|
o
Sinal
da cruz em cada porta e janela, salpicara-as com água benta. Deixara a porta
principal por último, mas nesse instante Teresa sentira um terror súbito e
desesperado. Mesmo para se salvar da morte não podia suportar a perspectiva
de ficar encerrada por encantamentos, nem que fossem encantamentos santos.
- Esta eu lacrarei com meu crucifixo, quando estiver no quarto - dissera
ela.
Mesmo enquanto falava, o plano aflorara plenamente definido em seu coração.
- Talvez seja melhor assim - respondera o padre, pensativo, tirando um
pequeno frasco do bolso do hábito. - Dê-lhe isto no vinho. Que Deus nos
perdoe, filha, mas pelo menos isto o despachará para a primeira morte.
Cuidaremos do vampiro quando eu voltar de Roma, com a estaca e o fogo. - Ele
entregara um rosário a Teresa, com toda a reverência. - Isto foi abençoado
por um grande santo e é uma herança de minha família. Vai impedir que ele se
levante dos mortos até minha volta.
Ele estendera a mão sobre a cabeça de Teresa, numa bênção.
- E trate de esquecer esses pensamentos iníquos de vingança. Eu lhe ordeno,
sob o risco de salvação de sua alma, que reze pela alma dessa ovelha perdida
de Deus; reze pela alma de Angelo Fioresi.
Mas as palavras caíram num coração duro. Ela inclinara a cabeça, mas clamava
por dentro: "Nunca!"
Ela prepara pessoalmente a comida e a bebida para a primeira etapa da viagem
do padre; mas depois que se despediram e ele se afastara a cavalo, Teresa
assumira um sorriso cruel, comprimindo o frasco na mão e murmurando:
- Mas você não voltará e a vingança me pertencerá!
Depois, virando-se para a porta, deparara com os olhos risonhos do Conde
Angelo. Forçou-se a sorrir em retribuição e lhe estendera a mão para um
beijo.
- Por que o padre nos deixou?
- Foi solicitar permissão para o nosso casamento.
- Quer dizer que estamos a sós aqui? - Ele a abraçara, sempre sorrindo. -
Que sua viagem seja rápida!
Mas havia uma estranha contracção no rosto de Angelo, e ela se encolhera e
se esquivara de seu beijo.
- Não agora!
Teresa passara aquela noite acordada, sentindo-se como a cabra amarrada a
uma estaca para atrair o leão da montanha, a pálida claridade que entrava
pela porta aberta iluminando seu rosto, à espera de passos e da sombra, de
asas negras entrando em seu quarto. Apertara a cruz em terror, pensando: é
mesmo verdade que o vampiro se move como um gato ou um fantasma, em passos
silenciosos.
Lentamente, a sombra se inclinara, até que lábios cheios encostaram em sua
garganta; e nesse instante, simulando despertar, ela murmurara:
- Angelo?
- Amor...
- Espere um instante - balbuciara ela, com a cruz na mão. - A porta está
entreaberta.
- Não está, não - respondera ele, virando-se.
Mas Teresa correra até a porta, batera-a e empurrara o trinco, ali prendendo
o crucifixo, branca como sua camisola.
- E agora quero ver se pode sair por onde veio, Angelo, Conde Fioresi...
demónio, monstro, assassino... vampiro!
- Ela avançara em sua direcção, a lanterna levantada. Angelo se virara como
um animal na iminência da morte, correra para as janelas lacradas, a outra
porta, tudo em vão.
- Nunca acreditei muito, até agora - dissera Teresa, numa voz que tremia. -
Parecia uma mentira monstruosa, mas agora sei que é verdade!
O Conde estendera as mãos em sua direcção e ela levantara a cruz para
repeli-lo. Teresa esperava que ele avançasse com a intenção de matá-la, mas
o Conde não se mexera.
- Teresa, não é o que você pensa. Eu lhe peço... imploro que me escute,
antes que seja tarde demais.
