O HOMEM QUE CHOVIA

(Menção Honrosa 3° Concurso de Contos Pref. S. Bernardo do Campo - 1982)

 

- "Seu Antonico não pode atender não senhor. Ele hoje tá chovendo."

- "A senhora tem previsão de quando vai melhorar?"

- "Tenho não senhor. Tá chovendo desde cedo."

O visitante virou a cara pro sol, suspirou e foi andando.

 

Ninguém sabe contar como seu Antonico apareceu ali, naquela cidadezinha perdida nos confins sabe-se lá de onde. Nascido nela não foi. Mas era de lá e assistiu a infância de muita gente.

Na casinha florida e tímida, convivia sua estranheza com a casmurrice de Dona Aurora, que ninguém sabia o que era dele. Mulher, imã ou prima, tanto fazia. Moravam juntos e era só. Não tinham idade, procedência e profissão.

Ocasionalmente ele chovia e ninguém estranhava. Respeitavam as chuvas do seu Antonico. Houve uma tentativa de se usar o homem como serviço meteorológico. Não deu certo, nem sempre coincidia. Podia acontecer de seu Antonico chover num dia ensolarado ou ventar em plena calmaria. É, não era só chuva. Ele ventava, fazia sol, nublava, tudo. Mas era lá com ele, não adiantava tentar seguir.

Protegidos pela simplicidade do lugar, os dois iam vivendo. Muito procurado por toda aquela gente, seu Antonico era um sábio. Conhecia de saber contar coisas e detalhes impressionantes. Quando ele estava fazendo tempo bom, puxava um banquinho pra calçada, a cara toda festiva, o corpo preguiçoso, coçando de vez em quando as costas. Podia estar chovendo horrores - se ele não estava, banquinho na calçada. Se o sol coincidia pros dois, homem e dia, era uma festa. Juntava uma roda de gente em volta. Criança de olho guloso, moço de olho esperando, velho de olho saudoso. Cada um tinha sua parte. E ela ia distribuindo, irradiando sol, cada coisa pra cada um. Tinha lembranças pras saudades, certezas pras esperanças, fantasias pras infâncias. Tinha dedo pros passarinhos pousarem e dois pés pra um cachorro se meter no meio e sentar feliz.

Bonito era quando ele estava de lua cheia! Varava então a madrugada e a voz suave de cantador ia entrando pelas casas, embalando, ninando cada cama, cada balançar de berço, cada abraço no escuro. Mas era triste, tão triste de ver quando ele chovia! Recolhido no quarto, só saía quando a chuva passava. Vez ou outra Dona Aurora entrava pra ver se precisava de qualquer coisa. Olhos, cabelos, molhado todo, chorava e chovia de cortar o coração. Ficava cinza, todo agüadinho e não recebia ninguém. Diz-se que nunca ninguém viu seu Antonico chovendo, mas não havia quem duvidasse disso. Era comum, no dia seguinte, ele amanhecer espirrando, cheio de arrepio. Dona Aurora corria a preparar água quente pros pés, cercando de proteção cada fungada. Logo ele se restabelecia e começava a ensolarar.

Menos grave era quando nublava. Ficava na sala e deixava gente entrar, mas a conversa era pouca. Percebia-se uma leve mudança na cor, que ficava esbranquiçada, e nos olhos, meio opacos. Mas era só e passava logo.

Num dia de muito calor e poeira, aconteceu uma desgraça na vida do seu Antonico e, portanto, na de toda a cidade. Pela manhã já era notório que alguma coisa não ia bem. Não havia nada que denunciasse isso, mas percebia-se. As pessoas foram se juntando aos poucos, sérias e caladas, trocando olhares. Todo mundo no portão da casinha, ninguém querendo chamar. Nem precisou. Dona Aurora abriu a porta em três rangidos e olhou comprido o povo. Todo mundo viu que ela estava esquisita e chorosa. A voz saiu fininha - "Vão embora, gente. Seu Antonico teve uma tempestade." Ninguém se mexeu. Um garotinho perguntou "Com raio?" Dona Aurora balançou mole a cabeça "... e com trovoada." Foram se dispersando aos pouquinhos, no mesmo silêncio com que chegaram. Não sabiam lidar com aquilo. Seu Antonico nunca havia tido uma tempestade antes.

Durante uma semana a cidade adoeceu. Havia um ar de apreensão em todas as caras. Falava-se baixo e andava-se devagar. Dona Aurora não aparecia nem na janela. Dormia-se pouco e muitos passavam o tempo indo e vindo pela calçada dele. Uma semana depois, sete dias certinhos, ouviu-se a voz gostosa do seu Antonico, pleno de lua cheia. Ninguém saiu da cama pra conferir. Mas naquela noite o amor e o sono de muita gente foi melhor.

E tudo ia indo assim quando a cidade recebeu uma permanência, que visita não era. Ela tinha vindo pra ficar. E como ali ninguém se preocupava com essas coisas, não se sabe de onde, nem pra que veio. Alugou uma casinha defronte e plantou uma roseira. Foi aí que se descobriu a idade de seu Antonico: era moço. E cada dia que passava foi ficando mais.

Os dois se deram. As mãos, as flores, as risadinhas. Foram se dando, frescos e alegres como duas crianças. Até Dona Aurora remoçou e tomou ares de mãe feliz. E foi um tempo com nunca se viu igual. Noites e noites de lua cheia, rimada agora a duas vozes. Dias e dias de sol e azul completos. Nunca mais seu Antonico choveu. Ninguém lembrava da tempestade. A cidade era uma festa, primavera explodindo em cada coração. A calçada do seu Antonico vivia cheia. As pessoas se espalhavam pelo chão, namorando o amor daqueles dois.

Então houve um dia, triste dia, amanhecido esquisito. Que nem a outra vez, pressentiu-se uma desgraça. De novo o povo devagar pela calçada, de novo Dona Aurora rangendo a porta de voz fininha: "Seu Antonio tá chovendo." Dessa vez ninguém entendeu ou silenciou. O falatório foi alto e aflito. Todo mundo perguntava e respondia, até que se percebeu, na ruazinha de terra que separava as duas casas, um rastro de namorada. Só então foram calando e entendendo. A casinha defronte estava aberta e vazia.

Ninguém sabe quantos dias seu Antonico choveu. A cidade chovia junto. E uma noite a última chuva lavou tudo. Já começando a clarear o dia não se ouvia mais uma gota caindo. Foi amanhecendo devagar, com galo cantando e tudo. Terra úmida, cheirando gostoso, árvores escorrendo e uma estranha figura solitária sentada na calçada, olhando pro alto. E foram chegando todos, cercando Dona Aurora e sua tristeza: " Cadê ele, Dona Aurora?" Ela se mexeu um pouquinho, tentou falar alguma coisa, desistiu. Mas não tirou os olhos do céu. E todas as cabeças foram se voltando e olhando na mesma direção. E a cidadezinha em peso viu, riscado de ponta a ponta, carregadinho em cada cor, o arco-íris mais bonito que jamais tinham visto antes, nunca não.

 

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