experimentasse alguma dor terrível.
O longo olhar foi quase como o de um amante. A Condessa ficou outra vez abalada pela estranha beleza do homem acorrentado. Beleza? Uma palavra insólita, mas era mesmo beleza, a beleza de uma águia irrequieta engaiolada, batendo as asas com o intenso desespero e a agonia de sua ânsia inumana. Mas o homem baixou os olhos, primeiro, embora houvesse uma insinuação de escárnio em sua voz quando falou:
- Está linda hoje, madonna. Lamento não poder beijar sua mão.
Um espasmo de emoção indefinível pareceu convulsionar o rosto da Condessa.
- Pode beijar, se quiser. - disse ela, bruscamente.
E estendeu os dedos delgados, esfolados e sangrando. Era um gesto zombeteiro, mas ele pegou a mão estendida e baixou a cabeça para encostar os lábios. Depois, abruptamente, debateu-se como se uma súbita loucura o possuísse, as mão acorrentadas apertando o pulso da Condessa, puxando a mão dela para seus lábios, avidamente. Num gesto rápido, ela levantou o chicote com a mão livre e desferiu um único e brutal golpe. O homem encolheu-se e nesse instante a Condessa voltou a ficar longe de seu alcance, os olhos flamejando.
- Eu tinha esquecido - zombou ela. - É lua cheia e você... está com fome.
Ele permaneceu derreado nas correntes, sem se dar ao trabalho de responder à provocação. Só depois de um longo tempo é que murmurou:
- Ah, a lua cheia de novo... Não tem pesadelos, madonna?
Ela estremeceu como se afastasse a lembrança, mas disse em voz firme:
- Eu me considero afortunada se você não puder me causar mais mal do que isso... provocar-me pesadelos!
Um espasmo de repulsa contraiu os lábios da Condessa. Subitamente ela recuou, levantou outra vez o chicote e gritou, em voz retumbante:
- Angelo, Conde Fioresi, alimentou-se de sua última vítima... vampiro!
Ela soltou uma gargalhada.
- Por três meses mantive-o acorrentado, observei suas forças diminuírem e sua fome diabólica aumentar!
No mesmo instante ele sacudiu freneticamente as correntes, mas o esforço foi débil e logo desistiu, exausto, encostando-se na parede.
- Houve um tempo em que você poderia romper essas correntes - comentou a Condessa, num triunfo cruel -, se eu não tivesse esculpido a cruz em cada grilhão! Agora, acho que até mesmo correntes comuns poderiam contê-lo!
Ele deu um impulso com as mãos para se empertigar, murmurando:
- Madonna, minha vida está à sua mercê; pode encerrá-la quando quiser. Ninguém poderia culpá-la, se me matasse. Mas porque sente prazer em me atormentar?
- Precisa perguntar? - gritou ela, numa voz estridente e angustiada, o último resquício da jovem que fora apenas três meses antes. - Você, que veio a este castelo como meu pretendente, enganando meu pai ao se apresentar como neto de seu mais antigo amigo? Quantas vezes ele falou a seu respeito, dizendo que sentia, quando estava em sua presença, que o amigo da juventude retornara dos mortos? Não podia imaginar a verdade que havia em suas palavras!
- Nada disso. Se quer contar outra vez essa velha e triste história, então relate a verdade. Não passa de invenção essa alegação de que volto dos mortos. Não morremos. Vivemos muitas vezes a duração da vida dos mortais, a menos que um acidente interrompa a nossa vida... ou... ou... sej amos privados por tempo demais de nossa outra fonte de vida.
O rosto convulsionado da Condessa parecia tremer na semi-escuridão.
- Que seja assim. Seu velho amigo, meu pai, adoeceu e morreu, depois foi meu irmão Rico, de uma doença que o fez definhar. E por último Cassilda, a irmã que me criou quando fiquei órfã, abandonada em terra profana... e ainda assim tentou casar comigo.
- Madonna, chama-me de demónio...
- E pode negar? Pode afirmar que é humano, você que não tocou em comida ou bebida em todos esses meses desde que eu o trouxe para cá?