Mas em sua ira e fúria ela não queria escutar. Pegara o chicote e o golpeara
no rosto e ombros. Ele gritara e num movimento rápido arrancara o chicote de
sua mão, jogara-o no tapete.
- Tenha cuidado, madonna - murmurara o Conde. - Sei de muitas coisas que
você ignora. E posso lhe garantir, Teresa, que neste momento corre um perigo
muito maior do que eu. Quer me ouvir... me ouvir por um momento, em nome do
pai que está morto?
- Ouvir você, seu monstro, assassino, violador de sepulturas? - gritava
Teresa, com um sorriso desolado.
- A velha história de que me levanto de um caixão? Não, madonna, ainda não
conheci a morte. Nem quero morrer por enquanto. Mas se me matar agora,
correrá um grande perigo. Por isso, peço que me escute primeiro.
Ele se adiantara, como se fosse agarrá-la e obrigá-la a escutar, mas Teresa
pegara o crucifixo no oratório e o estendera à sua frente. O Conde recuara e
ela exultara:
- Então pelo menos esta superstição é verdadeira?
Ele se encolhera, o braço levantado cobrindo o rosto.
- Verdadeira em parte, Teresa. Não posso fazer-lhe mal enquanto estiver com
esse símbolo de sua fé, esse sinal de que se encontra sob a protecção de
Deus. Mas eu lhe imploro, pela última vez...
- Poderia me enganar com palavras?
Com o crucifixo numa das mãos, ela levantara o chicote com a outra e
golpeara o corpo encolhido. O Conde recuara um passo e ela o seguira, o
chicote subindo e descendo.
- Quer dizer que você pode sangrar e sofrer? - gritara Teresa, em triunfo.
- Tanto quanto você - murmurara ele, caindo de joelhos.
Protegendo-se com a cruz, Teresa continuara a chicoteá-lo, saboreando cada
estalo seco e as linhas de sangue que pouco a pouco foram se cruzando no
corpo do Conde. Ao final, ela estava parada por cima dele, ofegante, o Conde
sem sentidos e ensanguentado. Com olhares cautelosos, temendo que o desmaio
fosse simulado, Teresa correra até a arca e pegara as pesadas correntes. Ela
mesma, com seus frágeis dedos, arranhara em cada elo o sinal da cruz, com
seu anel de diamante. Depois, chamara Rondo, o surdo-mudo, para ajudá-la a
arrastar o Conde pela longa escada e prender as correntes na parede da
masmorra. Em seguida, tonta de horror e cheia de satisfação por seu primeiro
plano de vingança, ela quase caíra desfalecida em sua cama.
- Abra todas as janelas - balbuciara ela para Rondo. - Estou desmaiando.
Ele se retirara depois e Teresa adormecera, mas seus sonhos foram terríveis.
Tivera a sensação de se levantar e percorrer o castelo como um espectro
silencioso, confusos horrores de sangue e rostos agonizantes desfilando por
sua mente. Despertara para descobrir que andara no sono e se encontrava
debruçada na janela.
Será que ele me enfeitiçou?, especulara Teresa, enquanto voltava para a
cama, à claridade crescente do dia, e tornava a dormir.
Acordara ao crepúsculo e descera para a cripta, tremendo; mas seu medo fora
atenuado ao verificar que seu inimigo continuava acorrentado. E assim ela
adquirira o costume de todos os dias, ao crepúsculo, descer para a cripta.
À medida que os dias passavam, isso fora absorvendo-a mais e mais. Começara
a viver só para os momentos em que se postava diante do homem acorrentado,
fitava seus olhos ardentes, como um falcão engaiolado; e quando as súplicas
do Conde tornavam-se muito perturbadoras, silenciava-as com o chicote cruel,
no qual também inscrevera a cruz, a fim de que ele não pudesse arrebatá-lo.
