O Gigante da Colina
Página sobre o Club de Regatas Vasco da Gama
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História

A soma de todas as cores

 

A hora do negro num time do povo

Fonte: Revista Placar - As Maiores Torcidas do Brasil - Ano de 1979

 

Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac, o príncipe dos poetas, um dos precursores da crônica esportiva, não conseguia conter o entusiasmo diante dos remadores, cujo corpo exaltava com todas as letras: "Foram músculos iguais a estes que ganharam a batalha de Salamina".

Estamos na virada do século, e o Rio de Janeiro vive em lua-de-mel com o remo. Nada mais natural, portanto, que portugueses, ou seus filhos, com firmada tradição de navegadores, se botassem ao mar.

Henrique M. Ferreira Monteiro, Luís Antônio Rodrigues, José Alexandre D'Avellar Rodrigues e Manuel Teixeira de Souza Júnior conseguem reunir 62 interessados na "Sociedade Dramática Particular Filhos de Talma", à rua da Saúde, 293, sobrado. Na noite de 21 de agosto de 1898, nasce o Club de Regatas Vasco da Gama - a mais democrática agremiação brasileira.

A escolha do nome não foi motivo de qualquer especulação. No ano da fundação comemorava-se o IV Centenário da Descoberta do Caminho Marítimo para as Índias.

Antes mesmo da fundação, a idéia ganhara importantes adesões, como a da família Couto, cujo chefe era dono de casas de negócios na Saúde e em Botafogo. Por isso mesmo, Francisco Gonçalves do Couto Júnior foi o primeiro presidente do Vasco.

Com apenas dois meses de vida, o clube já mostrava sua força. Tinha 250 sócios, alugara uma sede na rua da Saúde e mantinha uma escola de remo. Em novembro, filiava-se à União Fluminense de Regatas, registrando a canoa Zoca e as baleeiras Vaidosa e Volúvel. Seu barracão ficava na Ilha das Moças, afinal unida ao continente pelo aterro conseqüente do desmonte do morro do Senado.

Por causa do excesso de lama na Ilha das Moças, aconteceu a primeira cisão no clube. Todos concordavam que na ilha não dava para continuar. Uns queriam a mudança para o Passeio Público, onde já estava sediado o Natação e Regatas; outros, para a Praia de Botafogo - os primeiros diziam que esta ficava muito longe. Em meio à polêmica, Francisco Couto renunciou e fundou o Clube de Regatas Guanabara, em Botafogo, levando boa parte dos associados do Vasco.

O século XX começou aparentemente bem para o Vasco, que viu aumentar sua frotilha, inclusive com a aquisição da histórica "Vascaína", baleeira a 12 remos, que dois anos depois naufragaria, com um saldo de três mortes e o mesmo número de heróis. Os pescadores José Joaquim de Aguiar Moreno, Antônio Silveira e o menino José Martins de Barros salvaram nove dos doze tripulantes da "Vascaína". Por isso, foram condecorados por um representante do rei de Portugal, D. Carlos, e receberam títulos de sócios honorários do clube.

"O Basco é uma putência" - o carioca reagia de forma provocativa ao poderio do Vasco. Em 1905, o clube mantém em atividade mais de 100 remadores; o iole a oito "Procelária" ganha o primeiro Campeonato de Remo do Rio de Janeiro, repetindo o feito no ano seguinte.

 

 

Mais que o remo, o futebol começa a interessar o povo. Em 1913, o Botafogo inaugura o campo de General Severiano com a partida contra um combinado português, formado por jogadores do Clube Internacional, Sporting Clube de Lisboa e Sport Clube Império. O entusiasmo da colônia portuguesa ultrapassa as expectativas: surgem o Lusitânia, o Luso e o Centro Português de Desportos, apenas para atletas portugueses.

Pressionados pelos sócios, que desejavam um time, os dirigentes do Vasco convocam uma assembléia para discutir a fusão com o Lusitânia. Os debates são acalorados, o pessoal do remo é contra. A primeira reunião é dia 24 de novembro de 1915. Dois dias depois está feita a fusão.

O Vasco treinava na Praia do Russel; os jogadores mudavam de roupa na rua Santa Luzia, e iam a pé até o campo, lado a lado dos torcedores. Só no ano seguinte o clube se filia à Liga Metropolitana de Futebol e paga a jóia com o coletado em uma subscrição entre os sócios.

Depois de alguns treinos com o time de uma casa comercial, o Vasco joga oficialmente pela primeira vez, a 3 de maio de 1916, contra o Paladino F. C. O resultado não podia ser pior: 10x1 para o Paladino. Além da grossa goleada, o Vasco pagou o aluguel do campo do Botafogo: 25 mil réis.