- Admito que não sou um humano da sua espécie - murmurou ele, de cabeça baixa. - Minha raça é muito mais antiga do que a sua, madonna, talvez criada antes que seu Deus concedesse o domínio à sua espécie. Como alguns animais, nós vivemos... depois que passamos da juventude... apenas pelo sangue de coisas vivas. Até completar trinta anos, eu me julgava como os outros homens. Seja como for, Condessa, eu não matei sua família. E que diferença isso faria? Seu irmão mais velho, Stefano, foi morto num duelo com o senhor de Monteno, mas apesar disso os Monteno são recebidos como hóspedes de honra aqui em Castelo di Speranza. Eu não sabia... - Ele pareceu subitamente se contorcer em dor. - Eu não sabia que a morte já se encontrava em sua família quando cheguei aqui.
- Está mentindo!
O chicote assobiou pelo ar e foi atingir o homem no rosto e peito. Ele soltou um grito rouco, e um sorriso cruel estampou-se no rosto da moça.
- Sinto alegria em saber que você pode sofrer! - exclamou ela. - Sofra como eu sofri!
A chicotada arrancara sangue; ela olhou para as gotas escarlates com um estranho sorriso de exultação.
- Tome cuidado, madonna - murmurou Angelo, Conde Fioresi. - Eu procurava o sangue dos homens para não morrer; você vem procurá-lo por prazer.
Ela levantou o chicote de novo, mas baixou-o sem desferir o golpe.
- Por que não posso querer a sua morte? Por que ainda não o matei? Por que não posso livrar a doce terra do Senhor de uma coisa como você?
- E por que tem pesadelos? - indagou ele, suavemente. - E por que houve um tempo em que me amou, madonna? Seu Deus proibiu a vingança aos fiéis. Por que não pode me entregar à vingança Dele e ao inferno... ou à Sua misericórdia?
Ela virou-se abruptamente e fugiu pelo corredor, subiu a escada em caracol. Os passos ecoavam pela noite. E Angelo, Conde Fioresi, homem, monstro, vampiro, o que quer que ele fosse, baixou o rosto para as mão e chorou.
A Condessa escancarou as janelas de seu quarto, estremecendo quando o vento nocturno soprou o fedor da masmorra de suas roupas; teria se ajoelhado se as palavras do vampiro não ardessem em seu coração; Deus proibira a vingança.
O que me tornei?, ela perguntou a si mesma, atordoada. Deitou-se na cama enorme, mas temia dormir, tão intenso era o horror dos pesadelos que a dominavam. Era algum encantamento maligno do vampiro que mantinha acorrentado, ela pensou; e, no entanto, tão profundo era o terror nas noites de lua cheia que ela não se atrevia a fechar os olhos. Permaneceu acordada, recordando como aprisionara a coisa maligna em forma de homem que agora mantinha na masmorra.
Quando ele aparecera, mostrara-se bastante insinuante. Ela pensara a princípio que era a mão de Cassilda que ele desejava, pois a irmã era mais velha e mais bonita; e, no entanto, ele tratava Cassilda apenas com cortesia e gentileza. Era essa gentileza que ela agora não podia conciliar com os horrores. Quando o pai morrera, e o irmão em seguida, ela chorara.
- Sou malfadada; você não pode me querer agora.
Ele sorrira e respondera:
- Talvez, quando se tornar minha esposa, o infortúnio se canse de segui-la.
Mas parecia que um encantamento maligno envolvia a todos eles naquela ocasião, pois houve mortes em toda a aldeia, como se fosse alguma doença misteriosa. Ao final, até mesmo Cassilda morrera, embora o capelão do Castelo, Padre Milo, escondesse o corpo de Teresa.
Angelo a procurara naquele dia no lugar em que ela chorava, perto da capela - ela podia lembrar agora que ele nunca entrava na capela -, o rosto bonito contraído no que parecia ser uma compaixão sincera. Seria de fato uma hipocrisia diabólica?
- Teresa, Teresa, não posso suportar vê-la tão sozinha!
Agora ela se perguntava: o que teria acontecido se sucumbisse às súplicas de Angelo? Os sinais da cruz que ela fizera o mantinham imobilizado; ele seria capaz de casar?
E, na verdade, ela não teria realizado Seu propósito ao prendê-lo no Sacramento?