Os pesadelos ainda a atormentavam. O encantamento parecia dominar todo o
castelo, pois alguns dos criados fugiram, enquanto outros a procuravam com
histórias de mortes na aldeia; mas Teresa os ignorava, como se fossem apenas
moscas incomodas. O responsável pelas mortes está acorrentado lá em baixo,
ela pensava; não podem agora atribuir todas as mortes a visitas
sobrenaturais! E ela sentia-se impaciente e cruel com os servos, ansiando
apenas pelo momento em que desceria para tripudiar sobre o prisioneiro,
depois voltaria para dormir o sono da exaustão.
Os habitantes da aldeia se inquietavam porque o Padre Milo não voltava e lhe
enviaram uma delegação de velhas para suplicar que providenciasse outro
padre.
- Estão querendo me dar ordens? - gritara Teresa, andando de um lado para o
outro.
Depois que a delegação se retirara, ela se contemplara no espelho,
horrorizada; vão pensar que estou louca!
Assim se passaram três luas, sem que a situação se alterasse. E veio uma
noite em que Angelo mal se mexeu quando ela lhe falou, permanecendo
aparentemente sem sentidos sobre a palha. Só depois de um longo tempo é que
ele abriu os olhos e murmurou:
- Exulte por meu desespero, madonna. O fim se aproxima. Mas vejo-a
mergulhando mais e mais para o perigo. Por seu próprio bem, eu lhe suplico
que acabe logo com isto.
- Ah, o demónio estava doente, o demónio quer se passar por monge! Devo
instalá-lo na capela do Padre Milo?
- Não sou um monstro de crueldade, embora não possa culpá-la por me julgar
assim. Mas acontece que continuo acorrentado aqui, Teresa. Por que então as
pessoas na aldeia continuam a morrer?
Ela deu de ombros, indiferente.
- As pessoas assim estão sempre morrendo. Sou responsável por elas, por suas
almas ou corpos?
A criatura acorrentada lançou-lhe um estranho olhar calculista.
- Houve um tempo em que você não falaria assim. Houve um tempo em que você
era generosa e devota.
- E se virei um demónio do inferno, não foi você quem me fez assim?
Ele quase riu.
- Claro que não, pois você soube se defender de mim... mas não fez de si
mesma um demónio?
- Cale-se! - berrou Teresa. - Cale-se!
Ela chicoteou-o no rosto. O Conde caiu, com um grito terrível, o sangue
esguichando dos lábios partidos.
Teresa largou o chicote e ajoelhou-se a seu lado. "Ele falou a verdade",
pensou ela. "O fim está próximo. Que ele fique aqui por toda a eternidade."
O crucifixo que ela ainda usava balançava para a frente e para trás,
projectando uma estranha sombra no prisioneiro. Um súbito pensamento ocorreu
a Teresa.
"Já tive minha vingança. Ainda não é tarde demais para deixar de lado meu
ódio e fazer o que o Padre Milo recomendou: pôr um fim ao sofrimento dele e
entregá-lo à misericórdia de Deus. Só preciso golpeá-lo no coração. Ele
disse que não pode se levantar dos mortos. Ainda assim, posso dizer por ele
a oração dos mortos, fazer penitência. E depois, eu também me entregarei à
misericórdia de Deus. E Angelo... Angelo voltará ao pó onde há muito deveria
estar, sua alma se apresentará a Deus para ser julgada pelos crimes que
cometeu."
Ela experimentava a estranha sensação de que a masmorra se encontrava
apinhada de espíritos observando; era como se ela estivesse em alguma
encruzilhada, esperando que uma vítima fosse enforcada ou perdoada... e a
vítima era ela própria. Poderia remover o ódio e procurar misericórdia ou...
Os lábios de Teresa contraíram-se num terrível sorriso de crueldade. Nunca,
jamais poderia renunciar ao prazer que encontrara naquilo! Não, que ele
sofresse, que ele sofresse para sempre! Quem precisava do perdão de Deus?
Havia muitos além do domínio de Deus!
- Então é tarde demais - murmurou o Conde.
Teresa recuou, mas ele se sentou, com um movimento determinado, segurou-a
rudemente, partiu as correntes de suas mãos, depois dos tornozelos.