Em 1917, o Vasco já estava na segunda divisão. Sem que ninguém tome conhecimento, os portugueses do Vasco estão escrevendo a página mais épica do futebol brasileiro, aquela que termina com a discriminação racial. Ninguém liga para um time de caixeiros e de negros. Em 1920, o Vasco consegue seu primeiro título, campeão de segundo time da segunda divisão.

O Vasco só passa a preocupar em 1922. Para começo de conversa, aluga um campo de razoáveis instalações, na rua Morais e Silva. Não bastasse isso, contrata o técnico uruguaio Ramón Platero, que deixara o Flamengo por não poder trabalhar como gostava. No Vasco encontra apoio para implantar seus métodos: muita comida, muita ginástica e até concentração.

O dia 22 de maio entra para a história do Vasco. Faltam 7 minutos para o jogo terminar, e o Mangueira vence por 1x0. É quando Arthur escora de cabeça um cruzamento do ponta Sebastião dos Santos, e empata. Dois minutos depois, Claudionor, outra vez numa cabeçada, decreta a vitória. Portugueses e seus filhos descobrem mais que um clube. Tropeçam numa paixão: o Vasco da Gama. O time, que começara mal, bate sucessivamente Vila Isabel, Americano, Mangueira, Carioca e Palmeiras. É o campeão e ascende à primeira divisão.

Vai começar o Campeonato Carioca de 1923. O Vasco, julgam os adversários, não passará de mero figurante. O primeiro jogo, contra o Andaraí, parece confirmar a idéia:  1x1. Mas o Vasco ganha os pontos, porque o adversário tinha um jogador indevidamente inscrito.

A segunda partida é contra o Botafogo. O time de caixeiros e negros quebra a primeira castanha, vence por 3x1. O Rio se escandaliza. Como os bem comportados rapazes do Botafogo se deixaram vencer? Ao mesmo tempo, a cidade cultiva uma ilusão: o Vasco não passa de fogo-de-palha. Em meio ao despeito geral, uma acusação, que em nada desmerecia o talento dos negros e caixeiros do Vasco, de que eles eram profissionais disfarçados, ganhavam salários de várias firmas só para jogar futebol. A acusação partida, naturalmente, dos filhos de famílias ricas que jogavam no Botafogo, Fluminense e Flamengo.

Agora é a vez do Flamengo sentir o peso da realidade: 3x1. Que time pode com a máquina montada por Ramón Platero? Todos comentam a linha-média formada por Arthur, Bolão e Nicolino. Esbanjam elogios para o ataque arrasador formado por Mingote, Paschoal, Torteroli, Ceci e Negrito.

Vem o jogo com o América. Outra vitória do Vasco, gol do center-forward Arlindo Pacheco, estreante no time. O derrotado seguinte é o fidalgo Fluminense. De novo, gol de Arlindo.

A torcida do Vasco enche os campos. O Bangu pede emprestado o campo do Fluminense, que fica superlotado para ver outra vitória dos caixeiros e negros por 3x2.

Ninguém duvida que o Vasco será o campeão carioca. Mas não pode ganhar o título sem conhecer o dissabor de uma derrota - como aturar os portugueses? O Rio elege o Flamengo como o vingador da honra das camadas mais elevadas.

O jogo será realizado no estádio do Fluminense, que oferece todas as facilidades aos torcedores do Flamengo. Assim, em locais estratégicos, são colocados remadores, munidos com pás e braços de remo, mal e mal enrolados em jornal. A bola começa a correr, e o pau a cantar na cabeça de qualquer torcedor vascaíno que ouse incentivar seu time. O Vasco perde por 3x2. Perde de pé, e ainda reclama um gol legítimo, invalidado por Carlito Rocha, juiz do Botafogo. No dia seguinte, os jornais descobrem uma classificação para o jogo: é o Clássico das Multidões.

A torcida rubro-negra comemora a vitória como se tivesse conquistado o campeonato. No fundo, tudo não passava de histérica demonstração de racismo disfarçada em pândega. A poder de cabeças-de-negros (bombas de alto poder explosivo), os rubro-negros fecham o restaurante Capela e a Cervejaria Vitória, dois redutos vascaínos; enfeitam a estátua de Pedro Álvares Cabral com réstias de cebola; plantam um enorme tamanco, com mais de 2 metros, na frente da sede do Vasco, na rua Santa Luzia.

O Vasco só cresce com as provocações, sempre respondidas em campo. Derrota sucessivamente América, Fluminense e São Cristóvão, e ganha o título por antecipação. Uma semana depois, devidamente enfaixado, o time dá uma colher-de-chá ao Bangu: 2x2.