O Padre Milo, tenso e tremulo em terror, levara-a para a capela naquela noite, fizera o sinal da cruz sobre ela. Pedira-lhe que sentasse num banco, enquanto ficava de pé à sua frente, o rosto contraído em angústia e horror. A princípio ela não prestara muita atenção às suas histórias incoerentes sobre estranhas mortes na aldeia, as marcas encontradas na garganta de seu pai e irmão, a insinuação de algum horror ainda pior envolvendo a morte de Cassilda. Só lentamente, incrédula, ela compreendeu o que o padre tentava explicar - que aquelas mortes era a obra de um vampiro!
- Mas isso não passa de superstição! - protestara ela.
O padre sacudira a cabeça.
- Não, é obra do demónio, cometida por alguém em conluio com o demónio!
O rosto do sacerdote estava muito pálido e contraído. Gradativamente, palavra por palavra, ele a convencera. Mesmo assim, Teresa ainda hesitara em acreditar nas terríveis histórias - que o conde fora visto a voar sob a forma de um morcego da janela da velha torre, que uma santa mulher da aldeia sentira o cheiro de mortalha e caixão à sua passagem; mas quando finalmente se convencera, ajoelhara-se diante do padre, a raiva e o terror dominando seu coração.
- O que se pode fazer?
O Padre Milo respondera lentamente:
- A criatura deve morrer.
- Só a morte não seria bastante! - gritara ela, em angústia, o rosto tão branco quanto o véu de luto. - Estou lembrando... antes da noite de sua morte, Cassilda sentou ao lado da minha cama e chorou; e eu... eu não sabia o motivo!
O Padre Milo pusera a mão sobre a cabeça de Teresa.
- Deve aceitar com coragem o que devo lhe dizer agora, minha filha. Cassilda morreu por suas próprias mãos, com medo de sofrer o mesmo destino.
- Então a morte apenas não será suficiente para esse monstro! Ele deve sofrer... sofrer tanto quanto eu e minha família sofremos!
- A vingança a Deus pertence - protestou o padre. - Não tenho certeza, mas já ouvi dizer que essas monstruosas criaturas do demónio... não podem realmente morrer, mas vivem em seus caixões, de onde saem para procurar o sangue de coisas vivas. Filha, devo ir a Roma e solicitar uma dispensação para lidar com essa... essa coisa, a fim de podermos nos livrar dele para sempre.
- Deve partir esta noite.
- Mas primeiro precisamos tomar algumas precauções, a fim de que ele não possa prejudicá-la ou destrui-la, como fez com sua família. Mantenha-se vigilante, mas não deixe transparecer qualquer mudança em seu comportamento, para que ele não desconfie que já sabemos o que é. E depois, quando eu voltar, poderemos destrui-lo e mandá-lo para o verdadeira morte em seu caixão, para que Deus, em sua infinita misericórdia, possa puni-lo ou perdoá-lo.
Teresa cobrira o rosto com as mão, sussurrando:
- Uma coisa saída da sepultura, e eu o amei! A misericórdia de Deus? Eu gostaria de vê-lo ardendo por toda a eternidade no inferno!
O Padre Milo fizera o sinal da cruz, balançando a cabeça tristemente.
- Aflige-me que você fale palavras tão terríveis, minha filha. Podem-se fixar limites à misericórdia de Deus?
- Para aquele demónio, claro que sim!
- Lembre-se, filha de que um santo disse uma vez ao próprio Satã: "Também posso lhe prometer a misericórdia de Deus, quando a pedir em oração." Pense bem, Teresa. O Conde Fioresi é um valente soldado e um gentil fidalgo. Arca com essa maldição do demónio há muitos anos, e para ele deve ser um verdadeiro inferno, longe da vista de Deus. Pode negar que o Deus misericordioso não seja capaz de perdoá-lo um dia?
- Se eu pensasse assim - protestara ela, com veemência -, então encontraria um meio de mantê-lo para sempre afastado desse perdão... para fazê-lo viver e sofrer tanto quanto eu e minha família!
O padre limitara-se a responder:
- Está abalada, o que não é de admirar. Que Deus perdoe suas palavras impensadas. - Ele estendera a mão para ajudá-la a levantar-se. - Preciso partir esta noite. Vamos para o seu quarto, onde providenciaremos toda a segurança possível.

("O Melhor de Marion Zimmer Bradley", Ed. Imago, 1991)