Ela gritou, encolhendo-se, fazendo um esforço para se levantar. Tropeçou no
chicote no chão e caiu para as pedras. Angelo, ficando de pé, aproximou-se.
- Eu a teria salvado - murmurou ele, depois de um longo silêncio. - Pense em
seus pesadelos, Teresa. Não começaram antes mesmo de minha chegada ao
Castelo di Speranza? Há muitos anos uma mulher da família Fioresi casou no
clã Speranza; e eu sabia que pelo menos uma pessoa de sua família teria... o
sangue completo de minha gente. Se fosse Rico, eu o tomaria como meu
escudeiro, para guardá-lo e protegê-lo. Eu... eu poderia salvá-la, Teresa,
guardando-a como uma coisa mais preciosa que minha própria vida. Velaria por
você, tudo faria para mantê-la sã e salva, haveria de mantê-la na inocência
do que você era, embora eu tivesse chegado tarde demais para salvar seu
pai...
Ela gritou horrorizada quando seu cérebro registrou o significado daquelas
palavras, mas Angelo continuou, implacável:
- Quando Rico morreu, não pude mais suportar. Em desespero, procurando
apenas protegê-la, revelei a verdade a Cassilda. Eu... não podia imaginar
que ela se mataria de tanto horror. Pensei apenas que juntos poderíamos
proteger você, até que eu pudesse conduzi-la com segurança ao conhecimento
do que era. Você poderia até aceitar... não como uma coisa de terror, mas
apenas como outra espécie de vida; uma natureza diferente, vivendo
inofensivamente por suas próprias leis. Não, não fui eu quem matou sua
família. Já vivi até agora duzentos anos. Desde o primeiro ano em que soube
o que eu era, nenhum homem jamais morreu por meu contacto. Sei como...
extrair a vida de que preciso... sem prejudicar as pessoas mais que
ocorreria numa sangria, com sanguessuga. Não sou mal nem cruel, madonna,
apenas vivo como devo.
Ele inclinou-se para Teresa. Ela se encolheu, enlouquecida pelo medo,
estendendo o crucifixo na direção dele.
- Não, madonna - disse ele, gentilmente, segurando-a pelos ombros. - Isso
não vai protegê-la agora.
Uma pausa e o Conde continuou, quase com tristeza:
- Fui criado para temê-lo; foi incutido em meu coração e cérebro que nunca
poderia tocar em alguém que se declarasse sinceramente sob a misericórdia de
Deus. Enquanto você ainda ignorava o que era, Teresa, enquanto ainda era
sinceramente devota em sua fé, eu não poderia passar pelo símbolo de sua
crença sincera. E a cruz que você esculpiu nas correntes, pensando em
proteger os outros do meu mal, era uma barreira para mim. Mas agora você se
tornou má. Não pode mais invocar a protecção de Deus. Para você, a cruz é
agora apenas um símbolo vazio... e não pode mais me conter.
Ele arrancou o crucifixo da garganta de Teresa, contemplou-o com um olhar
triste e largou-o de lado.
- Talvez eu nunca tenha tido uma alma, mas você, Teresa, jogou a sua fora. É
um monstro... terrível demais para viver até entre meu povo.
A última coisa que a Condessa viu foi o rosto de Angelo, contraído pela
angústia, baixando numa mancha escarlate, na qual ela mergulhou como a
morte.
Horas depois os aldeões se reuniram para observar o Castelo di Speranza
desabar em meio às chamas. Ninguém percebeu o homem silencioso que se
embrenhava a cavalo pela floresta, encurvado como se em profunda agonia,
encolhido na sela em dor e desespero. Ele não olhou para trás uma única vez,
ignorando as chamas, mantendo-se inclinado sobre o pescoço do cavalo,
enquanto murmurava sem parar:
- Teresa... Teresa... Teresa...
("O Melhor de Marion Zimmer Bradley", Ed. Imago, 1991) |
|