Para devolver tudo o que sofrera, uma delegação do Vasco compra a maior e mais cara corbelha existente para ofertá-la ao Flamengo, levando-a à sua sede, na Praia do Russel. Inicialmente, os remadores atiram-lhes pedras; acabadas estas, sobem ao telhado e passam a atirar telhas sobre os vascaínos. A corbelha não é entregue.

Na bola não era possível ganhar do Vasco - o clube que abrira efetivamente o futebol a negros e mulatos, aos pobres. Por isso, Fluminense, Flamengo, Botafogo e América, clubes de brancos, fundam a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos - AMEA - sem convidar o Vasco, que não se fez de rogado: pediu filiação. A solução foi outro golpe também sujo: a criação de uma comissão de sindicância, para investigar a vida de cada jogador. A desculpa para o racismo não-declarado era manter a pureza do amadorismo. Os racistas decidiram ainda que os analfabetos não poderiam integrar os times.

O  Vasco tinha alguns jogadores que rabiscavam o nome. Conta o jornalista Mário Filho, em seu livro O Negro no Futebol Brasileiro, que "alguns jogadores suavam mais para assinar o nome do que jogando uma partida inteira". Até um professor de caligrafia - Custódio Moura - o Vasco arranjou. Tudo em vão.

O Vasco foi campeão em 1924, na Liga abandonada pelos clubes elitistas. A cada infâmia de que era vítima, o Vasco reagia com um gesto de grandeza exemplar. Foi assim que seus dirigentes resolveram mostrar que o clube, e não apenas o time de futebol, era tão grande quanto qualquer outro, partindo para a construção do Estádio de São Januário.

Inaugurado a 21 de abril de 1927, num jogo contra o Santos - que venceu por 5 a 2 - São Januário se manteve como o maior estádio do Brasil até 1941, quando foi inaugurado o Pacaembu. Perto do estádio do Vasco, os de Botafogo, Fluminense e Flamengo não passavam de simples campinhos, com péssimas acomodações. O Vasco era uma força que não podia ser ignorada, e os quatro grandes tiveram de voltar atrás.

Em 1929, o Vasco conquista o título de campeão de terra e mar. Deu um vareio nas regatas e decidiu o campeonato numa melhor-de-três com o América, a primeira do futebol carioca. No primeiro jogo, 1 a 1. No segundo, 0 a 0. Na negra, o Vasco não fez por menos: 5 a 0. Era um timaço: Jaguaré, Brilhante e Itália; Tinoco, Fausto e Mola; Paschoal, 84, Russinho, Mário Matos e Santana.

O Vasco voltaria a ser campeão em 1934, na Liga Carioca de Futebol, à qual se filiaram os clubes que aderiram ao profissionalismo. Não por acaso, vestiam a sua camisa três negros mitológicos: Domingos da Guia, o Divino Mestre; Fausto, a Maravilha Negra; e Leônidas, o Diamante Negro.

O clube só voltaria a dominar o futebol carioca a partir da segunda metade da década de 40, com a formação do Expresso da Vitória, campeão invicto de 45, 47 e 49. O Expresso, em 1948, conquistaria no Chile o título de Campeão dos Campeões Sul-Americanos.

 

 

Base da Seleção que disputou a Copa de 1950, o Vasco seria bi-campeão carioca no mesmo ano. Repetiria a dose em 1952 e 1953, ano em que ganhou também o Torneio Internacional do Chile. Campeão em 1956, o Vasco ganharia a Taça Tereza Herrera, na Espanha, em 1957. No ano seguinte conquistou um título inédito, o de supersupercampeão carioca.

 

 

Palco de lutas políticas, o Vasco mergulhou num período apagado, incompatível com a sua grandeza. Dele só ressurgiria em 1970, quando foi novamente campeão carioca. Ganharia, em 1974, o campeonato brasileiro e, em 1977, outro campeonato carioca.

 

 

Dono de incontáveis títulos, guardando em sua sala de glórias riquíssimas e artísticas taças, a maior grandeza do Vasco, entretanto, pertence a todos os brasileiros. Foi pela coragem dos portugueses e de seus filhos que todos viram que negros, mulatos e brancos pobres eram capazes de jogar futebol tão bem, e quase sempre melhor, quanto os moços saídos das classes sociais mais favorecidas. Se o futebol brasileiro é arte, foi o Club de Regatas Vasco da Gama o primeiro a dar valor aos que eram artistas. Esta glória, que honra e enriquece, é do Vasco - e de nenhum outro clube.

 

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O Gigante da Colina © Carlos André